sexta-feira, 29 de junho de 2012

A MUSICA NA GRECIA ANTIGA

A cultura da Grécia antiga (c. séculos VII a I a.C.) contribuiu em larga medida para a origem da presente civilização ocidental. Mas, ao contrário da arquitetura e da escultura, por exemplo, que preservam grande número de exemplares em estado de conservação suficiente para serem bem estudados e compreendidos, a música da Grécia Antiga não pôde manter uma continuidade direta até os dias de hoje, mas não deixou de exercer influência significativa na cultura romana subseqüente, dali se transmitindo à Idade Média através da teoria, com suas escalas, modos e noções de harmonia.
O que hoje subsiste da música daquela época são uma multiplicidade de referências literárias, inúmeras representações visuais de músicos em ação com seus instrumentos, e um sistema teórico, mas das obras propriamente ditas resta apenas um punhado de fragmentos com notação, cujo deciframento exato ainda é objeto de controvérsia.
A música entre os antigos gregos era um fenômeno de origem divina, e estava ligada à magia e à mitologia, havendo várias histórias míticas relacionadas à origem da música e suas capacidades e funções. Alguns instrumentos e modos era associados especificamente a certas divindades, como o aulos a Dionísio, e a kithara a Apolo. Além disso registros diversos indicam que a música era parte integral da percepção grega de como o seu povo teria vindo à existência e de que continuava a ser regido pelos deuses. Por exemplo, Anfião teria aprendido música com Hermes e teria construído Tebas através do poder do som; Orfeu podia tocar com tamanha doçura que até as feras quedavam absortas; Hermes teria inventado a lira, dada a Apolo em troca do gado que havia dele roubado. O próprio Apolo, depois assumindo o papel de Deus da Música e líder das Musas (das quais Euterpe tutelava a Música), é mencionado em competição com Mársias e Pã. Assim, estando presente em alguns de seus principais mitos, a música invariavelmente era usada nos ritos religiosos, nos Jogos Olímpicos e Pítios, nas festas cívicas, nas atividades de lazer e subsidiando outras formas de arte.
O elemento básico da música grega era o tetracorde, que consistia numa escala de quatro notas descendentes inclusas no intervalo de uma quarta justa, e os intervalos entre as quatro notas, sendo variáveis, definiam as modalidades diatônica, cromática ou enarmônica da peça musical.
O tetracorde cromático era formado por um intervalo de terça menor e dois intervalos de semitom; o tetracorde enarmônico tinha um intervalo de terça maior e dois de quarto-de-tom. O tetracorde diatônico variava de acordo com a posição do semitom, formando os subtipos dórico (semitom na base, de origem grega), frígio (semitom no centro, de origem asiática), e lídio (semitom no alto). A justaposição de dois tetracordes, ao que consta concebida por Terpandro de Lesbos, formava uma harmonia - não no sentido atual de sons simultâneos. Os tetracordes podiam, assim, ser conjuntos ou disjuntos. Se em uma harmonia disjunta se acrescentavam um tetracorde conjunto no topo, um outro também conjunto abaixo, e sob este uma outra nota (proslambanòmenos), criava-se o sistema téleion, ou perfeito, abrangendo duas oitavas inteiras. Com a mudança de oitava dos tetracordes anexos para baixo ou para cima do tetracorde fundamental criavam-se os hipomodos (hipodórico, hipofrígio e hipolídio) ou os hipermodos (hiperdórico, hiperfrígio e hiperlídio).
O grande teórico da música grega antiga foi Pitágoras, considerado o fundador de nosso conhecimento de harmonia musical - a relação física entre as diferentes freqüências sonoras (notas) e o efeito de suas combinações. Também foi ele o sistematizador da associação de cada modo com determinado estado de alma, imbuindo-os de uma ética especial. Por exemplo, o modo dórico era considerado capaz de induzir um estado (ethos) pacífico e positivo, ao passo que o modo frígio era considerado subjetivo e passional, uma sensibilidade hoje em grande parte perdida, mas que pode ser vagamente comparada ao efeito das modernas escalas maior, convencionalmente usada para produzir uma impressão animada e alegre, e menor, usada para descrever estados melancólicos ou introspectivos. Também a ele se deve a análise da música sob a ótica de uma matemática transcendental, relacionando-a à constituição íntima do universo, concebido como uma estrutura criada e sustentada através de relações numéricas perfeitas que produziam a chamada música das esferas, a qual, entretanto, só poderia ser inteligível através do pensamento superior. Daí a ligação da música com a filosofia e a conseqüente codificação de uma série de regras éticas para composição e execução musical, a fim de que a música humana ecoasse a ordem perfeita do cosmo.
Fonte: Wikipédia.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

