sexta-feira, 30 de março de 2012

A internet nos deixa mais inteligentes ou mais burros?

Os especialistas em tecnologia acreditam que a resposta é “todas as alternativas anteriores”. Numa recente pesquisa, 50% dos entrevistados concordaram que a Internet é um instrumento que estimula talentos e a habilidade de encontrar informações importantes. Mas 42% acreditam que a hiperconectividade deixa o cérebro estúpido, com uma dependência doentia da rede mundial de computadores. Períodos de atenção curta, resultado de interações rápidas, virão em detrimento do foco nos problemas maiores, e provavelmente vamos ter uma falta de desenvolvimento em muitas áreas, tais como tecnologia, e até elementos sociais, como a literatura. As pessoas que irão liderar o avanço serão as que conseguirem acabar com o vício e focar.
Pessimismo online
De acordo com Universidade Elon e o Projeto Pew, que realizaram a pesquisa, a divisão entre os especialistas é algo em torno de 50%. Muitos daqueles que responderam que a geração da Internet levam vantagem intelectual temperaram essa opinião com avisos sobre o perigo do  lado negro do excesso de conectividade. Enquanto eles disseram que o acesso às pessoas e à informação aumentou com a era da Internet móvel, afirmaram também que já estão percebendo deficiências na habilidade de atenção dos jovens, de ser paciente e de pensar com profundeza.
Alguns manifestaram preocupação a respeito das modas que estão levando a um futuro no qual as pessoas serão consumidores idiotas de informação e muitos mencionaram o livro de George Orwell, ‘1984’ (*). Poderes centralizados que podem controlar o acesso à Internet conseguirão controlar muito as gerações futuras. Será muito parecido com o ‘1984’, onde o controle foi conseguido usando-se a linguagem para limitar e delimitar o pensamento. Assim, os regimes futuros poderão usar o acesso à Internet para controlar o pensamento coletivo.
(*) “Nineteen Eighty-Four” (em português, “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” – ou “1984”) é um romance do autor inglês Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell. No livro, Orwell mostra como uma sociedade oligárquica coletivista é capaz de reprimir qualquer um que se opuser a ela. O romance se tornou famoso por seu retrato da difusa fiscalização e controle de um determinado governo na vida dos cidadãos, além da crescente invasão sobre os direitos pessoais do indivíduo. O nome do programa “Big Brother” foi inspirado no livro de Orwell. No livro, o Big Brother (Grande Irmão) é o líder que tudo vê na anti-utópica Oceania, governante do mundo ocidental, num futuro imaginário. Representado pela figura de um homem, o Grande Irmão vigia toda a população através das chamadas teletelas, governando de forma tirânica e manipulando a forma de pensar dos habitantes.
Otimismo online
Alguns especialistas citam os talentos necessários para navegar na Internet e sugerem que as pessoas que cresceram conectadas vão se destacar. “Não há dúvida de que o cérebro está sendo religado”, afirma Danah Boyd, pesquisadora da Microsoft (foto). “As técnicas e mecanismos para entrar no sistema de atenção rápida serão muito úteis para as pessoas criativas”. Mas é preciso notar que ele é da Microsoft e não poderia dizer o contrário… Outros garantem que o uso da Internet é como um “cérebro exterior”, no qual os fatos são armazenados, liberando um espaço mental que vai além da memorização. “A tomada de lugar da memorização pela análise será o grande boom da sociedade”, afirma Paul Jones, um especialista em novas mídias.
Ainda que haja opiniões divergentes entre os benefícios e os custos do aumento da importância da Internet, os técnicos concordam que certas habilidades e talentos serão importantes para as gerações futuras. Entre elas estão: a habilidade de cooperação para resolver problemas; a de pesquisas efetivas por informação; a de sintetizar informações de várias fontes; a de se concentrar; e a de separar a informação útil do “lixo” da internet.
“Existe uma preocupação palpável entre esses especialistas de que as novas divisões sociais e econômicas vão emergir entre aqueles que são motivados e ao mesmo tempo entendem das novas mídias”, declarou o co-autor da pesquisa, Lee Rainie, diretor do Projeto Pew (foto). “Eles pedem uma reinvenção da educação pública para ensinar essas habilidades e evitar os problemas de um estilo de vida hiperconectado”, concluiu.
Diríamos que não existe nada fora de nós mesmos que nos faça bem ou mal. Portanto, não será a Internet nem qualquer outra coisa que nos fará mais inteligentes ou mais estúpidos, mas sim a nossa atitude com relação a essas coisas. Evidentemente, quem passa o dia inteiro vidrado no computador demonstra pouca inteligência. A Internet é simplesmente um instrumento, que tanto pode fazer bem quanto fazer mal, dependendo unicamente de quem o utiliza. O mal e o bem estão sempre dentro de nós, jamais fora.
Vocêsabia.net


quarta-feira, 28 de março de 2012

AS VISÕES DO NOVO MUNDO

Ao falarmos sobre a expansão marítimo-comercial, costumamos salientar um amplo número de razões políticas e econômicas que possibilitaram a ocorrência de tal fato histórico. Sem dúvida, tais fatores são de fundamental compreensão para esse novo momento em que os homens saem de sua terra natal para descobrirem outras localidades e povos ao redor do mundo. Contudo, essa ambição material não encerra as possibilidades de explicação vinculadas às grandes navegações.
Partindo para um outro referencial interpretativo, devemos nos ater ao fato de que várias histórias sobre terras longínquas cercadas de maravilhas e criaturas terríveis circulavam entre os europeus mesmo antes da real descoberta de outros continentes. Entre outros documentos podemos salientar o “Livro das Maravilhas”, obra escrita pelo navegador italiano Marco Pólo, em que relata a exuberância e riqueza de distantes civilizações do Oriente.
Tendo forte traço medieval, esses relatos tinham base no pensamento religioso cristão ao alternarem relatos que faziam lembrar a busca do paraíso perdido ou a temível descoberta do inferno. Além disso, várias concepções científicas anteriores a esse período defendiam a compreensão da terra como um grande plano limitado por um grande abismo, onde se encontravam feras terríveis. Dessa forma, o desejo pelo novo e o temor do desconhecido traziam uma contradição à aventura pelo mar.
Essa visão maniqueísta de origem medieval não foi simplesmente abandonada a partir do momento em que os navegantes europeus criaram técnicas de navegação seguras e desmentiram vários dos mitos sobre as terras distantes. Ao chegarem à América, por exemplo, alguns viajantes costumavam falar sobre os costumes “demoníacos” das populações nativas e da “riqueza infindável” encontrada naquele novo ambiente que os cercava.
Utilizando dos próprios registros cartográficos do século XVI temos uma série de imagens e gravuras que demonstravam essa concepção de maneira ainda mais clara. Em alguns mapas, cada continente era descrito por meio da representação de quatro diferentes mulheres, sendo a Europa o símbolo de altivez e soberania; a África, uma negra cercada por animais selvagens e com poucos ornamentos; a Ásia, uma princesa cercada de especiarias; e a América, uma jovem nua selvagem.
A partir disso, podemos compreender que as grandes navegações de fato assinalam um novo momento da História onde os homens europeus ampliavam sua visão de mundo. Contudo, esse momento ainda se mostrava impregnado de várias permanências em que os valores religiosos cristãos e a mitologia medieval se mostravam claramente vivos na mente daqueles homens que partiam para o mar.
Rainer Sousa


OS MISERÁVEIS


Os Miseráveis, do escritor francês Victor Hugo, foi escrito em 1862 e é uma narração de caráter social em que o misticismo, a fantasia e a denúncia das injustiças formam uma trama complexa, onde descreve vividamente, ao tempo de condenação, a injustiça social da França do século XIX.

Os Miseráveis é uma obra grandiosa no estilo narrativo e descritivo de Hugo, que esbanja a elegância, a riqueza e o fausto do barroco. Mas o romântico autor transcende os floreios da linguagem recheando essa estrutura estilística de um conteúdo rico e psicologicamente profundo: os movimentos dramáticos da alma humana sacudida por um turbilhão de anseios, sentimentos e emoções. É também grandioso pelos personagens intensos e extremados, figuras humanas que como Jean Vayean e o próprio policial Javert, perseverante, obstinado e frio, vivem sob a égide inabalável de princípios e ideais, a ponto de serem quase que sufocados pelas conseqüências emocionais de seus próprios atos. Os personagens são dotados de uma humanidade que resvala, por vezes para o belo mas também para o bizarro. Os cenários são descritos com riqueza de detalhes que podemos visualizá-los e imaginar que estamos nas cidadelas da França do século XIX ou vivendo a Batalha de Waterloo.

