quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A CORRIDA DO OURO EM MINAS GERAIS

No Brasil do século 17, a descoberta do ouro nas Minas Gerais deu início a acontecimentos dignos dos melhores ( e piores) filmes de bangue-bangue. Traições, mapas de tesouro, ataques indígenas e assassinatos levaram à loucura uma população que jamais seria a mesma
O cinema e a literatura ainda não exploraram o veio, mas o Brasil teve uma corrida do ouro tão dinâmica, vertiginosa e alucinada quanto aquelas que já cansamos de ver nas páginas e nas telas de produções americanas retratando os acontecimentos na Califórnia (em 1849) e no Alasca (em 1875). Mas a febre do ouro que contagiou o Brasil deu-se dois séculos antes, movimentou fortunas colossais, alterou radicalmente o ambiente natural na região das lavras e dos veios, gerando turbulências, proezas, ganância e morte em intensidade no mínimo igual às de suas famosas congêneres do hemisfério norte.
Mapas das minas, tesouros escondidos, intrigas e traições, marchas árduas em sertões ermos, assassinatos, assaltos e tiroteios em sombrias cidades mineiras de ruas enlameadas, tavernas repletas de sujeitos mal-encarados, atos de bravura – nada faltou à saga mineradora do Brasil. Faltou apenas um Jack London ou um John Ford para contar a história – e transformá-la em mitologia universal. Nos bancos escolares do Brasil não se vê (e nunca se viu) um só aluno aguardando ansioso o momento de mergulhar nessa aventura febril. A corrida do ouro continua sendo um tema tedioso entre tantos outros.
Por mais de 250 anos, o ouro – ou a ausência dele – foi mais do que uma obsessão para os portugueses que desembarcavam no Brasil: foi uma autêntica maldição. Ao contrário do México e do Peru, conquistados pelos espanhóis, na terra do pau-brasil parecia não haver “coisa de metal algum”, em uma muda confirmação do desesperançado diagnóstico feito por Américo Vespúcio em 1502. O padrinho do Novo Mundo havia se mostrado mais cético que o cronista do nascimento do Brasil. Em sua famosa carta ao rei dom Manoel, redigida em maio de 1500, Pero Vaz de Caminha deixou registrada toda a expectativa dos portugueses de encontrar “o fulvo metal” nas novas terras descobertas. Bastou um indígena apontar para o colar de ouro que adornava o peito de Pedro Álvares Cabral e, em seguida, indicar as montanhas ao longe para que o gesto fosse interpretado como o sinal de que, naquelas serranias, deveria haver ouro, muito ouro. “Ou talvez nós assim o julgássemos porque assim esperávamos”, escreveu Caminha. A espera iria se prolongar por quase 200 anos, reclamando milhares de vidas antes de se revelar uma espantosa realidade.
Embora algumas pepitas fossem encontradas por Afonso Sardinha em 1565 no sopé do morro do Jaraguá, em São Paulo, e em 1590 certos ribeiros do litoral do Paraná revelassem areia aurífera, o fato é que até 1693 no Brasil o que refulgia era apenas o “ouro dos tolos”, a pirita. Em 1674, Portugal e o Brasil passavam por tão profunda crise financeira que o regente Pedro II (coroado rei em 1683) decidiu escrever aos “homens bons” da vila de São Paulo encorajando-os a partir para o sertão em busca de metais. Não dissera, afinal, em 1519, o capitão Hernán Cortez ao líder asteca Montezuma que os espanhóis sofriam de “uma doença do coração que só o ouro pode aplacar”? Pois Portugal e suas colônias encontravam-se de tal forma enfermos que só um Eldorado poderia salvá-los. Pois ele existia e provavelmente já havia até sido encontrado – embora trouxesse consigo outras moléstias.
Durante duas décadas, missivas com o pedido real continuaram chegando a São Paulo. Mas para a corte eram enviadas apenas respostas formais e evasivas: era como se, no Brasil, o ouro não passasse de uma miragem. Até que, de uma hora para outra, houve uma explosão de descobertas. Em fins de 1693, o paulista Antônio Ruiz de Arzão chegou ao Espírito Santo mais morto que vivo, “com 50 e tantas pessoas, entre brancos e índios, todos nus e esfarrapados, sem pólvora ou chumbo”. A expedição retornava do sertão de Minas Gerais, onde, durante a caça aos escravos, fora atacada por aguerridos cataguás. Apesar da refrega, a missão havia sido bem-sucedida: entre os trapos que o recobriam, Arzão trazia 10 gramas de ouro puro.
