sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ARES

Uma das 12 grandes divindades do panteão helênico, Ares, deus da guerra, não era muito apreciado pelos gregos, que davam prioridade aos valores do espírito e à sabedoria.
Ares era filho de Zeus, deus supremo grego, e de Hera. Sua figura representava o espírito violento e combativo, que só encontra prazer nas batalhas. Embora dotado de força extraordinária, era continuamente enganado por outros deuses que, como Atena -- personificação da sabedoria --, sabiam tirar proveito de sua pouca inteligência. Ares era  representado com couraça, capacete, lança e escudo. No combate, sua presença era anunciada com ferozes gritos de guerra que provocavam pânico. Lutava a pé ou num carro puxado por cavalos, às vezes em companhia dos filhos que teve com Afrodite: Deimos (o Medo) e Fobos (o Terror), e outras vezes com sua irmã Éris (a Discórdia).
Segundo a mitologia, foi vencido em várias ocasiões. Os Aloídas o derrotaram e encerraram numa urna de bronze durante 13 meses. Segundo se narra no canto V da Ilíada, o herói Diomedes, ajudado pela astuta Atena, conseguiu ferir Ares, que se refugiou no Olimpo.
Ares manteve constantes aventuras amorosas com mulheres mortais, de que resultaram seus filhos Alcipe, Ascálafo e Flégias, entre outros. Seus amores com Afrodite foram descobertos pelo marido desta, Hefesto, que envolveu astutamente os amantes numa rede para levá-los ante o soberano juízo dos deuses e assim demonstrar a traição. Em Roma, com o nome de Marte, recebeu maior veneração que entre os gregos, sobretudo por parte das legiões romanas.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

CHARRUAS E MINUANOS E A SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A CULTURA GAÚCHA


Conhecidos sob a denominação histórica de charruas e minuanos, os povos pampeanos descendem dos mais antigos caçadores se instalaram nos pampas platinos durante a última glaciação. Com as suas boleadeiras, seus arcos e flechas, perambulavam pelos campos, caçando as emas, os veados, os tatus, os ratões do banhado e as capivaras. Em seus acampamentos de nômades, faziam fogos de chão e ali assavam a carne dos animais em espetos de madeira. Junto às lagoas do litoral sul, sua atividade era sobretudo a pesca.
Suas técnicas de lascamento da pedra eram muito sofisticadas, pois elaboravam pontas de lança e de flecha com retoques muito bem feitos. Em muitas áreas de pesca, próximo ao litoral e em terrenos alagadiços do interior, esses grupos de caçadores passaram a se instalar em pequenas elevações, os "cerritos", onde deixaram evidências de seus enterramentos rituais, das suas atividades de pesca e a sua cerâmica, provavelmente destinada à cocção de peixes. Foram autores de gravuras em paredes de abrigos ou em rochedos ao ar livre. Essa arte tem uma simbologia instigante, pois alguns signos sugerem uma magia de caça, outros uma magia da fertilidade.
Foram estes caçadores nômades guaicuru, charrua e minuano os grupos que mais resistiram ao processo de colonização europeia e às ações de evangelização missionária. Os caçadores- pescadores transformaram-se em guerreiros-cavaleiros portando suas longas e temidas lanças pelos pampas que conheciam tão bem. Lutaram para manter a sua irredutível independência até os inícios do século XX. Muitos viram decretadas as suas sentenças de morte, no campo de batalha ou na emboscada à traição. Mas alguns também participaram intensamente das lutas entre os portugueses e espanhóis, e mais tarde, nas campanhas de independência dos países da região. Entretanto, um número ainda dificil de precisar, terminou se transformando em peões das estâncias de gado que se implantavam. Os pampeanos deram à sociedade colonial duas contribuições importantes. Em primeiro lugar, um colorido na tez e um olhar especial, pois colaboraram de maneira inquestionável para a formação étnica dos primeiros habitantes das estâncias de gado, peões ou filhos dos proprietários. Na tez amorenada e nos olhos rasgados de muito "índio velho" gaúcho, ainda hoje persiste esta herança genética. Em segundo lugar, colaboraram com inúmeros traços culturais, dentre os quais o churrasco na campanha, as reuniões em torno do fogo de chão, uma fita amarrada na testa prendendo os cabelos lisos e negros, as boleadeiras na cintura, a chinoca e o nomadismo típico deste tipo arredio.(Fonte:http://proprata.com/charruas-minuanos).      

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

GUARANI, A LINGUA PROIBIDA

Castigos físicos nas escolas faziam parte da campanha de disseminação do idioma português no período colonial
Até a década de 1750, falar português não era o suficiente para se comunicar no Brasil. Na Colônia, predominava ainda a chamada língua geral. Baseada originariamente no tupi, ela passou por modificações ao longo dos contatos entre os índios e os europeus, até tornar-se a linguagem característica da sociedade colonial. A língua geral era, portanto, falada não apenas pelos índios, mas também por amplas camadas da população. Em algumas regiões da Colônia, como em São Paulo e na Amazônia, ela era utilizada pela maioria dos habitantes, a ponto de exigir que as autoridades portuguesas enviadas a esses lugares se valessem de intérpretes para se comunicar.
Por tudo isso, na segunda metade do século XVIII, a Coroa portuguesa criou uma série de leis para transformar os índios em súditos iguais aos demais colonos. Com as mudanças, pretendia-se eliminar as diferenças culturais características dos grupos indígenas, fazendo deles pessoas “civilizadas”. Essas leis, pensadas inicialmente para a Amazônia, foram sistematizadas em 1757 num texto chamado Diretório dos Índios, que acabou se estendendo, posteriormente, para o restante da Colônia. O principal mentor desta política foi Sebastião José de Carvalho e Melo, conhecido mais tarde como Marquês de Pombal.
A Coroa pretendia impor o uso do idioma português entre as populações nativas da América porque Pombal entendia que as línguas indígenas reforçavam os costumes tribais, que ele pretendia extinguir. Na sua visão, o uso da língua portuguesa ajudaria a erradicar esses costumes, aumentando a sujeição das populações indígenas ao Rei e à Coroa portuguesa. Pombal entendia, com razão, que o idioma era uma importante arma para o controle político dos súditos.
Para mudar esse cenário, o Diretório determinava a fundação de escolas para as crianças índias, nas quais, além de aprender o português, aprenderiam também os costumes ocidentais. Elas deveriam ser convertidas à fé católica, vestir-se de acordo com os brancos e aprender disciplina de trabalho. Desta forma, a Coroa – numa terra ainda com baixa densidade demográfica – aumentaria seu contingente de vassalos.
Este aspecto era particularmente interessante nas fronteiras, pois serviriam como garantia da efetiva ocupação lusitana nos seus domínios e de possível bastião contra os ataques espanhóis. Assim, apesar de vigorarem para toda a Colônia, as medidas pombalinas foram empregadas com mais rigor nas duas principais fronteiras da América portuguesa: a Amazônia e o Rio Grande de São Pedro.
No início da década de 1760, foi fundada uma aldeia indígena na região norte do Rio Grande, denominada Nossa Senhora dos Anjos, onde fica hoje a cidade de Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre. Esta aldeia foi povoada com índios guaranis, trazidos dos Sete Povos das Missões por Gomes Freire de Andrade, no final da década de 1750. Nessa época, Portugal e Espanha estavam tentando consolidar o Tratado de Madri, segundo o qual Portugal abriria mão definitivamente da Colônia de Sacramento em prol da Espanha, que entregaria os Sete Povos aos lusitanos. Os dois governos criaram uma comissão de demarcação para fiscalizar a execução do Tratado, que, por vários motivos, acabou sendo anulado. Gomes Freire, como chefe da comissão de demarcação portuguesa, ao se retirar da região das Missões trouxe em torno de 3.000 índios guaranis para o território do Rio Grande, com o propósito de transformá-los em súditos de Portugal.
A Aldeia dos Anjos foi o principal estabelecimento indígena do Rio Grande no século XVIII. Lá foram aplicadas com maior empenho as determinações do Diretório em relação aos índios. Em meados da década de 1770, o governador José Marcelino de Figueiredo fundou na aldeia duas instituições de ensino para os índios: uma escola para os meninos e um recolhimento para as meninas, ambos em regime de internato. Um fato interessante – para entender como operavam essas duas instituições – é que o governador elaborou dois regimentos distintos, nos quais estipulava detalhadamente a rotina a ser seguida pelos alunos. Esses regulamentos nos permitem recuperar um pouco do cotidiano dos internos.
O dia era estritamente regrado, tendo uma hora específica para cada atividade. Os alunos deveriam acordar pela manhã, fazer a higiene pessoal e almoçar. Após o almoço, permaneceriam das oito às onze na escola, onde aprenderiam a falar, ler e escrever em português, a rezar e argumentar. Jantariam ao meio-dia e teriam descanso até as duas horas, quando retornariam para a escola onde ficariam até as cinco. No verão, entrariam às três e sairiam às seis.
Depois das aulas fariam suas orações, ceariam e deveriam se recolher. Nas semanas em que não houvesse feriado, teriam um dia de folga. Neste dia, poderiam receber a visita de seus parentes do meio-dia às duas. No dia de folga e nos feriados santos, o mestre poderia escolher entre os seus alunos alguns que considerasse mais aplicados, aos quais concederia licença para visitarem seus pais. Se um destes meninos cometesse algum tipo de desordem na Aldeia, o mestre deveria ser informado, para que suspendesse a concessão de licenças. Os sábados e os domingos eram destinados às atividades religiosas. A limpeza e organização do espaço da escola ficariam a cargo dos meninos, que, em sistema de rodízio, deveriam passar, cozinhar, varrer etc.
Para eliminar a língua guarani da vida das crianças, elas eram proibidas de usá-la na escola. Estavam previstos um castigo físico para o menino que falasse guarani e o perdão para quem o delatasse. Aos domingos, quando os estudantes recebiam visitas dos parentes, só podiam falar com eles em português. Esta tarefa deve ter sido muito difícil, pois os índios mais velhos, acostumados a falar apenas o guarani, não compreendiam o português. Esta determinação, se cumprida à risca, praticamente impossibilitaria a comunicação entre alunos e parentes.
Os meninos não permaneciam muito tempo na escola. Quando fossem considerados aptos nas matérias ministradas e soubessem a língua portuguesa, deveriam deixá-la para dar lugar a outros. Mas alguns meninos que se destacavam eram enviados ao Rio de Janeiro, para completar os estudos. Foi o próprio vice-rei, marquês do Lavradio, quem solicitou ao governador do Rio Grande que os enviasse para serem educados na Corte. Segundo Lavradio, ele tomaria conta pessoalmente dos índios quando chegassem ao Rio. Existem poucas informações sobre a trajetória desses estudantes, mas se sabe que alguns deles conseguiram completar sua formação, tendo chegado à ordenação como padres.
O recolhimento das meninas era uma instituição de ensino característica da sociedade colonial. As internas ficavam reclusas e afastadas de todo o convívio com as pessoas do sexo oposto. Na opinião da maioria das autoridades portuguesas e dos colonos, as índias eram mulheres de segunda categoria, que não tinham o comportamento esperado das pessoas do sexo feminino. Ou seja, elas não eram recatadas, não tinham pudor em mostrar determinadas partes do corpo e não se conservavam virgens até o casamento, como deveriam proceder as mulheres consideradas honestas.
O internato servia, então, para afastar as meninas do convívio com suas famílias, nas quais, na visão dos portugueses, aprendiam maus costumes. Era melhor mantê-las sob rígida vigilância da mestra do recolhimento. Ao contrário dos meninos, elas não recebiam licença para visitar parentes nos dias folga. As visitas eram recebidas no locutório, um compartimento separado por grades, onde as pessoas podem conversar, mas não têm contato físico direto. A entrada de homens no recolhimento era proibida, com exceção do pároco e dos cirurgiões e sangradores. Mas estes deveriam estar sempre acompanhados de várias meninas, evitando deixar alguma delas sozinha com uma pessoa do sexo oposto. Nem mesmo mulheres de fora podiam entrar no recolhimento, sendo permitido apenas o trânsito das duas criadas do internato.
Para ingresso no recolhimento, a idade mínima era de 6 anos e a máxima de 12, sendo que o número de meninas não poderia ultrapassar 50. O dia era dedicado às orações, ao aprendizado e aos trabalhos domésticos. Ao nascer do sol deveriam levantar-se e fazer a higiene pessoal, seguindo depois para as orações. Após a reza, as meninas índias iriam para o trabalho, que poderia ser de costura ou de fiação e tecelagem. Então jantariam, teriam um tempo de repouso e retornariam ao trabalho. Logo em seguida viria a ceia, com novo turno de orações, após as quais deveriam recolher-se. Caberia à mestra do recolhimento zelar pelas roupas das índias, sempre feitas de algodão e em cores neutras. Dois eram os objetivos a serem alcançados com as meninas: que soubessem a língua portuguesa, não sendo permitido falar o guarani, e que aprendessem a se portar como mulheres “honestas”, sabendo comportar-se e fazer todos os serviços necessários ao bom funcionamento de uma casa.
Diferentemente dos meninos, às meninas não se ensinava a ler, escrever e contar, atividades consideradas irrelevantes para aquelas que deveriam dedicar-se apenas ao trabalho doméstico. Enquanto estavam no recolhimento, podiam receber propostas de casamento, que eram enviadas ao governador. Ele analisava as qualidades do pretendente e, caso este lhe agradasse, autorizava as núpcias. Neste caso, o governador também pagava um dote para as índias, com dinheiro da Fazenda Real.  Todos os relatos da época afirmam que uma das maiores dificuldades da escola e do recolhimento foi a substituição do guarani pelo português. É provável que esses relatos tenham feito generalizações muito amplas, pois é de se supor que alguns alunos devam ter aprendido o português, principalmente os que prosseguiram nos estudos. Mas este não parece ter sido o caso da maioria dos índios. Os governadores do Rio Grande se impressionavam com o fato de que, decorridos vários anos do estabelecimento dos índios na Aldeia e da fundação das escolas, estes ainda falassem apenas o guarani. Segundo os relatos, a maior parte dos índios nem mesmo conseguia se fazer entender nos confessionários, pois não havia padres na Aldeia que soubessem sua língua.
Muito índios, no entanto, por meio da escola ou por outros meios, se integraram à sociedade colonial, falando o português, trabalhando no comércio e adquirindo hábitos tidos como civilizados. É o que se pode ver na pintura de Debret (pág. 73) que traz a imagem de uma índia guarani indo para a igreja. Ela está vestida da mesma forma que as senhoras brancas, leva o cabelo preso e está carregando dois crucifixos, um no pescoço e outro na mão.
 Enquanto funcionaram, tanto a escola quanto o recolhimento foram alvo de críticas por parte dos colonos estabelecidos no Rio Grande, que não encontravam justificativas para educar os índios, já que eram vistos como pessoas de natureza inferior, sem capacidade de aprendizado. Os colonos consideravam um desperdício a manutenção das instituições de ensino e propunham a utilização dos índios em trabalhos de baixo valor social, como o corte de madeiras, a construção de estradas etc. A escola e o recolhimento da Aldeia eram os únicos estabelecimentos de ensino existentes no Rio Grande, o que deixava os colonos indignados. Para eles, o dinheiro deveria ser gasto com as crianças brancas, com as quais se obteria algum tipo de resultado proveitoso, e não com os índios, considerados inaptos ao trabalho intelectual.
Também havia uma forte oposição ao pagamento dos dotes para o casamento das índias do recolhimento. Devido a sua má fama, os colonos julgavam improvável que pessoas procedentes de famílias honestas se casassem com elas. Na opinião deles, mesmo que houvesse casamentos, o dinheiro empregado nos dotes seria inútil, pois as índias não saberiam manter uma família nos moldes ocidentais, nem criar os filhos dentro dos padrões “civilizados”. Sem dúvida, estes preconceitos dificultaram a realização dos casamentos, embora algumas internas tenham recebido propostas de matrimônio, constituindo famílias dentro das normas portuguesas.
Tanto a escola quanto o recolhimento foram desativados em 1800, por falta de alunos. Os prédios onde funcionavam foram vendidos, e a iniciativa de se criar escolas para os índios foi abandonada. Sendo um dos únicos exemplos de instituições para a educação dos índios na América portuguesa da segunda metade do século XVIII, a escola da Aldeia dos Anjos oferece um bom exemplo para pensar a função da educação e a sua relação com as diferenças culturais. Apesar de alguns índios terem se beneficiado desta iniciativa, a escola não alcançou seus objetivos na dimensão esperada. O espaço formado para a educação não tinha lugar para as suas próprias manifestações culturais. Ensinava-se os elementos da cultura portuguesa para anular a experiência anterior dos alunos, desconsiderando toda a rica herança cultural de seus antepassados.
Elisa Frühalf Garcia (www.revistadehistoria.com.br)