ISLAMISMO

A palavra Islã, que significa literalmente "submissão", ilustra a principal idéia da religião muçulmana: o fiel aceita submeter-se à vontade de Deus (Alá), criador do mundo, onipotente e onisciente.
O Islã, ou religião islâmica, foi fundado por Maomé no século VII da era cristã e encerra elementos do judaísmo e do cristianismo. Os muçulmanos consideram Maomé o último de vários profetas -- Adão, Abraão, Moisés e Jesus, entre outros -- e afirmam que somente a mensagem transmitida a ele por Deus se conserva intacta, enquanto os demais livros sacros sofreram deteriorações e mutilações ao longo dos tempos. O islamismo não pode ser considerado apenas uma doutrina religiosa, pois legisla, ao mesmo tempo, sobre a vida interior, política e jurídica da comunidade -- da mesma forma que o judaísmo e o hinduísmo.
Levado por conquistadores e mercadores árabes, o Islã difundiu-se rapidamente por uma imensa área geográfica, que em certa época chegou a se estender da Índia até a península ibérica. Atualmente é uma das religiões mais difundidas no mundo.
Fundamentos do Islã
Maomé e o Alcorão. A base doutrinal criada por Maomé e o Alcorão constituem o fundamento sobre o qual assenta toda a estrutura da religião islâmica. O Alcorão ou Corão (al-Quran), é a coletânea dos versos recitados pelo profeta, graças -- segundo a tradição muçulmana -- a revelações feitas a ele por Deus, por intermédio do anjo Gabriel. As 114 suratas (capítulos) do Alcorão expõem os fundamentos do monoteísmo islâmico e os princípios morais que regem a comunidade.
Desde o início de suas pregações, Maomé infundiu em seus seguidores um profundo sentimento de fé e de fraternidade, intensificada em conseqüência das perseguições que o fizeram deixar Meca, mudando-se para Medina, com amigos e parentes, em 16 de julho de 622. Única data da vida do profeta em relação à qual todos os muçulmanos estão de acordo, a hégira (emigração, separação) marca o início da era islâmica. Depois da hégira, o profeta formou uma comunidade religiosa e política, a umma ou comunidade de crentes, que se perpetuou no Islã como uma religião-estado -- fusão que não foi contestada até o século XX.
Expansão territorial
Durante o governo dos quatro primeiros califas sucessores de Maomé e sob a dinastia omíada (661-750), o Islã estendeu-se em função das conquistas obtidas na guerra santa e da atuação das organizações místicas. Com a dinastia abássida, que perdurou até 1258, o império se fragmentou. Formaram-se vários estados, regidos por diferentes dinastias independentes, no norte da África, na península ibérica, Pérsia e em outros domínios. Apesar da divisão política, o Islã não perdeu sua unidade religiosa, institucional e econômica. A partir do século XII, a expansão da mística islâmica abriu novos caminhos para a religião, na Ásia central, Índia, Indonésia, Turquia e norte da África. Na Europa, o islamismo perdeu, no século XV, seus últimos reinos na Espanha e, depois da queda do império otomano, manteve somente redutos nos Balcãs e na Rússia meridional.
Fontes doutrinais.
A doutrina islâmica baseia-se em três fontes ou princípios fundamentais, além do Alcorão: o suna (tradições), o ijma (consenso) e o ijtihad (pensamento individual).
Suna.
O conjunto de ensinamentos e atos de Maomé, a suna, está documentado no hadith. O grupo islâmico majoritário e considerado ortodoxo, o sunita, aceita seis coleções diferentes, que foram compiladas durante o século IX da era cristã (III da hégira). Outro grupo importante, o xiita, tem seu próprio hadith.
Ao procurarem garantir a autenticidade desses ensinamentos e atos, os sábios muçulmanos se detiveram menos na pureza do conteúdo do que na cadeia dos transmissores, em sua idoneidade e na proximidade com relação ao Profeta. A investigação da autenticidade do hadith constituiu tarefa fundamental dos estudos islâmicos. A exigência dessa garantia na transmissão foi mais rigorosa com relação aos textos legais do que com os de mera exortação espiritual.
A coleção mais importante foi elaborada no século IX por Mohamed ibn Ismail al-Bukhari e é conhecida como o Livro da autêntica coleção. Essas coleções, além de seu valor religioso para os crentes, constituem uma exaustiva enciclopédia legislativa, teológica, cerimonial, moral, social e comercial, que inclui aplicações práticas e exemplos moralizantes para o cotidiano.
No segundo século da hégira, houve necessidade de fixar, por consenso universal (ijma), as prescrições legais e as práticas que derivavam do Alcorão. Em princípio, o ijma funcionava em favor da autoridade tradicional, uma vez que se referia sempre aos acordos passados e reconhecia opiniões conservadoras. Atualmente, no entanto, dá maior relevo aos elementos liberais e democráticos inerentes a sua própria natureza.
O esforço de adaptação do Alcorão a novas situações (ijtihad) foi importante no primeiro século do Islã. Nessa época, o ijtihad tomou a forma de opinião pessoal, o que deu origem a muitos conflitos. Nos séculos seguintes, a reflexão individual foi substituída por uma analogia rigorosa entre novas situações e os textos já adotados. Compilados os ensinamentos e atos de Maomé e estabelecido o consenso universal, o esforço individual de adaptação do Alcorão às novas situações foi limitado. Pensadores muçulmanos, no entanto, como Algazali, no século XI, e os reformadores dos séculos XVIII e XIX, voltaram a reivindicar a reflexão individual.
Pilares do Islã
As características básicas da organização social e religiosa que definem o islamismo para todos os fiéis ficaram conhecidas como os "cinco pilares" (arkan) do Islã. Algumas seitas, como a dos caridjitas, tentaram, sem sucesso, incluir um sexto pilar, o jihad ou guerra santa.
Profissão de fé. "Não há outro Deus senão Alá, e Maomé é seu profeta". Essencial para ingressar na comunidade islâmica, a profissão de fé (chahada, literalmente "testemunho") deve ser pronunciada clara e conscientemente, com profundo entendimento e aceitação, ao menos uma vez na vida, embora seja repetida, na verdade, com freqüência e em todas as ocasiões importantes. O reconhecimento de Maomé como profeta iluminado por Alá implica a crença num só Deus criador, nos anjos, nos profetas (basicamente Adão, Abraão, Moisés, Jesus e Maomé), na ressurreição, no juízo e na recompensa em outra vida.
Oração. O segundo pilar consiste de uma oração ritual que deve ser proferida cinco vezes ao dia, com o rosto voltado para Meca: ao amanhecer, ao meio-dia, entre as três e as cinco, antes do pôr-do-sol e à noite. Não existe outra liturgia senão a da palavra; não existe um clero propriamente dito, mas somente pregadores e encarregados de fazer a chamada para a oração (almuadens) e de dirigi-la (imãs); às sextas-feiras celebra-se a oração na mesquita, precedida de um sermão de caráter moral, social ou político.
Pagamento de dízimo. O zacat (purificação) constitui uma esmola, que deve ser paga anualmente, em moeda ou mercadorias. É coletada pelo estado e destina-se aos pobres, ao resgate dos cativos ou dívidas crônicas, à guerra santa -- e, por extensão, à educação e à saúde -- e às peregrinações.
Jejum. Durante o ramadã (nono mês do calendário muçulmano), está prescrito um rigoroso jejum. Nesse período, desde o nascer até o pôr-do-sol, é vedado comer, beber, fumar, perfumar-se e manter relações conjugais. Durante a noite, porém, tudo volta a ser lícito. Os enfermos ou viajantes podem adiar o jejum para data futura e por igual número de dias. Os que contam com recursos suficientes devem custear, também, a alimentação de um indigente.
Peregrinação a Meca. Ao menos uma vez na vida, todo muçulmano que tiver recursos deve peregrinar a Meca (haj) no último mês do ano. O peregrino tem que visitar a Mesquita Sagrada, no centro da qual se encontra a Caaba, rodear sete vezes essa construção cúbica -- três correndo e quatro vagarosamente --, tocar e beijar a pedra negra de Abraão (meteorito localizado no ângulo este da Caaba), beber água no poço de Zemzem, correr sete vezes a distância entre os montes Safa e a Marva, ir até o monte Arafat e a Mina, onde os fiéis atiram pedras contra colunas baixas (lapidação do diabo) e sacrificar um animal em memória de Abraão, considerado o primeiro profeta, construtor da Caaba e pai dos árabes.
Tendências teológicas e doutrinais
A teologia e filosofia islâmica é um esforço de esclarecimento racional e de defesa da fé. Os pensadores muçulmanos mantêm uma posição intermediária entre os tradicionalistas, que se prendem às expressões literais das primeiras fontes da doutrina islâmica, e aqueles cuja razão os levou a abandonar completamente a comunidade islâmica. No princípio, a teologia ligou-se à mera interpretação do Alcorão. Já no século seguinte a Maomé, formularam-se problemas relacionados ao dogma da unidade de Deus e à conciliação entre a onipotência divina e a liberdade humana.
Seitas. Apesar da noção de comunidade unificada e consolidada, conforme ensinado pelo Profeta, sérias divergências surgiram entre os muçulmanos imediatamente após a morte de Maomé. Este não deixou filhos, nem estabeleceu regras de sucessão. Os dois primeiros califas, Abu Bakr e Omar eram sogros de Maomé e sua eleição não foi discutida. A eleição de Uthman, da família omíada e genro do profeta, causou polêmica maior. Depois do assassinato de Uthman, em 656, Ali, primo e genro de Maomé, assumiu o califado, o que deu origem a um cisma no Islã. A principal divergência dizia respeito ao caráter do governo da comunidade: o governante deveria ser um continuador da missão profética de Maomé ou um simples governante civil? Os partidários de Ali optaram pela primeira hipótese, mas a segunda acabou por prevalecer na maior parte do mundo islâmico, ficando os xiitas (partidários de Ali) isolados no Irã e em parte do Iraque. Começou assim a guerra interna.