O romance conta a triste história de um homem (Jean Valjean), que, por ver os irmãos passarem fome, rouba um pedaço de pão e é condenado a 5 anos de prisão. Devido às tentativas de fuga e mau comportamento na cadeia, acaba sofrendo outras condenações, pagando 19 anos de reclusão. O livro é uma denúncia contra as injustiças do poder judiciário que vem se repetindo em todas as épocas. Para o autor, o mundo é o terreno onde se defrontam os mitos, o bem e o mal, a bondade e a crueldade.

Jean Valjean - é um homem que vive uma situação de miserabilidade no mesmo período em que Napoleão III (Imperador da França, de 1852 a 1871) aumentara seus gastos com a política externa francesa em busca de glória política. A vida miserável leva-o ao crime, mas se reabilita socialmente quando consegue uma ajuda caridosa. Em certo sentido, Jean é a própria mancha social que os projetos urbanos de Haussmann (Prefeito em Sena, de 1853 a 1870) pretendiam jogar para a periferia, mas que insistia em invadir o centro em horários inoportunos, emergindo literalmente de dentro de si (metáfora dos esgotos de Paris).

Na descrição que Victor Hugo faz da vida do personagem Jean Valjean, podemos observar que há o cuidado de evidenciar as circunstâncias que o levaram ao crime e, portanto, mais do que uma questão de gosto ou preferência pessoal por uma vida irregular, tratava-se de uma situação social que deveria ser encarada francamente pela sociedade em geral e pelas autoridades políticas em particular:

Jean Valjean, de humilde origem camponesa, ficara órfão de pai e mãe ainda pequeno e foi recolhido por uma irmã mais velha, casada e com sete filhos. Enviuvando a irmã, passou a arrimo da família, e assim consumiu a mocidade em trabalhos rudes e mal remunerados (...). Num inverno especialmente rigoroso, perdeu o emprego, e a fome bateu à porta da miserável família. Desesperado, recorreu ao crime: quebrou a vitrina de uma padaria para roubar um pão. (...) Levado aos tribunais por crime de roubo e arrombamento, foi condenado a cinco anos de galés. (...) Mesmo na sua ignorância, tinha consciência de que o castigo que lhe fora imposto era duro demais para a natureza de sua falta e que o pão que roubara para matar a fome de uma família inteira não podia justificar os longos anos de prisão a que tinha sido condenado.

Nota: O clássico Os miseráveis foi chamado de "um dos maiores best-sellers de todos os tempos". Nas 24 horas seguintes à publicação da primeira edição de Paris (1862), as 7 mil cópias foram todas vendidas. O livro foi publicado simultaneamente em Bruxelas, Budapeste, Leipzig (na Alemanha), Madri, Rio de Janeiro, Rotterdam e Varsóvia. Depois, a obra foi traduzida para quase todas as línguas do mundo. No século XX, Os miseráveis se tornou filme e musical da Broadway.

Enredo

No início do século XIX, na França, Jean Valjean rouba um pedaço de pão para os sobrinhos famintos e é injustamente condenado a prisão e a marginalidade. Após cumprir 19 anos de prisão com trabalhos forçados, Jean Valjean é acolhido por um gentil bispo, que lhe dá comida e abrigo. Mas havia tanto rancor na sua alma que no meio da noite ele rouba a prataria e agride seu benfeitor, mas quando Valjean é preso pela polícia com toda aquela prata ele é levado até o bispo, que confirma a história de lhe ter dado a prataria e ainda pergunta por qual motivo ele esqueceu os castiçais, que devem valer pelo menos dois mil francos.

Este gesto extremamente nobre do religioso devolve a fé que aquele homem amargurado tinha perdido.

Após nove anos, com o nome de senhor Madeleine, ele se torna prefeito e principal empresário em uma pequena cidade, mas sua paz acaba quando Javert, um guarda da prisão que segue a lei inflexivelmente, tem praticamente certeza de que o prefeito é o ex-prisioneiro que nunca se apresentou para cumprir as exigências do livramento condicional. A penalidade para esta falta é prisão perpétua, mas ele não consegue provar que o prefeito e Jean Valjean são a mesma pessoa. Neste meio tempo uma das empregadas de Valjean (que tem uma filha que é cuidada por terceiros) é despedida, se vê obrigada a se prostituir e é presa. Seu ex-patrão descobre o que acontecera, usa sua autoridade para libertá-la e a acolhe em sua casa, pois ela está muito doente. Sentindo que ela pode morrer ele promete cuidar da filha, Cosette, mas antes de pegar a criança sente-se obrigado a revelar sua identidade para evitar que um prisioneiro, que acreditavam ser ele, não fosse preso no seu lugar. Deste momento em diante Javert volta a persegui-lo, a mãe da menina morre mas sua filha é resgatada por Valjean, que foge com a menina enquanto é perseguido através dos anos pelo implacável Javert.

O tempo passa e a menina Cosette se apaixona profundamente por Marius, um jovem e carismático revolucionário.

Em plena revolução de 1832, a busca incansável de Jean Valjean pela redenção alcança seu clímax quando ele escolhe sacrificar sua liberdade para salvar o grande amor de Cosette, até que um dia o confronto dos dois inimigos é inevitável, e só então, através da grandeza de seu ato, Jean Valjean se sente verdadeiramente livre da perseguição impiedosa do policial Javert. Valjean teve de lutar muito para mostrar que era um homem de bem e conseguir viver em paz.


terça-feira, 27 de março de 2012

AS INFLUENCIAS GERMANICAS E ROMANAS NO OCIDENTE MEDIEVAL

No estudo da passagem da Antigüidade para a Idade Média estamos acostumados a assinalar o processo das invasões bárbaras como o grande marco inicial do mundo medieval. Dessa forma, temos a enganosa impressão de que tal fato histórico gerou um fenômeno de substituição dos costumes dentro da Europa. Em outros termos, a cultura da civilização romana morreria para dar lugar aos “rudimentares” costumes dos povos bárbaros.
 Contrariando tal idéia, podemos assinalar claramente como existem algumas permanências de origem clássica e germânica que subsistem em meio às profundas transformações da Idade Média. Dessa maneira, podemos ver que o consolidado ideal renascentista que coloca a Idade Média como o momento de interrupção da cultura greco-romana, pode ser observado em outra perspectiva.
Entre os germânicos podemos notar a questão do individualismo como uma das bases de sua cultura política. Os clãs guerreiros tinham grande autonomia e, em épocas de paz, não havia nenhuma lei que pudesse estar acima da responsabilidade que o indivíduo tinha sobre os seus atos. Dessa maneira, cada chefe familiar tinha autoridade para estabelecer as leis submetidas à sua família. A maior experiência de organização política observada entre os germânicos se dava durante a formação do comitatus.
O comitauts era um tipo de organização política temporária que se empreendia durante a ocorrência de alguma guerra ou conflito. Um chefe guerreiro era designado para comandar um grupo de soldados organizados contra a invasão de um outro povo guerreiro. Nesse acordo, o chefe do grupo militar prometia defender o interesse de seus comandados. Em troca, os comandados prometiam obedecer às decisões do chefe guerreiro. Esse tipo de relação social instituída pela lealdade influenciou na criação das relações de servidão; e susserania e vassalagem, presentes na Idade Média.
A economia dos povos germânicos também estabeleceu uma série de práticas que foram desenvolvidas no interior dos feudos. A produção de riquezas era concentrada no uso das terras cultiváveis. A produção agrícola, o pastoreio e a caça eram as principais atividades desenvolvidas. A lógica da produção não era voltada para o acúmulo, mas para a subsistência da população local. O comércio era feito em baixa quantidade, sendo a grande parte feita a partir de trocas naturais.
Outro traço característico da cultura germânica a se introduzir na Europa Medieval tem a ver com a organização social. Divididos entre guerreiros, homens livres inferiores e escravos, a sociedade germânica era desprovida de mecanismos capazes de permitir a ascensão social dos indivíduos. Na sociedade medieval essa mesma imobilidade era justificada pela influência cultural e ideológica exercida pela Igreja no interior dos feudos.
Entre os romanos, as mudanças causadas pela crise da sociedade escravista trouxeram uma série de práticas que também se instituíram no mundo medieval. A crise agrícola promovida pela falta de escravos incentivou a divisão das grandes propriedades em villas que se dedicavam ao consumo local e tinham suas terras distribuídas entre arrendatários que davam parte de sua produção ao proprietário das terras.
 Além disso, a desintegração das classes sociais romanas e a ruralização da população trouxeram à tona a formação de novos grupos sociais. Os colonos, que arrendavam as terras de um grande proprietário, poderiam ser antigos escravos, plebeus e clientes que não mais poderiam se servir da assistência do Estado, do poder econômico de um senhor, ou de práticas econômicas vinculadas ao comércio. Essa transformação proporcionou o aparecimento da vindoura e predominante classe servil da Idade Média.
A partir do entrecruzamento dessas características dos povos romanos e germânicos temos uma compreensão maior de como a Idade Média e as práticas feudais se instituíram durante determinado período histórico. De fato, os traços predominantes do sistema feudal se consolidaram a partir do século IX. Entre os séculos XII e XV o predomínio do sistema feudal perdeu espaço para outro conjunto de transformações que abriu portas para a formação das sociedades modernas.
Rainer Sousa