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

JOHANN SEBASTIAN BACH

Johann Sebastian Bach
21/03 /1685 Eisenach, Alemanha.
 28 /07/1750, Leipzig, Alemanha
Johann Sebastian Bach é um dos maiores nomes da música de todos os tempos.
"Bach (riacho, em alemão) deveria se chamar Ozean (oceano) e não Bach!". A frase é de ninguém menos que Ludwig Van Beethoven e, se um músico da grandeza de Beethoven assim se pronuncia sobre ele, bem se pode imaginar a dimensão que se pode atribuir ao compositor barroco Johann Sebastian Bach.
Na verdade, desde Veit Bach, que no século XVI tocava cítara, até 1685, são contados 27 músicos na família Bach. O mais célebre, porém, merecidamente, foi Johann Sebastian Bach, que nasceu em Eisenach, uma pequena cidade da Turíngia, no centro da Alemanha. Seu pai, Johann Ambrosius Bach, era um músico da cidade e ensinou Bach a tocar violino e viola e a escrever as notas musicais, além de criá-lo na fé protestante.
Seus pais morreram antes que completasse 10 anos e a continuação de sua formação musical ficou a cargo de seu irmão, Christoph, que trabalhava como organista em Ohrdruf, cidade próxima, onde passariam a morar. Aos quinze anos, Johann Sebastian ingressou na escola de São Miguel de Lünenburg, onde cantaria no coro da igreja e teria ensino formal de música.
Em suas viagens de férias aos centros culturais mais próximos, familiarizou-se com a obra de Jean-Baptiste Lully e François Couperin. Em Hamburgo, conheceu a grande tradição alemã de Jan Adams Reinken e Vincent Lübeck. Bach fez progressos admiráveis, e, aos dezoito anos, foi contratado como organista da nova igreja de Arnstadt, recém-construída, onde permaneceu de 1703 a 1707. Ausentando-se por quatro meses, conheceu em Lübeck o célebre Dietrich Buxtehude, de quem recebeu lições que modificariam sua maneira de interpretar o órgão.
De volta a Arnstadt, Bach não foi bem aceito no templo, o que fez com que ele aceitasse o cargo de organista na igreja de São Blásio de Mühlhausen. Foi nesses dois locais que começou a compor sua primeiras obras religiosas.
Casou-se em outubro de 1707 com sua prima Maria Bárbara, que morreria 12 anos depois. Deste casamento ficaram sete filhos, dos quais três se tornaram músicos; Wilhem Friedemann, Carl Philipp Emanuel e Johann Gottfried Bernhard. Entre 1707 e 1717, trabalhou como organista, violinista e compositor na corte de Weimar, período cheio de conflitos com o duque, já que ambos tinham personalidades difíceis.
Então, Bach foi para Köthen, onde trabalhou para o príncipe calvinista Leopold d'Anhalt-Köthen. Foram cinco anos frutíferos, embora Bach não pudesse escrever música religiosa, ficando restrito à música profana. Datam dessa época os "Concertos de Brandenburgo", o "Cravo Bem-Temperado", a maior parte de sua música de câmara e as suítes orquestrais.
Em 1721, Bach casa-se com Anna Magdalena Wülken, cantora da corte. Com ela teve treze filhos, sendo que dois deles - Johann Cristoph Friedrich e Johann Christian - também se tornaram músicos.
Em maio de 1723, Bach obteve o cargo de "kantor" (professor e diretor musical) na Igreja de São Tomás, em Leipzig. Embora descontente com a rotina do trabalho, foi ali que compôs a maior parte de suas cantatas, a "Missa em Si Menor" e as duas paixões mais conhecidas - a de São João e a de São Matheus.
De suas composições, duas das mais popularmente conhecidas são a "Tocata e Fuga em Ré Menor" e "Jesus, Alegria dos Homens". "Oferenda musical", "Oratório de Natal", e a inacabada "A Arte da Fuga" são outras grandiosas criações de Bach, que durante muito tempo teve sua obra considerada como mística e hermética.
Johann Sebastian Bach começou a se retirar da vida ativa a partir de 1747. Dois anos depois, operado de catarata por um charlatão inglês, ficou praticamente cego.
Apesar da genialidade, Bach não foi compreendido nem devidamente no seu tempo. Após a sua morte, suas músicas praticamente caíram no esquecimento. Sua obra ficou nas sombras até 1829, quando Felix Mendelssohn regeu a Paixão Segundo São Mateus em Berlim, o que garantiu o resgate da obra do compositor e a sua consagração definitiva.
Uol Biografia.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

