quinta-feira, 3 de maio de 2012

O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS

O ano em que meus pais saíram de férias
Famílias separadas pela Ditadura
Será que Pelé pode jogar junto com Tostão e Rivellino? A substituição do Saldanha pelo Zagallo a poucas semanas da Copa do Mundo não irá atrapalhar o sonho do tricampeonato mundial? O que o Brasil acha da seleção que irá nos representar no México? Essas eram algumas dúvidas que a todo o momento geravam debates nas rádios e nos noticiários da televisão no início da década de 1970. O futebol, maior paixão popular de nosso país, funcionava como autêntico “ópio” e ajudava o governo a esconder o que acontecia nos subterrâneos da política nacional. Os porões comandados pelos torturadores a serviço dos militares exterminavam a oposição ou a obrigavam a se esconder, pelos quatro cantos do país, em seus “aparelhos”. A clandestinidade era o destino de dez em cada dez idealistas que ainda ousavam sonhar com democracia.
E a infância nessa época? Como era? O que significava ser filho de um militante político engajado?
“O ano em que saímos de férias”, de Cao Hamburger, direciona suas câmeras para uma situação que nos coloca frente a frente com um menino deixado para trás na desesperada fuga de seus pais, perseguidos pelos agentes da ditadura.
Diga-se de passagem que esse “deixar para trás” não significou um abandono, como se a criança fosse um estorvo, uma dificuldade ou um problema para seus pais. A separação foi e sempre é dolorosa. Significa perda, ausência e sofrimento. E para os pais de Mauro (Michel Joelsas), o protagonista mirim do filme, não foi diferente. Era uma contingência, uma necessidade...
Ao deixar seu filho na frente do prédio do pai de Daniel (Eduardo Moreira), os progenitores do menino não tinham outras alternativas que garantissem sua sobrevivência. Era realmente questão de vida ou morte, tanto para eles quanto para seu herdeiro. Se a criança fosse capturada com os pais não se sabe ao certo quais poderiam ser as conseqüências...
Para Mauro, que estava chegando ao Bom Retiro, tradicional bairro paulistano, os pais estavam apenas saindo de férias. Pelo menos foi isso que foi passado ao garoto. E era isso que ele deveria dizer a quem quer que o procurasse indagando alguma informação sobre seus pais.
Ele teria apenas que ficar alguns meses sob a tutela de seu avô, a espera da próxima Copa do Mundo, quando os pais voltariam, para retornar a normalidade de sua vida... Mas, será que isso aconteceria?
Pensando nisso é que temos que refletir sobre as repercussões das perseguições políticas sofridas a mando da ditadura para a vida das pessoas e, em especial, das crianças? Qual foi o preço pago? É possível avaliar os prejuízos? Ausências, mortes, desaparecimentos, torturas, perdas irreparáveis para todos os afetados direta e indiretamente.
Nem mesmo a alienação a que muitos foram submetidos quanto aos desmandos da ditadura militar pode ser perdoada. O direito a informação, a cidadania e a participação na vida política nacional foram fortemente afetados e são muitos os casos e histórias ainda não devidamente analisados, estudados e, mais premente, solucionados juridicamente.
“O ano em que meus pais saíram de férias” é filme terno, inteligente e sensível. Abre nossos olhos para os pequenos dramas vividos durante o regime de exceções que vivemos entre os anos 1960 e 1980. Trata-se de mais um filme notável da nova safra do cinema brasileiro. Assista!
O filme
O fusca azul saiu em disparada e o menino, com sua mala, ficou postado a frente do prédio onde seu avô morava. A pressa se justificava, já que o opressivo sistema político que imperava no país estava nos calcanhares de seus pais. Não havia tempo a perder, os militares podiam estar em qualquer esquina, a luta continuava, e a liberdade era necessária para que o jovem casal continuasse a batalhar na clandestinidade. Levar Mauro (Michel Joelsas, estreando com uma notável interpretação), seu filho, colocaria em risco a vida do garoto e os atrapalharia em sua movimentação.
Por esse motivo, Daniel (Eduardo Moreira) e Bia (Simone Spoladore), os pais de Mauro, resolveram deixá-lo em segurança com o avô. Telefonaram para Mótel (Paulo Autran), um velho barbeiro judeu, residente do bairro do Bom Retiro (em São Paulo), e lhe comunicaram que deixariam o menino para viver com ele por algum tempo.
Não tinham como saber e nem poderiam prever que o avô de Mauro iria sofrer um ataque cardíaco fulminante durante a viagem que estavam empreendendo de carro entre Belo Horizonte e a capital paulista...
Nem imaginavam que estavam largando o filho para trás sem que algum maior de idade responsável, que possuísse laços de amizade ou parentesco com o menino, estivesse disponível para cuidar dele. Mauro ficou sozinho, informado por seus progenitores que deveria procurar o avô. Teria que dizer a todos que seus pais tinham saído de férias e que, provavelmente, estariam de volta no início da Copa do Mundo.
O ano era 1970. Pelé e Tostão ainda não eram unanimidades para o ataque brasileiro que iria jogar a Copa do México. O país crescia muito, embalado pelos milhões de dólares emprestados para bancar o “milagre”. Nos porões jaziam mortos os sonhos de inúmeros idealistas, que ainda ousavam desafiar a ditadura e lutar por ideais democráticos ou socialistas.
É nesse contexto que Mauro tem que descobrir o mundo, buscar apoio na comunidade em que está se inserindo, conquistar novas amizades e, principalmente, sobreviver a ausência dos pais e a morte do avô. E é no Bom Retiro, em meio a comunidade judaica, que o menino irá conhecer Hanna (Daniela Piepszyk, também estreando com brilho) e contar com o apoio de Shlomo (Germano Haiut, outra grata revelação).
“O ano em que meus pais saíram de férias” conquistou ao público e a crítica, ganhou prêmios no Brasil e no exterior, teve êxito nas bilheterias e surpreendeu até mesmo aos mais céticos por contar com sensibilidade e graça a história de um menino que teve que se adaptar as circunstâncias políticas sem que nem ao menos soubesse tudo o que estava acontecendo ao seu redor...
O grande trunfo de Cao Hamburger (criador do Castelo Rá-tim-Bum, que também dirigiu em versão cinematográfica), talentoso cineasta da nova geração brasileira, ao produzir e dirigir “O ano em que meus pais saíram de férias” relaciona-se a sua capacidade de trabalhar um período espinhoso, cheio de cicatrizes e manchado pelo sangue e torturas dos porões ao cotidiano de uma criança de 11 anos, afetada diretamente pelos excessos da ditadura, mas que pôde contar com a solidariedade de toda uma comunidade para sobreviver...
Se não bastasse tudo isso, a utilização do futebol e da Copa do Mundo do México como “pano de fundo” da história deu ainda maior charme a produção e nos permitiu perceber que o esporte bretão foi usado politicamente pelos governos militares para desviar a atenção dos graves e sérios problemas nacionais...(CineWeb).



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