sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A CONQUISTA DOS ÍNDIOS: AS MISSÕES JESUÍTICAS

As missões eram aldeamentos de povos indígena criados pelos padres jesuítas que aqui chegaram com os primeiros europeus. O objetivo desses padres era reunir os índios em comunidades organizadas pela congregação e fazer com que eles abandonassem seus hábitos e adotassem a religião católica, que era a religião dos espanhóis e portugueses.
            Os jesuítas acreditavam que a religião católica era a única religião verdadeira e que, por isso, deveria ser difundida por todo o mundo e levada para todos os povos. Esse processo denominava-se catequização. Para catequizar os índios no continente americano, os jesuítas criaram as missões, também conhecidas como reduções.
As missões eram aldeamentos que agrupavam vários índios sob o comando dos padres jesuítas. Além da religião, os jesuítas impunham os costumes europeus, fazendo com que os indígenas abandonassem muitos de seus próprios costumes. Fator fundamental para isso foi a catequização das crianças indígenas.
            Os jesuítas espanhóis construíram suas primeiras reduções nas terras onde hoje são os estados do Paraná e a região sudeste do Paraguai. Elas eram conhecidas como Missões do Guairá. Esses aldeamentos logo foram atacados pelos bandeirantes, que tinham como objetivo capturar os índios e leva-los para trabalhar como escravos nas plantações de São Paulo. As reduções atraiam os paulistas, pois havia um grande número de índios guaranis reunidos em um mesmo espaço, os guaranis eram bons agricultores, as reduções eram próximas a sua capitania, o que facilitava a captura e o transporte. Além disso, esses índios tinham diversas habilidades aprendidas nas reduções.
            Com os ataques dos bandeirantes, os jesuítas espanhóis fugiram da área e, algum tempo depois se estabeleceram nas terras do atual Rio Grande do Sul, à margem esquerda do rio Uruguai, região esta, que na época pertencia a Espanha. Em 1626, foi instalada a primeira missão nessa região pelo padre espanhol Roque Gonzales. Ela foi chamada de São Nicolau de Piratini. As missões chegaram a reunir nesta faze cerca de 70 mil índios. Eles estavam distribuídos em dezoito aldeamentos que se espelhavam  pela região conhecida como Tape (terras da região central do atual Rio Grande do Sul) e pela região próxima ao rio Uruguai.
            Entretanto, as Missões do Tape e do rio Uruguai tiveram curta duração. Os bandeirantes começaram procurar índios mais ao sul e acabaram por localizar essas missões, atacando-as e aprisionando seus índios. As missões acabaram sendo destruídas pelos ataques dos bandeirantes. Em 1641, os jesuítas fugiram levando alguns indígenas para a outra margem do rio Uruguai, em terras argentinas. Na fuga, deixaram para trás boa parte o gado que criavam. Esse gado abandonado, reproduziu-se livremente pelos pampas, formando uma grande reserva de animais no sul do atual território gaúcho. Essa reserva ficou conhecida como Vacaria do Mar. Em 1682, os jesuítas incentivados pela Espanha, em reação a fundação da Colônia do Sacramento, voltam ao Rio Grande do Sul, onde fundam os Sete Povos das Missões (São Borja, São Nicolau, São Miguel, São Luiz Gonzaga, São Lourenço, São João Batista e Santo Ângelo). Em 1732, os Sete Povos chegaram a reunir cerca de 40 mil índios.
            Nessa fase, os jesuítas introduziram gado na área dos campos de cima da Serra, na região atual da cidade de Vacaria. As Missões Jesuíticas reuniram indígenas de diversas aldeias. Para isso, os líderes nativos foram muito importante, pois ajudaram os jesuítas a convencer os indígenas a morar nos aldeamentos. A autoridade desses chefes continuou sendo respeitada tanto pelos índios como pelos jesuítas. Cada missão possuía uma estancia, onde era criado o gado e os ervais onde se coletava a erva-mate. Também se praticava a agricultura, com o plantio do milho, do aipim, batata-doce, abóbora, feijão e algodão. As terras para a lavoura eram de dois tipos: amambaé – distribuída pelo chefe indígena para cada família; e tupambaé, pertencente a comunidade. Nestas, cada índio deveria trabalhar dois dias por semana para produzir alimento para as pessoas que não podiam trabalhar nas lavouras como os padres.
            No centro da redução estavam a praça e na posição de destaque, a igreja. Próximo à igreja ficava o colégio, onde os meninos eram alfabetizados, aprendiam música e técnicas agrícolas. as oficinas dos artesãos (tecelões, ferreiros, escultores, carpinteiros) e o cemitério também ficavam perto da igreja, assim como o hospital e os depósitos. As casas dos indios eram em geral feita de tijolos e telhas de barro e enfileiravam-se ao redor da praça. Os jesuítas permitiam que os guaranis continuassem falando seu idioma. Porém, muitos hábitos eram proibidos, essencialmente os ligados à religião e outros foram modificados, como a maneira de os nativos obterem alimentos. Dessa forma, as missões jesuíticas acabaram por constituírem-se em núcleos auto-suficientes econômica e politicamente, o que fazia com que os colonos espanhóis acusassem os padres de construir um “Estado dentro do Estado”, ou seja, que as Missões não respeitavam  e não se submetiam a Coroa, isto é, ao rei da Espanha. 
Em 1750, Espanha e Portugal assinam o Tratado de Madri. De acordo com esse tratado, a área onde estava localizada os Sete Povos deveria pertencer a Portugal, e os jesuítas e índios ali aldeados deveriam se retirar para a outra margem do rio Uruguai. Em troca, Portugal daria a Espanha o controle sobre a Colônia do Sacramento. Porém, os jesuítas e os guaranis não aceitaram a decisão do acordo e passaram a defender suas terras lutando contra os espanhóis e portugueses, tinha inicio as Guerras Guaraníticas (1754-1756). Nesse conflito milhares de indígenas foram mortos, entre eles o famoso líder indígena Sepé-Tiaraju. As Guerras Guaraníticas impediram a posse definitiva de Portugal, ao menos temporariamente sobre a região missioneira. Em 1767 a Coroa espanhola conseguiu expulsar os jesuítas e passou a exercer o controle das missões designando um chefe para cada uma delas. As missões entraram em visível declínio. Em 1801, os portugueses com a ajuda dos líderes guaranis derrotaram os lideres espanhóis e tomaram posse da região das Missões. Nesta época restavam cerca de 14 mil índios. (Texto adaptado de História do Rio GRande do Sul de Felipe Piletti por Fabrício Colombo).

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O FIM DA EVOLUÇÃO HUMANA


A história evolutiva da espécie humana, com sua vasta galeria de antepassados, pode estar chegando ao fim.
Para o paleoantropólogo britânico Ian Tattersall, a história evolutiva da espécie humana, com sua vasta galeria de antepassados, pode estar chegando ao fim.

 



A evolução humana é hoje um dos principais temas dos debates científicos. Novas descobertas estão desafiando conhecimentos estabelecidos. Considere, por exemplo, o hominídeo de Flores - um verdadeiro ponto de interrogação em nossa história evolutiva. Mas o mérito cabe também a cientistas como Ian Tattersall, autoridade no campo da paleoantropologia e entusiasmado divulgador da evolução e de tudo que gira em torno do tema. Prova disso é o que aconteceu no Teatro Palladium, em Roma. Depois de uma hora de entrevista para a Radio 3 Scienza, Tattersall conversou com os estudantes que assistiram ao programa. Rodeado por jovens cheios de perguntas, divertiu-se com tanta curiosidade e ímpeto e não economizou nas respostas.

Scientific American: A paleoantropologia costuma ser considerada uma ciência estática, um campo de pesquisa em que é difícil fazer descobertas. Isso corresponde à situação atual?

Ian Tattersall: Jamais houve um período tão empolgante na paleontologia humana como o que vivemos hoje. Não só dispomos de mais fósseis do que antigamente como temos novas técnicas para analisar os dados.

Sciam: As fontes de informação são muito diversas, vão desde a genética até a anatomia. Como usar os dados disponíveis?

Tattersall: É justamente esse o desafio. Há estudos que fornecem vários tipos de informação, e o problema futuro será integrá-los. As hipóteses evolutivas baseadas em dados morfológicos não estão de acordo com as baseadas em dados genéticos, ainda que, em geral, as informações provenientes dos dois campos - a paleoantropologia física e a genética - tendam a se reforçar mutuamente.

Sciam: Com dados mais bem integrados, é possível que o número de antepassados humanos diminua? Particularmente a espécie dos hominídeos?

Tattersall: Não creio. A tendência geral é reconhecer não só mais espécies, mas também mais gêneros. Somos hoje a única espécie de hominídeos na Terra e projetamos essa situação para o passado. Mas com as diferentes técnicas e o número cada vez maior de fósseis disponíveis, descobrimos que existe - e existia no passado - uma grande diversidade. Em suma, a história da espécie humana é marcada pela luta contínua entre diversas espécies de hominídeos. Há muitas hipóteses a respeito de quantas espécies teriam existido. Minha opinião é de cerca de 20 nos últimos 6 milhões de anos.

Sciam: O Homo floresiensis faz parte desse grupo? Ainda se debate se devemos ou não considerá-lo nosso antepassado.

Tattersall: Não creio que alguém defenda que o hominídeo de Flores deva ser catalogado entre nossos antepassados. Na gruta onde foi descoberto o crânio do primeiro H. floresiensis foi encontrado recentemente o maxilar de um segundo indivíduo da mesma espécie. Isso nos leva a pensar que se trata, provavelmente, de uma população local com alguma doença A única alternativa é considerar que o hominídeo de Flores seja o representante de uma espécie que não conhecíamos, mas não há razões convincentes para incluí-lo no gênero Homo. Mas se for, de fato, uma espécie de hominídeo, sua ligação conosco é extremamente remota. Nesse caso, o hominídeo de Flores representaria um dos descendentes dos primeiros hominídeos que emigraram da África, em vez de uma forma degenerada de Homo erectus, como se acreditou logo após sua descoberta.

Sciam: Falemos do presente. As pesquisas em paleontologia são úteis para cientistas sociais e estudiosos que criticam outras abordagens da evolução social de nossa espécie? Refiro-me à sociobiologia, segundo a qual há uma relação direta entre genes e comportamento.

