quinta-feira, 11 de setembro de 2014

JOSÉ BONIFÁCIO, O HOMEM DO ANO DE 1822

No Centro de São Paulo, a poucos metros do Pátio do Colégio, fica a praça do Patriarca, um quadrilátero de concreto, com apenas duas árvores. Num dos cantos, de costas para a praça, está a estátua de José Bonifácio de Andrada e Silva. Ele não esteve sempre ali. Na última reforma do logradouro, perdeu seu lugar central, na saída da Galeria Prestes Maia. Bonifácio, ou sua estátua, não mereciam tal sorte. Se houve alguém no começo do século 19 com um olhar estratégico, capaz de pensar o que seria o Brasil e quais caminhos usar para chegar lá, era esse cientista nascido em Santos, no litoral de São Paulo.
Bonifácio passou boa parte da vida fora do Brasil. Na Europa, ganhou reputação de intelectual. Sua principal formação era de mineralogista e ocupou a cátedra de Metalurgia na Universidade de Coimbra no início do século 19. Ali havia se formado em Direito, Filosofia e Matemática. Ocupou vários cargos públicos em Portugal, envolveu-se com a maçonaria, lutou no Exército português durante a invasão francesa e, aos 56 anos, resolveu voltar ao seu país natal "para acabar o resto dos meus cansados dias nos sertões do Brasil, a cultivar o que é meu".
Os dias passados no Brasil, para onde regressou em 1819, foram mesmo cansativos. Os irmãos Andrada - José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco - estavam no olho do furacão político. E se José Bonifácio cultivou "algo de seu" foi a semente da independência brasileira.
A política fervia. Em 24 de agosto de 1820, a Revolução do Porto acabou com a monarquia absolutista do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Pressionado, o rei voltou a Portugal em 24 de abril do ano seguinte, já sabendo que sua figura seria basicamente decorativa. De saída, recomendou ao filho que não perdesse o Brasil para aventureiros. Dom Pedro entendeu o recado. O poder estava nas mãos das cortes.
Bonifácio foi o grande articulador dos deputados brasileiros, em especial dos paulistas. Presidiu a eleição, da qual Antônio Carlos saiu como um dos seis representantes da província de São Paulo e foi o principal autor do documento "Lembranças e Apontamentos do Governo Provisório para os Senhores Deputados da Província". Nele, defendia o fim do tráfico de escravos, a catequização dos índios, a reforma agrária e incentivos à mineração. E até a mudança da capital brasileira, do Rio de Janeiro para algum lugar nas cabeceiras do rio São Francisco. (Brasília teria de esperar 140 anos.)
O papel-chave para a independência veio por meio de carta enviada a dom Pedro, convocado pelas cortes a voltar para a Europa. Para convencer o príncipe a não deixar o Brasil, Bonifácio demolia a biografia futura de um príncipe fujão: "Além de perder para o mundo a dignidade de homem e de príncipe, terá também de responder, perante o céu, do rio de sangue que decerto vai correr pelo Brasil". Dom Pedro leu a carta no dia 1º de janeiro de 1822. No dia 18, José Bonifácio foi nomeado ministro do Reino e dos Estrangeiros, o primeiro brasileiro a ocupar o posto. Ao lado de dom Pedro pelos próximos 18 meses, José Bonifácio urdiu as teias da independência. "Era um homem com um projeto de Brasil", afirma o historiador e jornalista Jorge Caldeira. Uma das ações conduzidas pelo Patriarca foi recusar as ordens que vinham das cortes portuguesas. A outra, dar forma política e institucional a um futuro país. "Nenhum outro homem público brasileiro fez tanto em tão pouco tempo", escreveu Laurentino Gomes em 1822.
Quando dom Pedro I dissolveu a Constituinte, em novembro de 1823, José Bonifácio foi exilado e deportado para a França. Voltou a estudar, traduziu clássicos como Virgílio para o português e se arriscou na poesia. Retornou ao Brasil em 1829 e tornou-se tutor dos filhos do imperador quando dom Pedro I abdicou do trono em abril de 1831 e voltou para Portugal. Ficou no posto por dois anos, até ser deposto pelo gabinete. Recolheu-se à ilha de Paquetá, onde viveu modestamente até os 75 anos. Morreu em Niterói. Seu corpo está no Panteão dos Andradas, em Santos. Sua estátua permanece de costas para a praça do Patriarca.(Wagner Gutierrez Barreira
 Aventuras na História, junho de 2013).


