segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

TREZENTOS DE ESPARTA

Relato da batalha de Termópilas, na Antigüidade, quando o rei Leônidas de Esparta e 300 soldados lutaram, dispostos a tudo, contra Xerxes, da Pérsia, e seu poderoso exército.
Não se esperava um estouro de bilheteria tão grande para este épico, que sai em edição especial com dois discos. É um filme muito violento, mas, como tudo é estilizado e dentro de um contexto de luta e guerra, isso é muito mais aceitável do que em "Sin City", que também era baseado numa graphic novel de Frank Miller. Embora endereçado principalmente ao público masculino, tem muitos homens seminus, com peitos e barrigas desenhados pela computação gráfica, o que permite uma leitura homoerótica que vem agradando às mulheres.
De qualquer forma, o filme é muito fiel a sua origem, sem ser escravo dela (como "Sin City"), já que o diretor se permite algumas liberdades bem cinemáticas. Alguns pontos que não estão no álbum original, apenas no filme: a presença mais constante da mulher de Leônidas, a rainha Gorgo; a árvore da morte, uma cena impressionante; a tentativa de sedução da rainha feita pelo político corrupto Theron (Dominic West); o ataque do rinoceronte; a lambida na mulher oráculo.
Basicamente, louva-se o patriotismo e o auto-sacrifício, até mesmo a morte por uma boa causa. A ênfase é compreensível, já que o filme trata de um fato histórico talvez exagerado ao longo dos séculos, mas que ainda é recordado como o máximo da coragem. É curioso que, com freqüência, o cinema evitou mostrar a civilização da cidade-estado grega Esparta, porque se encontravam semelhanças entre seus hábitos e os dos países comunistas. Por contraposião, Atenas era vista como símbolo da democracia. Com o fim do comunismo, já se permite fazer o elogio de um estado militarista, que pregava a austeridade e matava os bebês doentes (como no nazismo). Essa discutível exaltação do heroísmo provocou reclamações dos liberais, que viram nos espartanos do filme uma alusão aos soldados americanos no Iraque. A polêmica se acentua porque os vilões têm a pele escura, são mostrados como sexualmente pervertidos, efeminados e por vezes monstruosos.
O filme também recebeu críticas por lembrar muito um videogame. Mas foram interesssantes as opções de utilizar o diretor de fotografia chinês Larry Fong e de rodar tudo em estúdio. Tudo é estilizado, alterado pela computação, dando um clima de sonho ou pesadelo, totalmente não-realista. Mesmo com o orçamento relativamente pequeno de US$ 60 milhões (já que a Warner não acreditava no êxito do projeto), o visual obtido é fantástico, o filme é envolvente e forte, com um elenco interessante. Rodrigo Santoro tem um papel breve mas importante, o rei persa, com voz alterada. Aparece irreconhecível, todo cheio de piercings, muito maquiado, num carro que parece coisa de escola de samba. O fato de não ter ficado ridículo é uma prova de sua competência como ator: consegue criar um vilão delirante sem perder a dignidade.
Aliás, todo o filme está sempre prestes a escorregar e virar piada. Mas, milagrosamente, consegue impressionar e criar um novo padrão para esse tipo de aventura.

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