quarta-feira, 23 de maio de 2012

JUDAÍSMO

Das grandes religiões monoteístas existentes no mundo, o judaísmo é a de raízes mais antigas. De seu seio surgiu o cristianismo, enquanto o islamismo adotou vários elementos judaicos e reconheceu Abraão e Moisés como profetas.
Judaísmo é, em sentido restrito, a religião dos antigos hebreus, hoje chamados judeus ou israelitas, e, num sentido mais amplo, compreende todo o acervo não só de crenças religiosas, como também de costumes, cultura e estilo de vida dessa comunidade étnica, mantido com constância e flexibilidade ao longo das vicissitudes de cerca de quarenta séculos de existência.
Judaísmo na história
Para o povo judeu, o conceito de história não se limita a uma sucessão de eventos e seu relato. A história judaica, em seus primórdios, é uma história sagrada, que começa com a escolha do povo por Deus (Iavé) e se orienta para o cumprimento da promessa divina de que, por meio desse povo, Deus beneficiará todas as nações. No decurso dessa história, os sábios judeus incorporaram aos livros sagrados um amplo corpus de textos que atualmente constituem o fundamento de sua religião.
Período bíblico. A Bíblia hebraica -- que, à exceção de alguns livros, coincide essencialmente com o Antigo Testamento cristão -- narra os fatos fundamentais da história do povo judeu, a partir do momento transcendental de sua eleição e da aliança com Deus. Os judeus dividem sua Bíblia em três partes: a Lei (Torá), os Profetas (Neviim) e os Hagiógrafos (Ketuvim).
Aliança e eleição. O patriarca dos hebreus, Abraão, morava na cidade de Ur, na Caldéia, junto à foz do Eufrates, no século XX antes da era cristã. De lá, partiu para o norte, com seu pai, e recebeu a ordem de Deus: "Deixa teu país, tua parentela e a casa de teu pai, para o país que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê tu uma bênção!" (Gn 12:1-2).
Após a chegada de Abraão à terra de Canaã (mais recentemente conhecida como Palestina, para os judeus Terra de Israel, e onde hoje se localizam o Estado de Israel e a Jordânia), Iavé estabeleceu com ele uma aliança: "À tua posteridade darei esta terra, do rio do Egito até o grande rio, o rio Eufrates" (Gn 15:18). E acrescentou: "Eu multiplicarei grandemente a tua descendência, de tal modo que não se poderá contá-la" (Gn 16:10). Como sinal dessa aliança lhe ordenou: "Que todos os vossos machos sejam circuncidados" (Gn 17:10).
Abraão, seu filho Isaac e seu neto Jacó constituem a linha patriarcal de referência do povo judeu, fiel à aliança divina. Jacó recebeu do Senhor um novo nome, Israel, e de seus 12 filhos originaram-se as 12 tribos do povo judeu, os descendentes de Israel, ou, como se chamavam, os "filhos de Israel" (Bene Israel).
Êxodo e estabelecimento em Canaã. A segunda etapa decisiva da história do povo judeu começou com sua libertação da escravidão no Egito (século XIII a.C.), onde se haviam estabelecido na época da grande seca. Moisés foi o líder que, por ordem de Iavé, conduziu a marcha de quarenta anos através do deserto para voltar a conquistar a terra de Canaã.
Durante a travessia do deserto, Moisés fixou a lei judaica, cujo núcleo foram os Dez Mandamentos, gravados nas tábuas recebidas de Deus no monte Sinai, que abarcavam as crenças, a moral, os rituais e a organização civil do povo. Essa lei, a Torá -- também chamada lei de Moisés, ou lei mosaica --, está contida no Pentateuco (Chumash), os cinco livros que constituem a primeira parte da Bíblia, e viria a ser a fonte de coerência e unidade do povo judeu e, todos os tempos e lugares. Segundo a tradição, ainda nos tempos de Moisés surgiu a lei oral, que se transmitiu dessa forma ao longo de gerações e só foi registrada por escrito muitos séculos depois.
