terça-feira, 4 de setembro de 2012

OLMECAS: AMÉRICA PROFUNDA

Precursores de maias e astecas, os olmecas criaram a primeira civilização do novo mundo. Seu poder se estendeu por toda a América Central e durou de 1700 a 100 a.C.
Eles deslizam por rios caudalosos em balsas feitas de grossas estacas de madeira enladados pela densa floresta tropical da América Central, exuberante naqueles longínquos anos de 1 700 a.C.. Conhecem muito bem esses caminhos, pelos quais transportam produtos agrícolas que alimentam um conjunto de povoados que não por acaso se distribuem às margens dessas estradas de água. Mas, dessa vez, não levam abóboras ou feijão: sua carga é muito mais preciosa.
As imensas cabeças de pedra podem chegar a 10 toneladas. As imagens sagradas são lapidadas a partir de imensos blocos de rocha basáltica, extraídas de montanhas a 100 quilômetros rio acima e graças ao esforço desses quase 2 mil homens são transportadas para seu local de adoração. Elas são as imagens mais conhecidas do povo olmeca, uma civilização dedicada à agricultura e ao comércio, que prosperou em torno de um núcleo de cidades como La Venta, San Lorenzo, Tres Zapotes e Laguna de los Cerros.
Os olmecas, a mais antiga civilização da América, ocuparam uma área relativamente restrita de 18 mil quilômetros quadrados, no que hoje corresponde ao sul do México, nos estados de Veracruz e Tabasco. Sua vasta rede comercial e traços de sua influência, no entanto, porém, podem ser notados em outras regiões, como Michoacán, Oaxaca, Morelos, Guerrero, Chiapas e, ainda mais longe, na Guatemala e em El Salvador, onde foram encontrados objetos como estatuetas de jade e potes de cerâmica. São esses achados, além das grandes cabeças de pedra, que estão revelando ao mundo os conhecimentos olmecas acerca dos astros e da agricultura e provando que sua arte, linguagem e religião influenciaram os povos que prosperaram depois deles e que ficaram muito mais famosos, como maias e astecas. Eles estão reescrevendo a história dos olmecas, o povo jaguar da América.

