sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

CONJURAÇÃO BAIANA

No final do século XVIII, países do mundo inteiro passavam por um intenso processo de transição política, motivados pelo ideal de liberdade, igualdade e fraternidade disseminado pela Revolução Francesa, que ocorreu em 1789.
Por mais que estourassem revoltas contra a colônia portuguesa no Brasil, muitas dessas organizações populares eram movidas por interesses particulares dos grandes donos de terra e da elite oposicionista. Na avalanche da Revolução Francesa, a Conjuração Baiana (ou Revolta dos Alfaiates) aconteceu em 1798 e tinha caráter emancipacionista: exigia, a qualquer custo, a independência do domínio português.
Quando Salvador deixou de ser a capital brasileira, acabou perdendo boa parte dos investimentos da Coroa e passou a ter papel secundário diante da nova capital, o Rio de Janeiro. A população baiana acabou sofrendo com a crise econômica do estado. A violência aumentava cada vez mais com o constante saqueamento de propriedades privadas e mercadorias.
A partir de então, as ideias radicais foram surgindo. Quem se destacou na propagação da revolta foi o médico Cipriano Barata. Ele organizou a população mais humilde, como escravos e pequenos camponeses, para difundir mensagens e panfletos incitando mais revoltosos para aderir à revolução.
Uniram-se ao levante de Barata mulatos, escravos, negros livres, comerciantes, artesãos, religiosos, soldados, setores populares e, especialmente, muitos alfaiates.
No movimento, destacaram-se os alfaiates João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira, sob chefia militar do tenente Aguilar Pantoja, que contava com o apoio dos soldados Luís Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas Amorim Torres.
Percebendo o perigo de uma organização popular em grande escala, o rei de Portugal D. Fernando infiltrou homens de seu exército com os revoltosos e acabou surpreendendo-os. O rei conseguiu prender a maioria dos envolvidos e não hesitou em torturá-los.
Revoltosos mais pobres, como Faustino e Nascimento, foram condenados imediatamente à morte por enforcamento, enquanto que os intelectuais e mais abastados Barata e o professor Francisco Moniz foram absolvidos pela Coroa.
Apesar de não ter sido concretizado em sua totalidade, a Conjuração Baiana é considerada uma importante revolta popular. Muito além da pretensão de derrubar a monarquia, a revolta pôs em xeque as questões sociais do país e deu impulsão para o surgimento das primeiras campanhas abolicionistas do país.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ARTE BABILÔNICA

Para melhor compreender a arte babilônica é preciso remontar à origem dessa antiga civilização. Descobrir um povo como os sumérios, misterioso e ao mesmo tempo fascinante, através de vestígios deixados pelo tempo, propiciou aos historiadores da arte investigar os ancestrais da Babilônia, ou melhor, suas raízes. Esta cultura desenvolveu-se em um antigo reino, o do Oriente Próximo. Sua capital era justamente a Babilônia, localizada próxima à cidade de Al Hillah, no Iraque.
Não se sabe exatamente quando ela foi fundada, calcula-se que tenha sido por volta do quarto milênio a.C. No século XVIII a.C. ela já era o núcleo de um amplo império, durante o reinado de Hamurabi. A arte suméria foi fonte de inspiração da sua produção artística pelo menos sob a primeira dinastia. Posteriormente a Babilônia foi dominada por outras culturas e no período de 722 a 626 a.C. permaneceu refém dos assírios. Após a derrota deste povo, a civilização babilônica atingiu seu apogeu, depois da reconstrução da cidade por Nabucodonosor II, que reinou de 605 a 562 a.C. e transformou a Babilônia em uma das maiores cidades da Antiguidade. Possivelmente ele foi o responsável pela construção dos conhecidos Jardins Suspensos da Babilônia – terraços elevados, irrigados pelas águas do Rio Eufrates.
Outra preciosidade babilônica são os “animais-humanos”, principalmente leões com asas de águia. Este leão alado, muito encontrados nos objetos artísticos, é um verdadeiro símbolo deste povo. Eles são vistos com frequência, nas pinturas, em combate com o deus protetor da cidade, Marduque. Alguns profetas associam o Rei Nabucodonosor com imagens semelhantes. O leão, rei dos animais, e a águia, que governa os pássaros, simbolizam o apogeu do império babilônico, o poder e a glória. Os “animais-humanos” são assim chamados porque, no Antigo Testamento, no qual são muito mencionados, eles são descritos como entes fantásticos com expressões humanas e corpos de animais. Muitas passagens abordam estas figuras, também conhecidas como “quatro gênios”. O aventureiro Henry Layard, ao analisar esta região, encontrou a primeira destas estátuas, construídas há milhares de anos. Foi necessário recorrer ao esforço de mais de trezentos homens para erguê-la do veículo no qual havia sido transportada, tamanha a sua grandiosidade.
A relação entre as citações da Bíblia e estas descobertas revelam que estas obras detinham um profundo significado para esses povos ancestrais, mas não há um consenso sobre ele. Alguns afirmam que estes seres eram deuses dos assírios, portanto protegiam os palácios reais. Outros pesquisadores asseveram que as estátuas são mais antigas e talvez remontem às construções dos sumerianos, assumindo assim um teor espiritual.
A arquitetura babilônica tem sua melhor definição na observação da Porta de Ishtar, edificada provavelmente em 575 a.C., uma imponente estrutura de tijolos recoberta de esmalte, a mais majestosa das oito portas que eram usadas como entrada para a Babilônia. Ela hoje se encontra no Museu Staatliche, na ex-Berlim Oriental. Os Jardins Suspensos também são um exemplo da riqueza arquitetônica característica desta cultura. Alguns dizem que foram construídos para consolar a esposa dileta de Nabucodonosor II, Amitis, saudosa de sua terra natal, a Média. Infelizmente, não resta nenhum sinal concreto dos jardins. Eles são conhecidos através das detalhadas descrições de historiadores gregos, como Berossus e Diodorus, embora também estes não os tenham visto pessoalmente. Arqueólogos trabalham incansavelmente para encontrar vestígios que indiquem efetivamente sua localização.
Outra construção característica deste povo são os zigurates, templos edificados no alto de uma torre de tijolos. O acesso se dá por meio de uma rampa, que aparenta pisos cada vez menores. Eles são igualmente conhecidos como Torre de Babel, presente no Gênesis e nele utilizada como símbolo para explicar a origem das diversas línguas e raças existentes. Na Bíblia, ela é definida como uma concepção humana urdida para se atingir o céu, ou seja, sua construção era uma forma de assumir poderes divinos. Assim, o Homem é punido por sua pretensão – Deus confunde as linguagens, para que cada um fale uma língua diferente, ninguém mais se entende a partir desse momento e seus construtores são disseminados pelo mundo.
Ana Lucia Santana


