quinta-feira, 29 de novembro de 2012

PETRA A CIDADE DE PEDRA

Descoberta em 1812 pelo explorador suíço Johann Ludwig Burchardt, Petra, no sul da Jordânia, ficou famosa como cenário das aventuras do superarqueólogo interpretado pelo ator Harrison Ford no filme Indiana Jones e a Última Cruzada, de 1989. Hoje, as ruínas da cidade são um dos sítios arqueológicos mais visitados do mundo. Porém, a vida e os hábitos de seus habitantes só agora começam a ser revelados. Novas pesquisas mostram que Petra era maior, mais rica e abrigava muito mais gente do que se pensava.
Toda esculpida em rochas e penhascos, Petra esteve por muito tempo escondida atrás do Siq, um enorme labirinto de gargantas e estreitos rochosos. “É uma fortaleza natural escolhida pelos nabateus, um povo de nômades árabes que chegaram na região por volta do século 3 a.C. Foram eles que construíram Petra”, afirma Glenn Markoe, historiador da Universidade de Cincinatti, nos Estados Unidos, e um dos curadores da exposição Petra: A Cidade Perdida de Pedra, no Museu de História de Nova York. “A maioria das construções foi feita a partir do século 2 a.C e demorou cerca de 200 anos.”
Segundo Markoe, os nabateus dominaram o comércio de seda e especiarias pela Península Árabe até o século 1. Com caravanas e camelos indo e vindo do Egito, da Índia, da Síria, da Arábia e de outras regiões, Petra transformou-se numa cidade internacional e, conseqüentemente, absorveu um pouco de cada cultura que passava por lá. “O idioma dominante era o aramaico, mas, em 2002, foram descobertos documentos escritos em grego e até em latim”, diz ele. Eles ainda criaram suas próprias moedas.
Por volta do ano 50, a cidade teria atingido seu pico populacional, com 20 mil habitantes. “Esse número foi estimado com base em documentos e nas construções extremamente sofisticadas. Foram encontrados diversos templos – alguns deles com a altura de edifícios de 17 andares –, cerca de 3 mil sepulturas, casas e espaços comunitários”, afirma Markoe. Mesmo assim, ainda havia dúvidas sobre a quantidade de gente que poderia morar ali: o principal fator limitante era a água, já que as fontes mais próximas estão a quilômetros de distância. “Sabíamos que eles eram mestres em reter a água da chuva, mas, em 2002, foi encontrado um reservatório do tamanho de uma piscina olímpica bem no centro de Petra”, diz Markoe. “Estimamos que o sistema de aqueduto possa ter carregado 40 milhões de litros de água potável por dia.”
No entanto, apesar das novas pesquisas, alguns mistérios sobre a cidade pemanecem. O maior deles é o motivo de sua desocupação. Uma grande seca poderia ter colocado o abastecimento de água em colapso. Outra hipótese é que Petra, que fica sob uma região de atividade sísmica, tenha sido simplesmente abandonada. “Sabe-se que, em 9 de maio de 356, um grande terremoto destruiu metade da cidade”, afirma Markoe. “Petra pode nunca mais ter se recuperado, e o restante da população teria deixado a região temendo novos abalos.”
 Tania Menai


