terça-feira, 24 de maio de 2016

Primeira Guerra Mundial: 100 anos do conflito que mudou o mundo

Nas trincheiras da Primeira Guerra, a velha civilização europeia encontrou seu fim e os alicerces do mundo moderno foram tragicamente plantados
TEXTO José Francisco Botelho | MAPA Cássio Bittencourt | 25/08/2014 19h33
Em um buraco no chão – ali vivia um homem. Não era um buraco limpo ou confortável. Na verdade, era um buraco cheio de lama, com centenas de pessoas amontoadas e um cheiro denso de suor e dejetos. Quando a vida se tornava demasiado terrível, o homem tentava distrair a mente escrevendo um poema – ou rezando. Era um católico praticante, de 24 anos, segundo-tenente no Exército Britânico – e o buraco, onde ele viveu entre junho e outubro de 1916, era uma trincheira no norte da França, nas vizinhanças do Rio Somme. Ingleses, franceses e alemães travavam uma das batalhas mais sangrentas da história humana. No meio da lama e do sangue, o oficial tentava entender como tudo aquilo se encaixava em sua fé cristã. Certo dia, em um intervalo nos combates, ele se sentou sob uma árvore, no bosque de Bus-lès-Artois. Uma chuva fina caía, mas ele não se importou. Ficou ali, sem dormir e sem comer, por dois dias. E então redigiu uma longa carta a um de seus amigos de infância – que também estava servindo em uma trincheira, a quilômetros dali. “Minha principal impressão”, escreveu, “é que alguma coisa se quebrou para sempre”.
O oficial insone sob aquela árvore no bosque francês era John Ronald Reuel Tolkien – e suas palavras ecoaram o sentimento que dominava toda a Europa. Começando com um atentado terrorista em Sarajevo em 1914, a Primeira Guerra Mundial havia lançado as maiores potências da época em um duelo inútil, prolongado e sangrento. Os principais combatentes eram a Inglaterra, a França, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e o Império Turco-Otomano – mas a conflagração envolveu quase todos os países da Europa e se espalhou por todos os continentes do globo. Escavadas da França ao Oriente Médio, as trincheiras da Grande Guerra foram o símbolo de um conflito em que a maior vítima foi o otimismo da civilização europeia. Na obra A Crise do Espírito, de 1919, o francês Paul Valéry resumiu a melancólica lição aprendida: “Agora, nossa civilização sabe que é mortal”. O velho mundo que a geração de Tolkien conhecera estava realmente quebrado para sempre. E sobre os lamacentos alicerces das trincheiras, levantou-se o turbulento mundo em que vivemos.

Inferno na terra
Além de ser, de fato, a primeira guerra a envolver todos os continentes, o conflito de 1914 a 1918 viu a estreia maciça das tecnologias da morte que marcariam os tempos modernos. Aviões e submarinos, embora desenvolvidos antes de 1914, foram usados pela primeira vez em larga escala na Grande Guerra – que também serviu de estopim para a invenção de outras máquinas, como o tanque. Por outro lado, aquela foi também uma guerra do século 19: generais de ambos os lados subestimaram o avanço tecnológico do inimigo e pagaram um alto preço por isso. “A doutrina militar dos ingleses e franceses era baseada no ímpeto e na rapidez dos soldados de infantaria – mas a artilharia pesada dos alemães colocou um fim ao brio e à galhardia dos antigos combates a pé”, diz o jornalista e historiador inglês Robin Cook, autor de mais de 30 livros sobre história militar. Já os generais alemães, cujo exército em terra era o mais moderno do mundo, subestimaram a Marinha inglesa: os britânicos começaram em 1914 um bloqueio naval à Alemanha, cortando suas rotas de comércio pelo mar e levando à morte mais de 300 mil alemães por desnutrição. Com falta de homens e mantimentos para sustentar seus planos grandiosos, o país também naufragou na lama.
Foram os alemães, aliás, que cavaram as primeiras trincheiras, em setembro de 1914. Três meses antes, haviam invadido a Bélgica e a França, chegando a 70 km de Paris, mas logo tiveram de recuar até as margens do Rio Aisne. Ali fincaram pé: recuar mais seria uma desonra. Sem conseguir avançar sob a forte artilharia inimiga, ingleses e franceses confiscaram pás, picaretas e enxadas nas fazendas das vizinhanças – e também começaram a cavar seus próprios buracos.
A GUERRA DAS ILUSÕES
Em 24 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando – herdeiro do Império Austro-Húngaro – fazia uma visita a Sarajevo, na atual Bósnia. O território, na época, era dominado pelos austríacos, mas diversasorganizações clandestinas buscavam a independência. Era o caso da Mão Negra – grupo formado por bósnios de etnia sérvia, que sonhavam com a criação de uma Grande Iugoslávia, unindo todos os eslavos do leste europeu. Foi um membro da Mão Negra, o sérvio étnico Gravilo Princip, quem puxou o gatilho da Primeira Guerra: os tiros de sua pistola derrubaram o arquiduque austríaco e sua esposa, quando passavam pelas ruas de Sarajevo no carro oficial.
Em seguida, o Império Austro- Húngaro declarou guerra à Sérvia, apoiadora da Mão Negra – mas o que deveria ser uma guerra punitiva e localizada se alastrou por toda a Europa e pelo resto do mundo. A monarquia alemã, aliada dos austríacos, logo entrou na guerra. E arrastou consigo o Império Turco- Otomano, aliado de Berlim. A Sérvia, por sua vez, era aliada da Rússia, que era aliada da França, que era aliada da Inglaterra... Como alpinistas cegos, amarrados uns aos outros, as grandes potências foram desabando no precipício – e sua queda envolveu também os protetorados e colônias europeias, que, na época, ocupavam 80% do globo.
Quase todos os envolvidos saíram perdendo. A Alemanha planejava usar a conflagração para construir um império – mas o passo foi maior que suas pernas. Os impérios russo, austro-húngaro e turco-otomano pretendiam proteger suas fronteiras e aumentar seu poder, mas acabaram destroçados ao fim do conflito. Já a França e a Inglaterra acreditavam, no início da guerra, que suas antigas táticas de infantaria seriam suficientes para derrotar o maquinário alemão, mas acabaram perdendo mais de 2 milhões de soldados – na maioria, jovens. Não por acaso, o historiador alemão Fritz Fischer chamou a Primeira Guerra de “a guerra das ilusões”.

As valas improvisadas logo se transformaram em sistemas complexos. Os soldados tinham de dormir no chão, enrolados em suas capas – e eram despertados constantemente pela passagem de ratos, sapos e insetos. Quando o solo estava molhado, era impossível se deitar – então os soldados tinham de dormir sentados, encostados uns nos outros. No lado alemão, as trincheiras eram mais organizadas. Tábuas de madeira sustentavam a terraplanagem, e em alguns lugares havia até iluminação, ventilação e abrigos de concreto. Mas o efeito desmoralizante era o mesmo. Lohar Dietz, que serviu no norte da França, descreveu a exaustão que tomara conta dos soldados rasos alemães em 1914: “Seria muito melhor atacar da forma mais louca e temerária do que ficar o dia inteiro aqui, escutando o barulho das granadas e imaginando se serei o próximo a ir pelos ares”.