Com o assassinato de Ali, em 661, teve início a dinastia omíada, mas as desavenças continuaram. Diferentes posições com relação à sucessão deram origem a quatro seitas básicas: caridjitas, mutazilitas, sunitas e xiitas. As duas últimas prevaleceram e motivaram o aparecimento de diferentes tendências teológicas, que ainda hoje perduram. Essas seitas divergiam fundamentalmente quanto a questões de sucessão e quanto a certos matizes teológicos. Todas elas, no entanto, aceitavam a palavra de Maomé além dos cinco pilares do Islã.
Caridjitas. Chamados "rebeldes", os caridjitas apoiaram Ali no início, mas se voltaram contra ele, acusando-o de ter cometido grave pecado ao fugir do combate e recorrer a julgamento para defender seu direito ao califado. Preconizavam que o pecador que não se arrepende sinceramente de seus erros deixa de pertencer ao Islã, porque a profissão de fé nada significa se não corresponde à ação. Pregavam também o jihad, ou guerra santa, como um dos pilares do Islã. Essa seita fanática foi extinta no segundo século da hégira.
Mutazilitas. No sentido literal, mutazilita quer dizer "o que se separa", numa referência ao fato de que os membros da seita se mantiveram afastados de idéias radicais sobre fé e infidelidade. Os mutazilitas adotaram uma postura intermediária entre Ali e seus inimigos. Teologicamente defendiam a liberdade humana e consideravam a ação parte essencial da fé. Segundo eles, a razão pode discernir o bem do mal, motivo pelo qual a revelação constitui uma ajuda, mas não é indispensável. Para os mutazilitas, Deus é pura essência, pois atributos romperiam sua unidade. Esses humanistas perseguiram duramente seus inimigos, quando, no século II da hégira, conseguiram impor temporariamente suas crenças.
Sunitas. Seguidores da seita mais importante em contraposição aos xiitas, os sunitas se definem como ortodoxos, seguidores da tradição, a suna. Suas doutrinas remontam à época dos cismas, mas só foram explicitamente formuladas como "teologia ortodoxa", no século X. Reagiram contra as divergências doutrinais e admitiram a legitimidade dos quatro califas eleitos. Para eles, a maioria não pode errar porque está protegida por Deus. Pragmáticos e tolerantes, acreditam que nenhum grupo deve ser excluído, a não ser que renuncie ao Islã. Aceitam uma síntese entre a responsabilidade humana e a onipotência divina. As ações, de acordo com os sunitas, reforçam a fé, mas não são essenciais. Dividiram-se em quatro ritos ou escolas.
Xiitas. Defensores de Ali e do direito de sucessão da família do profeta, tese que usaram contra o poder omíada, os xiitas logo desenvolveram uma base teológica para suas concepções políticas. Sob influências gnósticas e persas, transformaram a figura do governante, o imã, num ser metafísico, manifestação de Deus. Pelo contato com o infalível imã, é possível descobrir os sentidos ocultos das revelações do Alcorão. Os xiitas reconhecem 12 encarnações do imã, que, segundo eles, voltará no fim do mundo com a verdade e a justiça. Divididos em diversos grupos, praticam flagelações e duras penitências em celebrações.
Sufistas. Nascido do ascetismo, mais exatamente como um movimento místico, o sufismo não pode ser considerado uma seita. Sua mística se funda no amor, na confiança absoluta em Deus e na interioridade da experiência religiosa. Surgiu como uma reação à racionalização externa do Islã e incorporou, mais tarde, alguns elementos de outras religiões. O século XIII foi a idade de ouro do sufismo, quando começaram a surgir irmandades desde a Índia até o norte da África, e floresceu igualmente a poesia mística, com o emprego de imagens amorosas.
A doutrina sufista distingue entre o que denomina "etapa", os esforços para avançar no "caminho", e "estado", os dons outorgados por Deus. As principais etapas são o arrependimento, a abstinência, a renúncia, a pobreza, a paciência, a confiança em Deus e a satisfação. Os estados são a meditação, a aproximação de Deus, o amor, o temor, a esperança, o anseio, a intimidade, a tranqüilidade, a contemplação e a certeza. Para seguir o "caminho", é necessária a orientação de um mestre, a quem se deve obedecer em tudo. O objetivo último do discípulo é a contemplação a Deus, alcançada após a experiência do êxtase.
Filosofia. A filosofia islâmica buscou fundamentar as verdades do Alcorão na razão. Num primeiro período, estimulados pela descoberta das obras dos autores gregos, os filósofos deram prioridade ao estudo científico. A tendência a harmonizar razão e fé chegou ao auge com Avicena (século XI), que se inspirou em Aristóteles. Graças a ele e a outros pensadores árabes, recuperou-se grande parte do saber clássico no Ocidente. Obscurecida pela influência do sufismo a partir do século XII, a filosofia ressurgiu, nos séculos XVI e XVII, finalmente, na Pérsia e na Turquia com a "nova sabedoria", que integrava elementos das escolas anteriores e preparou o caminho para a superação da dicotomia entre tradicionalismo e modernismo.
Instituições e cultura
Lei islâmica. A Charia (literalmente, "o caminho do bebedouro"; por extensão, "o caminho que conduz a Deus"), ou lei islâmica, é expressão da vontade de Alá, a que os fiéis se entregam com total submissão. Difere do direito ocidental em dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar, o campo de aplicação da lei islâmica estende-se não só às relações entre os indivíduos e a sociedade, como também às obrigações morais da consciência e às obrigações religiosas; em segundo lugar, a lei islâmica se considera expressão completa e acabada da vontade divina, à qual os homens se devem render em qualquer circunstância. As leis ocidentais, ao contrário, formam-se progressivamente segundo as exigências dos novos problemas surgidos da convivência social.
Formação histórica. O Alcorão contém apenas oitenta versos aproximadamente sobre temas estritamente legais. Por esse motivo, Maomé e seus sucessores imediatos viram-se obrigados, por meio da interpretação e expansão dos conceitos contidos no Alcorão, a resolver os problemas legais surgidos na comunidade. A dinastia omíada, no século VII, criou a figura do cádi, ou juiz, responsável pela interpretação e aplicação da lei, que absorveu elementos de culturas dos territórios conquistados. Um século mais tarde, a dinastia abássida examinou a prática legal à luz dos princípios contidos no Alcorão e deu início a uma jurisprudência islâmica definitiva. Ainda que algumas escolas sustentassem que, fora do prescrito no Alcorão, podia-se empregar a razão para resolver novos problemas, prevaleceu a tendência contrária: só é válido empregar a doutrina e as resoluções do profeta conservadas na tradição. As novas situações, portanto, devem ser resolvidas por analogia com as antigas.
As diversas seitas mantiveram versões próprias sobre a lei islâmica. A maioria dos estados islâmicos modernos conservou a Charia no direito privado, mas adotou os códigos ocidentais para o direito público. Alguns ainda aplicam penas de flagelação ou apedrejamento por adultério e a que prevê a amputação de uma mão por roubo. A Turquia aboliu totalmente a lei islâmica.
Família. A instituição familiar é patriarcal e o pai possui pleno poder para dispor sobre o matrimônio das filhas, mesmo as que sejam maiores de idade. O marido tem direito de manter simultaneamente até quatro esposas. Enquanto a mulher só pode pedir divórcio se apresentar causa justificada, o marido não precisa de motivo para se divorciar.
Estado. Como no Islã não se estabelece diferença entre as esferas religiosa e temporal, o estado é essencialmente religioso. A teoria política dos ortodoxos sunitas formou-se de acordo com as circunstâncias, o que os tornou cada vez mais conformistas e tolerantes com a injustiça. O primeiro passo nesse sentido foi a enunciação de lemas como "Um dia de anarquia é pior que trinta de tirania" ou "O poder é o direito". No entanto, o califa estava submetido à lei islâmica, o que impedia que se transformasse num absolutista.
Educação. No princípio, a educação concentrou-se na transmissão dos ensinamentos do Profeta e na reunião de seus ditos e feitos, o que deu origem à formação das ciências da tradição: hermenêutica, história e literatura. A divulgação das obras dos filósofos gregos trouxe, entre os séculos IX e XII da era cristã, o interesse pelas ciências profanas.
Temerosos com relação ao que poderia representar a formulação de questões teológicas pelas ciências e pela filosofia, os ortodoxos excluíram as ciências profanas do ensino oficial. Isso provocou empobrecimento intelectual, mas trouxe como vantagem a uniformidade e a coesão da comunidade muçulmana, apesar da diversidade de culturas com que o Islã conviveu. Nos estados islâmicos modernos, as ciências constituem objeto primordial dos programas de pesquisa.
Variedade de culturas. Durante o primeiro período da expansão conquistadora, os árabes impuseram sua língua e sua cultura. Num segundo período, predominou o espírito tolerante da palavra do Alcorão e respeitaram-se as culturas próprias, inclusive alguns ritos religiosos ou leis locais, em detrimento da sagrada lei islâmica. As correntes integristas dos séculos XIX e XX da era cristã reclamaram o retorno à pureza islâmica.
As manifestações artísticas foram igualmente determinadas pela religião. Na arquitetura, a construção principal foi a mesquita, símbolo da vontade divina. Na pintura, proibiu-se a representação de seres vivos para impedir que se tentasse rivalizar com Deus e evitar o perigo da idolatria. Essa proibição não foi rígida, no entanto, devido à influência persa e de outros povos.
A literatura sofreu igualmente a tensão entre as tendências liberais e ortodoxas. Cultivou-se sobretudo a poesia e a prosa não-narrativa. Ainda assim, a literatura de ficção se manifestou em coletâneas populares como As mil e uma noites. A partir do final do século XIX, os escritores islâmicos começaram a utilizar formas ocidentais até então inexistentes, como o teatro e o romance. Em todo o Islã moderno, é questão fundamental a manutenção das tradições unificadoras do mundo muçulmano adaptadas às novas condições políticas e sociais.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

