sexta-feira, 29 de agosto de 2014

CONHEÇA A ORIGEM DE DEUS

Mais da metade dos seres humanos do planeta acredita num mesmo deus único, o Deus com maiúscula dos cristãos, judeus e islâmicos. Mas esse deus tem uma origem e uma história
Shemá Israel. Adonai Eloheinu, Adonai Echad 
("Ouve, Israel. O Senhor é nosso Deus. O Senhor é um.") 
Assim começa o Shemá, a reza mais importante do judaísmo. Ao repeti-la duas vezes ao dia, os judeus professam sua fé exclusiva em Yahweh, deus único, onipotente, onisciente. Esse é o deus mais popular do mundo: entre cristãos, judeus e islâmicos, 3,6 bilhões de pessoas professam uma das versões do culto a Yahweh, mais de metade de todos os seres humanos. Qual é a origem desse Deus com maiúscula, que dominou meio mundo? E de onde surgiu essa ideia que há apenas um deus, ao contrário do que quase todos os povos acreditaram durante a História? 
Segundo a Bíblia (e o Alcorão), é simples: Deus existe, e só ele. Yahweh reinou desde sempre, tendo contato direto com os primeiros homens, de Adão até Noé, quando o Dilúvio matou toda a humanidade menos sua família. Depois de Noé, seus filhos se dividiram para repovoar o mundo e os povos passaram a cultuar outros deuses, erroneamente. Há cerca de 4 mil anos, Deus se revelou a Abrão, um sumério da cidade de Ur (no atual Iraque), que mudou o nome para Abraão. Após milênios de desventuras, incluindo um período de escravidão no Egito, que termina com as sete pragas de Moisés contra os egípcios, os descendentes de Abraão conquistaram um pedaço de Canaã e fizeram dele sua pátria. Desde Abraão até hoje, os hebreus seguem o mesmo deus.



Fenícios e hebreus 
Canaã era um território que correspondia às terras de Israel, Palestina, Líbano, Jordânia e Síria. Os cananeus se dividiam em pequenos reinos, como Moab, Amon e Edom, e cidades-estado, como Tiro, Sidon e Biblos - os habitantes dessas últimas ganharam dos gregos o apelido de "fenícios" e fundaram um império. Cananeus falavam línguas semíticas muito próximas, usavam o mesmo alfabeto e cultuavam mais ou menos os mesmos deuses. Cercados por todos os lados de pagãos cananeus, falando quase a mesma língua e usando o mesmo alfabeto, mesmas roupas e mesmos utensílios, viviam os hebreus, no Reino de Israel - que, no entanto, não se consideravam cananeus. Ou ao menos não se consideravam na época em que a Tanakh (o Velho Testamento) foi escrita, entre os séculos 6 e 5 a.C., contando sua origem estrangeira. 
Essa migração não foi confirmada pela arqueologia. Não há evidências de uma grande colonização estrangeira na região. Não há menção egípcia ao cativeiro dos hebreus. As campanhas militares do final da Era do Bronze tinham outros protagonistas: os egípcios, que tratavam a região como seu quintal, e os povos do mar (veja mais na página 48), que a invadiram pelo norte. Em 1400 a.C., quando Josué teria conquistado Jericó, a cidade estava deserta havia 150 anos. 
Em outras palavras, os hebreus não eram inimigos dos cananeus. Eles eram cananeus. "O crescente consenso entre os arqueólogos é que, no início, a maioria dos israelitas era cananeu", diz Robert Gnuse, professor de Velho Testamento na Universidade de Loyola, EUA. "Aos poucos, as pessoas que desenvolveram uma identidade israelita tenderam a viver no alto das colinas de Canaã. Já as que mantiveram a identidade canaanita habitavam as planícies." 

Deus e sua esposa 
A Bíblia narra a história dos hebreus como a imposição de um deus estrangeiro a pagãos canaanitas. "Graças ao relato bíblico, o monoteísmo da antiga Israel tem sido considerado uma revolução contra o pensamento religioso de seus vizinhos", diz Mark S. Smith, professor de Estudos Bíblicos na Universidade de Nova York, no livro The Origins of Biblical Monotheism (As Origens do Monoteísmo Bíblico, inédito no Brasil). "Porém, estudos mais recentes têm buscado situar a história bíblica do monoteísmo em seu contexto cultural mais amplo", isto é, o contexto do politeísmo canaanita. 
Textos e artefatos encontrados em Ugarit (atual Ras Shamra, na Síria), datados dos séculos 15 a 12 a.C., indicam que os hebreus cultuavam o panteão de deuses cananeus. "As quatro camadas da sociedade humana - rei, nobres, camponeses e escravos - eram espelhadas em quatro camadas de divindades", diz o historiador canadense K. L. Noll no artigo Canaanite Religion ("Religião Cananita"). O topo do panteão era ocupado por um deus chefe, El, e por sua esposa, Asherah. Abaixo vinham os deuses cósmicos, como Baal e Anath, que controlavam a tempestade, a fertilidade e outros aspectos naturais. Na terceira camada vinham os deuses que auxiliavam na vida diária das pessoas, como Kothar-wa-Khasis, o deus da habilidade. Por fim os mensageiros, que não eram mencionados por nome. 
Essa hierarquia de deuses é chamada de henoteísmo (ou monolatria). "Há uma distância muito curta entre essa noção henoteísta e a ideia monoteísta, ou seja, a de que um deus é realmente Deus e quaisquer outros seres sobrenaturais são criaturas insignificantes sob seu comando", diz Noll. "A religião da Bíblia deu esse passo." Entre os hebreus, os deuses das duas camadas intermediárias foram eliminados, restando apenas o deus-chefe e os mensageiros. "Anjo" vem do grego angelos, tradução para o hebraico malak, "mensageiro". 
El, o deus-chefe cananeu, é um dos nomes de Deus na Bíblia, geralmente com um adjetivo, como El Shaddai, "deus todo poderoso" ou Elohim, "deus dos deuses". O nome Yahweh, por sua vez, não aparece em textos de outros cananeus. A primeira menção a Yahweh é em inscrições egípcias do século 14 a.C., que se referem aos "nômades de Yahweh" e o associam com pessoas que viviam em Edom - não nas terras dos hebreus, mas um pouco mais ao sul. 
O Velho Testamento parece sugerir uma origem politeísta, principalmente em seus livros mais antigos (veja quadro). Existe várias passagens como "Senhor, quem é como Tu entre os deuses?" (Êxodo 15:11). Ou: "Terrível é Deus na assembleia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam" (Salmos 89:7), que parece falar em algum tipo de panteão. 
Quando o culto a Yahweh se expandiu ao norte, a religião dos hebreus começou a mudar. "Primeiro, houve uma fusão de várias divindades na figura de Yahweh, entre elas El, Asherah e Baal", diz Mark Smith. Basta ler os poemas bíblicos mais antigos para perceber essa fusão de deuses. Na Bíblia, Yahweh assume os atributos de Baal como senhor da tempestade ("A voz do Senhor despede relâmpagos", Salmos 29:7). Achados arqueológicos mostram sua fusão com El, ao assumir a esposa dele: em um templo hebreu do século 9 a.C., está escrito: "Yahweh de Samaria e sua Asherah". Em uma tumba do século 8 a.C. do reino de Judá, alguém deixou: "Yahweh e sua Asherah". Pois é, os hebreus achavam que Deus era casado. 