A GRANDE PESTE

A doença foi levada para a Europa por ratos e pulgas. Uma em cada três pessoas morreu em menos de cinco anos. Nunca, nenhuma guerra ou catástrofe matou tanta gente em tão pouco tempo: 25 milhões de pessoas.
Os sintomas não deixavam dúvidas. Atacada por uma febre de 40 graus, a vítima sentia crescer na virilha ou na axila um inchaço que assumia a forma de um doloroso furúnculo do tamanho de um ovo ou de uma laranja. Insônia e delírios complementavam o mal-estar, fazendo com que o infeliz temesse tanto o sono como o despertar. No segundo ou no terceiro dia, seu corpo estaria tomado por esses bubões. Se tivesse sorte, os caroços se abririam em pus, dimuinuindo a dor e a febre. Aí surgiriam as manchas pretas na pele. Ardendo, com feridas por todo o corpo, o condenado sentia-se como se na ante-sala do inferno. Era a peste negra ou peste bubônica.
O aspecto do desgraçado tornava-o repelente. Os olhos inchados pelas infecções e os membros cobertos pelas pústulas deixavam claro que a sua hora chegara e nada no mundo o salvaria. Neste momento de agonia, nos estertores de uma tremedeira sem-fim, ninguém mais se aproximava dele. Nem pai, nem mãe, nem irmão ou amigo que se apiedasse. Todos debandavam, temendo a contaminação. Cerca de uma semana depois dos primeiros sintomas, a vítima estava morta. Com poucas variações, foi assim que 25 milhões de pessoas morreram abatidas pela peste entre 1347 a 1351.
Ainda mais rápida que a doença corriam as histórias sobre ela. As primeiras notícias da peste vinham da Ásia, onde ela já fazia vítimas. Os relatos dos viajantes da rota da seda – que ligava a Europa à China – davam conta de mortes por causa da doença por volta de 1330, no deserto de Gobi. Aparentemente, a peste vivia nas tocas de roedores silvestres na região entre a China e a Índia. Ela permaneceu ali por milhares de anos, passando de roedor para roedor, carregada pelas pulgas, isolada naquela imensidão. Não podia ir muito longe, já que seus hospedeiros não costumam fazer longas viagens e mesmo as pessoas que ocasionalmente eram infectadas não se afastam muito de casa. No entanto, o mundo nunca fora tão pequeno, quanto no século 13. Uma tropa de nômades mongóis pode ter acampado próximo a uma toca de ratos, ou um deles pode ter se juntado a uma caravana, ou, ainda, uma minúscula pulga pode ter ido do dorso de um roedor para as roupas de um mensageiro que cruzava as estepes.
Nunca saberemos. O certo é que ela chegou à península da Criméia, no Mar Negro. Ali, no porto de Kaffa, a doença apareceu após um ataque de mongóis da Horda de Ouro. O lugar era freqüentado por mercadores genoveses e venezianos, que aportavam seus navios à espera de bons negócios. Sem saber que podiam estar infectados, os marinheiros alçaram velas para retornar à Europa. Passaram por Constantinopla e, em seguida, já abalados pelo efeito epidêmico, rumaram para o porto de Messina, na Sicília.
Além dos homens doentes, o navio transportava ratos. Milhares deles. E, claro, ocultas nos pêlos dos roedores, uma impressionante carga de pulgas. Ali, todos foram vetores da contaminação, já que uma vez que chega ao hospedeiro, a peste desenvolve dois tipos de epidemia: a bubônica e a pneumônica. A primeira expande-se pelo sangue, gerando os bubões nas ínguas e as ulcerações pelo corpo. Mas, mantendo-se na corrente sangüínea, só pode ser transmitida pela picada da pulga ou pela mordida do rato. A outra forma, no entanto, invade os pulmões, destruindo-os, provocando a expectoração. Essa forma pode ser trasmitida também pelos humanos, já que a cada vez que tossem lançam milhares de bacilos no ar.
A peste negra não era uma completa desconhecida em terras européias. Em 541, uma epidemia havia atingido as costas do Mar Mediterrâneo. Dessa vez, porém, ela encontrou um ambiente diferente, muito mais atraente para seu apetite. A população da Europa crescera muito nos séculos anteriores e havia mais gente do que comida disponível. Nos anos que precederam a década de 1340, invernos rigorosos dizimaram as colheitas, aumentando o contingente de famintos.
As más colheitas e a fome concentraram ainda mais gente nas cidades já superlotadas, onde as más condições de habitação e a falta de higiene e asseio contribuiriam para a propagação da peste. Descendentes dos povos bárbaros, dos godos, dos lombardos, dos alamanos, dos borguinhões, dos francos e saxões, que invadiram as antigas províncias romanas, os europeus viviam de maneira bem pouco saudável. Todo o antigo sistema sanitário romano, inclusive as latrinas, fora destruído. Durante o dia inteiro, das portas, do alto das sacadas ou das janelas, era um sem parar de jogar baldes e bacias cheias de tudo o que se possa imaginar bem no meio da rua. Os aquedutos, canais de esgotos e termas para banhos públicos foram delapidados pelos invasores que, com as pedras já talhadas, ergueram fortins ou castelos para protegerem-se contra os inimigos.
Nas cidades não havia nenhuma profilaxia que pudesse precaver os habitantes contra epidemias ou algum tipo de limpeza pública eficaz, tanto é assim que cabia aos porcos – e ao seu apetite voraz – o serviço de faxinar tudo. Ao comerem restos tocados ou usados pelos homens, também eles morreram em massa.
A morte chegou
Foi assim, em cidades sujas e superpovoadas que ratos e pulgas encontraram o ambiente perfeito para espalhar o mal. Do Mediterrâneo, a peste atingiu o norte da África: Alexandria, Cairo, Túnis, Argel, Tânger e do Marrocos para a península Ibérica foi um pulo. O sul da Espanha foi devastado: de Córdoba, na Andaluzia, até Barcelona tudo ficou de pernas para o ar: 290 mil pessoas morreram no reino da Catalunha. Europa adentro, a doença chegou à Roma e Florença. De Marselha, no sul da França (que deixara os barcos pestíferos ancorarem no seu cais, no dia 1º de novembro de 1347, ironicamente dedicado à festa dos mortos), rumou para o interior do país mais povoado do continente. Nas ilhas britânicas, a peste desembarcou em Weymouth, no dia 7 de julho de 1348. Insaciável, também por mar ela chegou a Bristol, então a segunda maior cidade do reino, matando 10 mil habitantes. Em Gales, Escócia e Irlanda, a doença só cederia em 1350.
Os pobres morriam aos milhares. Nas ruas, sem auxílio. Muitos acreditavam que a pestilência era uma trama dos nobres para que os plebeus fossem para o inferno – enquanto os ricos escapavam, refugiando-se em suas propriedades no campo, onde podiam se proteger de estranhos ou recém-chegados. Mas a verdade é que a peste negra foi ao seu modo uma catástrofe igualitária. Gente poderosa também sucumbiu.
O rei de Castela, Afonso XI e a futura rainha da França, Bonne de Luxemburgo, mãe dos dez filhos de Jean II, o Bom, morreram com os corpos ulcerados, agonizando como qualquer comum. Chanceleres ingleses e três arcebispos de Canterbury também entraram na lista. A peste devastou mosteiros e conventos. Em Montpellier, na França, só sete frades, num total de 140, escaparam da morte. Em Marselha, todos os 150 franciscanos foram de uma vez só aos céus, o mesmo dando-se com 27 monges da Abadia de Westminster, na Inglaterra. Na região do Perpignon, na França, dos 125 notários que existiam sobraram só 45, dos dez médicos, somente um continuou vivo e 16 dos 18 barbeiros-cirurgiões morreram. Todos os profissionais que tinham de lidar com o público estavam expostos. Para consternação do rei Felipe da França, seus arrecadadores de impostos também apodreceram nas estradas.
Nem o líder máximo da Igreja Católica, Clemente VI estava a salvo e teve de deixar Avignon, no sul da França (então sede do papado), quando a mortandade atingiu 400 pessoas por dia, entre 1348 e 1349. Ele aguardou quase um ano em um lugar isolado e montanhoso o mal enfraquecer.
A morte aos milhares pioraram as já precárias condições de saúde da época. Os cadáveres se avolumavam, decompondo-se nos lares ou jogados na frente das casas. Os féretros dos figurões, antes um acontecimento solene, com a parentela e os grandes da cidade acompanhando o caixão até o mausoléu da família, ao som de um bumbo fúnebre e flauta triste, acabaram virando uma cerimônia grotesca. Um par de humildes padioleiros desconhecidos, contratados a peso de ouro, carregavam o defunto quase que na corrida para ir jogá-lo às pressas na primeira cova aberta que encontravam. Nas capelas e igrejas, os mortos eram empilhados como se fossem carga de navio. Trazidos em carroções, como achas de lenha podre, enfiavam-nos, sem reza ou bênção, três ou mais, num só buraco aberto no chão.
Até os animais morriam aos montes. Andar pelas ruas era um risco e um sacrifício. Logo, os poucos atrevidos traziam junto às narinas plantas aromáticas para atenuar a fedentina dos restos insepultos e do lixo que se acumulava por toda a parte. Florença ficou quase deserta pela fuga dos que ainda podiam andar. Mas a situação no campo, que no início era o melhor lugar para escapar da peste, já não estava muito diferente.
A doença parecia perseguir os homens, onde quer que eles fossem.
Horror e culpa
Em outubro de 1348, os doutores da Sorbonne de Paris, enfim, diagnosticaram o mal: a má confluência dos astros estava causando o estrago. O alinhamento de Saturno, Júpiter e Marte, asseguraram eles, era o responsável pelas mortes.
Fosse quem fosse o culpado, rogos, preces, promessas e penitências, rezas a São Roque, o protetor dos lazarentos, nada arrefecia o implacável destino que estava reservado às populações atacadas pela doença. Ao contrário, qualquer ajuntamento pretendido, a mínima formação de um punhado de fiéis para reclamarem dos céus os rigores da vara de Deus, matava mais gente ainda. Calcula-se que dos 1,2 milhão de peregrinos que foram a Roma para celebrar o Ano Santo de 1350, somente cem mil deles restaram vivos. O papado tratou de proibir as grandes procissões dos dias santos e de liberar os moribundos da extrema-unção.
O desespero crescente levou aos atos radicais e ao fanatismo religioso. A doença era a marca do pecado e se alguém sofria no leito era porque boa coisa não fizera antes. Na Alemanha, começou um movimento que procurava aplacar a ira de Deus, por meio da mortificação coletiva e era chamado de Irmandade dos Flagelantes. Prática desconhecida na Europa até o século 11, o hábito das disciplinas, como designavam a autoflagelação, virou rotina durante aqueles anos. Vestindo-se com uma bata ou um saco branco, com uma cruz vermelha no peito, eles peregrinavam de aldeia a aldeia, repetindo ladainhas, chicoteando-se nas costas com tiras de relho com pontas de ferro. No início eram apenas inocentes aberrações, mas com o tempo os fervorosos flagelantes se tornariam perigosos para as outras pessoas.
Na procura de um motivo para a peste, os europeus se voltaram contra os estrangeiros, acusando-os de trazerem a doença. Na Espanha, por exemplo, os árabes eram o alvo preferido, em Portugal, os peregrinos religiosos. Em todo o norte da Europa, os judeus foram acusados de envenenarem a água dos poços e das cisternas. Foi a mais violenta onda de anti-semitismo até então, mais intensa do que nos tempos da Primeira Cruzada, no século 11, e somente superada pela desencadeada pelos nazistas no século 20. Na península Ibérica, incitadas por padres apopléticos, as aljamas ou juderias – comunidades que reuniam os judeus – foram invadidas por turbas ensandecidas que destruíam tudo pelo caminho, prendendo os moradores para serem em seguida queimados ou afogados. Em Basel, na Suíça, todos os judeus da cidade foram reunidos, presos em estacas de madeira e queimados vivos. Em Estrasburgo, na época pertencente à Alemanha, dois mil judeus foram mortos em fogueiras coletivas.
Nem a ação do papa Clemente VI, que expediu as bulas de 4 de julho e 26 de setembro de 1348, isentando oficialmente os judeus de qualquer responsabilidade no contágio da peste, evitou os assassinatos em massa.
Quando a praga por fim arrefeceu, no fim do ano de 1351, saciada por tanta gente que matou em cinco anos de horror, a Europa não seria mais a mesma. As elites medievais com sua fé abalada pela devastação, tornaram-se cada vez mais sombrias, inclinaram-se por temas mórbidos e místicos. As relações comerciais demorariam dezenas de anos para reconquistar a força de antes da crise. As ruas e as cidades, os campos e as estradas estavam vazias, as autoridades haviam sumido. Os portões dos feudos se fecharam para os visitantes que passaram a ser vistos como inimigos. O isolamento entre os reinos tornou-se ainda maior e havia um crescente sentimento de xenofobia. Ninguém era bem-vindo e todos eram suspeitos de carregar a peste. Os anos que se seguiram, os europeus viveram assolados pelo medo e por uma só pergunta: quando ela vai voltar?
 Voltaire Schilling  01/07/2003


