terça-feira, 30 de outubro de 2012

O ÚLTIMO REFÚGIO DOS JUDEUS

Cercados no meio do deserto da Judéia, centenas de rebeldes judeus preferiram se suicidar a cair sob domínio romano, no ano de 73.
A história é conhecida há quase 2 mil anos e se transformou num dos mais poderosos mitos judaicos: depois da queda de Jerusalém, no ano 70, homens, mulheres e crianças se refugiaram em Massada, uma fortaleza isolada no meio do deserto da Judéia, e ali formaram o último foco de resistência contra os romanos durante a revolta judaica de 66 a 73. O épico foi narrado pelo principal historiador judeu da Antiguidade, Flávio Josefo, no clássico Guerras dos Judeus. Nos últimos anos, no entanto, a arqueologia vem, por um lado, corroborando essas informações e, por outro, revelando novos fatos.
Uma das principais evidências descobertas até agora trata justamente de um dos pontos mais polêmicos e impressionantes da narrativa de Josefo. São 11 pedacinhos de cerâmica e em cada um deles há um nome escrito. Segundo Josefo, eles teriam sido utilizados pelos sicaris (como eram conhecidos os integrantes do grupo) para sortear os homens que receberam a dramática missão de executar os 960 sobreviventes, já que a lei judaica condena o suicídio. Depois, um deles foi escolhido para matar os companheiros. “Entre os cacos de cerâmica, há um com o nome de Eleazar Ben Yair, que, segundo Josefo, liderou os sicaris e foi quem propôs o sorteio”, diz o arqueólogo Ehud Netzer, da Universidade Hebréia, de Jerusalém.
O sociólogo Nachman Ben-Yehuda, da mesma universidade, autor de Sacrificing the Truth: Archaeology and the Myth of Masada (“Sacrificando a Verdade: Arqueologia e O Mito de Massada”, inédito no Brasil), discorda dessa interpretação e aponta inconsistências no relato de Josefo. Para ele, em Massada, a arqueologia foi usada para afirmar uma ideologia, para ajudar a construir o mito de heroísmo e sacrifício do povo judeu. “Os pedaços de cerâmica poderiam ser qualquer coisa, como cupons para comida, por exemplo”, afirma.
Descobertas em 1838 e escavadas desde 1963, as ruínas de Massada revelaram detalhes importante para os pesquisadores entenderem o período da história dos judeus, independentemente das comparações com o relato de Josefo. Segundo Jonathan Price, historiador da Universidade de Tel-Aviv, no local se encontrou um antigo palácio de Herodes, o governador romano da Judéia, e a mais antiga sinagoga já achada. “Além disso, foram escavados depósitos de alimentos, cisternas para acumular água da chuva, casas de banhos e flechas que nos dão um boa idéia de como era a vida durante o cerco romano que chegou a reunir 15 mil soldados”, diz Price.
Contudo, a maior polêmica sobre Massada persiste. Em 40 anos de escavações apenas 25 corpos foram encontrados, em contradição com a narrativa de Josefo, segundo o qual teria havido uma mortandade em massa. A ausência de corpos é um dos principais argumentos dos que defendem que os judeus devem ter sido capturados ou simplesmente fugido antes da tomada de Massada.
A figura de Josefo não poderia ser mais contraditória. Judeu, ele teria se rendido aos romanos nos primeiros momentos do cerco e acompanhado, junto às tropas de Roma, a queda de Massada. Segundo ele, os fatos lhe foram relatados por duas mulheres e cinco crianças que sobreviveram. “As pesquisas podem provar alguns dos pontos da narrativa de Josefo, mas a presença dele no local dos acontecimentos permanecerá uma dúvida”, diz Price.
As escavações foram interrompidas pelo governo israelense, que realiza atualmente obras de restauração no local. É que, além de campo de pesquisa arqueológica, Massada, símbolo do heroísmo do povo judeu, virou um dos principais pontos turísticos de Israel, recebendo milhões de visitantes todos os anos.
Heróis ou terroristas?
Os sicaris eram revolucionários radicais que lutavam contra a ocupação estrangeira.
Quando a Judéia foi anexada ao Império Romano, no ano 6, diversos grupos rebeldes se uniram para combater a dominação. “Eram várias facções que costumam ser referidas erroneamente como uma só, a dos zelotes, que era a maior delas”, afirma o historiador Jonathan Price. Os habitantes de Massada eram da facção dos sicaris (o termo em latim significa “homem-faca”) e podem ser considerados os primeiros terroristas da história.
O historiador Andrew Silke, da Universidade de Leicester, na Inglaterra, diz que, para alcançar esses ideais, eles atacavam tanto romanos quanto judeus acusados de colaboracionistas. “Entre suas vítimas estavam soldados romanos, cobradores de impostos e comerciantes judeus.” A tática era se misturar na multidão e atacar de surpresa com uma faca – a sica. Além disso, os rebeldes também praticavam seqüestros e saqueavam propriedades. “A história dos sicaris está relacionada ao extremismo político e às influências messiânicas”, diz Price.
 Longe dos romanos, no entanto, eles viviam em paz. “As evidências mostram que, em Massada, eles viviam como pessoas comuns”, diz Ehud Netzer. Além de armas, foram encontrados vestígios de roupas, sandálias, utensílios domésticos, moedas e ânforas identificadas com o nome do produto que continham: figos, carne ou bálsamo. Entre as atividades cotidianas da população de Massada, estavam os banhos de piscina ou de purificação e as orações na sinagoga local.
  Adriana Kuchler
 .


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

CIVILIZAÇÕES PERDIDAS DA AMAZÔNIA

Os primeiros relatos dos colonizadores europeus que navegaram pela região amazônica davam conta da existência de cidades douradas e de mulheres guerreiras. Falavam também de grandes tribos ao longo dos rios. Gaspar de Carvajal, padre que integrou a primeira expedição ao Amazonas, chefiada, em 1542, por Francisco Orellana, descreveu-as assim: “Não há distância de um tiro de balestra entre a última construção de uma aldeia e a primeira de outra. E nossos barcos navegam 5 léguas entre o início e o fim de cada aldeia”. O capitão Altamiro, da expedição de Aguirre, em 1559, arriscou um cálculo para estimar a população local. “Fomos recebidos por não menos que 300 canoas e em cada uma vinham dez índios.” Durante séculos esses relatos foram tomados como pura fantasia, até pela ciência.
De duas décadas para cá, porém, descobertas arqueológicas não deixam dúvidas de que a região abrigou cidades muito maiores do que as que foram descobertas pelos europeus, que mantinham entre si relações de poder e hierarquia, faziam alianças, comercializavam e, é claro, guerreavam. O indício mais recente dessas civilizações foi descoberto pelo arqueólogo Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida. Em seu trabalho, publicado em outubro na revista americana Science, Heckenberger conta que localizou no Alto Xingu, nordeste do Mato Grosso, vestígios de grandes agrupamentos ligados por estradas e com construções sofisticadas, como pontes e barragens defensivas. “A complexa rede de comunicação entre as aldeias comprova a existência de uma grande civilização”, diz.
Carlos Fausto, antropólogo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, co-autor do estudo, conta que foram mapeados 19 sítios arqueológicos da época pré-Cabral. “Algumas aldeias chegavam a ter 500 metros quadrados e abrigavam entre 7500 e 15000 habitantes”, afirma. Com o auxílio de satélites GPS (sigla em inglês para Sistema de Posicionamento de Global), o trabalho mapeou os caminhos que ligavam as aldeias. Eles tinham entre 10 e 50 metros de largura e até 5 quilômetros de extensão. “Pudemos localizar intervenções na paisagem original, como aterros, valas, barreiras de contenção”, afirma o pesquisador Heckenberger.
As cidades se pareciam com as aldeias atuais: as residências ficavam em torno de uma praça central, que servia como área para práticas religiosas. “No entorno dos povoamentos, encontramos fossos com até 3 metros de profundidade que, provavelmente, serviam para proteger os habitantes.” A conclusão derruba a teoria de que a Amazônia foi uma floresta virgem, intocada.
A pesquisa no Alto Xingu mostra apenas uma das várias sociedades complexas daquela região. “Elas existiam em outras partes da Amazônia, na Bolívia, no trecho do rio Amazonas quase inteiro, no médio e baixo Orinoco e em outras áreas”, afirma Michael Heckenberger. “Em 1492, a Amazônia era provavelmente uma área de enorme variabilidade cultural, com grupos regionalmente interligados.”
Berço do Brasil
Provas das complexas sociedades amazônicas não são propriamente novidade. A civilização marajoara, que prosperou entre os séculos 2 e 12, na ilha de Marajó, e a tapajônica, que ocupou a região de Santarém (ambas no Pará) até o século 16, são dois exemplos conhecidos. No geral, em todas houve grandes intervenções humanas na paisagem.
Os marajoaras, por exemplo, erguiam aterros com até 10 metros de altura e centenas de metros de comprimento sobre os quais construíam suas casas, tudo para evitar as cheias. “Havia intercâmbio entre as diferentes civilizações, como mostram os elementos comuns na iconografia e nas artes”, diz Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP). A confluência dos rios Negro e Amazonas também abrigou uma grande civilização. Na região, estudada por uma equipe do MAE desde 1997, foram descobertos vestígios de atividade humana, como a terra preta, uma cobertura não natural, fruto do acúmulo de material orgânico, onde foram encontrados restos de cerâmica, pedra lascada e outros resíduos que indicam a presença do homem no local há até 3 mil anos. “Pelo volume de material encontrado, podem ter vivido ali cerca de 15 mil pessoas no século 16”, diz Eduardo.
 Cláudia Castro Lima


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

SEPÉ TIARAJU E A CONSTRUÇÃO DO MITO



 
A vida real do cacique guarani Sepé Tiaraju não precisaria de lenda para ser grande. Alferes real do cabildo de São Miguel, ele foi o mais tenaz resistente à entrega dos Sete Povos aos portugueses, embora suas ações guerreiras nem sempre fossem bem ordenadas. As lendas que aumentaram os feitos de Sepé foram criadas por poetas e trovadores. Em 1769, apenas 13 anos após a sua morte, ele já é um dos heróis de Uraguay, poema anticlerical do português Basilio da Gama. Em várias versões, essas lendas atravessaram os séculos. Simões Lopes Neto, num poema de 1913 viu-o como um protegido de Deus. Cronistas da história também ajudaram a construir o mito. Manoelito de Ornelas divulgou a figura do guerreiro quase imbatível e Walter Spalding colocou em sua boca as seguintes palavras: “Esta terra tem dono”. Mansueto Bernardi defendeu a tese que o cacique, por ter lutado contra os invasores das missões, foi o primeiro “caudilho rio-grandense”.(Adaptado de a História Ilustrada do Rio Grande do Sul).