Moléstias do lodo
Balas de franco-atiradores e projéteis de artilharia não eram os únicos perigos. Nas trincheiras da Bélgica e da França, o solo pantanoso ficava alagado no inverno. Mergulhados no lodo, os soldados desenvolviam uma doença que ficou conhecida como “pé de trincheira”: a umidade deixava os pés azulados ou vermelhos, cheios de bolhas e úlceras, que muitas vezes acabavam em gangrena e amputação. A supremacia desse elemento úmido, escuro e pegajoso é uma constante nos relatos de soldados. Em uma carta de 14 de dezembro de 1914, o capitão inglês Noel Chavasse descreveu um grupo de soldados escoceses após três dias nas trincheiras em Kemmel, no norte da França: “Eles ficaram 72 horas com água e lama até o joelho, e é horrível vê-los saindo de lá de dentro. Já não parecem jovens, nem parecem homens. Jamais vi algo assim. Parecem criaturas bestiais”.

Havia uma praga adicional: os piolhos. Amontoados e com pouca higiene, os soldados não tinham como evitar a infestação. E os problemas não se resumiam à coceira das picadas. De todos os soldados ingleses que ficaram doentes na frente ocidental, um quinto foi atacado pela bactéria Bartonella quintana – transmitida pelos piolhos, causava febre alta, tontura e terríveis dores nas pernas, nas costas e na cabeça. A “febre de trincheira” não era fatal, mas podia deixar as vítimas fora de combate por semanas ou meses. E foi esse o diagnóstico para o paciente J. R. R. Tolkien, que viera até a enfermaria com 40 graus de febre. Três dias depois, Tolkien era evacuado do campo de batalha e jamais voltou aos combates. Foi assim que um piolho mudou a história da literatura.
TRINCHEIRAS
As trincheiras foram o fenômeno mais emblemático da Primeira Guerra Mundial – e se tornaram um símbolo não apenas dos horrores do conflito, mas também de sua futilidade. Os primeiros a escavarem valas fortificadas foram os alemães, em setembro de 1914, às margens do Rio Aisne. O desenho geral das trincheiras germânicas foi copiado com algumas alterações em lugares como a atual Turquia, a Itália, a Palestina e a Polônia. Mas a maior parte se concentrava na Bélgica e no norte da França, do litoral até a fronteira com a Suíça. Cada sistema de trincheiras era formado, em geral, por três valas, de 2 a 4 m de profundidade, separadas por uma distância entre 60 e 270 m. Na primeira linha, ficavam os sentinelas e franco-atiradores – que recuavam para a segunda vala em caso de bombardeio. A reserva de soldados ficava no terceiro buraco. Havia trincheiras menores, longitudinais, conectando as maiores – serviam para que os soldados recuassem ou avançassem sem se expor ao fogo inimigo e, também, para o transporte de alimentos e munição. No solo pantanoso do norte da França, o fundo das trincheiras era forrado com sacos de areia, mas mesmo assim os alagamentos eram constantes.
Entre as posições inimigas, ficava a Terra de Ninguém – um espaço de 9 a algumas centenas de metros, cortado por arames farpados e pontuado por crateras de bombas.
Para dificultar a mira dos adversários, as trincheiras eram escavadas em ziguezague, fazendo ângulos de 90º para a direita e para a esquerda,sucessivamente, como um labirinto. De acordo com o historiador americano Paul Fussell, mais de 40 mil km de valas foram escavadas na Grande Guerra – se esticadas numa linha reta, dariam a volta ao mundo. “Teoricamente, seria possível caminhar da Bélgica até a Suíça quase sem sair de debaixo da terra, eventualmente pulando de uma trincheira para outra”, escreveu Fussell em The Great War and Modern Memory, de 1981.
Terra de ninguém
Nos intervalos entre os ataques, os soldados entrincheirados viviam em estranha intimidade com os inimigos. Em algumas partes da frente ocidental, a área deserta separando as posições adversárias – conhecida como Terra de Ninguém – tinha apenas 9m de largura. Era possível ouvir os soldados tossindo, conversando, chorando ou espirrando do outro lado. Nos primeiros meses da guerra, os soldados rasos em ambas as frentes haviam desenvolvido uma rotina para tornar a vida menos terrível: os franco-atiradores disparavam apenas em horários específicos, dando chance para que os inimigos recolhessem seus mortos, comessem ou dormissem.
Quando os oficiais graduados não estavam olhando, a cortesia entre os adversários rasos crescia. Em 10 de dezembro de 1914, a voz de um soldado inglês ecoou na Terra de Ninguém às margens do Aisne: “Bom dia, Fritz. Venha pegar uns cigarros”. Fritz era o nome genérico dado pelos ingleses aos soldados alemães. Fritz respondeu, em inglês: “Vamos nos encontrar no meio do caminho. Ninguém atira”. Pouco depois, os inimigos estavam no terreno neutro, trocando cigarros, uísque, queijos e apertos de mão.

A confraternização chegou ao ápice no Natal de 1914. “De repente, luzes começaram a aparecer na balaustrada alemã, e logo ficou claro que eram árvores de Natal improvisadas, adornadas com velas acesas”, escreveu o inglês Graham Williams, em carta de 24 de dezembro de 1914, na Bélgica. Os alemães então começaram a cantar Stille Nacht, Helige Nacht – sua versão de Noite Feliz. Os ingleses responderam com outro hino natalino, The First Nowell. Situações assim aconteceram em vários locais: cerca de 100 mil soldados entraram em uma trégua não oficial. E, em alguns lugares, as confusões geopolíticas das grandes potências deram lugar a jogos não letais. Em Ypres, no dia 1º de janeiro, alemães e escoceses disputaram uma amigável partida de futebol sobre o solo esburacado e congelado da Terra de Ninguém. Os alemães venceram por 3 a 1.
Nuvem da morte
As tréguas espontâneas não agradaram nem os generais nem os governantes das potências em guerra. Em dezembro de 1915, o alto-comando inglês intensificou os bombardeios contra as trincheiras alemãs, para aniquilar qualquer chance de um novo Natal feliz. Ao longo dos quatro anos de guerra, os dois lados tentaram a todo custo quebrar o impasse das trincheiras. Um dos métodos – o mais pavoroso – foi colocado em ação pela primeira vez em Ypres, no dia 22 abril de 1915. Por volta das 5 e meia da tarde, soldados argelinos e marroquinos – convocados nas colônias francesas da África – avistaram uma nuvem esverdeada que se aproximava, soprada por uma brisa suave. O estranho nevoeiro logo preencheu as trincheiras. No início, nada aconteceu: a nuvem de cheiro doce apenas causou cócegas nas narinas dos soldados. Mas, em segundos, o veneno fez efeito. Centenas de homens sentiram os pulmões em chamas e caíram no chão, com bolhas espumantes brotando da garganta. E morreram asfixiados, com braços contorcidos e rostos escuros. Outros tantos se levantaram, em pânico, e tentaram fugir das trincheiras, mas a maioria foi metralhada pelos alemães a postos do outro lado. Em dez minutos, 6 mil homens estavam mortos; outros milhares ficaram cegos, incapazes de lutar.
A nuvem esverdeada era o gás cloro, inventado naquele ano pelo químico Fritz Harber por encomenda do exército alemão. “Apesar dos efeitos terríveis, naquele mesmo dia ficou claro que o gás não era uma arma decisiva”, diz o historiador Lawrence Sondhaus, autor de A Primeira Guerra Mundial: História Completa. “Os próprios alemães tinham medo de avançar pelas áreas cobertas de gás cloro – e, por isso, não conseguiram tomar a posição inimiga”. Mesmo assim, as nuvens da morte continuaram sendo usadas. Os britânicos desenvolveram um similar ao gás cloro e os franceses elaboraram um composto ainda mais letal, o fosgênio, inodoro e sem cor.