Tattersall: A sociobiologia é uma abordagem válida quando aplicada a sistemas como os insetos sociais, mas não funciona no caso de realidades muito complexas do ponto de vista cognitivo, como o Homo sapiens. Além disso, a sociobiologia implica uma visão dos processos evolutivos estreitamente ligada à seleção natural, e não creio que sua influência seja tão grande quanto a que lhe costumam atribuir. Se levarmos em conta uma característica por vez, por exemplo a expansão do volume do cérebro, então é possível pensar que a seleção tenha um papel no processo evolutivo. Mas os genomas são estruturas extremamente complexas, e a única coisa que a seleção natural pode fazer é determinar o êxito de um indivíduo, não o tamanho de seu cérebro.

Sciam: Nos últimos anos foram publicadas diversas pesquisas que evidenciam mutações recentes e seleção dos genes que compõem o DNA humano. Nossa espécie ainda está evoluindo?

Tattersall: Se considerarmos os genes isoladamente, a resposta é afirmativa: podemos registrar mudanças no patrimônio genético humano. Mas não creio que sejam mudanças importantes do ponto de vista evolutivo. Trata-se de flutuações que surgem ciclicamente em todas as espécies. Para ser verdadeiramente nova, uma mutação deve ocorrer em populações formadas por poucos indivíduos. Do ponto de vista genético, apenas as populações pequenas são suficientemente instáveis para originar alguma característica evolutiva nova. Hoje a população humana está muito interconectada, e é cada vez mais fácil os indivíduos se deslocarem. Estão ausentes as condições necessárias para o surgimento de mudanças significativas do ponto de vista evolutivo.

Sciam: Isso quer dizer que a globalização prejudica a evolução da espécie humana?

Tattersall: A globalização é um processo de modernização, mas certamente não encoraja a inovação evolutiva.

Sciam: E para outras espécies, é possível observar sua evolução e estudá-la com novos meios?

Tattersall: Teoricamente sim. Ao se tornar uma espécie cada vez mais difusa em todas as partes do planeta, o Homo sapiens está fragmentando o hábitat de outros seres vivos. Assim, está criando as condições para inovações evolutivas. Possivelmente presenciaremos a evolução de outras espécies no futuro. Se esses fenômenos vão ocorrer ou não em escala temporal que permita a observação
Giovanni Spataro
 


terça-feira, 25 de setembro de 2012

MARXISMO


Fruto de décadas de colaboração entre Karl Marx e Friedrich Engels, o marxismo influenciou os mais diversos setores da atividade humana ao longo do século XX, desde a política e a prática sindical até a análise e interpretação de fatos sociais, morais, artísticos, históricos e econômicos, e se tornou doutrina oficial dos países de regime comunista.
Marxismo é o conjunto das idéias filosóficas, econômicas, políticas e sociais que Marx e Engels elaboraram e que mais tarde foram desenvolvidas por seguidores. Interpreta a vida social conforme a dinâmica da luta de classes e prevê a transformação das sociedades de acordo com as leis do desenvolvimento histórico de seu sistema produtivo.
Os pontos de partida do marxismo são a dialética de G. W. F. Hegel, a filosofia materialista de Ludwig Feuerbach e dos enciclopedistas franceses e as teorias econômicas dos ingleses Adam Smith e David Ricardo. Mais do que uma filosofia, o marxismo é a crítica radical da filosofia, principalmente do sistema filosófico idealista de Hegel. Enquanto para Hegel a realidade se faz filosofia, para Marx a filosofia precisa incidir sobre a realidade. O núcleo do pensamento de Marx é sua interpretação do homem, que começa com a necessidade humana. A história se inicia com o próprio homem que, na busca da satisfação de necessidades, luta contra a natureza. À medida que luta, o homem se descobre como ser produtivo e passa a ter consciência de si e do mundo. Percebe então que "a história é o processo de criação do homem pelo trabalho humano".
As duas vertentes do marxismo são o materialismo dialético, para o qual a natureza, a vida e a consciência se constituem de matéria em movimento e evolução permanente, e o materialismo histórico, para o qual o fato econômico é base e causa determinante dos fenômenos históricos e sociais, inclusive as instituições jurídicas e políticas, a moralidade, a religião e as artes.
A teoria marxista desenvolve-se em quatro níveis de análise -- filosófico, econômico, político e sociológico -- em torno da idéia central de mudança. Em suas Thesen über Feuerbach (1845, publicadas em 1888; Teses sobre Feuerbach), Marx escreveu: "Até o momento, os filósofos apenas interpretaram o mundo; o fundamental agora é transformá-lo." Para transformar o mundo é necessário vincular o pensamento à prática revolucionária. Interpretada por diversos seguidores, a teoria tornou-se uma ideologia que se estendeu a regiões de todo o mundo e foi acrescida de características nacionais. Surgiram assim versões como as dos partidos comunistas francês e italiano, o marxismo-leninismo na União Soviética, as experiências no leste europeu, o maoísmo na China e Albânia e as interpretações da Coréia do Norte, de Cuba e dos partidos únicos africanos, em que se mistura até com ritos tribais.
Materialismo dialético. De uma perspectiva idealista, Hegel, filósofo alemão do século XIX, englobava a natureza, a história e o espírito no processo dialético de movimento das idéias, determinado pela oposição de elementos contrários (tese e antítese) que progridem em direção a formas mais aperfeiçoadas (síntese). Assim, no devir da história, o processo dialético impulsiona o desenvolvimento da idéia absoluta pela sucessão de momentos de afirmação (tese), de negação (antítese) e de negação da negação (síntese).
Marx adotou a dialética hegeliana e substituiu o devir das idéias, ou do espírito humano, pelo progresso material e econômico. Em Zur Kritik der Politischen Ökonomie (1859; Contribuição à crítica da economia política), resume o que mais tarde foi chamado materialismo dialético: "Não é a consciência do homem que determina seu ser, mas o ser social que determina sua consciência." Pelo método dialético, sustentou que o capitalismo industrial (afirmação) engendra o proletariado (negação) e essa contradição é superada, no futuro, pela negação da negação, isto é, pela sociedade sem classes.
Outra chave do marxismo está no pensamento do filósofo alemão Ludwig Feuerbach. Discípulo de Hegel, Feuerbach inverteu na dialética os lugares ocupados pela idéia e pela matéria e formulou a teoria da alienação do homem, entendendo Deus como ilusão humana ditada por necessidades da realidade material. Marx detectou certa inconsistência no materialismo de Feuerbach, pois este considerava o homem como ser puramente biológico. Tomando uma noção criada por Moses Hess, também hegeliano, Marx definiu o homem em sua relação com a natureza e a sociedade, isto é, em sua dimensão econômica e produtiva, e viu no estado, na propriedade e no capital a fonte da alienação humana. Para Marx, as relações materiais de produção de uma sociedade determinam a alienação política, religiosa e ideológica, como conseqüências inequívocas das condições de dominação econômica.
Materialismo histórico. Também chamado concepção materialista da história, o materialismo histórico é a aplicação do marxismo ao estudo da evolução histórica das sociedades humanas. Essa evolução se explica pela análise dos acontecimentos materiais, essencialmente econômicos e tecnológicos. Na atividade econômica e social, os homens estabelecem relações necessárias e independentes de sua vontade. São as relações de produção, que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas (trabalho humano, instrumentos, máquinas). O conjunto das relações de produção forma a infra-estrutura econômica da sociedade, base material sobre a qual se eleva uma superestrutura política, jurídica e ideológica, o que engloba as idéias morais, estéticas e religiosas. Assim, o modo de produção dos bens materiais condiciona a vida social, política e intelectual que, por sua vez, interage com a base material. Para contrabalançar o determinismo econômico da teoria, Marx afirmou a existência de uma constante interação e interdependência entre a infra-estrutura e a superestrutura, embora, em última instância, os fatores econômicos sejam os determinantes.
