terça-feira, 19 de junho de 2012

DEZ ANOS "SEM" APARTHEID

As regras inflexíveis do Apartheid regeram a República da África do Sul durante boa parte do século XX. Numa nação em sua maioria constituída  por negros, prevaleceu por décadas um regime de segregação racial que discriminava quase a totalidade da população do país. Com raízes que apontam para o século XVII, o Apartheid estabeleceu-se oficialmente na década de 1940 com a chegada ao poder do Partido Nacional, representante do direto do africânderes (brancos de origem holandesa). A partir daquele momento, a exclusão racial, social e territorial tornaram-se legitimas perante a legislação local, dando continuidade a secular exploração econômica estabelecida pelos europeus durante a partilha da África.
                Felizmente a situação começou a ruir em meados dos anos 1980, combatida, sobretudo por manifestações, boicotes e pressões internacionais. O Apartheid que significa separatismo, enfim foi extinto em 1994, com as eleições gerais que levaram Nelson Mandela à presidência. Em seu discurso de posse, o grande líder negro, uma das figuras mais marcantes do século XX, prometeu lutar por uma África do Sul humana e justa. Mas o que aconteceu após uma década de democracia?
                Dez anos se passaram e a república sul-africana, que ficou conhecida como “nação arco-íris” por causa de sua diversidade étnico-linguística, apresenta hoje a economia mais desenvolvida do seu continente. Um feito e tanto num território onde a miséria predomina por todos os lados. Destacam-se principalmente as atividades minerais,  a produção de veículos e o cultivo de produtos tropicais.
                A população respira ares de democracia. Recentemente reelegeu para o seu segundo mandato o presidente Thabo Mbeki. Porém, uma parcela ainda considerável da população vive em “estado de Apartheid”, no qual negros e brancos continuam separados por uma muralha de diferenças socioeconômicas. Atualmente a taxa de desemprego atinge patamares elevadíssimos, contribuindo para que a metade dos habitantes do país vivam abaixo da linha da pobreza. Parte desse contingente, claro, é de origem negra. Mesmo com a adoção de leis que defendem uma maior integração dessa mão-de-obra ao mercado de trabalho, muitos empresários alegam que não contratam os negros devido à baixa qualificação técnica que apresentam. Vale lembrar que até o fim oficial do Apartheid, somente a população branca tinha acesso as melhores escolas.
                A exclusão a que muitos negros, mestiços e asiáticos estão sujeitos no país potencializou, naturalmente, o crescimento dos índices de criminalidade. Surgem cada vez mais gangues de rua, quase sempre concentradas nas periferias das grandes e miseráveis cidades. Como resultado de toda essa situação, o IDH caiu de 0,70 em 2000 para 0,67 em 2003.
                Como se isso não fosse bastante à África do Sul sofre uma calamidade sem precedentes em relação à saúde. Na da menos do que 10% da população (aproximadamente 4,5 milhões de pessoas) está infectada com o vírus da Aids. Cerca de 25% das mulheres grávidas são soropositivas. E a esperança de vida dos cidadãos declinou. Hoje, mais de 300 mil crianças são órfãos, seus pais morreram por causa do HIV. Parcela considerável dos jovens, desiludidos com a vida que levam desviam-se para as drogas e para o crime. “Para que eu vou trabalhar se vou morrer antes dos 50 anos” é o que muitos respondem quando perguntados sobre o futuro. Toda essa grave situação fortalece uma reação em cadeia de grande impacto negativo na escala produtiva. Dizima parte da força de trabalho e obriga o governo local a gastar verbas significativas para minimizar o problema da saúde pública.
                Como consolo, os sul-africanos receberam a noticia de que seu país será sede da primeira copa do mundo  de futebol em solo africano. O evento está programado para ocorrer em 2010. Mesmo longe do poder o ainda influente Nelson Mandela declarou a vários jornais que o evento esportivo é um presente pelos dez anos de democracia na África no Sul. Sem dúvida, espera-se que um grande acontecimento como esses possa injetar novo animo ao povo que ainda sofre as sequelas do Apartheid. Provavelmente a festa do futebol será feita com maestria, beleza e alegria, elementos aliás, típicos da população daquele país. Porém, a Copa do Mundo dura apenas um mês. E depois? (Texto extraído da revista Geografia – 2004).


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