As primeiras contramedidas logo foram tomadas: soldados foram abastecidos com pequenas máscaras de algodão que, embebidas em água, retardavam os efeitos dos gases. As máscaras rudimentares se desenvolveram até tomar a forma que se tornou sinistramente famosa: um estranho elmo que cobria todo o rosto, conectado a um cilindro com substâncias que absorviam e filtravam os gases letais. As mortes diminuíram, mas os efeitos colaterais – como a cegueira temporária – continuaram tirando soldados de combate até o fim da guerra.
Foi o que aconteceu a certo soldado austríaco naturalizado alemão, em outubro de 1918. Cegado por um ataque britânico com gás, em Ypres, o rapaz de 25 anos passou os últimos meses do conflito em um hospital na Alemanha. No dia 10 de novembro, um pastor protestante anunciou aos pacientes a já esperada notícia: o kaiser havia caído, a Alemanha se tornara uma república, e a guerra estava perdida. O jovem recuperou a visão e escreveria, anos depois, em suas memórias: “Seguiram-se dias terríveis e noites ainda piores – eu sabia que tudo estava perdido... Nessas noites o ódio cresceu em mim... Confinado àquela cama, veio à minha cabeça a ideia de que um dia eu libertaria a Alemanha, que um dia eu a tornaria grande de novo”. Seu nome era Adolf Hitler.



A GUERRA QUE NÃO ACABOU
A Grande Guerra sacudiu e reorganizou o mundo. Durante os cem anos seguintes, o xadrez da política global seria jogado no tabuleiro que emergiu dos escombros de 1918. Para começar, a guerra pôs fim ao domínio supremo da Europa sobre o globo. Ao longo do século 19, a população europeia crescera sem parar: em 1914, 40% da população global era formada por cidadãos de países europeus, residentes não só em seus países de origem como em colônias ao redor do planeta. A Grande Guerra pôs fim ao crescimento demográfico do Velho Mundo: a maior parte dos 9 milhões de mortos do conflito era formada por europeus.
A Grande Guerra foi um terremoto. No meio do conflito, em 1917, estourou a revolução que pôs fim à monarquia dos Romanov na Rússia. Finlândia, Estônia, Látvia e Lituânia ganharam independência do desfeito império czarista – enquanto a União Soviética se preparava para espalhar a revolução pelo resto do mundo. Dos escombros do Império Austro-Húngaro nasceram a Iugoslávia e a Tchecoslováquia – que ao longo do século 20 se desmembrariam em Sérvia, Croácia, Bósnia, Kosovo, Montenegro, República Tcheca e Eslováquia.
No Oriente Médio, as províncias do Império Otomano viraram butim dos vencedores. Ingleses e franceses inventaram as fronteiras de Síria, Líbano, Iraque, Palestina e Jordânia. Alguns dos conflitos que assolam o mundo até hoje foram plantados na época – como a guerra entre Israel e os palestinos. Durante a Primeira Guerra, os ingleses prometeram independência às terras habitadas por árabes, em troca de ajuda contra os turcos. Mas na década de 20 passaram a estimular a imigração de judeus ao Oriente Médio – o que levou à fundação de Israel, em 1948.
Além disso, a Grande Guerra viu o surgimento de um novo poder global. Até então, os EUA seguiam uma política de não se intrometer em assuntos internacionais – mas sua entrada na guerra, em 1917, selou a derrota da Alemanha e abriu a era da intervenção global americana. Quando a guerra terminou, em 1918, o século de Washington havia começado.












