sexta-feira, 5 de outubro de 2012

CAMARADA ERNESTO CHE GUEVARA

Ele abandonou a medicina, a família e seu país para conhecer a América e os americanos. Acabou se transformando num guerrilheiro e lutando pela independência em uma pequena ilha do Caribe, da qual pouco sabia. Morto antes de completar 40 anos, tornou-se um dos símbolos do século 20
O muro de Berlim caiu em 1989, levando junto a União Soviética e uma penca de regimes do “socialismo real”, mas Ernesto Che Guevara sobreviveu. Argentino de nascimento, cubano por adoção e latino-americano por vocação, o jovem que se tornou guerrilheiro e a mais influente figura da Revolução Cubana, só abaixo de Fidel Castro, foi executado em 9 de outubro de 1967 por uma unidade do Exército boliviano treinada pela CIA, a agência de inteligência do governo dos Estados Unidos.
Che deixou a medicina de lado para lutar por justiça social e se transformou no personagem político mais célebre da América Latina no século passado. Virou ícone universal de rebeldia e desprendimento, alimentando o imaginário e a esperança de jovens, politizados ou não, e entrou para a galeria dos imortais do século 20, ao lado de Mahatma Gandhi, Martin Luther King e John Lennon.
Nascido em14 de junho de 1928, em Rosário, na Argentina, filho de Ernesto Guevara Lynch e Célia de la Serna, desde pequeno presenciou conversas de seus pais com militantes políticos progressistas. Porém, a política não foi a maior paixão de Ernesto, pelo menos não até sua passagem pela Guatemala, em 1954.
Até então, o que lhe dava maior prazer era viajar e conhecer diferentes culturas, conversar com a gente simples e ajudar pobres e doentes com suas noções de medicina, sempre com pouquíssimo dinheiro no bolso e sem ligar para a aparência. Foi pensando nisso que deixou a faculdade – para desespero de dona Célia – e partiu em sua primeira grande jornada, em janeiro de 1952. De moto, ônibus e trem, dormindo pouco, comendo mal, sofrendo com ataques de asma, em oito meses ele conheceu grande parte da América do Sul. Ernesto escreveu em seu diário: “A divisão da América em nacionalidades incertas e ilusórias é completamente fictícia”.
Esse sentimento o acompanhou para sempre. Voltou à Argentina em setembro para concluir o curso de medicina, mas no ano seguinte partiria novamente. Agora não haveria retorno. Passou pela Bolívia, Equador e Costa Rica, entre outros países, até alcançar o México 
Ali, aonde chegou em 1954, Ernesto viveu um período de ricas e intensas experiências. Sempre precisando de dinheiro, ele trabalhou como fotógrafo durante os Jogos Pan-Americanos, em março de 1955. O emprego fixo e o salário certo deram-lhe alguma estabilidade. Ele trabalhou em hospitais, publicou duas pesquisas sobre alergia – sua especialidade no campo médico – visitou pirâmides e templos maias em Palenque, Chichén-Itzá e Uxmal e fotografou bastante. Em agosto de 1955, Ernesto se casou com a peruana Hilda Galdea, com quem teve sua primeira filha, Hilda Beatriz Guevara.
Mas a vida em família não aquietou seu espírito. Na Cidade do México, ele conheceu Fidel Castro e seu irmão Raúl, líderes revolucionários cubanos que estavam recrutando simpatizantes para uma ação militar contra a ditadura em seu país. Com eles, Ernesto partiu para um treinamento de guerrilha, onde praticou tiro ao alvo, escaladas e condicionamento físico.
Novembro de 1956. É chegada a hora. Che Guevara embarca no Granma, um iate a motor de 12 metros, com outros 81 homens, liderado por Fidel. Seu destino é Cuba. Seu objetivo é a revolução. Desembarcam na praia de Las Coloradas e por pouco Che não é morto no confronto com o exército do ditador Fulgencio Batista. Uma bala de fuzil o atinge no pescoço, mas ele está entre os 15 sobreviventes que seguem para Sierra Maestra, onde se reagrupam e iniciam a guerrilha.
Na ilha, ele começa sua vida de guerrilheiro como médico, mas depois é alçado ao posto de comandante de uma das colunas do exército rebelde. Torna-se uma das principais figuras do grupo, ao lado de Fidel Castro, Raúl e Camilo Cienfuegos.
Após liderar a decisiva batalha de Santa Clara, Che entra em Havana nos primeiros dias de janeiro de 1959 e é saudado como um dos responsáveis pela vitória do movimento. Nesse mesmo ano, Che casa-se pela segunda vez, agora com a companheira de guerrilha Aleida March, com quem viria a ter dois filhos e duas filhas. Ao lado de Raúl, passa a ser o principal elo com o Partido Comunista e trabalha para que a revolução cubana adote o caminho do socialismo, o que aconteceria pouco mais de dois anos depois da vitória do movimento guerrilheiro.
Os anos pós-revolução foram de muito trabalho. Che ocupou vários cargos no primeiro escalão do novo governo e negociou acordos comerciais e militares no exterior para romper o isolamento da ilha, que amargava as conseqüências do embargo econômico imposto pelos EUA. Ficou conhecido por seu humor cortante e conduta severa, austera, incorruptível e disciplinada.
Maior ideólogo do internacionalismo de Cuba, umas das principais marcas da revolução cubana, Che pregava que a viabilidade do socialismo na ilha dependia de relações com nações socialistas baseadas na cooperação mútua, incluindo o apoio militar às guerrilhas do Terceiro Mundo.
Algumas biografias de Che apontam que ele e Fidel entraram em rota de colisão, em meados da década de 60. Che queria levar a revolução além das fronteiras da ilha e criticava os soviéticos por não prestarem ajuda a guerrilhas esquerdistas no continente. Fidel, muito mais pragmático e interessado em consolidar o socialismo em Cuba, precisava do apoio financeiro e logístico da União Soviética. Sua filha Aleida Guevara March, hoje com 42 anos, médica alergista em Havana, contesta essa interpretação. “Os setores que tentam utilizar supostas divergências entre o Che e Fidel não são outros senão os historicamente utilizados pela CIA, há muito tempo, com o objetivo de desacreditar a figura do homem que ainda está vivo e demonstrando as falsidades e os crimes do sistema capitalista”, diz Aleida.
Che deixou Cuba em 1965. Partiu em segredo para a África e, em seguida, para a Bolívia, onde foi morto a tiros, em outubro de 1967. Trinta anos depois, seus restos mortais foram encontrados em uma vala próxima do aeroporto de Vallegrande, no meio da selva boliviana, e levados para Cuba, onde estão enterrados.
José Alberto Gonçalves


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