sexta-feira, 14 de setembro de 2012

ALEXANDRE, O MAIOR

Em apenas 11 anos, um jovem general e seu furioso exército deixaram a Grécia, o coração do mundo antigo, e conquistaram um território maior que o Império Romano
O pequeno Alexandre gostava de desafios. E dos grandes. Aos 9 anos de idade acompanhou o pai, Felipe II, a uma feira de cavalos. O monarca da Macedônia passava diante dos animais olhando-os com a cobiça que os homens hoje reservam aos carros possantes. Já tinha separado algumas Ferrari e Mercedes quando um corcel negro lhe foi oferecido. Ele era lindo, uma montanha de ossos e músculos imponente, a montaria de um rei. Felipe o queria e seus assessores se apressaram em adquiri-lo, mas depararam com um problema: ninguém conseguia montá-lo. Estavam para desistir da compra quando o jovem Alexandre disse que aquilo não era motivo para dispensar o animal. Felipe, então, desafiou o filho a domá-lo. O menino sabia montar, mas sabia também que para enfrentar um animal daquele tamanho não bastariam força e habilidade, era preciso estratégia. Com habilidade incomum, Alexandre puxou a cabeça do cavalo em direção ao Sol. A cegueira momentânea confundiu o animal e deu tempo para que ele pudesse dominá-lo. Emocionado, papai Felipe não se conteve. “Garoto, você precisa encontrar um reino grande o suficiente para suas ambições. A Macedônia é muito pequena para você.” O próprio Alexandre adorava contar essa história, segundo relata o historiador grego Calístenes, que viveu de 346 a 289 a.C. e acompanhou muitas das expedições militares do rei.
Nem o oráculo de Delfos faria uma previsão tão precisa. Em pouco mais de uma década, Alexandre da Macedônia conquistou o Egito, a Mesopotâmia e a Pérsia e foi além das fronteiras conhecidas pelos gregos, chegando à região que hoje é o Paquistão. “O Império Romano teve 1 milhão de quilômetros quadrados. O de Alexandre foi além disso”, diz Ettore Quaranta, professor de história da Antiguidade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tudo isso antes de completar 33 anos. Não foi à toa que Alexandre III passou à história como “O Grande".
“Ele foi um gênio militar, provavelmente o maior general que o mundo já viu”, afirma o historiador britânico Peter Green, professor da Universidade do Texas, Estados Unidos, e autor de Alexander The Macedon: 356-323 b.C:
A Historical Biography (“Alexandre, o Grande, 356-323 a.C: Uma Biografia Histórica”, inédito no Brasil). “Muitas vezes, por puro brilhantismo pessoal, ele conseguiu obter sucesso de derrotas prováveis. Ele era mais rápido, mais flexível, mais criativo que aqueles contra quem lutou”, diz Green. Segundo ele, Alexandre tinha o carisma necessário para levar soldados veteranos adiante e para seduzir novos recrutas por onde passava. “Ele os fez seguir por milhares de quilômetros e 11 longos anos, enfrentando batalhas terríveis.”
Berço de ferro
O menino precoce teve a quem puxar. Seu pai, Felipe II, assumiu o poder na Macedônia em 359 a.C. e iniciou uma política expansionista voraz. Invadiu a Grécia e unificou as cidades-estado gregas, exceto Esparta, criando a Liga Coríntia e governando com mão de ferro. Felipe, porém, tinha pretensões ainda mais ousadas. Ele queria realizar uma espécie de cruzada contra os persas para vingar as invasões realizadas no século 5 a.C., quando os exércitos de Xerxes conquistaram grande parte da Grécia, destruindo Atenas em 479 a.C.
Mas não teve tempo. Felipe morreu em 336 a.C., apunhalado por um guarda-costas – não se sabe se resultado de uma vingança pessoal ou de um complô. Aos 20 anos, Alexandre herdou do pai a liderança dos exércitos e o desejo de vingança contra os persas. No entanto, seu primeiro desafio foi enfrentar um levante em Tebas, que revoltara-se contra a liderança macedônia. Alexandre foi impiedoso. Seus homens invadiram a cidade e a destruíram completamente. No ataque, 6 mil tebanos foram mortos e 30 mil escravizados.
Após reafirmar sua liderança sobre os gregos, o jovem macedônio não tinha mais tempo a perder no Peloponeso (a parte continental da Grécia). Seu objetivo agora era retaliar os persas e seguir para a Ásia Menor. A região, uma província dos aquêmidas, foi tomada dos gregos um século antes e incorporada ao Império Persa. Para recuperá-la, Alexandre atravessou o Helesponto – o atual estreito de Dardanelos – com 32 mil soldados. Uniu-se às tropas de seu pai que permaneciam por ali e convocou todos a lutar.