sexta-feira, 20 de maio de 2016

Einstein confirmado: cientistas detectam ondas gravitacionais

Elas são as ondas que transmitem a força da gravidade. Saiba como a descoberta foi feita, e o que ela significa para a ciência.
POR Alexandre Versignassi ATUALIZADO EM 13/02/2016
Uhú! Mas, antes de continuar o texto, vale explicar que catzo é uma onda gravitacional. Senta aí.
As forças da natureza se manifestam na forma de ondas. O eletromagnetismo é uma dessas forças - forte a ponto de manter os ímãs presos na geladeiras e fazer sua mão doer quando você soca a mesa (graças à repulsão eletromagnética entre os átomos da sua mão e os da mesa). E ele é feito de ondas. Ondas eletromagnéticas. E elas são particularmente úteis. Celulares e TVs recebem informações codificadas em ondas eletromagnéticas - que também chamamos de "ondas de rádio". A própria luz é uma onda de rádio. O 4G do seu celular também. Este texto está na forma de ondas eletromagnéticas. Se não tivéssemos dominado essas ondas, não teríamos saído do século 19.  
Outras duas forças, que só existem no mundo subatômico, também vêm em ondas, como o mar: a forca nuclear forte, que mantém os quarks unidos na forma de prótons, e a força nuclear fraca, a mais figurante de todas, que age na periferia dos átomos.
Mas existe um buraco nessa história. A ciência nunca detectou as ondas que deveriam formar a força mais popular das quatro que existem: a gravidade. Einstein, que reformulou a gravitação em 1916, com sua Teoria Geral da Relatividade, imaginou que a força que mantém seu traseiro na cadeira também teria de ser transmitida na forma de ondas. Ondas gravitacionais. Mas é aquela história: faltava encontrar essas ondas.
Faltava. Porque, ao que tudo indica, encontraram. A Fundação Nacional de Ciência dos EUA anunciou nesta quinta-feira que os cientistas de um observatório americano acabaram de detectar as ondas, 100 anos depois de elas terem sido previstas por Einstein. Trata-se de um observatório diferente, o LIGO (sigla para Laser Interferometer Gravitational-wave Observatory). O LIGO não usa telescópios. As "lentes" dele são raios laser e equipamentos ultra-precisos para medir esses raios. O laser ali fica completamente isolado - a única coisa que poderia chacoalhar os raios seriam ondas gravitacionais. Mas até outro dia os laseres estavam quietinhos, sem acusar nada - e mantendo a ciência em dúvida sobre a própria existência das ondas de gravidade.
Só que um evento cósmico deu uma mão. Dois buracos negros se trombaram a 1 bilhão de anos-luz de distância daqui. O evento foi para o tecido do espaço-tempo o que um mergulho de barriga é para a superfície de uma piscina: causou uma baita perturbação. Perturbação que, segundo a Relatividade Geral, voaria espaço afora na forma de ondas. Ondas gravitacionais.
Essa batida aconteceu há 1 bilhão de anos. Os reflexos dela, porém, acabarem de chegar aqui agora. E foram "ouvidos" pelo LIGO. Os lasers do laboratório balançaram, indicando que, sim, as ondas gravitacionais existem. Vai aqui um vídeo produzido pela NASA, que simula a propagação dessas ondas:
O tal "balanço" dos lasers, naturalmente, não foi uma mera sacudida. O que o equipamento faz é , primeiro, cortar um laser em dois. Depois ele reúne os dois raios num só de novo e manda para um aparelho detector, que mede o "padrão de interferência" que os lasers geram ao interagir. Se nada tiver perturbado os raios (e tudo é montado ali para que nada deste mundo os perturbe mesmo), o que chega no detector é uma fila monótona de ondas de luz, como se cada uma fosse um operário com sono na fila para bater o cartão na fábrica.
Mas quando uma onda gravitacional bate ali, a coisa muda de figura. A onda deforma o próprio espaço. Ao deformar o espaço, ela muda o comprimento do raio laser. Com esse parâmetro alterado, o padrão de interferância se transforma. A monotonia de ondas dá lugar a bagunça. É como se a fila de operários com sono tivesse se transformado no fumódromo de uma balada. 
Os equipamentos são calibrados de acordo com as equações da Relatividade Geral. A partir do grau de baderna que as ondas gravitacionais impõem ao laser, esses instrumentos conseguem dizer de que distância as ondas gravitacionais partiram, e qual a massa dos agentes que enviaram essas ondas (no caso, aqueles buracos negros em colisão). É como se o próprio Eisntein estivesse fazendo as medidas, ainda que sua presença física seja desnecessária: as equações que ele deixou fazem esse trabalho por ele. Isso é imortalidade, o resto é mitologia. 
Mas vem cá. E se o que balançou o laser foi, tipo, um caminhão passando lá perto, por mais que o laboratório fosse bem vedado? O pessoal já tinha pensado nisso. Tanto que o LIGO não é exatamente um laboratório. São DOIS laboratórios, um na Louisiana outro no Estado de Washington, a 3 mil quilômetros de distância. E o mesmíssimo padrão de interferência foi detectado nos dois. Então não, não foi um caminhão. Além disso, os laboratórios do LINGO existem desde 2002, e nunca tinham detectado nada. Não tem conversa: as ondas gravitacionais estão oficiamente descobertas.   
Mas e aí? Elas servem para alguma coisa? Por enquanto, não. Nada de realmente prático. Mas quando descobriram a força eletromagnética, no século 19, ninguém imaginava o que fazer como ela também. E hoje dependemos das ondas eletromagnéticas para tudo. Então pode esperar: talvez o celular dos seus bisnetos funcione com ondas gravitacionais, e consiga se comunicar com universos paralelos - coisa que, segundo algumas teorias, as ondas gravitacionais conseguem mesmo. Mas essa é uma história para outro post. 
Uma aplicação menos surreal é usá-las para estudar o Cosmos mesmo. Até hoje, o único jeito de examinar buracos negros, por exemplo, era de forma indireta, pelos jorros de energia eletromagnética que outros corpos expelem quando estão prestes a ser engolidos. É pouco. 
Apontar um telescópio para um buraco negro isolado nem adianta. Um buraco negro faz com a luz tal Caetano a Leonardo DiCaprio - devora. E se a coisa não reflete ou emite ondas eletromagnéticas, só engole, não tem jeito: nossos observatórios ficam de lentes (e antenas) atadas. O único jeito de observar o comportamento de um buraco em detalhes seria examinar a torrente de ondas gravitacionais que o bicho emite. Agora que sabemos que essas ondas existem, então, as portas ficaram abertas. Logo vamos poder estudar buracos negros com a mesma clareza com a qual examinamos a topografia de uma montanha. É muito.
E tem mais. O evento que mais criou ondas gravitavionais em todos os tempos foi justamente o início dos tempos. O Big Bang. Se aprendermos a detectar as ondas gravitcionais que ele produziu, poderemos entender melhor de onde viemos, e para onde vamos. Precisa mais do que isso?  






quinta-feira, 19 de maio de 2016

Waterloo: "eles não aprenderam nada e não esqueceram nada"

A batalha travada em 18 de junho de 1815 logo ao sul de Waterloo, no que é hoje a Bélgica, tornou-se o combate decisivo da campanha final de uma guerra que havia dilacerado a Europa por 23 anos. A luta se espalhara pelo mundo à medida que os Estados combatentes buscavam obter vantagens que lhes escapavam na Europa. O balanço das mortes desses longos anos de guerra jamais será conhecido com precisão. Sem dúvida, milhões morreram como resultado direto dos combates e milhões mais devido às fomes e às epidemias que seguiam os exércitos e as perturbações que estes causavam. Economicamente, a Europa foi deixada prostrada – com as dificuldades e o desemprego agravando a miséria própria de todas as guerras.

O conflito fora desencadeado pela Revolução Francesa, que teve início em 1789. Quando a Revolução irrompeu, foi vista basicamente como uma questão interna da França. O governo do rei Luís XVI era notoriamente corrupto e ineficiente, e as injustiças sociais do regime, bem conhecidas. Muitas pessoas por toda a Europa – até mesmo alguns monarcas – saudaram os estágios iniciais da Revolução, vendo nela uma reforma necessária de um sistema praticamente sem salvação que poderia trazer estabilidade a um regime vacilante.

No entanto, a natureza cada vez mais violenta da revolução e as reivindicações abrangentes de direitos e liberdades universais feitas pelos revolucionários mais extremistas logo começaram a preocupar os monarcas mais autocráticos da Europa. Em agosto de 1791, Frederico Guilherme II da Prússia e Leopoldo da Áustria lançaram a Declaração de Pillnitz. Essa proclamação, redigida em termos vagos, pretendia reafirmar a base teórica do poder monárquico – em parte, para dar alguma ajuda diplomática a Luís XVI, mas basicamente para advertir os reformadores, nos próprios reinos dos governantes de que, se a reforma era uma possibilidade, a revolução não.

De toda forma, o governo francês interpretou a declaração como um aviso de que a Prússia e a Áustria recorreriam à força militar para restaurar o governo ditatorial de Luís XVI na França. Decidindo agir primeiro, a França declarou guerra à Áustria em abril de 1792. A Prússia correu em auxílio da Áustria, enquanto o reino do Piemonte, no norte da Itália, se aliou a ambas, com a expectativa de se apoderar de territórios fronteiriços disputados com os vizinhos.