terça-feira, 26 de junho de 2012

COMUNISMO

"Todos os fiéis, unidos, tinham tudo em comum; vendiam suas propriedades e seus bens e dividiam o preço entre todos, segundo as necessidades de cada um." Essa descrição das primeiras comunidades cristãs, contida nos Atos dos Apóstolos, revela o conceito de comunismo no sentido mais amplo: um regime social no qual vigoram a propriedade comum de todos os bens e a distribuição equitativa da riqueza.
De acordo com a formulação de Karl Marx, o comunismo moderno seria a fase superior da evolução histórica da sociedade, altamente organizada, formada por trabalhadores livres e conscientes que teriam a posse coletiva dos meios de produção. O advento dessa sociedade determinaria o desaparecimento do estado. As nações se aproximariam cada vez mais umas das outras e suas fronteiras desapareceriam. A organização social, fundamentada no modo de produção comunista, garantiria o completo desenvolvimento de cada ser humano e a utilização de todo seu talento e capacidade, com maior proveito para si e para a sociedade. O livre desenvolvimento de cada um levaria ao livre desenvolvimento de todos e assim se tornariam finalmente harmônicas as relações entre o indivíduo e a sociedade.
Comunismo primitivo. Baseado nas pesquisas antropológicas de seu tempo, Marx supôs a existência de uma espécie de comunismo nas sociedades primitivas. A sobrevivência da comunidade dependeria do trabalho coletivo e a inviabilidade técnica de produzir excedente eliminaria a possibilidade de propriedade privada. Por não haver riquezas a apropriar, não existiriam também as relações de dominação e a organização social seria muito simples, com base na família. As relações de produção se dariam a partir da propriedade comum dos meios de produção -- terra, instrumentos de trabalho e habitações. A propriedade privada se limitaria às armas, roupas e utensílios domésticos. O trabalho coletivo seria uma necessidade, na paz e na guerra.
No plano teórico, costuma-se citar como antecedentes filosóficos do comunismo as idéias do filósofo grego Platão, especialmente as expostas em A república. Para ele, a restauração do estado dependia da restauração da harmonia, que a democracia não conseguira implantar, por meio da comunidade de bens. Entretanto, a base do estado ideal de Platão é o trabalho escravo e seu sistema, uma idealização do sistema egípcio de castas.
Socialismo utópico. No Renascimento, período em que ressurgiram as idéias platônicas, Thomas More publicou Utopia, em que se encontram os primeiros elementos do socialismo utópico. Até meados do século XIX sucederam-se os socialistas utópicos e foram tentadas várias experiências românticas de sociedades comunais. Entre os principais utópicos destacam-se Jacob Andreae, Francis Bacon, Robert Owen, Saint-Simon e Charles Fourier. Os partidários das teorias de Owen organizaram núcleos comunistas nos Estados Unidos e Inglaterra.
Comunismo marxista. A filosofia marxista nasceu na Europa na década de 1840, época em que estava consolidado o capitalismo inglês e a industrialização agravara as desigualdades sociais. Para o marxismo, no sistema capitalista impera a ditadura da burguesia, a qual, na etapa do socialismo seria substituída pela ditadura do proletariado. A propriedade social dos meios de produção no socialismo levaria à extinção gradual das classes e à evolução para o comunismo. A filosofia marxista, ou materialismo dialético, aplicada à história constitui o materialismo histórico, segundo o qual a história progride pela luta de classes.
O Manifesto comunista, de 1848, escrito por Marx e Engels, é o primeiro documento do comunismo científico, expressão usada pelos autores para diferenciá-lo do comunismo utópico, afirmando que o socialismo decorre do capitalismo de maneira necessária, historicamente determinada, da mesma forma como o capitalismo sucedeu ao modo de produção feudal.
Fases do comunismo. Na Crítica ao programa de Gotha (1875), Marx afirma que entre o fim da sociedade capitalista e o advento da sociedade comunista transcorreria um longo período de transição, que ele denominou socialismo. Estabelecidas as condições políticas (ditadura do proletariado) e econômicas (socialização dos meios de produção), sobreviveriam ainda na sociedade socialista elementos fundamentais da velha sociedade: relações econômicas, sociais, jurídicas, éticas etc. Permaneceria a oposição entre trabalho intelectual e manual e o grau insuficiente de desenvolvimento das forças produtivas determinaria a distribuição dos bens e serviços segundo a quantidade e qualidade do trabalho de cada um.
Cumprido o período de transição socialista, seria instaurada a sociedade comunista, com a posse coletiva da totalidade dos meios de produção, desaparecimento definitivo das classes, das diferenças entre a cidade e o campo e entre trabalho intelectual e manual. O estado, instrumento de dominação de uma classe sobre outras, desapareceria e, nas palavras de Marx, o governo dos homens seria substituído pela administração das coisas. Uma vez superada a ordem jurídica burguesa, a sociedade poderia "escrever em suas bandeiras: de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade".
Movimento comunista. O sistema filosófico marxista estabelece uma ligação indissolúvel entre teoria e prática, e Marx e Engels, coerentes com esse princípio, trataram de ligar-se à classe operária. Para isso viajaram a Bruxelas, Paris e Londres, onde entraram em contato com as organizações proletárias e democráticas a fim de convencer seus líderes do papel revolucionário da classe operária. Em 1847 seus partidários fundaram a Liga dos Comunistas, cujo programa, redigido por Marx, levou o título de Manifesto comunista e foi publicado em Londres no ano seguinte. O próprio Marx propôs a dissolução da Liga, cinco anos após sua criação, devido às perseguições da polícia prussiana e ao processo dos comunistas na cidade de Colônia, após o fracasso da revolução de 1848 na Alemanha.
Em 1864, Marx participou da criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, que ficou conhecida como I Internacional. Redigiu seus estatutos e procurou orientá-la para o socialismo científico. As adesões se multiplicaram até 1870, quando o anarquista russo Mikhail Bakunin começou a ter grande influência sobre o proletariado, criticando o comunismo por sua "mania de organização e disciplina". A luta entre as duas tendências se agravou com o fracasso da Comuna de Paris, em 1871. Em 1876, decide-se extinguir a I Internacional.
Socialistas de 23 países reunidos em Paris para comemorar o centenário da queda da Bastilha, em 1889, lançaram as bases da II Internacional, cuja fundação se consumou em 1891, em Bruxelas, sob o nome de Internacional Operária, que congregava representantes de várias tendências. No congresso de 1893 decidiu-se expulsar os anarquistas. As divergências internas exacerbaram-se com o fracasso da revolução de 1905 na Rússia, mas, apesar disso, em 1912 a II Internacional contava com 12 milhões de sindicalizados e 7,5 milhões de cooperados. A iminência de uma guerra mundial levou os parlamentares social-democratas alemães, franceses e ingleses a apoiar os governos nacionais, numa posição incompatível com o internacionalismo proletário. A II Internacional foi então abandonada pelos marxistas.
Leninismo. O marxista russo Vladimir Ilitch Ulianov, conhecido pelo pseudônimo de Lenin, publicou em 1902 o livro intitulado Chto dielat? (Que fazer?), no qual expôs suas teses sobre a organização do partido revolucionário. No II Congresso do Partido Social Democrata Russo, realizado em 1903, operou-se a cisão entre bolcheviques, fração majoritária, e mencheviques, fração moderada minoritária do partido. Em outubro de 1917, eclodiu na Rússia a revolução bolchevique, inspirada nas teses leninistas sobre a luta armada pelo poder.
A III Internacional foi fundada em Moscou, em 1919, e em seu II Congresso, realizado no ano seguinte, tomou o nome de Internacional Comunista e estabeleceu programa e direção precisos. Lenin enunciou então as 21 condições de admissão dos partidos à organização. Os que foram aceitos adotaram explicitamente a denominação de partido comunista e assumiram como um de seus principais objetivos a defesa da "pátria do socialismo". O Partido Operário Social-Democrata da Rússia, encabeçado por Lenin, transformou-se no Partido Comunista de Todas as Rússias, nome mudado em 1925 para Partido Comunista da União (ao criar-se a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e, finalmente, em 1952, para Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Desde a vitória da revolução, em 1917, a história desse partido confundiu-se com a do próprio país.
Stalinismo. A morte de Lenin, em 1924, abriu o problema sucessório. Assumiu o governo a troika (triunvirato), formada por Lev Kamenev, Grigori Zinoviev e Josef Stalin, este último secretário-geral do partido desde 1922 e em decidida marcha para o poder total. Defensor da teoria do "socialismo em um só país", entrou em choque com a tese da "revolução permanente", de Leon Trotski. Em 1925, Stalin já era o dirigente único da União Soviética e líder supremo do movimento comunista internacional, posições referendadas pela III Internacional e pelo XIV Congresso do Partido Comunista. Em 1928, o primeiro plano qüinqüenal de Stalin pôs fim à nova política econômica (NEP) de Lenin, em vigor desde 1920, que protegia o direito à pequena propriedade. Inicia-se o programa de industrialização rápida e socialização forçada para assegurar a defesa da União Soviética contra a ameaça capitalista.
Stalin soube tirar partido da onda de "patriotismo soviético" para efetivar profundas modificações econômicas no país e desencadear a eliminação em massa de dissidentes. No plano internacional, rompendo o pacto de não-agressão que assinara com a Alemanha hitlerista, participou ativamente da segunda guerra mundial contra o nazi-fascismo. Ao final da guerra, com a intervenção do Exército Vermelho, os soviéticos impuseram governos comunistas na Hungria, Polônia, Romênia, Bulgária e Tchecoslováquia. Na Iugoslávia, Josip Broz Tito, herói da resistência antinazista, instaurou um governo pró-soviético. Todos esses países, mais líderes comunistas da França e Itália, uniram-se à União Soviética para criar, em 1947, o Bureau de Informação Comunista (Cominform), do qual a Iugoslávia foi expulsa no ano seguinte pela posição independente de Tito. Em 1949, os comunistas chineses liderados por Mao Zedong (Mao Tsé-tung) criaram a República Popular da China.
Com a morte de Stalin, em 1953, Nikita Khrutchev assumiu o controle do partido e denunciou os erros do antecessor. Em 1956, o XX Congresso do PCUS adotou a política de coexistência pacífica com os governos ocidentais. Embora abrandado o terror interno, as revoltas anticomunistas na Hungria e Tchecoslováquia foram reprimidas com rigor, o que manifestou as profundas divergências no interior do governo soviético. Em 1964, Khrutchev foi afastado do poder e teve início a direção colegiada do partido, com Leonid Brejnev.
Aprofundaram-se as divergências ideológicas com a China, que passou a acusar o PCUS de abandono da luta revolucionária e adoção de uma política reformista, como concessão à coexistência pacífica. Os governos dos países capitalistas fecharam o cerco contra a expansão comunista, criaram uma frente contra a "exportação" do socialismo e, na América Latina, apoiaram golpes de estado contra governos democráticos na Argentina, Brasil, Uruguai e, mais tarde, no Chile. As tensões se agravaram com o alinhamento de Cuba junto ao bloco comunista depois da revolução cubana de 1959.
Desintegração do comunismo. A invasão do Afeganistão em 1979, última operação intervencionista da União Soviética, provocou um imenso desgaste militar e político que culminou com a retirada, dez anos mais tarde, por força do clamor internacional. Já em 1985, ao assumir o poder, Mikhail Gorbatchev deixara clara sua intenção de mudança: a perestroika (reestruturação administrativa de empresas e órgãos do governo) e a glasnost (transparência das atividades governamentais, baseada na liberdade de informação) foram as duas linhas de força no desmonte da estrutura de poder montada pelo partido, que levara ao surgimento da nomenklatura (classe privilegiada de burocratas), corrupção desmedida e atraso tecnológico. O fim do confronto com o Ocidente e a democratização permitiram a independência dos países que formavam a "cortina de ferro" (expressão criada por Winston Churchill para designar o conjunto de países formado por Tchecoslováquia, Hungria, Polônia e Bulgária), a queda de ditaduras tão corruptas quanto sangrentas, como as da Romênia e Albânia, e a reunificação da Alemanha.
As repúblicas que constituíam a União Soviética se separaram e fundaram a Comunidade de Estados Independentes (CEI), preservando sua autonomia. A secessão mergulhou a Iugoslávia numa luta sangrenta entre nacionalidades. O Iêmen do Sul e o do Norte se reunificaram. Em Angola, Moçambique e Etiópia, os governos socialistas foram substituídos ou mudaram de orientação. Em todo o Ocidente, ocorreu uma radical transformação dos partidos comunistas, principalmente os de maior representatividade, como o italiano, o francês e o espanhol. Ao iniciar-se a última década do século XX, apenas a China, o Vietnam e Cuba mantinham governos declaradamente comunistas. A ideologia marxista, em todo o mundo, sofreu uma queda drástica de popularidade.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

RENASCIMENTO CULTURAL

Entre os séculos XIV e XVI, observamos o desenvolvimento de uma série de transformações que atingiram profundamente a forma pela qual o homem europeu encarava o mundo à sua volta. Condensada sob o nome do Renascimento, essa série de mudanças determinaram o reconhecimento de novos modos de pensar e executar as artes, as ciências e as relações político-sociais.
O termo Renascimento, que advém da ideia de se “nascer outra vez”, tem sua origem fixada no expresso interesse que os homens dessa época tinham nas manifestações da cultura greco-romana. Para alguns que vivenciaram tal época, a renascença buscava recuperar uma visão de mundo que havia sido deixada de lado com o forte sentimento religioso desenvolvido na Idade Média.
Sob tal aspecto, observamos que o renascimento tinha uma expressa tendência humanista. Isso quer dizer que as preocupações, sentimentos e comportamentos humanos passavam a ser extremamente valorizados no campo da literatura, da pintura, da escultura e até nas instituições políticas. Nesse contexto, a Igreja viria a enfraquecer o antigo monopólio de conhecimento que lhe garantia posição central na produção do saber.
Além da tendência antropocêntrica, o renascimento também esteve próximo ao hedonismo, quando o corpo, os prazeres terrenos, a busca pelo belo e perfeição se tornaram vigentes no campo das artes. Paralelamente, o renascimento também teve um traço naturalista ao explorar os mínimos detalhes da natureza, das plantas, animais e da própria anatomia humana.
Do ponto de vista histórico, todas essas inovações tiveram seus primeiros passos desenvolvidos no interior das ricas cidades comerciais italianas. Na condição de porta de entrada para várias mercadorias, essas cidades recebiam pessoas de vários lugares que acabavam possibilitando a circulação de novos conhecimentos e valores. Além disso, o ambiente das cidades italianas também esteve favorecido pela ascensão de uma rica camada de comerciantes interessados em financiar a obra e artistas e intelectuais.
Ocorrido ao longo de vários séculos e em diferentes lugares, os historiadores subdividem especialmente o movimento renascentista italiano em três épocas distintas: Trecento, que abarca os anos de 1300; o Quattrocentro, que envolve as manifestações do século XV; e, finalmente, o Cinquecento, que compreende os anos “quinhentos”, o século XVI. Não sendo previamente organizado, observamos que o renascimento surge em de modo difuso pelas nações da Europa.
Além de modificar a natureza das artes, com a introdução de técnicas mais apuradas e o gosto pela temática humanística, o renascimento também provoca uma mudança no meio científico. Por meio de ações que envolviam a observação e a experimentação do mundo, os cientistas dessa época conquistaram importantes informações que contribuíram no desenvolvimento da medicina, da astronomia e da física.
Observado como um todo, não podemos simplificar o renascimento como uma mera substituição da forma medieval de se enxergar o mundo. Devemos lembrar que muitos artistas e estudiosos dessa época não abandonaram suas crenças e, em muitos casos, também valorizaram trabalhos de temática religiosa. De tal modo, o renascimento coloca-se como uma importante experiência que oferece outra possibilidade do homem europeu lidar com o mundo à sua volta.
Rainer Sousa


