terça-feira, 11 de setembro de 2012

CENTRAL DO BRASIL

Um dos maiores méritos do novo cinema brasileiro reside na importância dada pelos cineastas ao grande público. Cada vez mais se percebe que a linguagem dos filmes deve ser acessível e que, tramas muito complexas ou que pretendem atingir a uma elite intelectualizada não atraem grandes contingentes de espectadores. Isso não quer dizer que os roteiros tenham que abdicar da inteligência, afinal de contas, popular não quer dizer culturalmente pobre, dispondo de parcos recursos visuais, linguísticos, de fotografia, cenografia, vestuário ou música. O reconhecimento das qualidades dessa produção brasileira tem sido feito dentro e fora do país, através dos institutos especializados, da crítica jornalística, da expressiva bilheteria obtida além-mar e, principalmente, da boa receptividade em festivais e premiações que ocorrem em diversas partes do planeta.
"Central do Brasil" de Walter Salles (que, apesar de não possuir ainda uma vasta produção cinematográfica, já se tornou um dos ícones desse novo período do cinema nacional, diga-se de passagem, merecidamente) é um desses filmes brasileiros que fizeram uma carreira internacional de grande destaque, tendo sido inclusive indicado aos Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor atriz (para Fernanda Montenegro), o que levou o Brasil a viver um autêntico clima de Copa do Mundo naquele ano, tamanha era a torcida pelo sucesso de nossos conterrâneos nessa disputa (perdemos para "A Vida é Bela").
As qualidades do filme já foram analisadas em diversos artigos, mundo afora, principalmente no que se refere aos quesitos fílmicos, sendo-lhe atribuídas elogiosas referências na maior parte dessas publicações, no entanto, "Central" deve ser observado como um ótimo material para entender o Brasil, para que possamos esclarecê-lo para nossos alunos.
A história de Dora (Fernanda Montenegro, em atuação excepcional), que escreve cartas na estação Central do Brasil para pessoas analfabetas já constitui um quadro ao qual devemos nos ater. Quantas e quantas pessoas nesse país-continente ainda não sabem ler ou escrever? Que consequências o drama do analfabetismo traz para nosso país? Dá para imaginar o que significa não ser capaz de ler uma placa, um cartaz, o letreiro de um ônibus ou um artigo de jornal? Será que algum dia conseguiremos deixar para trás essa tremenda maldade a que estão submetidos alguns milhões de brasileiros? O que podemos fazer para superar essa chaga que anualmente mata milhares de possibilidades para cada um desses analfabetos?
O encontro de Dora com Josué (Vinicius de Oliveira, estreando com o pé direito, numa interpretação de encher os olhos), um menino que perde a mãe num acidente (e que está a milhares de quilometros do pai, que mora no Nordeste) e que subitamente se vê abandonado numa estação rodoviária sem qualquer perspectiva de salvação pode parecer providencial e, assim o seria se estivéssemos falando de um filme com final previsível, o que não é o caso dessa obra de Walter Salles Jr.
Dora não é nenhuma santa, pelo contrário, é pecadora dessas que imaginamos poder arder no inferno. Ela cobra para escrever e enviar as cartas para pessoas que vivem a margem desse incrível mundo das letras mas nunca as envia. Se apropria de casos, intimidades e detalhes da vida dessa gente sem que eles se deêm conta disso e não permite que o que lhe foi comunicado chegue as pessoas as quais se destinavam verdadeiramente essas notícias. Ironicamente ela passa a ser portadora de uma nova mensagem, em carne e osso, que responde pelo nome de Josué, sem que nem ao menos estivesse interessada nisso.
Como não queria perder tempo com o menino, chega a oferecê-lo a um traficante de orgãos e vende-o sem grandes problemas para sua consciência. Chegamos a outro ponto importante do filme, nesse momento percebemos a perniciosidade do capitalismo num país atrasado como o nosso. Vender crianças, orgãos, negociar seres humanos em troca de dólares no lucrativo e ilícito mercado negro (movimentado por verdadeiras máfias ao redor do globo) constitui o ponto mais baixo de qualquer existência.
Fugindo dessas realidades pavorosas da cidade grande, a ex-professora Dora e o menino orfão de mãe percorrem o interior do Brasil, de ônibus, como caronas de um caminhoneiro ou na carroceria de um caminhão que transporta romeiros. Seguem país adentro, chegam a lugares improváveis na nossa imaginação (mas que estão lá, acreditem, para que possamos conhecê-los e ajudar a mudar sua condição de atraso), descobrem um país muito diferente daquele a que estavam acostumados na cidade grande, percebem a intensa religiosidade que reveste as comunidades pelas quais passam e vivenciam um pouco da pobreza que assola nosso sertão.
"Central do Brasil" é um filme exemplar no que se refere a sua capacidade de nos emocionar e mobilizar perante situações críticas pelas quais passam milhares (ou milhões) de pessoas em vastas áreas de nosso país. Nos permite dissertar sobre o tema, comparar diferentes realidades, identificar paisagens, entender o sentimento religioso dessa população humilde e nos posicionar perante grandes problemas nacionais. Me fez lembrar de Euclides da Cunha, que descreve aquela região e as pessoas que lá vivem e faz menção a essa capacidade de sobrevivência dos sertanejos nordestinos em sua imortal obra "Os Sertões".  Será que Canudos realmente desapareceu?
 

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