Debilitado demais para retornar ao sertão, o explorador deu o mapa da mina para seu cunhado, Bartolomeu Bueno de Siqueira (que, pouco antes, perdera toda a herança no carteado). Siqueira partiu então no rumo indicado e em janeiro de 1695 viu-se na contingência de informar ao governador do Rio, Castro e Caldas, que o ouro não era mais uma mera esperança: a “grandeza das lavras” e a “fertilidade das minas” eram inegáveis. Ao mesmo tempo, relembra a historiadora Mafalda Zemella, “Salvador Fernandes Furtado descobriu as lavras do Ribeirão do Carmo, Antônio Dias Cardoso revelou a existência do metal precioso no vale do Tripuí, o padre João Faria descobriu o famoso ouro preto no lugar onde surgiu a cidade de igual nome. João Lopes de Lima apontou outras jazidas no Ribeirão do Carmo. Borba Gato, recebendo indulto régio, revelou as minas de Sabará. Domingos Fonseca Leme descobriu ouro em um afluente do rio das Velhas. Domingos do Prado, no rio Pitangui. Bartolomeu Bueno, no rio Pará. Antônio Garcia Cunha, nas margens do rio das Mortes”.
Tantas descobertas simultâneas e em áreas relativamente distantes entre si evidentemente não foram meras coincidências. Embora a historiografia clássica atribua o súbito ímpeto e o “denodado esforço” dos sertanistas aos “efeitos psicológicos” que as missivas de Pedro II teriam exercido sobre os 11 paulistas que as receberam, o desabrochar instantâneo de tantas minas tem explicação mais pragmática: em 1694, sucumbindo ao óbvio, a Coroa decidiu modificar a legislação que a tornava dona de todos os minérios encontrados no Brasil. A partir de então, o direito de posse das minas seria concedido ao descobridor, cabendo ao rei apenas e tão-somente um quinto dos achados.
Só então os sertanistas de São Paulo revelaram ao mundo as minas que já deveriam conhecer havia pelo menos 20 anos. O fato teve repercussão global, pois as lavras encontradas nas Gerais configuraram a maior descoberta de ouro registrada no planeta até então. Em breve, as mais de mil toneladas arrancadas das entranhas da terra faziam o fausto e a fartura das cortes européias – especialmente da Inglaterra, graças às artimanhas do Tratado de Methuen (assinado com Portugal em 1703) –, sendo usado também como moeda de troca na Índia e no remoto Oriente.
No Brasil as minas geraram um turbilhão de ganância e desordem que, de início, manifestou-se na forma de um êxodo que esvaziou cidades e devastou montanhas. As Gerais cedo se converteram “numa república onde o atrevimento imperava armado e o direito vivia inerme”, conforme o historiador Afonso Taunay. “A região era percorrida por homens de toda a casta e de todas as partes, gente de cabedais e aventureiros sem vintém, em número enorme, os primeiros, arrogantes e prepotentes, acompanhados por espinguardeiros, violentos, vingativos, jogadores e devassos; os demais, em geral, vadios e ladrões inveterados, traidores e assassinos”.
Taunay escreveu no século 20, não sendo, evidentemente, testemunha ocular da história. Mas o depoimento do padre Antonil, jesuíta italiano que vistou a região em plena corrida do ouro, confirma suas afirmações: “A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras e meterem-se por caminhos tão ásperos quanto são os das minas, que dificultosamente se poderá dar conta do mínimo das pessoas que atualmente lá estão. Dizem que mais de 30 mil almas se ocupam, umas em catar, outras em mandar catar, outras em negociar, vendendo e comprando o que se há mister não só para a vida, mas para regalo, mais que nos portos de mar. Cada ano vêm nas frotas novas quantidades de portugueses e estrangeiros. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas, homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, padres e clérigos”.