 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A FÚRIA DA GRIPE ESPANHOLA

No início da década de 20, enquanto a Europa reunia os cacos da Primeira Guerra, um inimigo ainda mais devastador assustou o mundo todo e, em dois anos, matou mais de 30 milhões de pessoas: a gripe
Os sintomas todo mundo conhece: febre, dor de cabeça, dores pelo corpo, mal-estar geral, tosse e coriza, ou seja, corrimento nasal. No entanto, esse quadro que hoje se resolve com um comprimido e alguns dias repouso podia significar uma sentença de morte se você vivesse no início do século, mais precisamente em 1918. É que nesse ano uma epidemia de gripe se espalhou pelo mundo e matou entre 30 e 100 milhões de pessoas. A doença, uma variação do vírus da gripe comum, causava um terrível agravamento dos sintomas e ficou conhecida como gripe espanhola, ou apenas a espanhola.
Na época ninguém conhecia a causa da doença. O microscópio já era usado e muitas bactérias causadoras de enfermidades tinham sido identificadas, já a partir do século 19. Mas os equipamentos não eram lá muito potentes e não podiam mostrar os vírus, que são muito menores que bactérias. Assim, a causa da gripe era (e permaneceu até recentemente) uma incógnita. Ela era associada ao frio. O termo influenza, que é usado como sinônimo para gripe, fala disso. Vem do italiano influenza di freddo, “influência do frio” (de influenza surgiu o nome inglês para a gripe – flu). De fato, é uma doença dos meses frios. Nessa época, tendemos a ficar confinados em casa e o vírus pode passar facilmente de uma pessoa para outra.
Também não se tinha certeza que na Espanha tenham surgido os primeiros casos, ainda que o rei espanhol Afonso XIII tenha sido uma das primeiras vítimas ilustres da doença. Muitos pesquisadores defendem a idéia de que a doença começou não na Europa, mas nos Estados Unidos, e foi levada para a Europa pelos soldados que combateram na Primeira Guerra. Ao certo, sabe-se que foi na Espanha que surgiram as primeiras notícias sobre a doença: o país, neutro no conflito, não impunha a censura à imprensa, como acontecia com as potências beligerantes. Assim que a doença surgia em outros países, era logo chamada de “espanhola”. A moda de uns países atribuírem a outros a origem de doenças não é nova: quando a sífilis apareceu, na Idade Média, os franceses chamavam-na de “mal napolitano”, e os italianos de “mal francês”.
Mesmo a expressão gripe espanhola (ou ainda “La Dansarina”) deu lugar, em alguns países, a distintas denominações. Na Rússia soviética era chamada febre siberiana, na Sibéria febre chinesa e na Espanha (que afinal também tinha de se defender) febre russa. A enfermidade se disseminou rapidamente, chegando ao Sudeste Asiático, à China, ao Japão, ao Caribe, às Américas: cerca de um quinto da humanidade contraiu a doença. A letalidade – isto é, a proporção de mortes entre os doentes – era altíssima, duas vezes e meia maior que nos casos de gripe comum. Estima-se que a gripe tenha matado no mundo todo de 20 a 100 milhões de pessoas – muito mais que a Primeira Guerra (cerca de 15 milhões de vítimas) ou mais do que a aids.
A pandemia de gripe devastou populações inteiras. Alguns historiadores acham inclusive que a guerra de 1914-18 pode ter terminado mais cedo por falta de soldados. O fim da guerra, aliás, não significou o fim da pandemia: a Alemanha, derrotada, recebia de volta 6 milhões de ex-soldados desmoralizados e famintos. Isto sem falar em outras regiões do mundo, como África, Índia e China, onde a ausência de dados tornava impossível avaliar a extensão da hecatombe. No Alasca populações foram dizimadas pelo mal que os esquimós acreditavam ser causado por um “espírito branco”. Em Londres, cartazes afixados nos teatros proibiam expressamente tossir. E, nos Estados Unidos, o costume de apertar as mãos foi praticamente abandonado.
A doença se propagou em duas gigantescas ondas: a primeira, na primavera e no verão de 1918. Nessa fase, a gripe era muito contagiosa, mas causou relativamente poucas mortes. Em agosto, contudo, uma forma altamente virulenta da doença disseminou-se pelo mundo, chegando ao auge nos meses de setembro a novembro (ou seja, o outono do hemisfério norte). A curva que mostrava os óbitos por faixas etárias tinha a forma de um W, com três picos, um correspondendo a crianças pequenas, outro a adultos jovens (o que era uma novidade; pensava-se que esse era um grupo mais resistente) e um terceiro, que era o dos idosos. Nos Estados Unidos a expectativa de vida, isto é, o número de anos que uma pessoa pode esperar viver desde o nascimento, foi reduzida em dez anos.
Os brasileiros foram atingidos pela gripe antes mesmo que a doença chegasse ao país. Uma divisão que o governo enviara em navio para participar da guerra adoeceu enquanto a esquadra que transportava os militares estava ancorada em Dacar, Senegal: 156 mortos. E o país não poderia escapar à espanhola. Ainda que as viagens aéreas, que difundiram a Sars (pneumonia que no ano passado causou pânico no Sudeste Asiático), não fossem comuns à época, muita gente viajava de navio – e o país estava recebendo então grandes contingentes migratórios. Em setembro de 1918 chegava um navio com imigrantes vindos da Espanha, vários dos quais com sintomas de gripe. Outros navios foram apontados, entre eles o inglês Demerara, que atracou em Recife e Salvador, mas o certo é que no início de novembro de 1918 a doença já estava no Brasil. As cidades portuárias foram as que mais sofreram.
“Já morrem 24 pessoas por dia em Coritiba”, dizia uma manchete do dia 14 de outubro. Na mesma data, um anúncio: “Precisa-se de dois cocheiros na Empreza Funerária de P. Falce”. Essas manchetes dos jornais da época reproduzidas no livro O Mez da Grippe (assim mesmo, com essa grafia), de Valêncio Xavier, dão uma idéia do quadro assustador. A reação entre os curitibanos foi de pânico. Por causa disto, as notícias a respeito foram censuradas. O livro mostra a primeira página do jornal Diário da Tarde, em que, de um artigo sobre “A Influenza”, só ficou o título – o resto está em branco. Já o Commercio do Paraná adotou uma atitude diferente; a epidemia seria apenas uma gripe comum. Mas teve de admitir, em 25 de outubro: “A nossa edição de hontem saiu muito aquem da expectativa em conseqüência de terem adoecido operários da secção da composição, obrigando-nos assim ao sacrifício de materia redaccional cuja inserção foi absolutamente impossivel.”
Em outras cidades a repercussão não foi menor. A imprensa carioca estava cheia de notícias alarmantes – e de protestos contra as autoridades sanitárias, consideradas omissas: “O que se está passando na Saúde do Porto da nossa capital é simplesmente assombroso. Os navios entram infeccionados, os passageiros e tripulantes atacados saltam livremente contribuindo para contaminar cada vez mais a cidade, não soffrendo os navios o mais rudimentar expurgo! [...] Telegrammas chegados ha dias de Estados do Norte, annunciaram detalhadamente dezenas de casos de ‘influenza hespanhola’ occoridos a bordo da ‘Itassucê’. Era o caso do Sr. Carlos Seidl tomar providencias energicas, para isolar os enfermos e expurgar o navio, mal chegasse elle á Guanabara, si s.ex levasse a sério seus deveres. Nada disso, entretanto, aconteceu. O ‘Itassucê’ chegou, foi desimpedido e os doentes desceram calmamente á terra, sem que o director da Saude Publica mandasse tomar a minima providencia!” (Rio Jornal, 11 de outubro de 1918).
Ou esta outra notícia: “Em todas as ruas, e a todas as horas, vemos cahir subitamente, tombar sobre a calçada victimas do mal estranho. Os hospitais estão repletos.” (Rio Jornal, 14 de outubro de 1918). A criticada “medicina official”, como aconteceu com as autoridades em Curitiba, tentava minimizar o problema e evitar o pânico. Mas, no final de 1918, a gripe era, no Brasil e no mundo, uma realidade brutal. O jornal A Rua, de 15 de outubro de 1918, fazia uma denúncia: “Desde as primeiras horas em que se declarou a epidemia que a romaria ás pharmacias não parou nem um instante. Houve então uma grande desorientação e uma ignobil exploração por parte de algumas pharmacias. Os preços variavam de pharmacia para pharmacia e de bairro para bairro. O tubo de bromo-quinino passou a custar de 1500 a 8 mil e 9 mil réis. Uma limonada purgativa 4, 6 e 8 mil réis. Uma capsula com 25 ctgrs. de Sulphato de Quinino custava 400 réis, no maximo, custa 2 e até 3 mil réis! É o furto, parecendo que nem se quer estamos numa cidade policiada! Mas a necessidade era grande e os doentes nos milhares, o que fez com que apezar do descabido escandaloso dos preços, os medicamentos se esgotassem. Várias pharmacias, especialmente nos suburbios, allegam tambem a doença do seu pessoal. Que será da população sem ter sequer medicamentos”?
Esses medicamentos, diga-se, não tinham qualquer efeito sobre a doença. O quinino era usado para malária, que é, porém, uma enfermidade totalmente diferente da gripe, causada por protozoário e não por vírus. Também eram inócuos os “Conselhos aos que se acham no inicio da infecção”, dados pela Diretoria Geral de Saúde Pública, e que começavam com um purgativo forte (além de ter gripe, a pessoa ficava também com diarréia). Em termos de dieta, indicava-se a tradicional canja de galinha (que pelo menos, a exemplo da cautela, não fazia mal a ninguém). O resultado foram saques aos armazéns atrás de frangos. Diante disso a Diretoria Geral de Saúde Pública voltou atrás: “O uso do frango ou da gallinha não é indispensavel. A dieta poderá ser mantida por meio de leite, caldo de sopa de cereaes, de legumes, de lentilhas, de arroz, aveia, centeio, etc., etc.”
E continuava: “Fazer diariamente uso de uma solução de essencia de canela, conforme as seguintes dóses: uma colherinha das de café em meio copo de agua assucarada, de duas em duas horas, até desapparecer a febre. Depois tomar uma colherinha em meio copo de agua tres vezes ao dia.”
Claro, é fácil achar graça dessas medidas quase 90 anos depois, mas os médicos recomendavam aquilo que imaginavam ser útil. É preciso dizer que a campanha contra a gripe era comandada por ninguém menos que o sanitarista Carlos Chagas, descobridor da doença que leva seu nome, grande pesquisador e um dos discípulos prediletos de Oswaldo Cruz. Entre os conselhos da saúde pública, havia alguns apropriados: evitar aglomerações, guardar repouso em caso de doença. De qualquer maneira, o quadro era sombrio em 2 de novembro de 1918, Dia de Finados (“Nunca o dia dos mortos foi tão propriamente um dia de mortos como o de hoje”, dizia a manchete de A Noite).
No Rio de Janeiro morreram cerca de 12 mil pessoas em dois meses. Na cidade, como faltavam coveiros, presidiários foram convocados para fazer esse trabalho. Os corpos muitas vezes eram transportados em bondes. Os hospitais não tinham vagas e a hospitalização, por sua vez, não evitava o óbito. No Hospital Deodoro, na Glória, os cadáveres formavam uma pilha de 2 metros de altura. As ruas estavam desertas; as pessoas não se atreviam a sair. Em Porto Alegre, foi criado um cemitério especialmente para as vítimas da gripe. Em todo o país foram cerca de 35 mil mortos. Nos últimos meses de 1918, uma esperança: o novo presidente seria Rodrigues Alves, conhecido por ter livrado, em seu primeiro mandato, a capital Rio de Janeiro de epidemias de febre amarela, peste e varíola. Mas ele não chegou a assumir o cargo. Morreu em 16 de janeiro de 1919, de gripe espanhola.
Dormindo com o inimigo
A virologia progrediu imensamente com o susto de 1918. Mas só em 1933 o vírus da gripe foi isolado pela primeira vez, por Andrew, Smith e Laidlaw, na Inglaterra. Mas não era o agente causador da espanhola. Como era esse vírus? A dúvida persistia e motivou conhecidos pesquisadores, como os americanos Jeffery K. Taubenberger e Johan Hultin. Eles encontraram o vírus em cadáveres preservados pelo frio. Em 1951, os cientistas da Universidade de Iowa exumaram corpos de vítimas da gripe sepultados no Alasca. Uma outra fonte de possível material eram amostras de tecidos obtidas em necrópsias realizadas em 1918, que eram preservados em parafina. Os esforços deram resultado. Uma amostra de tecido pulmonar de um soldado americano forneceu aquilo que Taubenberger e seus colaboradores ansiosamente buscavam: fragmentos intactos da substância viral, cuja composição pôde ser identificada. O mesmo se encontrou na amostra de um segundo cadáver.
 Hultin, por sua vez, isolou material viral dos pulmões de uma mulher da etnia inuit, conhecida como “Lucy”, sepultada no Alasca. Taubenberg foi além e, em 2002, conseguiu criar um vírus com os genes mais letais do espécime de 1918 (esse revelou-se mais agressivo para os animais de laboratórios do que os outros ”fabricados” com genes do vírus da gripe habitual). O argumento para esse tipo de estudo é o de conhecer melhor o “inimigo”, identificar sua estrutura e descobrir como ela muda. Muitos cientistas, contudo, fazem objeções a esse trabalho. Alegam que já temos um número suficiente de vírus gripais estudados e que “ressuscitar” o vírus de 1918 significaria “libertar o demônio”. Mas o receio de toda a comunidade é óbvio, sobretudo em uma época que transformou a guerra bacteriológica em ameaça e em obsessão. Como observou outro pesquisador, Jan van Aken, se Jeffery Taubenberger estivesse trabalhando num laboratório russo, chinês ou iraniano, seria visto como um inimigo em potencial.
Da Espanhola à Sars
A gripe de 1918 continuou provocando ondas de choque que chegaram até nossos dias. Cada vez que surgiam casos novos da doença era aquele calafrio: será que a espanhola está voltando? Cepas do vírus da gripe com material genético recentemente incorporado causaram pandemias em 1957 e 1968. A pandemia de 1957 ficou conhecida como gripe asiática, por ter se iniciado na China e na Indonésia. No Brasil, a asiática foi diagnosticada primeiro no Rio Grande do Sul, sendo logo depois detectada no Rio de Janeiro e em São Paulo. Uma nova causa de alarme surgiu em 1976: recrutas de Fort Dix, nos Estados Unidos, contraíram uma doença gripal que levou um deles à morte. Dessa vez o agente causador da doença foi isolado. Era um vírus de gripe suína. Ora, muitos cientistas achavam que a gripe de 1918 tinha sido exatamente isso, uma virose transmitida pelos porcos aos seres humanos. O pânico chegou aos altos escalões do governo americano, na administração do presidente Gerald Ford.
 Era véspera de eleições e uma epidemia poderia ter sérias conseqüências políticas. Uma vacina foi preparada às pressas e, em meio a discussões, aplicada em 40 milhões de pessoas. Várias delas tiveram problemas neurológicos (a síndrome de Guillain-Barré), o que só fez aumentar a controvérsia. No fim, a epidemia não ocorreu. Uma outra fonte de infecção foi identificada em 1997, em Hong Kong, quando 18 pessoas foram infectadas por um vírus comum em aves. Isso gera uma alarmante analogia com o vírus da Sars, que possivelmente veio de aves na China.
  Moacyr Scliar