sexta-feira, 23 de março de 2012

BANDEIRA DA FRANÇA


A Bandeira Nacional da França (também conhecida como a tricolor ou bleu, blanc, rouge), tricolor em três faixas verticais (azul, branca e vermelha), simboliza a Revolução Francesa (1789), sendo que o azul representa o poder legislativo, branco o poder executivo e o vermelho o povo, os três "dividindo" igualmente o poder. Lembrando do lema francês, as cores representam também Liberdade (Liberté), Igualdade, (Égalité) e Fraternidade (Fraternité), na ordem da bandeira, "método" também usado na moeda francesa. Com vínculo à revolução e ao império, ela foi muito rejeitada inicialmente, sendo substituída por uma bandeira branca entre 1814 e 1830. A Revolução de 1830, conhecida também como Revolução de Julho, restabeleceu a antiga bandeira tricolor, que se consagrou definitivamente.
Fonte de texto: Wikipédia.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A DAMA DE FERRO

Filha de um comerciante e político de província, Margaret Thatcher cavou seu caminho com muito estudo, trabalho e luta contra os preconceitos. Conquistando a indicação do Partido Conservador, torna-se a primeira mulher a eleger-se primeira-ministra na Inglaterra. Uma administração marcada por sua inflexibilidade e medidas polêmicas.
Meryl Streep vem colecionando prêmios na pele da ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher, protagonista da cinebiografia A Dama de Ferro, numa interpretação coroada com o terceiro Oscar da carreira desta que é a melhor atriz de sua geração. O filme venceu também o Oscar de maquiagem.
Exímia na atuação e no domínio de sotaques, Meryl é certamente o grande trunfo do filme da britânica Phyllida Lloyd (Mamma Mia!), com roteiro de Abi Morgan (do ainda inédito Shame), e no qual demonstra mais preocupação com um tom intimista do que de fidelidade histórica.
O foco do enredo está na humanização de sua polêmica personagem, que governou a Inglaterra com mão de ferro entre 1979 e 1990, notabilizando-se por uma defesa estrita do monetarismo, da privatização de estatais, da flexibilização do mercado de trabalho e cortes de benefícios sociais, eliminando inclusive o salário mínimo (depois restabelecido por Tony Blair, em 1999).
Passando um tanto batido por boa parte desse contexto político, o filme retrata a ex-primeira ministra – que está viva, com 86 anos - na atualidade, como uma velha senhora abalada pela semi-senilidade, solitária e cercada de auxiliares mais empenhados em vigiá-la do que acolhê-la. Difícil não se sentir penalizado diante desta situação, ainda mais contando com uma intérprete do quilate de Meryl Streep para explorar suas nuances.
Despojada de sua glória, esta senhora fragilizada tem pouco mais a fazer do que recordar o passado, que ela não raro discute com o fantasma do marido, Denis (Jim Broadbent) – uma sombra dos bons tempos que parece recusar-se a abandoná-la.
As lembranças trazem de volta as imagens de uma jovem de província (interpretada nesta fase por Alexandra Roach). Filha de um comerciante, ela vem de baixo e vai abrindo seu caminho, à custa de muito trabalho e estudo, na prestigiada universidade de Oxford.
Por influência do pai e do marido, que foi um executivo da indústria petrolífera, Margaret entra para o reduto machista da política. Apesar disto, com persistência e seguindo conselhos de alguns aliados, muda de penteado e impõe seu estilo, para tornar-se a primeira mulher a alcançar o cargo de primeira-ministra na Inglaterra.
Dificilmente, não despertaria simpatia uma narrativa carregada deste tom feminista. O problema é que a época de Thatcher, como é de conhecimento geral, foi marcada por episódios cruciais, como a Guerra Fria, uma longa greve de mineiros, a Guerra das Malvinas com a Argentina e o enfrentamento com o Exército Republicano Irlandês (IRA) – que armou uma bomba para tentar matá-la, em 1984.
Sendo assim, o filme parece uma sombra pálida demais para retratar uma personagem assim complexa. E, ao contrário do consistente J. Edgar, de Clint Eastwood, que lidou à altura com o não menos polêmico chefão do FBI, John Edfar Hoover, A Dama de Ferro não dá conta nem de um mínimo da ambiguidade de sua importante protagonista.
Fonte: CineWeb.