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

ESTADOS DO NORTE X ESTADOS DO SUL

Conforme salientado por vários escritores e livros, o processo de independência dos Estados Unidos foi conduzido graças ao enorme sentimento de autonomia que estabeleceu a união de todas as colônias contra a intervenção inglesa. Contada dessa forma, temos a impressão de que toda a população norte-americana partilhava das mesmas perspectivas políticas. No entanto, veremos que essa sensação de harmonia ruiu no desenrolar do século XIX.
Após o processo de independência, as elites econômicas do Norte e do Sul passaram a dialogar uma série de acordos que discutiam os divergentes interesses políticos e econômicos desses dois grupos. A diferença entre nortistas e sulistas tinha origem no processo de desenvolvimento de cada uma destas regiões. Enquanto o sul prosperava à custa do trabalho escravo e da exportação de matéria-prima para a Europa, o norte privilegiou o trabalho assalariado e a articulação de um poderoso comércio.
Estas diferentes orientações acabaram potencializando um confronto que primeiro se manifestou nas políticas fiscais, agrárias e trabalhistas da nação. O interesse nortista era diametralmente oposto ao que os representantes políticos do Sul enxergavam ser necessário para o desenvolvimento de sua economia. A união que outrora transformou nortistas e sulistas em filhos de uma mesma nação parecia falir mediante um caminho que não parecia oferecer um meio termo.
Com relação às taxações alfandegárias, o norte defendia a manutenção de alíquotas elevadas que pudessem conservar o desenvolvimento industrial interno. Em contrapartida, os sulistas desejavam que essas tarifas fossem reduzidas para que os produtos importados penetrassem sua economia com mais facilidade. Tal interesse se dava principalmente porque a região sul dos Estados Unidos não possuía um parque industrial desenvolvido.
Além disso, outra diferença se dava com relação às políticas de acesso às terras localizadas a oeste. Os grandes burgueses nortistas defendiam que as terras devolutas (que não possuíam dono) fossem oferecidas a um baixo custo. A medida seria imposta com o objetivo de desenvolver uma economia diversa e articulada com a criação de novos mercados consumidores. Em contrapartida, os fazendeiros sulistas eram a favor de uma política agrária mais rígida e concentradora de terras.
Contudo, a mais polêmica questão se desenrolava com relação ao fim da escravidão nos Estados Unidos. Os industriários apoiavam a proposta ao enxergarem nessa ação o surgimento de uma ampla camada de trabalhadores assalariados que poderiam ampliar o mercado consumidor dos produtos manufaturados. Em contrapartida, os fazendeiros do sul acreditavam que essa mudança prejudicava o desenvolvimento de suas lavouras, que dependiam exclusivamente do trabalho escravo.
Em meio a tantas divergências, os Estados Unidos caminhavam para uma situação que se tornaria insustentável. Nem mesmo os mecanismos políticos representativos dos EUA seriam capazes de solucionar impasses de tamanha proporção. De fato, foi somente com a instalação da guerra civil que os dois modelos de desenvolvimento econômico disputaram qual deles poderia conduzir os desígnios norte-americanos.
Rainer Sousa