Homens de negócio

A civilização olmeca surgiu em uma região com altos índices pluviométricos. Uma parte das terras é montanhosa e outra pantaneira. Entre elas, uma estreita faixa de cerrado. O limo fértil depositado pelos rios – como o San Juan, Papaloapan e Grijalva – durante as enchentes atraiu e propiciou a fixação de vários grupos humanos que praticavam a agricultura.
Os primeiros vestígios desses agrupamentos foram descobertos por volta de 1930. Na época, as linhas principais da antropologia achava improvável que povos sofisticados pudessem se desenvolver em regiões quentes e úmidas ou no meio de florestas. Isso fez com que surgissem teorias que atribuíam aos olmecas um antepassado estrangeiro, extra-americano.
Essas idéias ficaram para trás e hoje se sabe que os olmecas, como alguns índios brasileiros, venceram a floresta, o clima e a topografia e conseguiram criar uma economia capaz de suster populações volumosas. Calcula-se que no seu máximo esplendor, entre 900 e 400 a.C. as cidades olmecas chegaram a abrigar cerca de 350 mil indivíduos. Usando técnicas de roça ou coivara, eles plantavam milho, feijão, abóboras e chile (pimenta muito apreciada na região, ainda nos dias de hoje). As estimativas dos arqueólogos apontam que um quilômetro quadrado cultivado poderia sustentar até 60 pessoas. Para completar a dispensa, eles coletavam frutas e tubérculos silvestres e caçavam veados, pecaris (uma espécie de porco-do-mato), antas e outros mamíferos, além da pesca nos rios. Não existe prova de que criassem animais.
O excedente de produção agrícola foi a base para criar uma sociedade hierarquizada de sofisticada organização política e social voltada para as práticas comerciais e com tempo livre para atividades artísticas. O intenso comércio de produtos agrícolas, logo evoluiu para transações com jade, obsidiana, turquesa e outras pedras preciosas e semipreciosas. Peles, penas de aves, copal (uma resina que serve para fazer incenso, vernizes e corantes) e cacau em pó também tinham grande valor de troca.
O antropólogo Miguel Rivera Dorado, da Universidade Complutense de Madri, Espanha, afirma que a atividade comercial tinha uma importância tão grande entre os olmecas que era regulada pelos reis, que controlavam as principais rotas e cobravam tributos. “Os mercadores eram também soldados e suas caravanas eram escoltadas por guerreiros que protegiam os viajantes e a carga”, diz.
De acordo com o especialista, a divisão do trabalho propiciada pelos excedentes na produção causaram a migração das populações para as cidades e o aparecimento de escultores, tecelões, lapidadores e construtores, além das castas sacerdotais, soldados e funcionários reais. “Tudo isso possibilitou aos olmecas criarem a primeira experiência de integração entre regiões isoladas na AméricaCentral”, diz Miguel.
Esse contato foi o terreno fértil onde nasceriam ricas e supreendentes inovações. No ano passado, a arqueóloga Mary Pohl, da Universidade Estadual da Flórida, nos Estados Unidos, descobriu em San Andrés, o vestígio de escrita mais antiga do continente. Datado de 650 a.C., o sistema de símbolos olmecas tem elementos comuns com a escrita maia. “Signos e formas aparecem, séculos depois, entre os maias”, diz Mary Pohl.
Outros aspectos da cultura olmeca se repetiram entre os povos da Mesoamérica. O “jogo de bola” pré-colombiano, por exemplo, que apareceria depois entre maias e astecas provavelmente teve sua origem entre os olmecas. Perto de San Lorenzo, foram descobertas, em 1994, as mais antigas bolas de “hule”, uma espécie de borracha natural e em La Venta foram descobertas antigas quadras para a prática desse esporte em que a bola só podia ser rebatida com o corpo, sem o uso das mãos e o objetivo era fazer com que ela ultrapassasse determinada linha. A equipe formada por sete guerreiros dava a vida para garantir o resultado, literalmente. O time perdedor era sacrificado.
Cabeções
Uma das imagens mais conhecidas da civilização olmeca são as colossais cabeças humanas talhadas em pedra vulcânica. Até hoje já foram encontradas dezessete. O seu peso varia de 6 a 50 toneladas, sendo que a menor tem 1,47 metro de altura e a maior 3,40 metros. Segundo Fernando Bustamante Rábago, diretor do Museu Regional Tuxteco, México, as pedras vulcânicas eram recolhidas e esculpidas nas terras altas na região de San Andrés, de onde eram levadas para as margens dos rios, para então, por balsa rumare a seus destinos. Até La Venta, por exemplo, as esculturas viajaram mais de 100 quilômetros de distância.
Mas quem elas representam? A maioria dos especialistas acredita que sejam retratos de soberanos olmecas e os elmos que ostentam seriam símbolos de distinção hierárquica. No entanto, há outras teorias. “Quando a primeira cabeça foi encontrada, no começo do século 19, na região dos Tuxtlas, os arqueólogos pensaram tratar-se de um rosto africano”, diz Fernando. Isso alimentou histórias muito comuns na época de que a América já havia recebido migrações a partir da África.
Segundo Mario Navarrete Hernández, arqueólogo do Instituto de Antropologia da Universidade Veracruzana, no México, esse continua sendo um mistério, já que “muitas estátuas possuem traços negróides inequívocos”, diz. Para Fernando Rábago, no entanto, não há mistério. “As cabeças devem representar deuses ou entidades supraterrenais e sua aparência corresponde à imagem que eles faziam desses seres.”