sábado, 17 de março de 2012

HÉRCULES

Hércules (ou Héracles), o maior de todos os heróis gregos, era filho de Zeus e Alcmena. Alcmena era a virtuosa esposa de Anfitrião e, para seduzi-la, Zeus assumiu a forma de Anfitrião enquanto este estava ausente de casa. Quando seu marido retornou e descobriu o que tinha acontecido, ficou tão irado que construiu uma grande pira e teria queimado Alcmena viva, se Zeus não tivesse mandado nuvens para apagar o fogo, forçando assim Anfitrião a aceitar a situação. Nascido, o jovem Hércules rapidamente revelou seu potencial heróico. Enquanto ainda no berço, ele estrangulou duas serpentes que a ciumenta Hera, esposa de Zeus, tinha mandado para atacá-lo ao seu meio-irmão Íflico; enquanto ainda um menino, ele matou um leão selvagem no Monte Citéron. Na vida adulta, as aventuras de Hércules foram maiores e mais espetaculares do que as de qualquer outro herói. Por toda a antigüidade ele foi muito popular, o assunto de numerosas estórias e incontáveis obras de arte. Apesar das mais coerentes fontes literárias sobre suas façanhas datarem apenas do século III a.C., citações espalhadas por vários locais e a evidência de fontes artísticas deixam muito claro o fato que a maioria, se não todas, de suas aventuras era bem conhecida em tempos mais antigos.
Hércules realizou seus famosos doze trabalhos sob o comando de Euristeu, Rei de Argos de Micenas. Existem várias explicações da razão pela qual Hércules se sentiu obrigado a realizar os pedidos cansativos e aparentemente impossíveis de Euristeu. Uma fonte sugere que os trabalhos eram uma penitência imposta ao herói pelo Oráculo de Delfos quando, num acesso de loucura, matou todos os filhos de seu primeiro casamento. Enquanto os seis primeiros trabalhos se passam no Peloponeso, os últimos levaram Hércules a vários lugares na orla do mundo grego e além. Durante os trabalhos, Hércules foi perseguido pelo ódio da deusa Hera, que tinha ciúmes dos filhos de Zeus com outras mulheres. A deusa Atena, por outro lado, era uma defensora entusiasta de Hércules; ele também desfrutou da companhia e ajuda ocasional de seu sobrinho, Iolau.
O primeiro trabalho de Hércules era matar o leão de Neméia. Como esta enorme fera era invulnerável a qualquer arma, Hércules lutou com ele e acabou estrangulando-o apenas com suas mãos. A seguir, ele removeu a pele utilizando uma de suas garras, e passou a utilizá-la como uma capa, com as patas amarradas ao redor de seu pescoço, as presas surgindo sobre sua cabeça, e a cauda balançando em suas costas. O segundo trabalho exigiu a destruição da Hidra de Lerna, uma cobra aquática com várias cabeças, que estava flagelando os pântanos perto de Lerna. Sempre que Hércules decepava uma cabeça, duas cresciam em seu lugar, e, como se isso não fosse um problema suficiente, Hera enviou um caranguejo gigante para morder o pé de Hércules. Este truque desleal foi demais para o herói, que decidiu pedir ajuda a Iolau; enquanto Hércules cortava as cabeças, Iolau cauterizava os locais com uma tocha flamejante, de modo que novas cabeças não pudessem crescer, e finalmente dando cabo do monstro. A seguir, Hércules embebeu a ponta de suas flechas no sangue ou veneno da Hidra, tornando-as venenosas.
No Monte Erimanto, um feroz javali estava se portando violentamente e causando prejuízos. Euristeu rispidamente ordenou a Hércules que trouxesse este animal vivo à sua presença, mas as antigas ilustrações deste episódio, as quais mostram principalmente Euristeu acovardado refugiando-se num grande jarro, sugerem que ele veio a se arrepender desta ordem. Hércules levou um ano para realizar o trabalho a seguir, que era capturar a Corça do Monte Carineu. Este animal parecia ser mais tímido do que perigoso. Este animal era sagrado para a deusa Ártemis e, apesar de ser fêmea, possuía lindas aspas. De acordo com a lenda, Hércules finalmente aprisionou a Corça e a estava levando para Euristeu, encontrou-se com Ártemis, que estava muito zangada e ameaçou matar Hércules pelo atrevimento em capturar seu animal; mas quando ficou sabendo sobre os trabalhos, ela concordou em deixar Hércules levar o animal, com a condição que Euristeu o libertasse logo que o tivesse visto.
Os Pássaros Estinfalos eram tão numerosos que estavam destruindo todas as plantações nas vizinhanças do Lago Estinfalo em Arcádia; várias fontes dizem que eles eram comedores de homens, ou pelo menos podiam atirar suas penas como se fossem flechas. Não está muito claro como Hércules enfrentou este desafio: uma pintura de um vaso mostra Hércules atacando-os com um tipo de estilingue, mas outras fontes sugerem que ele os abateu com arco e flecha, ou os espantou para longe utilizando um címbalo de bronze feito especialmente para a tarefa pelo deus Hefesto. O último dos seis trabalhos do Peloponeso foi a limpeza dos currais Augianos. O Rei Áugias de Élida possuía grandes rebanhos de gado, cujos currais nunca tinham sido limpos, assim o estrume tinha vários metros de profundidade. Euristeu deve Ter pensado que a tarefa de limpar os estábulos num único dia seria impossível, mas Hércules uma vez mais conseguiu resolver a situação, desviando o curso de um rio e as águas fizeram todo o trabalho por ele.
Euristeu pede agora que Hércules capture o selvagem e fez touro de Creta, o primeiro trabalho fora de Peloponeso. Assim que Euristeu viu o animal, Hércules o soltou, este sobrevivendo até ser morto por Teseu em Maratona. A seguir, Euristeu enviou Hércules à Trácia para trazer os cavalos devoradores de homens de Diomedes. Hércules amansou estes animais alimentando-os com seu brutal senhor, e os trouxe de maneira segura a Euristeu. A seguir, ele foi imediatamente mandado, desta vez para as margens do Mar Negro, para buscar a cinta da rainha das Amazonas. Hércules levou um exército junto consigo nesta ocasião, mas nunca precisaria dele se Hera não tivesse criado problemas. Quando chegou à cidade das Amazonas de Temisquira, a rainha das Amazonas estava até feliz que ele levasse sua cinta; Hera, sentindo que estava sendo fácil demais, espalhou um boato que Hércules pretendia levar a própria rainha, iniciando-se uma sangrenta batalha. Hércules, é claro, conseguiu escapar com a cinta, mas após apenas duros combates e muitas mortes.
Para realizar seus três últimos trabalhos, Hércules foi completamente fora das fronteiras do mundo grego. Primeiro foi mandado além da borda do Oceano para a distante Eritéia no extremo ocidente, para buscar o Rebanho de Gérião.
Gérião era um formidável desafio; não apenas tinha um corpo triplo, mas para ajudá-lo a tomar conta de seu maravilhoso rebanho vermelho também utilizava um feroz pastor chamado Euritão e um cachorro de duas cabeças e rabo de serpente chamado Orto. Orto era o irmão de Cérbero, o cão que guardava a entrada do Mundo Inferior, e o encontro de Hércules com Gérião é algumas vezes interpretado como seu primeiro encontro com a morte. Apesar de Hércules Ter se livrado de Euritão e Orto sem muito dificuldade, Gérião, com seus três corpos pesadamente armados, provou ser um adversário mais formidável, e apenas após uma terrível luta Hércules conseguiu matá-lo. Quando retornou à Grécia, Euristeu enviou para uma jornada ainda mais desesperadora, descer ao Mundo Inferior e trazer Cérbero, o próprio cão do Inferno. Guiado pelo deus mensageiro Hermes, Hércules desceu ao lúgubre reino dos mortos, e com o consentimento de Hades e Perséfone tomou emprestado o monstro assustador e de três cabeças para mostrá-lo ao aterrorizado Euristeu; isto feito, devolveu o cachorro a seus donos de direito.
Mesmo assim, Euristeu solicitou um último trabalho: que Hércules lhe trouxesse os Pomos do Ouro de Hespérides. Estes pomos, a fonte da eterna juventude dos deuses, cresciam em um jardim nos confins da terra; foram um presente de casamento de Géia, a Terra, a Zeus e Hera. A árvore que dava as frutas douradas era cuidada pelas ninfas chamadas Hespérides e guardada por uma serpente. Os relatos variam sobre como Hércules resolveu este trabalho final. As fontes que localizam o jardim abaixo das montanhas Atlas, onde o poderoso Atlas sustenta os céus em suas costas, dizem que Hércules convenceu Atlas a pegar as maças por ele; enquanto fazia esta jornada Hércules sustentou, ele mesmo, o céu; quando Atlas retornou, Hércules teve algumas dificuldades em persuadi-lo a reassumir o seu fardo. Outra versão da estória sugere que o próprio Hércules foi ao jardim lutando e matando a serpente ou conseguindo convencer as Hespérides a lhe entregar as maças. As maças de Hespérides simbolizavam a imortalidade, e este trabalho final significaria que Hércules deveria ascender ao Olimpo, tomando seu lugar entre os deuses.
Além dos doze trabalhos, muitos outros feitos heróicos e aventuras foram atribuídos a Hércules. Na sua busca do jardim das Hespérides, teve que lutar com o deus marinho Nereu para compelir o deus a dar-lhe as informações que necessitava; em outra ocasião enfrentou outra deidade marinha, Tritão. Tradicionalmente foi na Líbia que Hércules encontrou o gigante Anteu: Anteu era filho de Géia, a Terra, e ele era invulnerável enquanto mantivesse contato físico com sua mãe. Hércules lutou com ele e ergueu-o do solo; desprovido da ajuda de sua mãe, ficou indefeso nos braços poderosos do herói. No Egito Hércules escapou por pouco de ser sacrificado pelas mãos do Rei Busíris. Um advinho tinha dito a Busíris que o sacrifício de estrangeiros era um método infalível de se lidar com as secas. Como o advinho era Cipriota, tornou-se a primeira vítima de seu próprio conselho; quando o método se mostrou efetivo, Busíris ordenou que todo o estrangeiro temerário o suficiente a entrar em seu reino seria sacrificado. Na vez de Hércules, deixou-se ser aprisionado e levado ao local do sacrifício antes de se voltar contra seus agressores e matar uma grande quantidade deles.
Hércules não raramente se envolvia em conflito com os deuses. Em uma ocasião, quando não recebeu uma resposta que estava esperando da sacerdotisa do Oráculo de Delfos, tentou fugir com o trípode sagrado, dizendo que iria criar um oráculo melhor por sua própria conta. Quando Apolo tentou detê-lo, ocorreu uma violenta discussão, que foi resolvida apenas quando Zeus arremessou um relâmpago entre eles.
Hércules era muito leal aos seus amigos; mais do que uma vez ele arriscou sua vida para ajudá-los, sendo o caso mais espetacular o de Alceste. Admeto, Rei de Feres na Tessália, tinha feito um acordo com Apolo que, quando chegasse a hora de sua morte, poderia continuar a viver se encontrasse alguém que quisesse morrer em seu lugar. Entretanto, quando Admeto estava se aproximando da hora da sua morte, mostrou-se ser mais difícil do que tinha calculado arranjar um substituto; após seus parentes mais velhos terem egoisticamente se recusado ao sacrifício, sua esposa Alceste insistiu para que fosse a sacrificada. Quando Hércules chegou, ela já tinha descido ao Mundo Inferior, indo ele imediatamente atrás dela. Então lutou com a morte e venceu, trazendo-a de volta em triunfo ao mundo dos vivos.
Hércules era o super-homem grego, sendo muitas das estórias de seus feitos interessantes contos de realizações sobre-humanas e monstros fabulosos. Ao mesmo tempo Hércules, assim como Ulisses, também atua como se fosse um homem comum, sendo suas aventuras como parábolas exageradas da experiência humana. Irritadiço, não extremamente inteligente, apreciador do vinho e das mulheres (suas aventuras amorosas são muito numerosas), era uma figura eminentemente simpática; e no geral seu exemplo deveria ser seguido, pois destruía o mal e defendia o bem, superando todos os obstáculos que o destino lhe colocou. Além de tudo, ofereceu alguma esperança para a derrota da ameaça última e crucial do homem, a morte.
O fim de Hércules foi caracteristicamente dramático. Uma vez, quando ele e sua nova noiva Dejanira estavam atravessando um rio, o centauro Nesso ofereceu-se para transportar Dejanira, e no meio da correnteza tentou raptá-la. Hércules matou-o com uma de suas flechas envenenadas, e ao morrer, Nesso, simulando arrependimento, incentivou Dejanira a pegar um pouco de sangue do seu ferimento e guardá-lo; se Hércules algum dia parecesse cansado dela, deveria embeber um traje no sangue e dá-lo para que ele o vestisse; após isso, ele nunca mais olharia para outra mulher. Anos mais tarde Dejanira lembrou-se deste conselho quando Hércules, voltando de uma distante campanha, mandou à frente uma linda princesa aprisionada pela qual estava evidentemente apaixonado. Dejanira mandou a seu marido um robe tingido pelo sangue; ao vestir a roupa, o veneno da Hidra penetrou na sua pele e ele tombou em terrível agonia. Seu filho mais velho, Hilo, levou-o ao Monte Eta e depositou seu corpo, retorcido porém ainda respirando, numa pira funerária, a qual acabou sendo acesa pelo herói Filoctetes. Entretanto, os trabalhos de Hércules asseguraram-lhe a imortalidade, assim ele subiu ao Olimpo e assumiu seu lugar entre os deuses que vivem eternamente.
Fonte:www.mundodos filosofos.com.br