sábado, 18 de agosto de 2012

ATEÍSMO

A definição de ateísmo como toda postura teórica ou de vida que negue a existência de Deus parece ter significado preciso. O certo, porém, é que a própria diversidade das concepções humanas sobre Deus envolve sua negação em um manto de inevitável ambigüidade.
Ao longo da história, o qualificativo "ateu" foi com freqüência empregado de modo pejorativo contra pessoas ou comunidades que em nada correspondiam ao conceito moderno de ateísmo. Assim, Sócrates, cujas concepções influenciaram decisivamente o desenvolvimento da espiritualidade ocidental, foi acusado de ateu por não acreditar nas divindades atenienses. Sob outra perspectiva, o fato de uma pessoa que não admite a existência de um Deus único, livre e pessoal afirmar sua crença em alguma outra realidade transcendente, Deus ou Ser Supremo, muito possivelmente não abalará, no crente de uma fé monoteísta, a convicção de que essa pessoa é atéia. Portanto, a compreensão do ateísmo exige uma análise do significado histórico do termo, de suas relações com outras posturas -- filosóficas ou religiosas -- com as quais se identificou ou a que se opôs e, em indissolúvel ligação com isso, das diferentes formas de ateísmo.
Ateísmo na filosofia ocidental. Antiguidade. A dificuldade de se aplicar o conceito atual de ateísmo a pensadores de outras épocas se patenteia já no caso do primeiro filósofo grego conhecido, Tales de Mileto, que identificava o princípio vital com a água; a depender de onde se põe a ênfase -- se na noção de princípio ou na da água como entidade física --, tal afirmação pode ser entendida como transcendente ou como meramente materialista. Entre os sofistas, Crítias denunciou as religiões como invenções dos políticos para controlarem o povo e, no século III a.C., Evêmero esboçou uma interpretação racionalista da religião, considerando os deuses como antigos heróis divinizados.
Platão achava que a pior forma de ateísmo é a das pessoas más, que esperam poder propiciar a divindade mediante doações e oferendas que lhes justifiquem os descaminhos. Entre os ateus materialistas da antiguidade, foram particularmente radicais os gregos Demócrito e Epicuro, assim como o romano Lucrécio. De Epicuro é o célebre argumento: se Deus quer suprimir o mal e não pode, é impotente; se pode mas não quer, é invejoso; se não quer nem pode, é invejoso e impotente; se quer e pode, por que não o faz? Para os estóicos, Deus, Razão, Destino e Natureza constituem uma mesma coisa; mas seu panteísmo fundamenta uma calorosa e profunda religiosidade.
Renascimento e racionalismo. Na Idade Média esboçaram-se indícios de algumas posições atéias, mas a organização política e social impediu que ganhassem formulação explícita. Foram as novas concepções do Renascimento, com seus interesses antropocêntricos, sua volta à avaliação de todas as coisas segundo a medida do homem, seu paganismo cultural, sua descoberta da natureza e do método científico, que diluíram a concepção teológica medieval e orientaram numerosos pensadores para o materialismo, o panteísmo ou o deísmo -- e da relação das duas últimas doutrinas com o ateísmo trataremos adiante.
Assim, entre os séculos XV e XVI, o italiano Pietro Pomponazzi negou a imortalidade da alma e, veladamente, a existência de Deus. Seu compatriota Maquiavel separou a política da religião e considerou esta última um instrumento do poder: Roma deve mais a Numa Pompílio, que lhe deu os primeiros regulamentos religiosos, do que a seu próprio fundador, Rômulo. Outro italiano, Giordano Bruno, foi queimado na fogueira em 1600, acusado de ateu por suas teses panteístas, nas quais identificava Deus com a unicidade infinita. No século seguinte, o judeu holandês Baruch de Spinoza foi acusado de ateísmo por assemelhar Deus à substância.
Iluminismo. O movimento cultural do século XVIII conhecido como Iluminismo apresentava-se como continuação do Renascimento em seu racionalismo e antropocentrismo, embora a medida humana já não fosse a do sábio ou a do artista, mas a de todo cidadão, a quem se dirigia a Enciclopédia. Os ingleses adotaram o deísmo -- o Deus da razão meramente humana; David Hume, como empirista, rejeitou toda metafísica e, portanto, as provas racionais da existência de Deus, mas declarou aceitar, como homem, a irracionalidade da fé, gerada pelo medo do desconhecido. Os franceses seguiram duas correntes distintas: a mais radical, a do materialismo ateu, era representada por Denis Diderot, entre outros, e a corrente deísta foi significativamente exposta por Voltaire, para quem Deus era o "Geômetra Eterno". Na Alemanha, Kant negou a possibilidade da prova metafísica da existência de Deus. A religião de Hegel era pura intelectualidade, tendo sido interpretada como teísta, como panteísta e como atéia.
Ateísmo moderno. A partir de meados do século XIX, o ateísmo se tornou mais explícito e militante. O alemão Ludwig Feuerbach subverteu a dialética hegeliana, concedendo primazia à sensação frente à razão. Paralelamente, inverteu a relação Deus-homem. Não foi Deus que criou o homem a sua imagem e semelhança; foi o homem que projetou suas melhores qualidades sobre a tela do conceito de Deus.
Em suas teses sobre Feuerbach, Marx criticou o fato de que a filosofia se tivesse limitado a interpretar o mundo, em vez de tratar de modificá-lo. O estudo da história levou Marx à conclusão de que as estruturas sociais vão sendo construídas como muros protetores para evitar a mudança das relações de produção: a religião é o ópio, o consolo adormecedor do povo.
Nietzsche, sob uma postura mais existencialista, não proclamou a inexistência de Deus, mas sua morte nas mãos dos homens, o que provocaria uma mudança de valores que prepararia a chegada do super-homem.
Já no século XX, o ateísmo seria expressado das mais diversas formas. Para Freud, a religião é uma projeção simbólica do inconsciente, na qual Deus ocupa a imagem paterna. Para o positivismo lógico do círculo de Viena, as proposições "Deus existe" ou "Deus não existe" carecem de sentido e sobre elas não é possível emitir juízo algum. Para Jean-Paul Sartre, o ateísmo é um pressuposto existencial, necessário para preservar a liberdade humana.
Conceito filosófico e religioso. Tipos de ateísmo. Muito concisamente, pode-se dizer que o ateísmo é constituído por todas as doutrinas ou atitudes que negam a existência de Deus. Quando se trata apenas de atitudes, temos um ateísmo prático. Quando se prescinde totalmente de Deus para elaborar uma teoria sobre o homem e o universo, temos um ateísmo teórico negativo. Quando se nega explicitamente sua existência, como fazem os materialistas, trata-se de um ateísmo teórico positivo. Esta última concepção, que nega não só a existência de Deus, mas a de qualquer realidade que não seja a meramente física, é aquela que em geral se associa ao conceito de ateísmo, e portanto constitui a melhor referência para assinalar as diferenças entre essa e outras doutrinas filosóficas.
Ateísmo e outras posturas filosóficas e religiosas. Em primeiro lugar, é preciso distinguir o ateísmo de outras duas doutrinas que freqüentemente se confundem com ele: o agnosticismo e o ceticismo. Alguns pensadores não negam nem afirmam a existência de Deus, mas consideram que não é possível chegar a nenhuma conclusão sobre o tema. Esses pensadores são denominados agnósticos, e entre eles se podem incluir os positivistas, que só afirmam aquilo que é objeto da experiência. Outros -- os céticos -- negam a possibilidade de se conhecer qualquer verdade e, por conseguinte, a possibilidade de se conhecer a existência de Deus. Desta forma, o ateu se diferencia do agnóstico no sentido de que não admite sequer a mera possibilidade da existência de Deus, e do cético pelo fato de admitir a possibilidade de conhecimento, embora negue Deus.
Por outro lado, as doutrinas que afirmam a existência de Deus originaram três posturas básicas: o teísmo, característico das religiões monoteístas, afirma a existência de um Deus único, pessoal e transcendente; o panteísmo identifica Deus com o universo; o deísmo crê em um Deus que criou o mundo e lhe deu leis, mas que não intervém nos acontecimentos posteriores à criação, e do qual não é possível conhecer coisa alguma. Panteístas e deístas, contudo, foram freqüentemente acusados de ateísmo pelos teístas.
Ateísmo e panteísmo, é certo, compartilham a idéia da inexistência de um Deus transcendente. Mas o panteísmo, em sua variante mais comum, não tende a definir a natureza do universo, nem considera que sua natureza última tenha que ser necessariamente material, e até freqüentemente lhe atribui um caráter espiritual. Nesse sentido, portanto, o ateísmo e o panteísmo diferem; mas não é menos certo que, do ponto de vista teísta, a assimilação dos dois se justifica, uma vez que ambos rejeitam a noção de um Deus pessoal criador do mundo. Parece muito menos lógico que possam ser considerados ateus os deístas, que admitem explicitamente a existência de um Deus supremo conhecido pela razão, embora prescindam de qualquer elemento sobrenatural e neguem sua comunicação com os homens.
Possibilidade de um ateísmo religioso. Logo depois da segunda guerra mundial surgiu entre os protestantes um movimento religioso denominado "teólogos da morte de Deus" -- ou ainda cristãos ateus -- que pretendeu depurar a idéia de Deus daquilo que consideravam aderências culturais espúrias, dos temores que turvavam a busca do verdadeiro Deus. Para esses pensadores, como o suíço Karl Barth, o teísmo corre o risco de crer que apreendeu o infinito, que expressou o inefável; isto é, por pouco deixa de converter Deus em um ídolo. Ao precisar com inflexibilidade lógica sua linguagem sobre Deus, destrói seu mistério, coisifica Deus. O ateísmo, ao contrário, quando rejeita como incompreensível o conceito de infinito, devolve-lhe sua carga de mistério. Dessa forma, seria preciso destruir o Deus metafísico para facilitar a busca do Deus vivo: as atitudes de autêntico amor -- descobertas por alguns deles nos campos de concentração -- são um veículo de comunicação melhor do que os conceitos.
O conceito de ateísmo, em suma, só adquire significado cabal na medida em que é confrontado com uma determinada doutrina e um conceito específico de divindade. Finalmente, ante a impossibilidade de se precisar um conceito da divindade comum a todas as religiões, as posturas não relacionadas estritamente com a existência ou inexistência de uma realidade superior -- por exemplo, a descrença na imortalidade pessoal -- costumam levar à qualificação de uma pessoa como atéia.
Fonte: Barsa.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

