quinta-feira, 21 de junho de 2012

A CENSURA É BREGA

Em 1973, o governo militar vetou a música “Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)”, do ídolo brega Odair José.  A letra não pregava a resistência contra a ditadura nem falava de qualquer herói vermelho. Foi tudo culpa do refrão: “Pare de tomar a pílula, porque ela não deixa o nosso filho nascer. Pare de tomar a pílula, pois ela não deixa sua barriga crescer”. O governo militar patrocinava campanha nacional de controle da natalidade e não tolerou o sucesso popular desses versos, numa demonstração do alcance da censura na época.
Durante o regime militar, a repressão à produção cultural perseguiu qualquer idéia que pudesse ser interpretada como contrária às da caserna, mesmo as que não tinham conteúdo diretamente político. Por conta disso, os militares foram capazes de prender, seqüestrar, torturar e exilar artistas, jornalistas e intelectuais. Não fosse esse lado trágico, o saldo do período poderia ser considerado cômico, tantas foram as trapalhadas da censura na hora de lidar com a liberdade de expressão. O regime vetou uma apresentação do balé Bolshoi, companhia de dança estatal da União Soviética comunista. Filmes de kung-fu foram proibidos por conter “substrato maoísta”. O poeta Ferreira Gullar uma vez teve uma pasta com artigos apreendida em sua casa e acredita que a inscrição na capa – Do Cubismo à Arte Neoconcreta – foi interpretada pelo oficial como uma referência a Cuba. Até a dupla de compositores Dom e Ravel, que havia emplacado “Eu Te Amo Meu Brasil”, hino ufanista que mereceu cumprimentos pessoais do presidente Medici, teve de se explicar aos censores.
Com Geisel e sua promessa de abertura lenta, gradual e segura, artistas e intelectuais esperavam um certo alívio na repressão cultural. Esqueceram de combinar com o então ministro da Justiça, Armando Falcão. Em sua gestão, continuaram a ser expedidas dezenas de portarias cortando trechos de filmes, riscando faixas de discos ou vetando obras inteiras. Compositores, cineastas, escritores, jornalistas e dramaturgos se esmeravam em usar a criatividade para driblar a tesoura dos censores, usando para isso letras cheias de metáforas – expediente que começou nos anos de chumbo e ficou conhecido como linguagem de frestas.
A resistência artística, assim como a censura, tiveram diferentes fases durante o regime militar. Os primeiros anos depois do golpe foram de relativa liberdade de expressão. A censura tinha seus limites, refletindo a linha do ambíguo e moderado marechal Castello Branco. Com o endurecimento do regime, após 1968, a resistência cultural passou a viver maus momentos. Funcionários da Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal se instalaram nas redações dos principais jornais e revistas, controlando tudo o que estava para ser publicado. Vira e mexe o espaço de notícias, fotos e charges censuradas acabava preenchido por receitas culinárias e versos de Camões, em sinal de protesto. A fúria do aparato repressivo resultou em teatros destruídos, no seqüestro e interrogatório de artistas e no exílio de compositores e escritores.
Nessa fase, a produção cultural de contestação ao regime era “engajada”, com atenção aos grandes temas ideológicos da esquerda, como a luta pela reforma agrária e pela justiça social. Mas os sucessos nas rádios e nas lojas ficava para a música mais popular, que ressaltava as qualidades do país, como a ufanista “País Tropical”, de Jorge Ben (na época, sem o “jor” no final do nome), que cantava o Brasil como “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”.
No período Geisel, a cultura e a resistência sofrem influência das idéias da contracultura. Era um movimento que pregava uma ação social e política de oposição à violência e aos valores da sociedade de consumo e a favor das liberdades sexuais, do uso de drogas para ampliar os limites da percepção e da vida em comunidades alternativas. Nos Estados Unidos, essa atitude serviu de combustível para o movimento hippie. No Brasil, afetou especialmente o teatro e a música, então as principais frentes de contestação ao autoritarismo. Gil, Caetano e os Novos Baianos – grupo que vivia em comunidade e reunia Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Baby (na época) Consuelo – transformam a busca pelo prazer no tema principal de suas canções. O lançamento do disco Bicho, de Caetano, em 1977, é um marco da influência da contracultura. A faixa “Odara” – que traz os versos “deixe eu dançar / pro meu corpo ficar odara” (palavra africana que significa “sentir-se feliz”) – levou a esquerda engajada a acusar a postura “bicho-grilo” de Caetano e dos baianos de ser alienada e alienante. Além dessa turma pós-tropicalista, a postura mais radical da contracultura influenciou a vertente roqueira nacional, representada pela debochada Rita Lee e pelo maluco beleza Raul Seixas.