As campanhas iniciais terminaram num impasse. O governo francês tornou-se mais extremista, abolindo a monarquia e executando Luís XVI. As ideias revolucionárias se espalharam rapidamente por toda a Europa à medida que as populações procuraram se libertar dos grilhões da servidão e gozar de liberdades até então inimagináveis – como as de não ir à igreja todos os domingos, ir a julgamento antes de ser lançado na prisão ou ter a liberdade de iniciar um negócio sem ter de pagar valores arbitrários a um funcionário do governo pela permissão. Alguns monarcas responderam com o encorajamento às reformas, outros, com a repressão – mas os franceses invariavelmente saudaram e estimularam tais movimentos revolucionários. A Europa estava mergulhada numa onda de agitações sociais, legais e culturais tão perturbadoras quanto as guerras que envolveriam o continente.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

A vida no reich: as testemunhas

Eycke Strickland nasceu em Kassel, no coração da Alemanha, nove meses depois de Hitler ter sido nomeado para a chefi a do governo (chancelaria). A mãe da menina, Auguste Laabs, assim como o pai, Karl Laabs, não eram “convencionais”. Eles eram pacifi stas por princípio – o pai servira em Flandres na Primeira Guerra, onde vira o irmão mais velho morrer diante de seus olhos, e o avô materno tombara no campo de batalha, apesar das muitas preces da esposa para que retornasse em segurança.

Tanto o pai quanto a mãe haviam sido educados para serem independentes e para olharem o nacionalismo exacerbado com desconfi ança. Conheceram-se por meio de um movimento da Juventude Alemã chamado Wandervogel (“Pássaro Errante”), que incutiu no casal, assim como em todos os seus membros, um sentimento idealista de amor à natureza e de defesa do igualitarismo, valores que Auguste e Karl, por sua vez, transmitiram a seus filhos.

Karl foi impedido de completar o doutorado em economia e ciências sociais depois de ter escrito uma frase crítica e antinazista na lousa de uma sala de palestras, no dia em que Hitler ascendeu ao cargo de chanceler, assumindo então um emprego de arquiteto. A família estabeleceu-se em Wilhelmshausen, povoado ao norte de Kassel, onde Karl passou a projetar casas de baixo custo para trabalhadores cuja única alternativa seria morar em prédios de apartamentos superlotados.

Em agosto de 1939, às vésperas da guerra, Eycke, então com 6 anos, seus dois irmãos e sua irmã mais nova foram retirados de casa e mudaram-se para Vaake, outro pequeno povoado em Hessen, onde os pais pensaram que a família estaria mais segura. Logo começaram a preparar o pequeno quintal para cultivar seus próprios alimentos, mas, antes de ser possível iniciar o plantio, Karl foi recrutado para prestar serviços civis para a Luftwaffe (força aérea alemã) longe de casa, para trabalhar na construção das instalações de campos de pouso. Pouco tempo depois, Auguste teve de deixar os filhos sob os cuidados de uma criada enquanto era obrigada a comparecer ao tribunal para se defender da acusação de insultar um membro do partido quando fazia reivindicações em nome do marido.

Entretanto, esse era apenas o início dos problemas. Em julho de 1940, a irmã mais nova de Eycke, Ute, teve pleurisia e foi levada a um hospital infantil, onde foi tratada e curada. Contudo, chegado o dia em que poderia voltar para casa, um ataque aéreo fez com que todas as crianças, incluindo os pacientes contagiosos, fossem conduzidas às pressas a um abrigo antibomba. Ute foi infectada com difteria e morreu pouco tempo depois. Seus pais entraram em luto: sua mãe usou apenas vestidos pretos durante um ano inteiro e o pai, uma faixa preta no braço. Eycke não demorou a notar mais mulheres vestidas de preto e homens usando faixas pretas nos braços pelo povoado.

Apenas em 1941, Eycke, então com 7 anos, aprendeu que 30 de janeiro, aniversário de seu pai, tinha um significado especial para outra pessoa. Sua professora explicou que o dia era feriado nacional porque, oito anos antes, o Führer fora nomeado premiê. Em assembleia, naquela manhã, viu-se o saguão decorado com bandeiras alvirrubras e as crianças aprenderam que o símbolo central que viam nelas se chamava suástica. Depois de ouvir a um discurso que exaltava as virtudes do nacional-socialismo e enaltecia o papel de relevância que as próprias crianças teriam enquanto cidadãos e cidadãs da nova Alemanha, exigiu-se que a classe aprendesse a letra de “Deutschland über Alles” (“Alemanha acima de tudo”, o hino nacional), para que cantassem na próxima assembleia. Sua doutrinação já começara.

No entanto, havia algo dentro de Eycke que a impedia de fazer a saudação a Hitler todas as vezes que os bonzen (burocratas subalternos) do povoado apareciam. Em março de 1942, a família mudou-se para a Polônia a fim de ficar junto do pai, que tinha o cargo de arquiteto distrital em Krenau, a poucos quilômetros da cidade que se tornaria sinônimo do Holocausto: Auschwitz.

Em Krenau, Karl conheceu Mordecai Hartmann, jovem judeu cuja função de alimentar a fornalha do prédio onde o arquiteto trabalhava e que apresentou esse alemão “não convencional” à sua família. Por meio desta, o pai de Eycke tomou conhecimento do destino que aguardava os judeus da Polônia e resolveu que deveria fazer todo o possível para salvar quantos pudesse, qualquer que fosse o risco para ele próprio ou para sua família.

Aos olhos de Eycke e de seus irmãos, a fazenda de sete acres, com celeiros e anexos, parecia um paraíso para crianças. Elas ficavam livres para brincar e explorar e tratavam a criação de animais como seu zoológico particular. Foi só quando seu pai começou a erguer novas cercas para manter os animais dentro e os “encrenqueiros” fora, que Eycke começou a pensar que aquele lugar talvez não fosse tão amistoso assim.

Algum tempo depois, outro incidente deixaria Eycke confusa. Quando estava com seu pai, em uma charrete aberta, a menina foi abordada por um homem bem vestido, que trocou cumprimentos com o pai e então ofereceu para a filha uma boneca Kathe Kruse feita à mão. Era uma bela boneca, de grande valor para colecionadores. Era um presente raro para uma criança. No entanto, para espanto de Eycke, seu pai recusou a oferta de maneira ríspida: “Sabe que não posso aceitar seu presente. Adeus, Herr Goldmann”. Pela expressão de seu rosto, o sr. Goldmann ficou tão chocado quanto a menina. Quando Eycke questionou o porquê de ele não tê-la deixado aceitar o brinquedo, disse-lhe apenas que “olhos estão vigiando; ouvidos estão escutando”, e sinalizou na direção do condutor da charrete. No Natal seguinte, a garota viu a irmã mais nova ninando a boneca, e ficou sabendo que a mãe a encontrara próxima ao portão. O Sr. Goldmann achara uma alternativa que não levantaria suspeitas sobre a família.

Só após a guerra, Karl sentiu que poderia contar a Eycke por que ele tivera de cuidar para não ser visto aceitando presentes de um amigo judeu. Como Kreisbaurat (arquiteto distrital), ele era responsável por emitir licenças de trabalho, que garantiriam alimentação, pagamento e circulação segura para os empregados em projetos municipais. Pondo a si próprio em grande risco, Karl dera prioridade aos judeus, que estavam sob a constante ameaça de serem transportados para campos de trabalhos forçados ou de extermínio. Ele chegou a persuadir um oficial da Gestapo de que ele não conseguiria finalizar seus projetos sem aqueles trabalhadores e, finalmente, eles foram liberados.

