sexta-feira, 29 de abril de 2011

PLATOON

Platoon
A guerra depois de Woodstock
 Sempre que pensamos em filmes de guerra nos ocorrem imagens de soldados valentes, enfrentando situações complicadíssimas, tendo que lidar com a dureza da perda de companheiros nas frentes de batalha, confrontando-se com inimigos ardilosos que não hesitam em utilizar-se de expedientes baixos, tendo no comando superiores carrascos e exigentes e que, superando todas as adversidades mencionadas, conseguem com o auxílio de seu batalhão, vencer.
O maiores arquétipos criados pelo cinema americano no que se refere ao modelo de soldado citado acima foram os personagens vividos por John Wayne (que além disso, virou modelo de homem da lei no "Velho Oeste"), que em virtude de todas essas referências, acabou por se tornar uma lenda ainda em vida. Wayne simbolizava o homem americano, destemido por natureza, explorador, ousado e, acima de tudo, muito valente (enfrentava qualquer situação mesmo as mais temíveis e as mais complexas). Outros tentaram seguir seu caminho ao longo das décadas seguintes, com especial destaque para Sylvester Stallone e seu personagem John Rambo, um veterano da Guerra do Vietnam.
Falando em Vietnam, voltemos ao foco de nossas atenções no artigo de hoje, o filme "Platoon", do conceituado diretor Oliver Stone (também responsável pelo roteiro desse filme). Essa guerra, tão trabalhada em filmes, em nosso país conta com poucos títulos publicados a seu respeito e, normalmente, é desprezada nas escolas, raramente constando das propostas de planejamento dos setores de história ou geografia. Alguns podem argumentar que se trata de um acontecimento que diz respeito a história dos Estados Unidos. Outros podem deduzir que, já que os vestibulares não cobram (a não ser raramente) através de questões tal temática, que motivos nos atraem a estudar esse conteúdo? Ainda há aqueles que consideram o fenômeno "Guerra do Vietnam" (se esquecem que esse conflito está inserido na Guerra Fria) pouco representativo para a humanidade, portanto, não passível de estudos mais detalhados. E muitas outras opiniões poderiam ser formuladas para rejeitar o assunto nas escolas.
Mas, que relação existe entre John Wayne e o filme "Platoon"? Se tal tema não é interessante na visão de muitas pessoas, porque deveríamos estudá-lo?
 Um dos grandes méritos de "Platoon" foi o de quebrar essa visão heróica dos soldados americanos nas frentes de batalha (representados pelos personagens de John Wayne e outros cowboys americanos que fazem da guerra o seu cenário de duelos). Apresentá-los fragilizados diante de tamanha bárbarie, da qual eram também (e, em muitos casos, principalmente) responsáveis, recorrendo ao uso de maconha ou álcool, amedrontados em algumas situações, lidando com as vaidades individuais onde o coletivo deveria se sobrepor aos interesses de cada um e agindo com brutalidade excessiva em situações em que a força desmedida não era evidentemente necessária, constituem uma nova visão da guerra.
Distanciar os soldados da noção de pátria (mesmo que estivessem agindo em nome dos Estados Unidos), aproximando-os de uma necessidade de sobrevivência pessoal, retirando do cenário a tradicional solidariedade que sempre foi apresentada como praxe em situações extremas como as de uma guerra fizeram com que Stone se tornasse "persona non grata" aos olhos dos militares americanos e que, ainda fosse rotulado de esquerdista pelos conservadores políticos.
 "Platoon" nos coloca no front, lado a lado com os soldados, caminhando pelas selvas do Vietnam, assustados com a possibilidade de emboscadas por parte dos vietcongues; o filme nos faz sentir o ódio pulsando nas veias dos norte-americanos em relação a inimigos invisíveis (que quando eram capturados, sofriam as consequências dessa amargura, dessa angústia, desse rancor) e nos prova a fragilidade dos homens que ali estiveram ao nos mostrar os momentos em que eles relaxavam (literalmente, embalados pelo som dos anos 1960, da geração Woodstock, da pregação pela paz enquanto eles, literalmente, sujavam suas mãos com o sangue da guerra) com o auxílio das bebidas, da nicotina e da marijuana.
Porém, a despeito das qualidades ou da "sensibilidade" do filme, se o tema Vietnam não consta dos programas e exames nacionais, o que nos motiva a vê-lo ou estudá-lo?
 O estudo da história no Brasil parece temer um exame mais minucioso de temas que estejam mais próximos no tempo. Omitem-se informações sobre a ditadura militar brasileira (1964-84), pouco se fala sobre as crises do Oriente Médio, quase nada aparece a respeito do caso Watergate que derrubou o presidente Nixon nos EUA, muitos jovens desconhecem os ícones da contra-cultura como Janis Joplin ou Jimmi Hendrix. O imbróglio no Vietnam está entre esses e muitos outros assuntos recentes que não são discutidos.
No entanto, essa história diz respeito as gerações que estão atuando no mercado de trabalho, que comandam os destinos de nações, que se preparam nas escolas. Ela é de nosso interesse, refere-se a acontecimentos que mudaram o destino do planeta, que estabeleceram novos parâmetros, novas tendências. Desprezá-los significa não permitir aos jovens de hoje em dia que conheçam parte importante dos motivos que explicam por que o mundo atual se encontra no estágio em que está e não permite que eles (desconhecendo as causas que impulsionam parte dos sérios problemas mundiais) sejam capazes de atuar com firmeza na solução dos mesmos. Faz-se necessário que sejam abertas possibilidades para que esses assuntos venham a público. Se a porta de entrada for um livro ou um filme, uma discussão na faculdade ou no Ensino Médio, não importa, o que interessa é que ela aconteça. Que venha então "Platoon"!

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