quarta-feira, 20 de junho de 2012

INQUISIÇÃO

Nas últimas décadas do século XIII a Igreja era uma instituição religiosa fortemente consolidada no continente europeu. O apoio do Estado e sua condição de formadora da elite intelectual da época garantiam uma influência de grande força entre os vários segmentos da sociedade ora vigentes. Contudo, vemos que nesse mesmo período ocorreram conturbações de cunho teológico que perturbava a hegemonia cristã nesses tempos.
Vez ou outra, os movimentos heréticos apareciam oferecendo um modelo de fé e devoção religiosa que escapava das esferas de controle da própria Igreja. Foi justamente mediante essa situação que, já no ano de 1219, uma confraria de origem dominicana estabeleceu a criação da chamada Milícia de Jesus Cristo. Visando defender a pureza do catolicismo, os integrantes desse grupo realizaram a matança de comunidades inteiras ao longo do período medieval.
Apesar da importância desse primeiro momento, como um passo inicial no desenvolvimento da Inquisição, vemos que ela atingiu o seu auge nos séculos integrantes da Idade Moderna. Nesse período, a perseguição aos judeus e a ascensão das religiões protestantes serviu de incentivo para que o chamado Tribunal do Santo Ofício fosse criado com o objetivo de vasculhar diversas regiões em busca de infratores que representassem algum tipo de ameaça à hegemonia cristã.
Nessas situações, o tribunal contava com a força das autoridades locais que cediam militares e instalações onde pudessem realizar seus processos de investigação. Ao mesmo tempo, devemos destacar a delação anônima como outro importante artifício capaz de indicar as pessoas que fossem suspeitas de adotarem alguma prática de natureza anticristã. Muitas vezes, as delações eram tomadas como verdade, sem que antes para isso, houvesse a apresentação de qualquer indício.
Mesmo que não chagasse a ser morto em uma fogueira, o simples fato de uma pessoa ter passado por um processo inquisitorial determinava um enorme desprestígio. Não raro, um acusado poderia ter suas possessões confiscadas, perdia direitos políticos ou era obrigado a se mudar para outra localidade. Geralmente, as acusações feitas pela Inquisição aconteciam envolvendo crimes de atentado contra os preceitos morais da época ou contra os dogmas instituídos pela Igreja.
A realização das torturas acontecia como um meio de se obter a confissão. Sob tal aspecto, vale ressaltar que o uso da punição física era anterior à própria Inquisição e que ela assumia um sentido religioso. A condenação do corpo era considerada uma forma de purificação necessária para que o réu pudesse reconhecer seus crimes e se libertar das forças malignas que o instigavam a ocultar sua falta. Desse modo, não podemos determinar o sadismo ou perversidade como as duas únicas explicações para a tortura.
A queima na fogueira foi uma das mais expressivas ritualizações do poder exercido pelo Tribunal da Santa Inquisição. Antes de morrer, caso reconhecesse os seus pecados, o acusado sofria enforcamento antes de ter seu corpo carbonizado. No entanto, se reafirmasse inocência, o condenado era queimado vivo. Os autos de fé eram as celebrações onde geralmente tais penas eram aplicadas e as publicações consideradas proibidas, também eram consumidas pelas chamas.
Somente no século XVIII é que o movimento de Inquisição começou a perder seu terreno ao ser proibido em diversas partes do continente europeu. Ainda assim, a Igreja mantinha órgãos de vigilância que poderiam punir os hereges ou descumpridores do dogma cristão com penas mais leves, como a excomunhão. De fato, o desenvolvimento da Inquisição revela-nos um episódio marcado pela problemática chaga da intolerância religiosa.
Rainer Sousa


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