Yahwehmania 
Ao longo dos séculos, sacerdotes, profetas e monarcas reforçaram o culto exclusivista a Yahweh. Por volta de 700 a.C., definitivamente havia uma religião separada daquela praticada pelos vizinhos, com um grande foco nesse deus. Mas não era universal. "Se você entrasse numa máquina do tempo e voltasse à Palestina daquela época, veria que a maioria das pessoas era politeísta. Outras eram henoteístas. Mas elas não se definiam assim. Não se preocupavam com isso", diz Gnuse. 
No entanto, um acontecimento mudaria essa história para sempre. Em 586 a.C., as muralhas de Jerusalém vieram abaixo. O rei babilônio Nabucodonosor invadiu a cidade, queimou o mítico Templo dedicado a Yahweh e mandou boa parte dos judeus para o exílio na Babilônia. "O exílio durou apenas meio século, mas teve uma força criadora impressionante", diz o historiador britânico Paul Johnson no livro História dos Judeus. "Assim como os períodos de Abraão e Moisés haviam produzido a religião de Yahweh, os anos durante e pós-exílio desenvolveram e refinaram o judaísmo." Durante o exílio, rabinos e escribas compilaram e editaram as tradições orais e os pergaminhos trazidos do templo destruído, agregando textos novos para reverenciar Yahweh e condenar o culto a outros deuses (leia quadro), dando origem ao Tanakh, o livro sagrado do judaísmo, o que deu forma definitiva à religião. Em 539, o rei persa Ciro derrotou os babilônios e permitiu a volta dos judeus para Canaã, o que foi visto como uma intervenção direta de Yahweh. Nos anos que se seguiram, os editores deram os últimos retoques no seu novo projeto de fé. 
O primeiro dos dez mandamentos afirma: "Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:3). O que era a preferência por um deus torna-se uma lei vinda do céu, escrita na pedra, e punível com morte. 


 Eduardo Szklarz (Aventuras na História, janeiro de 2013).
 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

OS MAIS PROCURADOS DO OESTE

Eles mataram, roubaram, desafiaram a lei e ficaram eternamente famosos
A partir do início do século 17, quando os imigrantes europeus reforçaram a habitação da Costa Leste dos Estados Unidos, a fronteira do país começou a mudar rapidamente. Nesse período, muitos lugares foram chamados de "oeste", denominação vaga, que um dia englobou toda a região para além do rio Mississipi. As coisas só ficaram mais claras no início do século 19, quando o território americano foi sendo definido. Em 1803, o presidente Thomas Jefferson comprou da França áreas do meio-oeste que hoje abrangem 15 estados. Décadas depois, a parte sudoeste foi negociada com os mexicanos após uma guerra. A expansão, no entanto, não era acompanhada de ocupação. Essa situação só mudou de figura depois de 1848, quando uma grande quantidade de ouro foi achada na Califórnia. A possibilidade de fortuna atraiu gente de todo canto, que precisou desbravar terras desérticas, inóspitas, sem água e com índios hostis. Mais tarde, os fora da lei se juntariam a todos esses perigos.
Na segunda metade do século 19, veteranos da Guerra do México e da Guerra Civil americana se interessaram pelo pedaço oeste do país. Foragidos também. Os poucos xerifes existentes eram cidadãos comuns que trabalhavam em cadeias precárias, onde as fugas e os linchamentos eram fáceis. A chegada desses tipos - e de seus revólveres -, combinada com a ausência de leis ou de pessoas aptas a aplicá-las, fez surgirem alguns dos criminosos mais célebres da História. Nomes como Jesse James, Butch Cassidy e Billy the Kid fizeram a fama do crime no Velho Oeste e ajudaram a criar o folclore do fora da lei romântico duelando em cidades desertas. Mas foi a arte que fortaleceu a imagem desses bandidos. Primeiro, com os shows de caubóis e a literatura. Depois, com o cinema. Astros como John Wayne, Clint Eastwood e até o ex-presidente Ronald Reagan eternizaram a temática western, vista em obras recentes, como Bravura Indômita.


Os fora da lei
Os bandidos que barbarizaram os EUA
Jesse James
O começo: nasceu Jesse Woodson James em 1847, em Kearney, Missouri.
A fama: depois de lutar com os sulistas na Guerra Civil, passou a roubar bancos e trens com seu irmão, Frank, e com a família Younger. Foi chamado de Robin Hood e teria matado sozinho ao menos 16 pessoas.
O fim: morreu aos 34 anos com um tiro do aliado Robert Ford, de olho na recompensa oferecida pelo governo do Missouri.

Sam Bass
O começo: nasceu em 1851 perto de Michell, Indiana.
A fama: saiu de casa aos 18 anos e começou a assaltar carruagens. Sua especialidade foi o roubo a trem. Em 1877, levou com outros criminosos 65 mil dólares em moedas de ouro de uma composição da Union Pacific.
O fim: foi perseguido pela força policial chamada de Texas Rangers, que o feriu. Sua morte ocorreu no exato dia em que completou 27 anos.

Jim "Killer" Miller
O começo: nasceu James B. Miller em 1866, em Van Buren, Arkansas
A fama: matador de aluguel, usava uma placa de ferro embaixo da roupa, hábito repetido por Clint Eastwood em Por um Punhado de Dólares. Frequentava a igreja, não fumava e não bebia.
O fim: foi capturado no Texas e mandado para Oklahoma, onde ficou preso. Na noite de 19 de abril de 1909, um grupo de 40 pessoas invadiu sua cela e o enforcou.

Butch Cassidy
O começo: nasceu Robert LeRoy Parker em 1866, em Beaver, Utah
Atuação: Argentina e Bolívia.
A fama: seu crime preferido era roubar trens e bancos. Atuou sozinho, com parceiros como Sundance Kid e juntamente com a gangue Wild Bunch.
O fim: para não ser capturado, fugiu com Sundance para a Argentina. Uma das versões diz que, prestes a ser pego no interior da Bolívia, ele se matou em 1909 depois de atirar no colega.

Billy The Kid
O começo: nasceu Henry McCarty ou William Bonney em 1859/60, em Nova York.
A fama: começou a roubar na adolescência e dizem que matou até 27 pessoas. Outras fontes citam apenas quatro assassinatos. Foi um habilidoso atirador.
O fim: após ser condenado à forca pela morte de um xerife, fugiu da prisão, matando dois guardas. Morreu aos 21 anos com um tiro do xerife Pat Garrett.

Belle Starr

O começo: nasceu Myra Belle Shirley em 1848, em Washington County, Missouri.
A fama: ficou conhecida como a Rainha dos Bandidos por causa da amizade e do romance com criminosos famosos. Foi cúmplice em assaltos, escondeu Jesse James em seu rancho e foi mentora de vários roubos.
O fim: morreu aos 41 anos com um tiro nas costas. Entre os suspeitos da execução, um de seus filhos.

John Wesley Hardin
O começo: nasceu em 1853 em Bonham, Texas.
A fama: foi o gatilho rápido mais conhecido da sua região. Matou ao menos 21 homens. Racista, fez sua primeira vítima, um ex-escravo, aos 15 anos.
O fim: condenado a 25 anos de trabalhos forçados na prisão, foi solto antes do tempo. Voltou ao crime e, em 1895, levou um tiro pelas costas de um desafeto.

130 anos depois
Billy the Kid continua dando o que falar. Em dezembro de 2010, o então governador do Novo México, Bill Richardson, negou um pedido de perdão póstumo ao criminoso. Autora da ação, a advogada Randi McGinn diz que Billy teria feito um trato em 1879 com o então governador, Lew Wallace. Em troca do testemunho contra uma quadrilha, ele seria perdoado. Alguns dizem que Billy cumpriu a sua parte, mas Wallace não. Ele, então, fugiu da cadeia, matou de novo e morreu em 1881. Para Richardson, os detalhes do acordo não são conhecidos, o que impede o perdão.