No curso de seu desenvolvimento, as forças produtivas da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes e estas convertem-se em obstáculos à continuidade do processo produtivo. Inicia-se então uma era de revolução social que afeta a fundo a estrutura ideológica, de modo que os homens adquirem consciência do conflito de que participam.
As relações capitalistas de produção seriam a forma final de antagonismo no processo histórico. O modo de produção do capitalismo industrial conduz de modo inevitável à superação da propriedade privada, não só pela rebelião dos oprimidos como pela própria evolução do sistema, em que a progressiva acumulação de capital determina a necessidade de novas relações de produção baseadas na propriedade coletiva dos meios de produção. Superado o regime de propriedade privada, o homem venceria a alienação econômica e, em seguida, todas as outras formas de alienação de si mesmo.
No decorrer do processo histórico, as relações econômicas evoluíram segundo uma contínua luta dialética entre os proprietários dos meios de produção e os trabalhadores espoliados e explorados. No primeiro capítulo do Manifest der Kommunistischen Partei (1848; Manifesto comunista), Marx e Engels afirmam que a "história de todas as sociedades do passado é a história da luta de classes". Segundo o materialismo histórico, o comunismo primitivo seria a tese oposta à antítese expressa pelas sociedades de classe (escravistas, feudais e capitalistas). A sociedade sem classes, alcançada mediante a práxis (isto é, a teoria posta em prática) revolucionária, seria a síntese final das organizações sociais.
Crítica do sistema capitalista. Marx rejeitou o idealismo dos socialistas utópicos, sobretudo Charles Fourier e Henri de Saint-Simon, que criticaram o capitalismo de um ponto de vista humanitário e defenderam a mudança gradual para um regime social baseado na propriedade e no trabalho coletivos. Marx formulou então a doutrina do socialismo científico, em que a crítica à estrutura econômica do capitalismo permite reconhecer as leis dialéticas de sua evolução e decomposição.
Para Marx, o trabalho é a essência do homem, pois é o meio pelo qual ele se relaciona com a natureza e a transforma em bens a que se confere valor. A desqualificação moral do capitalismo ocorre por ser um modo de produção que converte a força de trabalho em mercadoria e, desse modo, aliena o trabalhador como ser humano.
Marx concordou com os economistas clássicos britânicos, para quem o trabalho é a medida de todas as coisas. A força de trabalho do operário, vendida ao capitalista, incorpora-se a um produto que se vende no mercado por um valor superior a seu custo de produção. A diferença entre o valor final do produto e o custo de produção constitui a mais-valia, o excedente ou valor acrescentado pelo trabalho. O custo de produção é a soma do valor dos meios de produção (maquinaria e matérias-primas) e do valor da força de trabalho, este expresso em bens indispensáveis à subsistência do operário e sua família. A mais-valia, portanto, converte-se em lucro para o capitalista.
Marx distingue dois tipos de mais-valia, a absoluta e a relativa, que se definem pela maneira como são aumentadas. A mais-valia absoluta aumenta proporcionalmente ao aumento do número de horas da jornada de trabalho, conservando-se constante o salário. O valor produzido pelo trabalho nesse tempo adicional corresponde à mais-valia absoluta. Assim, quanto mais horas o operário trabalhar, maior será o lucro do capital, isto é, a mais-valia absoluta, e sua acumulação. A mais-valia relativa aumenta com o aumento da produtividade, com a racionalização do processo produtivo e com o aperfeiçoamento tecnológico. O trabalhador passa a produzir mais no mesmo tempo de trabalho, e isso aumenta relativamente a mais-valia.
A obtenção de mais-valia conduz à acumulação do capital expressa na concentração fabril e empresarial e no progresso tecnológico incorporado à maquinaria das grandes indústrias. O uso de máquinas cada vez mais produtivas elimina periodicamente parte da força de trabalho. Os operários dispensados engrossam o "exército industrial de reserva" (os desempregados) em situação de concorrência que favorece a redução dos salários e a pauperização da classe operária.
A formação de cartéis e monopólios, em conseqüência da concentração de capital, diminui o número de capitalistas e provoca uma crise de superprodução, manifestação típica das contradições do capitalismo, já que, em busca de lucro máximo, o capitalista adota novos instrumentos de trabalho que geram produção maior do que o mercado é capaz de absorver. As crises periódicas fazem aumentar o desemprego, proletarizam as classes intermediárias e empobrecem a classe operária. O sistema capitalista desaparecerá em conseqüência das próprias contradições e da oposição entre o caráter coletivo da produção e o caráter privado da apropriação. A ação revolucionária dos oprimidos, ou seja, da classe operária, deve incidir sobre o sistema capitalista. A tomada do poder por essa classe implicaria a instauração de um estado socialista transitório, a ditadura do proletariado, que se dissolveria após cumprir sua missão de organizar o sistema coletivista e liquidar as antigas classes sociais. Depois dessa fase se chegaria finalmente ao comunismo, sociedade sem classes e sem exploração do homem pelo homem.
Revisionismo e marxismo-leninismo. No final do século XIX, o marxismo passou a atrair cada vez mais o movimento operário mundial, embora o anarquismo e o pensamento social-cristão mantivessem sua influência. O desenvolvimento industrial em alguns países, porém, contribuiu para melhorar o padrão de vida da classe trabalhadora, ao contrário das previsões de Marx, e reforçou os sistemas políticos social-democratas.
Nas primeiras décadas do século XX, os alemães Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo ratificaram o caráter revolucionário do marxismo e adaptaram a doutrina às novas condições do capitalismo. Na mesma direção seguiu Lenin, personagem decisivo da revolução russa de 1917. Sua contribuição originou o marxismo-leninismo, com novas abordagens da doutrina e do movimento comunista, como a análise do imperialismo, a possibilidade da revolução em países não industrializados, a participação do campesinato na ação revolucionária e a organização do partido comunista como
vanguarda da classe operária. O marxismo-leninismo foi interpretado de maneiras diversas após a morte de Lenin. Nikolai Ivanovitch Bukharin preconizou uma concepção revisionista e Trotski desenvolveu os aspectos revolucionários da doutrina. Stalin simplificou os postulados do marxismo-leninismo, formulou a teoria do socialismo em um só país, contra a tese trotskista, que preconizava a internacionalização da revolução, e defendeu a possibilidade de um desenvolvimento auto-suficiente da economia soviética, sem relação com o mundo capitalista. A partir do marxismo-leninismo, o líder comunista chinês Mao Zedong elaborou uma doutrina original, o maoísmo, adaptada ao desenvolvimento da revolução na China e às características milenares da cultura chinesa: é maoísta, por exemplo, o princípio segundo o qual os estudantes jamais devem ser orientados para a competição, mas exclusivamente para a cooperação. O marxismo teve teóricos de grande expressão no mundo das idéias, como Antonio Gramsci, György Lukács, Theodor W. Adorno, Karl Korsch e Louis Althusser. Depois da segunda guerra mundial, surgiram interpretações não dogmáticas do marxismo, com a incorporação de filosofias como as de Edmund Husserl e Martin Heidegger e de idéias de teóricos de outras áreas, como Sigmund Freud. Economistas, historiadores antropólogos, sociólogos, psicólogos, estudiosos da moral e das artes, incorporaram a metodologia marxista sem necessariamente aderir à filosofia política e à prática revolucionária do marxismo.A queda dos regimes comunistas nos países do leste europeu e a dissolução da União Soviética levaram ao questionamento dos postulados doutrinários marxistas. Permaneceram, porém, o respeito e a admiração pelo rigor científico, originalidade, coerência interna e abrangência da obra de Marx e Engels.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