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

GUERRA DO PARAGUAI: BRIGA ENTRE HERMANOS

Nova versão da Guerra do Paraguai nega conspiração inglesa e afirma que conflito foi motivado por disputas regionais.
O brasileiro que aprendeu sobre a Guerra do Paraguai na escola depois da década de 60 tem motivos para se envergonhar de seu país. Afinal, a versão sobre o conflito disseminada pelos livros didáticos é que o Brasil, a Argentina e o Uruguai foram usados em uma guerra arquitetada pela Inglaterra para arruinar o Paraguai. Mas eis que surge um alento para a nossa auto-estima. Uma recente revisão sobre as causas da guerra aponta que a tese da conspiração inglesa é pura fantasia. Na realidade, afirmam os defensores da nova versão, o conflito entre os países sul-americanos foi motivado por disputas de território e poder na região do rio da Prata.
A Guerra do Paraguai se estendeu por mais de cinco anos, de dezembro de 1864 a março de 1870. Logo que ela terminou surgiram relatos sobre as batalhas e seus heróis, mas as causas históricas que motivaram o conflito foram relegadas a segundo plano. Isso porque ninguém questionava o fato de o presidente paraguaio, Solano López, ter sido um ditador sanguinário e megalomaníaco que conduziu seu país a uma guerra sem chances de vitória. Odiado por todos, López era visto como o grande causador do conflito.
No final do século 19 e início do século 20, algumas vozes se levantaram contra essa versão. No Brasil, os positivistas, contrários à monarquia como forma de governo, passaram a responsabilizar o império pelo confronto. No Paraguai, López teve sua imagem reconstruída e passou a ser apresentado como estadista e grande chefe militar. Para essa corrente revisionista, López foi um exímio general que entrou na guerra para defender os interesses econômicos do Paraguai.
Armação inglesa
Mas foi no final da década de 1960 que a teoria conspiratória inglesa ganhou força. Intelectuais nacionalistas e de esquerda, com inspiração marxista, criaram a imagem de López como líder antiimperialista. O Paraguai pré-guerra era apresentado por esses estudiosos como uma república autônoma, um país que havia conseguido alcançar o equilíbrio social e o desenvolvimento econômico. Tal condição representaria uma ameaça para a Inglaterra, que perderia uma fonte de matéria-prima no exterior e um comprador de seus produtos industriais. Assim, os ingleses teriam manipulado o Brasil e a Argentina para que destruíssem o Paraguai.
Reflexo do contexto histórico em que essa versão foi escrita, de disputas imperialistas, López passava a ser para esses intelectuais quase um líder socialista, a proteger seu país contra uma potência, e o Paraguai se tornava uma espécie de Cuba que lutava contra o domínio dos “Estados Unidos da época”, a Inglaterra. No Brasil, a publicação mais marcante que difundiu essa versão foi Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai, de autoria do jornalista Julio José Chiavenatto.
A fraqueza dessa tese está na falta de provas. Chiavenatto chegou a escrever em seu livro que “a maioria dos seus documentos [da Guerra do Paraguai], se não todos os documentos mais importantes, está proibida para o pesquisador que pretende ir além de fenômenos circunstanciais”.
E é baseada em provas documentais que uma nova teoria veio contestar a idéia de que a guerra foi provocada por uma conspiração inglesa para deter a autonomia paraguaia. “Não existe um documento, de qualquer origem, que mostre a vinculação ou o interesse do governo inglês em fazer uma guerra contra o Paraguai”, afirma o historiador Francisco Doratioto, autor de Maldita Guerra – Nova História da Guerra do Paraguai, livro que marca o neo-revisionismo no Brasil e fortalece a tese de que o conflito foi motivado por interesses regionais. O historiador encontrou uma carta do representante diplomático britânico em Buenos Aires, Edward Thornton, dirigida ao governo paraguaio, em dezembro de 1864, na qual oferecia seus préstimos para evitar uma guerra entre o Paraguai e o Brasil.
Doratioto rebate ponto a ponto os argumentos dos intelectuais da década de 60. “É bom lembrar que o império do Brasil estava com relações diplomáticas rompidas com a Inglaterra e só as restabeleceu em outubro de 1865, quando Mato Grosso foi invadido pelo Paraguai em dezembro de 1864”, diz Doratioto, ao contestar a possível intenção da Inglaterra de apoiar o Brasil na guerra. Doratioto, e toda a corrente neo-revisionista, afirma que as causas da guerra foram as disputas regionais. “Não há ‘bandidos’ ou ‘mocinhos’, como quer o revisionismo infantil, mas sim interesses”, escreve em seu livro.
Atritos regionais
E que interesses eram esses? O Brasil não esperava uma guerra contra o Paraguai, mas, depois de iniciada, apostou que o conflito poderia colocar fim aos problemas de fronteira entre os dois países e às ameaças por parte do Paraguai de impedir a livre navegação pelo rio que dava acesso ao Mato Grosso. Também vislumbrou na guerra uma chance de conter a influência da Argentina sobre o Paraguai. Na época, os estados nacionais ainda estavam se formando e o Brasil temia que Buenos Aires incorporasse o território paraguaio e formasse uma república grande e forte na região, nacionalizando os rios platinos e criando obstáculos à navegação.
Para a Argentina, a guerra era a chance de consolidar o Estado centralizado, derrotando o apoio externo dado por Solano López à ala federalista, contrária à unificação argentina. O país também tinha interesses no território do Chaco, até então de soberania paraguaia.
O próprio Paraguai tinha seus propósitos. López via a chance de fazer de seu país uma potência e de ter acesso ao mar pelo porto de Montevidéu (o Paraguai havia se aliado à oposição – os blancos – no Uruguai).
Já o Uruguai, que vivia um conflito civil, com blancos e colorados na disputa pelo poder, era um país dividido e sem autonomia. Ele tinha no apoio militar paraguaio dado aos blancos contra argentinos e brasileiros uma chance de impedir que esses dois países continuassem a intervir em sua política. E foi exatamente desse apoio que começou a guerra: tropas brasileiras, com aval argentino, entraram no Uruguai para realizar uma intervenção. O Paraguai reagiu invadindo o Mato Grosso e Corrientes, na Argentina, atos que levaram à formação da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) para enfrentar López.
Para Chiavenatto e a corrente revisionista, essas questões de limite entre os países, “pela sua falta de propósito para causar uma guerra”, foram “meros pretextos para criar condições de uma invasão do Paraguai”, afirma o jornalista. Doratioto contesta: “Parece óbvio, mas quando se discutem as origens da guerra, se esquece de um fato evidente: o Paraguai começou o conflito ao atacar o Mato Grosso e, depois, o território argentino. É importante se ater às datas, de ‘quem fez o que’ antes, o que permite evitar deturpações – conscientes ou não – do processo histórico”.