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

HOMO SAPIENS: AINDA SOMOS OS MESMOS?

Uma região da Etiópia habitada por um povo seminômade e com escassa vegetação acaba de entrar para os marcos iniciais da história do homem moderno. No local, foram descobertos crânios de dois homens e uma criança que viveram entre 154 mil e 160 mil anos atrás numa terra que era bem diferente, com terrenos férteis e um grande lago de água doce. O achado mudou o rumo das teorias evolutivas. Isso porque as ossadas encontradas pela equipe liderada pelo paleontropólogo americano Tim White, da Universidade da Califórnia, mostram que o primeiro Homo sapiens se parecia muito conosco. “Ele andava como nós, alimentava-se e agia de forma muito semelhante”, afirma White. Se um deles ainda estivesse por aí, passeando pela rua hoje em dia, poderia passar despercebido. “Nós mudamos muito pouco nos últimos 160 mil anos.”
Os ossos foram encontrados em 1997, mas só agora foram concluídas a limpeza e a reconstituição para que eles pudessem ser analisados e datados. Depois de montados os mais de 200 pedaços, a equipe recuperou os crânios completos de dois adultos, com idades entre 20 e 30 anos, e o de uma criança de cerca de 6 anos. São os exemplares dos ancestrais do homem moderno mais bem conservados já encontrados até agora. Além dos crânios, o grupo – formado por 45 cientistas de 14 países – desenterrou ossos de mais sete pessoas e cerca de 600 artefatos feitos de pedra. Com isso, puderam descobrir muito sobre o homem de Herto (batizado em homenagem ao vilarejo próximo da região onde foi encontrado): sua iguaria predileta, por exemplo, era carne de hipopótamo.
Para consegui-la, ele caçava com ferramentas fabricadas com pedras afiadas. Vivia perto de um lago cheio de peixes e crocodilos. E, quando um membro do grupo morria, realizavam rituais fúnebres para a despedida. Nada muito diferente do que fazem, hoje, os habitantes locais.
Não há dúvidas de que o hominídeo é o ancestral mais longínquo do homem moderno. “A descoberta é a evidência mais antiga de nossa espécie, o Homo sapiens”, diz Tim White. No entanto, por ter uma constituição ligeiramente diferente, ele recebeu uma denominação de subespécie: idaltu – que na língua afar (o povo que habita atualmente a região) significa “ancião”. “A robustez do crânio do homem de Herto não se parecia com nenhuma das amostras de 3 mil crânios de homem moderno. Porém, outros parâmetros, como o comprimento do rosto, eram muito semelhantes. Por isso a nomenclatura diferente”, diz Henry Gilbert, um dos membros da equipe. O que mais impressionou foi a saúde do homem de Herto. Segundo White, ele é uma mistura da espécie mais robusta que existe hoje em dia – mas com uns hormônios a mais.
Jardim da criação
No nordeste da África foram descobertos alguns dos mais antigos fósseis de nossos ancestrais
1. HOMEM DE BODO
O crânio de Bodo é de um Homo erectus com 600 mil anos. Nele foram encontrados os mais antigos sinais de cerimônias mortuárias. Quando morriam eles tinham a carne removida dos ossos
2. HOMEM DE HERTO
Foram achados dois adultos e uma criança com 160 mil anos – os mais antigos exemplares do homem moderno
3. LUCY
A famosa Australopithecus afarensis com 3,6 milhões de anos é uma das evidências mais antigas dos ancestrais do homem moderno. Morta aos 20 anos, ela andava ereta, mas mantinha o hábito de subir em árvores. Tinha pouco mais de 1,20 metro
4. MENINO DE TURKANA
O exemplar de Homo erectus com 1,7 milhão de anos é de uma criança entre 9 e 12 anos. Ele tem um esqueleto muito parecido com o do homem moderno. O menino tinha 1,65 metro de altura e poderia chegar a 1,85 quando adulto
5. HOMEM DE DAKA
Subindo na escala evolutiva, o crânio com 1 milhão de anos era também de um Homo erectus. Seiscentos mil anos depois que ele andou pela África, sua espécie desapareceu
África, doce lar
A descoberta do homem de Herto aquece uma velha discussão: a origem do homem moderno. Estudos moleculares mostram que a diversidade genética entre os africanos é maior que em qualquer região do planeta. Para alguns cientistas, isso prova que o homem surgiu ali e depois se espalhou pelo mundo. Como alternativa a essa hipótese, há a tese multirregionalista, que sustenta que o homem moderno evoluiu em regiões diferentes do planeta ao mesmo tempo. Assim, os europeus poderiam ter se originado do homem de Neanderthal.
Segundo Tim White, o homem de Herto é um banho de água fria nos multirregionalistas. “Estamos certos de que existiam homens anatomicamente mais modernos na África muito tempo antes de existirem os neandertais na Europa”, diz White. Henry Gilbert é ainda mais categórico. “O achado comprova que nossa espécie, depois de surgir na África, substituiu os neandertais na Europa”, diz. O homem de neandertal foi uma espécie à parte na escala da evolução, que desapareceu há cerca de 30 mil anos. Ao mesmo tempo em que o homem de Herto habitava uma planície cheia de antílopes e fértil, a maior parte da Europa estava coberta de gelo.
 Cláudia Castro Lima
 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