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A CONSTRUÇÃO DAS PIRÂMIDES DO EGITO

A construção das pirâmides botou milhares de egípcios para suar, exigiu conhecimentos avançados de matemática e muitas pedras. Das cem pirâmides conhecidas no Egito, a maior (e mais famosa) é a de Quéops, única das sete maravilhas antigas que resiste ao tempo. Datada de 2 550 a.C., ela foi a cereja do bolo de uma geração de faraós com aspirações arquitetônicas. Khufu (ou Quéops, seu nome em grego), que encomendou a grande pirâmide, era filho de Snefru, que já tinha feito sua piramidezinha. O conhecimento passou de geração em geração, e Quéfren, filho de Quéops, e Miquerinos, o neto, completaram o trio das pirâmides de Gizé. Para botar de pé os monumentos, que nada mais eram que tumbas luxuosas para os faraós, estima-se que 30 mil egípcios trabalharam durante 20 anos. "Esses trabalhadores eram trocados a cada três meses. A maioria trabalhava no corte e transporte dos blocos", diz Antonio Brancaglion Jr., egiptólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além do pessoal que pegava pesado, havia arquitetos, médicos, padeiros e cervejeiros. Tudo indica que esses caras eram livres (e não escravos), pagos com cerveja e alimentos. Mas há controvérsias. Alguns apostam em 100 mil trabalhadores, além de teses que atribuem a obra a ETs!
 Pedra sobre pedra
Cerca de 2,3 milhões de blocos ajudaram a botar de pé a pirâmide de Quéops
As pedras foram o começo de tudo - cada bloco pesava em média 2,5 toneladas, mas isso variava: o tamanho diminuía de acordo com a altura, e em lugares específicos, como a câmara do rei, havia pedras gigantes, estimadas em até 80 toneladas. Depois de cortados nas pedreiras, os blocos eram lixados e catalogados: escrevia-se o nome do faraó e o do grupo de trabalhadores responsáveis. No total, 2,3 milhões de blocos teriam sido usados na construção da pirâmide de Queóps
 É PEDREIRA!
 Para erguer as pirâmides, o terreno foi aplainado. Além de deixar a terra pronta para o trabalho, o processo rendeu uma fonte natural de matéria-prima: o platô era rico em rochas calcárias, um tipo de pedra mais mole, extraída com ferramentas de cobre. Rochas de calcário mais fino, usadas para dar brilho à pirâmide, vinham da região próxima de Tura
 VOU DE BARCO
 O faraó escolheu granito para decorar a câmara do rei, onde ele foi sepultado. Como a pedra não era encontrada na região, os blocos vinham de até 800 quilômetros de distância, da pedreira de Assuã, em barcos pelo rio Nilo. Os pesadíssimos blocos, alguns com até 80 toneladas, também revestiam as câmaras e os corredores internos
 BASE CONCRETA
 Para alguns pesquisadores, a análise da taxa de minerais presentes em partes dos blocos da pirâmide mostra que pode ter sido usado um tipo de concreto primitivo tanto na parte externa quanto na interna. Se a teoria for verdade, essa terá sido a primeira aplicação de concreto de que se tem notícia - antes disso, os pioneiros eram os romanos
 Rock'n'roll
Teorias explicam como os egípcios rolaram as pedras
A proeza de transportar os blocos gigantes é tão complexa que até hoje não existe consenso. Isso pode ter sido feito com cordas; com uma espécie de trenó de troncos de madeira cilíndricos, sobre os quais as pedras deslizavam; ou com a ajuda de tafla, um tipo de barro que, molhado, fica escorregadio e ajuda a deslizar os blocos. Depois de assentados, os blocos eram cortados em um ângulo de 51º, o que deixava a face da pirâmide lisa
 SUBINDO A LADEIRA
 O que é - Uma rampa feita de terra e cascalho, com escoras nas laterais
 Pontos positivos - Como ocuparia apenas uma das faces, esta rampa deixaria as laterais da pirâmide livre - assim, seria mais fácil checar se a obra estava "torta"
 Pontos negativos - Para que a rampa alcançasse a altura total, teria que ser muuuito longa, e o trabalho teria que ser interrompido toda vez que fosse necessário espichá-la
 ZIGUEZAGUE
 O que é - Rampa única em ziguezague construída em torno da pirâmide. É a teoria mais popular atualmente
 Pontos positivos - A rampa teria uma inclinação constante, ao contrário da rampa única
 Pontos negativos - A rampa tampa a visão da totalidade da obra. Assim, haveria o risco de, ao desmanchar a rampa, perceber que as faces da pirâmide estavam tortas
 DEBAIXO DOS CARACÓIS
 O que é - Até os 43 metros de altura, usa-se a rampa externa. A partir daí, seria usada uma rampa interna em espiral, recuada a 15 metros da face externa. No fim de cada andar, uma aresta permite que as pedras girem 90º
 Pontos positivos - Reaproveitaria o material da rampa externa para o resto da construção. Um sistema de contrapeso carregaria as pedras maiores
 Pontos negativos - Como a linha não é reta, a rampa aumentaria a distância pela qual os blocos teriam que ser arrastados
 PAU NA MÁQUINA
 O que é - Várias teorias sugerem que máquinas eram usadas para subir os blocos pirâmide acima. Essas máquinas poderiam ser guindastes, alavancas ou sistema de gangorras, com um cesto de areia de um lado e o bloco de outro
 Pontos positivos - As máquinas dariam alívio à dureza do trabalho braçal
 Pontos negativos - Faltaria espaço para manobrar, e as máquinas não dariam conta dos blocos maiores
 TAMANHO É DOCUMENTO
 Comparada com prédios e campos de futebol, a pirâmide sai ganhando
 ALTURA - 147 metros
 Equivale a - Prédio de 49 andares - o Copan, por exemplo, tem 140 metros
 PESO DE 1 BLOCO - 2,5 toneladas
 Equivale a - 3 Fuscas de 800 quilos
 PESO TOTAL - 6,5 milhões de toneladas
 Equivale a - 11,5 navios de carga carregados
 ÁREA - 13 acres (52 598 m2)
 Equivale a - 6 campos de futebol
Marina Motomura(Revista MUndo Estranho, edição70). 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