Uma vez estabelecidos em Canaã, a Terra Prometida, cada tribo em seu próprio território, os hebreus sofreram a influência do paganismo e os ataques de filisteus e moabitas. Surgiram então os juízes, como Débora e Sansão, que lideraram o povo em épocas de crise, na luta contra os inimigos e na condução de um modo de vida adequado às leis da aliança. Entretanto, fez-se necessária a reunificação das 12 tribos, e Saul foi ungido rei no século XI a.C. Davi, seu sucessor, conquistou Jerusalém, transformou-a em capital do reino e para lá levou a Arca Sagrada, símbolo da aliança com Deus. Salomão, filho de Davi, construiu o primeiro templo, em Jerusalém. Com sua morte, o reino foi novamente dividido: Israel, no norte, formado por dez tribos, assimilou elementos heréticos no culto e logo sucumbiu, invadido pelos assírios. Sua população foi deportada, e as dez tribos desapareceram desde então da história judaica (várias hipóteses, fantasiosas ou não, têm associado etnias contemporâneas à descendência dessas tribos). O reino de Judá, no sul, centrou-se em Jerusalém e manteve-se fiel às tradições. Os judeus de hoje descendem principalmente dos habitantes de Judá.
Nessa época de decadência religiosa, política e econômica surgiram os grandes profetas de Israel -- Elias, Amós, Isaías -- que exortaram o povo a retornar à fé tradicional. A visão da história como instrumento de Deus, que faz cair a desgraça sobre o povo judeu como castigo pelo descumprimento da aliança, foi em parte obra dos profetas.
Exílio e restauração. No início do século VI a.C., o rei babilônio Nabucodonosor destruiu o templo, saqueou Jerusalém e deportou sua população para a Babilônia. Este novo exílio espiritual uniu o "restante de Israel" sob a prédica do profeta Ezequiel, dando início a uma restauração religiosa que preparou uma outra, de caráter político.
A conquista da Babilônia por Ciro, rei dos medos e dos persas, permitiu aos hebreus retornar à Terra Prometida, no ano 538 a.C., e reconstruir o templo de Jerusalém, em 515 a.C. Grande parte do povo, no entanto, continuou espalhado do Egito à Índia, como numa prefiguração da posterior diáspora (dispersão).
Essa restauração religiosa e política é considerada por alguns autores como a verdadeira origem da unidade espiritual do povo judeu. Seu grande artífice foi Esdras, sacerdote dos judeus da Babilônia, que foi enviado pelo rei persa Artaxerxes II a Jerusalém para controlar a observância da lei mosaica, reconhecida, em seu caráter civil, para os judeus. Esdras fez renovar a aliança com Iavé mediante a leitura da lei para o povo durante sete dias (e, de maneira constante, duas vezes por semana). Também renovou o culto no novo templo, embora continuasse o ensino nas sinagogas locais, e alentou a esperança, pregada pelos profetas, na vinda de um messias que instauraria o reino de Deus.
Períodos helenístico e romano. A influência grega teve início com a conquista da Palestina por Alexandre o Grande. Posteriormente, o povo judeu alternou longos períodos de dominação estrangeira com breves períodos de independência. Um dos episódios mais importantes dessa fase foi a revolta dos Macabeus contra os selêucidas helênicos, sob Antíoco IV, liderada por Judá. Vitoriosos, os judeus purificaram o templo em 164 a.C. (evento comemorado até hoje na festa de Hanuká) e instauraram a dinastia dos Asmoneus.
No ano 63 a.C. o romano Pompeu conquistou Jerusalém. Entre os grandes encraves judaicos dessa época destacam-se os da Síria, Babilônia e Alexandria, no Egito. Em Alexandria, o Pentateuco foi traduzido para o grego. Segundo a tradição, setenta sábios, totalmente isolados uns dos outros, fizeram simultaneamente setenta traduções absolutamente idênticas, chamada Septuaginta ou Bíblia "dos setenta".
Durante a dominação romana, Jesus de Nazaré reuniu um grupo de discípulos e iniciou a pregação de suas idéias. Depois que ele morreu na cruz, seus seguidores acabaram se desligando do judaísmo para constituir a igreja cristã.