sexta-feira, 16 de março de 2012

OS MAIAS


Os Maias - Eça de Queiroz
Em junho de 1888, os livreiros portugueses começaram a vender os primeiros dos cinco mil exemplares da primeira edição de Os Maias. É tiragem que impressiona ainda hoje. O que dizer então naqueles tempos de um Portugal pouco habitado e não muito lido? Foi uma temeridade, mas à audácia dos editores correspondeu a curiosidade dos leitores e o interesse da crítica. E o livro do desconfiado Eça de Queiroz transformou-se, desde então, num sucesso de vendas. E assim é (ou voltou a ser) hoje em dia. Andou uns tempos esquecido, é verdade, mas bastou que a televisão fosse buscar inspiração (palavra perigosa) no velho romance, para que as novas reedições sumissem, recém-chegadas às livrarias, pouco antes do Natal, e fossem totalmente consumidas pouco antes do novo ano. Eça de Queiroz foi impreciso e modesto ao dar a Os Maias o subtítulo "episódios da vida romântica". Na verdade, o seu mais famoso romance é uma tragédia, tal como a entendia Sófocles quando, já na maturidade, compôs o seu Édipo. Uma tragédia burguesa, mas quando même uma tragédia, pois que lá está a grave transgressão moral, cometida em completa inconsciência por seus dois personagens centrais — Carlos Eduardo e Maria Eduarda.

Da Maia, ambos; irmãos, apaixonados e incestuosos ambos, e belos e trágicos. Invejo quem agora, instigado pela minissérie, vai ler esse livro pela primeira vez. Terá prazer único e irreproduzível. As releituras que hão de vir, mais tarde, servirão de consolo, mas não de substituto. Esse prazer estará certamente na elegância barroca da forma e no desenvolvimento astucioso do entrecho. Mas estará também, ou principalmente, nos admiráveis retratos que Eça faz de seus tipos principais, com a elegância e a minúcia de um genial pintor romântico, mas com "o seu olho à Balzac". A começar não por um tipo, mas por uma casa, mais exatamente a "casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875", que surge, penumbrosa e prenunciadora, logo na primeira frase do livro, e que era conhecida como a casa do ramalhete "ou, mais simplesmente, o Ramalhete". Então, lemos, já encantados: "Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas janelas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação dos tempos da Sra. D. Maria I; com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de jesuítas". Ai está o cenário da tragédia. O Ramalhete é, pela ordem de entrada, o primeiro personagem em cena, com suas paredes sempre fatais àquela antiga família da Beira, tão rica e tão infeliz. E será no Ramalhete e em torno dele que vamos ser apresentados aos personagens nos quais Eça de Queirós se insinua, para nos falar através de suas muitas vozes. Seus retratos eram sempre perfeitos e, ao longo da trama, coerentes. A única personagem que o confunde é Maria Eduarda, por sua beleza de deusa. Quando ela aparece — e como custa a aparecer! —, "é alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carne"; algumas páginas adiante, Carlos a revê e nota que "os cabelos não eram louros, como julgara de longe, à claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa". Falei de retratos e o mais correto é falar de auto-retratos. Se Fernando Pessoa tinha seus heterônimos, Eça tinha os seus "eus", como diz Beatriz Berrini, que eram muitos e muito se pareciam. Ele nos fala pela voz severa do velho Afonso da Maia, que "era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes...o cabelo branco todo cortado à escovinha, e a barba de neve, aguda e longa", a reclamar melhores destinos para o seu lamentável país e a cobrar, do neto tão promissor, menos diletantismo e mais realizações. Fala-nos também com as palavras cruéis e desassombradas do neto Carlos, "um formoso e magnífico moço, alto, bem-feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis de cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, dum negro líquido, ternos como os dele e mais graves", e que costumava vociferar: "A única coisa a fazer em Portugal é plantar legumes, enquanto não há uma revolução que faça subir à superfície alguns dos elementos originais, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo". Ao que o avô respondia, já impaciente com esse diletantismo do neto, como se falasse em nome do autor: — Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam alguma coisa! Mas nenhum de seus "eus" foi mais ele mesmo que João da Ega, ou João da Eça, ou o Ega de Queirós, que todos esses trocadilhos, embora fáceis, têm cabimento e justeza. Talvez só o Fradique Mendes se lhe possa comparar, mas esse não vem ao caso, agora, porque não é personagem d´Os Maias. Eram "eus" idealizados e muita vez caricaturados, mas que, no fundo, o reproduziam com verdade e o exprimiam com coerência. Ao Ega, deu-lhe o Eça a existência que gostaria de ter tido: discutido e admirado, com a mãe devota, rica e viúva, a lhe garantir o presente e o futuro, permitindo-lhe desfrutar as sofisticações, as intimidades e os desvelos de uma família de aristocratas, como era a dos Maias; mais alguns amores ardentes e com saúde razoavelmente forte para gozar, sem medos nem cuidados, o prazer das boas comidas e dos bons vinhos, dos conhaques e das águas ardentes, das noitadas com espanholas e das devassidões vespertinas, com amantes de luxo. É conclusão a que se chega no momento em que Eça retrata o Ega — e se auto-retrata: cheio de verve e de irreverência, de frases retumbantes e ditos irônicos, um talento amaldiçoado, temido e exaltado. Vejamos o Ega pelos olhos do Eça: "O esforço da inteligência (...) terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os pêlos arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito — tinha alguma coisa de rebelde e de satânico". Ora, se não é esse ou quase esse o retrato do próprio Eça, tal como captado na célebre caricatura que dele fez Rafael Bordalo Pinheiro, então já não sei ver nem distinguir. É ainda o Ega que, em momento de impaciência com a mediocridade e a hipocrisia da sociedade burguesa, e como que falando em nome de seu criador, deixa Lisboa e corre para restaurar-se no interior, lançando a Carlos e a Craft, os dois grandes amigos que o foram acompanhar à diligência, esta frase aterradora: — Sinto-me como se a alma me tivesse caído a uma latrina! Preciso um banho por dentro. Tal como Carlos da Maia, também João da Ega era um diletante. Ambos têm revoltas pouco profundas e de pouca duração. As suas grandes promessas de realização pessoal e de transformação do mundo terminam por desmaiar no culto quase religioso do luxo e do tédio. Passam a representar o que mais incomodava o inconformado Eça: a renúncia e o conformismo. É com mãos hábeis, orgulhosas e brilhantes que Eça os faz florescer em Coimbra, em tempos de sonho e de estudo, a prometer insubmissão e luta. É com olhar de desalento e pessimismo que Eça os deixa vencidos e melancólicos, a "correr desesperadamente pela rampa de Santos", atrás de um bonde e de um jantar, "sob a primeira claridade do luar que subia". Tal como o próprio Eça se sentia, Ega e Carlos eram, naquele momento, dois "vencidos da vida". E assim a tragédia se consuma e nos obriga a repensar o ser humano com inquietação e desconfiança. Lisboa, 1875. A cidade não apenas como um cenário mas como uma personagem, viva, interveniente, testemunha e cúmplice dos acontecimentos.A cidade acorda, o movimento cresce. De entre a multidão que circula vão-se destacando, anunciadas pela narradora, as principais personagens desta história.Mais tarde, ao serão, no interior da casa dos Maias, conhecida como o Ramalhete, reúnem-se alguns distintos representantes da sociedade da época: da intelligentsia à alta burguesia lisboeta, até alguns políticos do constitucionalismo regenerador. Lá estavam, entre outros, João da Ega, amigo incondicional de Carlos da Maia, sagaz e polémico, sempre crítico da mediocridade nacional. Ou ainda Craft, com quem, nessa mesma noite, Carlos da Maia acabaria por negociar uma quinta, nos Olivais. Ou ainda Dâmaso Salcede, pretencioso e burlesco que revelaria, eufórico, como uma das suas recentes conquistas, a aproximação de Maria Eduarda de Castro Gomes, o que não deixara de provocar uma ainda inexplicável irritação a Carlos da Maia. A sólida presença de Afonso da Maia, patriarca da família, constitui, para todos, um valor de referência.Na realidade, Carlos da Maia alimentava já por Maria Eduarda de Castro Gomes uma secreta paixão e não deixava de a visitar diariamente a pretexto de assistir clinicamente a sua governanta inglesa, Miss Sarah.Numa dessas visitas como médico à residência dos castro Gomes, - na rua de S. Francisco - percebe-se claramente a existência de uma reciprocidade de sentimentos, da qual, Dâmaso Salcede acabará inadvertidamente, por ser testemunha, não escondendo a sua surpresa e o seu despeito, que o levara a congeminar uma forma de vingança.Entretanto, Carlos e Maria Eduarda vivem já o seu romance na nova Quinta dos Olivais, comprada a Craft. Assim corre o tempo dividido entre as apressadas idas ao Ramalhete e a clandestina vida nos Olivais. Certo dia, no Ramalhete, Carlos e Ega trocam algumas confidência sobre a vida atribulada do primeiro, que procura esconder do avô a situação familiar da sua amante, conhecida em Lisboa, como a senhora Castro Gomes.Será, pois, com a maior estupefacção que Carlos receberá em sua casa o próprio Castro Gomes que lhe esclarece, com algum acinte, que aquela que todos dão como sua esposa não é senão a sua amante, com quem vive e a quem paga uma existência requintada em troca de companhia. Perante o desespero e a humilhação de Carlos, Ega sugere-lhe que usufrua, como vinha fazendo até aí, desse amor ilegítimo.Porém, a súbita chegada de Monsieur Guimarães vai precipitar o fim da história, ao trazer consigo num pequeno cofre, o espólio de Maria Monforte, mãe de Maria Eduarda, que morrera em Paris. Nesse espólio confirma-se que Maria Monforte fora a esposa que levara ao suicídio Pedro da Maia, pai de Carlos. A tragédia precipita-se - os dois amantes eram, no final, irmãos. Tal revelação levará à morte o velho Afonso da Maia, ao afastamento dos dois amantes, à partida de Carlos para o estrangeiro.Só dez anos depois Carlos voltará a Portugal, reencontrando-se com os amigos de sempre, e sobretudo, com Ega, com quem fará um saldo do passado, carregado de ironia e cepticismo, uma síntese dos seus destinos pessoais e do destino colectivo do país, como nação. Vidas falhadas ou ainda a tempo de apanhar o futuro?