 Felipe Lavignatti (Aventuras na História, junho de 2013).
 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Como o acidente na usina de Three Mile Island mudou a trajetória da energia nuclear

Antes do colapso dos reatores de Fukushima, em março, e da catástrofe de Chernobyl, em 1986, a usina de Three Mile Island, na Pensilvânia, redefiniu os rumos da exploração da energia nuclear nos Estados Unidos. Após o acidente de 1979, o programa atômico local foi praticamente congelado por três décadas e suas consequências ecoaram por todo o planeta. Assim como o tsunami japonês hoje mergulhou os investimentos mundiais do setor na incerteza, Three Mile acendeu o debate sobre o legado atômico, ainda que com fins pacíficos. A então "energia do futuro" escancarou seus riscos e ganhou contornos de "força diabólica" em 28 de março.
Às 3h53 daquela quarta-feira, parte dos moradores da cidade de Harrisburg acordou com um barulho ensurdecedor. Lembrava o som de uma chaleira, mas era tão potente quanto o de um jato decolando. Vinha da usina na ilha de Three Mile, no rio Susquehanna. Abaixo dos condensadores de 57 m de altura, na sala de controle do complexo, quatro funcionários tentavam se manter acordados com café, observando as 1,2 mil luzes indicadoras do painel central, que tomava três paredes. Involuntariamente, eles transformariam uma falha mecânica num incidente muito mais sério.

 Toda usina nuclear é, em verdade, um grande motor a vapor. Durante a operação normal, a temperatura do reator nuclear é mantida sob controle pela água (ou outro elemento que favoreça a refrigeração) - pense numa panela de pressão no fogo: enquanto há alguma coisa dentro dela, o calor é transferido para o que está sendo cozido e a temperatura se mantém constante. Mas, se a panela ficar vazia, ela superaquece e pode acabar destruída. As bombas de água de Three Mile falharam por motivos ainda hoje desconhecidos. (As de Fukushima, coincidentemente, estão no centro da crise no Japão.) Medidas de segurança faziam com que muitas funções da usina fossem automáticas e a turbina parou de pronto. O acúmulo de vapor elevou a pressão, uma válvula automática se abriu e o liberou a cerca 100 kg por cm2. Foi esse o estrondo ouvido pelos vizinhos. Em oito segundos, o reator foi desligado também automaticamente, usando varetas de segurança, de material que absorve radiação, encaixando-se entre as varetas de combustível nuclear - bloqueando a reação em cadeia. Mas o efeito não é imediato, e o calor residual precisa ser contido por água ou por um fluido refrigerante especial. A bomba de fluido estava em manutenção e, mesmo sendo ativada como o esperado, o material não chegou ao reator. A válvula de emergência permaneceu aberta e ele perdeu ainda mais água.


Decisão errada

A equipe da usina fez o que pôde para tentar controlar a situação. O painel piscava insistentemente e alarmes tocaram, mas as informações que os funcionários recebiam eram confusas. Não sabiam da válvula aberta nem tinham nenhum indicador do nível de água ou fluido refrigerante dentro do reator. Assim, usaram os medidores de pressão para julgar a situação - como a pressão continuava a subir, concluíram que havia líquido no reator e cortaram o suprimento de água. Só pioraram a situação.
Enquanto os operadores debatiam o que fazer, o nível de água baixou a ponto de descobrir as varetas de urânio radioativo. Este derreteu e atingiu a água que ainda havia no fundo do reator. A água e o vapor contaminados continuaram a vazar pela válvula de emergência e formaram uma camada de aproximadamente 60 cm de líquido no chão das instalações.
Às 6h56, o diretor da usina declarou emergência. Minutos depois, uma sirene alertava todos os empregados para que abandonassem as áreas críticas. As autoridades locais foram avisadas na hora seguinte, e a notícia chegou à Casa Branca às 9h15. Às 11 horas, todo o pessoal já havia sido removido da usina, exceto os funcionários que tentavam resolver o problema. Ninguém sabia ainda que o núcleo havia derretido. Só por volta das 15 horas a falha foi identificada, e as bombas de refrigeração foram ligadas adequadamente uma hora depois.
Pela TV, a população recebia notícias contraditórias. O pânico foi geral: 140 mil pessoas fugiram de sua casa, as escolas fecharam e os fazendeiros esconderam seu gado, temendo uma chuva radioativa. Na sexta-feira, a notícia de que havia o acúmulo de hidrogênio na câmara de vapor levou ao temor de que a usina fosse explodir, mas a situação acabou controlada.
O reator foi fechado. A retirada do material radioativo começou no ano seguinte e terminou apenas em 1993. Reaberto em 1985, o segundo reator de Three Mile funciona até hoje.
A radiação liberada no incidente foi mínima, equivalente a 1/6 de uma chapa de raio X para as pessoas a 2 km da usina. Não houve vítimas, mesmo entre os funcionários.

Coincidência

Na verdade, houve uma: a reputação da energia nuclear. Protestos começaram nos Estados Unidos e se repetiram no mundo todo. Em setembro de 1979, Jane Fonda levou 200 mil pessoas às ruas de Nova York para pedir o cancelamento da construção de usinas nucleares. A atriz tornou-se a cara e a voz da militância antinuclear. Ela era a protagonista do filme A Síndrome da China (de James Bridges), lançado 12 dias antes do acidente, numa impressionante coincidência. Na trama, ela é uma repórter de TV que presencia uma parada de emergência dentro de uma usina. A diretoria, inescrupulosa, recusa-se a tomar as medidas adequadas e tenta encobrir a situação - material radioativo atinge o solo e torna inabitável uma área "do tamanho do estado da Pensilvânia" (pouco maior que Santa Catarina).
O nome do filme vem da ideia de que as substâncias radioativas liberadas num acidente assim poderiam corroer a crosta da Terra e chegar ao outro lado do mundo - a China. Era um termo corrente nas revistas populares de ciência, e um evidente exagero. As equipes de relações públicas da indústria nuclear rapidamente acusaram o filme de panfletismo radical e tecnofóbico, mas o episódio em Three Mile Island parecia cumprir uma previsão macabra. Para não parecer estar explorando o desastre, o estúdio tirou Síndrome de alguns cinemas, mas, ainda assim, foi o oitavo longa-metragem mais visto em 1979.
Empresas do setor passaram a ser acionadas na Justiça. Sob pressão do público e das leis, a construção de novas usinas caiu rapidamente. Mas o prego no caixão da indústria nuclear veio em 1986, quando a usina de Chernobyl, na Ucrânia, se incendiou e o teto desabou sobre o reator, que havia derretido, liberando uma quantidade imensa de radiação no ambiente. Houve falha humana. Trinta e duas pessoas morreram em poucos dias e, no mínimo, 5 mil nos anos seguintes. "O número de usinas no mundo se manteve praticamente o mesmo desde 1986, com algumas novas apenas substituindo as que eram desativadas", diz Ivan Salati, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