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A REFORMA DE AMENÓFIS IV

No antigo Egito, a concepção das divindades e práticas religiosas tinha grande vinculação com os fenômenos naturais e o mundo animal como um todo. Com isso, se espelhando nas várias manifestações do meio que os cercava, os egípcios criaram uma ampla diversidade de divindades e rituais ao longo de sua existência. Geralmente, cada deus assumia uma determinada forma física e exercia algum tipo de poder ou tarefa que afetava diretamente a vida de seus adoradores.
Apesar dos indivíduos comuns terem a oportunidade de realizar seus rituais e oferendas, a atividade religiosa também era organizada a partir de uma classe específica de pessoas que, em certa medida, intermediavam a relação entre os homens e os seres espirituais. Estes eram os sacerdotes, ocupantes do topo da organização social no Egito e administradores de todos os recursos utilizados com o fim de manter uma boa relação com os deuses.
Dada a grande importância dos sacerdotes entre os egípcios, a sua função era somente repassada de maneira hereditária. De fato, o elevado prestígio dos sacerdotes acabou ampliando seu leque de atividades para fora do campo espiritual. Com o passar do tempo, enriqueceram em razão do acúmulo de bens provenientes dos sacrifícios e, além disso, começaram a ter grande poder de influência em outras questões de ordem econômica, social e política.
Ao longo do tempo, a ampliação dos atributos sacerdotais ameaçava a figura do próprio Faraó. Na verdade, em certos momentos do Novo Império (1580 – 1085 a.C.), alguns sacerdotes chegaram a ocupar o topo da hierarquia política do Antigo Egito. Essa disputa de poder culminou por volta do século XIV a.C., período em que o faraó Amenófis IV realizou uma reforma religiosa que tinha como justificativa maior a limitação dos poderes da classe sacerdotal egípcia.
Para que isso fosse possível, Amenófis oficializou o culto monoteísta no Egito. A única divindade a ser adorada seria o deus Aton, comumente simbolizado pela figura do círculo solar. Visando legitimar sua ação, Amenófis IV também mudou seu nome para Akhenaton (“aquele que adora a Aton”) e realizou a construção da cidade de Akhetaton (“horizonte do disco solar”), então transformada em capital de todo o Império Egípcio.
Insatisfeitos com aquela situação, os sacerdotes dos antigos deuses fizeram grande oposição à reforma do faraó Akhenaton. Alguns relatos da época contam que vários templos haviam sido completamente deixados ao acaso. Somente após a morte de Akhenaton, o culto monoteísta foi sendo paulatinamente substituído pelas antigas práticas politeístas que organizavam a vida religiosa do Egito. Apesar do insucesso, os hinos criados em homenagem a Aton foram preservados ao longo dos séculos.
O faraó Tutankhamon, filho de Amenófis IV, assumiu a tarefa de restabelecer o culto dos antigos deuses através da reconstrução de vários santuários e a encomenda de novas estátuas em homenagem aos deuses. Além disso, teve a preocupação de recrutar uma nova leva de sacerdotes e artistas que deveriam reforçar o antigo vínculo espiritual perdido com esses deuses.
Rainer Sousa