SOCIALISMO

O sonho de uma sociedade igualitária, na qual todos tenham franco acesso à distribuição e à produção de riquezas, alimenta os ideais socialistas desde seu nascimento, no século XVIII, na sociedade que brotou da revolução industrial e dos anseios de "liberdade, igualdade e fraternidade" expressos pela revolução francesa.
Socialismo é a denominação genérica de um conjunto de teorias socioeconômicas, ideologias e práticas políticas que postulam a abolição das desigualdades entre as classes sociais. Incluem-se nessa denominação desde o socialismo utópico e a social-democracia até o comunismo e o anarquismo.
As múltiplas variantes de socialismo partilham uma base comum que é a transformação do ordenamento jurídico e econômico, baseado na propriedade privada dos meios de produção, numa nova e diferente ordem social. Para caracterizar uma sociedade socialista, é necessário que estejam presentes os seguintes elementos fundamentais: limitação do direito à propriedade privada, controle dos principais recursos econômicos pelas classes trabalhadoras e a intervenção dos poderes públicos na gestão desses recursos econômicos, com a finalidade de promover a igualdade social, política e jurídica. Para muitos teóricos socialistas contemporâneos, é fundamental também que o socialismo se implante pela vontade livremente expressa de todos os cidadãos, mediante práticas democráticas.
A revolução industrial iniciada na Grã-Bretanha na segunda metade do século XVIII estabeleceu um novo tipo de sociedade dividida em duas classes fundamentais sobre as quais se sustentava o sistema econômico capitalista: a burguesia e o proletariado. A burguesia, formada pelos proprietários dos meios de produção, conquistou o poder político primeiro na França, com a revolução de 1789, e depois em vários países. O poder econômico da burguesia se afirmou com base nos princípios do liberalismo: liberdade econômica, propriedade privada e igualdade perante a lei. A grande massa da população proletária, no entanto, permaneceu inicialmente excluída do cenário político. Logo ficou claro que a igualdade jurídica não era suficiente para equilibrar uma situação de profunda desigualdade econômica e social, na qual uma classe reduzida, a burguesia, possuía os meios de produção enquanto a maioria da população era impedida de conquistar a propriedade.
As diferentes teorias socialistas surgiram como reação contra esse quadro, com a proposta de buscar uma nova harmonia social por meio de drásticas mudanças, como a transferência dos meios de produção de uma única classe para toda a coletividade. Uma conseqüência dessa transformação seria o fim do trabalho assalariado e a substituição da liberdade de ação econômica dos proprietários por uma gestão socializada ou planejada, com o objetivo de adequar a produção econômica às necessidades da população, ao invés de se reger por critérios de lucro. Tais mudanças exigiriam necessariamente uma transformação radical do sistema político. Alguns teóricos postularam a revolução violenta como único meio de alcançar a nova sociedade. Outros, como os social-democratas, consideraram que as transformações políticas deveriam se realizar de forma progressiva, sem ruptura do regime democrático, e dentro do sistema da economia capitalista ou de mercado.
Precursores e socialistas utópicos. Embora o socialismo seja um fenômeno específico da era industrial, distinguem-se precursores da luta pela emancipação social e igualdade em várias doutrinas e movimentos sociais do passado. Assim, as teorias de Platão em A república, as utopias renascentistas, como a de Thomas More, as rebeliões de escravos na Roma antiga, como a que foi liderada por Espártaco, o cristianismo comunitário primitivo e os movimentos camponeses da Idade Média e dos séculos XVI e XVII, como o dos seguidores de Jan Hus, são freqüentemente mencionados como antecedentes da luta pela igualdade social. Esse movimento começou a ser chamado de socialismo apenas no século XIX.
O primeiro precursor autêntico do socialismo moderno foi o revolucionário francês François-Noël Babeuf, que, inspirado nas idéias de Jean-Jacques Rousseau, tentou em 1796 subverter a nova ordem burguesa na França, por meio de um levante popular. Foi preso e condenado à morte na guilhotina.
A crescente degradação das condições de vida da classe operária motivou o surgimento dos diversos teóricos do chamado socialismo utópico, alguns dos quais tentaram, sem sucesso, criar comunidades e unidades econômicas baseadas em princípios socialistas de inspiração humanitária e religiosa.
Claude-Henri de Rouvroy, conde de Saint-Simon, afirmou que a aplicação do conhecimento científico e tecnológico à indústria inauguraria uma nova sociedade semelhante a uma fábrica gigantesca, na qual a exploração do homem pelo homem seria substituída pela administração coletiva. Considerava a propriedade privada incompatível com o novo sistema industrial, mas admitia certa desigualdade entre as classes e defendia uma reforma do cristianismo como forma de atingir a sociedade perfeita.
Outro teórico francês importante foi François-Marie-Charles Fourier, que tentou acabar com a coerção, a exploração e a monotonia do trabalho por meio da criação de falanstérios, pequenas comunidades igualitárias que não chegaram a prosperar. Da mesma forma, fracassaram as comunidades fundadas pelo socialista escocês Robert Owen.
Marxismo e anarquismo. O papel do proletariado como força revolucionária foi reconhecido pela primeira vez por Louis-Auguste Blanqui e Moses Hess. Na metade do século XIX, separaram-se as duas vertentes do movimento socialista que polarizaram as discussões ideológicas: o marxismo e o anarquismo. Ao mesmo tempo, o movimento operário começava a adquirir força no Reino Unido, França e em outros países onde a industrialização progredia.
Contra as formas utópicas, humanitárias ou religiosas do socialismo, Karl Marx e Friedrich Engels propuseram o estabelecimento de bases científicas para a transformação da sociedade: o mundo nunca seria modificado somente por idéias e sentimentos generosos, mas sim por ação da história, movida pela luta de classes. Com base numa síntese entre a filosofia de Hegel, a economia clássica britânica e o socialismo francês, defenderam o uso da violência como único meio de estabelecer a ditadura do proletariado e assim atingir uma sociedade justa, igualitária e solidária. No Manifesto comunista, de 1848, os dois autores apresentaram o materialismo dialético com o qual diagnosticavam a decadência inevitável do sistema capitalista e prognosticavam a inexorável marcha dos acontecimentos rumo à revolução socialista.
As tendências anarquistas surgiram das graves dissensões internas da Associação Internacional dos Trabalhadores, ou I Internacional, fundada por Marx. Grupos pequeno-burgueses liderados por Pierre-Joseph Proudhon e anarquistas seguidores de Mikhail Bakunin não aceitaram a autoridade centralizadora de Marx. Dividida, a I Internacional dissolveu-se em 1872, após o fracasso da Comuna de Paris, primeira tentativa revolucionária de implantação do socialismo.
O anarquismo contou com diversos teóricos de diferentes tendências, mas nunca se converteu num corpo dogmático de idéias, como o de Marx. Proudhon combateu o conceito de propriedade privada e afirmou que os bens adquiridos mediante a exploração da força de trabalho constituíam um roubo. Bakunin negou os próprios fundamentos do estado e da religião e criticou o autoritarismo do pensamento marxista. Piotr Kropotkin via na dissolução das instituições opressoras e na solidariedade o caminho para o que chamou de comunismo libertário.
II Internacional e a social-democracia. Depois da dissolução da I Internacional, os socialistas começaram a buscar vias legais para sua atuação política. Com base no incipiente movimento sindicalista de Berlim e da Saxônia, o pensador alemão Ferdinand Lassalle participou da fundação da União Geral Alemã de Operários, núcleo do que seria o primeiro dos partidos social-democratas que se espalharam depois por toda a Europa. Proibido em 1878, o Partido Social Democrata alemão suportou 12 anos de repressão e só voltou a disputar eleições em 1890. Em 1889, os partidos social-democratas europeus se reuniram para fundar a II Internacional Socialista. No ano seguinte, o 1º de maio foi proclamado dia internacional do trabalho, como parte da campanha pela jornada de oito horas.
Eduard Bernstein foi o principal ideólogo da corrente revisionista, que se opôs aos princípios marxistas do Programa de Erfurt adotado pelo Partido Social Democrata alemão em 1890. Bernstein repudiou os métodos revolucionários e negou a possibilidade da falência iminente do sistema capitalista prevista por Marx. O Partido Social Democrata alemão cresceu extraordinariamente com essa política revisionista, e em 1911 já era a maior força política do país. A ala marxista revolucionária do socialismo alemão, representada por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, manteve-se minoritária até a divisão em 1918, que deu origem ao Partido Comunista Alemão.
Na França, o socialismo também se desenvolveu entre duas tendências opostas: a marxista revolucionária de Jules Guesde e a idealista radical de Jean Jaurès, que rejeitava o materialismo histórico de Marx. Em 1905 as duas correntes se unificaram na Seção Francesa da Internacional Operária e entraram em conflito com a linha anarco-sindicalista de Georges Sorel e com os líderes parlamentares que defendiam alianças com partidos burgueses.
No Reino Unido, a orientação do movimento socialista foi ditada pela tradição do sindicalismo, mais antiga. Os sindicatos foram reconhecidos em 1875 e cinco anos depois surgiu o primeiro grupo de ideologia socialista, a Sociedade Fabiana. Em 1893, fundou-se o Partido Trabalhista, que logo se converteu em importante força política, em contraposição a conservadores e liberais.
Na Rússia czarista, o Partido Social Democrata foi fundado em 1898, na clandestinidade, mas dividiu-se em 1903 entre o setor marxista revolucionário, dos bolcheviques, e o setor moderado, dos mencheviques. Liderados por Vladimir Lenin, os bolcheviques chegaram ao poder com a revolução de 1917.
Os partidos socialistas e social-democratas europeus foram os maiores responsáveis pela conquista de importantes direitos para a classe dos trabalhadores, como a redução da jornada de trabalho, a melhoria nas condições de vida e de trabalho e o sufrágio universal. A II Internacional, no entanto, não resistiu à divisão promovida pela primeira guerra mundial e foi dissolvida. O Partido Social Democrata alemão, por exemplo, demonstrou dar mais importância ao nacionalismo do que aos interesses internacionalistas ao votar no Parlamento a favor dos créditos pedidos pelo governo para a guerra.
Dois fatores causaram a gradual redução do apoio popular ao socialismo nas décadas de 1920 e 1930: o sucesso da revolução russa, que fortaleceu o movimento comunista e atraiu numerosos trabalhadores em todo o mundo, e a implantação dos regimes fascista, na Itália, e nazista, na Alemanha. Em 1945, depois da segunda guerra mundial, os partidos socialistas e social-democratas restabeleceram a II Internacional e abandonaram progressivamente os princípios do marxismo. Em diversos países europeus, como Bélgica, Países Baixos, Suécia, Noruega, República Federal da Alemanha, Áustria, Reino Unido, França e Espanha, os partidos socialistas chegaram a ter grande força política. Muitos deles passaram a se alternar no poder com partidos conservadores e a pôr em prática reformas sociais moderadas. Essa política tornou-se conhecida como welfare state, o estado de bem-estar, no qual as classes podem coexistir em harmonia e sem graves distorções sociais.
As idéias socialistas tiveram bastante aceitação em diversos países das áreas menos industrializadas do planeta. Na maioria dos casos, porém, o socialismo da periferia capitalista adotou práticas políticas muito afastadas do modelo europeu, com forte conteúdo nacionalista. Em alguns países árabes e africanos, os socialistas chegaram mesmo a se aliar a governos militares ou totalitários que adotavam um discurso nacionalista. Na América Latina, o movimento ganhou dimensão maior com a vitória da revolução de Cuba em 1959, mas o exemplo não se repetiu em outros países. No Chile, um violento golpe militar derrubou o governo socialista democrático de Salvador Allende em 1973.
Fim do "socialismo real". Na última década do século XX chegou ao fim, de forma inesperada, abrupta e inexorável, o modelo socialista criado pela União Soviética. O próprio país, herdeiro do antigo império russo, deixou de existir. Nos anos que se seguiram, cientistas políticos das mais diversas tendências se dedicaram a estudar as causas e conseqüências de um fato histórico e político de tanta relevância. Dentre os fatores explicativos do fim do chamado "socialismo real" da União Soviética destacam-se a incapacidade do país de acompanhar a revolução tecnológica contemporânea, especialmente na área da informática, a ausência de práticas democráticas e a frustração das expectativas de progresso material da população. As explicações sobre o colapso da União Soviética abrangem os demais países do leste europeu que, apesar de suas especificidades, partilharam das mesmas carências.
A crise econômica mundial das duas últimas décadas do século XX, que teve papel preponderante no colapso da União Soviética, afetou também os países europeus de governo socialista ou social-democrata. Na França, Suécia, Itália e Espanha os partidos socialistas e social-democratas foram responsabilizados pelo aumento do desemprego e do custo de vida. Políticos e ideólogos neoliberais conservadores apressaram-se em declarar a morte do socialismo, enquanto os líderes socialistas tentavam redefinir suas linhas de atuação e encontrar caminhos alternativos para a execução das idéias socialistas e a preservação do estado de bem-estar social.
Socialismo no Brasil. Há evidências documentais de difusão de idéias socialistas no Brasil desde a primeira metade do século XIX. Essas posições, porém, se manifestavam sempre a partir de iniciativas individuais, sem agregar grupos capazes de formar associações com militância política.
O primeiro partido socialista brasileiro foi fundado em 1902, em São Paulo, sob a direção do imigrante italiano Alcebíades Bertollotti, que dirigia o jornal Avanti, vinculado ao Partido Socialista Italiano. No mesmo ano, fundou-se no Rio de Janeiro o Partido Socialista Coletivista, dirigido por Vicente de Sousa, professor do Colégio Pedro II, e Gustavo Lacerda, jornalista e fundador da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Em 1906, foi criado o Partido Operário Independente, que chegou a fundar uma universidade popular, com a participação de Rocha Pombo, Manuel Bonfim, Pedro do Couto, Elísio de Carvalho, Domingos Ribeiro Filho, Frota Pessoa e José Veríssimo.
A circulação de idéias socialistas aumentou com a primeira guerra mundial, mas ainda era grande o isolamento dos grupos de esquerda. Em junho de 1916, Francisco Vieira da Silva, Toledo de Loiola, Alonso Costa e Mariano Garcia lançaram o manifesto do Partido Socialista Brasileiro. Em 1º de maio do ano seguinte, lançava-se o manifesto do Partido Socialista do Brasil, assinado por Nestor Peixoto de Oliveira, Isaac Izeckson e Murilo Araújo. Esse grupo defendeu a candidatura de Evaristo de Morais à Câmara dos Deputados e publicou dois jornais, Folha Nova e Tempos Novos, ambos de vida efêmera.
Em dezembro de 1919 surgiu no Rio de Janeiro a Liga Socialista, cujos membros passaram a publicar em 1921 a revista Clarté, com o apoio de Evaristo de Morais, Maurício de Lacerda, Nicanor do Nascimento, Agripino Nazaré, Leônidas de Resende, Pontes de Miranda e outros. O grupo estenderia sua influência a São Paulo, com Nereu Rangel Pestana, e a Recife, com Joaquim Pimenta. Em 1925 foi fundado um novo Partido Socialista do Brasil, também integrado pelo grupo de Evaristo de Morais.
A fundação do Partido Comunista Brasileiro, em 1922, e seu rápido crescimento sufocaram as dezenas de organizações anarquistas que na década anterior chegaram a realizar greves importantes. Pouco antes da revolução de 1930, Maurício de Lacerda organizou a Frente Unida das Esquerdas, de vida curta. Uma de suas finalidades foi a redação de um projeto de constituição socialista para o Brasil.
Proibida a atividade político-partidária durante a ditadura Vargas, o socialismo voltou a se desenvolver em 1945, com a criação da Esquerda Democrática, que em agosto de 1947 foi registrada na justiça eleitoral com o nome de Partido Socialista Brasileiro. Foi presidido por João Mangabeira, que se tornou ministro da Justiça na primeira metade da década de 1960, no governo de João Goulart.
Com o golpe militar de 1964, todos os partidos políticos foram dissolvidos e as organizações socialistas puderam atuar apenas na clandestinidade. A criação do bipartidarismo em 1965 permitiu que os políticos de esquerda moderada se abrigassem na legenda do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição consentida ao regime militar, ao lado de conservadores e liberais.
Na segunda metade da década de 1960 e ao longo da década de 1970, os socialistas, ao lado de outros setores de oposição ao regime militar, sofreram implacável perseguição. Professavam idéias socialistas a imensa maioria dos militantes de organizações armadas que deram combate ao regime militar. O lento processo de redemocratização iniciado pelo general Ernesto Geisel na segunda metade da década de 1970 deu seus primeiros frutos na década seguinte, quando os partidos socialistas puderam mais uma vez se organizar livremente e apresentar seus próprios candidatos a cargos eletivos.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