ABERTURA: LENTA E SEGURA

Levou dez anos e teve recuos do próprio presidente Ernesto Geisel
Nos anos 70, a expressão “distensão” entrou para o vocabulário nacional. Quem tirou a palavra do dicionário e a tornou corriqueira nas conversas de botequim foi o general Ernesto Geisel, que assumiu a Presidência em março de 1974 e ficou no poder até o início de 1979. Um acerto. Afinal, como ensina o Dicionário Aurélio, distensão quer dizer “afrouxamento, relaxação”, mas também “prolongamento, continuação”. Nenhuma expressão seria mais adequada para descrever o período em que a ditadura militar diminuiu seu ímpeto autoritário, mas, de outro lado, usou subterfúgios para adiar a entrega do poder aos civis, apesar de já dar sinais de exaustão.
A distensão política “lenta, gradual e segura” durou mais de dez anos e só foi concluída pelo presidente seguinte, João Baptista Figueiredo. Foi lenta mesmo, mas nem tão segura e muito menos gradual. O que se viu foram hesitações e quedas-de-braço que ameaçaram continuamente a marcha para o Estado de Direito, no qual as leis são feitas por representantes legítimos da população e respeitadas. A abertura foi arrastada, irregular e nada segura. Mas aconteceu, contrariando a linha dura militar, que nem sequer admitia a hipótese de ser apeada do poder.
Geisel tinha sido chefe da Casa Militar do governo Castello Branco. Sua posse foi prestigiada pelo ditador chileno Augusto Pinochet, pela esposa do presidente norte-americano Richard Nixon, já em apuros com o caso Watergate, e por quase 90 delegações estrangeiras. Tudo transmitido pela TV, agora em cores. Como auxiliares de destaque, Geisel tinha o general Golbery do Couto e Silva, fundador do Serviço Nacional de Informações (SNI), então chefe da Casa Civil e ideólogo da distensão, e João Figueiredo, ex-chefe do Gabinete Militar de Medici, que assumiu o SNI e a preferência de Geisel para sucedê-lo.
É em agosto que o presidente Geisel anuncia em discurso uma “lenta, gradativa e segura distensão”. Apenas três meses depois, o resultado de um processo eleitoral com propaganda livre lhe prega um susto. O partido do governo, a Arena, leva um banho do MDB na eleição para deputados estaduais, federais e senadores. A oposição colhe quase 73% dos votos e amplia sua bancada na Câmara de 87 para 165 representantes – a Casa tinha 364, no total. No Senado, ocupa 16 das 22 cadeiras em disputa, passando a ter 20 dos 66 senadores.
Para o aparelho repressivo, o resultado das eleições de novembro de 1974 dava mais apelo à tese de que o perigo subversivo ainda não estava neutralizado. Dizimada a luta armada, a linha dura direcionou a mira para o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que, dizia, infiltrava-se com sucesso na oposição consentida e no próprio governo. A aparente paranóia se mesclava à estratégia de desestabilizar o governo Geisel e assegurar desde já a vitória do ministro do Exército, general Sylvio Frota, na sucessão presidencial.
Geisel sinaliza um recuo em 1º de agosto de 1975, um ano depois de lançar a idéia da distensão. “Muito se tem publicado e discutido sobre a ‘distensão’, atribuindo-se ao governo intenções que absolutamente não correspondem à realidade”, diz, em pronunciamento ao país. O que ficou conhecido como “Discurso da Pá de Cal” terminava com um balde de água gelada: “O governo não abrirá mão dos poderes excepcionais de que dispõe”. Inicia-se uma série de prisões e torturas que desembocam nas mortes do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro, e do metalúrgico Manuel Fiel Filho, em janeiro de 1976.
Os assassinatos ocorrem em São Paulo, área do 2º Exército, comandado pelo general Ednardo d’Avila Mello, representante da linha dura que já havia desafiado Geisel e Golbery publicamente. “A tônica hoje em dia é dizer que o terrorismo já foi dominado, que não há mais subversão e que, em conseqüência, precisamos fazer uma distensão. Eu digo que isso é uma balela”, tinha dito o general em discurso anterior. Mas Geisel reage rapidamente à morte de Fiel Filho e decide demitir Ednardo Mello, abrindo caminho para a demissão, em outubro de 1977, do próprio Sylvio Frota. Ao mesmo tempo, Geisel tenta parar a tortura dentro dos quartéis.
Na frente propriamente política, Geisel continua cassando mandatos de deputados da oposição e, escaldado pelo susto eleitoral de 1974, saca a Lei Falcão, redigida pelo então ministro da Justiça Armando Falcão, em junho de 1976. A nova norma limita a propaganda dos partidos na televisão à exibição de uma fotografia dos candidatos, acompanhada da narração enfadonha de um currículo sumário.
Congresso fechado
Em 1977, Geisel fecha o Congresso e baixa o “Pacote de Abril”, com uma série de mudanças na legislação para garantir maioria, sempre, à Arena. Estava inventada uma nova expressão, o “casuísmo”, referência ao jeitinho que os militares passaram a dar nas leis eleitorais para manipular o resultado das eleições. O pacote tornou indiretas as eleições para governador e para um dos dois senadores que seriam eleitos em 1978 – os “biônicos”, em alusão ao personagem de seriado americano que fazia sucesso na época. Além disso, a representação dos estados na Câmara dos Deputados foi modificada, desprezando a proporcionalidade com a população de cada estado. O mandato presidencial, a partir do sucessor, foi aumentado de cinco para seis anos, e o quórum para reformas constitucionais foi reduzido de dois terços para maioria absoluta, facilitando a vida do governo.
A linha dura, insatisfeita com os avanços rumo à democracia, promove atentados sistemáticos. Os ataques mobilizam a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Ordem dos Advogados (OAB) e outros setores organizados da sociedade. Em 8 de agosto de 1977, o jurista Goffredo da Silva Telles lê em ato público um manifesto ousado, chamado Carta aos Brasileiros. “Eu tinha convicção absoluta de que seria preso”, conta Telles. Mas eram tempos esquisitos e, para seu espanto, dois deputados federais o procuraram dias depois afirmando trazer um recado pessoal de Geisel. “Eles me disseram que o presidente considerava a carta dentro do plano de manobra do governo.”
Já os choques nos preços no petróleo não estavam no plano de manobra de Geisel. O presidente assume quando a economia começa a sentir os trancos do primeiro choque internacional do petróleo, ocorrido no rastro do conflito árabe-israelense, em fins de 1973. O preço do barril salta de um patamar inferior a 3 dólares, a preços correntes, para quase 12 dólares, em outubro de 1974. O déficit das contas nacionais é financiado por volumosos empréstimos internacionais – e não mais por investimentos diretos, que secam com a economia mundial em recessão. Isso leva a dívida externa a cerca de 50 bilhões de dólares em 1979. “O Brasil foi pego de calça curta”, diz o economista Ladislau Dowbor, ele próprio exilado pela ditadura militar por 11 anos.
O governo Geisel reage priorizando a construção de hidrelétricas, como Itaipu, selando o acordo com a Alemanha para a implantação de usinas nucleares em Angra dos Reis (RJ) e criando o Pró-Álcool, programa para o uso de álcool como combustível. A escalada do petróleo também reflete na inflação, que salta de 34% ao ano, em 1974, para 110%, em 1980. O crescimento da economia rateia, e os economistas do governo parecem perdidos, sem saber o que fazer.
Condutor ou condusido?
É esse quadro econômico explosivo que João Baptista Figueiredo vai encontrar, ao assumir em 1979. Seu governo se inicia no momento em que os empréstimos contratados pelo Brasil a taxas flutuantes tornam-se impagáveis.