O trajeto até as minas era árduo e perigoso. Para os que partiam da pequena e turbulenta São Paulo de Piratininga, a jornada conduzia aos vilarejos que iam surgindo no vale do Paraíba, como Taubaté (“taba verdadeira”), Lorena e Guaratinguetá (“lugar das garças brancas”). Dali, cruzava-se a serra da Mantiqueira (“lugar onde chove muito”) pela garganta do Embaú, atingindo-se então os três principais pólos mineradores: as nascentes do rio das Mortes, tendo por centro São João del Rei; a região de Ouro Preto e Mariana, na serra do Tripuí; e Sabará e a vizinha Caetê. Eram cerca de dois meses e meio de marcha e, quando a corrida de fato se iniciou, muitos foram os que partiram “afoitos e desesperados, só com seu diminuto trem às costas”, de acordo com Taunay.
Em 1699, Garcia Rodrigues Pais (filho do sertanista Fernão Dias Pais) abriu um caminho bem mais curto, o “caminho novo”, por meio do qual o percurso entre o Rio de Janeiro e as minas podia ser vencido em apenas 14 dias. O fluxo migratório tornou-se incontrolável e estima-se que cerca de 70 mil pessoas tenham se dirigido para lá sonhando fazer fortuna fácil. Eclodiu, então, uma grave crise de abastecimento e todos os recursos naturais da região foram consumidos. Uma galinha valia 20 gramas de ouro e “houve quem matasse por uma pipoca de milho”. Formigas, ratos, morcegos – tudo servia para saciar a fome, “inclusive uns bichos brancos e gosmentos” tirados do meio dos bambus, como constatou Antonil.
Mas o ouro de fato existia em larga quantidade – e estava quase à flor da terra, explorado em aluviões, nas areias e cascalhos dos rios, “numa autêntica catagem, que só necessitava braço humano, sem jeito especial nem inteligência amestrada”. A lista dos descobridores incluía a maioria dos sobrenomes importantes de São Paulo, ainda ligados ao modo de vida tradicional. “Cada um deles chefiava seus próprios índios, falava a língua geral, casava-se na tribo, viajava anos pelo mato, montando roças e fazendo guerra e casamentos pelo caminho”, diz o historiador Jorge Caldeira.
Daquela vez, porém, graças à importância de sua descoberta, os paulistas não ficaram muito tempo sozinhos. Ao contrário de seu grande negócio anterior – a caça aos índios –, o ouro atraiu a atenção e a cobiça de gente do Rio de Janeiro, da Bahia, do Paraguai, de Portugal e da Espanha. Foram os paulistas que descobriram as minas, mas não seriam eles os que lucrariam com elas.
As desavenças e os conchavos, as rivalidades e as brigas de gangues eclodiram de imediato. E o homem encarregado de estabelecer a lei e a ordem na região, Artur de Sá e Meneses, ex-governador do Maranhão, empossado como governador da repartição sul em abril de 1697, era um rematado corrupto. Não só indultou Borba Gato do crime de lesa-majestade que o bandeirante cometera, como tornou-se seu sócio. Em junho de 1702, Sá e Meneses partiu para Portugal com as 40 arrobas (quase 600 quilos) de ouro que lhe haviam sido “ofertadas” pelos mineradores em troca de suas vistas grossas.
Embora submetidos a um dos mais rígidos conjuntos de regras tributárias da história, os exploradores do ouro brasileiro encontraram todas as formas imagináveis de burlar o fisco. Calcula-se que pelo menos 35 por cento do ouro tenha sido contrabandeado. Mesmo assim, as quase mil toneladas do metal arrancadas pelo esforço, suor e sangue dos escravos tornaram dom João V o Rei-Sol de Portugal, ajudaram a reconstruir Lisboa após a devastação do terremoto de 1755, concentraram uma dose colossal de poder nas mãos do marquês de Pombal, fizeram com que a capital do Brasil se transferisse de Salvador para o Rio de Janeiro e determinaram a ocupação e a incorporação definitiva de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. Mas não trouxeram progresso para o Brasil nem inspiraram bons filmes e livros.
Eduardo Bueno.

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