quinta-feira, 11 de outubro de 2012

CIDADE DE DEUS

Não há palavras que possam sintetizar o que senti ao assistir o filme "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Pode-se dizer que há um misto de indignação e medo, de orgulho e satisfação, de desgosto e reflexão...
Há um pouco de tudo. O filme nos engole, parece que estamos no meio de um furacão, saímos um tanto quanto devastados pela energia e pela vibração do movimento frenético que marca "Cidade de Deus" do início ao fim.
Nos sentimos indignados (como disse no princípio dessas linhas) por sabermos que há vários bairros espalhados na imensidão das grandes e médias cidades brasileiras que também poderiam ser chamados de "Cidade de Deus". Assemelham-se em virtude da violência, das ruas de terra batida, do esgoto correndo a céu aberto, da falta de oportunidades de trabalho e estudo ou do descaso das autoridades em relação a essa população.
Sentimos medo por não sabermos em quem podemos confiar. Desconfiamos dos policiais assim como dos bandidos. Achamos que as leis não resolvem e que a justiça é lenta (duvidamos inclusive da máxima popular de que a justiça tarda, mas não falha. Acreditamos, no máximo, numa reparação divina...). Sabemos que pessoas inocentes podem pagar pelos erros dos marginais (e, nesse aspecto vale destacar o livro de Caco Barcellos, "Rota 66", como uma leitura que reitera essa tese). Temos receio de dizer não aos traficantes que controlam os bairros em que moramos por que a conseqüência imediata dessa desobediência pode ser nossa morte ou a de nossos familiares.
Por outro lado, há um orgulho imenso de saber que o cinema nacional é capaz de produzir obras geniais e inesquecíveis como "Cidade de Deus". Não importa o que pensam os conservadores votantes do Oscar, que não permitiram que o filme concorresse ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Talvez essa atitude seja até uma comprovação das muitas qualidades do filme, que em nada se enquadra na mesmice que vem sendo a marca registrada de Hollywood e de suas continuações. Fotografia, cadência, música, atuação dos atores (a maioria dos quais, amadores recrutados na própria Cidade de Deus), roteiro, figurinos, e todos os demais quesitos de composição do filme compõem de forma harmoniosa, um resultado de altíssima qualidade.
Há também a satisfação de saber que o cinema brasileiro é maduro o suficiente para discutir e colocar em pauta questões de caráter social e, dessa forma, fomentar um debate mais amplo e sério dessas questões entre todos os brasileiros (abarcando desde a sociedade civil, passando pelas ONGs, movimentando órgãos governamentais, abrindo os olhos de nossos estudantes,...).
Abre-se espaço para uma reflexão profunda. Abre-se espaço para a ação das autoridades e da comunidade. O filme pulsa e parece nos dizer que temos que tomar um posicionamento. Temos que sair de nossa letargia, de nosso imobilismo e, motivados por uma profunda e desgostosa sensação de insatisfação, promover mudanças. Como fazer isso? Infelizmente seria pedir demais que, além de tudo o que nos concede, "Cidade de Deus" também tivesse as respostas para os problemas de nosso país. Essas respostas cabem a nós...
O Filme
"Cidade de Deus" nos conta várias histórias, entre as quais, destaque especial para as trajetórias de Dadinho (Douglas Silva) e Buscapé (Luís Otávio quando menino e Alexandre Rodrigues quando jovem). São dois, entre os vários meninos, dessa verdadeira cidade erguida na periferia do Rio de Janeiro onde se concentram pessoas humildes, de poucas possibilidades, de parca instrução e de muita disposição para a labuta diária.
Entre as pessoas que vivem na Cidade de Deus, como parte um tanto quanto indesejada da comunidade, circulam ladrões dos mais variados níveis. Daqueles que roubam caminhões de gás e assaltam motéis até os traficantes que chegam a controlar a comunidade e estabelecer as regras e os limites toleráveis de convivência no local.
A polícia, nesse mundo perdido, perambula e procura mostrar serviço quando ações mais violentas chegam as manchetes dos grandes jornais do estado. No mais, acomodou-se em rondas que pouco ou nada garantem para os moradores do bairro. Muitas vezes, os policiais acabam mesmo incitando mais violência (inclusive contra inocentes trabalhadores e donas de casa) ou tolerando, em troca de polpudas contribuições, a ação dos bandidos.
Buscapé é o representante do povo honesto, que acorda cedo para vender seu peixe, pegar no pesado, ganhar o pão de cada dia e garantir o leite das crianças. Vive no meio corrompido do bairro e não se deixa levar pela facilidade do dinheiro fácil obtido através do roubo ou da venda de maconha e cocaína. Sonha em ser fotógrafo e trabalhar num grande jornal.
Dadinho é o diabo desde cedo. Vive de acordo com a lei da selva. Tem sempre que falar mais alto. Carrega um "trabuco" que lhe dá respeitabilidade e o faz temido. Não se faz de rogado em usar o revólver para acabar com seus inimigos. De assaltante se torna traficante. Deixa de ser Dadinho e se torna Zé Pequeno (Leandro Firmino da Hora). Vira o dono do bairro e, ao lado de Benê (Phellipe Haagensen), tenta a todo custo conquistar o último quinhão da "Cidade de Deus", domínio do rival Sandro Cenoura (Matheus Nachtergaele, em outra interpretação notável).
"Cidade de Deus" nos coloca no meio de um duelo a céu aberto, como num verdadeiro faroeste caboclo, num autêntico "Matar ou Morrer". Inesquecível! Formidável! Assustador!
Cineweb.

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