Até que ponto a abertura foi arquitetada por setores militares ou mero reflexo de perda de controle da ditadura sobre o rumo dos acontecimentos é um tema que os especialistas continuam debatendo. Há quem sustente que as iniciativas liberalizantes de Geisel e Golbery foram uma tentativa de levar os militares de volta aos quartéis e combater a desordem que, àquela altura, tomava conta das Forças Armadas – estrago feito por dez anos de “revolução”, com brigas constantes pelo poder e anarquia nos porões. Outras explicações dão peso aos problemas crescentes na economia, sempre usada pelos militares para tentar se legitimar no poder. Com o fim do milagre econômico, os setores antes beneficiados pelo crescimento deram sinais de insatisfação. A dinâmica da própria política, com o sucesso eleitoral da oposição nas brechas abertas pelo regime, também é lembrada como fator que contribuiu para afrouxar o domínio autoritário.
Mas não há consenso sobre o papel dos militares no ônibus da abertura – eram motoristas ou passageiros? “Teve um pouco das duas coisas”, diz Rogério Schmitt, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “Se olharmos para o balanço final, por alto, foi um projeto bem-sucedido porque não houve ruptura das regras impostas pelo próprio regime. Por outro lado, houve vários sobressaltos que detonaram reações em cadeia que os militares não pretendiam.”
Ação...
Versão fantasiosa tenta encobrir a morte deHerzog em quartel
“O Vlado não tinha idéia do que poderia acontecer com ele, porque tinha uma militância amena, era de um grupo de jornalistas que jamais imaginava que poderia ser preso", conta Fernando Pacheco Jordão, melhor amigo do jornalista Vladimir Herzog e seu colega na redação de O Estado de S.Paulo e na BBC de Londres. “Não que nós achássemos que isso justificasse, mas as pessoas presas eram de militância pesada, gente ligada à luta armada”, diz Jordão. “Quem só militava intelectualmente jamais poderia imaginar que seria submetido a tortura e até morreria por causa disso.” Aconteceu. E justamente em 1975, ano que começa sepultando a censura prévia dos jornais e termina com a tortura e morte de um jornalista sem nenhuma conexão com movimentos armados. Na manhã do sábado, 25 de outubro, a ditadura militar fazia mais um prisioneiro. Procurado na noite anterior, Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, conseguira adiar para o dia seguinte sua apresentação ao DOI-Codi de São Paulo. Ele compareceu às 8 da manhã. No meio da tarde já estava morto, vítima de torturas que os agentes do DOI tentaram acobertar com a usual farsa do suicídio – era o 38º “suicida” produzido pelos porões da ditadura. Fotos mostrando o cadáver de Herzog enforcado com um cinto preso a uma grade a 1,63 metro do chão eram mostradas aos demais presos. Além das pretensas provas do suicídio, a tese da infiltração comunista nas instituições era alardeada até no cárcere. “Os agentes nos diziam que no comando do Partido Comunista, acima dos tais dirigentes que já estavam presos, viriam pessoas insuspeitas, como um cardeal, um governador e um general”, afirma o jornalista Paulo Markun, colega de Herzog na TV Cultura e também detido naquela época. “Era uma referência clara a dom Paulo Evaristo Arns, ao governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, e ao general Golbery.” Clarice, mulher de Herzog, conta que ele passara a freqüentar as reuniões de discussão do PCB havia dois anos, por não ver outra forma de contestar a ditadura. "Ele identificava duas forças organizadas: a Igreja Católica e o Partido Comunista. Como era judeu, não teve outra opção.”
...E reação
Culto em protesto é a primeira grande manifestação após o AI-5
Na sexta-feira, 31 de outubro de 1975, barreiras bloqueavam os acessos à praça central de São Paulo. Estava marcado para a Catedral da Sé um culto ecumênico em memória de Vladimir Herzog. A força policial era ostensiva e o clima, tenso. “Antes de começar, chegaram três homens para dizer que eu deveria desistir e que havia 500 agentes na praça para atirar em quem quer que dissesse ‘abaixo a ditadura’”, relata dom Paulo Evaristo Arns, que iria realizar o culto ao lado do rabino Henri Sobel. “Eu disse: ‘Vocês usam a arma, nós usamos o coração’.“ Dias antes, no enterro de Herzog, o rabino Sobel contestara a versão oficial para a morte, negando-se a enterrar Herzog na área do Cemitério Israelita destinada aos suicidas. O Sindicato dos Jornalistas havia redigido uma nota à imprensa tão diplomática quanto desafiadora: “O Sindicato dos Jornalistas deseja notar que, perante a lei, a autoridade é sempre responsável pela integridade física das pessoas que coloca sob sua guarda [e] reclama um fim a essa situação, em que jornalistas profissionais, cidadãos com trabalho regular e residência conhecida, permanecem sujeitos ao arbítrio de órgãos de segurança”. “Todos os cuidados eram necessários para que a gente denunciasse o crime, sem dar pretexto para fecharem o sindicato”, diz Audálio Dantas, presidente da entidade à época. O sindicato já denunciara as prisões que se sucederam ao Discurso da Pá de Cal. A imprensa noticiou a morte de Herzog com destaque, indo muito além das notas oficiais secas que costumavam registrar “suicídios” e “mortes em confronto” de vítimas da repressão. Era a primeira vez que isso acontecia desde que foi instalada a censura prévia nos jornais. Apesar das barreiras e dos policiais, 8 mil pessoas comparecem à Catedral da Sé. “Foi uma cerimônia comovente, todo mundo que estava na catedral chorou”, relembra dom Paulo, que já atuava ostensivamente na defesa de presos políticos desde novembro de 1970. No final, o que poderia ter se transformado em um tumulto sangrento entrou para a História como a primeira grande manifestação popular desde o AI-5 e uma peça importante no quebra-cabeças da abertura brasileira.
Uma novidade chamada Lula
Greve de 1978 quebrou jejum de dez anos e inaugurou novo sindicalismo
Em 1978, o Brasil conheceu Lula – um torneiro mecânico de origem nordestina, que presidia o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, na Grande São Paulo. Naquele ano, Luiz Inácio da Silva e seus colegas fizeram a primeira greve significativa desde a repressão dos movimentos de Osasco e Contagem, dez anos antes, e inauguraram um novo jeito de fazer reivindicações trabalhistas, conhecido como “novo sindicalismo”. Houve repressão. Em 1978 e nas greves dos dois anos seguintes, manifestações foram dissolvidas pela polícia com violência. Líderes foram presos e processados com base na Lei de Segurança Nacional, instrumento autoritário que permitia tratar a reivindicação como crime. O sindicato sofreu intervenção do governo. Os setores organizados da sociedade viam o movimento como uma forma relevante de oposição ao regime e ao represamento das demandas dos operários, cujos salários sofriam os efeitos da inflação. Autoridades católicas, como o cardeal Evaristo Arns, chegaram a ceder igrejas para assembléias. O sindicalismo de Lula era novo porque apostava na negociação direta com os empregadores, quando a lei estabelecia que cabia ao governo definir os reajustes. O movimento também via a pressão e o confronto como armas legítimas de reivindicação, atitude bem diferente da assumida pelas lideranças atreladas ao governo que dominavam os sindicatos. O exemplo da região do ABC criou um novo padrão e colocou as reivindicações na pauta nacional. Até o final de 1979, houve mais de uma centena de greves, em 15 estados, como conta o historiador Thomas Skidmore, no livro Democratizing Brazil.
  Ricardo Muniz e Júlia Ferraz


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

HISTÓRIA DA COLÔMBIA

Simón Bolívar e Francisco Santander no Congresso de Cúcuta.