HISTÓRIA DO CHILE

A palavra aimará chili, que significa "confins da Terra", deu nome à república sul-americana do Chile, que se encontra praticamente isolada do resto do continente pela grande muralha dos Andes.
A República do Chile é formada por uma estreita e longa faixa de terra compreendida entre a cordilheira dos Andes e o oceano Pacífico. Seus 756.626km2 se estendem ao longo de 39 graus de latitude, na parte meridional da América do Sul. Limita-se ao norte com o Peru, ao nordeste com a Bolívia, a leste com a Bolívia e a Argentina, e a oeste com o oceano Pacífico. Além do território continental, o Chile possui várias ilhas costeiras (Chiloé, Wellington, Hanover, Santa Inês etc), a metade ocidental da Terra do Fogo, o arquipélago Juan Fernández e as ilhas polinésias de Páscoa, San Félix, San Ambrosio, Sala e Gómez, as ilhas situadas ao sul do canal de Beagle e outras. Além disso, reclama o território da Antártica localizado entre 53'' e 90'' de longitude oeste.
História
Antes da chegada dos espanhóis, o território chileno era habitado por cerca de 500.000 índios. Embora os diversos povos tivessem entre si relação étnica e lingüística, as tribos do norte (atacamenhos e diaguitas) apresentavam maior desenvolvimento cultural, devido ao contato que mantinham com o império inca. Ao sul do rio Bío-Bío viviam os indomáveis araucanos, que resistiram durante séculos à colonização.
Conquista espanhola. Em 1520, Fernão de Magalhães avistou as terras chilenas durante sua viagem de circunavegação. Diego de Almagro, colaborador de Francisco Pizarro, obteve autorização de Carlos V (I de Espanha), para dirigir-se ao sul, em busca do "outro Peru". Sua primeira expedição regressou decepcionada por não ter encontrado metais preciosos. Em 1540, depois da morte de Almagro, Pedro de Valdivia, à frente de 150 espanhóis, deu início à colonização da região. Em 1541 fundou Santiago, depois de ter tomado posse do território de Nueva Extremadura (Copiapó). A vida na nova colônia foi muito difícil, devido à resistência dos índios.
Em 1550, pacificada a região, Valdivia prosseguiu sua marcha em direção ao sul. Nesse mesmo ano fundou a cidade de Concepción. Três anos depois, o avanço foi impedido pela oposição dos araucanos, que, liderados pelo cacique Lautaro, capturaram e mataram Valdivia. Começava assim uma sangrenta guerra que se prolongaria até o final do século XIX, quando os índios foram definitivamente subjugados. Apesar dessas dificuldades, a colonização não se deteve. No final da década de 1550, durante o governo de García Hurtado de Mendoza, terminou a conquista do território chileno até o limite meridional do rio Bío-Bío. Nos últimos anos do século XVI, a costa chilena foi saqueada por piratas como Francis Drake, que, protegidos pela coroa britânica, tentavam romper o monopólio comercial do império espanhol.
Período colonial. A falta de metais preciosos obrigou os colonizadores a se dedicarem à agricultura. Dentro do império, o Chile era uma colônia pobre, sem recursos minerais e nem mesmo comércio, e por isso a coroa tinha de destinar-lhe recursos econômicos para manutenção do governo e do exército. Essa ausência de atrativos explica que, no final do século XVI, não houvesse mais que cinco mil espanhóis na colônia.
Administrativamente, o Chile fazia parte do vice-reino do Peru. Dentro da colônia, o capitão-geral detinha o poder absoluto sobre a população, embora, teoricamente, fosse possível apelar ao vice-rei ou ao rei da Espanha.
Da mesma forma que em outras partes do império espanhol na América, no Chile ocorreu intensa mistura de índios com brancos, o que explica a homogeneidade étnica de sua população. Ao final do período colonial, havia uns 300.000 mestiços, 175.000 brancos (espanhóis e crioulos) e 25.000 negros, na maioria escravos. A estrutura social se apoiava na divisão racial: os espanhóis e crioulos ocupavam os postos mais importantes; mais abaixo estavam os mestiços e índios; e os trabalhos mais duros eram destinados aos negros.
A população se concentrou no denominado "berço da nação chilena", ao longo do vale do Aconcágua, e entre Santiago e Concepción. Nessas regiões praticava-se uma agricultura cerealista, com utilização de mão-de-obra indígena. Os morgadios, concedidos a membros da nobreza espanhola, foram  estabelecidos nas melhores terras do país, o que deu origem à posterior estrutura da propriedade fundiária. A colônia viveu muito isolada do resto do império; o primeiro jornal foi fundado pouco antes da independência, assim como a Real e Pontifícia Universidade de San Felipe, em Santiago.
Luta pela independência. Apesar do isolamento em que vivia a colônia, os acontecimentos do final do século XVIII e princípio do XIX favoreceram a formação de uma consciência nacional. Dentre esses acontecimentos destacam-se a independência das colônias anglo-americanas e do Haiti, a revolução francesa e o enfraquecimento da metrópole, que se revelou na invasão britânica do vice-reino da Prata, a intensificação do contrabando comercial e a ocupação da Espanha pelas tropas napoleônicas.
Em 1810, depois de reunir-se em Santiago um cabildo aberto constituído pelos representantes dos grupos privilegiados, formou-se um governo provisório composto por líderes locais. Entre 1810 e 1813, esse governo realizou importantes reformas, como a proclamação da liberdade comercial e o estímulo à educação. Entretanto, logo surgiram dissensões entre os crioulos com relação à extensão das reformas. Enquanto isso, a Espanha, que em 1813 expulsara os franceses de seu território, deu início à recuperação do controle sobre as colônias. Em outubro de 1814, depois da derrota dos patriotas em Rancagua, o Chile retornou ao domínio espanhol.
Os líderes da independência tiveram que se exilar. Na Argentina, Bernardo O'Higgins conseguiu o apoio de José de San Martín, que, ajudado pelo governo revolucionário de Buenos Aires, estava recrutando um exército para libertar o cone sul hispano-americano. Além disso, no interior do país crescia o descontentamento com o governo da colônia. Em janeiro de 1817, aproveitando o clima interno adverso, San Martín e O'Higgins atravessaram os Andes e, em 12 de fevereiro, derrotaram os realistas em Chacabuco. San Martín renunciou ao poder e O'Higgins se transformou no chefe supremo do novo país.
Em fevereiro de 1818, foi proclamada a independência e, em abril, depois da batalha de Maipú, os espanhóis abandonaram o país, embora ainda tenham permanecido na ilha de Chiloé até 1826.
O Chile tinha conseguido a independência, mas não a paz. Os crioulos estavam divididos entre os partidários de José Miguel Carrera (que estivera no poder entre 1811 e 1813), e os de O'Higgins. A partir de 1822, com a saída dos espanhóis do Peru e o afastamento da possibilidade de uma invasão realista, intensificou-se a oposição a O'Higgins, que culminou com seu afastamento do poder um ano depois. Entre 1823 e 1830, a política chilena esteve dominada pela luta entre diversas facções para conquistar o poder. Esse fato redundou na existência de trinta governos em sete anos. O caos político terminou em 1829, quando os conservadores, com o apoio de parte do Exército, nomearam uma junta presidida por José Tomás de Ovalle, embora o poder tenha sido exercido de fato por Diego Portales.
Governo conservador. A partir de 1830, a oligarquia crioula dominou o país. A constituição de 1883, promovida por Diego Portales, criou um sistema político centralizado, que atendia aos interesses dos proprietários de terras. O governo se viu fortalecido depois da vitória na guerra contra a confederação peruano-boliviana (1836-1839).
Os governos de Joaquín Prieto (1831-1841), Manuel Bulnes (1841-1851) e Manuel Montt (1851-1861) esforçaram-se por melhorar a situação econômica e, sobretudo, sanear as finanças, exauridas depois de anos de guerra. A primeira medida para aumentar os recursos foi abrir o Chile ao comércio internacional: Valparaíso se transformou em porto livre, para atrair os comerciantes estrangeiros. A boa conjuntura favoreceu a expansão econômica, que abrangeu a exportação de cereais para as zonas auríferas da Califórnia e da Austrália, e o aumento da produção de prata e cobre, que era absorvida pela Europa.
A estabilidade política e a prosperidade econômica permitiram que tivesse início a modernização do país, impulsionada pela construção de estradas de ferro e criação de universidades. O progresso econômico, porém, foi acompanhado de uma autêntica desnacionalização das riquezas. Tanto o controle do comércio como a exploração das minas passaram para mãos britânicas, francesas, alemãs e americanas, devido ao pouco interesse da oligarquia chilena por qualquer atividade econômica além da compra de terras.
Como conseqüência do desenvolvimento econômico, surgiu uma nova classe, a burguesia nacional, que tentou participar da vida política. A resistência dos proprietários de terras à divisão do poder levou as classes médias a lançar mão da via insurreicional, com um frustrado golpe de estado em 1851. Ao mesmo tempo, o liberalismo começou a ganhar terreno entre os jovens integrantes da oligarquia e os grupos políticos de classe média.
Etapa liberal. As dissensões entre os conservadores e a oposição liberal contra o presidente Montt permitiram a chegada ao poder de José Joaquín Pérez, que governou entre 1861 e 1871. Em 1872, no entanto, rompeu-se a unidade dos liberais devido à política laicista do governo, que se plasmou nas leis de liberdade religiosa e de educação. Começou então um período de secularização e de abertura para o exterior que pôs fim ao isolamento chileno e se expressou na influência da cultura européia no país.
No campo econômico, o incremento das importações e a avultada dívida adquirida com a construção da infra-estrutura viária provocaram um alto déficit comercial. A necessidade de equilibrar a balança de pagamentos levou o governo a interessar-se pelas minas de salitre: as da fronteira norte, as da província boliviana de Antofagasta e as de Arica e Tarapacá, no Peru. O Chile começou a chamada guerra do Pacífico (1879-1884) e a vitória sobre a coalizão peruano-boliviana permitiu a anexação daqueles territórios. A conquista provocou, porém, atritos com as companhias britânicas e francesas, que eram as proprietárias virtuais das minas de salitre.
A introdução de colonos europeus no sul do país, a partir de meados do século, provocou o recrudescimento das hostilidades com os índios araucanos, que mantinham o limite de seu território no rio Bío-Bío. O uso do fuzil de repetição pelo Exército chileno nas campanhas militares de 1882 e 1883 precipitou a derrota dos índios.
