terça-feira, 30 de outubro de 2012

O ÚLTIMO REFÚGIO DOS JUDEUS

Cercados no meio do deserto da Judéia, centenas de rebeldes judeus preferiram se suicidar a cair sob domínio romano, no ano de 73.
A história é conhecida há quase 2 mil anos e se transformou num dos mais poderosos mitos judaicos: depois da queda de Jerusalém, no ano 70, homens, mulheres e crianças se refugiaram em Massada, uma fortaleza isolada no meio do deserto da Judéia, e ali formaram o último foco de resistência contra os romanos durante a revolta judaica de 66 a 73. O épico foi narrado pelo principal historiador judeu da Antiguidade, Flávio Josefo, no clássico Guerras dos Judeus. Nos últimos anos, no entanto, a arqueologia vem, por um lado, corroborando essas informações e, por outro, revelando novos fatos.
Uma das principais evidências descobertas até agora trata justamente de um dos pontos mais polêmicos e impressionantes da narrativa de Josefo. São 11 pedacinhos de cerâmica e em cada um deles há um nome escrito. Segundo Josefo, eles teriam sido utilizados pelos sicaris (como eram conhecidos os integrantes do grupo) para sortear os homens que receberam a dramática missão de executar os 960 sobreviventes, já que a lei judaica condena o suicídio. Depois, um deles foi escolhido para matar os companheiros. “Entre os cacos de cerâmica, há um com o nome de Eleazar Ben Yair, que, segundo Josefo, liderou os sicaris e foi quem propôs o sorteio”, diz o arqueólogo Ehud Netzer, da Universidade Hebréia, de Jerusalém.
O sociólogo Nachman Ben-Yehuda, da mesma universidade, autor de Sacrificing the Truth: Archaeology and the Myth of Masada (“Sacrificando a Verdade: Arqueologia e O Mito de Massada”, inédito no Brasil), discorda dessa interpretação e aponta inconsistências no relato de Josefo. Para ele, em Massada, a arqueologia foi usada para afirmar uma ideologia, para ajudar a construir o mito de heroísmo e sacrifício do povo judeu. “Os pedaços de cerâmica poderiam ser qualquer coisa, como cupons para comida, por exemplo”, afirma.
Descobertas em 1838 e escavadas desde 1963, as ruínas de Massada revelaram detalhes importante para os pesquisadores entenderem o período da história dos judeus, independentemente das comparações com o relato de Josefo. Segundo Jonathan Price, historiador da Universidade de Tel-Aviv, no local se encontrou um antigo palácio de Herodes, o governador romano da Judéia, e a mais antiga sinagoga já achada. “Além disso, foram escavados depósitos de alimentos, cisternas para acumular água da chuva, casas de banhos e flechas que nos dão um boa idéia de como era a vida durante o cerco romano que chegou a reunir 15 mil soldados”, diz Price.
Contudo, a maior polêmica sobre Massada persiste. Em 40 anos de escavações apenas 25 corpos foram encontrados, em contradição com a narrativa de Josefo, segundo o qual teria havido uma mortandade em massa. A ausência de corpos é um dos principais argumentos dos que defendem que os judeus devem ter sido capturados ou simplesmente fugido antes da tomada de Massada.
A figura de Josefo não poderia ser mais contraditória. Judeu, ele teria se rendido aos romanos nos primeiros momentos do cerco e acompanhado, junto às tropas de Roma, a queda de Massada. Segundo ele, os fatos lhe foram relatados por duas mulheres e cinco crianças que sobreviveram. “As pesquisas podem provar alguns dos pontos da narrativa de Josefo, mas a presença dele no local dos acontecimentos permanecerá uma dúvida”, diz Price.
As escavações foram interrompidas pelo governo israelense, que realiza atualmente obras de restauração no local. É que, além de campo de pesquisa arqueológica, Massada, símbolo do heroísmo do povo judeu, virou um dos principais pontos turísticos de Israel, recebendo milhões de visitantes todos os anos.
Heróis ou terroristas?
Os sicaris eram revolucionários radicais que lutavam contra a ocupação estrangeira.
Quando a Judéia foi anexada ao Império Romano, no ano 6, diversos grupos rebeldes se uniram para combater a dominação. “Eram várias facções que costumam ser referidas erroneamente como uma só, a dos zelotes, que era a maior delas”, afirma o historiador Jonathan Price. Os habitantes de Massada eram da facção dos sicaris (o termo em latim significa “homem-faca”) e podem ser considerados os primeiros terroristas da história.
O historiador Andrew Silke, da Universidade de Leicester, na Inglaterra, diz que, para alcançar esses ideais, eles atacavam tanto romanos quanto judeus acusados de colaboracionistas. “Entre suas vítimas estavam soldados romanos, cobradores de impostos e comerciantes judeus.” A tática era se misturar na multidão e atacar de surpresa com uma faca – a sica. Além disso, os rebeldes também praticavam seqüestros e saqueavam propriedades. “A história dos sicaris está relacionada ao extremismo político e às influências messiânicas”, diz Price.
 Longe dos romanos, no entanto, eles viviam em paz. “As evidências mostram que, em Massada, eles viviam como pessoas comuns”, diz Ehud Netzer. Além de armas, foram encontrados vestígios de roupas, sandálias, utensílios domésticos, moedas e ânforas identificadas com o nome do produto que continham: figos, carne ou bálsamo. Entre as atividades cotidianas da população de Massada, estavam os banhos de piscina ou de purificação e as orações na sinagoga local.
  Adriana Kuchler
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Um comentário:

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