HISTÓRIA DO EQUADOR

A linha imaginária que divide o globo terrestre nos hemisférios norte e sul atravessa toda a extensão do país a que deu nome. No Equador se localizam parcialmente dois colossos da geografia americana: a cordilheira dos Andes e a bacia amazônica.
Situada na porção noroeste da América do Sul, o Equador tem superfície de 272.045km2, incluídos os quase oito mil ocupados pelas ilhas Galápagos. Limita-se ao norte com a Colômbia, ao sul e a leste com o Peru e a oeste com o oceano Pacífico. O Equador reclama como seu o território amazônico, até o rio Marañon, perdido para o Peru na guerra de 1941.
Antes da chegada dos espanhóis, as partes alta e baixa do atual Equador eram povoadas por diversas tribos ameríndias de cultura relativamente avançada: pansaleus, puruás, canharis, paltas, quitos, caiapas e colorados, além de tribos mais primitivas do interior, como os jívaros e os záparos. Na segunda metade do século XV, processava-se a unificação militar e política das tribos, por meio de grandes confederações com a predominância do reino de Quito, quando ocorreu a invasão dos incas. A resistência das tribos nativas durou anos e o domínio incaico só se consolidou sob o reinado de Huayana Cápac. Morto em 1525, dividiu o império entre seus filhos Atahualpa, que ficou com o reino de Quito, ao norte, e Huáscar, a quem coube o reino de Cuzco, no Peru e Bolívia. Uma longa guerra eclodiu entre os dois herdeiros, com a vitória final de Atahualpa. Pouco tempo depois chegaram os espanhóis que, sob o comando de Francisco Pizarro, prenderam e executaram o chefe inca.
Colônia. Os espanhóis visitaram o Equador pela primeira vez em 1526, quando Francisco Pizarro navegou ao longo de suas costas. Foram recebidos amistosamente pelos indígenas e nos anos seguintes realizaram novas expedições, quando prepararam a conquista definitiva do império inca. Coube ao lugar-tenente de Pizarro, Sebastián de Benalcázar, a conquista de Quito, consolidada em 1534, ano em que fundou a vila de San Francisco de Quito. No ano seguinte, fundou Santiago de Guayaquil. Depois da conquista, o território equatoriano passou a integrar o vice-reinado do Peru, criado em 1542. Em 1563 Filipe II criou a Real Audiência de Quito, que fomentou durante 300 anos o desenvolvimento da colônia. A partir do século XVII começaram a manifestar-se os primeiros sinais de descontentamento com a metrópole. No final do século XVIII, as lutas se intensificaram e as freqüentes rebeliões revelavam que a posição do governo espanhol já não era muito firme. A invasão da Espanha pelos exércitos de Napoleão debilitou o controle sobre a América espanhola e as idéias de emancipação se alastraram por toda a colônia.
O principal propagandista dessas idéias no Equador foi Francisco Eugênio de Santa Cruz y Espejo, intelectual de origem humilde que se aliara ao nobre Don Juan Pio de Montúfar. Santa Cruz foi preso e executado, mas ficaram seus discípulos entre a nobreza local. Em 10 de agosto de 1809, eclodiu em Quito um movimento pela autonomia do país. Foi instituída uma junta, sob a presidência de Pio de Montúfar, mas tropas enviadas pelos vices-reis de Nova Granada e Peru agiram duramente contra os patriotas e a 2 de agosto de 1810, executaram numerosos presos políticos. Montúfar organizou nova junta, em 19 de setembro, em Quito, e instituiu um governo popular e representativo. O governo espanhol esmagou a rebelião dois anos depois.
Em outubro de 1820, uma revolução militar proclamou a independência em Guayaquil, que foi reconhecida pelo governo do Peru. Simón Bolívar enviou para Guayaquil o general Antonio José de Sucre, para ajudar na luta contra os espanhóis. A vitória de Sucre em 24 de maio de 1822, em Pichincha, não trouxe a independência da antiga província e sim sua integração à República de la Gran Colombia, formada por influência de Bolívar. Quito passou a ser um departamento do sul dessa república. Em 1830 separou-se e formou a República do Equador, tendo Quito como capital. Seu primeiro presidente foi Juan José Flores, herói venezuelano das guerras da independência. Flores governou durante 15 anos, com um intervalo de quatro anos em que cedeu o poder a Vicente Rocafuerte, que lançou as bases de nova organização fiscal e financeira e de uma reforma educacional.
Reação conservadora. Após a queda de Juan José Flores, em 1845, seguiu-se um período de governos civis interrompido pelo domínio militar do general José Maria Urbina, que governou direta ou indiretamente de 1850 a 1860. Apesar de militarista, o governo adotou uma política de justiça social, com decretos que amenizaram a situação dos escravos e dos indígenas. A ação conservadora triunfou com a subida ao poder de Gabriel García Moreno, que governou em dois períodos: de 1861 a 1865 e de 1869 a 1875. Seu governo foi despótico e clericalista, mas procurou incentivar o progresso, com reformas educacionais, organização das finanças e construção de estradas. García Moreno foi assassinado em 1875 e a ele seguiram-se governos efêmeros e golpes militares. O movimento político denominado Restauração levou ao poder seu líder, Antonio Flores Jijón, que entre 1888 e 1892 manteve a liberdade dos partidos e da imprensa, estimulou o ensino público e fomentou o ingresso no país de técnicos e cientistas.
Século XX. Após um ano de guerra civil, o general Eloy Alfaro, líder dos liberais de Guayaquil, assumiu o poder em 1895 e elegeu-se presidente depois de promulgada a constituição de 1897. Alfaro promoveu a separação entre igreja e estado, estabeleceu a liberdade religiosa e construiu a ferrovia que liga a costa do Pacífico às altas mesetas interandinas. Leónidas Plaza sucedeu-lhe e deu continuidade à política de reformas liberais e à construção da Estrada de Ferro Guayaquil-Quito. Em 1906 Alfaro reassumiu, mas acabou linchado em 1912, quando tentava voltar ao poder. Daí até 1916 governou novamente Leónidas Plaza, que enfrentou as dificuldades decorrentes da primeira guerra mundial. Seguiram-se governos liberais até 1925, quando um golpe militar imprimiu nova orientação ao país e efetuou a reforma fiscal e a bancária. O presidente Isidro Ayora governou entre 1926 e 1931. Assessorado pela Missão Kemmerer, fundou o Banco Central do Equador. Um período de instabilidade política e de governos efêmeros seguiu-se a sua administração. Entre 1931 e 1944, o país teve 18 governos civis e militares, legítimos ou de fato. Houve, no período, três constituições.
Carlos Arroyo del Río exerceu a última dessas presidências turbulentas de 1941 a 1944. Sob sua administração ocorreram litígios de fronteira com o Peru, que ocupou pela força grande parte da província do Oriente, área que reivindicava desde 1802. A ocupação foi oficializada, por decisão dos países mediadores (Brasil, Argentina e Estados Unidos), no protocolo do Rio de Janeiro, em 1942.
Arroyo sufocou o descontentamento popular, mas foi deposto. Sucedeu-lhe o líder populista José Maria Velasco Ibarra, que já havia sido presidente por menos de um ano entre 1933 e 1934. Carismático e oportunista, o caudilho dominou por três décadas a política do Equador. Logo após sua investidura, rompeu com os aliados de esquerda e governou ao lado dos conservadores, que dominaram a Assembléia Constituinte. Sob a constituição de 1946 governaram, sucessivamente Galo Plaza (1948-1952), Velasco Ibarra (1952-1956), Camilo Ponce (1956-1960) e novamente Velasco Ibarra, que enfrentou agitações durante um ano e foi substituído interinamente pelo vice-presidente Carlos Julio Arosemena Monroy. Em 1963 Arosemena foi deposto e instalou-se uma junta militar, que cancelou as eleições marcadas para 1964 e governou até 1966, quando foi destituído. Sucederam-lhe dois presidentes interinos: Clemente Yerovi Indaburu e Otto Arosemena Gómez. Em 1968, já septuagenário, Velasco elegeu-se pela quinta vez. Em 1970 proclamou-se ditador. A oposição dos jovens acabou por minar sua popularidade e o ditador foi deposto em 1972 pelo general Guillermo Rodríguez Lara. Em 1976 assumiu o poder uma junta militar encabeçada pelo vice-almirante Alfredo Poveda Burbano. Em janeiro de 1978 um plebiscito nacional aprovou nova constituição e em abril de 1979 realizaram-se eleições gerais. Foi eleito presidente o social-democrata Jaime Roldós Aguilera, que restabeleceu o regime constitucional. Com amplo apoio popular, o presidente enfrentou pressões das forças conservadoras, mas em maio de 1981 morreu num desastre de avião. O vice-presidente Osvaldo Hurtado Larrea assumiu e tentou seguir o programa de seu antecessor, mas também enfrentou oposição, tanto da direita quanto da esquerda. Em outubro de 1982 medidas restritivas provocaram greve geral, enfrentada com a decretação do estado de emergência. Em maio de 1984, foi eleito o conservador León Febres Cordero. O país enfrentou, nas duas décadas seguintes, inúmeros problemas políticos e sociais agravados pela crise econômica mundial e pelo tráfico de drogas. A década de 1990 marcou também um período difícil para o país, com o governo em busca de programas para acelerar o desenvolvimento.