Roma sufocou diversas revoltas judaicas e, no ano 70 da era cristã, o templo de Jerusalém foi arrasado. No ano 73, caiu o último baluarte da resistência, a fortaleza de Massada, na margem do mar Morto, quando seus defensores, cercados, preferiram cometer suicídio coletivo a cair prisioneiros.
Com a perda dos últimos vestígios de soberania, teve início a diáspora, a dispersão do povo judeu, que encontrou na religião um fator de preservação e unidade. Conta-se que Iochanan be Zakai conseguiu escapar do cerco de Jerusalém, levado por seus discípulos num ataúde. Apresentando-se ao governador romano, prometeu-lhe obediência e, em troca, pediu que lhe fosse permitido criar um centro de estudos judaicos em Iavne. Reunindo sábios e escribas, Iavne foi o núcleo da preparação judaica para sobreviver à dispersão, tendo a lei e a tradição como território, onde quer que se encontrassem os judeus.
Período rabínico. Talmude. O longo período rabínico, que os historiadores situam entre os séculos II e XVIII, caracterizou-se pela elaboração, pelos rabinos (mestres de judaísmo), do Talmude.
Na primeira época, chamada dos professores (tanaim), surgiram figuras como Judá ha-Nasi, da Palestina, que no início do século III fixou por escrito a lei oral: coleção de regras, comentários, interpretações e paradigmas baseados na Torá, preparada pelos rabinos Akiva, Meir e outros. Essa compilação escrita constitui a Mischná, cuja autoridade, diziam os sábios, como a da própria Torá, remonta ao Sinai. Na época seguinte, a dos intérpretes, ou dos amoraim, foram feitos comentários à Mischná, chamados Guemará. Juntas, a Mischná e o Guemará formam o Talmude.
Houve duas versões do Talmude, de acordo com a procedência do Guemará: o Talmud Ierushalmi (de Jerusalém) e o Talmud Bavli (babilônio). Esta última versão, que teve seu auge nos séculos V e VI, exerceu grande influência durante a Idade Média e é a adotada pelo judaísmo atual. O Talmude constitui fundamentalmente um esforço dos rabinos para adaptar os preceitos da lei à vida cotidiana de comunidades extremamente dispersas. Seus ensinamentos e conteúdo dividem-se em duas partes: Halaká, essencialmente normativa, e Hagadá, que inclui narrativas, parábolas etc., destinadas a inspirar e a fortalecer o povo.
Sefarditas e asquenazitas. Sobre uma base religiosa comum, a cultura judaica viu desenvolverem-se na Europa, durante a Idade Média, dois grandes ramos: sefarditas e asquenazitas.
Os sefarditas, ou sefaraditas (sefaradim) seguiram a tendência babilônica e receberam a influência dos muçulmanos, com quem conviveram na Espanha. Do século XI ao XIII, quando se restabeleceu o cristianismo, os judeus da península ibérica gozaram de boas posições e prestígio, contribuindo como conselheiros, poetas, cientistas e filósofos para o florescimento econômico e cultural da chamada idade de ouro. Após as conversões forçadas (os judeus convertidos eram chamados cristãos-novos, ou marranos, que significa "porcos"), durante a Inquisição, os judeus acabaram expulsos da Espanha, em 1492, e de Portugal, em 1497.
Os asquenazitas (ashkenazim), radicados na França e na Alemanha, adotaram o Talmud Ierushalmi e mantiveram estreito contato com a cultura cristã. Dos asquenazitas surgiram duas correntes místicas: a cabala (provavelmente de origem hispânica), desenvolvida nos séculos XII e XIII e relacionada com o esoterismo ocidental; e o hassidismo, no século XVI, que buscava uma forma de crença mais espontânea, mais liberta dos rigores do estudo e dos rituais, servindo assim aos judeus mais desfavorecidos das pequenas cidades e aldeias da Europa central e oriental. O hassidismo prolongou-se até a época contemporânea, preconizando a fé piedosa, o fervor (hitlaavut), a priorização da "intenção" (kavaná) sobre o rito e a importância do "aqui e agora" na experiência religiosa.
