terça-feira, 13 de setembro de 2011

GUERRA DE CANUDOS

A saga dos migrantes nordestinos em busca de melhores condições de vida tem se repetido ao longo da história do Brasil de forma constante. Em alguns momentos o drama desses retirantes rendeu muito mais do que tragédias familiares ou dramas pessoais. Um desses episódios marcantes foi a brutal Guerra de Canudos, ocorrida no sertão da Bahia. Descontentes com a seca, a fome e a espoliação dos coronéis que dominavam o interior do nordeste, vários homens e mulheres se renderam as promessas de que seriam levados por um beato a salvação, a terra escolhida por Deus, ao paraíso prometido nos dizeres bíblicos.
Há um misto de falta de informação (ou ignorância), credulidade religiosa extremada, desesperança com as condições em que viviam e insatisfação total com os desmandos dos poderosos do açúcar que nos ajudam a entender os motivos que levaram tão grande número de pessoas a seguir Antônio Conselheiro, o tal beato que lhes prometia o ceú às custas de enormes sacrifícios e dores de cada um dos peregrinos. À medida que sua fama aumentava e o povoado do Belo Monte surgia no meio de um terreno árido e de poucas perspectivas, mais e mais pessoas se dirigiam para a pequena vila desses excluídos.
Aumentava também a preocupação dos donos de terras que, receosos de que o exemplo dado por Conselheiro e seus seguidores pudesse criar novas vilas como o Belo Monte e ameaçasse a sagrada propriedade buscaram o auxílio do novo governo republicano para que pudessem derrotar a ameaça que se impunha. Para tanto criaram algumas justificativas que fizeram com que para a região fossem despachadas algumas dezenas de soldados, equipados com recursos obsoletos, mal treinados e sem qualquer conhecimento prévio sobre a região e o que lhes esperava.
O resultado não podia ser outro, arrasados pelos temíveis jagunços liderados por um lunático que se considerava o Messias em busca de Canaã, os soldados debandaram e desse ato veio a certeza de que o adversário era muito mais poderoso do que se imaginava a princípio.
O início da história, narrado acima retrata apenas parcialmente o que foi chamado em uma das várias obras sobre o ocorrido como sendo "a guerra do fim do mundo" escrita por Mario Vargas Llosa; não deixa de ter lógica a afirmação contida no título da obra de Llosa pois, Conselheiro e seus seguidores eram muito mais do que apenas fanáticos religiosos, constituiam-se num retrato do Brasil que mesmo depois da terrível violência que se abateu sobre aquela região e aquelas pessoas, continua a existir. Tanto é assim que anos depois, em uma de suas obras de referência (Retirantes), o pintor Cândido Portinari, retratou o fenômeno das migrações internas que ocorre periodicamente em terras brasileiras. Recentemente, situações idênticas foram alvo da fotografia do premiadíssimo brasileiro Sebastião Salgado, ampliando seu foco para as misérias do mundo e visualizando um pouco do Brasil que poucos habitantes das cidades tiveram a oportunidade de conhecer.
A miséria que move os migrantes de ontem e de hoje, é a mesma do período da Guerra de Canudos, assim como, continua ironicamente "alimentando" novas travessias, fugas dos autênticos "campos de concentração" que se estabelecem nas regiões mais secas do sertão nordestino, onde o gado emagrece e morre esturricado, onde as pessoas ficam doentes e desnutridas, podendo-se enxergar seus ossos como se elas também fossem prisioneiras vitimadas pelo holocausto.
O diretor Sérgio Rezende, que já produziu outros filmes que apresentavam temática histórica como "Lamarca" e "Mauá - O imperador e o rei", reuniu um elenco de atores globais (Paulo Betti, José Wilker, Cláudia Abreu, Marieta Severo, Selton Mello), fez uma boa reprodução de época, criou uma narrativa baseada na saga de uma entre as várias famílias de migrantes que acompanharam o beato Conselheiro e produziu um filme de caráter épico. Utilizou toda a dramaticidade da vida dos retirantes e a movimentada história da ação das tropas brasileiras em confronto com os conselheiristas e recriou o choque entre os emblemas do novo (a república recém-empossada) e do arcaico (o império defendido por Conselheiro em algumas de suas pregações).
Wilker como Conselheiro representa uma guinada de 360° na história do cinema nacional, o ator que foi um ícone no final dos anos 1970 como o Vadinho de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e que representou um dos viajantes da alegre e mística caravana de "Bye Bye Brasil" voltava ao interior do país, dessa vez não mais como um malandro, enganador, jogador e mulherengo. Dessa vez, ele era a encarnação do mal para uns e da salvação para outros, um religioso extremado, que condenava os abusos do álcool e da carne.
"Guerra de Canudos" também nos deixa com dúvidas, quanto ao caráter dos envolvidos no conflito do título, quanto a quem estava com a razão, quanto a o que aconteceria se o Belo Monte não fosse destruído. O filme serve como um elemento para que entendamos a destacada fibra do sertanejo, descrita por Euclídes da Cunha no clássico livro "Os Sertões" e para que possamos vislumbrar mazelas do Brasil de ontem que continuam muito vivas hoje em dia. A miséria e a fome dos flagelados da seca que migram para regiões mais prósperas continua e não nos deixa esquecer!
Indicado para se utilizar em aulas de literatura, história, geografia, filosofia, atualidades ou ética. Nos possibilita discutir não apenas o conflito vivido no final do século XIX, nos primeiros anos da república brasileira mas, também, as questões da atualidade (migrações, miséria, fome, a geografia da pobreza), o clássico livro de Euclídes da Cunha, o Movimento dos Sem-Terra (só a título de sugestão, procurem fotos do conflito, tiradas no final da Guerra, e comparem com o material do livro de Sebastião Salgado, "Terra"!),...
Fonte:CineWeb.



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