segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O RENASCIMENTO DO IMPÉRIO CHINA

A obra de Cláudia Trevisan é espetacular, equilibrada e completa. Um espetacular trabalho jornalístico. Sem dúvida alguma o melhor livro reportagem escrito nos últimos anos. Qualquer um que queira conhecer a China deve prestigiar esta obra.
O livro pode ser dividido em duas partes. Numa delas Claudia Trevisan dá um panorama social, político e econômico atual da China, não sem deixar de fazer referência à história recente do colosso asiático. Na outra ela conta suas experiências pessoais, possibilitando ao leitor que conheça as idiossincrasias de uma sociedade com características seculares e únicas.
Logo de início a escritora adverte que viver “...em Pequim ou Xangai nos dias de hoje não é muito diferente de viver em qualquer outra grande cidade de um país em desenvolvimento.Claro, desde que você encontre um mecanismo para vencer a barreira do idioma.”
Para quem procura entender o Brasil, um país que cresce lentamente e cada vez mais se torna complexo, tomar conhecimento do que ocorre na China pode ser bastante ilustrativo. A rapidez do crescimento econômico não eliminou, mas apenas aprofundou as contradições chinesas. “Na história recente, nunca um país mudou tanto em tão pouco tempo. Mas a trajetória rumo à modernidade é marcada por riscos, contradições crescentes e tensões entre os beneficiados e os excluídos da Nova China. Tradições milenares sobrevivem em um país cada vez mais cosmopolita, enquanto outras se dissolvem na violência da transformação. A rapidez da mudança cria um cenário no qual diferentes tempos históricos disputam um lugar ao sol no presente.”
A velocidade do crescimento econômico espantou Claudia Trevisan. Quando chegou a China, ela viu o “...início da terraplanagem de um megaimpreendimento...” “...um projeto de imobiliário de porte significativo, com dez prédios dispostos ao redor de uma praça particular.” Um ano depois oito dos edifícios já estavam recebendo acabamento e “...em poucas semanas poderiam começar a ser habitados.” Ao sair do Brasil, ficou assustada ao perceber que vários “...edifícios que estavam em construção meses antes de minha partida ainda estavam em obras e assim ficariam por um bom tempo.”
Segundo informações obtidas pela autora, a remuneração média dos operários chineses que trabalham na construção civil naquele país é algo entre US$ 50,00 e US$ 100,00, ou seja, quase um Salário Mínimo da era Lula. As condições de trabalho, remuneração e habitação dos operários da construção civil na China não são muito piores do que as de seus colegas brasileiros, de maneira que não dá para entender a choradeira dos nossos empreiteiros.
Claudia Trevisan adverte, entretanto, que a “...transformação atual é a segunda que Pequim enfrenta em menos de sessenta anos. Quando o Partido Comunista chegou ao poder, em 1949, a capital chinesa era uma cidade quase emdieval, circundada por um imenso muro construído durante a dinastia Ming (1368-1644). Mao Tsé-tung ordenou a destruição do muro, do qual restam alguns portões, e a construção de inúmeras fábricas no centro da cidade, para marcar o divórcio com o passado feudal do país e a chegada do novo ideal comunista. Hoje, as enormes fábricas estão sendo transferidas para a periferia, com o objetivo de reduzir a poluição e dar lugar aos infindáveis empreendimentos imobiliários.”
É importante notar que o comunismo não aboliu a família, que continua sendo “...o centro da vida social do país, no qual a devoção aos pais e o respeito aos mais velhos vêm sendo cultuados há mais de 2 mil anos pelos princípios do confucionismo.”
A exemplo do Brasil, em que a tecnologia de ponta das empresas de São Paulo está a algumas centenas de quilômetros das casas de pau-a-pique do Vale do Ribeira, a China também apresenta um desenvolvimento bastante desigual. “A nova China que aparece no Ocidente tem um endereço certo: ela é representada pela classe média que vive nas grandes cidades da costa leste do país, como Pequim, Xangai, Shenzhen, Nanquim ou Guangzhou. Essa região liderou o crescimento econômico nos últimos 27 anos e se distanciou do restando do país, especialmente das províncias pobres do oeste.”
A autora adverte, entretanto, que para “...para agravar a situação dos mais pobres, urbanos ou rurais, a China não possui uma rede de segurança social que se supõe existente em regimes comunistas. A maior parte da população tem de pagar por serviços de saúde, a aposentadoria é um benefício que existe para poucos e as universidades, mesmo as públicas, cobram mensalidades.” Nesse sentido, chegamos a conclusão de que o Brasil, com seu SUS, Universidades gratuitas e INSS (mesmo que capenga e pagando benefícios ridículos à maioria de aposentados e pensionistas) é mais socialista ou comunista do que a China.
Ao contrário do Brasil, a China cresce velozmente e de maneira sustentada há duas décadas. Este fenômeno gerou uma classe de abastados que cada vez mais consome produtos de luxo importados do Ocidente ou fabricados por empresas ocidentais na própria China. Entretanto, a jornalista nos adverte que fora “...do universo dos abastados, o consumo também cresce em progressão geométrica. O aumento da renda registrado nas últimas décadas permitiu que os chineses fixassem com mais dinheiro no bolso depois do atendimento das necessidades básicas de alimentação, moradia e transporte.” Assegura que a “...entrada de 1,3 bilhão de chineses no universo do consumo terá um impacto em todo o mundo, com o aumento das demanda do país pro energia e matérias-primas e da produção de lixo e gases poluentes.”
O sucesso da China pode ser associado à estranha combinação de liberalismo econômico com a ditadura do partido único. No centro da vida social, econômica, militar e política do colosso oriental, o Partido Comunista é uma verdadeira fábrica de consenso que não aceita qualquer oposição interna ou externa. Ainda hoje integrar “... os quadros do PCC é visto como um caminho seguro para ascensão social. Muitos estudantes se filiam para conseguir bons empregos, e empresários, para facilitar suas relações com os donos do poder.”