sexta-feira, 22 de junho de 2012

MORTE E VIDA SEVERINA

Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto
Severino é uma metáfora para nordestino, que na maioria das vezes sai do sertão acreditando que no Recife, ou outras cidades nas quais a seca é mais branda, a vida pode ser melhor, mas em todo percurso ele vai percebendo que a vida Severina, independe do lugar, ou das condições climáticas.
O retirante Severino deixa o sertão pernambucano em busca do litoral, na esperança de uma vida melhor. Entre as passagens, ele se apresenta ao leitor e diz a que vai, encontra dois homens (irmãos das almas) que carregam um defunto numa rede. Severino conversa com ambos e acontece uma denúncia contra os poderosos, mandantes de crimes e sua impunidade.
O rio-guia está seco e com medo de se extraviar, sem saber para que lado corria o rio, ele vai em direção de uma cantoria e dá com um velório. As vozes cantam excelências ao defunto, enquanto do lado de fora, um homem vai parodiando as palavras dos cantadores.. Cansado da viagem, Severino pensa em interrompê-la por uns instantes e procurar trabalho.
Ele se dirige a uma mulher na janela e se oferece, diz o que sabe fazer. A mulher, porém é uma rezadeira. O retirante chega então à Zona da Mata e pensa novamente em interromper a viagem. Assiste, então, ao enterro de um trabalhador do eito e escuta o que os amigos dizem do morto. Por todo o trajeto e em Recife, ele só encontra morte e compreende estar enganado com o sonho da viagem: a busca de uma vida mais longa.
Ele resolve se suicidar, como que adiantando a morte, nas águas do Capiberibe. Enquanto se prepara para o desenlace, conversa com seu José, mestre carpina, para quem uma mulher anuncia que seu filho havia nascido.
Severino, então, assiste à encenação celebrativa do nascimento, como se fora um auto de Natal. Seu José tenta dissuadi-lo do suicídio.
E quando Severino está para pular para fora da ponte da vida eis que a Vida renasce, através de um choro de menino. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A CENSURA É BREGA

Em 1973, o governo militar vetou a música “Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)”, do ídolo brega Odair José.  A letra não pregava a resistência contra a ditadura nem falava de qualquer herói vermelho. Foi tudo culpa do refrão: “Pare de tomar a pílula, porque ela não deixa o nosso filho nascer. Pare de tomar a pílula, pois ela não deixa sua barriga crescer”. O governo militar patrocinava campanha nacional de controle da natalidade e não tolerou o sucesso popular desses versos, numa demonstração do alcance da censura na época.
Durante o regime militar, a repressão à produção cultural perseguiu qualquer idéia que pudesse ser interpretada como contrária às da caserna, mesmo as que não tinham conteúdo diretamente político. Por conta disso, os militares foram capazes de prender, seqüestrar, torturar e exilar artistas, jornalistas e intelectuais. Não fosse esse lado trágico, o saldo do período poderia ser considerado cômico, tantas foram as trapalhadas da censura na hora de lidar com a liberdade de expressão. O regime vetou uma apresentação do balé Bolshoi, companhia de dança estatal da União Soviética comunista. Filmes de kung-fu foram proibidos por conter “substrato maoísta”. O poeta Ferreira Gullar uma vez teve uma pasta com artigos apreendida em sua casa e acredita que a inscrição na capa – Do Cubismo à Arte Neoconcreta – foi interpretada pelo oficial como uma referência a Cuba. Até a dupla de compositores Dom e Ravel, que havia emplacado “Eu Te Amo Meu Brasil”, hino ufanista que mereceu cumprimentos pessoais do presidente Medici, teve de se explicar aos censores.
Com Geisel e sua promessa de abertura lenta, gradual e segura, artistas e intelectuais esperavam um certo alívio na repressão cultural. Esqueceram de combinar com o então ministro da Justiça, Armando Falcão. Em sua gestão, continuaram a ser expedidas dezenas de portarias cortando trechos de filmes, riscando faixas de discos ou vetando obras inteiras. Compositores, cineastas, escritores, jornalistas e dramaturgos se esmeravam em usar a criatividade para driblar a tesoura dos censores, usando para isso letras cheias de metáforas – expediente que começou nos anos de chumbo e ficou conhecido como linguagem de frestas.
A resistência artística, assim como a censura, tiveram diferentes fases durante o regime militar. Os primeiros anos depois do golpe foram de relativa liberdade de expressão. A censura tinha seus limites, refletindo a linha do ambíguo e moderado marechal Castello Branco. Com o endurecimento do regime, após 1968, a resistência cultural passou a viver maus momentos. Funcionários da Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal se instalaram nas redações dos principais jornais e revistas, controlando tudo o que estava para ser publicado. Vira e mexe o espaço de notícias, fotos e charges censuradas acabava preenchido por receitas culinárias e versos de Camões, em sinal de protesto. A fúria do aparato repressivo resultou em teatros destruídos, no seqüestro e interrogatório de artistas e no exílio de compositores e escritores.
Nessa fase, a produção cultural de contestação ao regime era “engajada”, com atenção aos grandes temas ideológicos da esquerda, como a luta pela reforma agrária e pela justiça social. Mas os sucessos nas rádios e nas lojas ficava para a música mais popular, que ressaltava as qualidades do país, como a ufanista “País Tropical”, de Jorge Ben (na época, sem o “jor” no final do nome), que cantava o Brasil como “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”.
No período Geisel, a cultura e a resistência sofrem influência das idéias da contracultura. Era um movimento que pregava uma ação social e política de oposição à violência e aos valores da sociedade de consumo e a favor das liberdades sexuais, do uso de drogas para ampliar os limites da percepção e da vida em comunidades alternativas. Nos Estados Unidos, essa atitude serviu de combustível para o movimento hippie. No Brasil, afetou especialmente o teatro e a música, então as principais frentes de contestação ao autoritarismo. Gil, Caetano e os Novos Baianos – grupo que vivia em comunidade e reunia Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Baby (na época) Consuelo – transformam a busca pelo prazer no tema principal de suas canções. O lançamento do disco Bicho, de Caetano, em 1977, é um marco da influência da contracultura. A faixa “Odara” – que traz os versos “deixe eu dançar / pro meu corpo ficar odara” (palavra africana que significa “sentir-se feliz”) – levou a esquerda engajada a acusar a postura “bicho-grilo” de Caetano e dos baianos de ser alienada e alienante. Além dessa turma pós-tropicalista, a postura mais radical da contracultura influenciou a vertente roqueira nacional, representada pela debochada Rita Lee e pelo maluco beleza Raul Seixas.
A contestação aos valores defendidos pelos militares também chegou à chamada música cafona. “A partir de 1974, com o fim do milagre econômico, há uma mudança de enfoque na música popular, que no período de 1969 a 1973 se caracterizou pelo ufanismo, e ocorre um boom da música de protesto”, relata o historiador Paulo César de Araújo. Para ele, “a música popular firmava-se como o grande canal de expressão de uma ampla camada da população brasileira, que, nesse sentido, não ficou calada e se pronunciou por meio de sambas, boleros e, principalmente, baladas”.
A nova atitude e o sucesso daquele tipo de música despertaram a preocupação dos censores de Armando Falcão. Apesar de ainda manter suas atenções para estrelas como Chico Buarque, a censura atingirá em cheio a produção dos compositores e cantores populares românticos. “Eu não tenho dúvida que essas canções contribuíram para uma visão crítica do seu consumidor, porque parte delas trazia questionamentos contundentes quanto às relações sociais”, afirma Araújo. Exemplo disso, de acordo com o historiador, é que os latifundiários da região do Araguaia (PA) proibiram os trabalhadores rurais de cantarem a canção “O Caminhante”, da dupla Dom e Ravel, lançada em 1974. “Onde piso dizem ‘isso não é seu’ / tanta coisa boa eu deixo de fazer / grande parte de caminhantes já morreu / sem o nosso pobre mundo compreender”, diz o refrão dessa música. Outro exemplo insólito foi o veto da Censura Federal à regravação em 1974 da canção “Tortura de Amor”, de Waldick Soriano, por conta justamente de seu título.
Encarregados de lidar com sutilezas e interpretações, os censores com freqüência metiam os pés pelas mãos. Chico Buarque adotou o nome artístico de “Julinho de Adelaide” para ter suas composições liberadas. A estratégia deu certo e as canções de “Julinho” tornaram-se sucessos. Entre elas, “Jorge Maravilha”, que traz os versos “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. A canção surgiu após um agente da Polícia Federal abordar Chico e lhe pedir um autógrafo, justificando: “É para minha filha”. No início dos anos 70, as vitrines do país expunham livremente a capa do inovador disco Tom Zé e Todos os Olhos, que trazia um ânus fotografado bem de perto com uma bolinha de gude no meio, simulando um olho (veja acima). Outra que a censura não entendeu e liberou foi “Festa Imodesta”, de Caetano Veloso, gravada por Chico Buarque no disco Sinal Fechado (1974). A canção, em um típico uso da linguagem de frestas, traz nos versos críticas à própria censura: “Tudo aquilo que o malandro pronuncia / e que o otário silencia / toda festa que se dá ou não se dá / passa pela fresta da cesta e resta a vida”.
No teatro, Chico Buarque se baseou em um clássico para escrever com Paulo Pontes a peça Gota d·Água. Os autores transportaram o enredo da tragédia grega Medéia para uma favela em processo de reurbanização com a construção de um conjunto habitacional. A peça tinha como pano de fundo uma crítica ao milagre econômico, a partir da mobilização da população do morro contra os preços extorsivos das unidades postas à venda. Passou.
Para algumas obras, a censura significou anos de espera. O Abajur Lilás, de Plínio Marcos, que fazia uma crítica irônica à repressão, foi proibida duas vezes, em 1970 e em 1975, sob a alegação que atentava contra a moral e os bons costumes. A peça, que mostra o conflito entre prostitutas, um homossexual cafetão e seu guarda-costas, incluindo tortura e assassinato, só foi liberada em 1980.
No cinema, a produção nacional de resistência à ditadura praticamente deixa de existir nos anos da distensão. Nesse período, alguns dos diretores do contestador Cinema Novo, como Cacá Diegues, ironicamente têm suas obras apoiadas pelo órgão oficial de fomento ao cinema do governo militar: a Embrafilme. O “cinema de resistência” que restava explorava o erotismo, como as pornochanchadas produzidas na Boca do Lixo, em São Paulo, que afrontavam os padrões morais vigentes. Para burlar a Censura Federal, os cineastas da “Boca” inseriam cenas propositadamente censuráveis nos filmes. Os censores tascavam a tesoura nesses trechos e deixavam passar o resto.
(Texto de Silvio Anaz -Revista Aventuras na História, Edição Especial Dissiê Brasil.Abril de 2005).