Retomada

No Brasil, as obras de Angra II ficaram paralisadas até 1998. "Após Three Mile Island, todos os reatores em operação e os em construção adotaram algumas modificações e introduziram sistemas de segurança adicionais justamente para que um acidente daquele tipo não ocorresse. Foram acrescentadas válvulas e modificados procedimentos e treinamentos para evitar erro humano", afirma o diretor de segurança da CNEN, Lárcio Vinhas. "Atualmente, há 58 usinas em construção no mundo, e o Brasil planeja mais quatro", diz Salati.
A maior causa da volta das usinas após Three Mile e Chernobyl é a demanda por energia limpa, que não agrave o aquecimento global. O substituto mais "barato", as usinas termoelétricas, queimam combustíveis fósseis, que têm forte impacto. "A energia nuclear é certamente uma das mais seguras em relação ao efeito estufa", afirma Salati.
As usinas nucleares produzem lixo atômico, mas esse é um resíduo sólido. Na atmosfera, só lançam vapor de água (não radioativo). Por isso, ambientalistas como James Lovelock (pai da tese de que a Terra é um organismo vivo) passaram a defender a opção nuclear na última década. A "renascença" da solução atômica levou um banho de água fria com o maremoto de março. A chanceler alemã, Angela Merkel, pediu o fechamento dos reatores nucleares mais antigos do país. Outras nações reavaliam seus programas e podem seguir o mesmo caminho. Países como a França e o Brasil, porém, não recuaram. Patrick Moore, um dos fundadores do Greenpeace e defensor da alternativa nuclear, acusou a imprensa de sensacionalismo: "Eles deveriam estar preocupados mais com os 500 mil desabrigados ou com os 10 a 15 mil que morreram por essa coisa (o tsunami). Os reatores não mataram ninguém". Entre os próprios ecologistas, a polêmica está mais acesa do que nunca. Para Kumi Naidoo, atual diretor-executivo do Greenpeace, a opção nuclear "é uma distração cara e mortífera às verdadeiras soluções", baseadas em fontes de energia não fósseis e renováveis.


Escala de perigo

Algumas das mais graves ocorrências já registradas
A Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU, adota 7 níveis de alerta nuclear.
De 1 a 3, trata-se de "incidentes" e, de 4 a 7, de "acidentes". A cada um, a gravidade é 10 vezes maior que o nível anterior, segundo o alcance e o impacto.
Fukushima - 11/3/2011 (Japão)
Terremoto e tsunami cortaram a energia das bombas de resfriamento de três reatores, que "derreteram".
Césio 137 - 13/9/1987 (Brasil)
Material de equipamento médico foi achado num lixão, contaminando catadores que o manusearam e o ambiente - quatro morreram.
Chernobyl - 26/4/1986 (Ucrânia)
É o mais grave. O sistema de controle à base de grafite falhou. Mortes passam de 5 mil.
Three Mile Island - 28/3/1979 (EUA)
Erro humano agravou defeito no sistema de refrigeração. Não houve vítimas.
Kyshtym - 29/9/1957 (Rússia)
Reacão química (não nuclear) no material armazenado na usina de Mayak causou uma explosão, que espalhou radiação por milhares de quilômetros. Mortes passam de 200.
Fabio Marton (Aventuras na História, julho de 2012). 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

HÓQUEI

O Hóquei é um esporte olímpico que pode ser jogado no gelo, em grama ou em quadra.
 A primeira modalidade de Hóquei  que surgiu foi em campo, também chamado de em grama, que é praticado por duas equipes de 11 jogadores cada. O esporte é praticado conduzindo a bola com um stick, nome dado ao taco que cada jogador possui em tal esporte, e tem como objetivo fazer o maior número possível de gols. Embora a tradição dessa prática remonte aos persas milênios atrás, o esporte é atribuído aos ingleses do final do século XIX. O desporto se popularizou nas colônias britânicas e, hoje, é praticado em todos os continentes. Todavia foi a categoria sobre o gelo que se tornou mais famosa no mundo.
 O Hóquei  sobre o gelo surgiu no Canadá como uma variante do Hóquei em campo. Soldados britânicos fizeram os primeiros jogos sobre rios e lagos congelados no rigoroso inverno canadense. O primeiro jogo em local fechado só foi realizado em 1875 em Montreal. Dois anos depois, foram elaboradas as regras para o esporte. Como o desporto foi transferido da grama para o gelo, algumas adaptações foram necessárias. A bola de borracha foi substituída por um disco de madeira e cada equipe passou a contar com nove jogadores. O sucesso foi rápido e várias equipes foram criadas no Canadá no decorrer da década de 1880. O número de equipes e a qualidade do jogo cativou o governador geral do Canadá Lord Stanley of Preston, que decidiu criar  uma competição na qual o vencedor ganharia um troféu de prata doado por ele, em 1898. O esporte havia começado a ser praticado nos Estados Unidos três anos antes. As esquipes dos dois países foram unificadas em uma única competição chamada de National Hockey League (NHL), em 1917, que dava ao vencedor o troféu que é chamado até hoje de Stanley Cup.
 Em 1920 começou a ser disputado o campeonato mundial de Hóquei no gelo, que tem como maiores campeões o Canadá, a União Soviética e a Suécia. A NHL é o campeonato de uma modalidade esportiva praticado há mais tempo no mundo e tem como maior vencedor o Montreal Canadians. Por outro lado, foi o primeiro campeonato a ser completamente suspenso durante a temporada 2004/2005 porque os jogadores se recusaram a jogar, uma vez que os times não tinham dinheiro suficiente para pagar seus salários. A consequência desse protesto foi a imposição de um teto salarial que é igual para todos os times, o que os nivelou e deixou a competição mais equilibrada.
 Todos os jogadores e juízes usam patins no Hóquei no gelo. Os jogadores usam seus sticks para conduzir o puck, disco que hoje é de borracha. O objetivo continua sendo o de fazer o maior número de gols. Pelo fácil deslocamento no gelo, o jogo de Hóquei é um dos mais rápidos do mundo. É também um dos jogos mais violentos e agressivos e, por isso, o equipamento de proteção é indispensável. Além disso, embora sejam proibidas, as brigas são comuns nos jogos. Outra adaptação feita ao jogo foi a redução do número de jogadores de nove para cinco por equipe. Mas o esporte permite a troca ilimitada de jogadores no decorrer do jogo.
 O Hóquei no gelo é o principal esporte do Canadá e muito popular nas regiões nordeste e centro-norte dos Estados Unidos. É muito admirado, sobretudo, em países de clima frio como Suécia, Rússia, República Checa, Finlândia, Eslováquia, Eslovênia e Letônia, mas também é praticado em países de clima temperado, tendo em vista que para praticar o Hóquei basta haver uma arena especializada.
Antonio Gasparetto Junior 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