Algumas cabeças de La Venta e San Lorenzo estavam alinhadas entre si e com os pontos cardeais, sugerindo uma orientação astronômica. Isso não é algo inusual entre os povos pré-colombianos, que realizavam monumentos e edifícios integrados às funções rituais e astronômicas.
Outro símbolo da cultura olmeca é o culto ao jaguar. “Era uma espécie de animal totêmico”, diz Jorge Priego Martínez, diretor do Instituto de Cultura de Tabasco. Para o especialista, os rostos das estátuas que mostram manchas na pele, dentes de felino, orelhas, focinho e outros elementos inconfundíveis do animal mesclados com o ser humano são traços distintivos dos olmecas. “Eles acreditavam que o jaguar fosse o ancestral deles”, afirma.
Em San Lorenzo, o arqueólogo americano, Michael D. Coe, encontrou, na década de 1970, outro vestígio importante para entender a complexidade da civilização olmeca. A região é formada por terras baixas quase que permanentemente inundadas. Ali, os olmecas construíram aterros que se elevam até 50 metros acima do nível da planície. Em várias dessas estruturas, que devem ter abrigados núcleos urbanos e hoje estão cobertas por uma espessa vegetação de cerrado, foram escavados canais subterrâneos feitos com pedras em forma de “U” perfeitamente acoplados. Descobriu-se que eram aquedutos que proporcionavam água potável para a população. Com o auxílio de um magnetômetro, o arqueólogo descobriu que haviam 35 monumentos enterrados. Porém, na época, nenhum foi escavado.
Foi apenas entre 1990 e 1996 que as pesquisas em San Lorenzo avançaram com o projeto desenvolvido pela arqueológa Ann Cyphers Tomic, do Instituto de Pesquisas Antropológicas da Universidade Nacional do México. Em 1994, ela descobriu uma cabeça de pedra com 1,80 metro de altura que, segundo ela, lembrava a de um jogador de rúgbi de traços negróides. “De lá para cá, localizamos mais de 40 monumentos e artefatos datados por carbono radioativo como sendo de 1700 a.C., os mais antigos do mundo olmeca”, diz Ann Cyphers. A equipe também encontrou em San Lorenzo cinco esculturas monumentais, edifícios cerimoniais, moradias de pedra e choças. Os primeiros eram, na verdade, plataformas de terra sobre as quais se construíram recintos de barro. Na pequena vila moravam cerca de 2 500 pessoas. Entre 900 e 950 a.C. alguma coisa aconteceu em San Lorenzo: estátuas foram mutiladas e o povo abandonou suas casas, assim como os soberanos e os sacerdotes fugiram de seus palácios e templos.
Em meio a uma enorme planície atualmente coberta por palmeiras e arbustos, em outro platô aterrado com cerca de 4,5 quilômetros de comprimento ficava o centro do império olmeca: La Venta. Toneladas e mais toneladas de terra e sedimentos foram necessários para elevar o nível do solo. Ali, eles erigiram uma pirâmide com 32 metros de altura, formada por várias camadas de argila colorida, comprimida e amparada por lajotas de pedra calcária. Na base da construção haviam seis esculturas, entre elas estelas com mais de 4 metros de altura magnificamente talhadas com imagens de soberanos ou deuses enfeitados com penas e peles de jaguar. La Venta era um local sagrado. Além de quatro cabeças colossais todo o local estava repleto de estátuas esculpidas entre 900 e 400 anos a.C. e de objetos relacionados a cultos religiosos.
Ao redor da pirâmide e da praça de cerimônias foram construídas casas de barro. Os antigos habitantes de La Venta fizeram um mausoléu para seus soberanos, erigido com colunas de basalto sobre mosaicos feitos com pedrinhas azuis que formam um desenho abstrato. Na tumba foram encontrados vários objetos rituais, entre eles 200 machadinhas de jade extremamente afiadas, provavelmente utilizadas para sacrifícios. Havia também um sarcófago de arenito na forma de um jacaré sobrenatural.
Neste mesmo local foi descoberto um dos maiores tesouros olmecas: 16 estatuetas de seres antropomorfos de jade e arenito dispostas em semicírculo. O detalhe mais particular é o formato deformado e alongado da cabeça. Tais deformações eram resultado da compressão do crânio de bebês e crianças por meio de tábuas fortemente amarradas e tinham uma função apenas estética.
Outras estátuas mostram crianças mortas sobre os braços de sacerdotes. Os rituais de sacrifícios humanos ainda são um mistério e um tabu, mesmo para os cientistas. Sabe-se, no entanto, que os indícios de sacrifícios se concentram no período por volta dos 400 a.C. , quando o Império Olmeca estava perto do fim.
Nessa época, os moradores de La Venta abandonavam sistematicamente a cidade. No entanto, Mary Pohl, não acredita que tenha havido um colapso da civilização, ou alguma catástrofe que tenha colocado a vida dos olmecas em perigo. Para ela, mudança nos cursos de água podem ter obrigado a população a migrar para longe.
Durante o processo, eles perderam sua unidade como nação e sua identidade como povo, misturando-se a outros grupos, perto de 200 a.C., quando desaparecem os últimos vestígios dos olmecas. O médico brasileiro, Djalma Sayao Lobato, que pesquisa a cultura olmeca desde a década de 1970 e é autor do livro Olmecas. Fascínio e Mistério da Civilização-Mãe da Mesoamérica, tem outra tese. Para ele, o povo olmeca deve ter desaparecido por um processo endogâmico: por razões políticas ou religiosas eles não se cruzavam com outros povos. Isto poderia ter gerado um excesso de casos de malformações genéticas e o aumento da mortalidade infantil, o que explicaria o desaparecimento dos olmecas em uma época mais ou menos uniforme.
Pablo Villarrubia Mauso  01/07/2003




Nenhum comentário:

Postar um comentário