quarta-feira, 20 de junho de 2012

INQUISIÇÃO

Nas últimas décadas do século XIII a Igreja era uma instituição religiosa fortemente consolidada no continente europeu. O apoio do Estado e sua condição de formadora da elite intelectual da época garantiam uma influência de grande força entre os vários segmentos da sociedade ora vigentes. Contudo, vemos que nesse mesmo período ocorreram conturbações de cunho teológico que perturbava a hegemonia cristã nesses tempos.
Vez ou outra, os movimentos heréticos apareciam oferecendo um modelo de fé e devoção religiosa que escapava das esferas de controle da própria Igreja. Foi justamente mediante essa situação que, já no ano de 1219, uma confraria de origem dominicana estabeleceu a criação da chamada Milícia de Jesus Cristo. Visando defender a pureza do catolicismo, os integrantes desse grupo realizaram a matança de comunidades inteiras ao longo do período medieval.
Apesar da importância desse primeiro momento, como um passo inicial no desenvolvimento da Inquisição, vemos que ela atingiu o seu auge nos séculos integrantes da Idade Moderna. Nesse período, a perseguição aos judeus e a ascensão das religiões protestantes serviu de incentivo para que o chamado Tribunal do Santo Ofício fosse criado com o objetivo de vasculhar diversas regiões em busca de infratores que representassem algum tipo de ameaça à hegemonia cristã.
Nessas situações, o tribunal contava com a força das autoridades locais que cediam militares e instalações onde pudessem realizar seus processos de investigação. Ao mesmo tempo, devemos destacar a delação anônima como outro importante artifício capaz de indicar as pessoas que fossem suspeitas de adotarem alguma prática de natureza anticristã. Muitas vezes, as delações eram tomadas como verdade, sem que antes para isso, houvesse a apresentação de qualquer indício.
Mesmo que não chagasse a ser morto em uma fogueira, o simples fato de uma pessoa ter passado por um processo inquisitorial determinava um enorme desprestígio. Não raro, um acusado poderia ter suas possessões confiscadas, perdia direitos políticos ou era obrigado a se mudar para outra localidade. Geralmente, as acusações feitas pela Inquisição aconteciam envolvendo crimes de atentado contra os preceitos morais da época ou contra os dogmas instituídos pela Igreja.
A realização das torturas acontecia como um meio de se obter a confissão. Sob tal aspecto, vale ressaltar que o uso da punição física era anterior à própria Inquisição e que ela assumia um sentido religioso. A condenação do corpo era considerada uma forma de purificação necessária para que o réu pudesse reconhecer seus crimes e se libertar das forças malignas que o instigavam a ocultar sua falta. Desse modo, não podemos determinar o sadismo ou perversidade como as duas únicas explicações para a tortura.
A queima na fogueira foi uma das mais expressivas ritualizações do poder exercido pelo Tribunal da Santa Inquisição. Antes de morrer, caso reconhecesse os seus pecados, o acusado sofria enforcamento antes de ter seu corpo carbonizado. No entanto, se reafirmasse inocência, o condenado era queimado vivo. Os autos de fé eram as celebrações onde geralmente tais penas eram aplicadas e as publicações consideradas proibidas, também eram consumidas pelas chamas.
Somente no século XVIII é que o movimento de Inquisição começou a perder seu terreno ao ser proibido em diversas partes do continente europeu. Ainda assim, a Igreja mantinha órgãos de vigilância que poderiam punir os hereges ou descumpridores do dogma cristão com penas mais leves, como a excomunhão. De fato, o desenvolvimento da Inquisição revela-nos um episódio marcado pela problemática chaga da intolerância religiosa.
Rainer Sousa


terça-feira, 19 de junho de 2012

DEZ ANOS "SEM" APARTHEID

As regras inflexíveis do Apartheid regeram a República da África do Sul durante boa parte do século XX. Numa nação em sua maioria constituída  por negros, prevaleceu por décadas um regime de segregação racial que discriminava quase a totalidade da população do país. Com raízes que apontam para o século XVII, o Apartheid estabeleceu-se oficialmente na década de 1940 com a chegada ao poder do Partido Nacional, representante do direto do africânderes (brancos de origem holandesa). A partir daquele momento, a exclusão racial, social e territorial tornaram-se legitimas perante a legislação local, dando continuidade a secular exploração econômica estabelecida pelos europeus durante a partilha da África.
                Felizmente a situação começou a ruir em meados dos anos 1980, combatida, sobretudo por manifestações, boicotes e pressões internacionais. O Apartheid que significa separatismo, enfim foi extinto em 1994, com as eleições gerais que levaram Nelson Mandela à presidência. Em seu discurso de posse, o grande líder negro, uma das figuras mais marcantes do século XX, prometeu lutar por uma África do Sul humana e justa. Mas o que aconteceu após uma década de democracia?
                Dez anos se passaram e a república sul-africana, que ficou conhecida como “nação arco-íris” por causa de sua diversidade étnico-linguística, apresenta hoje a economia mais desenvolvida do seu continente. Um feito e tanto num território onde a miséria predomina por todos os lados. Destacam-se principalmente as atividades minerais,  a produção de veículos e o cultivo de produtos tropicais.
                A população respira ares de democracia. Recentemente reelegeu para o seu segundo mandato o presidente Thabo Mbeki. Porém, uma parcela ainda considerável da população vive em “estado de Apartheid”, no qual negros e brancos continuam separados por uma muralha de diferenças socioeconômicas. Atualmente a taxa de desemprego atinge patamares elevadíssimos, contribuindo para que a metade dos habitantes do país vivam abaixo da linha da pobreza. Parte desse contingente, claro, é de origem negra. Mesmo com a adoção de leis que defendem uma maior integração dessa mão-de-obra ao mercado de trabalho, muitos empresários alegam que não contratam os negros devido à baixa qualificação técnica que apresentam. Vale lembrar que até o fim oficial do Apartheid, somente a população branca tinha acesso as melhores escolas.
                A exclusão a que muitos negros, mestiços e asiáticos estão sujeitos no país potencializou, naturalmente, o crescimento dos índices de criminalidade. Surgem cada vez mais gangues de rua, quase sempre concentradas nas periferias das grandes e miseráveis cidades. Como resultado de toda essa situação, o IDH caiu de 0,70 em 2000 para 0,67 em 2003.
                Como se isso não fosse bastante à África do Sul sofre uma calamidade sem precedentes em relação à saúde. Na da menos do que 10% da população (aproximadamente 4,5 milhões de pessoas) está infectada com o vírus da Aids. Cerca de 25% das mulheres grávidas são soropositivas. E a esperança de vida dos cidadãos declinou. Hoje, mais de 300 mil crianças são órfãos, seus pais morreram por causa do HIV. Parcela considerável dos jovens, desiludidos com a vida que levam desviam-se para as drogas e para o crime. “Para que eu vou trabalhar se vou morrer antes dos 50 anos” é o que muitos respondem quando perguntados sobre o futuro. Toda essa grave situação fortalece uma reação em cadeia de grande impacto negativo na escala produtiva. Dizima parte da força de trabalho e obriga o governo local a gastar verbas significativas para minimizar o problema da saúde pública.
                Como consolo, os sul-africanos receberam a noticia de que seu país será sede da primeira copa do mundo  de futebol em solo africano. O evento está programado para ocorrer em 2010. Mesmo longe do poder o ainda influente Nelson Mandela declarou a vários jornais que o evento esportivo é um presente pelos dez anos de democracia na África no Sul. Sem dúvida, espera-se que um grande acontecimento como esses possa injetar novo animo ao povo que ainda sofre as sequelas do Apartheid. Provavelmente a festa do futebol será feita com maestria, beleza e alegria, elementos aliás, típicos da população daquele país. Porém, a Copa do Mundo dura apenas um mês. E depois? (Texto extraído da revista Geografia – 2004).