MAURÍCIO DE NASSAU, O BRASILEIRO

Ele passou apenas sete anos no Brasil, mas hoje, 400 anos depois de seu nascimento, seu nome está associado à época de ouro da presença holandesa no Recife. Ao voltar para Europa, fracassado econômica e militarmente, e até a morte, Maurício de Nassau seria chamado de "o brasileiro"
 No amanhecer de 9 de maio de 1624, moradores de São Salvador da Bahia viram entrar no porto uma frota de 25 velas que exibiam reluzentes canhões pintados de vermelho. Eram os holandeses, ou flamengos, que em menos de um dia tomaram a cidade, num ataque à sede do governo-geral do Brasil. Ali, do outro lado do Oceano Atlântico, no novo mundo, iniciara-se mais um episódio da guerra de independência dos Países Baixos (atual Holanda) contra a Espanha – a quem América portuguesa foi anexada em 1580. No ano seguinte, os 1,9 mil soldados holandeses foram dominados e entregaram suas armas ao exército do rei da Espanha. A cidade foi reconquistada. Em 14 de fevereiro de 1630, os flamengos reapareceram, dessa vez com uma armada de 67 velas. Desembarcaram em Pau Amarelo, litoral norte de Pernambuco, e tomaram a direção de Olinda. Tentaram apoderar-se da vila e, no fim, estabeleceram-se no povoado do Recife. Onde ficariam por 24 anos. Nesse período, Recife se tornaria a Nova Holanda. E, para governá-la, a Companhia das Índias Ocidentais enviou para o Brasil o conde Maurício de Nassau. Ao desembarcar em 1637, ele daria início à chamada “idade de ouro” do Brasil holandês.
 O contexto histórico em que se deu a vinda dos holandeses para o Brasil é o dos conflitos europeus em torno da questão colonial. “Os Países Baixos rivalizavam com a Espanha pelo controle do rentável comércio marinho de especiarias asiáticas, escravos africanos e, como não poderia deixar de ser, pelo açúcar brasileiro”, afirma a historiadora Adriana Lopez, autora do livro Guerra, Açúcar e Religião no Brasil dos Holandeses. Assim, a capitania de Pernambuco tornou-se um inevitável campo dessa briga. Para a Companhia, a sede do governo-geral interessava politicamente e a capitania de Pernambuco economicamente. Pois no início do século 17, a região abrigava mais de 120 engenhos e, com as capitanias vizinhas, tornou-se “a área de produção açucareira mais importante do mundo”, segundo o historiador Evaldo Cabral de Mello, em O Brasil e os Holandeses.
 À Companhia das Índias Ocidentais, criada em 1621 pelos holandeses, cabia o monopólio sobre a conquista, o comércio e a navegação na América e na África. Assim como à Companhia das Índias Orientais estava reservada a parte oriental do mapa-múndi. “As duas dividiram entre si o mundo, tal qual os reis de Portugal e da Espanha pactuaram Tordesilhas”, diz Adriana.
 Expulsos da Bahia, os soldados da Companhia tomaram Recife e Olinda. A região transformou-se num só fogo: os engenhos foram abandonados, os canaviais incendiados. Moradores recrutados formaram patrulhas organizadas por Matias de Albuquerque, governador da capitania, que conseguiu manter, por cinco anos, os inimigos restritos ao povoado do Recife.
 Com a ajuda de Domingos Fernandes Calabar, luso-brasileiro conhecedor dos labirínticos rios pernambucanos, os holandeses dominaram parte do nordeste do Brasil, da foz do Rio São Francisco até o Rio Grande. De lá, partiram para a conquista do Maranhão (que só foi conquistado em 1641). A queda do Forte dos Afogados, no Recife, em março de 1633, abriu aos invasores o caminho para os engenhos da Várzea (onde hoje está um dos mais aprazíveis bairros do Recife). Também foram pilhados os engenhos em Goiana e Igarassu, com a conquista da vizinha Itamaracá. Os holandeses atacaram o Forte do Cabedelo, na Paraíba, ao norte, e Porto Calvo, em Alagoas, ao sul. Estavam assim tomado o Nordeste açucareiro e seus pontos de comunicação com a Europa, por onde chegavam mantimentos e escoava-se a produção.
 Conquistado o território, chegou a hora de a Companhia organizar sua nova colônia e colocá-la para funcionar – e lucrar. Para a tarefa, chamou um certo Johan Maurits von Nassau-Siegen. Nascido há exatos 400 anos, ele era filho de uma importante família da Europa e, aos 32 anos, tinha uma vitoriosa carreira militar. Parecia ser o homem certo para a função.
 Como governador da Nova Holanda, -receberia 1,5 mil florins mensais (o melhor terreno no centro do Recife custaria cerca de 2,5 mil florins) além de seu salário como coronel do Exército, mais uma ajuda de 6 mil florins para despesas pessoais. E ainda o direito a 2% sobre tudo o que fosse apreendido no litoral do Brasil. Era uma proposta irrecusável, principalmente para quem, na época, construía um palácio, em Haia, na Holanda, e estava cheio de dívidas.
 Mas o novo governador não veio só. Ao todo, uma comitiva com 46 artistas, cronistas, naturalistas e arquitetos, o acompanhou em sua viagem ao Brasil. Eles seriam responsáveis pela documentação não só das obras do governo, mas da sociedade recifense da época. “Projetaram uma nova cidade, reproduziram as paisagens, fizeram mapas, catalogaram animais e plantas, e retrataram o homem indígena e africano. A fidelidade e a precisão de todo esse trabalho faz com que até hoje seja considerado um importante acervo da história das ciências”, diz o historiador Leonardo Dantas Silva. Até então, o Novo Mundo jamais fora alvo de observações tão precisas. “É essa produção que faz, hoje, o período holandês ser tão lembrado por meio da figura de Nassau – que permaneceu no Brasil apenas sete dos 24 anos de ocupação”, afirma Adriana.
 Recife, que relatos da época chamam simplesmente de “povo”, era, no começo do século 17, um burgo “que os nobres de Olinda deviam atravessar pisando em ponta de pé, receando os alagados e os mangues”, escreveu José Antônio Gonsalves de Mello Neto, no clássico Tempo dos Flamengos. A situação agravou-se em novembro de 1631, quando os holandeses incendiaram Olinda. A cidade e “seus inacessíveis oito morros e casas distantes entre si” era difícil de defender das investidas dos portugueses e, por isso, acabou condenada à destruição pelos invasores.
 Quando chegou no Recife, em 1637, Nassau encontrou uma população de cerca de 7 mil pessoas obrigada a conviver nas piores condições de higiene e conforto. Para enfrentar a falta de habitações, iniciou a construção, na Ilha de Antônio Vaz (hoje, o bairro de Santo Antônio, no centro do Recife), do que veio a ser a Mauritsstaden ou, para nós, em bom português, a Cidade Maurícia. Ali, ele erigiu para si dois palácios, o de Friburgo e a casa da Boa Vista. E iniciou a urbanização do povoado, seguindo um projeto que contemplava ruas, praças, pontes, mercados, canais, jardins e saneamento, enfim uma cidade de verdade. Afinal, “os holandeses que aqui estiveram eram todos originários de aglomerados urbanos e, por isso mesmo, não poderiam pensar numa cidade que não fosse voltada para o urbano”, diz Leonardo.
 Nassau determinou que os moradores varressem a rua defronte suas casas e os orientou “a não despejar mais as imundices senão nas praias”, escreveu Mello Neto. O Recife (atualmente o Bairro do Recife) foi, enfim, em 28 de fevereiro de 1644, ligado à Cidade Maurícia com a construção da primeira ponte da América Latina (onde atualmente fica a ponte Maurício de Nassau). Para a inauguração, Nassau anunciou à população que um boi iria voar sobre suas cabeças. Para surpresa geral, na hora da festa, um boi, ou melhor, o couro de um boi enchido com palha, preso a uma corda, desceu por uma corda do alto do Palácio Friburgo.
 Recife tornou-se a cidade mais cosmopolita do continente. Holandeses, franceses, alemães, poloneses que integravam os quadros da Companhia das Índias acorriam para lá. Mulheres chegaram da Holanda e fizeram que o Recife, segundo um relato da época, tivesse os “bordéis mais vis do mundo”. A cidade passou por um terrível surto de sífilis. Doença de cidade grande.
 Apesar da relativa paz entre os invasores holandeses e os locais portugueses e brasileiros, durante as obras da Cidade Maurícia, a Companhia passou a questionar a administração de Nassau, que não obtinha os lucros que esperava. “Os novos dominadores eram formados em sua maioria por comerciantes e gente da navegação, acostumados a viver em áreas urbanas e, como tal, não se adaptaram à vida rural, onde se encontravam os principais núcleos da produção do açúcar”, diz Leonardo Dantas, em seu novo livro, João Maurício Brasileiro (ainda inédito). “Eis a primeira falha da tentativa de colonização holandesa no nordeste do Brasil: os invasores podiam ter conseguido apoderar-se dos engenhos, mas não das técnicas de produção de açúcar.”
 Ao conquistar Pernambuco, os holandeses confiscaram parte dos engenhos. Os senhores, então, tiveram de pagar caro ao novo governo por suas terras. Quem não teve como pagar ficou devendo. Nassau fazia vista grossa, mas, por pressão da Companhia, passou a cobrar os empréstimos. Assim, atraiu a revolta daqueles que sabiam transformar cana em açúcar. “Ao fazer isso, cultivou entre os donos de engenhos o sentimento de que era melhor – e mais barato – se livrar dos holandeses”, diz Pedro Puntoni, pesquisador da Universidade de São Paulo.
 A empresa exigiu o aumento da arrecadação e a cobrança imediata das dívidas e, como não foi atendida, em maio de 1643, o governo holandês mandou que Nassau retornasse. Porém, ele demorou quase um ano para obedecer. Num documento, o seu Testamento Político, Nassau recomendou que, na sua ausência, o governo fosse tolerante com práticas religiosas e exercesse sem rigor a cobrança dos créditos dos engenhos. Que conservasse as fortificações, não abusasse das torturas e fizesse o que fosse possível para atrair a simpatia dos comerciantes portugueses.
 Do outro lado do oceano, a Companhia das Índias empobrecia. Por isso, enviava menos recursos para a colônia que, aos poucos, entrou em colapso. “Do início da guerra de restauração, em 1645, até a expulsão total dos holandeses, em 1654, foram anos de muita penúria no Brasil holandês”, diz Adriana Lopez. Cercada no Recife, a população foi obrigada a incluir gatos, cachorros, cavalos e até ratos no cardápio.
 O conde Nassau voltou à Europa no mesmo barco que o trouxera ao Brasil, o Zuphen. Ao seu redor, navegava uma frota de 13 navios, e um carregamento avaliado em 2,6 milhões de florins, composto principalmente de açúcar, fumo, pau-brasil e madeiras de lei. Para se ter uma idéia, a ponte construída por Nassau anos antes custou 140 mil florins. Com ele, estavam, além de amostras de plantas, animais e artefatos indígenas, toda a produção de seus cronistas, pintores e naturalistas. Material que, desde aquele momento, iria dar à Europa um valioso testemunho das riquezas naturais e culturais no Novo Mundo. Esse acervo também fez com que Johan Maurits von Nassau-Siegen passasse a ser lembrado, até hoje, em terras do além-mar, como Maurício Brasileiro.