Primeiras vitórias
Em 334 a.C, Alexandre chegou às margens do rio Grânico e lá aguardou a chegada de seus oponentes. Posicionado em uma das margens, frente a frente com o exército inimigo, ele tinha sob seu comando 13 mil soldados a pé e 5 mil cavaleiros. Do alto de uma colina ele viu se aproximarem cerca de 5 mil soldados e uma cavalaria de 10 mil conjuntos. Era o momento de cumprir a profecia de seu pai. Mas agora não haveria truques. “Suas armas eram a dedicação absoluta de seus homens, que o admiravam e confiavam nele, e uma estratégia militar prodigiosa, outra herança de Felipe II”, diz Robert Lovett, professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. “Nesse dia, os persas experimentaram a força da temível ‘falange macedônia’.
A tática consistia de armar colunas de infantaria com longas lanças, com até 5 metros de comprimento. Os homens avançavam em fileiras compactas, transformando-se numa poderosa força ofensiva”, afirma Lovett, especialista em táticas militares e autor de Warfare (“Guerra”, sem versão em português). Foi um terrível combate. O exército dos aquêmidas, formado em sua maioria por mercenários, foi derrotado. Apenas 2 mil sobreviveram e foram enviados ao Peloponeso como escravos.
O avanço de Alexandre chegou rápido aos ouvidos do imperador persa, Dario III, que decidiu deslocar seu poderoso exército estacionado em Susa, uma das principais cidades persas. As duas forças se encontraram em Issus. Dario contava com cerca de 50 mil homens, 10 mil a mais que Alexandre. A vantagem numérica, no entanto, não lhe foi suficiente. “Apesar de perder grande parte de seu contingente, a cavalaria macedônia conseguiu furar o bloqueio persa e abriu o caminho para os falangistas. Daí para a frente, a vitória trocou de lado”, diz Lovett. Diante da derrota iminente, Dario fugiu, mas deixou para trás a própria mãe e a mulher grávida, que foram presas.
Alexandre seguiu para a Fenícia – atual Líbano – levando Sisygambis, mãe de Dario, e os familiares de oficiais persas capturados. Dario tentou negociar o resgate dos parentes oferecendo dinheiro e terras, mas Alexandre achou pouco. Enquanto continuava sua marcha rumo ao centro do poder inimigo, o exército invasor foi conquistando as cidades que viviam sob o domínio aquêmida. Aquelas que não se renderam se arrependeram.
Uma delas foi Tiro. A principal cidade fenícia era protegida por muralhas e ficava em uma ilha a 800 metros da costa. Durante sete meses o exército de Alexandre construiu um dique de 60 metros de largura até a entrada de Tiro. Mas os portões da cidade resistiram e, furioso, Alexandre mudou de planos. Trouxe e armou uma pequena frota que atacou e derrubou os muros de Tiro, invadindo a cidade e matando cerca de 8 mil pessoas. O relato de Calístenes dá conta de que cerca de 2 mil homens foram crucificados. Se isso é verdade, é difícil saber. Mas o certo é que Dario ficou muito impressionado com as notícias, tanto que fez uma nova oferta de paz. E novamente ela foi inútil.
Da costa fenícia, o exército macedônio foi em direção ao delta do rio Nilo. Depois de dois séculos sob o domínio persa, os egípcios os receberam como libertadores. O místico Alexandre viajou mais de mil quilômetros pelo deserto até chegar a Siwa, onde ficava o oráculo de Amon. O líder macedônio, que acreditava ser descendente dos heróis mitológicos Aquiles e Hércules e do próprio deus Dionísio, foi recebido como filho do deus solar. “O oráculo previu que ele conquistaria o mundo. Fortalecido por suas vitórias militares e espiritualmente, Alexandre não via mais barreiras para aniquilar de vez o exército persa”, afirma Green.
A caça a Dario
A conquista do Egito deu tempo a Dario para que ele reunisse um novo exército. Dois anos depois da derrota em Issus, o líder persa estava pronto para a revanche. Ele e cerca de 25 mil cavaleiros e 50 mil soldados vindos das províncias orientais do império. Alexandre avançou vindo do oeste e chegou a Gaugamela – região que hoje fica ao norte do Iraque – com apenas 7 mil homens montados e 40 mil a pé. Mais uma vez, a desvantagem numérica não foi obstáculo para a vitória do macedônio. Mas Dario tornou a escapar.
Alexandre seguiu triunfante para a Babilônia, onde, assim como no Egito, foi recebido como herói. Os orgulhosos babilônios haviam sido subjugados pelos persas e humilhados com a destruição de seus símbolos sagrados. Para Alexandre, a Babilônia tinha ainda um gosto especial. Era a última grande cidade que o separava da Pérsia. De agora em diante, os combates se dariam no quintal do inimigo. O líder macedônio anunciou que todas as tiranias haviam sido abolidas e que todos os povos poderiam viver sob suas próprias leis. Desde que fiéis ao seu controle, é claro.