NEW DEAL

O governo republicano do presidente Hebert Hoover, adepto do liberalismo econômico, não tinha instrumentos para reverter à crise. Ele acreditava que as leis de oferta e procura, a livre iniciativa e a “mão invisível” do mercado resolveriam a crise em algumas semanas. No entanto, os números da Grande Depressão, ainda em sua gestão tornaram-se assustadores. Assim, nas eleições de 1932, venceu Franklin Delano Roosevelt, candidato do Partido Democrata. Ao assumir a presidência em março de 1933, a situação era da maior gravidade, com a recessão atingindo o apogeu.
                Roosevelt lançou um plano de recuperação econômica intitulado New Deal (Novo Acordo). Reunindo intelectuais de importantes universidades, ele formou o chamado “brain trust” (truste de cérebros) com o objetivo de elaborar medidas para retirar o país da crise. As alternativas passavam longe do liberalismo econômico. O objetivo maior era implementar reformas por meio da intervenção estatal na economia, abandonando as regras do “livre mercado”. Para os economistas que auxiliavam Roosevelt, era necessário que a população tivesse dinheiro para comprar mercadorias e, com isso, permitir que as fábricas voltassem a produzir. Os grandes conglomerados empresariais deveriam estar submetidos a regras e leis, sendo fiscalizados por órgãos estatais. Não só a riqueza deveria ser mais bem distribuída, como também era preciso oferecer crédito à população. Tudo isso exigiria gastos do governo federal, gerando déficit no orçamento público.
                O primeiro ato importante do governo foi a Lei Bancária de 1933, com rígido controle estatal sobre as instituições financeiras. O governo garantiu os depósitos bancários gerando a confiança do público, que voltou a depositar seu dinheiro nas contas correntes. Com a iniciativa, Roosevelt deu solidez ao sistema financeiro e bancário do país. A segunda medida, no mesmo ano, beneficiou os produtores agrícolas. O governo assumiu as dívidas dos devedores e depois incentivou a reduzirem a área plantada. Em alguns setores, pagou para não plantarem. Isso elevou o preço dos produtos agrícolas, remunerando os fazendeiros.
                No caso da indústria, acordo entre empresários e Estado estabeleceu regras mais leais de concorrência entre as empresas, mas na prática permitiu o fortalecimento dos trustes e cartéis. Em compensação, a jornada de trabalho foi reduzida para 35 horas semanais e foi fixado um salário mínimo. Com obras públicas financiadas pelo governo, muitos desempregados voltaram a trabalhar. Cerca de 2,5 milhões de trabalhadores foram contratadas para drenagem de pântanos, reparação de estradas e outras atividades. Empresas estatais foram fundadas. As políticas públicas de Roosevelt eram de intervenção no mercado, de investimentos públicos, de regulamentação da economia, de intermediação das relações entre patrões e empregados e da criação de empresas estatais. O New Deal tinha diretrizes que contrariavam frontalmente os princípios da economia liberal.
                Ao final de 1934, alguns efeitos foram sentidos. Os preços voltaram a subir e a renda nacional cresceu 20%, embora o número de desempregados ainda fosse grande: 11 milhões. Mas o New Deal trouxe esperança para a sociedade estadunidense. Roosevelt, no entanto, teve de enfrentar criticas dos republicanos e dos conservadores, que acusavam o Novo Acordo de socialista. A Suprema Corte tornou-se uma baluarte contra as iniciativas reformistas de Roosevelt.  A resposta do presidente ao povo foi a seguinte: “Foi a minha administração que salvou o sistema do lucro e da livre empresa e o recolheu a beira do abismo aonde haviam conduzido aqueles, que atualmente, tentam amedrontar-vos”. A pedido de Roosevelt, o Congresso ampliou o número de magistrados na Suprema Corte, o que permitiu ao presidente nomear juízes favoráveis as reformas.
                A partir de 1935, ele aprofundou as politicas intervencionistas do Estado. Uma série de leis sociais foi promulgada, como a Lei de Seguridade Social, reconhecendo os direitos sociais dos trabalhadores. O governo também estimulou a construção de casas populares. Em 1937, muitos índices econômicos tinham melhorado, embora o desemprego continuasse alto. Receoso de que o déficit público gerasse inflação, o governo realizou cortes no orçamento, suspendendo diversas obras públicas. O resultado foi desastroso com o retorno da recessão. A produção caiu a níveis alarmantes e o desemprego aumentou ainda mais. Para os economistas do New Deal algo ficou claro: os gastos públicos injetavam dinheiro na economia, capitalizando as empresas e permitindo aos trabalhadores obterem rendimentos.
                A partir daí, o Estado passou a realizar grandes investimentos. Muitas obras públicas foram realizadas, como a eletrificação rural e a modernização de estradas e portos. Tais iniciativas beneficiam as empresas e ofereciam empregos aos trabalhadores. O New Deal deteve, sem dúvida, o colapso da economia norte-americana. Com a eclosão da II Guerra Mundial, as grandes encomendas governamentais para a indústria bélica reativaram de vez a economia norte-americana: navios de guerra, tanques, aviões, automóveis, armas, uniformes, etc. as políticas  reeleito por mais duas vezes (1940 e 1944).


quinta-feira, 15 de março de 2012

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO

Inspirada nos pensamentos dos iluministas, bem como na Revolução Americana (1776), a Assembleia Nacional Constituinte da França revolucionária aprovou em 26 de agosto de 1789 e votou definitivamente a 2 de outubro a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, sintetizando em dezessete artigos e um preâmbulo dos ideais libertários e liberais da primeira fase da Revolução Francesa (1789-1799). Pela primeira vez são proclamados as liberdades e os direitos fundamentais do homem (ou do homem moderno, o homem segundo a burguesia) de forma ecumênica, visando abarcar toda a humanidade. Ela foi reformulada no contexto do processo revolucionário numa segunda versão, de 1793. Serviu de inspiração para as constituições francesas de 1848 (Segunda República Francesa) e para a atual. Também foi a base da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pelas Nações Unidas.