 Mariana Lacerda (Aventuras na História, junho de 2004).
 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A ILHA IMAGINÁRIA

Antes da Era dos Descobrimentos, os europeus tinham várias superstições em relação ao mar aberto. Algumas eram assustadoras, como as de monstros marinhos. Outras eram sedutoras, como as que falavam de Hy Brazil, ilha mitológica e paradisíaca situada em algum lugar do Atlântico. Sua origem provável é uma lenda celta, e ela é mais frequentemente localizada a oeste da Irlanda, um dos lugares onde esse povo viveu. Sua posição, no entanto, mudava a cada 7 anos, ou a cada vez que era avistada, dependendo da versão da lenda. Questões geográficas à parte, essa é a ilha imaginária mais desenhada nos mapas europeus dos séculos 14 e 15. O nome da ilha, a propósito, é uma das dezenas de explicações sobre o batismo de nosso país. O termo "brasil" já era usado desde a Idade Média para madeiras de tinta encontradas na Ásia. Quando os portugueses encontraram uma terra com esse tipo de madeira, a existência de um ilha com nome semelhante em tantos mapas teria ajudado o apelido a emplacar.(Aventuras na História, Dezembro de 2012).


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

NERO, O IMPERADOR CELEBRIDADE

O psicopata gostava de se exibir para a plebe, representar e disputar corridas equestres - e isso o tornou popular
Cruel, insano, depravado? É pouco. Nero era um monstro. Foi para a cama com a mãe e mandou matá-la. Envenenou o meio-irmão, degolou a primeira esposa e chutou a segunda, grávida, até ela morrer. O imperador romano também castrou um liberto, vestiu-o de mulher e se casou com ele numa festa de arromba. Mas o problema mesmo era que adorava cantar e atuar em público, algo imperdoável para quem tinha o título de princeps ("o primeiro no Senado").
Nero incendiou Roma e ficou tocando lira enquanto a cidade ardia em chamas. Condenou os cristãos pela tragédia, fazendo deles tochas humanas e jogando-os a cães ferozes. Não poupou nem são Pedro do martírio. E, enquanto o povo se lamentava sobre as ruínas, ele ergueu um palácio banhado de ouro. Em apenas 14 anos de governo (entre 54 e 68), Nero perdeu o apoio do Senado, dos magistrados, da terceira mulher e até de seu preceptor, o filósofo Sêneca. Aos 30 anos, ante um golpe de estado iminente, deu cabo da própria vida com uma punhalada no pescoço. Suas as últimas palavras: Qualis artifex pereo! ("Que artista morre comigo!").

Isso é o que dizem Suetônio, Tácito e Cássio Dio, as principais fontes sobre Nero. Detalhe: todos eles representavam os interesses do Senado, ressentido pela concentração de poder feita pelo imperador e de sua aproximação com a plebe. E nenhum deles foi testemunha ocular dos episódios citados. Tácito tinha 12 anos quando Nero morreu, Suetônio nem havia nascido e Cássio Dio só escreveu no século 3. O que lemos, portanto, é uma imagem um tanto pejorativa de Nero, que foi exacerbada nos séculos seguintes por autores cristãos, como Tertuliano e santo Agostinho. Para eles, Nero era o Anticristo. E ele era mesmo mau.
Ele foi capaz de crueldades inimagináveis e provavelmente eliminou boa parte de sua família - o que, aliás, era uma praxe na dinastia júlio-claudiana. Mas não era o louco que nos pintaram, e sim um imperador-artista que teatralizou a própria vida para atrair a atenção do público. Até virar uma celebridade para os padrões da época e conquistar a simpatia da plebe. Tanto que, após seu suicídio, surgiram rumores de que não havia morrido - tal como um Elvis Presley dos tempos antigos.
Nesta reportagem, tentamos entender o contexto em que Nero viveu e governou para chegar perto de saber quem ele foi.
1º ato - Jogos de família
Nero tinha o DNA dos Césares. Sua mãe, Agripina, era bisneta de Augusto, o primeiro imperador romano - por sua vez, sobrinho-neto do lendário Júlio César. Mas o garoto parecia destinado ao anonimato. Em 39, quando tinha 2 anos, perdeu o pai e sua mãe foi enviada ao exílio por desavenças com o irmão, o imperador Calígula. Nero foi criado pela tia, Domitia Lépida, sem perspectivas de chegar ao trono.
Em 41, contudo, houve uma reviravolta. Calígula foi assassinado, e seu tio Claudio, feito imperador, permitiu o retorno de Agripina do exílio. Agripina sabia que, sendo mulher, não poderia exercer o poder supremo em Roma. Mas seu filho, sim. E ela decidiu usá-lo para realizar suas ambições. Em 49, Agripina se casou com Claudio e o convenceu a adotar Nero. O menino abandonou o nome de nascença, Lúcio Domicio Ahenobarbo, e assumiu a identidade de Nero Claudio César Augusto Germânico. "A mudança de nome foi importante porque aproximou Nero da célula de poder", diz a historiadora Luciane Munhoz de Omena, da Universidade Federal de Goiás.
Em 53, a mãe induziu Nero a se casar com Otávia, filha de Claudio. O xeque-mate veio no ano seguinte. Agripina envenenou o marido com medo de que ele privilegiasse o filho Britânico, de 14 anos, na sucessão ao trono. "Com uma droga rápida e drástica, temia ela, o crime seria óbvio", escreve Tácito em sua obra Anais. Por isso, Agripina teria optado por intoxicar Claudio com cogumelos.