Apenas dois meses foram necessários para Alexandre reunir reforços, descansar seus homens, curar os feridos e partir para Susa. As defesas da cidade, centro comercial e administrativo do império, não lhe foram páreo. Ele invadiu a cidade e se fez coroar como Grande Rei de Gregos e Asiáticos. “Aos 25 anos de idade, Alexandre sentou-se no trono que havia pertencido a Dario. Como era baixinho e o persa tinha quase 2 metros de altura, seus pés não tocaram o chão”, afirma o historiador britânico John Maxwell O’Brien, no livro Alexander The Great: The Invisible Enemy (“Alexandre o Grande: O Inimigo Invisível”, sem versão em português). Mas faltava a presa principal, Dario. Para surpresa de seus generais, Alexandre anunciou que partiria imediatamente para Persépolis, o coração do império. Na noite, antes de partir, depois de uma de bebedeira, Alexandre e seus amigos colocaram fogo na cidade.
A fuga de Dario terminou em 330 a.C. O líder persa foi assassinado, não por seus inimigos gregos ou macedônios, mas por um de seus parentes, um homem chamado Bessus, que governava a Báctria – atual Afeganistão.
Sem Dario, Persépolis, a capital do império, prostrou-se ao pés de Alexandre. Não houve combates. O rei e seus homens invadiram o belíssimo palácio imperial e saquearam cerca de 3 toneladas de ouro e prata. Em outra de suas comemorações, a cidade toda foi incendiada. Calístenes escreveu que, passada a ressaca, o macedônio se arrependeu. Típico papo de bêbado.
A vingança estava concluída. Mas Alexandre ainda não ficara satisfeito. Ele queria conquistar uma região que nos mapas gregos da época recebia o sugestivo nome de “Terra Incógnita”, que ficava muito além das fronteiras persas. O problema era convencer seus homens, há cinco anos na estrada, a irem adiante.
Volta para casa
Além de loucos para voltar, os macedônios estavam incomodados com a “orientalização” de seu líder. Alexandre adotou o modo de vida persa, que sempre criticou. Os gregos consideravam os persas como bárbaros, criticando seus hábitos nômades, o gosto pelos tecidos luxuosos. Para eles, isso era sinal da fraqueza dos persas. Agora, seu líder estava se tornando um deles.
O descontentamento provocou revoltas entre os oficiais. Mesmo assim, Alexandre levou suas tropas adiante. Passou dois anos na Báctria. Ali, sofreu mais baixas que contra os persas, principalmente devido às duras condições a que submeteu seus homens durante a travessia das montanhas do Hindu Kush. Lutaram contra os marajás do Sind (Paquistão) e do Punjab (Índia) e chegaram às margens do rio Indo.
Em 326 a.C., um motim daria fim à marcha rumo ao Extremo Oriente. “Alexandre disse que queria alcançar a costa do Grande Oceano e pensou que iria atingi-lo indo um pouco mais ao leste. No lugar, ele encontrou o planalto do Ganges. Isso e três monções levaram sua tropa a se rebelar”, afirma Green. Contrariado, Alexandre teve de retroceder.
A volta iniciou-se no ano seguinte. Parte do exército seguiu pelo mar, através do oceano Índico, até o golfo Pérsico. Alexandre liderou as tropas restantes, que atravessaram o deserto de Gedrósia. A viagem foi desastrosa. Estima-se que ele tenha entrado na região com 60 mil soldados e, depois de 60 dias, apenas 15 mil conseguiram sobreviver à falta de água e de suprimentos. “Foi terrível. Foi como se ele tivesse descido ao inferno, exatamente como os heróis mitológicos”, diz o professor Ettore Quaranta.
Depois da desastrosa marcha, Alexandre reuniu suas tropas na Babilônia e, por fim, sossegou. Ali, entre uma festa e outra, ele planejou anexar a península Arábica e promover uma expedição à poderosa Cartago, no norte da África. Porém, após uma dessas bebedeiras, em maio de 323 a.C., Alexandre caiu de cama com febre alta, provavelmente causada por uma malária, e nunca mais se levantou. Pouco antes de completar 33 anos, o homem mais poderoso do mundo morreu de causas desconhecidas.
Tão rápido como surgiu, o poder acumulado por Alexandre esvaiu-se. Sem um herdeiro que pudesse exercer a liderança sobre um território tão vasto, habitado por povos tão diferentes, o império de Alexandre não sobreviveu à sua morte e acabou dividido entre seus generais. Antígono, que governava a Macedônia, fundou sua própria dinastia. Os descendentes de Seleuco ficaram com a maior parte, que ia de Antióquia a Selêucia (atual Iraque). A Ásia Menor se separou e vários pequenos reinos se tornaram independentes. No Egito, Ptolomeu fundou uma nova dinastia, que reinaria por três séculos. Cleópatra, a última governante helênica, caiu frente aos romanos, em 30 a.C.
Isabelle Somma


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