As guerras pioraram a situação da fazenda pública. O presidente José Manuel Balmaceda (1886-1891) exigiu os lucros das minas para o estado, o que provocou a reação contrária da oligarquia econômica, que não desejava um poder central muito forte. A divisão da classe dirigente levou a uma curta guerra civil, que culminou com a renúncia de Balmaceda.
República parlamentar. Depois do governo de Balmaceda, o Chile deixou de ser uma república presidencialista e se transformou em república parlamentarista. No novo sistema político, a oligarquia agrária e financeira exerceu o poder através do controle do Parlamento.
À luz da nova legislação surgiram partidos, como o Socialista e o Radical, que defendiam os interesses das classes sociais (operários, funcionários) surgidas em conseqüência do desenvolvimento da burocracia, da mineração, grandes empresas de gás, eletricidade e estradas de ferro. Esses partidos organizaram movimentos grevistas em prol de reformas sociais. A instabilidade política e social acentuou a depressão econômica num momento em que a produção agrária mal abastecia o mercado nacional, pois a produtividade era muito baixa devido à ausência de capitalização, e a indústria definhava por falta de investimentos.
Período de instabilidade política: 1920-1938. A crise econômica gerou grande descontentamento entre as classes populares e a classe média, ao mesmo tempo que a oligarquia, cujo poder político estava muito desgastado, era incapaz de acabar com o clima de agitação.
Em 1924, os militares, apoiados pela classe média, forçaram a demissão de Arturo Alessandri, que reconduziram ao poder um ano depois. Alessandri promoveu então uma nova constituição, promulgada em 1925, e que estabelecia um regime presidencialista cujo objetivo principal era limitar o controle da vida política exercido pelos grupos sociais mais poderosos por meio do Parlamento. Além disso, previa-se a limitação do direito de propriedade, em função dos interesses do estado. O caos político continuou (entre 1924 e 1932 sucederam-se 21 gabinetes ministeriais), embora de 1927 a 1931 o governo do coronel Carlos Ibáñez del Campo tenha posto em prática várias medidas econômicas (apoio à indústria, nacionalização parcial da mineração), que se viram limitadas pela oposição dos grupos conservadores. A depressão econômica acentuou-se depois da crise internacional de 1929, que teve efeitos catastróficos para o Chile, com a queda do preço e da demanda internacional de suas matérias-primas e a suspensão dos empréstimos dos Estados Unidos.
As classes médias e populares, as mais atingidas pela crise, se mobilizaram. A resposta de Ibáñez del Campo foi a criação de um estado corporativista inspirado no fascismo italiano. Em 1931, o fracasso dessa experiência provocou a volta ao regime civil com Juan Esteban Montero Rodríguez, substituído por uma curta coligação político-militar que transformou o Chile em república socialista entre junho e setembro de 1932. No final deste mesmo ano, superada a fase mais aguda da depressão econômica, Alessandri ganhou as eleições e voltou à presidência do país.
O novo governo de Alessandri, de 1932 a 1938, caracterizou-se pelo respeito às instituições constitucionais, pela estabilidade política e pelas medidas tomadas para superar a crise econômica (subvenções à indústria, criação de um banco central e desenvolvimento do setor público para diminuir o desemprego).
Os radicais no poder. O descontentamento dos trabalhadores e da classe média com o governo Alessandri traduziu-se no apoio dado ao Partido Radical, que alcançou a vitória na eleição de 1938.
Entre 1938 e 1946, governaram o país os presidentes Pedro Aguirre Cerda e Juan Antonio Ríos. Cerda chegou ao poder em 1938, como candidato de uma coalizão de esquerda, frente popular composta pelos partidos Radical, Socialista e Comunista. Realizou importantes reformas, sobretudo no setor industrial, em que fomentou a produção nacional (criação em 1939 da Corporação de Fomento da Produção) e limitou as importações. Todavia, a falta de uma maioria parlamentar suficiente paralisou muitas leis reformistas elaboradas pelo governo. Os mandatos de Cerda e Ríos foram beneficiados pela conjuntura econômica da segunda guerra mundial, que permitiu a multiplicação das exportações com o crescimento inesperado da demanda européia.
Entre 1946 e 1952, o presidente do Chile foi o radical Gabriel González Videla, que chegou ao poder por meio de uma coligação com os comunistas (de que não participaram os socialistas). A partir de 1948, porém, a conjuntura internacional da guerra fria levou González Videla a romper seus compromissos com os comunistas e a aliar-se a conservadores e liberais.
O governo de González Videla permitiu o aumento da penetração americana na economia chilena (empréstimos, controle da mineração). Os americanos se transformaram nos maiores fornecedores do país, desfazendo a hegemonia de britânicos e franceses. Além disso, durante o mandato de González Videla, a direita recuperou sua força eleitoral sobre a esquerda, que perdeu votos nas eleições seguintes.
Durante os quatorze anos de governo radical, verificou-se acentuado desenvolvimento industrial e aumento da percentagem de população urbana, que em 1952 chegou a sessenta por cento.
Período de estagnação: 1952-1964. A vitória eleitoral do antigo ditador, Ibáñez del Campo, pode ser explicada pela decepção da classe média com os radicais, que não conseguiram aumentar a influência política desse grupo social, devido ao empobrecimento das classes populares e à crescente dependência dos Estados Unidos. Ibáñez governou em coalizão com a ala direita do Partido Socialista e com vários grupos conservadores. Durante seu mandato presidencial, surgiu na cena pública chilena um novo tipo de político até então desconhecido, o populista.
Em 1958, Ibáñez foi sucedido no poder pelo filho de Arturo Alessandri, Jorge Alessandri, que governou com o apoio de conservadores e liberais. Teve alguns êxitos no campo econômico: reduziu o desemprego e a inflação, favoreceu o desenvolvimento industrial. A política de contenção salarial, porém, opôs o governo aos trabalhadores e à classe média.
O descontentamento popular favoreceu o fortalecimento dos partidos de esquerda (socialistas e comunistas) e da democracia cristã, partido reformista de centro fundado em 1957, que pretendia acabar com o tradicional poder social e político da direita por meio de reformas econômicas, sobretudo no setor agrário.
O governo democrata-cristão e a experiência socialista. Nas eleições de 1964, a esquerda se apresentou dividida e o Partido Democrata Cristão conseguiu uma arrasadora vitória eleitoral. Com o lema de "revolução em liberdade", Eduardo Frei Montalva tornou-se o novo presidente do país. Elaborou um programa de "chilenização" que contou com o apoio da classe média. Sua realização mais importante foi a reforma agrária, iniciada em 1967, que expropriou, mediante indenização, as terras não-cultivadas e limitou as propriedades a oitenta hectares. Em 1970, já haviam sido expropriados cerca de 200.000 hectares. A política reformista dos democratas-cristãos aumentou a expectativa de melhorias sociais entre as classes populares. Os trabalhadores começaram a participar ativamente na política e foram-se inclinando cada vez mais para a esquerda.
Em 1969 foi criada uma coligação de esquerda com vista às eleições presidenciais. Compunha essa nova formação, a Unidade Popular, socialistas, comunistas e pequenos grupos da esquerda marxista e não-marxista. Um ano depois o socialista Salvador Allende, candidato da Unidade Popular, foi eleito presidente da república.
O programa da Unidade Popular pretendia fazer a transição pacífica para o socialismo, mantendo o sistema democrático. Para conseguir esses objetivos, o governo acreditava ser necessário acabar com o poder político e econômico dos bancos, nacionalizar as empresas em mãos de estrangeiros, desenvolver a reforma agrária e redistribuir a riqueza em favor das classes mais desfavorecidas. Com esse programa de mudança social, o governo de Allende aumentou seu apoio popular nas eleições municipais e legislativas de 1971 e 1972.
A partir de 1971, no entanto, diminuiu o apoio a Allende por parte da classe média, descontente com as dificuldades econômicas provocadas pelas nacionalizações (minas de cobre e indústrias básicas) e pelo boicote do capital estrangeiro, sobretudo dos Estados Unidos. O aparecimento de forte inflação e a estagnação econômica permitiram o reagrupamento das forças contrárias à experiência socialista. O governo de Allende, perseguindo seu objetivo de implantar o socialismo, entrou em conflito freqüente com outros órgãos do poder, como o judiciário e os tribunais de contas, enquanto ocorriam ocupações ilegais de fábricas e propriedades. A direita, representada pelo Partido Nacional, e os centristas democratas-cristãos, uniram seus esforços antigovernamentais e buscaram o apoio dos militares.
Governo militar. Em 11 de setembro de 1973, as forças armadas tomaram o poder. O golpe militar contou com o apoio das classes média e alta, ao passo que o Partido Democrata Cristão permaneceu neutro. Salvador Allende, sitiado no palácio de La Moneda, não se rendeu e foi morto durante o bombardeio e invasão do palácio.
A junta militar, presidida pelo general Augusto Pinochet, comandante do Exército, reverteu as políticas de Allende e aplicou receitas monetaristas para estabilizar a economia e combater a inflação, ao mesmo tempo em que prescrevia as organizações políticas. O modelo econômico escolhido teve êxito, no início, ao controlar a inflação, mas a crise econômica internacional não permitiu que fossem superados seus efeitos negativos.
Em 1981, uma nova constituição prorrogou até 1989 o regime vigente, depois do que se retornaria ao governo civil. No entanto, a década de 1980 foi marcada por um endurecimento progressivo das posições dos adversários do regime e por oscilações na política oficial, que às vezes procurava obter apoio mediante uma abertura limitada e, em algumas ocasiões, ao não conseguir a resposta desejada, suspendia o diálogo.
O conflito com a Argentina pela posse de algumas ilhas do canal de Beagle foi resolvido por meio da arbitragem papal. Em 1987, Pinochet sobreviveu a um atentado. Em 1988, quando a economia se mostrava em franca recuperação, o governo perdeu um referendo que deveria manter Pinochet no poder até 1996. Em 1989 realizaram-se eleições gerais, quando foi escolhido o candidato da oposição, o civil Patricio Aylwin, que contou com o apoio de uma frente ampla de organizações políticas. No entanto, a presença dos militares e de Pinochet continuou a se fazer sentir. Em 1994 foi eleito presidente Eduardo Frei Ruiz-Tagle, filho de Eduardo Frei.
Fonte: Enciclopédia Barsa.