sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Manter o aluno mais tempo na escola não resolve qualidade

Ministro da Educação pretende aumentar dias letivos.
Notas do Enem mostram diferença entre escolas públicas e privadas.
 Passados alguns dias da publicação do resultado do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), quando a fogueira das vaidades entre as escolas particulares está mais contida, com justificativas toscas para um desempenho pior ou melhor desta ou daquela região, é hora de olhar para o principal – o ensino que tem sido oferecido a maior parte da população brasileira – o público.
As diferenças são gritantes entre um setor e outro. Em matemática, as instituições públicas estão mais de 90 pontos atrás das privadas. Dado que vem reforçar o que se sabe – a ineficiência da escolarização básica. As questões de matemática solicitadas na prova envolvem mais raciocínio lógico e serve como indicador do desenvolvimento da capacidade de pensar de nossos alunos. Mais que um conhecimento específico, a prova exige que se pense sobre um problema, estabelecendo relações entre suas partes.
Essa capacidade vai sendo construída pela criança em suas ações no mundo e é incrementada com a sua vivência escolar, onde sua construção deve ser organizada e seu desenvolvimento estimulado. O aluno da escola pública anda se desenvolvendo menos.
Há sim um problema nesse setor, não se pode negar. O que se pretende é melhorar seu nível com a ampliação do número de horas aulas – aumentando os dias letivos e o tempo que o aluno permanece na escola. O ministro Fernando Hadad considera esse um fator importante. De certo modo é. Quanto mais tempo se estuda maior é a chance de se aprender. Simples? Nem tanto.
As coisas não se dão de forma mágica. Passar um tempo razoável na escola é importante, desde que seja oferecido ao aluno oportunidades de aprender e se desenvolver. Não parece ser o fator quantidade de tempo o problema do ensino público.
Não é de hoje que ele vem andando mal das pernas. O nível de escolaridade dos alunos é baixo, muito baixo. É comum, após anos frequentando a escola, encontrarmos estudantes que mal sabem ler ou escrever. Algo que alunos do segundo ou terceiro ano do ensino fundamental da rede particular já conseguem fazer com certa desenvoltura. Muitos terminam esse ciclo – nove anos – sem conseguir compreender um texto lido.
Certamente não é só a questão do tempo. Há vários problemas a serem resolvidos, sendo o principal questões envolvendo o professor. A desvalorização do professor dentro e fora do sistema de ensino é algo claro – além de ganharem pouco e terem condições ruins de trabalho, são pouco respeitados pelos alunos e suas famílias. Ora, se nem o governo valoriza o professor, que dirá o aluno.
O papel do professor é fundamental e é urgente que ele tenha salários condizentes com sua responsabilidade e obrigações. Responsabilidade de formar pessoas e obrigação de se atualizar e estudar. Sempre.
Como ocorre com os professores de instituições privadas. Eles têm que realmente dar conta do recado, caso contrário, estão fora. Com o diferencial de que seus salários possibilitam isso. A instituição cobra do corpo docente, mas oferece condições para isso. Nem dá para cobrar do professor atualização se ele não tem como investir em si próprio.
Além do mais, há um certo conforto, sem grandes cobranças – a maioria deles é concursada e tem estabilidade no emprego. Que é outro grande problema do funcionalismo público em suas diferentes áreas. De que adianta passar mais tempo na escola sem um projeto possível de ser aplicado e professores pouco envolvidos com seu trabalho?
O ministro da educação lembrou outro aspecto que interfere na diferença da qualidade entre os setores público e privado, o investimento financeiro. Fator de suma importância. Mas fica a dúvida – falta dinheiro ou falta usá-lo adequadamente? O Brasil não é um país pobre de dinheiro. É pobre de espírito. Infelizmente não interessa investir em educação.

Os alunos não precisam de mais tempo na escola. Eles necessitam de mais qualidade de ensino e seriedade dos profissionais envolvidos com a educação. O que acontece é que uns fazem que ensinam e outros que aprendem. E todos ficam se iludindo até a chegada do próximo Enem.
Ana Cássia Maturano - G1

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