terça-feira, 22 de novembro de 2011

AMADEUS

Filmes de época são verdadeiros desafios para os cineastas. Quando se trata de falar a respeito de personagens históricos de vulto e destaque, o trabalho é dobrado e os resultados obtidos nem sempre são satisfatórios. Se o personagem em questão é cercado de uma certa aura de genialidade e de muita polêmica, o filme pode se tornar uma dor de cabeça para o resto da vida do ousado diretor que resolver bancar essa produção...
Milos Forman resolveu encarar todas essas dificuldades e, para completar, escolheu como tema de seu filme um personagem muito conhecido por sua genial produção artística e de quem pouco se sabia da vida pessoal, Wolfgang Amadeus Mozart. Nem mesmo seu principal oponente, aquele que ao longo de todo o filme faz a narração da história da vida de Mozart, o também compositor Antônio Salieri, era conhecido fora dos círculos de pessoas letradas em música clássica.
Apresentar um dos maiores compositores de todos os tempos mostrando ao grande público comportamentos nada dignos para uma virtuose musical fez com que o filme se tornasse um dos maiores sucessos de público e crítica do início dos anos 1980. “Amadeus” arrebatou oito Oscars (entre os quais o de melhor filme, diretor, ator e roteiro adaptado) e outros prêmios de destaque no cenário internacional cinematográfico (como Globos de Ouro, Baftas e o César).
Torna-se um filme digno de ser visto pela caprichada reprodução de época (figurinos, cenografia e locações dão ao espectador a possibilidade de, literalmente, visitar a Viena do século XVIII), pelo fundo musical composto com as obras de Mozart e pela possibilidade de ver como os maiores expoentes de qualquer setor de produção cultural, política, econômica ou esportiva são, antes de tudo, meros mortais apesar de suas grandes obras.
Invariavelmente olhamos para nossos ídolos, sejam eles músicos ou atores, jogadores de futebol ou artistas plásticos, políticos ou escritores e criamos ao redor dos mesmos uma aura que os coloca alguns patamares acima dos demais membros da coletividade humana que habita esse planeta. Sem jamais desmerecer suas realizações, várias delas imortais por suas qualidades reconhecidas e inexoráveis (nem o tempo é capaz de corroê-las), não devemos olhar para as pessoas que os realizaram imaginando-os imortais membros de um Olimpo terrestre.
Acho notável quando as pessoas falam de Pelé, por exemplo, atribuindo-lhe todos os adjetivos possíveis e conhecidos para identificar seus gols e jogadas como obras de um mestre inigualável no futebol e, ao mesmo tempo, conseguem percebê-lo como o brasileiro Édson Arantes do Nascimento, capaz de acertos e erros na vida cotidiana como qualquer um de nós...
“Amadeus” presta um grande serviço à coletividade ao colocar Mozart no panteão dos imortais da música clássica ao mesmo tempo em que nos mostra todas as heresias e pequenezas da alma daquele grande artista...
O filme
Salieri (F. Murray Abraham, em interpretação inspirada), um esforçado compositor da Viena do século XVIII, revela ao ser internado num manicômio que é o responsável direto pela morte de Mozart (Tom Hulce, em seu melhor momento). Isolado num pequeno cômodo desse sanatório, conta em detalhes para um padre a complexa e contraditória história de amor e ódio que se estabeleceu em sua relação com aquele que considerava como sendo a autêntica expressão da voz de Deus na terra.
Mozart era um prodígio desde criança. Tutorado pelo próprio pai, chegou a tocar para os reis da Áustria antes de completar 10 anos e, ainda em sua fase infantil compôs suas primeiras músicas. Apesar de todo o seu talento e da constante supervisão de seu pai, ao se tornar adulto, mostrava-se irrequieto e muito afeito aos prazeres mundanos, envolvendo-se freqüentemente com mulheres, bebidas e festas.
Seu alter ego era Salieri. Enquanto Mozart parecia amar a vida e todos os prazeres que ela podia lhe oferecer, o estudioso Salieri só tinha olhos para a música. Acompanhava a evolução dos acontecimentos no setor com toda a avidez e interesse que os verdadeiros apaixonados devotam ao amor de suas vidas. Conhecia a obra dos principais compositores da história. Estava vivendo no centro musical mais desenvolvido de sua época, apoiado por uma nobreza ilustrada e interessada em investir em cultura. Havia ascendido a cargos importantes e poderia, enfim, conhecer aquele a quem mais considerava genial na arte que tanto prezava, Wolfgang Amadeus Mozart.
Ao se deparar com um jovem de enorme talento e igual falta de preocupação com seus afazeres e compromissos musicais, Salieri passou a questionar as vontades de Deus. Por que, afinal, Deus teria dado a uma pessoa tão questionável, deveras mundana e, além de tudo pecadora, aquele precioso dom?
A partir de então passa a buscar explicações para a grandiosidade da obra não condizer com uma figura humana de igual naipe. Suas dúvidas alimentam um sentimento de rancor e melancolia, apesar de se tornar compositor da corte, Salieri sabia que a obra imortal não era a sua e sim a de Mozart...


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