sexta-feira, 24 de junho de 2011

A PAIXÃO DE JACOBINA

Toda a profundidade dramática das atuações de Letícia Spiller e Thiago Lacerda está a serviço de A Paixão de Jacobina, mais novo filme de Fábio Barreto (O Quatrilho e Bela Donna) , caçula da família que tem como patriarca o produtor Luiz Carlos Barreto. De posse das estrelas globais e da estética visivelmente televisiva, o filme abandona as questões políticas e sociais nas quais estava imersa a região do Vale dos Sinos, durante o Segundo Império, e toma a forma de um dramalhão que gira em torno da figura polêmica de Jacobina Mentz, líder da seita religiosa dos Mückers, extinta pelas forças armadas em 1874.
"Tive liberdade para escolher o viés mais significativo da história, o que realmente funcionava, a importância da Jacobina. Me concentrei nisso mas as outras questões servem de pano de fundo", disse o roteirista Leopoldo Serran quando o filme foi exibido no Festival de Gramado, fora de competição. O cartaz do filme, exposto durante o evento, exaltava a modéstia da produção: "A história real da mulher que falava com Deus". A pretensa verdade absoluta sobre a história de Jacobina, nesta adaptação do romance Videiras de Cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil, é apenas um dos muitos problemas da fita.
Na província do Rio Grande do Sul, em 1871, vive Jacobina (Letícia Spiller), descendente de alemães que reúne em sua casa um grupo de dissidentes do protestantismo e todo tipo de excluídos que por lá aparecem. Ela prega a cura dos males do corpo através da purificação da alma e, durante seus cultos, costuma distribuir beijos entre seus fanáticos seguidores que acreditam ser ela a nova encarnação de Jesus Cristo. Desde o dia em que falou com Deus, passou a se vestir apenas com uma bata e deixar os cabelos soltos, causando o incômodo da população local. Mas só após a morte de um mücker e de dois opositores da seita é que as autoridades locais decidem intervir.
Com público considerável de cerca de 95 mil espectadores no Sul do país, que mais parece se dever ao interesse na imigração alemã na região de São Leopoldo que à qualidade da fita, A Paixão de Jacobina tem como ponto alto a cena em que a protagonista, cabelos ao vento, corre pelos campos onde vive, cercada de borboletas amarelas inseridas digitalmente. Além dessa, outras incoerências podem ser vistas no filme como a misteriosa aparição do primo (Thiago Lacerda) pelo qual Jacobina sempre foi apaixonada apenas para possuí-la enquanto ela se banha no rio, mesmo sendo ele um homem casado e que mora na cidade.
Sem nenhum pudor, Barreto ainda inseriu uma seqüência, sem nenhuma relevância dramática, apenas para fazer merchandising, em pleno século 19, dos calçados Azaléia. Nem mesmo a peruca importada de Letícia, que contribuiu no considerável orçamento de 8 milhões de reais, se salva ao deixar à vista seus entrelaçamentos.
Fonte: CineWeb.


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