De um modo geral, a Idade Média foi para os judeus um período de perseguições e massacres. Acusados de envenenarem poços, causando a peste negra, de fabricarem o pão ázimo da Páscoa com o sangue de jovens cristãos, estereotipados como malditos, demônios e judeus errantes, foram obrigados ao batismo, ou então perseguidos e mortos pelos cruzados, queimados no interior de sinagogas -- como em York, na Inglaterra, em 1190 -- e expulsos de seus lares e de seus países. Imbuídos de uma fé radicada em sua identificação com o destino comum e com a prática judaica baseada na aliança, muitos judeus resistiram à pressão crescente de assimilação, muitas vezes preferindo morrer a abjurar sua fé. Morriam Al kidush haShem, pela santidade do nome de Deus, proferindo a antiga oração de uma frase só que é até hoje a síntese da fé judaica: Shemá Israel, Adonai Eloheinu Adonai echad (Ouve, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um).
A esperança de redenção levou a muitos caminhos, como o hassidismo, o misticismo da cabala e, no século XVII, ao messianismo, a crença na vinda imediata do Messias, então personificado num judeu de Esmirna, Shabetai Tsevi. Multidões histéricas acreditaram que a redenção era iminente, e desfizeram-se de seus bens para seguir o "messias" em sua jornada à Terra Santa. Mesmo a desmistificação do falso Messias, que se converteu ao Islã, não abalou seus seguidores, que acreditavam ser este o caminho de sofrimento pelo qual ele traria a redenção.
O fim da Idade Média, o advento de idéias libertárias, do racionalismo, dos direitos do homem, trouxe esperanças de emancipação que acabaram traídas pelo surgimento de um anti-semitismo doutrinário e ideológico.
Período moderno. As idéias do Iluminismo, no século XVIII, exerceram grande influência sobre o pensamento das comunidades judaicas da Europa central e oriental, que constituíam então o centro do judaísmo. As esperanças messiânicas haviam cedido lugar ao desejo de uma realização pessoal e nacional de natureza claramente terrena, idéias que se plasmaram no movimento conhecido como Haskalá (Ilustração).
A figura mais destacada desse movimento foi Moses Mendelssohn, que atingiu posição preeminente nas letras alemãs com sua tradução da Bíblia para o alemão, e que defendia uma religião universal centrada na razão. As gerações judaicas seguintes dividiram-se, na prática religiosa, entre a corrente ortodoxa e a reformista (e, mais tarde, a conservadora, a reconstrucionista, a neo-ortodoxa), enquanto se mantinha a influência do hassidismo.
No fim do século XIX, Theodor Herzl, judeu húngaro, jornalista em Viena, deu estrutura política e institucional ao sionismo, movimento em favor do estabelecimento de um estado judaico. Um dos fatores que apressaram o reconhecimento universal da necessidade de uma solução nacional para a questão judaica foi a tragédia do chamado holocausto.
A ideologia nazista surgiu na Alemanha, berço do Iluminismo e um dos países em que os judeus mais se haviam integrado à cultura local. Os nazistas pregaram como ideologia a eliminação física de todos os judeus da Europa, no que chamaram, operacionalmente, de "a solução final". A revivificação dos guetos, superpovoados e com péssimas condições de sobrevivência, deportações em massa para campos de concentração, câmaras de gás e fornos crematórios, fuzilamentos coletivos e experiências médicas desumanas levaram à morte seis milhões de judeus, mais de um terço da população judaica mundial.
Esse trágico cenário deu relevância à idéia sionista, versão contemporânea e política do sonho milenar judaico de retorno à Terra Prometida. Em novembro de 1947, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou a partilha da Palestina em dois estados, um árabe e um judaico. O movimento iniciado por Herzl culminou, assim, com a proclamação do Estado de Israel, em 1948.