Doratioto considera superada a versão de uma conspiração inglesa. “Entre os historiadores acadêmicos que estudam o assunto não há, hoje, quem a adote”, afirma. E parece ter respaldo. A professora Lídia Maria Vianna Possas, que leciona a disciplina História da Formação dos Países Latino-Americanos na Faculdade de Relações Internacionais da Unesp, de Marília, diz que a antiga versão sobre a Guerra do Paraguai era frágil e parcial. “Era uma visão de que tudo o que ocorria na América Latina tinha um culpado lá fora. Uma questão de auto-estima baixa, pois achávamos que não éramos os responsáveis por nada. Os fatos ocorriam porque os Estados Unidos ou a Inglaterra assim desejavam. Uma historiografia muito marxista”, diz Lídia.
Para ela, o neo-revisionismo, que aposta nos conflitos regionais como causadores da guerra, resgatou o papel do sujeito. “Não foi uma guerra orquestrada em Londres. Aqui mesmo existiam pessoas com idéias próprias e que faziam o jogo dos interesses locais.”
Dinheiro inglês
Lídia lembra que a Inglaterra acabou prejudicando o Paraguai ao fazer empréstimos bancários aos países da Tríplice Aliança, mas afirma que isso não ocorreu de forma deliberada, e sim atendendo a interesses da burguesia inglesa. “A Inglaterra até começa com certo apoio ao Paraguai, mas depois fica com a maioria, com quem irá vencer e comprar dela depois”, afirma Lídia.
O apoio financeiro dado pela Inglaterra aos países da Tríplice Aliança é mesmo um dos argumentos mais fortes da teoria conspiratória defendida por intelectuais da década de 60, mas Doratioto rebate essa idéia. “Aqui há dois aspectos preliminares a se considerar: o primeiro é que se trata de banqueiros, de interesse privado, e não do governo inglês; e o segundo é que, no lado brasileiro, o financiamento da guerra foi feito basicamente com recursos próprios. Os empréstimos da Inglaterra significaram pouco mais de 10% do que foi gasto. Banqueiros ganham dinheiro com empréstimos e emprestam para quem pode pagar. Nada de surpreendente, portanto, que tenham emprestado dinheiro aos aliados. E por que não emprestaram ao Paraguai? Porque, já no início da guerra, uma análise pragmática – e eis uma característica dos banqueiros – permitia concluir que o Paraguai podia não ganhar a guerra e, portanto, não seria de se estranhar se deixasse de honrar os empréstimos”, diz o historiador.
Doratioto também contesta com veêmencia a idéia central dos revisionistas da década de 60, de que o confronto foi orquestrado pela Inglaterra com o objetivo de aniquilar o desenvolvimento autônomo do Paraguai e abrir um novo mercado consumidor para os produtos britânicos e fornecedor de algodão para as indústrias inglesas. “O mercado consumidor paraguaio era diminuto, pela falta de poder aquisitivo da população, e, ainda assim, aberto a importações. Quanto ao algodão, a Guerra do Paraguai se iniciou quando a luta norte-americana já terminara sem que, durante os quatro anos desse conflito, a Grã-Bretanha tivesse tomado qualquer iniciativa para obter algodão paraguaio”, escreve em seu livro.
Mais fantasiosa do que a tese de uma conspiração inglesa para conter o surgimento de uma potência na América Latina talvez seja a idéia de que o Paraguai representasse substancialmente essa ameaça. Segundo Doratioto, o Paraguai de Solano López era uma nação sem dívidas e com avanços tecnológicos justamente graças à presença de técnicos estrangeiros. Mas essa modernização se limitava ao plano militar. No campo, os agricultores paraguaios ainda utilizavam técnicas de cultivo de no mínimo dois séculos atrás. Sem contar que o Estado era dono de quase 90% do território nacional. Também seria equivocado dizer que havia igualdade social e educação avançada. Enfim, parece claro que o Paraguai estava longe de representar uma ameaça às pretensões inglesas. O que nos faz suspirar aliviados – afinal, ao que tudo indica, toda a vizinhança teve um pouco de responsabilidade nessa guerra.
Como Solano López virou um herói
Terminada a Guerra do Paraguai, o país de Solano López estava empobrecido, com baixa auto-estima e carente de líderes. Esse contexto favoreceu um movimento para recuperar a imagem de López. De ditador responsável por uma guerra desastrosa, ele passou a ser visto como vítima da Tríplice Aliança e personificação do patriotismo. Mas segundo o historiador Francisco Doratioto, os verdadeiros motivos para se construir uma imagem heróica de López foram as vantagens econômicas ambicionadas por seus herdeiros – interessados em receber o espólio do ditador que fora embargado pela Justiça paraguaia.
Número de mortes causa divergência
As estatísticas sobre o número de mortos na Guerra do Paraguai são díspares. Isso ocorre em parte pela falta de dados confiáveis sobre a população paraguaia antes do conflito. No livro Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai, Julio José Chiavenatto diz que, antes da guerra, o Paraguai tinha 800 mil habitantes. Terminado o conflito, existiriam no país 194 mil pessoas, sendo 14 mil homens (70% crianças com menos de 10 anos) e 180 mil mulheres. O autor aponta também que, dos 4200 homens com acima de 10 anos, apenas 2100 tinham mais de 20 anos. Supondo que metade da população antes da guerra era formada por homens e a outra metade por mulheres, a conclusão que se chegaria é que 99,5% da população masculina adulta do Paraguai teria morrido no conflito. O livro Maldita Guerra – Nova História da Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto, traz outras estatísticas. Para o historiador, as perdas paraguaias na guerra variaram entre 8,7% e 69% da população. Ele aponta os dados divergentes sobre o número de habitantes do Paraguai no pré-guerra. A estimativa varia de 285715 a 450 mil pessoas. Portanto, teria sido de 28286, no mínimo, a 278649, no máximo, a redução da população paraguaia ao final dos cinco anos de guerra. Doratioto ressalva que a maior parte das mortes não se deu no campo de batalha, mas em conseqüência de doenças, fome e exaustão física. Além disso, muitos dos paraguaios dados como desaparecidos, na realidade, emigraram para a Argentina ou para o Brasil depois que terminou a guerra.
 Quanto ao Brasil, o país enviou para o conflito139 mil homens. Desses, cerca de 50 mil morreram, a maior parte devido a doenças e aos rigores do clima. O Uruguai participou da guerra com cerca de 5500 soldados. Ao final do conflito, restavam por volta de 500. Já a Argentina, que contava no início com 30 mil homens, sofreu uma baixa de 18 mil soldados.
  Patrícia Pereira