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

CAUDILHISMO

No ano de 1824, uma considerável parcela da América Hispânica já havia alcançado o seu processo de autonomia política. Sob tal aspecto, vale lembrar que todas as nações formadas, com uma rápida exceção do México, decidiram estabelecer regimes de natureza republicana. Com isso, adotando os princípios liberais, as nações latinas manifestaram sua ruptura em relação às antigas instituições coloniais.
Nesse novo contexto, os novos Estados americanos estariam subordinados aos ditames de uma constituição que deveria ser obedecida por todos os cidadãos. A igualdade dos homens perante a lei seria a comprovação máxima de que os desmandos e injustiças da administração colonial seriam definitivamente superados. Contudo, essas conquistas não esgotam outras nuanças que figuram o cenário político dessa nova era.
Os criollos, na qualidade de principais articuladores das lutas de independência, terão papel fundamental neste novo contexto político. Sob tal aspecto, estabeleceram meios para que a ordem agroexportadora fosse preservada e que as nações industriais cumprissem o papel de fornecer mercadorias manufaturadas. Além disso, nenhuma outra mudança estrutural concederia melhores oportunidades à enorme parcela de camponeses e trabalhadores latinos.
A predominância política dessa pequena parcela da população acabou abrindo portas para a instalação de um fenômeno histórico e político conhecido como caudilhismo. Essa prática reflete a organização de governos centrados no beneficio de uma população mínima que passa a ser atacada sistematicamente por líderes carismáticos que buscam subverter a ordem em busca de uma pretensa liberdade.
Apesar do apelo popular de sua retórica, os líderes caudilhistas não reconhecem os limites impostos pela lei e se valem da violência e opressão para alcançar o poder. Geralmente, os caudilhos desestabilizavam a ordem através de golpes políticos apoiados por grupos armados e outros interessados em serem diretamente beneficiados pela possível chegada de seu líder ao poder.
Dessa forma, mesmo reivindicando ou defendendo melhoras, o caudilho estabelece uma forma de poder político que substitui o lugar a ser ocupado pelo Estado. Ao mesmo tempo, centra a sua escalada ao poder como meio de implantar um governo personalista, ou seja, centrado em suas vontades e interesses individuais. Sem uma clara ideologia, costuma distinguir os elementos políticos de sua época pela manifestação de apoio ou oposição.
Esse tipo de experiência indica os problemas enfrentados pelas instituições políticas da América, muitas vezes desprovidas de uma ampla sustentação social ou uma orientação política explícita. Apesar de marcar certa época do passado político americano, essa prática ainda perdura na fala de muitos analistas contemporâneos, que colocam o caudilhismo como uma espécie de herança ou ameaça ainda manifestada na América Latina.
Rainer Sousa


