segunda-feira, 22 de outubro de 2012

HOMO SAPIENS: AINDA SOMOS OS MESMOS?

Uma região da Etiópia habitada por um povo seminômade e com escassa vegetação acaba de entrar para os marcos iniciais da história do homem moderno. No local, foram descobertos crânios de dois homens e uma criança que viveram entre 154 mil e 160 mil anos atrás numa terra que era bem diferente, com terrenos férteis e um grande lago de água doce. O achado mudou o rumo das teorias evolutivas. Isso porque as ossadas encontradas pela equipe liderada pelo paleontropólogo americano Tim White, da Universidade da Califórnia, mostram que o primeiro Homo sapiens se parecia muito conosco. “Ele andava como nós, alimentava-se e agia de forma muito semelhante”, afirma White. Se um deles ainda estivesse por aí, passeando pela rua hoje em dia, poderia passar despercebido. “Nós mudamos muito pouco nos últimos 160 mil anos.”
Os ossos foram encontrados em 1997, mas só agora foram concluídas a limpeza e a reconstituição para que eles pudessem ser analisados e datados. Depois de montados os mais de 200 pedaços, a equipe recuperou os crânios completos de dois adultos, com idades entre 20 e 30 anos, e o de uma criança de cerca de 6 anos. São os exemplares dos ancestrais do homem moderno mais bem conservados já encontrados até agora. Além dos crânios, o grupo – formado por 45 cientistas de 14 países – desenterrou ossos de mais sete pessoas e cerca de 600 artefatos feitos de pedra. Com isso, puderam descobrir muito sobre o homem de Herto (batizado em homenagem ao vilarejo próximo da região onde foi encontrado): sua iguaria predileta, por exemplo, era carne de hipopótamo.
Para consegui-la, ele caçava com ferramentas fabricadas com pedras afiadas. Vivia perto de um lago cheio de peixes e crocodilos. E, quando um membro do grupo morria, realizavam rituais fúnebres para a despedida. Nada muito diferente do que fazem, hoje, os habitantes locais.
Não há dúvidas de que o hominídeo é o ancestral mais longínquo do homem moderno. “A descoberta é a evidência mais antiga de nossa espécie, o Homo sapiens”, diz Tim White. No entanto, por ter uma constituição ligeiramente diferente, ele recebeu uma denominação de subespécie: idaltu – que na língua afar (o povo que habita atualmente a região) significa “ancião”. “A robustez do crânio do homem de Herto não se parecia com nenhuma das amostras de 3 mil crânios de homem moderno. Porém, outros parâmetros, como o comprimento do rosto, eram muito semelhantes. Por isso a nomenclatura diferente”, diz Henry Gilbert, um dos membros da equipe. O que mais impressionou foi a saúde do homem de Herto. Segundo White, ele é uma mistura da espécie mais robusta que existe hoje em dia – mas com uns hormônios a mais.
Jardim da criação
No nordeste da África foram descobertos alguns dos mais antigos fósseis de nossos ancestrais
1. HOMEM DE BODO
O crânio de Bodo é de um Homo erectus com 600 mil anos. Nele foram encontrados os mais antigos sinais de cerimônias mortuárias. Quando morriam eles tinham a carne removida dos ossos
2. HOMEM DE HERTO
Foram achados dois adultos e uma criança com 160 mil anos – os mais antigos exemplares do homem moderno
3. LUCY
A famosa Australopithecus afarensis com 3,6 milhões de anos é uma das evidências mais antigas dos ancestrais do homem moderno. Morta aos 20 anos, ela andava ereta, mas mantinha o hábito de subir em árvores. Tinha pouco mais de 1,20 metro
4. MENINO DE TURKANA
O exemplar de Homo erectus com 1,7 milhão de anos é de uma criança entre 9 e 12 anos. Ele tem um esqueleto muito parecido com o do homem moderno. O menino tinha 1,65 metro de altura e poderia chegar a 1,85 quando adulto
5. HOMEM DE DAKA
Subindo na escala evolutiva, o crânio com 1 milhão de anos era também de um Homo erectus. Seiscentos mil anos depois que ele andou pela África, sua espécie desapareceu
África, doce lar
A descoberta do homem de Herto aquece uma velha discussão: a origem do homem moderno. Estudos moleculares mostram que a diversidade genética entre os africanos é maior que em qualquer região do planeta. Para alguns cientistas, isso prova que o homem surgiu ali e depois se espalhou pelo mundo. Como alternativa a essa hipótese, há a tese multirregionalista, que sustenta que o homem moderno evoluiu em regiões diferentes do planeta ao mesmo tempo. Assim, os europeus poderiam ter se originado do homem de Neanderthal.
Segundo Tim White, o homem de Herto é um banho de água fria nos multirregionalistas. “Estamos certos de que existiam homens anatomicamente mais modernos na África muito tempo antes de existirem os neandertais na Europa”, diz White. Henry Gilbert é ainda mais categórico. “O achado comprova que nossa espécie, depois de surgir na África, substituiu os neandertais na Europa”, diz. O homem de neandertal foi uma espécie à parte na escala da evolução, que desapareceu há cerca de 30 mil anos. Ao mesmo tempo em que o homem de Herto habitava uma planície cheia de antílopes e fértil, a maior parte da Europa estava coberta de gelo.
 Cláudia Castro Lima
 

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