Atualmente, os principais núcleos populacionais judaicos encontram-se nos Estados Unidos, em Israel e na Comunidade dos Estados Independentes (CEI). Parte considerável da comunidade judaica da antiga União Soviética pediu visto de emigração e, no início da década de 1990, mais de 400.000 judeus emigraram, principalmente para Israel. Quase a totalidade da comunidade judaica da Etiópia, negros africanos que praticam o judaísmo há cerca de 2.500 anos, emigrou para Israel nas décadas de 1980 e 1990.
Apesar da secularização e do liberalismo que hoje predominam em suas instituições, o povo judeu continua apegado a sua religião, ou seja, a suas tradições e ao legado de sua história.
Doutrina e culto
O judaísmo é uma religião monoteísta que postula uma relação contínua entre Deus e o povo judeu e, por meio deste, com toda a humanidade. Toda sua doutrina e seu culto centralizam-se, portanto, no realce das vinculações entre Deus e o homem, na vida superna e na vida terrena.
Dogmas. Maimônides, teólogo judeu-espanhol do século XII, resumiu a fé judaica em 13 artigos, que foram incorporados aos livros de oração e que são os seguintes: "(1) Creio firmemente que o Criador, abençoado Seu Nome, é tanto o Criador como o Governante de todos os seres e que somente Ele fez, faz e fará todas as obras da Natureza; (2) Creio firmemente que o Criador, abençoado Seu Nome, é Um, e que nenhuma Unidade é como a dele, sob nenhuma forma, e que somente Ele é nosso Deus que foi, é e sempre será; (3) Creio firmemente que o Criador, abençoado Seu Nome, não é corpóreo, e que nenhuma relação corpórea a Ele se aplica, e que nada existe que se assemelhe a Ele; (4) Creio firmemente que o Criador, abençoado Seu Nome, foi o primeiro e também será o último; (5) Creio firmemente que o Criador, abençoado Seu Nome, é o único a ser adorado e que nenhum outro ser é digno de nosso culto; (6) Creio firmemente que todas as palavras dos profetas de Israel são verdadeiras; (7) Creio firmemente que a profecia de Moisés era verdadeira, e que ele foi o mais importante dos profetas; (8) Creio firmemente que a Lei que possuímos agora é a mesma que foi dada a Moisés; (9) Creio firmemente que essa Lei não será modificada, e que não haverá outra Lei (ou dispensa dela) dada pelo Criador, abençoado Seu Nome; (10) Creio firmemente que o Criador, abençoado Seu Nome, conhece todas as ações do homem e todos os seus pensamentos; (11) Creio firmemente que o Criador, abençoado seja, recompensa os que cumprem seus mandamentos e castiga os que os transgridem; (12) Creio firmemente na vinda do Messias, e ainda que demore, esperarei todo dia sua vinda; (13) Creio firmemente que haverá a ressurreição dos mortos quando aprouver ao Criador, abençoado seu Nome, e exaltada sua Memória para todo o sempre."
Deus e o homem. Para o judaísmo, a humanidade constitui uma grande família, toda ela oriunda de um só casal: Adão e Eva, ambos criados por Deus. A expressão hebraica para "ser humano", ou "gente", é ben adam, que significa "filho de Adão". Os rabinos dizem que Deus tomou o barro com que plasmou Adão de diversas partes do mundo, a fim de que o homem se sentisse em qualquer país como em seu lar.
O homem é imagem de Deus, e está dotado de liberdade. Se peca, pode obter o perdão divino com o arrependimento e a reparação do mal que causou. A recompensa ou o castigo têm lugar na vida terrena e depois da morte.
No final dos tempos a humanidade irá conhecer uma feliz era messiânica, em que todos os homens viverão em concórdia. Os mandamentos de Deus estão resumidos no Decálogo (os Dez Mandamentos) transmitido a Moisés, mas os adeptos de outras religiões se salvarão se observarem os mandamentos dados por Deus a Noé, que incluem o repúdio à idolatria e à imoralidade.