Como em várias passagens desta história, nunca saberemos como Claudio morreu. Mas o fato é que Nero se tornou o homem mais poderoso do mundo aos 16 anos. "Nero não estava pronto para governar sozinho, uma tarefa que tinha frustrado e sobrecarregado líderes muito mais preparados do que ele", diz o historiador David Shotter, da Universidade de Lancaster, no livro Nero (inédito no Brasil). "Sua insegurança o levaria a cometer atos violentos. Ele não foi malvado como no mito popular, e sim o produto da história traiçoeira e sanguinária da dinastia júlio-claudiana."
No início do reinado, Nero compartilhou o poder com Agripina. Imagens de mãe e filho foram impressas no denário, a moeda da época. Em outra moeda, o áureo, Nero e Agripina figuravam frente a frente, olhos nos olhos... Será que compartilhavam também a cama, como diziam as más línguas? Seja como for, a relação dos dois degringolou em 55, quando Nero se apaixonou pela ex-escrava Acte.
"Enfurecida, Agripina começou a espalhar que Britânico já tinha idade suficiente para ocupar o trono", diz o historiador Edward Champlin, da Universidade de Princeton. Mas desta vez o plano de Agripina deu errado. Britânico caiu duro após sorver algumas talagadas de vinho. Poderia ter sido um surto epiléptico, mas Suetônio discorda. Em A Vida dos Doze Césares, o biógrafo acusa Nero de matar Britânico para garantir que o irmão de criação nunca reivindicasse o trono.
É bem provável que isso seja verdade, a julgar pelas atitudes de Nero a partir de então. Ele afastou a mãe do palácio e governou com a ajuda do filósofo Sêneca e de Afrânio Burro, capitão da Guarda Pretoriana - sua brigada de escolta. Aos 18 anos, já tinha uma forma peculiar de ganhar popularidade. Organizava banquetes públicos e comia com a plebe. Visitava bordéis e alentava brigas de rua. Causava horror em alguns, mas admiração da maioria.
2º ato - Da república ao principado
Em 58, aos 20 anos, Nero conheceu o grande amor de sua vida: Popeia Sabina, casada com um amigo seu. A bela jovem o teria convencido a se livrar de Agripina, numa operação digna de James Bond (veja ao lado). O matricídio chocou o Senado.
Para entender a difícil relação entre Nero e os senadores, é preciso lembrar que o equilíbrio entre os poderes vinha cambaleando desde meados da República (509-27 a.C.), quando Roma empreendeu uma forte expansão territorial, que se estendeu pela costa do mar Mediterrâneo. O crescimento do império abasteceu Roma de dinheiro e escravos, mas exigia um exército organizado. "Políticos passaram a comandar os batalhões. E viram que tinham força militar para alcançar seus objetivos", diz Shotter. "Sempre havia o perigo de uma guerra civil." A solução foi escolher um governante forte e virtuoso. Não um rei, mas alguém com poder suficiente para evitar conflitos.
Foi assim que Augusto se tornou o primeiro imperador. Em 27 a.C., o tataravô de Nero recebeu o título de princeps ("o primeiro no Senado"), jurando manter a separação de poderes da República. Na prática, fez o oposto: promulgou leis, organizou as províncias imperiais e controlou as finanças, a religião e a Justiça. Essas práticas continuaram nos reinados de Tibério, Calígula, Claudio e - claro - Nero.
Esse clima de disputa influenciou as obras de Suetônio, Tácito e Cássio Dio. "Não dá para dizer que Nero sempre foi tido como louco e maldito. Ele vai ser considerado assim dependendo do grau de conflito que estabelece com os senadores", diz a historiadora Luciane Munhoz de Omena, da Universidade Federal de Goiás. Segundo ela, o caso de Nero teve um agravante: ele foi um princeps que se aproximou da plebe e, com isso, se afastou dos interesses das magistraturas militares e civis. Agora pode-se entender como a morte de Agripina acirrou os ânimos. Senadores olhavam com desdém para Nero, "o sujeito que matou a própria mãe". O que ninguém esperava é que o crime despertaria a criatividade do imperador. E aqui começa a virada que o transformou numa espécie de autoridade performática. Ele começou a cantar em público e participar de corridas de quadriga - os carros puxados por 4 cavalos. Em 60, estabeleceu em Roma torneios quinquenais à moda das olimpíadas gregas: os Jogos Neronianos. Ele competia nas provas de música e corrida equestre.
Atuar em público não era digno dos nobres, mas Nero não foi o primeiro a fazer isso. Desde Júlio César, até senadores haviam sucumbido ao desejo de se mostrar nas arenas ao lado de bailarinos, gladiadores e cocheiros. Mas nenhum deles chegou perto do grau de exibicionismo e narcisismo de Nero.
3º ato - O fogo
Nero se identificava com Apolo. O deus grego que tocava lira. Em 18 de julho de 64, boa parte de Roma foi reduzida a cinzas. Apenas 4 dos 14 distritos da cidade escaparam do incêndio, que começou no Circo Máximo e durou 6 dias. O fogo se espalhou graças às ruas estreitas, onde 1 milhão de habitantes se espremiam. Eram 66 mil pessoas por quilômetro quadrado, o dobro da densidade de Mumbai - a cidade mais apinhada de hoje. Suetônio diz que Nero tocou lira enquanto Roma ardia. Ok, a acusação é falsa. "Nero não estava lá durante o incêndio", diz o arqueólogo Darius Arya, diretor do Instituto Americano para a Cultura Romana, em Roma. O imperador inclusive bolou um plano de urbanização ao reconstruir a cidade, com ruas mais largas e prédios mais baixos. Mas nada disso reduziu as suspeitas de que ele havia causado o incêndio. Fazia sentido. O fogo permitiu que Nero construísse o Domus Aurea, um palácio banhado de ouro, com 300 aposentos, no coração de Roma. Para desviar os rumores de que a causa do incêndio seria a especulação imobiliária, Nero culpou a incipiente comunidade cristã pela tragédia, aproveitando a antipatia que ela gerava na população.
Os cristãos sofreram as 3 formas de execução habituais em Roma: crucificação, fogueira e exposição a feras. Tudo dentro da tradição de transformar castigos em espetáculos de massa. O imperador não deixou de conferir seu tom teatral: ao apresentar os cristãos como bestas que os cães deveriam destroçar, fez uma ponte com o mito grego de Acteon - transformado em cervo e despedaçado por cães de caça. Mais: enquanto os cristãos queimavam como tochas humanas, Nero saiu pelas ruas vestido de cocheiro, uma alusão ao deus Hélio (o Sol). "Não era preciso muita imaginação para concluir que Nero queria representar uma nova aurora a Roma depois dos dias de escuridão", diz Edward Champlin.
4º ato - Vida de superstar