Art.1.º Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As destinações sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.
 Art. 2.º A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.
 Art. 3.º O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhum corpo, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente.
 Art. 4.º A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo: assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei.
 Art. 5.º A lei não proíbe senão as ações nocivas à sociedade. Tudo que não é vedado pela lei não pode ser obstado e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene.
 Art. 6.º A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou através de mandatários, para a sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos.
 Art. 7.º Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela lei e de acordo com as formas por esta prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem ser punidos; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da lei deve obedecer imediatamente, caso contrário torna-se culpado de resistência.
 Art. 8.º A lei apenas deve estabelecer penas estrita e evidentemente necessárias e ninguém pode ser punido senão por força de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada.
 Art. 9.º Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei.
 Art. 10.º Ninguém pode ser molestado por suas opiniões , incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.
 Art. 11.º A livre comunicação das ideias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na lei.
 Art. 12.º A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública; esta força é, pois, instituída para fruição por todos, e não para utilidade particular daqueles a quem é confiada.
 Art. 13.º Para a manutenção da força pública e para as despesas de administração é indispensável uma contribuição comum que deve ser dividida entre os cidadãos de acordo com suas possibilidades.
 Art. 14.º Todos os cidadãos têm direito de verificar, por si ou pelos seus representantes, da necessidade da contribuição pública, de consenti-la livremente, de observar o seu emprego e de lhe fixar a repartição, a colecta, a cobrança e a duração.
 Art. 15.º A sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente público pela sua administração.
 Art. 16.º A sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos direitos nem estabelecida a separação dos poderes não tem Constituição.
 Art. 17.º Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, a não ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir e sob condição de justa e prévia indenização.
(Fonte: Wikipédia).



OS SOVIETES E A DEMOCRACIA PARTICIPATIVA

Os sovietes surgiram inicialmente como um conselho de trabalhadores democraticamente eleitos, com o objetivo de impulsionar as lutas sociais e políticas dos russos. Esses conselhos eram compostos de operários, camponeses, soldados e intelectuais. Tinham grande atuação, organizando greves, intermediando negociações entre patrões e empregados, publicando jornais, etc.
                Eles se espalharam rapidamente pelo país e ganharam influencia. Exerciam a fiscalização das ações governamentais e, em momentos críticos, chegaram a assumir responsabilidades que eram do governo, como cuidar do abastecimento, do transito, da iluminação e da saúde pública. Como afirma o historiador Marc Ferro, os sovietes se constituíram como uma espécie de poder paralelo dentro da Rússia, de tal forma que os bolcheviques os viam como um embrião de um futuro estado socialista.
                Os sovietes assumiram naquele momento, diversas demandas politicas e econômicas da população russa: a retirada das tropas russas da I Guerra Mundial, a implantação da reforma agrária, a luta por melhores salários e direitos sociais para a classe trabalhadora. Esses órgãos desempenharam, portanto, papel de protagonismo com relação a politica nacional russa, mas tiveram seu poder esvaziado devido ao autoritarismo burocrático que se instalou no país a partir da década de 1920, principalmente sob o governo de Stálin.
                Esse tipo de participação na tomada de decisões sobre as políticas públicas não é algo exclusivo do passado na Rússia. No Brasil, por meio de instancias variadas, como cooperativas, sindicatos, associações de bairro, organização não governamentais, etc., os cidadãos conseguem, por exemplo, definir prioridades para o destino dos gastos públicos, propor projetos de lei ou mudanças na legislação vigente, cobrar dos representantes políticos no governo o cumprimento das promessas de campanha, conhecer a forma de utilização dos impostos arrecadados, etc. É o que hoje chamamos de democracia participativa, assegurada a população brasileira na Constituição de 1989.(História em Movimento, p.127-128).

quarta-feira, 14 de março de 2012

UNIFICAÇÃO ALEMÃ

No começo do século XIX, a Alemanha se resumia a uma série de Estados independentes que integravam a chamada Confederação Germânica. Do ponto de vista político, essa confederação era marcadamente reconhecida pela forte influência dos austríacos. Por outro lado, a Prússia, outra integrante da confederação, almejava interromper a hegemonia da Áustria por meio da unificação definitiva dos territórios alemães.
Para que isso fosse possível, o governo prussiano realizou inicialmente um amplo acordo de cooperação econômica entre os vários Estados Germânicos. Conhecido como Zollverein, essa política de cooperação econômica foi marcada pelo isolamento do Império Austríaco e o gradual fortalecimento das atividades comerciais e da indústria entre os demais governos alemães. Nesse contexto, a Prússia reunia condições para firmar oposição contra a antiga hegemonia austríaca.
No ano de 1861, a Prússia deu outro importante passo para a unificação quando o kaiser Guilherme I convidou Otto Von Bismarck para compor seu ministério. Apesar de não ter vínculos com a burguesia industrial, esse político era favorável ao processo de unificação dos Estados alemães. Dessa forma, Bismarck tomou medidas a fim de preparar os prussianos para uma vindoura série de conflitos militares que facilitariam a tão desejada unificação.
A primeira dessas guerras aconteceu contra a Dinamarca, que exercia domínio político sobre os ducados germânicos Schleswig e Holstein. Nesse conflito, Bismarck buscou o apoio militar dos austríacos em troca de compensações territoriais. Contudo, após vencer os dinamarqueses, o governo prussiano recusou propositalmente a ceder parte dos territórios conquistados à Áustria. Dessa forma, uma nova luta pela unificação seria justificada.
No ano de 1866, o moderno exército prussiano invadiu e devastou os territórios austríacos na Guerra das Sete Semanas. Por meio desta significativa conquista, os prussianos exerceram papel central na chamada Confederação Germânica do Norte. Nesse momento, bastava aos alemães conquistarem os territórios ao sul que se encontravam sob o controle do governo da França. Entretanto, faltava uma nova justificativa para que esse confronto se concretizasse.
Em 1870, uma revolução havia deixado vago o trono da Espanha. Nesse contexto, a liderança do governo hispânico fora oferecida para o príncipe Leopoldo Hohenzollen, parente do rei da Prússia. Temendo a ampliação da influência prussiana, o rei francês Napoleão III exigiu que o governo da Prússia descartasse a candidatura de Leopoldo. Em reposta ao pedido de Napoleão, fora enviado um telegrama ofensivo que havia sido adulterado pelo ministro Otto Von Bismarck.
O estratagema do ministro foi suficiente para que as populações alemãs e francesas exigissem uma resposta militar ao episódio. Mais uma vez, contando com inquestionável superioridade bélica, as tropas prussianas venceram os conflitos que garantiram o controle sobre as valiosas regiões da Alsácia e Lorena. Além disso, conforme especificado pelo Tratado de Frankfurt, os franceses foram obrigados a assistir a oficialização do Segundo Reich no próprio Palácio de Versalhes.
Dessa forma, a unificação alemã foi concluída e abriu caminho para que este novo Estado pudesse ampliar seu parque industrial e fortalecer sua economia. Nesse contexto, o governo alemão passou a se envolver nas disputas imperialistas que marcaram a exploração de territórios afro-asiáticos. Com o passar das décadas, o acirramento de tal disputa seria um dos cenários que antecedem a Primeira Guerra Mundial.
Rainer Sousa


DECLARAÇÃO DE DIREITOS DE 1689

Durante a Revolução Gloriosa, Guilherme de Orange chegou com seu exército à Inglaterra em 5 de novembro de 1688. O então rei Jaime II tentou resistir a invasão de Guilherme. O rei mandou representantes para negociar com mas acabou fugindo em 23 de dezembro de 1688.
Antes de Guilherme e sua mulher, Maria II serem coroados no trono inglês, eles aceitaram a Declaração de Direito feita pelo Parlamento Inglês. Após eles aceitarem a Declaração, eles foram coroados monarcas conjuntos em abril de 1689. A Declaração de Direito foi anexada em um Ato do Parlamento, atualmente conhecido como Bill of Rights, em 16 de dezembro de 1689.
 Texto Básico