A contestação aos valores defendidos pelos militares também chegou à chamada música cafona. “A partir de 1974, com o fim do milagre econômico, há uma mudança de enfoque na música popular, que no período de 1969 a 1973 se caracterizou pelo ufanismo, e ocorre um boom da música de protesto”, relata o historiador Paulo César de Araújo. Para ele, “a música popular firmava-se como o grande canal de expressão de uma ampla camada da população brasileira, que, nesse sentido, não ficou calada e se pronunciou por meio de sambas, boleros e, principalmente, baladas”.
A nova atitude e o sucesso daquele tipo de música despertaram a preocupação dos censores de Armando Falcão. Apesar de ainda manter suas atenções para estrelas como Chico Buarque, a censura atingirá em cheio a produção dos compositores e cantores populares românticos. “Eu não tenho dúvida que essas canções contribuíram para uma visão crítica do seu consumidor, porque parte delas trazia questionamentos contundentes quanto às relações sociais”, afirma Araújo. Exemplo disso, de acordo com o historiador, é que os latifundiários da região do Araguaia (PA) proibiram os trabalhadores rurais de cantarem a canção “O Caminhante”, da dupla Dom e Ravel, lançada em 1974. “Onde piso dizem ‘isso não é seu’ / tanta coisa boa eu deixo de fazer / grande parte de caminhantes já morreu / sem o nosso pobre mundo compreender”, diz o refrão dessa música. Outro exemplo insólito foi o veto da Censura Federal à regravação em 1974 da canção “Tortura de Amor”, de Waldick Soriano, por conta justamente de seu título.
Encarregados de lidar com sutilezas e interpretações, os censores com freqüência metiam os pés pelas mãos. Chico Buarque adotou o nome artístico de “Julinho de Adelaide” para ter suas composições liberadas. A estratégia deu certo e as canções de “Julinho” tornaram-se sucessos. Entre elas, “Jorge Maravilha”, que traz os versos “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. A canção surgiu após um agente da Polícia Federal abordar Chico e lhe pedir um autógrafo, justificando: “É para minha filha”. No início dos anos 70, as vitrines do país expunham livremente a capa do inovador disco Tom Zé e Todos os Olhos, que trazia um ânus fotografado bem de perto com uma bolinha de gude no meio, simulando um olho (veja acima). Outra que a censura não entendeu e liberou foi “Festa Imodesta”, de Caetano Veloso, gravada por Chico Buarque no disco Sinal Fechado (1974). A canção, em um típico uso da linguagem de frestas, traz nos versos críticas à própria censura: “Tudo aquilo que o malandro pronuncia / e que o otário silencia / toda festa que se dá ou não se dá / passa pela fresta da cesta e resta a vida”.
No teatro, Chico Buarque se baseou em um clássico para escrever com Paulo Pontes a peça Gota d·Água. Os autores transportaram o enredo da tragédia grega Medéia para uma favela em processo de reurbanização com a construção de um conjunto habitacional. A peça tinha como pano de fundo uma crítica ao milagre econômico, a partir da mobilização da população do morro contra os preços extorsivos das unidades postas à venda. Passou.
Para algumas obras, a censura significou anos de espera. O Abajur Lilás, de Plínio Marcos, que fazia uma crítica irônica à repressão, foi proibida duas vezes, em 1970 e em 1975, sob a alegação que atentava contra a moral e os bons costumes. A peça, que mostra o conflito entre prostitutas, um homossexual cafetão e seu guarda-costas, incluindo tortura e assassinato, só foi liberada em 1980.
No cinema, a produção nacional de resistência à ditadura praticamente deixa de existir nos anos da distensão. Nesse período, alguns dos diretores do contestador Cinema Novo, como Cacá Diegues, ironicamente têm suas obras apoiadas pelo órgão oficial de fomento ao cinema do governo militar: a Embrafilme. O “cinema de resistência” que restava explorava o erotismo, como as pornochanchadas produzidas na Boca do Lixo, em São Paulo, que afrontavam os padrões morais vigentes. Para burlar a Censura Federal, os cineastas da “Boca” inseriam cenas propositadamente censuráveis nos filmes. Os censores tascavam a tesoura nesses trechos e deixavam passar o resto.
(Texto de Silvio Anaz -Revista Aventuras na História, Edição Especial Dissiê Brasil.Abril de 2005).


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