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

AFRICÂNDERES: PARA ENTENDER O APARTHEID

No século 17, descendentes de holandeses, franceses e alemães chegaram à África para construir uma sociedade perfeita. Acreditando terem sido escolhidos por Deus, os africânderes, como ficaram conhecidos, lutaram contra o maior império do planeta, isolaram-se do mundo e criaram uma política segregacionista que resistiu até os anos 90.
Esta é uma história de opressão. De um povo que foi oprimido, mas que também perseguiu outros em nome de sua supremacia. Mobilizados por uma incrível obsessão de preservar sua cultura, língua e religião, os africânderes lutaram contra a tirania. Eles se insurgiram contra o domínio britânico na primeira guerra anticolonialista do século 20. Mas foram capazes de criar o apartheid, o regime de segregação racial que se tornou um dos episódios mais vergonhosos da história recente da humanidade.
Os africânderes (não confundir com “africâner”, que é o idioma falado por eles) são descendentes dos holandeses que chegaram ao ponto extremo sul da África, o cabo da Boa Esperança, a partir de 1652, a serviço da Companhia da Índias Orientais. A maioria dos migrantes eram fazendeiros – boerenº em holandês. Criavam gado e produziam alimentos para abastecer os navios da companhia que rumavam para o Oriente. “Eles se organizaram em comunidades patriarcais muito fechadas, formadas por famílias numerosas. Dentro de cada propriedade, o fazendeiro tinha completa autonomia, inclusive para utilizar trabalho servil e escravo”, diz Carlos Serrano, do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (USP). O isolamento deu origem a um novo idioma, o africâner. “Hoje, uma mistura de 70% da língua holandesa e o resto de francês, português, alemão e inglês.”
Além de cultura e língua próprias, os bôeres, como também ficaram conhecidos, criaram um tipo de calvinismo muito particular, que originou a Igreja Reformada Holandesa. E foi nessa religião que os recém-chegados apoiaram seus argumentos para justificar a ocupação e expulsar seus antigos habitantes, os negros. Para Carlos Serrano, os africânderes partiram do princípio de que eram os eleitos de Deus, o que legitimava sua supremacia e seu direito sobre os outros indivíduos. Eles não estavam sozinhos nessa interpretação da Bíblia. No século 17, os puritanos que ocuparam a América do Norte, por exemplo, acreditavam basicamente na mesma coisa e não pensavam duas vezes em sacar tais argumentos para atirar contra os “peles-vermelhas”.
A chegada dos britânicos, em 1806, fez com que os bôeres passassem da condição de colonialistas à de colonizados, perdendo o poder e os privilégios que desfrutavam. Insatisfeitos com as leis britânicas, que davam direitos aos negros e mestiços, eles se organizaram em caravanas e partiram rumo ao norte. No êxodo, que ficou conhecido como a “grande jornada” e durou de 1835 a 1843, 12 mil fazendeiros ultrapassaram os limites da colônia, demarcados pelo rio Orange. “Os líderes da viagem diziam que os britânicos os colocavam injustamente no mesmo nível que a população negra. Mas nem todos seguiam motivações tão abstratas e grande parte simplesmente procurava pastos mais frescos, onde estaria livre da interferência do governo, dos impostos e da Justiça britânica”, diz Diana Wylie, do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Boston, Estados Unidos.
Alguns dos imigrantes chegaram até onde hoje é Angola. Outros fundaram duas repúblicas independentes, a do Transvaal e o Estado Livre de Orange. “A Constituição do Estado do Transvaal, de 1858, marca a institucionalização de segregação racial. Nela, está descrita a missão de preservar as diferenças ‘naturais’ entre as raças”, diz Leila Leite Hernandez, professora de história da África na USP. Para ela, essa é a raiz do apartheid.
A independência durou pouco. Com a descoberta de jazidas de ouro no Transvaal, os britânicos invadiram o país em 1899. As tropas de sua majestade contavam com 500 mil homens, sendo que 10 mil deles eram africanos. Do outro lado, os africânderes tinham apenas 87 mil combatentes. Além da inferioridade numérica, eles sofreram com o isolamento e a falta de reforços. “Os britânicos confinaram os civis em campos de prisioneiros, impedindo que as milícias recebessem comida, provisões ou qualquer ajuda da população”, afirma Timothy Burke, pesquisador da Universidade de Swarthmore, Estados Unidos. A falta de condições de saúde, higiene e alimentos nesses campos matou cerca de 25 mil pessoas.
As forças africânderes jogaram a toalha em 1902. A derrota militar levou à anexação das antigas repúblicas às terras das colônias britânicas na região e à criação de um novo país, a União da África do Sul, em 1910. No entanto, os africânderes permaneceram donos de grande parte das reservas minerais e das terras cultivadas, mantendo intacta sua influência política. “Interessados nesse apoio, os britânicos aceitaram incluir na Constituição do novo país vários dos itens racistas dos africânderes, incluindo o que impunha a segregação territorial de negros, mestiços e indianos, colocados em ‘reservas’ que totalizavam 8% do território”, diz Burke.
Na década de 20, a política de opressão ganhou novas leis, que incluíam a proibição de relações sexuais entre indivíduos de raças distintas.
O que era ruim piorou ainda mais na década seguinte. Segundo Leila Hernandez, nos anos 30 muitos dos futuros líderes africânderes estudavam na Alemanha governada por Adolf Hitler e seu Partido Nacional-Socialista. “Foram eles que, em 1938, criaram o Partido Nacional Africânder, com o objetivo de ‘proteger a integridade e a superioridade da raça e da cultura africânder’”, diz Leila.
Os nacionalistas chegaram ao poder em 1949. Com eles, surgiu uma nova palavra para designar o sistema de separação das raças: apartheid, “segregação” em africâner. O arquiteto dessa nova política, Hendrik Verwoerd, desenvolveu a idéia de separar o uso de locais públicos, como cinemas, restaurantes, hotéis e ônibus, entre integrantes de raças diferentes. Onze milhões de negros e 2 milhões de mestiços e indianos tinham de transitar pelo país com passaportes. A população branca, por outro lado, desfrutava de trânsito livre, verbas 20 vezes superiores para a educação e salários 15 vezes mais altos que o restante da população.
Hermann Giliomee, professor de história da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, no livro The Afrikaners: Biography of a People (“Os Africânderes: Biografia de um Povo”, ainda inédito no Brasil), lançado em 2003, defende uma polêmica visão revisionista sobre o apartheid. Para ele, o medo da perda de sua identidade cultural foi a força motriz das políticas segregacionistas africânderes. Primeiro a ameaça representada pelos britânicos e, depois, a generalização da pobreza entre os brancos teriam ressuscitado o temor da perda da supremacia. “No centro da decisão de introduzir o apartheid após a eleição de 1948 (e depois de aboli-lo mais à frente) houve um cálculo das perspectivas de sobrevivência dos africânderes”, diz Giliomee.
Diana Wylie, no entanto, considera a tese puramente retórica. “Os políticos nacionalistas ganharam votos espalhando o medo da ‘obliteração cultural’, o que não quer dizer que todos os africânderes sucumbiram a esse medo. A idéia não leva em consideração que os líderes africânderes se beneficiaram pessoalmente disso”, afirma Diana.
O fato é que o governo da África do Sul comandado pelo partido africânder passou a adotar medidas cada vez mais duras contra a integração racial, o que só fez recrudescerem os protestos, assim como a repressão. Em 1960, a polícia atirou em centenas de manifestantes negros em Sharpeville, matando 67 deles. A violência policial durante outra manifestação, dessa vez em Soweto, matou um menino de 12 anos. Ele e outros jovens pediam que o inglês e não o africâner fosse a língua ensinada nas escolas.
A violência usada em manifestações pacíficas começou a chamar a atenção da comunidade internacional. Em 1973, a Assembléia Geral da ONU considerou o apartheid “crime contra a humanidade”. A resistência dos segregados e o embargo econômico decretado pelos Estados Unidos em 1986 finalmente dobrou os nacionalistas. A pressão fez com que o presidente Frederik de Klerk começasse a derrubar as leis de segregação racial no início dos anos 90. Cerca de 70% dos eleitores brancos votaram a favor da continuidade da nova política em um plebiscito. Depois de séculos, a opressão estava com seus dias contados na África da Sul.
 Isabelle Somma 