Os Lords, espirituais e temporais e os membros da Câmara dos Comuns declaram, desde logo, o seguinte:
 1.Que é ilegal a faculdade que se atribui à autoridade real para suspender as leis ou seu cumprimento.
2.Que, do mesmo modo, é ilegal a faculdade que se atribui à autoridade real para dispensar as leis ou o seu cumprimento, como anteriormente se tem verificado, por meio de uma usurpação notória.
 3.Que tanto a Comissão para formar o último Tribunal, para as coisas eclesiásticas, como qualquer outra Comissão do Tribunal da mesma classe são ilegais ou perniciosas.
 4.Que é ilegal toda cobrança de impostos para a Coroa sem o concurso do Parlamento, sob pretexto de prerrogativa, ou em época e modo diferentes dos designados por ele próprio.
 5.Que os súditos tem direitos de apresentar petições ao Rei, sendo ilegais as prisões vexações de qualquer espécie que sofram por esta causa.
 6.Que o ato de levantar e manter dentro do país um exército em tempo de paz é contrário a lei, se não proceder autorização do Parlamento.
 7.Que os súditos protestantes podem Ter, para a sua defesa, as armas necessárias à sua condição e permitidas por lei.
 8.Que devem ser livres as eleições dos membros do Parlamento.
 9.Que os discursos pronunciados nos debates do Parlamento não devem ser examinados senão por ele mesmo, e não em outro Tribunal ou sítio algum.
 10.Que não se exigirão fianças exorbitantes, impostos excessivos, nem se imporão penas demasiado deveras.
 11.Que a lista dos jurados eleitos deverá fazer-se em devida forma e ser notificada; que os jurados que decidem sobre a sorte das pessoas nas questões de alta traição deverão ser livres proprietários de terras.
 12.Que são contrárias as leis, e, portanto, nulas, todas as concessões ou promessas de dar a outros os bens confiscados a pessoas acusadas, antes de se acharem estas convictas ou convencidas.
 13.Que é indispensável convocar com frequência os Parlamentos para satisfazer os agravos, assim como para corrigir, afirmar e conservar as leis.
 14.-
 15.Reclamam e pedem, com repetidas instâncias, todo o mencionado, considerando-o como um conjunto de direitos e liberdades incontestáveis, como também, que para o futuro não se firmem precedentes nem se deduza consequência alguma em prejuízo do povo.
 16.A esta petição de seus direitos fomos estimulados, particularmente, pela declaração de S. A. o Príncipe de Orange (depois Guilherme III), que levará a termo a liberdade do país, que se acha tão adiantada, e esperamos que não permitirá sejam desconhecidos os direitos que acabamos de recordar, nem que se reproduzam os atentados contra a sua religião, direitos e liberdades.
Fonte: Wikipédia.
               


segunda-feira, 12 de março de 2012

A SOCIEDADE DAS TRINCHEIRAS, PELOS SOLDADOS

A Primeira Guerra Mundial ficou conhecida pelos horrores das trincheiras. Milhares de soldados de ambos os lados ficavam durante meses confinados nas trincheiras, padecendo com a fome, as doenças, o medo e a degradação humana. Alguns relatos dos próprios soldados impressionam:
                “O campo de batalha é terrível. Há cheiro de azedo, pesado e penetrante de cadáveres. Homens que foram mortos no último outubro estão meio afundados no pântano e nos campos de nabo em crescimento (...)Um pequeno veio de água corre atrás da trincheira, e todo mundo usa a água para beber e se lavar; é a única água disponível. Ninguém se importa com o inglês pálido que apodrece a alguns passos adiante. No cemitério os restos de uma matança foram empilhados e os mortos ficaram acima do nível do chão. As bombas alemãs, caindo sobre o cemitério, provocam uma horrível ressurreição”. (Rudolf Binding – que serviu em uma das divisões do exército alemão).
                      “Estamos tão cansados que dormimos, mesmo sob intenso barulho. A melhor coisa que poderia acontecer seria os ingleses avançarem e nos fazerem prisioneiros. Ninguém se importa conosco. Não somos revezados. Os aviões lançam projeteis sobre nós. Ninguém mais consegue pensar. As rações estão esgotadas, pão, conservas, biscoitos, tudo terminou! Não há uma única gota de água. É o próprio inferno! (Carta encontrado no bolso de um soldado alemão na Batalha de Somme).
                        “Ao ouvir alguns gemidos quando eu ia para a trincheira, olhei para um abrigo, ou buraco cavado ao lado e achei nele um jovem alemão. Ele não podia se mover porque suas pernas estavam quebradas. Implorou-me que lhe desse água, eu corri atrás de alguma coisa e encontrei um pouco de café que logo lhe dei para beber. Ele dizia todo o tempo “obrigado, obrigado, obrigado camarada”. Por mais que eu odeie os alemães, quando você está combatendo, a primeira reação que ocorre ao vê-los caídos por terra e feridos é sentir pena (...) Nossos homens são muito bons para com os alemães feridos. Na verdade, gentileza e compaixão com os feridos foram talvez as únicas coisas decentes que vi na guerra. Não é raro ver um soldado inglês e outro alemão lado a lado num mesmo buraco, cuidando um do outro”. (Arthur Conway – Tenente francês, 16 de setembro de 1916).



CONGRESSO DO PANAMÁ

A luta pela independência da América Espanhola contou com uma variedade de projetos que visavam dar fim ao processo de dominação perpetuado pelas monarquias do Velho Mundo. Nesse sentido, alguns pensadores e participantes do processo de independência das colônias espanholas enxergavam a necessidade de se formar um Estado amplo, capaz de assegurar as liberdades conquistadas e, ao mesmo tempo, promover a construção de nações prósperas.
Esse ideal de ampla integração do espaço colonial ficou popularmente conhecido como pan-americanismo e tem suas primeiras manifestações antes dos processos de independência do século XIX. Já nos finais do século XVIII, o peruano Pablo Olavide organizou uma sociedade secreta em que defendia a autonomia do Novo Mundo por meio de uma ação conjunta de boa parte das nações sul-americanas. Apesar de limitado, o ideal pan-americano de Olavide seria um primeiro passo da ideal pan-americanista.
Com o início das independências no continente americano, esse projeto foi reavivado em diferentes projetos de integração. Juan Martínez de Rosas, um dos líderes do processo de independência do Chile, defendeu a ampla cooperação entre os povos americanos contra a reação das metrópoles européias à prevenção de conflitos entre os povos americanos. Passando algumas outras manifestações semelhantes, teremos esse ideal expresso em um congresso que reuniu a maioria das nações independentes.
No ano de 1826, o Congresso do Panamá reuniu representantes do México, Peru, Grã-Colômbia, das Províncias Unidas de Centro-América e Estados Unidos. Na reunião, pretendia-se concretizar o ideal de unidade política entre os povos hispano-americanos com o estabelecimento de uma força militar comum e o fim da escravidão em toda a extensão continental. A proposta foi encabeçada por Simon Bolívar, um dos mais atuantes líderes da independência da América Espanhola.
Contudo, o ideal pan-americanista de Simon Bolívar foi refutado por três importantes nações da época: o Brasil, Os Estados Unidos e a Inglaterra. O recém-formado Império Brasileiro não tinha interesse em apoiar os ideais liberais e republicanos oferecidos por Simon Bolívar. Ao mesmo tempo, não tinha interesse em dar fim à escravidão no país, tendo em vista o interesse central que os latifundiários brasileiros tinham na manutenção da ordem escravocrata.
O fim da escravidão era um ponto que desagradava os interesses políticos norte-americanos, que ainda dependiam maçicamente desse tipo de mão-de-obra para desenvolver sua economia, principalmente na porção sul. Somado a tal fator, os Estados Unidos não tinham bons olhos ao ideal pan-americanista na medida em que ainda pretendia expandir seus domínios territoriais. No caso inglês, a integração americana ameaçava o projeto de hegemonia econômica a ser implantado no continente.
Dessa maneira, a proposta pan-americana oficializada durante o Congresso do Panamá acabou sendo abafada pela oposição das nações citadas. Com o passar do tempo, observou-se que a questão lingüística ou o passado colonial em comum não serviram de sustentáculo para a implementação do ideal defendido por Simon Bolívar. Com isso, a possibilidade lançada nessa importante reunião interamericana não conseguiu sair do papel.
Rainer Sousa