segunda-feira, 18 de junho de 2012

A CORRIDA ESPACIAL

A CORRIDA ESPACIAL
União Soviética e Estados Unidos - 1957

Julio Verne, afirmou que não passaria um século antes que homem de carne e osso repetisse a formidável façanha conseguida por seus personagens: a conquista da Lua. Passaram-se 99 anos.
Foguete V-2 A conquista do espaço começou com destruição e morte. O cientista alemão Wernher von Braun e sua equipe foram os criadores dos foguetes V-2, que, durante sete meses de 1944, caíram sobre Londres. Eram terríveis armas capazes de viajar a 5000 quilômetros por hora e acertar seus alvos com impressionante precisão.
Von Braun sempre quis ser o Colombo do espaço. Pensava em viagens espaciais, não em armas, quando vendeu sua idéia da V-2 a Hitler, ele tinha em mente colocar em órbita da Terra um satélite construído por mãos humanas.
Cadela Laika Na União Soviética, as pesquisas sobre mísseis estavam bem adiantadas e seus poderosos foguetes já levavam cães em cabinas pressurizadas até os limites superiores da atmosfera.
Finalmente, a 4 de outubro de 1957 (sexta-feira) que pela primeira vez o homem manda para o espaço o primeiro satélite artificial da Terra: os soviéticos lançavam o Sputnik I. Um mês depois, repetiram a dose, com o Sputnik II. A 1º de fevereiro de 1958 (sábado), os americanos mandaram o seu Explorer: estava iniciada a corrida espacial. Desde então, mais de 500 satélites foram lançados por foguetes americanos, soviéticos, franceses, ingleses, chineses e japoneses. Hoje, ao redor da Terra, viajam os mais diversos tipos de satélites, em forma, peso e tamanho, com os mais diversos objetivos: meteorológicos, de observação e registro de fenômenos espaciais, de comunicação e militares. Há ainda os satélites que estão circulando a lua, o sol e aproximando-se dos planetas.
Em 12 de abril de 1961, girando em órbita a 28.800 km/h, a nave espacial do major soviético Iúri Gagárin inaugurava um novo capítulo na história astronáutica: as viagens do homem ao cosmo. Depois de completarem em 108 minutos uma volta ao redor do globo, a Vostok volta tranqüilamente a Terra. Gagárin trazia mais informações, além da poética descrição da Terra: “Eu vejo a Terra. Ela é azul”. Vostok I Fora o primeiro a experimentar a sensação de ausência absoluta de peso e suas conseqüências físicas para o organismo humano. Começava com Gagárin uma longa série de vôos espaciais, cada vez mais ousados. Saídas de astronautas para “passeios” em pleno espaço, encontro de naves em órbita, manobras de engate e desengate e quando a Lua parecia estar bem perto de ser conquistada definitivamente, a tragédia deixou sua marca e seu sinal de advertência: a 26 de janeiro de 1967, os tripulantes da Apollo-6 morreram na explosão da cápsula. Três meses depois, um soviético morria na explosão de um retrofoguete.
No dia 04 de fevereiro de 1966 (sexta-feira), o satélite soviético Luna IX conseguiu pousar suavemente na Lua, após uma viagem de 384 mil quilômetros. Visitante indiscreto, o Luna imediatamente começou a contar às estações telereceptoras da Terra tudo o que conseguia descobrir, coisas que nem os telescópios podiam informar com segurança. Depois do Luna, inúmeros engenhos pousaram no solo lunar e fotografaram a lua sob todos os ângulos.
Os soviéticos haviam conseguido dois êxitos que pareciam indicar sua intenção de mandar homens para ver o satélite de perto: em setembro de 1968, sua Zond-5, levando moscas e sementes, fizera com perfeição a viagem Terra-Lua-Terra; em novembro, a Zond-6 repetira a proeza, com tartarugas a bordo. E em dezembro de 1968 os americanos enviaram três astronautas que chegaram bem perto da Lua, num vôo preciso.Finalmente, o homem estava pronto para realizar a maior aventura de todos os tempos. Depois de um vôo de quase quatro dias, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, com a Apollo-11 já girando em órbita lunar, despediram-se de seu companheiro Michael Collins e, através do estreito túnel de comunicação, passaram para o corpo do Módulo Lunar (a Águia). Sozinho na nave-mãe (a Columbia), Michael acionou os dispositivos que libertaram os mecanismo de engate das duas naves, e continuou em órbita lunar. A Águia desprendeu-se, iniciando a viagem até a Lua. Dezenove minutos depois, o Módulo descia suavemente no mar da Tranqüilidade. Era o dia 20 de Julho de 1969 (domingo).
A Lua estava conquistada. O homem realizara seu grande sonho e os proveitos da aventura já estavam sendo colhidos até mesmo antes que ela se completasse, pois muita pesquisa foi necessária para torná-la possível. Para controlar lançamentos de satélites, sondas e naves, eram essenciais computadores altamente aperfeiçoados.
Pegada Humana na Lua Esses materiais passariam a ter milhares de aplicações diferentes, na própria Terra. As comunicações deram um grande salto; o mundo ficou menor depois que os satélites espaciais serviram de elevadas antenas retransmissoras de canais de rádio, televisão e telex. Do extraordinário esforço desenvolvido por físicos, químicos, matemáticos, engenheiros, médicos, biólogos, astrônomos, técnicos em comunicação, todos os campos se beneficiaram. As ciências avançaram séculos, em alguns anos.
Fonte:
http://faustomoraesjr.sites.uol.com.br/espacial.htm


sábado, 16 de junho de 2012

GANDHI


  “Só podemos vencer o adversário com o amor, nunca com o ódio”. (Gandhi)
Submeter a Inglaterra a uma indesejada derrota na mais brilhante pérola da coroa do vasto império britânico foi apenas a mais conhecida façanha da história de vida de um pequeno grande homem chamado Mahatma Gandhi. Talvez tenha sido o ponto de maior repercussão de uma carreira pessoal de constante busca de justiça, harmonia, liberdade e paz, mas sem dúvida é apenas um marco entre tantos outros agregados a vida desse ser humano fabuloso nascido na Índia e educado no próprio Reino Unido.
Tendo se formado advogado, Mohandas K. Gandhi deslocou-se para a África do Sul para exercer sua profissão. Sua experiência nessa colônia britânica foi decisiva para que definisse os rumos que iria tomar a partir de então. Vítima de preconceitos e ao mesmo tempo observador arguto dos acontecimentos que levavam indianos e sul-africanos a constantes humilhações em seus próprios países, o jovem bacharel em direito resolveu comprar essa importante briga, sabendo das imensas dificuldades que lhe acarretariam...
Diferentemente de outros expressivos líderes de então, adotou uma postura de persistência, valentia e não-violência que o tornaram a partir de então, referência mundial e um dos homens mais respeitados tanto pelos que passaram a segui-lo quanto por aqueles que confrontava.
Foi agredido diversas vezes, em tantas outras foi aprisionado, também interrogado e ainda submetido a toda ordem de pressões e coerções quanto se possa imaginar. O que estava em jogo era muito mais que a simples emancipação política de uma expressiva colônia britânica, para os ingleses a perda da Índia acarretaria inúmeros prejuízos financeiros com a derrocada de investimentos e a perda de patrimônios estabelecidos naquela localidade.
Além disso, o fim do domínio britânico em terras indianas poderia sugestionar outras áreas colonizadas a se levantar contra o imperialismo dos ingleses. Novas rebeliões, líderes, movimentos e guerras explodindo bombas, declarações, manifestações das mais diversas naturezas e gerando o surgimento de mártires da liberdade era o que menos desejavam os dominadores da terra da Rainha.
O mais interessante a respeito desse pacifista e agitador em prol da liberdade da Índia é a clara noção que possuía de que a independência do país só poderia ser alcançada se os indianos abrissem mão dos hábitos e práticas dos colonizadores, tornassem vivos os seus costumes (língua, religião, gastronomia, música, literatura,...) e se valorizassem enquanto povo, cultura e nação.
A desobediência civil pregada por Gandhi levou a Índia à liberdade. Seus longos jejuns e extenuantes caminhadas ao longo do país consolidaram uma nova ética, uma proposta política autêntica e também a redenção de valores pouco difundidos e reverenciados no Ocidente como a solidariedade, a paz, a não-violência e a esperança. Tudo isso com muita simplicidade, sabedoria e grandeza...
O Filme
“A não-violência é a mais alta qualidade de oração. A riqueza não pode consegui-Ia,
a cólera foge dela, o orgulho devora-a, a gula e a luxúria ofuscam-na, a mentira a esvazia,
toda a pressão não justificada a compromete”. (Gandhi)
Assisti “Gandhi”, do diretor inglês ‘sir’ Richard Attenborough quando o filme foi lançado no Brasil, em 1982. Posso atestar que a história de vida do líder indiano transformou minha existência, tendo me concedido preceitos que respeito, procuro seguir, admito como bases do meu viver, de minha filosofia e ética pessoal. Tinha apenas 15 anos quando vi o filme pela primeira vez, entretanto a força das imagens e, principalmente das mensagens e do exemplo de vida de Gandhi permaneceram comigo desde então. Acredito na tolerância, na não-violência, na desobediência civil como forma de resistência, na paz e verdadeiramente no amor como respostas autênticas, verdadeiras e sólidas contra qualquer opressão.
A história do filme de Attenborough nos coloca em contato com o jovem advogado Gandhi chegando à África do Sul e sendo submetido a situações constrangedoras de discriminação apenas pelo fato de ser indiano (o que também acontecia com os negros sul-africanos). Seus francos posicionamentos contra a opressão dos ingleses o colocam em evidência e o tornam desde esse princípio de história num nome forte na luta pelos direitos, contra a intolerância, a favor da liberdade dos povos oprimidos por longos anos de colonialismo europeu.
Tendo despertado para as necessidades e premências do longo embate que teria por toda a sua vida contra os colonizadores britânicos, Gandhi desloca-se para sua terra natal, a Índia. Realiza jejuns, caminhadas, enfrentamentos públicos e vai para a prisão algumas vezes. Nada parece suficientemente forte e poderoso para submeter sua vontade, sua fé. Inabalável em seus princípios, continua a desafiar dia após dia os canhões e a força dos exércitos britânicos estabelecidos em seu país.
Sua força está nas palavras e atitudes. Contra o mais poderoso dos exércitos a Índia contava com um homem pequenino, magro, aparentemente frágil que parecia, aos olhos de seus oponentes, um verdadeiro gigante.
Além de todos os atos pessoais assumidos em prol da luta contra a dominação inglesa da Índia, Gandhi se mostrou hábil politicamente para através da diplomacia, da negociação, dobrar as autoridades que representavam o império britânico. (Fonte: CineWeb).