Para falar conosco, Eycke pediu que suas respostas fossem precedidas pelo seguinte comentário: “Considerando que não posso falar em nome do povo alemão, limitarei a maioria de minhas respostas ao que vi e ouvi quando era criança”.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A FAMÍLIA BÓRGIA E A IGREJA

A família Bórgia tomou o controle da Igreja com truculência
TEXTO Rodrigo Casarin | ILUSTRAÇÕES Sérgio Bergocce | 03/07/2014 12h24
O momento político para os Bórgia era conturbado. Inimigos ameaçavam a soberania da família à frente da Igreja Católica e dos reinos por ela comandados. César Bórgia, espécie de líder da guerrilha papal, colocava em prática uma de suas habilidades preferidas: prender e assassinar adversários. Rodrigo Bórgia, àquela altura o papa Alexandre VI (outro que costumava eliminar quem se opunha ao seu poder), optou por também agir. Prendeu o rival, o cardeal Orsini, nas sombrias, isoladas e precárias masmorras do Castelo de Sant’Angelo, imponente construção erguida às margens do Rio Tibre.

Era para o Sant’Angelo que Alexandre VI se retirava nos momentos introspectivos. Era a partir de lá que começaria a acertar suas contas com Orsini. Deixou o cardeal preso até que definhasse e morresse. Depois, confiscou seus bens, prendeu alguns familiares e despejou outros. Em seguida, mandou César assassinar dois sobrinhos do inimigo. Com isso, a família Bórgia se reafirmava como a grande força daquelas regiões que mais tarde seriam transformadas num único país, a Itália, bem como de outras áreas católicas, como a Espanha e a França. Abençoado, Alexandre VI, o santo homem, o papa, nem sequer se dava ao trabalho limpar o sangue sempre quente que escorria pelas suas mãos antes de se deitar – não para dormir, mas, provavelmente, para se divertir com alguma mulher.
Espanha em Roma
A família Bórgia chegou ao cargo máximo da Igreja após a Espanha ganhar importância dentro do cenário político e econômico europeu, principalmente por causa das grandes navegações. O papa – um posto, então, essencialmente político – era escolhido de acordo com os interesses das famílias mais poderosas de cada região, e chegara a hora de um espanhol poder jogar conforme os interesses de seus conterrâneos.
Após a morte do papa Nicolau V, o cardeal Afonso Borja, de 76 anos, assumiu como papa Calisto III. “A chegada dos Borja, que passariam a se chamar Bórgia, é a entrada da própria Espanha no Vaticano”, diz Oscar Luiz Brisolara, mestre e doutor em linguística, professor de língua e cultura latina na Universidade Federal do Rio Grande e autor de Sancta Lucrezia dei Cattanei, obra de ficção sobre Lucrécia, peça-chave na família Bórgia.
Calisto III ficou pouco mais de três anos no poder, de 1455 a 1458. Durante o mandato, fortaleceu o nome de sua família nos reinos católicos e, mais importante, colocou parentes em alguns cargos importantes. Entre eles estava seu sobrinho Rodrigo Bórgia, que, aos 27 anos, já era um dos cardeais mais influentes de Roma – ele foi o responsável pela introdução da Inquisição na Espanha em seus tempos de cardeal em Valência, que levou a julgamento mais de 13 mil judeus convertidos entre 1480 e 1492.
“Em uma época em que cada família importante tinha um cardeal, principalmente para negociar impostos e fazer articulações políticas, Calisto III colocou Rodrigo no posto de cardeal e secretário do Estado. Ele fazia a administração financeira, mantinha relações com outros reinos e países e defendia os interesses da Espanha”, afirma Brisolara.
Vaga no céu
A habilidade política de Rodrigo foi fundamental para que Pio II sucedesse seu tio. A Igreja ainda passou pelas mãos de Paulo II, Sisto IV e Inocêncio VIII antes de, finalmente, em 1492, o próprio Rodrigo Bórgia tornar-se o sumo pontífice. No posto, seria um dos principais responsáveis por transformar os Bórgia em uma das famílias mais famosas e temidas de todos os tempos. Como Alexandre VI, intensificou o nepotismo e nomeou familiares para dezenas de cargos próximos e importantes. Agindo como dono de toda a fortuna e propriedades da Igreja Católica, distribuía terras e dinheiro. Para seu filho Pedro (sim, filho, mesmo em uma época em que o celibato já era exigência da Igreja) comprou o ducado de Gandía, na Espanha. Também construiu um enorme palácio repleto de símbolos de ostentação em frente à Santa Sé para que tivesse uma residência à altura de seu poder. Apesar das fontes de receita da Igreja serem diversas e muito rentáveis, logo precisaram ser ampliadas para que seus gastos fossem cobertos. As vendas de indulgências dispararam – jamais foi tão fácil comprar uma vaga no céu.