sábado, 24 de novembro de 2012

CAPITALISMO


O surgimento dos primeiros comerciantes e artesãos livres nas pequenas cidades medievais foi o germe de uma sociedade nova que, no decorrer de alguns séculos, substituiria o sistema feudal. No capitalismo, as classes não mais se relacionam pelo vínculo da servidão, mas pela posse ou carência de meios de produção e pela contratação livre do trabalho.
Capitalismo é o sistema econômico que se caracteriza pela propriedade privada dos meios de produção -- máquinas, matérias-primas, instalações. Nesse sistema, a produção e a distribuição das riquezas são regidas pelo mercado, no qual, em tese, os preços são determinados pelo livre jogo da oferta e da procura. O capitalista, proprietário dos meios de produção, compra a força de trabalho de terceiros para produzir bens que, após serem vendidos, lhe permitem recuperar o capital investido e obter um excedente denominado lucro.
As duas condições essenciais que determinam o modo capitalista de produção são: (1) a existência de capital, conjunto de recursos que se aplica na compra de meios de produção e força de trabalho e (2) existência de trabalhadores livres, que vendam sua força de trabalho em troca de salário. Definem-se assim as duas classes sociais básicas: a dos capitalistas e a dos assalariados.
São chamados capitalistas os países cujo modo de produção dominante é o capitalista. Neles coexistem, no entanto, outros modos de produção e outras classes sociais, além de capitalistas e assalariados, como artesãos e pequenos agricultores. Nos países menos desenvolvidos, parte da atividade econômica assume formas pré-capitalistas, exemplificadas pelo regime da meia ou da terça, pelo qual o proprietário de terras entrega a exploração destas a parceiros em troca de uma parte da colheita.
Outros elementos que caracterizam o capitalismo são a acumulação permanente de capital; a distribuição desigual da riqueza; o papel essencial desempenhado pelo dinheiro e pelos mercados financeiros; a concorrência, embora modificada pela concentração monopolística; a inovação tecnológica ininterrupta e, nas fases mais avançadas de evolução do sistema, o surgimento e expansão das grandes empresas multinacionais. A divisão técnica do trabalho, ou seja, a especialização do trabalhador em tarefas cada vez mais segmentadas no processo produtivo, é também uma característica importante do modo capitalista de produção, uma vez que proporciona aumento de produtividade. Esse aspecto inexiste na produção artesanal, em que o trabalhador participa da produção de um bem do início ao fim do processo produtivo.
Origens do capitalismo. Denominado também economia de mercado ou de livre empresa, o capitalismo deve ser entendido, sobretudo, como modo de produção. Assim, a circulação de mercadorias e de dinheiro não basta para caracterizá-lo: sua origem não se confunde com o início do comércio em larga escala. A classe mercantil afirmou-se na fase de decadência do modo de produção feudal, mas o capitalismo só floresceu quando o modo de produção que o caracteriza tornou-se dominante. Assim, não se pode falar em capitalismo na antiguidade ou na Idade Média, nem em cidades como Gênova, Veneza ou Pisa, que se desenvolveram em função do comércio.
A expansão comercial foi, no entanto, o fator que permitiu a eclosão posterior do capitalismo. O crescimento das cidades, a abertura de novas rotas marítimas, o contato com novos centros populacionais do Oriente, a descoberta de metais preciosos no Novo Mundo e a ampliação do comércio entre as cidades européias provocaram o aumento da demanda além da capacidade de produção artesanal. Criaram-se desse modo as condições para o surgimento da produção industrial.
A expansão do capitalismo comercial, ocorrida entre os séculos XIII e XVIII, promoveu a difusão das idéias mercantilistas, que advogavam a intervenção do estado para promover a prosperidade e o fortalecimento das nações. Como a acumulação de riquezas dependia da exploração e comercialização do ouro e da prata, os países lançaram-se à conquista de novas terras e à ampliação dos mercados. Dessa forma, o espírito do mercantilismo estimulou os sentimentos nacionalistas, provocou o florescimento do comércio e, em conseqüência, criou as condições para a aparição do modo de produção capitalista.
As riquezas acumuladas durante o período mercantilista, que eram empregadas na compra de produtos manufaturados por artesãos independentes, para revenda, ou em empréstimos a juros, passaram a ser usadas para contratar força de trabalho e compra de meios de produção. Deixaram assim de funcionar como capital comercial e capital usurário para assumir a forma de capital industrial.
Evolução histórica. A primeira fase de expansão do capitalismo confunde-se com a revolução industrial, cujo berço foi a Inglaterra, de onde se estendeu aos países da Europa ocidental e, posteriormente, aos Estados Unidos. A evolução do capitalismo industrial foi, em grande parte, conseqüência do desenvolvimento tecnológico. Por imposição do mercado consumidor, os setores de fiação e tecelagem foram os primeiros a usufruir dos benefícios do avanço tecnológico. A indústria manufatureira evoluiu para a produção mecanizada, possibilitando a constituição de grandes empresas, nas quais se implantou o processo de divisão técnica do trabalho e a especialização da mão-de-obra.
Ao mesmo tempo em que se desencadeava o surto industrial, construíram-se as primeiras estradas de ferro, introduziu-se a navegação a vapor, inventou-se o telégrafo e implantaram-se novos progressos na agricultura. Sucederam-se as conquistas tecnológicas: o ferro foi substituído pelo aço na fabricação de diversos produtos e passaram a ser empregadas as ligas metálicas; descobriu-se a eletricidade e o petróleo; foram inventadas as máquinas automáticas; melhoraram os sistemas de transportes e comunicações; surgiu a indústria química; foram introduzidos novos métodos de organização do trabalho e de administração de empresas e aperfeiçoaram-se a técnica contábil, o uso da moeda e do crédito.
Na Inglaterra, Adam Smith e seus seguidores desenvolveram sua teoria liberal sobre o capitalismo. Na França, após a revolução de 1789 e as guerras napoleônicas, passou a predominar a ideologia do laissez-faire, ou do liberalismo econômico, que tinha por fundamentos o livre comércio, a abolição de restrições ao comércio internacional, o livre-câmbio, o padrão-ouro e o equilíbrio orçamentário. O liberalismo se assentava no princípio da livre iniciativa, baseado no pressuposto de que a não regulamentação das atividades individuais no campo socioeconômico produziria os melhores resultados na busca do progresso.
Em pouco tempo, no entanto, o liberalismo econômico mostrou suas primeiras imperfeições: as poderosas organizações econômicas que se instalaram passaram a enfrentar dificuldades para comercializar seus produtos, já que os mercados consumidores não cresciam na mesma proporção que a capacidade produtiva da indústria. A concorrência, por sua vez, levou ao aniquilamento das pequenas empresas e à concentração industrial em trustes e cartéis, que evoluíram para o monopólio.