Fonte: Enciclopédia Barsa.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

PIRATAS: O TERROR DOS MARES

Brutamontes sanguinários ou nobres elegantes? Bandidos violentos ou homens que lutavam por sua liberdade? Bêbados inconseqüentes ou estrategistas brilhantes? Quem eram e como viviam os homens que dominaram os mares nos séculos de ouro da navegação europeia?
Bêbado, o velho capitão acordou de repente. Os pêlos compridos da barba se agarravam às três argolas de ouro que lhe ornamentavam a orelha. Exalava um cheiro horrível, resultado do esvaziamento de algumas garrafas de rum na noite anterior. Passou pelo convés e viu o prisioneiro esticado no mastro. Quase morto. Havia uma faca pregada à perna do homem e o capitão se irritou. “Quem foi o imbecil que abandonou sua arma?”, gritou. Ninguém respondeu. O capitão foi até o coitado e retirou-lhe a faca. Viu, pela cor das fitas amarradas no cabo, que ela pertencia ao rapaz novato. “Idiota!”, gritou novamente. E, chamando o mestre quarteleiro, avisou: “Vamos parar na próxima ilha. Prepare uma pistola com uma só bala”.
O personagem dessa história pode ter sido qualquer um dos milhares de piratas que infestaram os mares durante os séculos 16, 17 e 18, a época de ouro da navegação européia. Ao tentar imaginá-lo, é provável que você o veja de tamanco holandês, calças largas marroquinas, turbante inglês e o peito nu ressaltando as várias correntes de ouro, moda das colônias americanas. A imagem que fazemos dos piratas é uma mistura de nacionalidades. Mas foram os piratas ingleses que eternizaram seus nomes e se tornaram famosos até os dias de hoje. Afinal, a maior parte dos registros que temos da vida desses homens se deve aos relatos dos julgamentos ocorridos na Inglaterra no século 18. “As histórias viravam livros, a internet daquele tempo. Só no ano em que foi publicado, 1724, Uma História Geral de Roubos e Crimes de Piratas Famosos vendeu 1 milhão de cópias”, diz o jornalista Eduardo San Martin, tradutor da obra no Brasil e pesquisador do assunto.
O livro, assinado por um certo capitão Charles Johnson, tem autor desconhecido e, como quase toda obra da época, mistura episódios reais com detalhes imaginários. Ainda assim, ele influencia quase tudo o que foi escrito sobre o assunto. “Isso faz com que seja difícil definir o que é real e o que é ficção. A maior parte do que sabemos da vida dos piratas é o que se conta”, afirma San Martin. E o que se conta é o seguinte.
No século 16, o mundo foi dividido ao meio pelo Tratado de Tordesilhas. “Portugal e Espanha se tornaram os donos da Terra, literalmente”, diz a historiadora Sheila Maria Doula, da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, autora da tese Piratas: Discursos e Silêncios. Mas o mar não tinha dono e, para pilhar as riquezas portuguesas e espanholas, os reis da França, Inglaterra e Holanda armavam poderosos navios e colocavam-nos nas mãos de capitães experientes. Eles recebiam uma Carta de Corso autorizando os ataques.
“Nos últimos anos, os corsários são tão numerosos e assíduos que chega a parecer que esses são os portos de seus próprios países”, escreveu Diego de Ybarra, governador da ilha espanhola de Santo Domingo, em 1595. Ele tinha razão em reclamar. Em nenhum outro lugar a presença dos piratas reais foi tão efetiva quanto no Caribe. “Locais como a Jamaica se tornaram dependentes dos corsários, tanto para o comércio quanto para sua segurança”, diz Edward Lucie-Smith em Outcasts of the Sea (“Banidos do Mar”, inédito em português).
Suas conquistas eram de causar inveja a qualquer marinha oficial. Em 1671, 37 navios liderados pelo capitão galês Henry Morgan tomaram e destruíram a antiga cidade do Panamá, considerada o local mais rico do Novo Mundo, com 30 mil habitantes.
Com tamanho poder acumulado, os piratas passaram a ser uma força naval tão importante que para atacar a cidade espanhola de Cartagena, em 1697, o capitão francês Baron du Pointis pediu ajuda a Jean Ducasse, um famoso corsário que vivia no Caribe. O assalto foi um sucesso e Du Pointis voltou para a França com 7 milhões de francos em ouro, prata e esmeraldas.
Mas nem toda riqueza confiscada acabava na mão dos financiadores das expedições. Uma vez no mar, os corsários começaram a não ver sentido em arriscar suas vidas para financiar os luxos de reis e rainhas. Assim, passaram a atacar qualquer navio cuja carga lhes parecesse rentável.
Em 1713, o Tratado de Utrecht colocou fim às guerras entre as potências européias e a história da pirataria tomou novo rumo. “O século 18 é a época dos piratas bandoleiros. Como a Europa não estava mais em guerra, acaba a pirataria oficial”, diz San Martin. Acostumados à vida no mar e às fortunas fáceis e sem emprego no continente, os marinheiros – antes corsários – continuam roubando e se convertem, definitivamente, em piratas.
Sem o apoio bélico real, a vida dos piratas dessa fase é bem menos glamourosa do que imaginamos. A estratégia de combate dos piratas não era nada genial. Tratava-se de enganar o navio inimigo hasteando uma bandeira falsa ou fingindo estar à deriva. Quando o barco desavisado se aproximava, os homens pulavam para lá e partiam para o combate corpo a corpo. A possibilidade de ser morto ou acabar mutilado pelas espadas alheias era grande. O navio inimigo era tomado e muitas vezes somado à frota pirata. Um capitão de sucesso poderia ter até 15 barcos sob seu comando. Apesar do risco, esses momentos eram saudados aos berros pelos bandidos. Eles adoravam lutar. Até porque, entre uma ação e outra, a vida a bordo era um tédio. Depois do butim dividido em partes iguais (a máxima pirata dizia que, para riscos iguais, recompensas iguais), o que restava era a expectativa de chegar ao porto mais próximo para gastar sua parte. “Eles jogavam dados, bebiam e acabavam brigando entre si”, escreveu Eduardo San Martin, no livro Terra à Vista – Histórias de Náufragos na Era do Descobrimento.
A falta de suprimentos também fazia a vida no mar bastante difícil. Segundo o relato atribuído ao ex-pirata Charles Johnson, “cada homem tinha direito a apenas uma boca cheia de água por dia. Muitos acabavam bebendo a própria urina”.
Por tudo isso, quando chegavam em terra firme, as tripulações faziam a festa: esbanjavam o dinheiro que ganhavam nos mares com bebidas, jogos e mulheres. Algumas ilhas do Caribe e das Índias Ocidentais se transformaram em redutos quase exclusivos de piratas. Bares, estalagens, prostíbulos, casas de ofícios (que consertavam relógios, bússolas ou armas) e uma série de estabelecimentos eram atraídos para lá. No entanto, as paradas costumavam durar pouco, apenas o tempo de se abastecer de água fresca, fazer pequenos consertos, comprar alguma pólvora, madeira e alimentos.
Esse estilo de vida errante e violento permitiu que os navios piratas continuassem nos mares apesar de todo o esforço das nações européias para acabar com eles. É verdade que a pirataria começou a declinar a partir da segunda metade do século 18 – o historiador Marcus Rediker estima que, dos aproximadamente 5 mil homens que viviam da vida criminosa em alto-mar nos séculos 16 e 17, restaram apenas 300 deles a partir de 1726. Mas foi só em 1856 que a Declaração de Paris estabeleceu regras definitivas para as relações marítimas, colocando um fim oficial na atividade corsária e transformando em crime qualquer roubo ou saque em alto-mar.
 Bárbara Soalheiro


terça-feira, 16 de outubro de 2012

GILGAMESH

O Gilgamesh constitui um dos mais antigos monumentos da literatura universal, e há quem identifique reflexos dele na Odisséia dos gregos e no folclore de outros povos. É um magnífico exemplo do esplendor das culturas mesopotâmicas, no qual aparecem as eternas indagações humanas: o sentido da vida, a existência além-túmulo, a imortalidade.
Por volta do ano 1200 a.C., o poeta Sin-leqe-unnini, de Uruk ou Erech, na Suméria, organizou uma longa versão (3.600 versos, dos quais se conservaram 3.450), na língua acadiana, das histórias que se contavam a respeito de Gilgamesh e de seu companheiro Enkidu. Esse poema, gravado em 12 tábulas de argila, foi descoberto em 1847, durante escavações no palácio do rei Senaqueribe, perto de Nínive. Combinado às muitas versões provindas de bibliotecas e arquivos do Oriente Médio (as mais antigas datam do segundo milênio a.C.), foi modernamente dividido em 12 seções.
O personagem central pode ser o mesmo rei Gilgamesh que ocupou o trono de Uruk na primeira metade do terceiro milênio a.C., e que segundo as listas sumerianas reinou "depois do dilúvio", mas não se tem nenhuma prova dos feitos que o poema relata. Enkidu, que nos textos sumerianos é um servo, na versão acadiana é um amigo do herói.
Na primeira das l2 seções é exaltado o semidivino Gilgamesh, grande guerreiro e vidente, que oprimia o povo no afã de edificar os templos e as muralhas de Uruk. Para conter o tirano, os deuses fazem surgir ao lado dele a figura de Enkidu, espécie de sátiro. A segunda seção descreve uma competição de força, em que Gilgamesh leva a melhor sobre Enkidu. Os dois planejam sua primeira façanha, a destruição de Khumbaba, o monstro das montanhas, guardião do bosque dos cedros sagrados. Na terceira, expõem-se os preparativos do audaz empreendimento, contra as ponderações dos anciãos de Uruk, que tentam demover os dois heróis. Na quarta, vê-se o monstruoso Khumbaba, com seu vozeirão apavorante. Na quinta, o monstro é eliminado.
Na sexta seção, Gilgamesh, de volta a Uruk, recusa proposta de casamento da deusa Ishtar e, com a ajuda de Enkidu, mata um touro feroz que a deusa lança contra ele. Na sétima, Enkidu sabe, em sonhos, que terá de pagar com a vida pela morte do touro divino. Na oitava, lê-se a lamentação de Gilgamesh pelo amigo, a quem faz sepultar com grandes honras.
Na nona tábula, Gilgamesh, chocado com a perda de Enkidu, resolve pedir a Utnapishtim, sobrevivente do dilúvio, uma fórmula para escapar à morte. Na décima, a deusa Siduri ajuda o herói a encontrar Utnapishtim, que lhe conta o dilúvio, de surpreendente semelhança com o relato bíblico. Na 11ª, Gilgamesh, por indicação de Utnapishtim, vai colher no fundo do mar uma planta que dá aos velhos o vigor da juventude. Uma serpente rouba-lhe a planta e desaparece com ela. Na 12ª, Gilgamesh, de novo em Uruk, insiste em falar com seu amigo morto, que, por um buraco na terra, lhe diz que da morte ninguém se pode livrar.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A ORIGEM DO DIA DOS PROFESSORES