O ano de 64 marcou a fase dourada de Nero. Depois do incêndio de Roma, começou a cantar, organizar espetáculos circenses e declamar poemas. Em sua trajetória, nunca escondeu do público sua vida privada. Nem mesmo o arrebato de fúria contra a amada Sabina: Nero a teria matado, grávida, a pontapés. O terceiro casamento também durou pouco. Nero disse "sim" para Estatilia Messalina em 66, mas largou-a quando conheceu o jovem Esporo, que se parecia com Sabina. Assim relata Dion de Prusa, contemporâneo dos fatos: o imperador castrou Esporo, vestiu-o de mulher, fez dele sua esposa e lhe deu o nome de Popeia Sabina. Em 66, Nero viajou à Grécia para participar das Olimpíadas. Ele forçou a inclusão de provas de canto e atuação. E competiu também como poeta e condutor de quadrigas. Ganhou todos os concursos.
"Nas tragédias, às vezes Nero usava máscara com traços da personagem e outras com seu próprio retrato. No caso de papéis femininos, reproduzia o rosto da defunta Sabina", diz Champlin. Seus papéis favoritos eram Édipo (que havia matado o pai para se casar com a mãe) e Orestes (que matara a mãe para vingar a morte do pai), histórias que mesclam incesto e matricídio. "Foi Nero, e não seus inimigos, que decidiu tornar mitológico o assassinato de sua mãe", diz Champlin.
O arqueólogo Darius Arya concorda: "Roma era um microcosmo se comparada aos 60 milhões de pessoas que viviam em todo o império. E elas gostavam de saber dos feitos de Nero, como hoje gostamos de saber sobre as celebridades." Ok, Nero era bem popular. Mas fez uma boa administração? Uma de suas ações foi colocar menos prata no denário para aumentar a base monetária e o poder de consumo da plebe. Foi bom, mas ajudou a alimentar uma inflação que estourou séculos depois (a economia funcionava em ritmo bem mais lento na Antiguidade).
5º ato - O declínio
Em 67, Nero retornou a Roma aclamado pela multidão. Havia passado 1 ano e meio em "turnê", sem atinar para as revoltas que pipocavam em seus domínios. Uma delas foi liderada por Julio Víndice, governador da província da Gália Lugdunense (o norte e o leste da atual França). Em poucos meses, as províncias espanholas se uniram à rebelião sob o comando do governador Sérvio Galba. "A demora de Nero em enfrentar as revoltas foi vista pelo Senado como um sinal de fraqueza e perda de controle", diz Darius. "É como aconteceu com o furacão Katrina, em 2005, nos EUA: as autoridades sabiam que ele se aproximava da costa de Nova Orleans, mas nada fizeram."
Em 68, o Senado declarou Nero "inimigo público" e apoiou a coroação de Galba. A partir daí, Suetônio e Cássio Dio imprimem na biografia do princeps um tom cada vez mais dramático: isolado, Nero fugiu de Roma e ordenou a seus homens cavar uma fossa. Gritou: Qualis artifex pereo! - traduzido como "que artista morre comigo!" - e se suicidou com um punhal. "Os leitores modernos interpretam mal essa frase de Nero. Artifex, no grego de Dio, pode significar `artista¿ no sentido de intérprete. Mas aqui o sentido é de `artesão¿", diz Champlin. "Nero estava coordenando a construção de sua tumba - uma simples fossa com fragmentos de mármore. E nesse momento alertou sobre o contraste entre o grande artista que havia sido e o lamentável artesão em que se transformara", diz o historiador. "Nero não disse `Que artista morre comigo!¿, e sim quase o oposto: `Que artesão sou em minha agonia!¿"
No fim das contas, Nero foi bem-sucedido no que se propôs: ser amado pela maioria e garantir seu lugar na posteridade. Escreveu e encenou a trama de sua vida sob os aplausos do público. Depois de sua morte, no entanto, o roteiro foi editado de forma enviesada. "Embora alguns historiadores tenham escrito textos elogiosos enquanto Nero era vivo, seu veredito foi derrubado e seus trabalhos não sobreviveram", diz a historiadora Miriam T. Griffin, da Universidade de Oxford, no livro Nero: The End of a Dynasty ("Nero, o Fim de uma Dinastia", inédito no Brasil).
O que os estudos recentes sobre Nero demonstram é que ele ocupou uma posição ímpar entre os imperadores romanos: foi uma espécie de imperador-celebridade, fascinado consigo mesmo e sem pudor de expôr seus dotes aos poderosos e à plebe. Ele se julgava um continuador da glória dos gregos e usava Roma e seu império como um grande palco para suas exibições. Claro, ele foi, sim, um tirano - possivelmente o mais cruel de sua dinastia. Mas sua necessidade de interagir com o povo o transformou em um tirano popstar, alguém de quem a população gostava de ter notícia, de saber o que andava fazendo. Em tempos de bunga-bunga na política italiana, tal como praticado pelo ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, pode-se afirmar que o estilo Nero de governar ainda não saiu de moda.
A morte de Agripina
Os historiadores antigos são unânimes: Nero planejou diversas formas de matar sua mãe, Agripina. Só que todas elas - de veneno a punhaladas - seriam óbvias demais. Foi quando Aniceto, ex-mestre do imperador, sugeriu que ele simulasse um naufrágio durante os festejos de Minerva, previstos para março de 59 na baía de Nápoles. Dito e feito. Depois de um banquete com promessas de reconciliação, Nero se despediu da mãe com beijos nos olhos e a acompanhou até a praia, onde o barco-armadilha a esperava. A embarcação afundou como estava previsto e alguns tripulantes morreram, mas Agripina sobreviveu e nadou até uma barca próxima, que a levou à costa. Ciente da tramoia, ela mandou um mensageiro ao palácio para informar que havia sido salva pelos deuses. E pedir ao filho que a deixasse descansar em paz. Nero ficou aterrorizado, imaginando que sua mãe incitaria o Senado e o povo contra ele. Assim, aproveitou-se da situação: declarou que o mensageiro era um sicário enviado por Agripina para matá-lo. E, alegando direito de autodefesa, mandou soldados darem cabo da imperatriz. Aniceto liderou o grupo e invadiu a villa (residência campestre) de Agripina com uma espada na mão. Golpeou-a na cabeça e seus homens terminaram o serviço. O corpo foi incinerado.
Ele não morreu
A história de Nero não acabou com o suicídio. "Ele continuou muito popular depois da morte, tanto que pelo menos 3 homens alegaram ser o imperador", diz Darius Arya, do Instituto Americano para a Cultura Romana. "Nesse sentido, podemos traçar um paralelo com Elvis Presley." O primeiro falso Nero apareceu na Grécia em 69. Além da semelhança física, ele cantava e tocava lira bastante bem - o suficiente para convencer tropas sírias que o viram na ilha grega de Kython. Segundo Tácito, contudo, a fama do impostor anônimo durou pouco: ele foi executado por soldados do cônsul romano Lúcio Nonio Asprenas. O segundo Nero despontou em 79 na Ásia. Chamava-se Terêncio Máximo e era tão parecido com o imperador que arrebanhou multidões por onde passou. Cássio Dio relata que Máximo selou uma aliança com Artabano 3º, um guerreiro do império parto (atual Irã), rival de Roma. Mas a rebelião falhou e Terêncio foi executado. No final de A Vida de Nero, Suetônio diz que os partos admiravam tanto o imperador que, 20 anos após sua morte, cortejaram outro desconhecido que afirmava ser ele. O sujeito teve seus 5 minutos de glória até ser apanhado pela fraude pelas autoridades.


 Texto Eduardo Szklarz (dezembro de 2012).