País caribenho, andino e amazônico, a Colômbia associa a riqueza de seus recursos naturais a uma estrutura econômica ainda não desenvolvida. A miscigenação de seus habitantes não diminuiu a intensa influência da cultura e tradição espanholas, que se evidenciam na pureza da língua e na manutenção do catolicismo.
A Colômbia situa-se no ângulo noroeste da América do Sul. Limita-se a leste com a Venezuela e o Brasil, ao sul com o Peru e o Equador, a oeste com o oceano Pacífico e ao norte com o mar das Antilhas ou do Caribe. As duas grandes massas de água estão separadas pelo istmo centro-americano, por cujo extremo oriental se estende a fronteira entre a Colômbia e o Panamá. O território colombiano inclui ainda as ilhas de San Andrés e Providencia, no mar das Antilhas, em frente da Nicarágua, e a de Malpelo, no oceano Pacífico, bem como ilhotas próximas de seu litoral.
Com uma superfície total de 1.138.914km2, a Colômbia tem uma costa de aproximadamente 2.900km, dos quais 1.600 banhados pelo mar das Antilhas e o restante pelo oceano Pacífico. O litoral é recortado por baías, golfos e penínsulas que lhe dão um aspecto muito irregular.
 Diversos povos ameríndios ocupavam o território colombiano antes da conquista espanhola. Nenhum deles deixou registros escritos, o que não permite reconstruir sua evolução  com a mesma precisão que se alcançou no estudo das grandes civilizações históricas do Novo Mundo. Ainda hoje, culturas como a de San Agustín, extinta muitos séculos antes da chegada dos europeus, continuam a ser um enigma.
Os povos das regiões planas e litorâneas organizavam-se socialmente como confederações de tribos, levavam vida muito simples e foram extintos pelos colonizadores espanhóis. Já em terras andinas havia culturas mais desenvolvidas, entre as quais se destaca a dos chibchas, que ocupavam os pontos mais altos da parte central da cordilheira Oriental. Cultivavam milho, batata e algodão. Não chegaram a formar um império unitário, mas apresentavam muitos traços culturais comuns. Atingiram grande densidade populacional na savana de Bogotá. Seu centro mais importante era Bacatá, próximo à posterior capital colombiana.

Exploração e conquista espanholas. A primeira expedição européia a avistar terras da futura Colômbia foi a do espanhol Alonso de Ojeda, que em 1499 dobrou o cabo de La Vela, na península de La Guajira. Dez anos depois, o reconhecimento de toda a costa sul-americana do Caribe foi feito por Rodrigo de Bastidas, que em 1525 fundou Santa Marta. Em 1533 Pedro de Heredia fundou Cartagena, que se tornaria uma das principais bases marítimas do império espanhol nas Américas. Até 1539 já haviam sido fundadas todas as cidades importantes do interior colombiano, até mesmo Santa Fe de Bogotá (1538).
Bogotá, que antes da conquista era o principal núcleo dos reinos chibchas, transformou-se em 1550 na audiência de Santa Fe de Bogotá, dependente do vice-reino do Peru e centro administrativo de uma região que abrangia Nova Granada, Popayán, Antioquia, Cartagena, Santa Marta, Riohacha, os llanos de Casanare e San Martín. A partir de 1564, os presidentes da audiência de Santa Fe gozaram de poderes semelhantes aos dos vice-reis. As populações autóctones diminuíram enormemente, exterminadas pelos novos senhores das terras e por doenças por eles transmitidas, como a epidemia de varíola de 1587-1589.
As culturas indígenas se transformaram rapidamente, em contato com a civilização. O catolicismo foi imposto e predominou sobre as religiões autóctones. No século XVII, o chibcha, língua indígena que tivera o maior número de usuários, havia caído em desuso nas zonas mais povoadas do país e a miscigenação granhou forte impulso. Nas planícies do Chocó e na costa do Caribe foram instalados escravos negros, destinados à extração do ouro e ao trabalho nas plantações de cana-de-açúcar.
A Igreja Católica, com a atuação de missionários franciscanos, dominicanos e jesuítas, desempenhou importante papel na catequese e na administração. Em 1620, a Inquisição instalou-se em Cartagena, cidade que logo se tornaria um baluarte do império espanhol.
Vice-reino de Nova Granada. A dependência administrativa de Lima encerrou-se com a criação do vice-reino de Nova Granada, vigente primeiro durante um breve período, de 1717 a 1723, e depois, definitivamente, a partir de 1740. Compreendia a Colômbia, a Venezuela, o Equador e o Panamá e representou o início de uma nova era. Nas décadas seguintes, a coroa espanhola procurou fortalecer o império mediante maior centralização da administração e desenvolvimento do comércio. A população aumentou e começou a consolidar-se uma nova classe social com crescente poder: a dos criollos, descendentes de espanhóis nascidos na colônia.
De 1785 a 1810, os criollos de Nova Granada não ofereceram resistência às reformas políticas e econômicas. Assim, na revolução dos comuneros, os socorrenses opuseram-se às reformas, mas em 1809 propuseram medidas favoráveis ao sistema de livre comércio e à abolição da escravatura. As reformas educacionais desempenharam papel de relevo nessa modificação de perspectiva dos granadinos. Como vice-rei, o arcebispo Caballero y Góngora (1782-1788) concentrou-se principalmente na educação, modernizando os currículos e criando uma escola de minas.
Independência. O antagonismo entre súditos coloniais e metropolitanos e as incertezas quanto ao destino do império, após a invasão da Espanha pela França em 1808, provocaram um conflito que culminou na declaração de independência. Em 1810, as jurisdições de Nova Granada expulsaram as autoridades espanholas, exceto em Santa Marta, Riohacha e os atuais Panamá e Equador. O levante de Bogotá, de 20 de julho desse ano, é comemorado como a data de independência da Colômbia. A rivalidade entre os grupos que propugnavam uma federação e aqueles que tentavam centralizar a autoridade nos novos governos provocou uma série de guerras civis, que facilitou a reconquista, pela Espanha, das Províncias Unidas de Nova Granada, entre 1814 e 1816.
As execuções e castigos praticados pelos espanhóis favoreceram a unidade dos setores libertários. Um grupo refugiado em Casanare, chefiado por Francisco de Paula Santander, iniciou a luta armada, com apoio de Simón Bolívar. Em 1819 realizou-se na cidade de Angostura (hoje Cidade de Bolívar, na Venezuela) uma convenção, com delegados de Casanare e algumas províncias venezuelanas. No mesmo ano Bolívar invadiu Nova Granada e derrotou os espanhóis em Boyacá, em 7 de agosto. Seguiram-se as batalhas de Carabobo (Venezuela), em 1821, e de Pichincha (Equador), em 1822, também vencidas por Bolívar.
Libertado o território colombiano, Bolívar concentrou sua ação no Peru, deixando Santander como vice-presidente da Grande Colômbia. Em 1826, com a expulsão definitiva dos espanhóis do continente, Bolívar regressou a Bogotá, onde suas idéias centralizadoras se chocaram com o federalismo de Santander. Bolívar tornou-se ditador, mas sucessivos atentados e revoltas, além do descontentamento de grande parte de seus antigos partidários, obrigaram-no a renunciar em 1830. Em poucos meses, o que havia sido o vice-reino de Nova Granada fragmentou-se em três estados independentes: Venezuela, Equador e República de Nova Granada, depois Colômbia, na qual estava incluído o território do Panamá.
A partir da guerra civil de 1840-1842 e de hostilidades entre os partidos Liberal e Conservador, instituiu-se uma federação em que o governo central teve poderes muito reduzidos. A constituição de 1858 restaurou um governo nacional forte. A rejeição da constituição pelos liberais levou à chamada "anarquia organizada", ordenada pela constituição de 1863. Um segmento do Partido Liberal, encabeçado por Rafael Núñez, passou então a defender uma reforma constitucional e aliou-se aos conservadores. Disso resultou a constituição de 1886, pela qual a Nova Granada adotou o nome de República da Colômbia, regida por uma constituição unitária que haveria de manter-se, com modificações, durante todo século seguinte.
O presidente Rafael Núñez devolveu à Igreja Católica os privilégios cuja supressão causara uma guerra civil na década anterior. Com sua morte, novas discórdias civis ocorreram entre 1884 e 1895. Anos depois começaria a mais sangrenta das guerras civis colombianas, a guerra dos mil dias (1899-1903), que deixou o país exaurido. Em 1903 o Panamá declarou-se independente, com apoio dos Estados Unidos, interessados em abrir o canal no istmo centro-americano.
Ciclo do café. O mandato do general Rafael Reyes na presidência da república (1904-1909) marcou o princípio de uma lenta recuperação econômica. Em 1914, a Colômbia reconheceu oficialmente a independência do Panamá e recebeu uma indenização no valor de 25 milhões de dólares, paga pelos Estados Unidos. O aumento do comércio exterior, com a exportação de café e o início da exploração de jazidas, conduziu a um processo de industrialização e prosperidade que seria interrompido pela crise mundial de 1929. Os preços do café, do petróleo e da banana, os principais produtos de exportação, caíram vertiginosamente, o que levou a economia do país ao colapso.
O Partido Conservador, no poder desde o final do século XIX, perdeu em 1930 a presidência da república para o Partido Liberal, que se manteve no governo até 1946. Nas eleições realizadas nesse ano, os liberais se dividiram e lançaram dois candidatos, propiciando a vitória ao conservador Mariano Ospina Pérez. Apesar de vitoriosos na eleição, os conservadores só obteriam o controle do Congresso ao impor, em 1949, o estado de sítio, que durou até 1958.
O assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, líder dos trabalhadores e candidato derrotado às eleições presidenciais, em pleno centro de Bogotá, desencadeou a maior rebelião da história da Colômbia, em 9 de abril de 1948. O episódio passou para a história do país com o nome de bogotazo. A violência prolongou-se durante a presidência de Laureano Gómez (1950-1953), que tentou implantar um regime autoritário. Em 1953, o general Gustavo Rojas Pinilla liderou um golpe de estado e, embora louvado como paladino da justiça, foi ainda mais arbitrário que seu antecessor. Numa tentativa de restauração do poder civil, liberais e conservadores formaram a Frente Nacional.
Em 1957 Rojas Pinilla renunciou e um plebiscito incorporou os acordos da Frente Nacional à constituição. No ano seguinte, o presidente Alberto Lleras Camargo instituiu a reforma agrária. Em 1962 assumiu a presidência Guillermo León Valencia. O general Rojas Pinilla foi preso em 1963 sob a acusação de conspirar contra o regime. A crise econômica levou o Congresso a conceder poderes extraordinários a Valencia. A situação continuou a agravar-se no plano político, o que culminou com a reimplantação do estado de sítio em 1965, após distúrbios estudantis.
Em 1966 começou a gestão de Carlos Lleras Restrepo, talvez a mais bem-sucedida da história colombiana. A economia recuperou-se com base num planejamento correto e em reformas políticas essenciais. Ao final de seu governo, a economia apresentava um crescimento anual de 6,9%. Na eleição de 1970, Misael Pastrana Borrero sagrou-se vencedor, derrotando o ex-ditador Rojas Pinilla. Na eleição de 1974, a presidência passou para Alfonso López Michelsen, também liberal, cujo governo enfrentou problemas econômicos. Ainda assim, em 1978 foi eleito outro liberal, Julio Turbay Ayala, contra quem se aliaram manifestações de descontentamento popular e a violência dos movimentos guerrilheiros de esquerda.
Em 1982, elegeu-se o conservador Belisario Betancur Cuartas, mas sua campanha de pacificação nacional foi obstada pelo poder dos traficantes de tóxicos -- o chamado cartel de Medellín -- que em 1970 se implantara no país como poder paralelo. Em 1989, o presidente liberal Virgílio Barco Vargas lançou uma gigantesca ofensiva contra o cartel de Medellín, após os assassinatos de um ministro do Supremo Tribunal e do principal candidato à eleição de 1990, Luis Carlos Galán Sarmiento. Em 1993, na gestão do presidente César Gaviria Trujillo, o chefe do cartel, Pablo Escobar, foi morto quando era caçado por soldados e policiais. Ernesto Samper, que assumiu a presidência em 1994, continuou a combater o narcotráfico, desta vez buscando desmantelar o cartel de Cali.
Fonte: Enciclopédia Barsa.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