No Brasil, o Dia do Professor é comemorado em 15 de outubro.
D. Pedro I - Imperador do Brasil
Nesta data, por lei de 15 de outubro de 1827, D. Pedro I criou as primeiras escolas primárias do Brasil independente.
Por essa lei "criavam-se em todas cidades, vilas e lugares populosos do Império, com o programa de ensinar a ler, escrever, contar, geometria, gramática, moral e doutrina cristã".
Essa lei, de 15 outubro, firmou também o princípio da valorização do Mestre, estabelecendo que "os professores seriam nomeados mediante um exame público, mesmo aqueles que, já em exercício, quisessem reger uma das novas escolas".
No mesmo ano em que criou o ensino oficial primário, D. Pedro I criou também o ensino jurídico no Brasil. Por lei de 11 de agosto de 1827, foram criadas as Faculdades de Direito de São Paulo e Olinda, ambas instaladas no ano seguinte.
Até hoje a Faculdade de Direito integrada na Universidade de São Paulo, que foi criada em 1934, ainda funciona no mesmo Largo de São Francisco, onde estava outrora o convento em que se instalou.
Mas foi somente em 1947, 120 anos após o referido decreto, que ocorreu a primeira comemoração de um dia efetivamente dedicado ao professor.
Começou em São Paulo, em uma pequena escola no número 1520 da Rua Augusta, onde existia o Ginásio Caetano de Campos, conhecido como "Caetaninho". O longo período letivo do segundo semestre ia de 1 de junho a 15 de dezembro, com apenas dez dias de férias em todo este período. Quatro professores tiveram a ideia de organizar um dia de parada para se evitar a estafa – e também de congraçamento e análise de rumos para o restante do ano.
O professor Salomão Becker sugeriu que o encontro se desse no dia de 15 de outubro, data em que, na sua cidade natal, Piracicaba, professores e alunos traziam doces de casa para uma pequena confraternização. A sugestão foi aceita e a comemoração teve presença maciça - inclusive dos pais. O discurso do professor Becker, além de ratificar a ideia de se manter na data um encontro anual, ficou famoso pela frase " Professor é profissão. Educador é missão". Com a participação dos professores Alfredo Gomes,Antônio Pereira e Claudino Busko, a ideia estava lançada.
A celebração, que se mostrou um sucesso, espalhou-se pela cidade e pelo país nos anos seguintes, até ser oficializada nacionalmente como feriado escolar pelo Decreto Federal 52.682, de 14 de outubro de 1963. O Decreto definia a essência e razão do feriado: "Para comemorar condignamente o Dia do Professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades, em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias".
Fonte: História Pensante.

CARLOS MAGNO: ENTRE A CRUZ E A ESPADA

Carlos Magno, o rei dos francos, foi um guerreiro implacável. No fim do século 8, ele submeteu os vizinhos saxões, lombardos e bretões, impondo-se pelo poder de seus exércitos e pela força de sua fé: o catolicismo
Roma, Natal do ano 800. Excepcionalmente, o rei franco Carlos Magno passava o inverno fora de casa. Mas era uma emergência. Ele e seus homens foram à cidade eterna para reconduzir Leão III ao pontificado. Meses antes, o papa havia sofrido um sério atentado a mando da nobreza local. No ataque, perdeu a língua e ficou parcialmente cego devido a cortes feitos em suas pálpebras. Por isso, procurou abrigo na corte de Carlos, um fiel cristão que chegava a freqüentar a igreja três vezes por dia. O monarca chegou a Roma com suas tropas, puniu os inimigos do papa e botou ordem na cidade. Em agradecimento, Leão III organizou uma celebração natalina especial. Tinha de presentear seu protetor e, de quebra, garantir sua segurança e a posição da Santa Sé por mais tempo. Naquele 25 de dezembro, o papa coroou Carlos como novo imperador de Roma, algo que a Europa não via desde a queda do Império Romano, em 476.
A cerimônia inaugurou um novo tempo. “É raro um único evento ser completamente crucial, mas a coroação de Carlos Magno como imperador foi realmente um divisor de águas. Pela primeira vez, havia uma visão da Europa Ocidental como uma entidade política única”, afirma Geoffrey Koziol, professor do departamento de história da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos. “Não se tratava mais apenas do reino dos francos ou dos lombardos, saxões, bávaros ou aquitânios, mas de uma entidade política que englobava todos eles, implicando numa unidade que todos compartilhavam apesar de suas diferenças. A coroação de Carlos tornou possível uma identidade comum à toda a Europa.”
A unificação de povos tão distintos se deu por meio da religião, o catolicismo romano. Antes da ascensão de Carlos Magno, a Europa central era tomada por povos bárbaros – leia-se não cristianizados e independentes. Ele os conquistou e os converteu mais pela força do que pela persuasão. E, com o poder conferido pelo líder da Igreja Católica Romana, o rei dos francos pôde justificar sua autoridade sobre aqueles que havia submetido – e que submeteria até sua morte, em 814. Morreu como soberano absoluto do que hoje corresponde a boa parte da Alemanha, Holanda e França, o norte da Itália, a totalidade da Bélgica e da Suíça e um pedacinho da Espanha e da Dinamarca. Carlos herdou parte de seu império, mas conquistou pelo menos a metade dele pela força da espada. E repeliu aqueles que o ameaçavam. Do lado leste, os temidos avaros. No oeste, os muçulmanos do reinado de Córdoba.
O legado que Carlos Magno recebeu veio de ilustres ancestrais. Era neto de Carlos Martel, vencedor de uma das batalhas mais importantes da história da Europa, a de Poitiers, que em 732 barrou o avanço muçulmano. Era filho de Pepino, o Breve, que destituiu de vez os já enfraquecidos reis merovíngios e inaugurou uma nova dinastia entre os francos, a dos carolíngios – nome emprestado de Martel. Após a morte de Pepino, o reino dos francos foi dividido entre seus dois filhos. O primogênito, Carlos Magno, ficou com um pedaço ao norte. Carlomano, oito anos mais moço, ficou com a parte sul. Essa configuração não durou muito, pois Carlomano morreu três anos depois. O mais velho ignorou os direitos de seus sobrinhos e anexou as terras de seu irmão. Esse foi o primeiro passo para erguer o maior império na Europa desde o fim do Império Romano. À base de muito derramamento de sangue.
Aliás, laços sanguíneos também não impediam que ele travasse guerras. Carlos havia se casado com a filha de Desidério, rei dos lombardos, para apaziguar desavenças que remontavam aos tempos de Pepino. De nada adiantou. Desidério recebeu os herdeiros de Carlomano em sua corte e pressionou o papa Adriano I a coroá-los como reis dos francos. Caso o pontífice se recusasse, o rei da Lombardia, região localizada ao norte da Itália atual, tomaria as terras que pertenciam à Igreja. Essas terras haviam sido conquistadas dos próprios lombardos e graciosamente doadas à Santa Sé. Irritado com a provocação do sogro, Carlos interveio. Atravessou os Alpes e destituiu o rei, mandando-o juntamente com o cunhado para o exílio em um mosteiro. Como era casado com a herdeira, achou muito natural declarar-se rei dos lombardos. E assim o fez.
Com Desidério fora de combate, Carlos pôde se dedicar à verdadeira pedra em sua bota: a Saxônia, região que se localiza no noroeste da Alemanha de hoje. Os saxões não eram vizinhos civilizados: costumavam invadir e saquear vilarejos e plantações francas. O exército de Carlos Magno travou seu primeiro combate com os bárbaros saxões em 772. O rei franco utilizou-se de mecanismos pouco cristãos, como deportações, massacres e conversões em massa. Chegou a decapitar 4 500 inimigos e instalou uma série de leis marciais para quem desrespeitasse os preceitos cristãos. Quem matasse um padre, destruísse uma igreja, se recusasse a ser batizado, não obedecesse ao jejum nos feriados religiosos ou comesse carne às sextas-feiras era condenado à morte. Mesmo assim, a dominação completa demorou e só ocorreu em 804. Trinta e dois anos após o primeiro enfrentamento, Carlos finalmente submeteu os saxões.
Os bretões, que viviam na região oeste da Gália, os benevantes, instalados ao sul da Península Itálica, e os bávaros, localizados no sul da atual Alemanha, também não resistiram ao exército franco. Em 45 anos de reinado, Carlos promoveu 54 guerras. Para administrar tantas conquistas, ele criou seu próprio sistema de governo. Distribuía terras entre condes e duques e, em troca, exigia lealdade na administração. Eles deviam fiscalizar a aplicação das leis carolíngias, julgar disputas, convocar homens para as mobilizações militares. Em suma, manter a lei e a ordem. Mas como Carlos era Magno e não Tolo, espalhou bispos e outros religiosos pelo império para servirem como olheiros ou fiscais dos fiscais. Todos os anos, o monarca promovia um grande congresso com todos eles para discutir os problemas do reino. E para lembrá-los de quem realmente mandava.