SOLANO LOPES E A GUERRA DO PARAGUAI

Solano López esperava um cenário muito diferente quando desafiou as maiores potências da América do Sul na Guerra do Paraguai. Pagou por isso com a vida da maioria da população de seu país, inclusive a sua.
Em 13 de dezembro de 1864, o Paraguai declarou guerra ao Brasil, iniciando o que seria o conflito mais sangrento da América Latina, em que mais de 300 mil vidas se perderiam dos dois lados, entre batalhas, fome e doenças. O Paraguai seria aniquilado na guerra: perdeu 75% de sua população adulta e reduziu seu papel geopolítico a pouco mais que um estado-tampão entre Argentina e Brasil, oscilando entre ser dominado politicamente por um ou outro.
 O ditador do Paraguai, Francisco Solano López, entrou na guerra conhecendo alguns fatos. A população do Brasil era dez vezes maior que a do Paraguai, cerca de 8 milhões de habitantes, contra 800 mil. A Argentina, forte aliada do Brasil, tinha cerca de 2,5 milhões. Ambos os países tinham acesso desimpedido ao oceano Atlântico para comprar armas, navios e o que mais precisassem da Europa e dos Estados Unidos, enquanto o único acesso ao mar do Paraguai era por meio dos rios Paraná e Prata, cruzando o território argentino.
À primeira vista, e sabendo como a guerra terminou, López parece ter sido um louco suicida. Ele era impulsivo e autoritário. Mas suicida ele não era. E tinha um plano - ou pelo menos uma aposta. E, no seu jogo, conquistar acesso ao mar era fundamental.