Outras prescrições. A lei de Moisés e a lei oral encerram uma regulamentação muito detalhada de toda a vida religiosa, pública e privada, que abrange desde os acontecimentos mais importantes até os atos cotidianos; na área da prática religiosa, jejuns, comidas permitidas e proibidas, purificações, festas, culto, cerimônias, objetos sagrados etc. Na área do comportamento individual e social, regras para o uso racional da terra, para a alforria de escravos e criados, para tratamento humano dos animais, para os cuidados e atenção para com o próximo, para casamento e divórcio, para os litígios e para a aplicação da justiça. As circunstâncias históricas nem sempre permitiram seu cumprimento, e nos tempos modernos as tendências reformista e liberal do judaísmo prescindiram de muitas dessas prescrições, sem renunciar com isso à doutrina essencial.
Festividades e culto. São festivos todos os sábados (shabat), a Páscoa (Pessach), Pentecostes (Shavuot) e Tabernáculos (Sucot). Nos sábados e nos dias festivos todo trabalho é proibido.
A observância do sábado como dia de descanso de toda atividade considerada trabalho é um dos pilares do comportamento religioso no judaísmo. O mandamento de observar o shabat consta do Decálogo, e é o único que insinua a morte como castigo dos que o violarem. É um dia de repouso, oração, meditação e também de alegria. A mística do shabat é marcante no folclore e na cultura judaicas. É comparado a uma noiva que o homem recebe no anoitecer da sexta-feira para dela se despedir por uma semana na noite de sábado, na cerimônia de havdalá (separação, diferenciação).
Pessach é uma festa de múltiplos significados. Historicamente comemora a libertação dos judeus da escravidão no Egito e sua formação como um povo com uma religião e um destino comuns. É comemorada na véspera do primeiro de seus oito dias, com um serviço especial na sinagoga e um jantar cerimonial familiar (seder) cheio de simbolismo, quando se lê a Hagadá (o relato dos eventos e sua interpretação), come-se o pão ázimo (matsá) e ervas amargas (maror), e se bebe vinho. Pessach tem também um aspecto ligado à natureza, como festa da primavera, e à agricultura, como festa do início da colheita dos cereais.
Shavuot, sete semanas depois do primeiro dia de Pessach, comemora a entrega da Torá aos judeus no Sinai. Era o dia em que se levavam ao templo as primícias do fruto da terra (bikurim), representadas em sete espécies: trigo, cevada, vinha, oliva, figo, tâmara, romã.
Em Sucot, os judeus relembram o período do deserto, a caminho de Canaã, quando dormiam em tendas. Durante os oito dias da festa os judeus praticantes comem suas refeições em cabanas que constroem nos pátios, terraços ou varandas de suas casas. Em seu aspecto agrícola, é a festa do fim da colheita, quando a safra está guardada nos celeiros e silos, aguardando o inverno. São símbolos da festa quatro espécies vegetais: etrog (fruto cítrico doce e aromático), lulav (palma), hadas (murta) e aravá (salgueiro). Ao final de Sucot os judeus comemoram o fim do ciclo anual e o reinício de novo ciclo de leitura da Torá, com a festa de Simchat Torah (alegria da Torá). Na sinagoga, a Torá é ornada com seus mais belos paramentos, e a congregação dança com a Torá.
As três festas (Pessach, Shavuot, Sucot), além de integrarem o caráter religioso-histórico com o agrícola, que hoje tem significado real em Israel, tinham na antiguidade um aspecto de unificação nacional, pois eram festas de peregrinação ao templo de Jerusalém.
Há também alguns dias de jejum e contrição, sendo o mais importante deles Tishah beAv (nove do mês de Av), em que foram destruídos tanto o primeiro quanto o segundo templos. Entretanto, as festas religiosas mais importantes (chamadas as Grandes Festas) são: a que marca o início do ano (Rosh Hashaná) e o Dia da Expiação (Yom Kippur), este o dia mais sagrado do calendário judaico. Representam, em conjunto, uma ocasião de reflexão e penitência, quando, nos serviços na sinagoga e no lar, mentes e corações dirigem-se a Deus, que reconsidera o destino de cada homem em função de seus atos e de seu arrependimento (o destino é estipulado em Rosh Hashaná e selado em Yom Kippur, e os dias entre as duas festas são chamados "dez dias de arrependimento" (asseret iemei teshuvá). Nos dois dias de Rosh Hashaná e no Yom Kippur, este de jejum total do anoitecer da véspera ao do dia da festa, toca-se na sinagoga o shofar (espécie de corneta feita de chifre), como lembrança do compromisso assumido ao se receber o Decálogo no Sinai (quando soou o shofar) e como chamamento à prece e despertar das consciências.