A vitalidade onipresente e repressiva do partido comunista é tamanha que mesmo “...nos meios acadêmicos, o discurso oficial predomina. Não é fácil encontrar um professor que se oponha à tese de que Taiwan é parte da China ou que seja favorável a independência do Tibete, por exemplo.” Cláudia Trevisan assegura que, entretanto, que ao “...contrário do que a descrição acima pode fazer supor, não se respira um ar de opressão política nas grandes cidades chinesas, para o que certamente contribui o espetacular crescimento econômico dos últimos 27 anos. Existe um razoável grau de empatia entre a população e o partido, muitos se declaram comunistas e a maioria parece não ver o PCC como um antagonista a ser combatido.”
Uma das estratégias da China para preservar um volume fantástico de exportações é “...a manutenção do yuan em um patamar que os concorrentes chineses consideram subvalorizado...” Além disto, a lista “...de atrativos chineses inclui juros baixos, que foram mantidos durante nove anos no mesmo patamar de 5,31% ao ano para financiamento de 12 meses.” Estamos tão acostumados ao discurso oficial de que a preservação de uma taxa de juros cavalar é o fundamento para tornar o Brasil atrativo ao capital externo que ficamos atordoados ao descobrir os fundamentos da economia chinesa. Na China há compatibilidade entre crescimento econômico com juros baixos. Aqui, só conseguimos compatibilizar taxas de juros elevadas com um crescimento ridículo. Deveríamos exportar nossos economistas e importar alguns especialistas chineses para ensinar economia aos nossos Ministros da Economia e Presidentes do Banco Central.
Desde que mudou de rota em 1978, a China se tornou um dos paises mais abertos ao comércio exterior. Segundo a autora a natureza dos produtos exportados pela China também sofreu uma revolução “...a participação de produtos primários caiu de 54% em 1978, para 7,9% em 2004, enquanto a de bens industrializados subiu de 46% para 92,1% no mesmo período. Ou seja, a China envia ao restante do mundo produtos de sofisticação cada vez maior, que tem preços mais elevados e requerem mão-de-obra qualificada em sua fabricação.”
Em 1978 o Brasil era basicamente um país exportador de produtos agrícolas e de minérios. Em 2005 continuamos batendo recordes de exportação de produtos agrícolas e de minérios. Nossa evolução foi tão ridícula que a “...exportação de produtos básicos e a importação de bens de alto valora agregado, como máquinas e equipamentos, preocupa o setor privado brasileiro, que teme repetir com a China um padrão de comércio Norte-Sul, tradicionalmente estabelecido entre os paises desenvolvidos e os em desenvolvimento.” Trocando em miúdos, estamos deixando de vender alimentos e minérios a europeus e americanos para vender os mesmos produtos aos chineses e continuaremos na mesma (para não dizer na merda). Portanto, a próxima vez que um o Presidente, a exemplo de FHC e o Lula, comemorar um recorde de exportação de grãos e minérios ao invés de rir e tomar mais uma cerveja, deveríamos criar coragem para jogar a latinha de cerveja nele e em seus Ministros.
Numa coisa a China é absolutamente igual ao Brasil. Lá como aqui a “...rede de contatos pessoais é considerada essencial para o sucesso dos negócios e a prosperidade na carreira é construída com base em troca de favores e eventos sociais, por meios dos quais os relacionamentos vão se consolidando.” Entretanto, as redes de contatos brasileiras visam apenas consolidar privilégios, fomentar a corrupção e assegurar a mais absoluta impunidade.
Os números da economia chinesa impressionam. Segundo Cláudia Trevisan o Banco do Povo da China “... está sentado sobre uma montanha de US$ 820 bilhões em reservas internacionais, segundo dados de dezembro de 2005, valor que supera o tamanho de todo PIB brasileiro e é inferior apenas aos US$ 845 bilhões em reservas detidas pelo Japão. Só em 2004, elas aumentaram US$ 206,7 bilhões e, em 2005, US$ 210 bilhões. Mantido o atual ritmo de expansão, as reservas chinesas vão logo ultrapassar as japonesas e atingir a marta de US$ 1 trilhão no primeiro semestre de 2006. O Brasil fechou 2005 com reservas próximas de US$ 56 bilhões.”
Em todos os aspectos, os números da China impressionam. A falsificação movimenta algo “...entre US$ 19 a US$ 24 bilhões por ano.” Em 2004 aquele país tinha 112 milhões de idosos e o “...governo prevê que o número de chineses com mais de 65 anos chegará a 300 milhões em 2027...” Em 2005 a população de internautas “...atingiu um total de 120 milhões de pessoas...” A religiosidade na China não está em alta, mesmo assim “...100 milhões do 1,3 bilhão de habitantes do país adota algum tipo de crença professada pelas igrejas aceitas pelo governo.” O exército chinês tem “...2,3 milhões de integrantes, depois de um corte de 200 mil soldados entre 2004 e 2005.” As minorias dentro da China alcança o espetacular número de “...109,3 milhões de pessoas, mais que a soma da população da argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Bolívia e Peru.”
O livro detalha vários outros aspectos importantes da realidade chinesa, como a censura em todos os níveis (inclusive religioso), a obsessão do Partido Comunista pela retomada do controle sobre Taiwam, as razões que levam a Casa Branca a se opor à anexação daquela ilha, etc. Mas para fazer justiça à maravilhosa obra de Cláudia Trevisan encerramos nossa resenha sugerindo ao leitor que prestigie a autora.
Fábio de Oliveira Ribeiro

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