Os países industrializados lançaram-se então à conquista de mercados externos, apoiados, muitas vezes, numa política de duas faces: a defesa do livre comércio, válido para as colônias e países importadores de produtos industrializados, e o protecionismo, destinado a defender os produtos nacionais da concorrência do competidor externo.
A repartição da África e a divisão do mundo inteiro em esferas de influência dos diferentes países industrializados completaram o quadro da expansão do capitalismo, na fase denominada imperialismo.
Capitalismo no século XX. A partir da primeira guerra mundial, o quadro do capitalismo mundial sofreu importantes alterações: o mercado internacional restringiu-se; a concorrência americana derrotou a posição das organizações econômicas européias e impôs sua hegemonia inclusive no setor bancário; o padrão-ouro foi abandonado em favor de moedas correntes nacionais, notadamente o dólar americano, e o movimento anticolonialista recrudesceu.
Os Estados Unidos, depois de liderarem a economia capitalista mundial até 1929, foram sacudidos por violenta depressão econômica que abalou toda sua estrutura e também a fé na infalibilidade do sistema. A política do liberalismo foi então substituída pelo New Deal: a intervenção do estado foi implantada em muitos setores da atividade econômica, o ideal do equilíbrio orçamentário deu lugar ao princípio do déficit planejado e adotaram-se a previdência e a assistência sociais para atenuar os efeitos das crises. A progressiva intervenção do estado na economia caracterizou o desenvolvimento capitalista a partir da segunda guerra mundial. Assim, foram criadas empresas estatais, implantadas medidas de protecionismo ou restrição na economia interna e no comércio exterior e aumentada a participação do setor público no consumo e nos investimentos nacionais.
A maior parte das antigas colônias tornou-se independente, modificando substancialmente a relação de subordinação econômica às metrópoles. Em muitos setores, a concentração de empresas passou a ser dominante, formando poderosos complexos empresariais, dentro e fora das fronteiras dos países de origem. Surgiram as empresas multinacionais, com participação societária de pessoas ou organizações domiciliadas em diferentes países.
A implantação do modo socialista de produção, a partir de 1917, em um conjunto de países que chegou a abrigar um terço da população da Terra, representou um grande desafio para o sistema de ecocomia de mercado. As grandes nações capitalistas, antes empenhadas em disputas de redivisão do mundo entre si, passaram a ver como inimigo comum o bloco socialista, ampliado a partir da segunda guerra mundial com a instauração de regimes comunistas nos países do leste europeu e com a revolução chinesa. Grande parte dos recursos produtivos foi investida na indústria bélica e na exploração do espaço com fins militares. Essa situação perdurou até a desagregação da União Soviética, em 1991, e o início da marcha em direção à economia de mercado em países como a China.
Além da grande depressão da década de 1930, o capitalismo do século XX passou a manifestar crises que se repetem a intervalos. O período que as separa torna-se progressivamente mais curto. O desemprego, as crises nos balanços de pagamentos, a inflação, a instabilidade do sistema monetário internacional e o aguçamento da concorrência entre os grandes competidores caracterizam as chamadas crises cíclicas do sistema capitalista.
Crítica do capitalismo. A mais rigorosa análise do capitalismo foi feita por Karl Marx, o ideólogo alemão que propôs a alternativa socialista ao sistema. Segundo o marxismo, o capitalismo encerra uma contradição fundamental entre o caráter social da produção e o caráter privado da apropriação, que conduz a um antagonismo irredutível entre as duas classes principais da sociedade capitalista: a burguesia e o proletariado.
O caráter social da produção se expressa pela divisão técnica do trabalho, organização metódica existente no interior de cada empresa, que impõe aos trabalhadores uma atuação solidária e coordenada. Apesar dessas características da produção, os meios de produção constituem propriedade privada do capitalista. O produto do trabalho social, portanto, se incorpora a essa propriedade privada. Segundo o marxismo, o que cria valor é a parte do capital investida em força de trabalho, isto é, o capital variável. A diferença entre o capital investido na produção e o valor de venda dos produtos, a mais-valia, apropriada pelo capitalista, não é outra coisa além de valor criado pelo trabalho.
A essa contradição fundamental se acrescentam outras, como o caráter anárquico da produção. O dono dos meios de produção é livre para empregar seu capital no setor produtivo que mais lhe convier. Assim, a produção não atende às necessidades sociais, mas ao interesse do capitalista em auferir o maior lucro. As crises de superprodução do sistema, em que uma grande quantidade de produtos não encontra compradores no mercado, ilustram a anarquia da produção.
O sistema capitalista tampouco garante meios de subsistência a todos os membros da sociedade. Pelo contrário, é condição do sistema a existência de uma massa de trabalhadores desempregados, que Marx chamou de exército industrial de reserva, cuja função é controlar, pela própria disponibilidade, as reivindicações operárias. O conceito de exército industrial de reserva derruba, segundo os marxistas, os mitos liberais da liberdade de trabalho e do ideal do pleno emprego.
A fase imperialista do capitalismo foi descrita por teóricos posteriores a Marx, principalmente por Lenin. Sua característica mais importante para a sobrevivência do capitalismo nas metrópoles é a exportação das contradições inerentes ao sistema para a periferia subdesenvolvida, onde os capitais estrangeiros encontram mão-de-obra abundante e barata, níveis de sindicalização e organização operárias incipientes, facilidades fiscais e conivência de governos de força pró-imperialistas, além de mercado para produtos obsoletos.
Depois de setenta anos de vigência, em que enfrentaram guerras na disputa de áreas estratégicas de influência e dificuldades internas decorrentes, principalmente, da instalação de burocracias autoritárias no poder, os regimes socialistas não tinham conseguido estabelecer a sociedade justa e de bem-estar que pretendiam seus primeiros ideólogos. A União Soviética, maior potência militar do planeta, exauriu seus recursos na corrida armamentista, mergulhou num irrecuperável atraso tecnológico e finalmente se dissolveu, na última década do século XX. A Iugoslávia socialista se fragmentou em sangrentas lutas étnicas e a China abriu-se, cautelosa e progressivamente, para a economia de mercado.
O capitalismo, no entanto, apesar do caráter efêmero que para ele previam seus críticos, mostrou uma notável capacidade de adaptação a novas circunstâncias, fossem elas decorrentes do progresso tecnológico, da existência de modelos econômicos alternativos ou da crescente complexidade das relações internacionais. A progressiva ingerência de organismos de planejamento e ajuste, como a união econômica e política da Europa ensaiada no final do século XX, não conseguiu, no entanto, integrar ao quadro do desenvolvimento econômico a maior parte dos países da África, da Ásia e da América Latina.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ERVA MATE - UMA DAS RIQUEZAS DAS MISSÕES