“Alexandre VI passou a tratar os territórios pontifícios como sendo dos Bórgia, isso causou um choque com outras famílias poderosas. Ele também fez um uso muito grande da simonia, a venda dos cargos eclesiásticos. Nenhum cardeal foi nomeado sem ter comprado o posto. Esse dinheiro ajudava na contratação deexércitos mercenários, usados para incrementar ameaças com poderio militar, algo fundamental para se tecer a diplomacia”, diz Rui Luis Rodrigues, especialista em história moderna e professor da Unicamp.
Antes mesmo de assumir o papado, Rodrigo começou a demonstrar sua força e dar indícios de como seria seu mandato. Durante o conclave que o elegeu, Roma vivia um período de extrema violência – os assassinatos chegavam à casa das centenas. Assim que foi eleito, resolveu dar uma resposta à situação. Mandou identificar os bandidos, ordenou a destruição de suas casas e que fossem enforcados no lugar em que moravam, para ficarem expostos e servir de exemplo para a população. No dia 26 de agosto, quando foi nomeado papa, tinha a cidade em paz e aos seus pés.
O tratamento dado aos assassinos seria muito parecido ao dispensado àqueles que tentavam se opor à família Bórgia. Se alguém se colocasse no meio dos interesses políticos, não havia pudor em matá-lo. Uma das práticas mais comuns era o envenenamento – normalmente uma substância letal colocada na comida ou na bebida do inimigo. Com a desculpa de proteger os cristãos dos muçulmanos, Alexandre VI criou a Santa Liga, um exército do cristianismo, e nomeou Giovani, seu filho mais velho, comandante. César, o rebento mais novo, destinado à vida na Igreja, não gostava do papel que lhe cabia. Após um jantar em família, matou Giovani e se desfez do corpo no Tibre. O pai descobriu que César assassinara o irmão e optou por findar as investigações para que o caso não se transformasse em escândalo. Antes de completar 18 anos, César Bórgia se tornou cardeal, chefe militar, líderdas tropas papais – e um frio assassino. Na prática, o braço armado da Igreja virou um instrumento de conquista e intimidação e César despontou como líder sanguinário, que não titubeava em resolver qualquer pendência de maneira sinistra.
Lascívia
Além de Pedro, Giovani e César, Rodrigo Bórgia já era pai de outros quatro filhos que moravam em Roma, de relacionamentos com mulheres diferentes. Para manter as amantes por perto, ordenava que casassem com funcionários da Igreja. Com isso, atenuava os boatos acerca da fama de mulherengo. Como Alexandre VI, manteve durante muito tempo uma relação com Giulia Farnese, amiga de sua filha Lucrécia, com quem começou a se engraçar quando a menina tinha 15 anos – os dois provavelmente tiveram uma filha. Os boatos diziam que o papa mantinha um grande leque de prostitutas à disposição para utilizar junto com os filhos, muitas vezes em orgias sob teto santo. As lascívias poderiam envolver até mesmo Lucrécia, que, num jogo incestuoso, manteria relações sexuais com seu pai e seu irmão César – contudo, isso jamais foi provado.
O que realmente se prova é como Lucrécia acabou utilizada como fantoche por César e Alexandre VI. Aos 13 anos, a garota foi obrigada a se casar. O marido era Giovanni Sforza, a princípio um aliado da família Bórgia. Logo ele se mostrou uma ameaça. Não demorou e surgiram pressões para que o casamento se encerrasse. Sforza até tentou resistir, mas, após César ameaçá-lo de morte, achou melhor aceitar a decisão. Alexandre VI garantiu que o casamento não havia sido consumado porque Sforza era impotente.
O segundo marido de Lucrécia não teve a mesma sorte. Quando a relação entre a menina e Alfonso de Aragão se tornou politicamente desinteressante, ele foi atacado por quatro homens na escadaria da Basílica de São Pedro. Conseguiu sobreviver, mas não por muito tempo. Enquanto se recuperava, foi estrangulado.
Todos sabiam que César Bórgia era o mandante do crime. Lucrécia ficou abalada, mas não havia espaço para lamúrias. As alianças e manobras políticas precisavam continuar. Aos 21 anos, a filha mais querida do papa estava indo para o seu terceiro casamento, com Alfonso d’Este, filho do Duque de Ferrara, com quem permaneceria pelo resto da vida.
FAMÍLIA DO BARULHO | Quem eram os Bórgia que mandavam e desmandavam em Roma
RODRIGO
Rodrigo Bórgia nasceu em 1431, no reino de Aragão, na Espanha. Aos 18 anos foi mandado para a península italiana, onde estudou direito na Universidade de Bolonha. Aos 25, já era vice-chanceler do Vaticano, cargo que lhe rendeu muito dinheiro e onde se manteve até conseguir se eleger papa – na base de compra de votos. Teve provavelmente oito filhos com cinco mulheres diferentes. Como papa, coube a ele dividir as terras da América recém-descoberta entre Portugal e Espanha, por meio da Bula Inter Coetera.
CÉSAR
Para alcançar seus objetivos ou honrar a família, envenenava, assassinava e, se preciso, esquartejava a vítima para que o crime se tornasse mais cruel. Líder do exército de Alexandre VI e apaixonado por soluções bélicas inventivas, teve Leonardo da Vinci como funcionário. Um dos homens mais ricos da península italiana, casou-se com a princesa Charlotte, da França, e recebeu o título de duque de Valentinois. César serviu de inspiração para Nicolau Maquiavel escrever O Príncipe.
LUCRÉCIA
Filha de Rodrigo com Giovanna dei Cattanei, suposta dona de uma rede de prostíbulos, Lucrécia inspirou diversas manifestações artísticas. Pinturicchio a retratou como Santa Catarina de Alexandria. Depois de deixar de ser instrumento de manobra política de Alexandre VI e César, viveu com seu último marido e diversos amantes, algo comum às nobres do Renascimento. Lucrécia teve 11 filhos e morreu quando dava à luz o último deles, em 1519, aos 39 anos.
Ponderação
“Acredito que as orgias e os incestos façam parte das lendas que buscam atacar os Bórgia, vindas dos inimigos da família. O papa tinha uma vida sexual sabidamente intensa, e algumas fontes sugerem que César tinha, sim, fixação pela irmã, mas, quando olhamos a trajetória de Lucrécia, é difícil acreditar em incesto”, diz Rodrigues. O especialista da Unicamp faz uma importante ponderação sobre a família Bórgia: “Os valores morais eram outros, temos que ter isso em mente para não cometermos o anacronismo de julgarmos o que aconteceu com os olhos de hoje. Determinadas práticas, como o assassinato e o envenenamento, eram usados por todos os tiranos da região”, afirma Rodrigues. “No caso dos Bórgia, o agravante foi a concentração de poderes seculares e religiosos. Esses fatos, aliados a produções artísticas exageradas, sem pesquisa histórica séria, faz com que o imaginário no entorno da família cresça bastante. Acredito que, se dermos os devidos descontos, eles cometeram, sim, atos condenáveis, mas numa situação em que agir dessa maneira, matar rivais, dar filhas a casamentos de interesse, vender cargos eclesiásticos, não era estranho. Eles não eram uma aberração dentro da realidade do Renascimento.”
Brisolara reforça esse ponto de vista: “Os assassinatos políticos acontecem até hoje”. Com exageros e anacronismos históricos ou não, ironicamente, o veneno, uma das armas dos Bórgia, talvez tenha sido o motivo que os levou à queda. Alexandre VI faleceu em 18 de agosto de 1503, aos 73 anos. Há duas versões: uma defende que ele morreu em decorrência da malária, enquanto outra garante que foi vítima de envenenamento por arsênico. Na ocasião, César estava gravemente doente – há indícios de que o assassino tentou matar pai e filho, que sobreviveu por ser mais jovem. Ao se recuperar, César enfrentou articulações políticas contrárias aos Bórgia. Logo suas cidades foram tomadas e as fontes de renda secaram. César foi preso e levado à Espanha, de onde fugiu e retornou à península italiana. Mas a vida clandestina não duraria muito. Depois de matar inúmeros inimigos, foi assassinado em 1507, aos 31 anos. Foi-se com ele o último resquício do grande poder dos Bórgia dentro da Igreja Católica.




segunda-feira, 16 de maio de 2016

A campanha dos EUA no México, que redefiniu suas fronteiras

A campanha dos EUA no México, que redefiniu suas fronteiras
O conflito levou o exército americano até a Cidade do México, mas os militares acharam melhor devolvê-la aos mexicanos
TEXTO Rodrigo Casarin | ILUSTRAÇÃO Cassio Bittencourt | 08/08/2014 16h52
Sobre uma colina com mais de 60 m de altura, o forte de Chapultepec abrigava a Academia Militar e era um dos pontos mais importantes para que a Cidade do México, a capital do país, permanecesse intocada. As defesas mexicanas já estavam bastante enfraquecidas, restavam algumas centenas de homens - muitos deles jovens cadetes - para zelar por aquele ponto estratégico. Os ataques norte- americanos começaram na madrugada. Ainda que tenha havido uma breve trégua, retomaram com força antes mesmo do sol raiar. A resistência dos defensores causou diversas baixas nos invasores, elevou alguns combatentes ao status de heróis da nação e deixou uma sensação de vitória moral nos mexicanos. Mas não foi suficiente para que os ianques deixassem o seu objetivo de lado. Restava aos sobreviventes debandarem para a cidade. Ao amanhecer, o forte estava tomado pelo Exército estrangeiro, que teria como próximo alvo a capital - faltava apenas invadi-la e tomá-la para, definitivamente, vencerem a guerra.