Carlos também queria se livrar da constante preocupação que a fronteira dos Pirineus lhe trazia. Do outro lado da cadeia montanhosa, estavam os muçulmanos, que, mesmo após a batalha de Poitiers, continuavam sendo uma ameaça aos francos. Em 778, Carlos Magno atravessou as montanhas e partiu com seu temido exército para Saragoça. Lá, encontrou forte resistência e desistiu do cerco à cidade. Na volta, a retaguarda de seu exército foi alvejada de surpresa pelos bascos, cujo território fica na atual fronteira norte da Espanha com a França. A morte de um dos comandantes do exército franco virou um poema épico, a Canção de Rolando. Mesmo com a retumbante derrota, os francos não desistiriam. Apenas meses depois, Carlos voltou à região e submeteu Barcelona e as Ilhas Baleares. Para evitar novas surpresas, delimitou a fronteira, ao longo dos Pirineus, chamando-a de Marcas Espanholas.
Carlos Magno, o Combatente, era insaciável. Como não dava descanso para seus inimigos, não tinha moradia fixa, apesar de seu palácio em Aaschen ser considerado a sede de seu reinado. O local, também conhecido como Aix-en-Chapelle, fica hoje na Alemanha, próximo à fronteira com a França. Lá, ele construiu uma belíssima igreja e uma escola. O palácio conta também com uma enorme piscina de mármore, que Carlos atravessava com enormes braçadas – tinha quase 2 metros de altura. “O biógrafo de Carlos Magno, o monge Einhard, relatou que ele era um homem alto com uma voz poderosa, que adorava carne assada e raramente bebia mais do que três taças de vinho”, afirma David Ganz, professor do Kings College, de Londres. Não era um entusiasta de festas e grandes recepções, mas adorava um farto banquete. O monarca fazia pelo menos quatro refeições diárias, sendo que uma delas tinha de ter seu prato predileto: carne de caça.
Mas a fome de Carlos era maior ainda por conquistas territoriais. Enquanto tivesse vizinhos, novas guerras seriam travadas. O próximo alvo foram os limites orientais de seu império. Lá, estavam os avaros, que também eram conhecidos como hunos. Em 791, Carlos derrota e saqueia seus inimigos, que são ancestrais dos húngaros. O exército franco trucidou toda a corte avara e tomou todos os bens do palácio real. Segundo Einhard, essa foi a guerra mais lucrativa para os francos. Arrasados, os avaros rapidamente pediram a paz. Em troca, mais uma vez, o rei franco exigiu que eles aceitassem o primeiro sacramento cristão, o batizado. Dessa forma, o império ganhou novos vassalos. E a Europa, mais cristãos.
Depois de tantas vitórias, a cerimônia natalina realizada por Leão III coroou um rei que, na prática, já era um poderoso imperador. “A coroação de Carlos, naquela época, fez muito pouca diferença para seu poder até então”, afirma Rosamond McKitterick, professora da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e autora de vários livros sobre o período carolíngio.
Na verdade, o título foi mais útil para quem o concedeu, ou seja, a Igreja. Os pontífices já vinham sendo hostilizados pela nobreza local e desafiados por seu antigo protetor, o Império Bizantino. Com a concessão do título ao rei dos francos, Leão III, arranjou um novo defensor, mas também criou uma rivalidade entre Carlos Magno e o rei Miguel I. O imperador bizantino reconheceu o título somente em 812, quando os dois impérios selaram a paz. Mas não foi de graça. Em troca, Carlos renunciou ao direito de governar a Ístria e a Dalmácia em favor dos bizantinos.
O império erguido na ponta da espada por Carlos Magno cairia por terra em apenas uma geração. Um ano antes de morrer, ele indicou seu único filho legítimo vivo, Luís, o Piedoso, como herdeiro do vasto império. Com a morte de Luís, em 840, o território foi dividido entre seus três filhos. Carlos (xará do avô) ficou com a porção ocidental, que abrangia o que hoje é parte da França e da Catalunha, na Espanha. Lotário ficou com a terça parte central que hoje equivale à região ocidental da França e o norte da Itália. E Luís ficou com o restante, (o quinhão ocidental da Alemanha).
Segundo Geoffey Koziol, a configuração da Europa de Carlos Magno não caiu totalmente em terra depois do loteamento realizado entre seus netos. Ele defende que a divisão da Europa após a Segunda Guerra Mundial era muito parecida com a de quando Carlos Magno morreu. Os países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ocupavam quase o mesmo território do império carolíngio, enquanto os signatários do Pacto de Varsóvia ocupavam a mesma fronteira oriental. “É difícil dizer exatamente como, mas, de alguma forma, os carolíngios eram tão importantes que 1 200 anos depois, o mapa da Europa carolíngia era o mapa da Europa moderna.”
Santo latifúndio
Além de proteção, os reis francos foram responsáveis pela transformação da Igreja em grande proprietária de terras. “A primeira doação foi realizada pelo pai de Carlos Magno, Pepino, após a campanha contra os lombardos. Carlos confirmou o presente criando os chamados Estados Pontifícios”, diz o historiador Ruy Andrade Filho, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Durante a Idade Média, a Igreja Católica Romana recebeu ainda outras terras doadas por fiéis preocupados em entrar no reino dos céus. Como os religiosos não se casavam e não tinham filhos, as propriedades continuavam sempre na mão de uma só entidade: a própria Igreja.
 Que se tornou a maior proprietária de terras da Europa durante o período feudal. Mas o latifúndio papal acabou com a unificação italiana em 1870. Os revolucionários italianos ocuparam os chamados Estados Pontifícios e queriam a cidade de Roma como nova capital. O papa Pio IX recusou-se a negociar com o rei Vitor Emanuel. O status da cidade foi finalmente resolvido em 1929, por meio do Tratado de Latrão, firmado entre Benito Mussolini e Pio XI. Pelo acordo, a Igreja ficou com o Estado do Vaticano, que ocupa menos de 5 quilômetros quadrados.
Renascimento medieval
As guerras foram a principal atividade de Carlos, mas não a única. O monarca, que falava alemão e era analfabeto, dedicou-se à promoção de uma modesta, porém importante, renascença cultural. Ele não apenas criou uma escola em seu palácio reunindo os melhores acadêmicos da época, mas promoveu uma retomada da atividade intelectual em mosteiros. Graças a esse período, hoje, temos acesso a obras da Antiguidade, como Cícero e Virgílio, que foram copiadas no período carolíngio. “Em seu reinado, um grande número de manuscritos foi copiado. Desses, existem ainda 7 mil livros, incluindo os autores clássicos e os primeiros cristãos.
 Essas obras lançaram os padrões para a escrita latina, para a arte e a arquitetura”, diz David Ganz. Outra contribuição do Império de Carlos Magno foi a própria idéia de história. “Antes, a história era quase totalmente baseada em crônicas de eventos recentes ou contemporâneos, e não um registro de continuidade”, afirma Geoffrey Koziol. “Foi nesse período que se introduziu as siglas a.C. (antes de Cristo) e d.C. (depois de Cristo).”
Origens do feudalismo
Para muitos historiadores, a coroação de Carlos Magno no ano 800 marcou a real transição entre a Antiguidade e a Idade Média e não a queda de Roma, em 476. A explicação é que Carlos teria fundado os princípios feudais que norteariam a Europa até o fim do período medieval. “As instituições fundamentais da sociedade medieval e a incorporação da tradição clássica à cultura da Idade Média têm suas bases no período carolíngio”, diz o historiador Christopher Dawson, no livro The Making of Europe.
 O rei dos francos utilizou como ninguém as relações de vassalagem e a influência da Igreja para manter e propagar seu poder. ”Essas são características marcantes que se estenderiam pela Idade Média e sobreviveram à divisão de poder que se sucedeu à sua morte”, afirma Dawson. Segundo Ruy Andrade, professor da Unesp, o feudalismo é fruto de elementos estruturais e conjunturais. Dentre os conjunturais, existem os oriundos do Império Romano, como a ruralização da economia e da sociedade a partir do século 3. Entre os estruturais, a expansão do Islã, a derrocada do Império e as invasões de sarracenos, normandos, húngaros e eslavos. “Dessa forma, a formação do Império Carolíngio é apenas um dos componentes que irão gerar a sociedade feudal.”Carlos Magno não é ´fundador` do feudalismo. Seu império é uma das características de um todo sistêmico.”
  Isabelle Somma