ATENA

Embora a mitologia lhe reservasse várias atribuições, em todas elas Atena personificava a serenidade e a sabedoria características do espírito grego.
Zeus, segundo a mitologia grega, para evitar o cumprimento de uma profecia, engoliu sua amante grávida, a oceânide Métis. Depois ordenou a Hefesto que lhe abrisse a cabeça com um golpe de machado e dela nasceu Atena, já armada. Acredita-se que ela era originalmente a deusa-serpente cretense, protetora do lar. Adotada pelos micênicos belicosos, seu caráter tutelar completou-se com o de guerreira. Finalmente, transformou-se na deusa protetora de Atenas e outras cidades da Ática.
Como todos os deuses do Olimpo, Atena tinha um caráter dual: simbolizava a guerra justa e possuía uma disposição pacífica, representando a preponderância da razão e do espírito sobre o impulso irracional. Em Atena residia a alma da cidade e a garantia de sua proteção. Na tragédia Eumênides, Ésquilo deu expressão acabada à figura sábia e prudente de Atena, atribuindo-lhe a fundação do Areópago, conselho de Atenas.
O mito afirma que Atena inventou a roda do oleiro e o esquadro empregado por carpinteiros e pedreiros. As artes metalúrgicas e os trabalhos femininos estavam sob sua proteção; o culto a Atena se baseava no amor ao trabalho e à cidade. Seu principal templo, o Pártenon, ficava em Atenas, onde anualmente celebravam-se em sua honra as Panatenéias e davam-lhe o nome de Atena Partênia. Foi representada por Fídias na célebre estátua do Pártenon, de que se conserva uma cópia romana do século II da era cristã. Os relevos desse templo apresentam sua imagem guerreira, com capacete, lança, escudo e couraça.
Os romanos assimilaram-na à deusa Minerva (que, com Juno e Júpiter, compunha a tríade capitolina) e acentuaram ainda mais seu caráter espiritual, como símbolo da justiça, trabalho e inteligência.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

HISTÓRIA DA QUIMICA

A história da química está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento do homem, já que abarca todas as transformações de matérias e as teorias correspondentes. Com frequência a história da química se relaciona intimamente com a história dos químicos e — segundo a nacionalidade ou tendência política do autor — ressalta em maior ou menor medida os sucessos alcançados num determinado campo ou por uma determinada nação.
A ciência química surge no século XVII a partir dos estudos de alquimia populares entre muitos dos cientistas da época. Considera-se que os princípios básicos da química se recolhem pela primeira vez na obra do cientista britânico Robert Boyle: The Sceptical Chymist (1661). A química, como tal, começa a ser explorada um século mais tarde com os trabalhos do francês Antoine Lavoisier e as suas descobertas em relação ao oxigênio, à lei da conservação da massa e à refutação da teoria do flogisto como teoria da combustão.
Primeiros avanços da química
O princípio do domínio da química (que para alguns antropólogos coincide com o princípio do homem moderno) é o domínio do fogo. Há indícios de que faz mais de 500.000 anos, em tempos do Homo erectus, algumas tribos conseguiram este sucesso que ainda hoje é uma das tecnologias mais importantes. Não só dava luz e calor na noite, como ajudava a proteger-se contra os animais selvagens. Também permitia a preparação de comida cozida. Esta continha menos microorganismos patogênicos e era mais facilmente digerida. Assim, baixava-se a mortalidade e melhoravam as condições gerais de vida.
O fogo também permitia conservar melhor a comida e especialmente a carne e os peixes secando-os e defumando-os.
Desde este momento teve uma relação intensa entre as cozinhas e os primeiros laboratórios químicos até o ponto que a pólvora negra foi descoberta por uns cozinheiros chineses.
Finalmente, foram imprescindíveis para o futuro desenvolvimento da metalurgia materiais como a cerâmica e o vidro, além da maioria dos processos químicos.
A metalurgia
A metalurgia como um dos principais processos de transformação utilizados até hoje em dia começou com o descobrimento do cobre. Ainda que exista na natureza como Elemento químico, a maior parte acha-se em forma de minerais como a calcopirita, a azurita ou a malaquita. Especialmente as últimas são facilmente reduzidas ao metal. Supõe-se que algumas jóias fabricadas de algum destes minerais e caídas acidentalmente ao fogo levaram ao desenvolvimento dos processos correspondentes para obter o metal.
Depois, por experimentação ou como resultado de misturas acidentais se descobriu que as propriedades mecânicas do cobre podiam-se melhorar em suas ligas de metais. Especialmente sucesso teve a liga de metais do cobre com o estanho e traças de outros elementos como o arsênico — liga conhecida como bronze — que se conseguiu de forma aparentemente independente no Oriente Próximo e na China, desde onde se estendeu por quase todo o mundo e que deu o nome à Idade do Bronze.
Umas das minas de estanho mais importantes da Antiguidade se achavam nas Ilhas Britânicas. Originalmente o comércio foi dominado pelos Fenícios. Depois, o controlo deste importante recurso provavelmente fora a razão da invasão romana na Britânia.
Metal incandescente. Os Hititas foram uns dos primeiros em obter o ferro a partir dos seus minerais. Este processo é muito mais complicado já que requer temperaturas mais elevadas e, portanto, a construção de fornos especiais. No entanto, o metal obtido assim era de baixa qualidade com um elevado conteúdo em carbono, tendo que ser melhorado em diversos processos de purificação e, posteriormente, ser forjado. A humanidade demorou séculos para desenvolver os processos atuais de obtenção de aço (geralmente por oxidação das impurezas insuflando oxigênio ou ar no metal fundido, processo conhecido com o nome de "processo de Bessemer"). O seu domínio foi um dos pilares da Revolução Industrial.
Outra meta metalúrgica foi a obtenção do alumínio. Descoberto a princípios do século XIX e, no princípio, obtido por redução dos seus sais com metais alcalinos, destacou pela sua ligeireza. O seu preço superou o do ouro e era tão apreciado que uns talheres presenteados à corte francesa foram fabricados neste metal. Com o descobrimento da síntese por eletrólise e posteriormente o desenvolvimento dos geradores elétricos, o seu preço caiu, abrindo-se novo.
A cerâmica
Outro campo de desenvolvimento que acompanhou o homem desde a Antiguidade até o laboratório moderno é a cerâmica. Suas origens datam da pré-história, quando o homem descobriu que os recipientes feitos de argila mudavam as suas características mecânicas e incrementavam sua resistência frente à água se eram esquentados no fogo. Para controlar melhor o processo desenvolveram-se diferentes tipos de fornos.
No Egipto descobriu-se que, recobrindo a superfície com misturas de determinados minerais (sobretudo misturas baseadas no feldspato e a galena, esta se cobria com uma capa muito dura e brilhante, o esmalte, cuja cor podia variar livremente adicionando pequenas quantidades de outros minerais e/ou condições de aeração no forno). Estas tecnologias difundiram-se rapidamente. Na China aperfeiçoaram-se as tecnologias de fabricação das cerâmicas até descobrir a porcelana no século VII. Somente no século XVIII foi que Johann Friedrich Böttger reinventou o processo em Europa.
Fibra ópticaRelacionado com o desenvolvimento da cerâmica está o desenvolvimento do vidro a partir do quartzo e do carbonato de sódio ou de potássio. O seu desenvolvimento igualmente começou no Antigo Egipto e foi aperfeiçoado pelos romanos.
A sua produção em massa no final do século XVIII obrigou ao governo francês a promover um concurso para a obtenção do carbonato sódico, já que com a fonte habitual - as cinzas da madeira - não se obtinham em quantidades suficientes como para cobrir a crescente demanda. O ganhador foi Nicolas Leblanc, ainda que seu processo caiu em desuso devido ao processo de Solvay, desenvolvido meio século mais tarde, que deu um forte impulso ao desenvolvimento da indústria química.
Sobretudo as necessidades da indústria óptica de vidro de alta qualidade levaram ao desenvolvimento de vidros especiais com adicionados de boratos, aluminosilicatos, fosfatos etc. Assim conseguiram-se vidros com constantes de expansão térmica especialmente baixas, índices de refracção muito elevados ou muito pequenos, etc. Este desenvolvimento impulsionou, por exemplo, a química dos elementos das terras-raras.
Ainda hoje a cerâmica e o vidro são campos abertos à investigação.
A química como ciência
O Alquimista, de Pietro LonghiO filósofo grego Aristóteles pensava que as substâncias estavam formadas por quatro elementos: terra, vento, água e fogo. Paralelamente, discorria outra teoria, o atomismo, que postulava que a matéria estava formada por átomos, partículas indivisíveis que se podiam considerar a unidade mínima da matéria. Esta teoria, proposta pelo filósofo grego Demócrito de Abdera não foi popular na cultura ocidental dado o peso das obras de Aristóteles em Europa. No entanto, tinha seguidores (entre eles Lucrécio) e a idéia ficou presente até o princípio da Idade Moderna.
Entre os séculos III a.C. e o século XVI d.C a química estava dominada pela alquimia. O objetivo de investigação mais conhecido da alquimia era a procura da pedra filosofal, um método hipotético capaz de transformar os metais em ouro. Na investigação alquímica desenvolveram-se novos produtos químicos e métodos para a separação de elementos químicos. Deste modo foram-se assentando os pilares básicos para o desenvolvimento de uma futura química experimental.
Antoine Lavoisier é considerado o pai da química modernaA química, como é concebida actualmente, começa a desenvolver-se entre os séculos XVI e XVII. Nesta época estudou-se o comportamento e propriedades dos gáses estabelecendo-se técnicas de medição. Pouco a pouco foi-se desenvolvendo e refinando o conceito de elemento como uma substância elementar que não podia ser descomposto em outras. Também esta época desenvolveu-se a teoria do flogisto para explicar os processos de combustão.
Por volta do século XVIII a química adquire definitivamente as características de uma ciência experimental. Desenvolvem-se métodos de medição cuidadosos que permitem um melhor conhecimento de alguns fenômenos, como o da combustão da matéria, descobrindo Antoine Lavoisier o oxigênio e assentando finalmente os pilares fundamentais da química moderna.
O vitalismo e o começo da química orgânica
Friedrich WöhlerTão cedo se compreendessem os princípios da combustão, outro debate de grande importância apoderou-se da química: o vitalismo e a distinção essencial entre a matéria orgânica e inorgânica. Esta teoria assumia que a matéria orgânica só podia ser produzida pelos seres vivos atribuindo este facto a uma vis vitalis (força ou energia vital) inerente na própria vida. A base desta teoria era a dificuldade de obter matéria orgânica a partir de precursores inorgânicos.
Este debate foi revolucionado quando Friedrich Wöhler descobriu acidentalmente como se podia sintetizar a ureia a partir do cianato de amónio, em 1828, mostrando que a matéria orgânica podia criar-se de maneira química. No entanto, ainda hoje se mantém a classificação em química orgânica e inorgânica, ocupando-se a primeira essencialmente dos compostos do carbono e a segunda dos compostos dos demais elementos.
Os motores para o desenvolvimento da química orgânica eram, no princípio, a curiosidade sobre os produtos presentes nos seres vivos (provavelmente com a esperança de encontrar novos fármacos) e a síntese dos corantes ou tinturas. A última surgiu depois da descoberta da anilina por Runge e a primeira síntese de um corante artificial por Perkin.
Depois adicionaram-se os novos materiais como os plásticos, os adesivos, os cristais líquidos, os fitossanitários, etc.
Até à Segunda Guerra Mundial a principal matéria-prima da indústria química orgânica era o carvão, dada a grande importância da Europa no desenvolvimento desta parte da ciência e o facto de que em Europa não há grandes jazigos de alternativas como o petróleo.
Com o final da segunda guerra mundial e o crescente peso dos Estados Unidos no sector químico, a química orgânica clássica se converte cada vez mais na petroquímica que conhecemos hoje. Uma das principais razões era a maior facilidade de transformação e a grande variedade de produtos derivados do petróleo.
A tabela periódica e a descoberta dos elementos químicos
Retrato de Dmitri Mendeleyev por Ilya RepinEm 1860, os cientistas já tinham descoberto mais de 60 elementos químicos diferentes e tinham determinado sua massa atômica. Notaram que alguns elementos tinham propriedades químicas similares pelo que deram um nome a cada grupo de elementos parecidos.
Em 1829, o químico J. W. Döbenreiner organizou um sistema de classificação de elementos no qual estes agrupavam-se em grupos de três denominados tríades. As propriedades químicas dos elementos de uma tríade eram similares e suas propriedades físicas variavam de maneira ordenada com sua massa atômica.
Alguns anos mais tarde, o químico russo Dmitri Ivanovich Mendeleyev desenvolveu uma tabela periódica dos elementos segundo a ordem crescente das suas massas atômicas. Dispôs os elementos em colunas verticais começando pelos mais levianos e, quando chegava a um elemento que tinha propriedades semelhantes às de outro elemento, começava outra coluna. Em pouco tempo Mendeleiev aperfeiçoou a sua tabela acomodando os elementos em filas horizontais.
O seu sistema permitiu-lhe predizer com bastante exatidão as propriedades de elementos não descobertos até o momento. A grande semelhança do germânio com o elemento previsto por Mendeleyev conseguiu finalmente a aceitação geral deste sistema de ordenação que ainda hoje segue-se aplicando.
Desenvolvimento da teoria atômica
Ao longo do século XIX a química estava dividida entre os seguidores da teoria atómica e aqueles que não a subscreviam, como Wilhelm Ostwald e Ernst Mach. Os impulsores mais decididos da teoria atômica foram Amedeo Avogadro, Ludwig Boltzmann e outros, que conseguiram grandes avanços no entendimento do comportamento dos gases. A disputa foi finalizada com a explicação do efeito Browniano por Albert Einstein em 1905 e pelos experimentos de Jean Perrin a respeito.
Muito antes que a disputa tivesse sido resolvida muitos pesquisadores tinham trabalhado sob a hipótese atômica. Svante Arrhenius tinha pesquisado a estrutura interna dos átomos propondo a sua teoria da ionização. O seu trabalho foi seguido por Ernest Rutherford, quem abriu as portas ao desenvolvimento dos primeiros modelos de átomos que desembocariam no modelo atômico de Niels Bohr. Na actualidade o estudo da estrutura do átomo considera-se um ramo da física e não da química.