Outras festas importantes do calendário judaico são Purim, que comemora a libertação dos judeus da Pérsia e das perseguições de Amã, cruel ministro do rei Assuero (nome bíblico de Xerxes I, rei da Pérsia) e protótipo de anti-semita, graças à intervenção da rainha judia Ester e de seu tio Mardoqueu (Mordechai); Lag Baomer, que relembra a luta contra os romanos; e Hanuká, a "festa das luzes", que evoca o milagre ocorrido quando da purificação do templo após a vitória dos Macabeus sobre os selêucidas: a lâmpada que deve arder dia e noite no templo só tinha óleo para um dia, mas ardeu oito dias seguidos, até que se providenciasse mais óleo. Nos lares judaicos acendem-se uma vela na primeira noite, duas na segunda e assim por diante, num candelabro especial de Hanuká chamado chanukiá.
A história judaica moderna trouxe para o calendário algumas comemorações de caráter civil e nacional: Tu biShevat (15 do mês de Shevat), Dia da Árvore, quando, em Israel, crianças e adultos plantam árvores; Yom Hashoá, o Dia do Holocausto, em que se relembram os seis milhões de judeus mortos pelos nazistas, e que é comemorado no aniversário do levante do gueto de Varsóvia; Yom Hazikaron (Dia da Lembrança), quando se homenageiam os israelenses mortos nas guerras de libertação e defesa de Israel, comemorado na véspera de Yom Haatsmaut, o Dia da Independência do Estado de Israel.
Calendário judaico. Há mais de 1.600 anos, os judeus praticantes se mantêm leais ao calendário judaico. A diferença entre ele e o calendário cristão adotado no mundo ocidental está no princípio em que baseiam o cômputo do tempo. Enquanto o calendário gregoriano é solar, o judaico é lunar, e consiste em 12 meses calculados de acordo com a Lua: Nisan, Iyyar, Sivan, Tamuz, Ab, Elul, Tishri, Cheshvan, Kislev, Tevet, Shevat e Adar. Para permitir que as festas agrícolas caiam na época própria, a diferença entre o ano lunar, de 354 dias, e o solar, de 365 dias e seis horas, é eliminada pela intercalação de um mês completo (Ve Adar, ou segundo Adar) em sete anos determinados, chamados bissextos, de um ciclo de 19 anos. O calendário impresso (luach) indica a correspondência entre as datas judaicas e as civis.
Alguns historiadores atribuem grande importância ao calendário como unificador das tradições e crenças do povo judeu, afirmando que o calendário judaico é o catecismo judeu. Segundo ele, a data da criação do mundo, a partir da qual tem início a cronologia judaica, corresponde ao ano 3760 a.C.
O ano religioso começa na lua nova de setembro-outubro do calendário gregoriano, mas seu início pode ser alterado em um dia para evitar que outras datas religiosas do ano caiam em dias impróprios. O Dia da Reconciliação, por exemplo, não deve cair na sexta-feira ou no domingo, nem no sétimo dia de Sucot ou num sábado.
Na divisão judaica do tempo, os dias se contam a partir do anoitecer da véspera ao anoitecer do dia em questão, conforme a expressão do Gênesis (1:5) que descreve a Criação: "Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia." A liturgia judaica prescreve três serviços diários para os dias úteis. Nos sábados, nos dias festivos e no primeiro dia de cada mês (Rosh Chodesh) acrescenta-se um quarto serviço; e no Yom Kippur, um quinto. Todo serviço público é encerrado com uma prece a Deus para que apresse o advento de seu reino sobre a terra e proclamando-se a esperança de Israel de que "naquele dia o Eterno será um e seu nome um". Fonte: Barsa.

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