sexta-feira, 25 de maio de 2012

APOCALYPTO

Pouco antes da chegada dos conquistadores espanhóis à América, grupos de índios maias vivem nas florestas da futura América Central. Mas a paz de uma dessas aldeias acaba no dia em que invasores a destroem, matando dezenas dos moradores e levando prisioneiros seus melhores guerreiros. A intenção é sacrificá-los em oferenda a seus deuses. Mas o jovem Jaguar Paw consegue escapar e luta para voltar e resgatar sua família, que ele escondeu.
Já são muitas as impropriedades deste novo filme de Mel Gibson, aliás, um dos espetáculos mais primários e violentos que Hollywood produziu nos últimos tempos. E ainda a distribuidora Fox acrescentou mais um ao não traduzir os nomes dos personagens indígenas. Assim, os personagens principais chamam-se Jaguar Paw (Rudy Youngblood) ou Zero Wolf (Raoul Trujillo). O detalhe só acrescenta estranheza, no caso do público brasileiro, a este verdadeiro ET cinematográfico – só que, ao contrário do simpático personagem do filme de Steven Spielberg, este ET é monstruoso, truculento e descerebrado além da conta, mesmo pensando-se num filme de mero entretenimento.
Ainda que se tratasse de uma aventura à procura de uma ambientação honesta no mundo pré-colombiano - na civilização maia às vésperas da chegada dos colonizadores espanhóis -, Apocalypto já teria um desafio e tanto. Mas é evidente que o roteirista e diretor Mel Gibson está à procura apenas de uma locação exótica para mais um filme sangrento até o limite do estômago do espectador – como fez no oportunista, sádico e reducionista até em termos de religião A Paixão de Cristo.
O fato de que o vasto elenco de Apocalyto fale, alegadamente o idioma “maia do Yucatã” está longe de refletir algum respeito pela cultura indígena. Não que fosse obrigatório ser politicamente correto cem por cento. É fato que o cinema, em sua fantasia, permite-se liberdades poéticas. Mas não há poética alguma na psique de Gibson. Apenas brutos e bárbaros como o próprio diretor podem empatizar com o enfoque de uma aventura assim brutal e acéfala.
A primeira cena já dá o recado do que vem a seguir. Mostra com fartos detalhes a caça de um porco, que servirá para alimentar uma comunidade organizada e feliz na floresta. Logo os caçadores já encontram um outro grupo em fuga, o que os faz perceber que a fome e a doença rondam não muito longe. Em breve a comunidade feliz é atacada por um bando brutal, que mata dezenas deles e aprisiona os sobreviventes como escravos. Seu destino: servir como vítimas de sacrifícios humanos com que sacerdotes fanáticos tentam aplacar a fúria dos deuses que eles acreditam estarem lhe enviando doenças e desolação.
O grupo que atacou a aldeia não tem qualquer motivação ou psicologia – o que reforça sua imagem de bestas humanas. Só há mesmo uma figura heróica, Jaguar Paw, que escapa milagrosamente do massacre certo, apesar de ferido. Perseguido por vários inimigos, Jaguar vai mostrar-se um verdadeiro Mad Max descalço para derrotar seus perseguidores e tentar salvar sua mulher (Dália Hernandez) e filho (Carlos Emilio Baez). que ele conseguiu esconder num poço.
Diante de tantas barbaridades, a chegada das caravelas espanholas, tendo a cruz católica diante delas, é um recado preciso do que Gibson acredita: na superioridade da civilização branca e cristã que, aliás, vai esmagar impiedosamente os povos pré-colombianos, como registra a História, mas não este filme. É certo que as religiões dos maias e outros povos realizavam sacrifícios humanos, conforme comprovam investigações arqueológicas. Da mesma forma, estes e outros povos eram capazes de conhecimentos astronômicos e técnicas avançadas de irrigação de lavouras. Mas nada disso interessa a Gibson. Essa mentalidade arcaica e reacionária diz tudo a respeito de um diretor que começou tão bem, com filmes como O Homem sem Rosto e Coração Valente, mas agora vive uma decadência artística indiscutível. Quem em sã consciência pode divertir-se com um filme destes?
Neusa Barbosa (CINEWEB).


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