Em 1660, a Companhia de Jesus fez a seguinte oferta à Coroa espanhola: cada índio entre 18 e os 50 anos passaria a pagar uma quantia mínima anual de impostos, guerreiros ficariam a disposição da autoridade branca e seriam cedidos operários para trabalhar em obras públicas nos povoados espanhóis. A boa condução política, por parte dos padres jesuítas, resultou quatro anos mais tarde em isenção fiscal para os guaranis. Eles puderam exportar seus excedentes de erva-mate sem pagar impostos de circulação até o limite de 180 toneladas por ano.
Essa conquista dos povos missioneiros dá uma ideia da importância da erva-mate na vida dos guaranis. Era deles a erva chamada caanimi (pura folha), que alcançava o dobro do preço em todos os mercados, em detrimento da erva comum, com paus, produzida por comerciantes brancos. No começo os jesuítas não eram favoráveis ao consumo da erva, incluída nos rituais pagãos. Aos poucos, porém, os padres passaram a incentivar o seu uso, ao notar que o chimarrão diminuía o consumo de bebidas alcoólicas, como a chicha e o garapo. Por fim, partiram para a implementação de ervais nas próprias reduções. É que os locais naturais de colheita ficavam muito distantes e o deslocamento de grande número de índios para a tarefa perturbava a rotina dos povoados.
Os primeiros ervais foram plantados em 1707, e a primeira colheita se deu dez anos depois. Não apenas nos Sete Povos, mas em toda a região missioneira, a produção de erva mate representava mais da metade de tudo o que era produzido. O restante era dividido entre algodão, fumo e açúcar. *Adaptado de História Ilustrada do Rio Grande do Sul).