Tríplice Aliança ao contrário
A primeira coisa sobre o plano de López é que ele não esperava ter de enfrentar Brasil, Uruguai e Argentina, situação que se consolidou com a criação da Tríplice Aliança, em 1º de maio de 1865. Ao contrário, esperava ter Uruguai e Argentina a seu lado e quem sabe unificar os 3 países ao fim da guerra e criar uma grande nação nas fronteiras do antigo vice-reino do Rio da Prata, do Peru à Patagônia. "López imaginava uma Tríplice Aliança ao contrário", diz Francisco Doratioto, professor da Universidade de Brasília e autor de Maldita Guerra e Osório.
Os uruguaios eram aliados de López, e a guerra só começou, tecnicamente, porque o Brasil invadiu o Uruguai, em guerra civil desde 19 de março de 1863, em apoio ao ex-presidente Venancio Flores e 1,5 mil voluntários do Partido Colorado, que desafiou o governo de Montevidéu, controlado pelo Partido Nacional (ou Blanco). Os brasileiros, que formavam um terço da população do Uruguai, apoiavam Flores e passaram a sofrer ataques dos partidários blancos. Em 30 de agosto de 1864, o Paraguai havia mandado um ultimato ao Brasil: invadir o Uruguai seria um ato de guerra.
O Brasil ignorou o ultimato e declarou guerra ao governo blanco em 10 de novembro de 1864, com o apoio tácito da Argentina. "Nem Argentina nem Brasil acreditavam que o Paraguai reagiria a um ataque ao Uruguai", diz o jornalista Moacir Assunção, autor de Nem Heróis, Nem Vilões: Curepas, Caboclos, Cambás, Macaquitos e Outras Revelações da Sangrenta Guerra do Paraguai, que chega este mês às livrarias. Mas López cumpriu a ameaça e atacou o Brasil. Não na fronteira com o Uruguai, mas em Mato Grosso, em dezembro de 1864.
López não contava só com o apoio dos blancos. Havia recebido promessas de Justo José Urquiza. Governador da província de Entre Rios, Urquiza era o maior proprietário rural da Argentina, presidente entre 1854 e 1860, e inimigo do presidente argentino, Bartolomé Mitre. O plano de López era invadir o país ao norte, juntar-se às forças de Urquiza ao sul e seguir para Buenos Aires. Se tudo funcionasse, os 3 aliados - Paraguai, Uruguai e Argentina - atacariam o Brasil.

Blitzkrieg paraguaia
A aposta paraguaia não era apenas diplomática. O Exército paraguaio era muito maior que o brasileiro no começo da guerra. Os paraguaios tinham uma força de 64 mil homens, e os preparativos para a guerra começaram meses antes da declaração, enquanto as tensões entre Brasil e Uruguai se acumulavam. O Exército brasileiro tinha 18 mil efetivos, mal-armados e malvestidos, informações que os blancos uruguaios fizeram questão de levar ao ditador paraguaio. Segundo Doratioto, López queria fazer uma blitzkrieg do século 19. "Ele tinha um plano inteligente e bem estruturado. Era um ataque-relâmpago, uma coisa à frente do seu tempo."
A blitzkrieg paraguaia também contava com outra manobra inteligente: fazer os brasileiros acreditarem que os paraguaios atacariam por outra região, causando um imenso problema logístico. A ofensiva em Mato Grosso envolveu duas colunas e 9 mil homens, que conquistaram cidades como Albuquerque, Coxim e Corumbá até abril de 1865. Os brasileiros esperavam um ataque à capital da província, Cuiabá, que nunca aconteceu. Sem estradas que chegassem à região, a contraofensiva brasileira levou de abril a dezembro de 1865 para se mover de Minas Gerais ao Mato Grosso. Quando finalmente alcançaram a província, os paraguaios simplesmente se retiraram - exceto de Corumbá, onde resistiram até junho de 1867.
Enquanto os brasileiros se perdiam no próprio Brasil, López preparava seu verdadeiro ataque. O Paraguai declarou guerra à Argentina em 18 de março de 1865. Em 13 de abril, um contingente enorme de tropas paraguaias - 37 mil homens - invadiu a província de Corrientes pelo rio Paraná. Com Corrientes capturada quase sem resistência, em maio, as tropas se dividiram. Cerca de 12 mil ficaram na cidade e 25 mil rumaram para o Rio Grande do Sul, onde tomaram São Borja, em 12 de junho, e Uruguaiana, em 5 de agosto. Era o plano de López em ação.

Traição na Argentina
A primeira má notícia para López aconteceu no início da invasão à Argentina. Comandando as tropas para a retomada de Corrientes, apareceu ninguém menos que Justo José Urquiza. O caudilho havia feito promessas a López, mas havia recebido outra visita. O general e senador brasileiro Manuel Luís Osório, com quem teve uma conversa estratégica. "Os brasileiros compraram Urquiza", diz Assunção. Ele foi convencido por Osório de que lucraria muito mais apoiando Brasil e o governo argentino. Para a surpresa de López, o ex-presidente argentino conduziu suas tropas com rara ferocidade. A decisão de Urquiza também surpreendeu muitos argentinos, e vários desertaram a favor do Paraguai nos primeiros meses da campanha. De forma que, em 25 de maio de 1865, quando uma tropa argentina conseguiu reconquistar a cidade de Corrientes, a glória durou menos de 24 horas: os argentinos recuaram, deixando a cidade pronta para ser reconquistada pelos paraguaios. Ainda assim, López destituiu do comando o general Resquín, líder da invasão, que seria executado em janeiro de 1866.

