quarta-feira, 8 de agosto de 2012

CAIRO 678

País de ponta nas recentes rebeliões da Primavera Árabe, o Egito pouco exibe sua cinematografia no Brasil, muito menos no circuito comercial. Uma saudável exceção chega com o drama Cairo 678, que revela, ainda que de forma ficcional, parte da realidade urbana e social efervescente daquela nação, assim como um talentoso novo diretor, o estreante em longas Mohamed Diab. O filme foi premiado nos festivais de Chicago, Dubai e no Asia Screen Awards 2011. 
Com uma pegada semidocumental, Diab retrata o caótico trânsito do Cairo para desenvolver a história de três mulheres de diferentes formações e classes sociais, que foram vítimas de um problema recorrente – o abuso sexual.
Fayza (Boshra) é uma sacrificada funcionária pública, mãe de dois filhos e cujo marido, o policial Adel (Bassam Samra), desdobra-se em dois empregos para dar conta das despesas familiares. Diariamente, Fayza toma o ônibus que dá título ao filme, o 678, uma linha precária e disputada, em que os passageiros que conseguem embarcar viajam apertadíssimos, em veículos velhos, sujos e perigosos.
Para as mulheres, há outro problema crônico – diariamente, elas são bolinadas por homens, sem que ninguém tome providências. As poucas que ousam protestar são tratadas como histéricas, não raro tendo que completar seu trajeto a pé. É o que costuma fazer Fayza, que não consegue manter a mesma passividade que a maioria.
A ponto de explodir com esses abusos diários, Fayza ouve na televisão o anúncio de um curso de autodefesa feminina conduzido por Seba (Nelly Karim). Rica e culta, Seba não escapou ao abuso, sofrido numa comemoração da vitória da seleção egípcia de futebol, no meio da multidão, sem que o marido (Ahmed El Fishawy) pudesse defendê-la.
Pior ainda para Seba foi a atitude do marido, que se sentiu ferido em seu orgulho masculino, faltando com o apoio a ela, o que motivou a separação do casal. Desde então, Seba, uma designer de jóias, vive sozinha e dá palestras para estimular as mulheres a relatar os abusos e defender-se. O que, a princípio, atrai poucas interessadas.
Atendente de telemarketing que tenta tornar-se comediante stand up, Nelly (Nahed El Sebaï ) também foi vítima do ataque de um homem, testemunhado por sua mãe. As duas conseguiram imobilizá-lo e, junto com o noivo de Nelly, Omar (Omar El Saeed), levaram-no à delegacia, para uma inédita denúncia por assédio sexual. Lá são desestimulados pelo próprio policial e forçados a levar o agressor eles mesmos a outra delegacia, para finalmente registrarem a queixa que sustentará um processo.
Fica muito claro nos três casos que a vergonha pelo ataque recai sobre as vítimas, mais do que sobre os agressores, contribuindo para o silêncio das primeiras. Por querer levar adiante o processo, Nelly passa a ser pressionada pela família do noivo, depois pela sua própria, já que todos concordam que isso pode prejudicar seu futuro casamento.
As figuras masculinas do filme simbolizam diversas posturas. Enquanto o noivo de Nelly é francamente solidário com ela, o marido de Fayza sequer imagina o que a mulher passa no ônibus – e ainda a pressiona para satisfazê-lo sexualmente. Mas a figura masculina mais peculiar é o investigador Essam (Maged El Kedwany, ator premiado nos festivais de Chicago e Dubai em 2011).
Ao longo da investigação sobre os misteriosos ferimentos inflingidos a homens em ônibus – e que estão sendo causados por Fayza -, Essam incorpora de forma às vezes cômica, às vezes autoritária, uma ambiguidade que finalmente representa a própria negligência das autoridades em relação aos abusos machistas e uma das razões de sua impunidade.
Baseado em fatos reais e apesar do tom por vezes quase didático, o filme de Diab toma o pulso de uma sociedade em crise em que alguns, como a traumatizada Fayza, finalmente perderam a paciência e tomaram a justiça com as próprias mãos. Mas tem-se o cuidado de não perder de vista a luta cívica de Nelly, que insiste em cobrar da justiça uma atitude diante das agressões diárias às mulheres.
Neusa Barbosa


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