 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

ALEXANDRE, O MAIOR

Em apenas 11 anos, um jovem general e seu furioso exército deixaram a Grécia, o coração do mundo antigo, e conquistaram um território maior que o Império Romano
O pequeno Alexandre gostava de desafios. E dos grandes. Aos 9 anos de idade acompanhou o pai, Felipe II, a uma feira de cavalos. O monarca da Macedônia passava diante dos animais olhando-os com a cobiça que os homens hoje reservam aos carros possantes. Já tinha separado algumas Ferrari e Mercedes quando um corcel negro lhe foi oferecido. Ele era lindo, uma montanha de ossos e músculos imponente, a montaria de um rei. Felipe o queria e seus assessores se apressaram em adquiri-lo, mas depararam com um problema: ninguém conseguia montá-lo. Estavam para desistir da compra quando o jovem Alexandre disse que aquilo não era motivo para dispensar o animal. Felipe, então, desafiou o filho a domá-lo. O menino sabia montar, mas sabia também que para enfrentar um animal daquele tamanho não bastariam força e habilidade, era preciso estratégia. Com habilidade incomum, Alexandre puxou a cabeça do cavalo em direção ao Sol. A cegueira momentânea confundiu o animal e deu tempo para que ele pudesse dominá-lo. Emocionado, papai Felipe não se conteve. “Garoto, você precisa encontrar um reino grande o suficiente para suas ambições. A Macedônia é muito pequena para você.” O próprio Alexandre adorava contar essa história, segundo relata o historiador grego Calístenes, que viveu de 346 a 289 a.C. e acompanhou muitas das expedições militares do rei.
Nem o oráculo de Delfos faria uma previsão tão precisa. Em pouco mais de uma década, Alexandre da Macedônia conquistou o Egito, a Mesopotâmia e a Pérsia e foi além das fronteiras conhecidas pelos gregos, chegando à região que hoje é o Paquistão. “O Império Romano teve 1 milhão de quilômetros quadrados. O de Alexandre foi além disso”, diz Ettore Quaranta, professor de história da Antiguidade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tudo isso antes de completar 33 anos. Não foi à toa que Alexandre III passou à história como “O Grande".
“Ele foi um gênio militar, provavelmente o maior general que o mundo já viu”, afirma o historiador britânico Peter Green, professor da Universidade do Texas, Estados Unidos, e autor de Alexander The Macedon: 356-323 b.C:
A Historical Biography (“Alexandre, o Grande, 356-323 a.C: Uma Biografia Histórica”, inédito no Brasil). “Muitas vezes, por puro brilhantismo pessoal, ele conseguiu obter sucesso de derrotas prováveis. Ele era mais rápido, mais flexível, mais criativo que aqueles contra quem lutou”, diz Green. Segundo ele, Alexandre tinha o carisma necessário para levar soldados veteranos adiante e para seduzir novos recrutas por onde passava. “Ele os fez seguir por milhares de quilômetros e 11 longos anos, enfrentando batalhas terríveis.”
Berço de ferro
O menino precoce teve a quem puxar. Seu pai, Felipe II, assumiu o poder na Macedônia em 359 a.C. e iniciou uma política expansionista voraz. Invadiu a Grécia e unificou as cidades-estado gregas, exceto Esparta, criando a Liga Coríntia e governando com mão de ferro. Felipe, porém, tinha pretensões ainda mais ousadas. Ele queria realizar uma espécie de cruzada contra os persas para vingar as invasões realizadas no século 5 a.C., quando os exércitos de Xerxes conquistaram grande parte da Grécia, destruindo Atenas em 479 a.C.
Mas não teve tempo. Felipe morreu em 336 a.C., apunhalado por um guarda-costas – não se sabe se resultado de uma vingança pessoal ou de um complô. Aos 20 anos, Alexandre herdou do pai a liderança dos exércitos e o desejo de vingança contra os persas. No entanto, seu primeiro desafio foi enfrentar um levante em Tebas, que revoltara-se contra a liderança macedônia. Alexandre foi impiedoso. Seus homens invadiram a cidade e a destruíram completamente. No ataque, 6 mil tebanos foram mortos e 30 mil escravizados.
Após reafirmar sua liderança sobre os gregos, o jovem macedônio não tinha mais tempo a perder no Peloponeso (a parte continental da Grécia). Seu objetivo agora era retaliar os persas e seguir para a Ásia Menor. A região, uma província dos aquêmidas, foi tomada dos gregos um século antes e incorporada ao Império Persa. Para recuperá-la, Alexandre atravessou o Helesponto – o atual estreito de Dardanelos – com 32 mil soldados. Uniu-se às tropas de seu pai que permaneciam por ali e convocou todos a lutar.
Primeiras vitórias
Em 334 a.C, Alexandre chegou às margens do rio Grânico e lá aguardou a chegada de seus oponentes. Posicionado em uma das margens, frente a frente com o exército inimigo, ele tinha sob seu comando 13 mil soldados a pé e 5 mil cavaleiros. Do alto de uma colina ele viu se aproximarem cerca de 5 mil soldados e uma cavalaria de 10 mil conjuntos. Era o momento de cumprir a profecia de seu pai. Mas agora não haveria truques. “Suas armas eram a dedicação absoluta de seus homens, que o admiravam e confiavam nele, e uma estratégia militar prodigiosa, outra herança de Felipe II”, diz Robert Lovett, professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. “Nesse dia, os persas experimentaram a força da temível ‘falange macedônia’.
A tática consistia de armar colunas de infantaria com longas lanças, com até 5 metros de comprimento. Os homens avançavam em fileiras compactas, transformando-se numa poderosa força ofensiva”, afirma Lovett, especialista em táticas militares e autor de Warfare (“Guerra”, sem versão em português). Foi um terrível combate. O exército dos aquêmidas, formado em sua maioria por mercenários, foi derrotado. Apenas 2 mil sobreviveram e foram enviados ao Peloponeso como escravos.
O avanço de Alexandre chegou rápido aos ouvidos do imperador persa, Dario III, que decidiu deslocar seu poderoso exército estacionado em Susa, uma das principais cidades persas. As duas forças se encontraram em Issus. Dario contava com cerca de 50 mil homens, 10 mil a mais que Alexandre. A vantagem numérica, no entanto, não lhe foi suficiente. “Apesar de perder grande parte de seu contingente, a cavalaria macedônia conseguiu furar o bloqueio persa e abriu o caminho para os falangistas. Daí para a frente, a vitória trocou de lado”, diz Lovett. Diante da derrota iminente, Dario fugiu, mas deixou para trás a própria mãe e a mulher grávida, que foram presas.
Alexandre seguiu para a Fenícia – atual Líbano – levando Sisygambis, mãe de Dario, e os familiares de oficiais persas capturados. Dario tentou negociar o resgate dos parentes oferecendo dinheiro e terras, mas Alexandre achou pouco. Enquanto continuava sua marcha rumo ao centro do poder inimigo, o exército invasor foi conquistando as cidades que viviam sob o domínio aquêmida. Aquelas que não se renderam se arrependeram.
Uma delas foi Tiro. A principal cidade fenícia era protegida por muralhas e ficava em uma ilha a 800 metros da costa. Durante sete meses o exército de Alexandre construiu um dique de 60 metros de largura até a entrada de Tiro. Mas os portões da cidade resistiram e, furioso, Alexandre mudou de planos. Trouxe e armou uma pequena frota que atacou e derrubou os muros de Tiro, invadindo a cidade e matando cerca de 8 mil pessoas. O relato de Calístenes dá conta de que cerca de 2 mil homens foram crucificados. Se isso é verdade, é difícil saber. Mas o certo é que Dario ficou muito impressionado com as notícias, tanto que fez uma nova oferta de paz. E novamente ela foi inútil.
Da costa fenícia, o exército macedônio foi em direção ao delta do rio Nilo. Depois de dois séculos sob o domínio persa, os egípcios os receberam como libertadores. O místico Alexandre viajou mais de mil quilômetros pelo deserto até chegar a Siwa, onde ficava o oráculo de Amon. O líder macedônio, que acreditava ser descendente dos heróis mitológicos Aquiles e Hércules e do próprio deus Dionísio, foi recebido como filho do deus solar. “O oráculo previu que ele conquistaria o mundo. Fortalecido por suas vitórias militares e espiritualmente, Alexandre não via mais barreiras para aniquilar de vez o exército persa”, afirma Green.
A caça a Dario
A conquista do Egito deu tempo a Dario para que ele reunisse um novo exército. Dois anos depois da derrota em Issus, o líder persa estava pronto para a revanche. Ele e cerca de 25 mil cavaleiros e 50 mil soldados vindos das províncias orientais do império. Alexandre avançou vindo do oeste e chegou a Gaugamela – região que hoje fica ao norte do Iraque – com apenas 7 mil homens montados e 40 mil a pé. Mais uma vez, a desvantagem numérica não foi obstáculo para a vitória do macedônio. Mas Dario tornou a escapar.
Alexandre seguiu triunfante para a Babilônia, onde, assim como no Egito, foi recebido como herói. Os orgulhosos babilônios haviam sido subjugados pelos persas e humilhados com a destruição de seus símbolos sagrados. Para Alexandre, a Babilônia tinha ainda um gosto especial. Era a última grande cidade que o separava da Pérsia. De agora em diante, os combates se dariam no quintal do inimigo. O líder macedônio anunciou que todas as tiranias haviam sido abolidas e que todos os povos poderiam viver sob suas próprias leis. Desde que fiéis ao seu controle, é claro.
Apenas dois meses foram necessários para Alexandre reunir reforços, descansar seus homens, curar os feridos e partir para Susa. As defesas da cidade, centro comercial e administrativo do império, não lhe foram páreo. Ele invadiu a cidade e se fez coroar como Grande Rei de Gregos e Asiáticos. “Aos 25 anos de idade, Alexandre sentou-se no trono que havia pertencido a Dario. Como era baixinho e o persa tinha quase 2 metros de altura, seus pés não tocaram o chão”, afirma o historiador britânico John Maxwell O’Brien, no livro Alexander The Great: The Invisible Enemy (“Alexandre o Grande: O Inimigo Invisível”, sem versão em português). Mas faltava a presa principal, Dario. Para surpresa de seus generais, Alexandre anunciou que partiria imediatamente para Persépolis, o coração do império. Na noite, antes de partir, depois de uma de bebedeira, Alexandre e seus amigos colocaram fogo na cidade.
A fuga de Dario terminou em 330 a.C. O líder persa foi assassinado, não por seus inimigos gregos ou macedônios, mas por um de seus parentes, um homem chamado Bessus, que governava a Báctria – atual Afeganistão.
Sem Dario, Persépolis, a capital do império, prostrou-se ao pés de Alexandre. Não houve combates. O rei e seus homens invadiram o belíssimo palácio imperial e saquearam cerca de 3 toneladas de ouro e prata. Em outra de suas comemorações, a cidade toda foi incendiada. Calístenes escreveu que, passada a ressaca, o macedônio se arrependeu. Típico papo de bêbado.
A vingança estava concluída. Mas Alexandre ainda não ficara satisfeito. Ele queria conquistar uma região que nos mapas gregos da época recebia o sugestivo nome de “Terra Incógnita”, que ficava muito além das fronteiras persas. O problema era convencer seus homens, há cinco anos na estrada, a irem adiante.
Volta para casa
Além de loucos para voltar, os macedônios estavam incomodados com a “orientalização” de seu líder. Alexandre adotou o modo de vida persa, que sempre criticou. Os gregos consideravam os persas como bárbaros, criticando seus hábitos nômades, o gosto pelos tecidos luxuosos. Para eles, isso era sinal da fraqueza dos persas. Agora, seu líder estava se tornando um deles.
O descontentamento provocou revoltas entre os oficiais. Mesmo assim, Alexandre levou suas tropas adiante. Passou dois anos na Báctria. Ali, sofreu mais baixas que contra os persas, principalmente devido às duras condições a que submeteu seus homens durante a travessia das montanhas do Hindu Kush. Lutaram contra os marajás do Sind (Paquistão) e do Punjab (Índia) e chegaram às margens do rio Indo.
Em 326 a.C., um motim daria fim à marcha rumo ao Extremo Oriente. “Alexandre disse que queria alcançar a costa do Grande Oceano e pensou que iria atingi-lo indo um pouco mais ao leste. No lugar, ele encontrou o planalto do Ganges. Isso e três monções levaram sua tropa a se rebelar”, afirma Green. Contrariado, Alexandre teve de retroceder.
A volta iniciou-se no ano seguinte. Parte do exército seguiu pelo mar, através do oceano Índico, até o golfo Pérsico. Alexandre liderou as tropas restantes, que atravessaram o deserto de Gedrósia. A viagem foi desastrosa. Estima-se que ele tenha entrado na região com 60 mil soldados e, depois de 60 dias, apenas 15 mil conseguiram sobreviver à falta de água e de suprimentos. “Foi terrível. Foi como se ele tivesse descido ao inferno, exatamente como os heróis mitológicos”, diz o professor Ettore Quaranta.
Depois da desastrosa marcha, Alexandre reuniu suas tropas na Babilônia e, por fim, sossegou. Ali, entre uma festa e outra, ele planejou anexar a península Arábica e promover uma expedição à poderosa Cartago, no norte da África. Porém, após uma dessas bebedeiras, em maio de 323 a.C., Alexandre caiu de cama com febre alta, provavelmente causada por uma malária, e nunca mais se levantou. Pouco antes de completar 33 anos, o homem mais poderoso do mundo morreu de causas desconhecidas.
Tão rápido como surgiu, o poder acumulado por Alexandre esvaiu-se. Sem um herdeiro que pudesse exercer a liderança sobre um território tão vasto, habitado por povos tão diferentes, o império de Alexandre não sobreviveu à sua morte e acabou dividido entre seus generais. Antígono, que governava a Macedônia, fundou sua própria dinastia. Os descendentes de Seleuco ficaram com a maior parte, que ia de Antióquia a Selêucia (atual Iraque). A Ásia Menor se separou e vários pequenos reinos se tornaram independentes. No Egito, Ptolomeu fundou uma nova dinastia, que reinaria por três séculos. Cleópatra, a última governante helênica, caiu frente aos romanos, em 30 a.C.
Isabelle Somma