Baixas de uma ditadura
O plano de López começou a naufragar, literalmente, no arroio Riachuelo, em 11 de junho de 1865. A ideia era tomar a esquadra brasileira, de 9 vapores, atacando-os por meio de abordagem - os soldados saltam para dentro do navio inimigo de forma a capturá-lo intacto. A chave do ataque era o fato de os navios brasileiros serem a vapor. À noite, apagavam-se as caldeiras, acesas novamente de manhã. Levava uns 20 minutos até a água ferver e o navio estar em condições de se mover. Assim, os navios paraguaios - também a vapor, e em mesmo número que os brasileiros - poderiam se aproximar da frota nacional.
Uma avaria, no entanto, atrasou o ataque. E aqui o autoritarismo político do Paraguai se mostrou uma desvantagem. "Ninguém ousava contrariar López, que havia ordenado um ataque para aquele dia", diz Doratioto. Com medo do ditador, os paraguaios atacaram com dois navios a menos e só às 9h30, quando os barcos brasileiros estavam totalmente operantes. As abordagens foram repelidas a canhonaços. Ao fim do dia, a esquadra paraguaia jazia no fundo do rio Paraná. A Batalha de Riachuelo foi um desastre que isolou o país do resto do mundo.
Quando os paraguaios invadiram o Rio Grande do Sul, já era tarde para os blancos uruguaios. Em 20 de fevereiro de 1865, brasileiros e colorados haviam conquistado Montevidéu e Venancio Flores assumiu um governo pró-Brasil. Em 18 de agosto, duas semanas após tomar a cidade, os paraguaios se renderam em Uruguaiana, diante de dom Pedro 2º, Bartolomeu Mitre e Venancio Flores. Foi o fim da ofensiva do sul. Em 31 de outubro, as tropas paraguaias em Corrientes se retiraram. A partir daí, a guerra seria uma longa e agonizante defensiva para Solano López, culminando com a captura de Assunção, em 1º de janeiro de 1869. A fuga do ditador pelo interior do país acabou em 1º de março de 1870. Numa emboscada à última tropa paraguaia em Cerro Corá, o cabo brasileiro Chico Diabo atingiu o ditador com uma lança. Sem se render, López foi morto a balas ali mesmo.

O americano no Paraguai
Além de Urquiza e dos blancos uruguaios, havia outro personagem soprando confiança nos ouvidos de López. Ninguém menos que os Estados Unidos da América. Segundo o livro de Moacir Assunção, "no Paraguai, o cônsul americano Charles Ames Washburn ofereceu apoio ao país contra o Brasil ainda antes da guerra e chegou a instigá-lo a iniciar o conflito".
Washburn era cônsul desde 1861, ainda no governo do pai de Solano, Carlos Lopes. E o que ele prometia não era completamente infundado: Brasil e EUA andavam às turras desde o início da Guerra de Secessão (1861-1865). Os americanos unionistas, do Norte, viam os brasileiros como uma monarquia europeia implantada na América e um país profundamente escravocrata, ambas verdades que os brasileiros não gostavam de ouvir. Artigos na imprensa durante a guerra eram principalmente antibrasileiros, quando não idealizando López como um libertador republicano contra uma monarquia de escravos.
Já os brasileiros não ocultavam suas simpatias pelos confederados do Sul, escravocratas, agrários e aristocráticos como eles. Isso levou a alguns incidentes, em que brasileiros recebiam calorosamente os navios confederados, que atacavam navios unionistas na costa brasileira impunemente, enquanto os navios unionistas eram quase proibidos de frequentar portos do Brasil. Em 1864, o ataque de um navio unionista a um confederado em águas brasileiras quase comprometeu as relações diplomáticas.
Em duas ocasiões, Washburn quase fez com que sua promessa a López fosse cumprida. Quando a guerra começou, o diplomata estava em férias no seu país. Em 1866, o navio americano Shamokin tentou furar o bloqueio da Marinha brasileira e levá-lo a Assunção. O comandante prometeu que só seria interrompido "por força maior", o que fez os brasileiros cogitarem abrir fogo. Washburn caíria em desgraça e seria torturado pelas forças de López, que havia ficado paranoico com a possibilidade de conspiração. Em 1868, outro navio foi enviado para retirá-lo - e, desta vez, falaram abertamente em guerra com os brasileiros. Em ambas as situações, os brasileiros engoliram seu orgulho, evitando o pior.(Fabio Marton, Aventuras na História, maio de 2012).