Estado rebelde
Na campanha até ali, os norte-americanos haviam triunfado em duras batalhas. Mas a tomada da Cidade do México talvez tenha sido mais fácil do que poderiam imaginar. Ainda que necessitassem enfrentar alguns focos pontuais de rebeldes e as adversidades provocadas pela própria população, em pouco tempo tirariam a bandeira mexicana que tremulava sobre o Palácio Nacional e içariam a dos Estados Unidos, definindo, simbolicamente, vencedores e vencidos.
Era o dia 14 de setembro quando os invasores chegaram à capital. A tomada da cidade foi o último capítulo belicoso de uma guerra iniciada em 1846, resultado de um conflito sobre o território do Texas que se juntou à necessidade de expansão dos Estados Unidos. O México, que não queria perder um estado rebelde, acabou perdendo muito mais do que isso.
A república do Texas
A história dos problemas no território texano começou quando a região ainda pertencia à coroa espanhola - como boa parte do atual sul dos Estados Unidos, por isso nomes como Flórida, Los Angeles e Santa Bárbara. O governo do México concedeu licença para que 300 famílias de colonos norte-americanos se estabelecessem no lugar. Em 1821, o México conquistou sua independência da Espanha e, dois anos depois, o Congresso votou pela abolição da escravatura, algo que ia contra a vontade dos estrangeiros estabelecidos no Texas. Apesar do decreto, os texanos continuavam governando a região de forma praticamente autônoma e independente. Isso até o general Santa Anna instituir uma Constituição que centralizava o poder, acabando com leis locais.
Os colonos não desejavam ser submissos ao governo mexicano e rebeliões começaram a ocorrer, bem como negociações entre o México e os EUA para discutir as proibições. Tensões e dificuldades surgiram, até que parte do Exército mexicano foi deslocada para a região e entrou em conflito com os texanos. O México vivia um momento delicado, no qual o Estado nacional procurava estabelecer sua organização política, um período crítico após a guerra pela independência que durou mais de 10 anos e levou à destruição da economia local. Os texanos, apoiados pelos EUA, conseguiram mais do que derrotar os militares inimigos: transformaram o general Santa Anna em refém.
Em março de 1836, o Texas proclamou sua emancipação, alegando romper com a tirania militar, a intolerância religiosa e a falta de escolas na região. A partir da declaração, os texanos elegeram seu próprio presidente, fizeram uma nova Constituição - na qual a escravidão era legal - e obtiveram o reconhecimento dos EUA, país para o qual fariam uma solicitação de anexação em 1845.

Boa parte da população texana estava insatisfeita com as leis mexicanas. Por isso batalharam por sua independência e, em seguida, pediram anexação aos Estados Unidos, que aceitou o pedido. "Os Estados Unidos declararam guerra ao México dez anos depois da independência do Texas, num projeto mais amplo, a expansão para o oeste, no qual caravanas avançavam levando fortes militares", diz Maria Ligia Prado, doutora em História Social pela USP e especialista em América Latina. A desavença entre México e Texas caiu como uma luva na necessidade de expansão territorial dos EUA. Serviu como catalisador da nação e impulsionou, entre outras coisas, a expansão territorial rumo ao oeste e ao sul, numa série de conquistas de novos territórios antes pertencentes a franceses, ingleses, russos e espanhóis.

Metade para mim, metade para você
Antes da batalha de Chapultepec e o domínio da Cidade do México, outros episódios já haviam ocorrido. Para invadir o país vizinho, o Exército dos Estados Unidos se dividiu em três frentes, duas que rumaram para o sul do Texas e outra que foi para o Novo México e, em seguida, para a Califórnia. Vitórias em Palo Alto e Resaca de la Palma foram decisivas para que a ofensiva se consolidasse, seguindo para Monterrey - palco de uma batalha de três dias que causou muitos danos aos dois Exércitos. Apesar dos triunfos, os norte-americanos perceberam que os mexicanos, liderados pelo general António Lopez de Santa Anna, não se entregariam. Então, para que conseguissem alcançar a capital, utilizaram também a Marinha. Após uma série de conflitos em Vera Cruz, Cerro Gordo, Contretas e Molino del Rey, finalmente chegaram a Chapultepec.


Mas se o principal objetivo dos EUA era a ampliação do território e seu Exército conseguiu chegar até a Cidade do México, por que não ficaram com todo o bolo? "Quando você vence a guerra, precisa tomar a capital do país vencido, isso é uma regra básica. Contudo, anexar o país inteiro significaria também provocar uma resistência muito grande por lá. No norte do México, a ocupação sempre foi menor, é muito deserto. A própria população do Texas era muito pequena. Desde o período colonial, a maior parte das pessoas estava no centro e no sul do país, e não aceitaria que o EUA tomassem a capital, haveria ainda mais resistência", afirma a professora Maria Ligia.

Para colocar fim à guerra - iniciada pelo México, não custa lembrar -, autoridades mexicanas e norte-americanas assinaram, em fevereiro de 1848, o Tratado de Guadalupe-Hidalgo, no qual o país latino cedia aos invasores, além do Texas, áreas que atualmente correspondem aos estados do Novo México, Califórnia, Arizona, Colorado, Nevada, Utah e Wyoming, além de pequenas partes de Kansas e Oklahoma - um espaço de aproximadamente 2,4 milhões de km2, que corresponde à metade do então território mexicano. O Rio Grande serviu (e ainda serve) como referência para a fronteira. Em troca, o México recebeu uma indenização de 15 milhões de dólares.
O tratado foi criticado por expansionistas norte-americanos, que o consideraram condescendente com os derrotados - queriam todo o território onde o Exército invasor fincou bandeira. Mas o acordo foi atacado até por autoridades dos EUA, responsáveis pelas negociações de paz, que julgaram tamanha perda territorial uma grande humilhação aos mexicanos, provocando neles um grave sentimento de frustração. Seja como for, muito do que é hoje território norte-americano foi descoberto, ocupado e colonizado por descendentes de espanhóis e mexicanos.
Os pequenos heróis
Durante a batalha de Chapultepec, seis cadetes militares mexicanos, com idade entre 13 e 19 anos - o que dá uma ideia de como era a formação do Exército do país - recusaram a ordem de recuo dada por seu general e procuraram defender o lugar que ocupavam até a morte. Esses jovens resistentes passaram a ser conhecidos como "Los niños héroes" (meninos heróis) e se tornaram uma espécie de mito patriótico. A versão mais romântica da História diz que o último deles, ao perceber que o fim era inevitável, enrolou-se em uma bandeira do país e pulou do alto do forte, evitando que o pavilhão caísse em mãos inimigas.