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

POSICIONAMENTO ESTRATÉGICO

Limite extremo da colonização portuguesa no Sul do continente latino-americano, o Rio Grande do Sul, desde o início de sua ocupação, desempenhou duas funções vitais. A primeira foi a de ser um local estratégico, cuja manutenção era vital para garantir a presença portuguesa junto às áreas de colonização espanhola. A segunda foi a de servir como fornecedor de alimentos e outros bens para as demais regiões do país.
 Situado fora do eixo de comércio do Brasil com Portugal, coube ao Rio Grande o papel vital de fornecer o gado que sustentou o ciclo do ouro em Minas Gerais e o do charque, que era o alimento básico dos escravos e da população de baixa renda das cidades brasileiras. A partir do início do século XX, coube também ao Rio Grande a função de "celeiro do país", responsável por uma fatia significativa da produção agrícola nacional.
A história do Rio Grande do Sul começou bem antes da efetiva ocupação de seu território pelos portugueses. Inicialmente, o Estado era uma "terra de ninguém", de difícil acesso e muito pouco povoada. Vagavam por suas pradarias os índios guaranis, charruas e tapes e, vez por outra, aventureiros que penetravam em seu território em busca de índios para apresar e escravizar.
Esse quadro foi modificado com a chegada dos padres jesuítas que, no início do século XVII, na região formada pelos atuais estados do Rio Grande do Sul e Paraná, e pela Argentina e Paraguai, fundaram as Missões jesuíticas. Nelas se reuniam, em torno de pequenos grupos de religiosos, grandes levas de índios guaranis convertidos.
Procurando garantir a alimentação desses índios, os jesuítas introduziram o gado em suas reduções. O clima e a vegetação propícios fizeram com que o gado se multiplicasse. Com isso, a região passou a oferecer dois atrativos para os que apresavam índios: além deles, havia também o gado. Até 1640 várias expedições vindas de São Paulo estiveram no Rio Grande, para capturar índios e gado, provocando o desmantelamento das Missões existentes no atual Estado. Nessa época os índios, comandados pelos jesuítas, derrotaram os chamados bandeirantes e as missões tiveram mais de cem anos de paz.
Ao final do século XVII, devido aos constantes conflitos de fronteira entre Portugal e Espanha, os jesuítas resolveram concentrar a população indígena convertida em uma área que consideravam mais segura, e escolheram a zona localizada na região noroeste do Rio Grande do Sul. Foram criados os "Sete Povos das Missões". Mas a prosperidade desses povos, que funcionavam independentemente das coroas portuguesa e espanhola, terminou por decretar o seu fim. Em 1750, um tratado firmado entre os dois países estabeleceu que a região das Missões passaria à posse de Portugal, em troca da Colônia de Sacramento, que havia sido fundada pelos portugueses em 1680 nas margens do Rio da Prata, defronte a Buenos Aires. Embora tenha havido resistência por parte de padres e índios, as Missões foram desmanteladas. Mas deixaram um legado que, por muito tempo, seria a base da economia do Rio Grande do Sul: os grandes rebanhos de bovinos e cavalos, criados soltos pelas pradarias.
Esses rebanhos atrairiam os colonizadores portugueses, que passaram a se instalar na região de forma sistemática a partir de 1726. A descoberta das minas de ouro em Minas Gerais iria, posteriormente, criar uma grande demanda pelo gado da região, e consolidou a ocupação do território. Nessa época, a célula básica da comunidade gaúcha eram as estâncias, sempre com grandes extensões, onde o gado era criado.
Fonte: RS Digital.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A REFORMA ANGLICANA

Ao contrário dos primeiros movimentos protestantes que tomaram conta da Europa no século XVI, o anglicanismo surgiu em torno de questões que envolviam diretamente os interesses da monarquia britânica. A monarquia Tudor, que na época controlava o trono inglês, buscava meios para reforçar a autoridade real frente à forte influência das autoridades eclesiásticas. Tal disputa se sustentava principalmente no fato da Igreja ter em mãos uma grande extensão de terras sob o seu controle.
Na Inglaterra, o rei Henrique VIII (1491 – 1547) teve grande importância na consolidação da reforma religiosa. Henrique VIII e a Igreja já tinham uma relação pouco harmoniosa quando, no ano de 1527, o rei inglês exigiu que o papa anulasse seu casamento com a rainha espanhola Catarina de Aragão. Henrique VIII alegava que sua esposa não teve condições para lhe oferecer um herdeiro forte e saudável que desse continuidade à sua dinastia.
O papa Clemente VII resolveu não atender as súplicas do monarca britânico. Isso porque o tio de Catarina de Aragão, o rei Carlos V, estava auxiliando a Igreja contra o avanço dos luteranos no Sacro Império Romano Germânico. Inconformado com a indiferença papal, Henrique VIII obrigou o Parlamento britânico a votar uma série de leis que colocavam a Igreja sob o controle do Estado. No ano de 1534, o chamado Ato de Supremacia criou a Igreja Anglicana.
Segundo os ditames da nova Igreja, o rei da Inglaterra teria o poder de nomear os cargos eclesiásticos e seria considerado o principal mandatário religioso. A partir dessa nova medida, Henrique VIII casou-se com a jovem Ana Bolena. Além disso, realizou a expropriação e a venda dos feudos pertencentes aos clérigos católicos. Essa medida fez com que os nobres, fazendeiros e a burguesia mercantil passassem a exercer maior influência política.
No governo de Elizabeth I (1533 – 1603), novas medidas foram tomadas para reafirmar o poder da Igreja Anglicana. Alguns dos traços do protestantismo foram incorporados a uma hierarquia e uma tradição litúrgica ainda muito próximas às do catolicismo. Essa medida visava minimizar a possibilidade de um conflito religioso que desestabilizasse a sociedade britânica. No seu governo foi assinado o Segundo Ato de Supremacia, que reafirmou a autonomia religiosa da Inglaterra frente à Igreja Católica.
Rainer Sousa