sexta-feira, 15 de junho de 2012

A DITADURA MILITAR NO BRASIL

Podemos definir a Ditadura Militar como sendo o período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar.
O golpe militar de 1964
A crise política se arrastava desde a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O vice de Jânio era João Goulart, que assumiu a presidência num clima político adverso. O governo de João Goulart (1961-1964) foi marcado pela abertura às organizações sociais. Estudantes, organização populares e trabalhadores ganharam espaço, causando a preocupação das classes conservadoras como, por exemplo, os empresários, banqueiros, Igreja Católica, militares e classe média. Todos temiam uma guinada do Brasil para o lado socialista. Vale lembrar, que neste período, o mundo vivia o auge da Guerra Fria. Este estilo populista e de esquerda, chegou a gerar até mesmo preocupação nos EUA, que junto com as classes conservadoras brasileiras, temiam um golpe comunista. Os partidos de oposição, como a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), acusavam Jango de estar planejando um golpe de esquerda e de ser o responsável pela carestia e pelo desabastecimento que o Brasil enfrentava. No dia 13 de março de 1964, João Goulart realiza um grande comício na Central do Brasil ( Rio de Janeiro ), onde defende as Reformas de Base. Neste plano, Jango prometia mudanças radicais na estrutura agrária, econômica e educacional do país. Seis dias depois, em 19 de março, os conservadores organizam uma manifestação contra as intenções de João Goulart. Foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu milhares de pessoas pelas ruas do centro da cidade de São Paulo. O clima de crise política e as tensões sociais aumentavam a cada dia. No dia 31 de março de 1964, tropas de Minas Gerais e São Paulo saem às ruas. Para evitar uma guerra civil, Jango deixa o país refugiando-se no Uruguai. Os militares tomam o poder. Em 9 de abril, é decretado o Ato Institucional Número 1 (AI-1). Este, cassa mandatos políticos de opositores ao regime militar e tira a estabilidade de funcionários públicos.
GOVERNO CASTELLO BRANCO (1964-1967)
Castello Branco, general militar, foi eleito pelo Congresso Nacional presidente da República em 15 de abril de 1964. Em seu pronunciamento, declarou defender a democracia, porém ao começar seu governo, assume uma posição autoritária.
Estabeleceu eleições indiretas para presidente, além de dissolver os partidos políticos. Vários parlamentares federais e estaduais tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos e constitucionais cancelados e os sindicatos receberam intervenção do governo militar.
Em seu governo, foi instituído o bipartidarismo. Só estavam autorizados o funcionamento de dois partidos: Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Enquanto o primeiro era de oposição, de certa forma controlada, o segundo representava os militares.
O governo militar impõe, em janeiro de 1967, uma nova Constituição para o país. Aprovada neste mesmo ano, a Constituição de 1967 confirma e institucionaliza o regime militar e suas formas de atuação.
GOVERNO COSTA E SILVA (1967-1969)
Em 1967, assume a presidência o general Arthur da Costa e Silva, após ser eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. Seu governo é marcado por protestos e manifestações sociais. A oposição ao regime militar cresce no país. A UNE (União Nacional dos Estudantes) organiza, no Rio de Janeiro, a Passeata dos Cem Mil. 
Em Contagem (MG) e Osasco (SP), greves de operários paralisam fábricas em protesto ao regime militar.
A guerrilha urbana começa a se organizar. Formada por jovens idealistas de esquerda, assaltam bancos e seqüestram embaixadores para obterem fundos para o movimento de oposição armada.
No dia 13 de dezembro de 1968, o governo decreta o Ato Institucional Número 5 ( AI-5 ). Este foi o mais duro do governo militar, pois aposentou juízes, cassou mandatos, acabou com as garantias do habeas-corpus e aumentou a repressão militar e policial.
GOVERNO DA JUNTA MILITAR (31/8/1969-30/10/1969)
Doente, Costa e Silva foi substituído por uma junta militar formada pelos ministros Aurélio de Lira Tavares (Exército), Augusto Rademaker (Marinha) e Márcio de Sousa e Melo (Aeronáutica).
Dois grupos de esquerda, O MR-8 e a ALN seqüestram o embaixador dos EUA Charles Elbrick. Os guerrilheiros exigem a libertação de 15 presos políticos, exigência conseguida com sucesso. Porém, em 18 de setembro, o governo decreta a Lei de Segurança Nacional. Esta lei decretava o exílio e a pena de morte em casos de "guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva".
No final de 1969, o líder da ALN, Carlos Mariguella, foi morto pelas forças de repressão em São Paulo.
GOVERNO MEDICI (1969-1974)
Em 1969, a Junta Militar escolhe o novo presidente: o general Emílio Garrastazu Medici. Seu governo é considerado o mais duro e repressivo do período, conhecido como " anos de chumbo ". A repressão à luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, presos, torturados ou exilados do país. O DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações e ao Centro de Operações de Defesa Interna ) atua como centro de investigação e repressão do governo militar.
Ganha força no campo a guerrilha rural, principalmente no Araguaia. A guerrilha do Araguaia é fortemente reprimida pelas forças militares.
O Milagre Econômico
Na área econômica o país crescia rapidamente. Este período que vai de 1969 a 1973 ficou conhecido com a época do Milagre Econômico. O PIB brasileiro crescia a uma taxa de quase 12% ao ano, enquanto a inflação beirava os 18%. Com investimentos internos e empréstimos do exterior, o país avançou e estruturou uma base de infra-estrutura. Todos estes investimentos geraram milhões de empregos pelo país. Algumas obras, consideradas faraônicas, foram executadas, como a Rodovia Transamazônica e a Ponte Rio-Niteroi.
Porém, todo esse crescimento teve um custo altíssimo e a conta deveria ser paga no futuro. Os empréstimos estrangeiros geraram uma dívida externa elevada para os padrões econômicos do Brasil.
GOVERNO GEISEL (1974-1979)
Em 1974 assume a presidência o general Ernesto Geisel que começa um lento processo de transição rumo à democracia. Seu governo coincide com o fim do milagre econômico e com a insatisfação popular em altas taxas. A crise do petróleo e a recessão mundial interferem na economia brasileira, no momento em que os créditos e empréstimos internacionais diminuem.
Geisel anuncia a abertura política lenta, gradual e segura. A oposição política começa a ganhar espaço. Nas eleições de 1974, o MDB conquista 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e ganha a prefeitura da maioria das grandes cidades.
Os militares de linha dura, não contentes com os caminhos do governo Geisel, começam a promover ataques clandestinos aos membros da esquerda. Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog á assassinado nas dependências do DOI-Codi em São Paulo. Em janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho aparece morto em situação semelhante.
Em 1978, Geisel acaba com o AI-5, restaura o habeas-corpus e abre caminho para a volta da democracia no Brasil.
GOVERNO FIGUEIREDO (1979-1985) 
A vitória do MDB nas eleições em 1978 começa a acelerar o processo de redemocratização. O general João Baptista Figueiredo decreta a Lei da Anistia, concedendo o direito de retorno ao Brasil para os políticos, artistas e demais brasileiros exilados e condenados por crimes políticos. Os militares de linha dura continuam com a repressão clandestina. Cartas-bomba são colocadas em órgãos da imprensa e da OAB (Ordem dos advogados do Brasil). No dia 30 de Abril de 1981, uma bomba explode durante um show no centro de convenções do Rio Centro. O atentado fora provavelmente promovido por militares de linha dura, embora até hoje nada tenha sido provado.
Em 1979, o governo aprova lei que restabelece o pluripartidarismo no país. Os partidos voltam a funcionar dentro da normalidade. A ARENA muda o nome e passa a ser PDS, enquanto o MDB passa a ser PMDB. Outros partidos são criados, como: Partido dos Trabalhadores ( PT ) e o Partido Democrático Trabalhista ( PDT ).
A Redemocratização e a Campanha pelas Diretas Já
Nos últimos anos do governo militar, o Brasil apresenta vários problemas. A inflação é alta e a recessão também. Enquanto isso a oposição ganha terreno com o surgimento de novos partidos e com o fortalecimento dos sindicatos.
Em 1984, políticos de oposição, artistas, jogadores de futebol e milhões de brasileiros participam do movimento das Diretas Já. O movimento era favorável à aprovação da Emenda Dante de Oliveira que garantiria eleições diretas para presidente naquele ano. Para a decepção do povo, a emenda não foi aprovada pela Câmara dos Deputados.
No dia 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral escolheria o deputado Tancredo Neves, que concorreu com Paulo Maluf, como novo presidente da República. Ele fazia parte da Aliança Democrática – o grupo de oposição formado pelo PMDB e pela Frente Liberal.
Era o fim do regime militar. Porém Tancredo Neves fica doente antes de assumir e acaba falecendo. Assume o vice-presidente José Sarney. Em 1988 é aprovada uma nova constituição para o Brasil. A Constituição de 1988 apagou os rastros da ditadura militar e estabeleceu princípios democráticos no país.