sábado, 13 de outubro de 2012

DOIS MIL ANOS NO TIBETE

Eles viviam isolados e sob sistema um feudal até serem invadidos pela China, em 1950. Seus costumes tribais desde então têm sido exterminados e os tibetanos correm o risco de desaparecer. Mas, antes de vestir a camiseta, descubra que país é esse que o mundo todo quer ver livre
Em outubro de 1950, o Ocidente assistia a uma novidade musical, o rock’n’roll. A Europa era reconstruída, os anos pareciam dourados e os cientistas dominavam a bomba atômica. No Brasil, a TV Tupi havia acabado de inaugurar suas transmissões e o Maracanã recebia milhares de torcedores todos os domingos. Enquanto isso, do outro lado do mundo, tropas chinesas invadiam o Tibete, uma região montanhosa na fronteira sudoeste da China que pouca gente do lado de cá do planeta já ouvira falar. Pudera. O lugar coberto de neve por todos os lados era medieval. A população vivia sob um regime de servidão feudal, que combinava poderes políticos e religiosos. Não havia estradas, carros – só era possível viajar a pé ou no lombo de animais–, nem mesmo luz elétrica. A comunicação com o mundo exterior, assim como o desenvolvimento econômico, era próxima de zero.
Atrás da “cortina de ferro” que dividiu o mundo durante a Guerra Fria, a situação do Tibete só voltou a ser notícia em 1989, quando Tenzin Gyatso, o dalai lama – líder político e espiritual dos tibetanos –, ganhou as páginas dos jornais ao receber o Prêmio Nobel da Paz. Trinta e nove anos se passaram e o cenário do Tibete já era outro, agora sim, muito mais sintonizado com o que acontecia no mundo. Os costumes tribais foram praticamente extintos e milhares de pessoas, inclusive Gyatso, viviam no exílio. O país passou por um rápido desenvolvimento econômico e por um processo de urbanização, no ritmo e nos padrões chineses. Porém não há paz no Tibete. Nem consenso. O fervor religioso dos tibetanos resiste e, com o tempo, a causa da libertação do Tibete ganhou a simpatia de astros de Hollywood e virou tema obrigatório das paradas político-festivas dos anos 90, o que só ajudou a deixar essa discussão mais rasa do que se podia desejar. Mas a história do Tibete não começou em 1950.
O povo das montanhas
Toda civilização que se preze tem uma lenda que explica seu aparecimento, um mito que representa aquilo que acreditam definir seu modo de ser, de viver e de se organizar como povo. A lenda fundadora do Tibete diz que a população se originou da união entre um macaco e algo como um demônio em forma de mulher. A região dos altos platôs que compõem o que viria a ser o Tibete era ocupada por tribos nômades independentes (e às vezes inimigas) que foram pacificadas e unificadas como nação, em 127 a.C., pelo rei Nya-Tri-Tsempo. A população se organizava em clãs e o rei era o líder do maior clã, baseando seu poder nos laços familiares e alianças.
Viviam da criação de animais e do que conseguiam plantar nas difíceis condições impostas pela natureza: poucas áreas férteis e muito frio (a região ficava quase o ano inteiro embaixo de gelo). Eram seminômades, migrando atrás de terra descongelada e acompanhando as rotas migratórias da caça. Os tibetanos sempre foram um povo impregnado de religiosidade e os fiéis de então professavam uma forma de xamanismo conhecido como bön, que cultuava diversos deuses, demônios e espíritos ancestrais. Durante os 27 reinados que se seguiram (ou cerca de 800 anos), assim foi o Tibete.
Ascensão do budismo
O budismo, religião que viria a predominar política e espiritualmente na região, chegou ao Tibete no século 3. Mas foi apenas no reinado de Songstsen Gampo, no século 7, que ele se difundiu. Ainda jovem, Songstsen assumiu a liderança de seu poderoso clã. Ele era um conquistador e logo subjugou os clãs inimigos e impôs seu controle aos aliados. À frente de um exército de mais de 100 mil homens, Songstsen estendeu seus domínios pela Ásia central. Mas ele também foi um diplomata. Enviou emissário à China e à Índia, com quem manteve um intercâmbio comercial e cultural. Seu ministro na Índia foi quem escreveu o primeiro alfabeto tibetano, sob influência do sânscrito. O budismo, que já era forte entre os vizinhos, passou a ser difundido quase que como a religião oficial. Foram construídos diversos templos, entre eles o de Jokhang, até hoje o mais sagrado para os budistas tibetanos. Nessa época também começaram as obras do Potala, que mais tarde seria a sede político-religiosa do Tibete.
Como era comum entre os poderosos do mundo antigo, o rei costumava amealhar esposas por onde andava. Além das suas três mulheres tibetanas, Songstsen se casou mais duas vezes: com uma moça chinesa e outra nepalesa. Casar era uma forma de selar alianças e com a China, por exemplo, as relações diplomáticas iam muito bem, obrigado. “A religião tinha um papel importante para esse entendimento”, afirma Eduardo Basto de Albuquerque, professor de história das religiões da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ainda no reinado da dinastia de Songstsen Gampo foi assinado um tratado de amizade no ano de 821, esculpido em pedra em frente ao templo Jokhang, em Lhasa, estabelecendo o respeito mútuo e eterno da fronteira Tibete-China. Segundo Eduardo, esse foi um período em que a economia tibetana se desenvolveu consideravelmente por conta do intercâmbio com Índia, China e Nepal. Com aliados como esses, o poder político do Tibete cresceu e o país expandiu seu controle sobre vários territórios.
A dinastia dos reis religiosos chegou ao fim em 907, quando Lang Dar-Ma – o 41º rei do Tibete –, foi assassinado, deixando duas viúvas e dois sucessores. Após a sua morte, não houve acordo entre as partes e o país foi dividido entre os dois príncipes. Esse racha levou a outros e, em pouco tempo, o Tibete voltou a ser uma terra composta por vários reinos pequeninos. Mas nesse período o budismo se fortaleceu como um dos poucos pontos em comum da identidade desses reinos. Foram erguidas escolas budistas e o sistema monástico se consolidou, bem como o poder dos monjes.
A reunificação ocorreu no século 13 e não é difícil entender por que ela aconteceu em torno de um sacerdote, ou lama: Sakya Pandita foi o primeiro sacerdote-rei do país e assumiu o controle total sobre o território tibetano. A religião lhe dava esse poder. No entanto, havia uma ameaça maior contra a qual o rei não poderia lutar: Gêngis Khan, o guerreiro mongol que já havia dominado grande parte da Ásia central. E aí Sakya Pandita assinou uma carta que até hoje é guardada na manga pelos chineses. Ele pediu ajuda aos antigos aliados da China. Em troca de proteção, concordou em tornar o Tibete uma região administrativa sob a jurisdição do governo chinês. Está tudo lá, assinado por Sakya Pandita. É por essas e outras que, para Pequim, o Tibete é parte da China desde o século 13 e não se fala mais nisso.
O Tibete (com a mãozinha chinesa) resistiu à fúria mongol. E o sistema de sacerdotes-reis vicejou. O país se transformou numa sociedade feudal de castas que só foi revelada ao mundo após a invasão chinesa em 1950. O sistema legal do Tibete data de 1613 e se resumia às “Treze Leis” e às “Dezesseis Leis”, que juntas regiam a vida dos cidadãos. Por lei, a sociedade era rigidamente dividida em três camadas e nove classes. Mulheres, vagabundos, mendigos, ferreiros e açougueiros – matar um animal, mesmo que fosse para comer, era crime – pertenciam à camada mais baixa. Os senhores feudais do Tibete eram sempre os funcionários do governo anterior, os aristocratas, os lamas das mais altas camadas. Eles eram proprietários de todas as terras cultiváveis, dos pastos e da maioria do gado.
Os servos – os nangzan (“alimentados nas casas”, em tibetano) – eram 95% da população e seus proprietários os chamavam de “gado que não pode falar”. Aqueles que se rebelavam – e isso acontecia vez por outra – eram duramente punidos, com olhos e membros amputados em praça pública. Mas não vale ficar chocado. Os budistas não eram vilões. Quase na mesma época, por exemplo, os cristãos acreditavam que índios não tinham alma e patrocinavam sua extinção em massa na América Central. Porém, os budistas tibetanos atuais, como o próprio líder Tanzin Gyatso, admitem que alguns aspectos da religião (a crença no renascimento, no “carma”) faziam com que as pessoas aceitassem com algum conformismo a miséria que o destino lhes impunha. “Um pobre camponês tibetano era menos inclinado a sentir inveja ou a sentir-se oprimido por seu rico senhor por saber que ambos estavam colhendo a semente que haviam plantado em suas vidas anteriores”, ele escreveu em sua autobiografia Minha Terra e Meu Povo.
Esses anos – que duraram até o século 20 – foram também um período de isolamento absoluto, tanto cultural quanto econômico. Além da sua geografia, que sempre dificultou as relações exteriores – até pouco tempo atrás uma viagem das fronteiras da Índia ou do Nepal até Lhasa levava dois meses, num caminho que atravessava perigosos desfiladeiros do Himalaia –, restringindo a entrada de estrangeiros, os tibetanos achavam que se protegiam de invasões.
A partir de 1642, a figura do dalai lama, até então apenas o líder espiritual dos tibetanos, recebeu o poder político sobre a totalidade do país. Nessa época, China e Tibete conviveram, digamos, respeitosamente, cada um do seu lado da fronteira, sem maiores conflitos.
A presença britânica
O clima azedou na região quando a hegemonia da China foi colocada em cheque pela presença dos britânicos, que se aboletaram na região em meados do século 19. Envolvidos em diversos interesses, ingleses e chineses foram à guerra em 1840. Derrotada, a China foi forçada a abrir cinco portos para o comércio britânico e a ceder Hong Kong (a colônia só foi devolvida à administração chinesa em 1997). Nessa briga toda o Tibete permaneceu neutro. Os ingleses desprezavam qualquer direito chinês na região e passaram a comercializar por ali livremente, instalaram bases militares e, por fim, tomaram Lhasa, em 1907. Essa invasão acabou fazendo com que o dalai lama fugisse, veja que ironia, para a China. Para que ele retornasse a Lhasa, os ingleses impuseram alguns tratados comerciais que os beneficiavam em detrimento dos interesses chineses. Os ingleses montaram, armaram e treinaram o exército tibetano que, em 1911 expulsou os chineses da região e declarou independência.
Invasão chinesa
O mundo mudou: os britânicos mudaram (deixaram de ser um império), a China mudou (virou comunista, sob o comando de Mao Tsé-tung). Só não mudou o Tibete. Com a retirada dos britânicos, o país não tinha como resistir aos poderosos vizinhos. De olho nos recursos minerais, na posição geográfica estratégica e, principalmente, com o orgulho ferido, o Exército chinês invadiu o Tibete, em outubro de 1950. Os tibetanos resistiram, mas o país dispunha de uma força de 6 mil homens e os soldados chineses eram 400 mil. “Existiam guerreiros tibetanos, mas nem armas de fogo eles possuíam. Foi um massacre”, diz Eduardo, da Unesp.
Tenzin Gyatso tinha 15 anos e foi forçado a assinar, em 1951, o “Acordo de 17 Pontos”, em que abriu mão da soberania do país desde que a China respeitasse os direitos e a liberdade de culto no Tibete. Isso não aconteceu e os tibetanos se rebelaram em março de 1959. Lhasa, a sede da revolta, foi rapidamente arrasada, e o dalai lama novamente teve de fugir. Dessa vez para Dharamsala, na Índia, onde ele e seus apoiadores fundaram o governo tibetano no exílio. As estimativas do grupo de Dharamsala é que, atualmente, existam mais de 130 mil tibetanos exilados e que pelo menos 1 milhão tenham sido mortos pelos chineses. “A devastação cultural também não foi pequena: após 1959, cerca de 6 400 mosteiros foram destruídos no país”, afirma Eduardo.
Tibete hoje
Os chineses não pretendem devolver o Tibete aos tibetanos e, muito menos, ao dalai lama. Depois da invasão, a região passou a abrigar mais chineses do que nativos, a língua oficial é o mandarim e a liberdade de culto é rigidamente controlada. Sem contar os bilhões de iuans que a economia local atualmente movimenta para os cofres chineses, seja em minérios, seja em turismo. Com o status de “Região Autônoma Tibetana”, o país possui estradas asfaltadas e vôos diários de Lhasa a Pequim. Construíram-se pontes, escolas e hospitais modernos. Nos últimos dez anos, dois terços das construções tradicionais foram postos abaixo para dar lugar aos novos edifícios.
A maior parte dos tibetanos que sobraram ainda resiste à integração forçada e vive da agricultura e do pastoreio. Alguns hábitos, como os alimentares, continuam fiéis aos tempos de independência: a dieta ainda é baseada em cevada, que é consumida todos os dias, carne e manteiga de iaque (os tibetanos não são vegetarianos. O que não se deve, de acordo com o budismo, é matar um animal, mas comer o bicho depois de morto, tudo bem), carne de carneiro e farinha de trigo. Quanto às bebidas, a cerveja de cevada – a chang – e o chá têm espaço garantido. “O problema hoje já não é tanto a ocupação do território e sim a imposição da cultura chinesa em detrimento da outra. Uma coisa não justifica a outra e nisso os tibetanos têm razão”, afirma Mario Bruno Sproviero, professor da Universidade de São Paulo.
Especializado em cultura chinesa, ele acredita que seja por essas e outras que, apesar das críticas, há muito tempo, o próprio dalai lama já desistiu de reivindicar a independência. Agora ele pede apenas a autonomia de fato, que incluiria a liberdade de culto e a restauração da língua tibetana. “Que seja sob o domínio chinês, os tibetanos lutam para que sua civilização não desapareça”, diz Mário.
Mariana Sgarioni