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

OS PRIMEIROS BRASILEIROS: BRASIL ANCESTRAL

A certidão de nascimento do primeiro brasileiro é um crânio encontrado em 1975 com cerca de 11 mil anos de idade. Mas há quem acredite que estamos por aqui há muito mais tempo. Afinal, quem foram e como viviam os primeiros brasileiros?
Durante quase 500 anos o Brasil praticamente ignorou uma parte de seu passado. A maior delas. Na escola, a primeira aula de história começa com o descobrimento do Brasil. Como se antes nada tivesse acontecido. No entanto, quando os portugueses chegaram, em 1500, civilizações avançadas e poderosas estavam no auge, outras já haviam desaparecido, mas deixado vestígios de sua passagem e de sua história no Brasil.
O naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, em 1836, foi o primeiro a se interessar pelo Brasil pré-cabralino e tornou-se uma espécie de patrono da arqueologia e da paleontologia no país. Sua descoberta mais importante aconteceu na Gruta do Sumidouro, perto de Lagoa Santa, MG. Em meio aos ossos de grandes mamíferos, ele achou os primeiros fósseis humanos no Brasil.
Em busca do primeiro brasileiro, Peter encontrou mais perguntas que respostas, algumas delas continuam sem respostas. A primeira – e talvez a mais controversa – é como e quando o homem passou a ocupar o território americano e, por extensão, o brasileiro? A teoria mais aceita é que os primeiros grupos humanos a chegarem por aqui, atravessaram da Ásia para a América pela Beríngia (região no extremo norte do continente, que há 15 mil anos, durante o fim da era glacial, ligava os dois continentes). A pé, os novos habitantes começaram a migrar para o sul, em busca de regiões mais quentes. Até a Patagônia, no limite sul da América, eles teriam levado algo em torno de 2 mil anos.
Mas há quem discorde. A arqueóloga brasileira Niède Guidon, que há mais de 30 anos estuda os vestígios da presença humana na região da Serra da Capivara, no PI, acredita que o homem americano já ocupava o Brasil há mais de 60 mil anos. Niède se baseia em vestígios humanos encontrados próximos a uma fogueira, cujas datações por carbono 14, indicaram ter 48 mil anos de idade. Segundo ela, entre 80 e 100 mil anos atrás começou a ocupação das Américas e, há 60 mil anos, eles já estavam no norte do Brasil”, diz Niède. Para ela, o primeiro americano teria vindo da Austrália ou da Polinésia em embarcações simples.
A tese de Niède Guidon é questionada dentro e fora dos Brasil. Para esses críticos, esperar que um aborígine de mais de 50 mil anos atrás atravessasse o Pacífico, seria como pedir a Cristóvão Colombo que, em vez de cruzar o Atlântico para vir ao Novo Mundo, fincasse a bandeira de “El Rey” nas crateras lunares.
Mas Niède Guidon não está sozinha quando marca o início da presença humana no Brasil, além dos paradigmais 15 mil anos. O trabalho da arqueóloga Águeda Vilena Vialou, do Museu de Arqueologia da Universidade de São Paulo indicou a existência do homem no Mato Grosso, há cerca de 23 mil anos. Ela coordena as escavações na Fazenda Santa Elina, onde foram encontradas pinturas nas paredes e grande quantidade de pedras trabalhadas. “Fizemos três datações diferentes, em três materiais distintos: ossos, sedimentos e carvão. Todos chegaram à mesma data entre 22 e 23 mil anos”, diz Águeda.
No entanto, nem ela, nem Niède, tem um fóssil humano para mostrar. Até hoje não foram encontrados ossos humanos anteriores a 15 mil anos em nenhuma parte das Américas.
Os homens da Lagoa Santa
A arqueóloga Adriana Schmidt Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, acredita que o primeiro brasileiro descende de uma das várias correntes migratórias vindas da Ásia, que ocorreram a partir de 15 mil anos atrás. A mais antiga dessas levas de humanos teria chegado ao Brasil há cerca de 12 mil anos e ficado conhecida como “Os Homens de Lagoa Santa”, nome dado em homenagem ao sítio arqueológico onde foram localizados – o mesmo pesquisado pelo dinamarquês Lund. Desse povo, faz parte o fóssil de uma brasileira descoberta em 1975, que viveu por aqui há cerca de 11,5 mil anos e foi batizada pelos cientistas de Luzia.
Luzia é a mais antiga brasileira descoberta até hoje. Ela era uma caçadora e coletora de vegetais, com traços bem distintos dos índios que Pero Vaz de Caminha descreveu em sua carta, em 1500. Em 1999, a Universidade de Manchester, na Inglaterra, reconstituiu o rosto de Luzia: ficaram óbvios os traços negróides, típicos de populações africanas e da Oceania. Luzia e seus amigos viviam em pequenos grupos e eram nômades, sempre procurando encontrar vegetais e animais de pequeno porte, como o porco-do-mato e a paca, que eles caçavam com a ajuda de lanças e flechas com pontas feitas de pedras lascadas. Não ficavam mais que duas semanas no mesmo lugar. Por isso, não costumavam enterrar seus mortos. O corpo de Luzia foi encontrado jogado no fundo de uma caverna.
Por volta de 6 mil anos atrás esse povo desapareceu. A explicação para isso é o surgimento de outro grupo de humanos, dessa vez, parecidos com os índios atuais. Eles chegaram em muito maior número e passaram a ocupar a região. “As populações se misturaram, mas com o tempo as características dos ‘Homens da Lagoa Santa’ submergiram”, diz Adriana.
Essa nova leva de viajantes chegou a ocupar toda a costa brasileira e o Planalto Central até 2 mil anos atrás. “Esses bandos chegavam a uma região, montavam acampamento, geralmente em grupos de 5 a 10 famílias em pequenas faixas de terra”, diz Adriana Schmidt. “Retiravam da região tudo o que podiam: vegetais, peixes e animais. Assim que esgotavam esses recursos e que os acampamentos apresentavam problemas sanitários, como o aparecimento de insetos em grandes quantidades, iam embora”, afirma a pesquisadora.
Civilização das conchas
Alguns dos descendentes desses novos habitantes criaram, no litoral do Brasil, uma das civilizações mais características e inusuais do período pré-cabralino. Eles ocuparam do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul entre 6 mil e mil anos atrás, e ficaram conhecidos pelas edificações que erguiam para sepultar seus mortos: os sambaquis. São pilhas de sedimentos, principalmente conchas e ossos de animais, cuidadosamente empilhados e que chegavam a ter 40 metros de altura e mais de 500 metros de comprimento. A princípio, os arqueólogos acreditavam tratarem-se de grandes depósitos funerários, mas com a descoberta sistemática de novos sítios, ficou provado que os sambaquis eram o centro da vida social desses povos, chamados sambaquieiros. Ali, eles sepultavam seus mortos, realizavam rituais e construíam suas casas.
“Eles se alimentavam basicamente da pesca e da coleta de frutos do mar, feitas com o auxílio de canoas e redes”, afirma o arqueólogo Paulo de Blasis, da Universidade de São Paulo (USP). O sambaquieiro era baixo, no máximo 1,60 metro. A mortalidade infantil era altíssima, entre 30 e 40% dos corpos encontrados eram de crianças. Quem chegava a idade adulta também não ia muito longe: para os homens a perspectiva de vida era de 25 anos e as mulheres chegavam no máximo aos 35. Outro mito que as pesquisas vêm derrubando é que os sambaquieiros eram nômades, indo de um lugar para outro assim que se encerravam os recursos naturais. “Era uma civilização com estabilidade territorial e populacional. Um conjunto de sambaquis como os do sul de Santa Catarina podia reunir até 3 ou 4 mil habitantes”, afirma Paulo. Para ele, uma ocupação dessa monta, por tanto tempo, só seria viável com um alto grau de complexidade social que deveria incluir a divisão de tarefas e instituição de chefias regionais.
Nos sambaquis foram encontrados também esculturas e ornamentos feitos de pedra polida, que eram colocados junto aos corpos sepultados. Representando animais como o tatu e a baleia, esses objetos demonstram um delicado senso estético, que exigia habilidade especial. “É possível que houvesse pessoas designadas para produzi-los, até como algum tipo de ritual”, afirma Dione Bandeira, do Museu Nacional do Sambaqui, em Joinville, SC.
Os sambaquieiros desapareceram há cerca de mil anos, com a chegada de povos agricultores vindos do planalto. “Eles provavelmente foram se afastando cada vez mais de seu local de origem, esquecendo suas tradições e se misturando ao conquistador”, afirma Paulo, da USP.
Os povos da Amazônia
A Amazônia foi o berço de culturas avançadas, que vicejaram mais de mil anos antes de Cabral chegar ao Brasil. Os registros mais antigos da presença dos homens na região foram descobertos pela arqueóloga americana Anna Roosevelt, em 1996. Ela encontrou pinturas rupestres datadas de 11 mil anos, na região de Monte Alegre, PA.
Na região da Ilha de Marajó, uma importante civilização se desenvolveu entre os anos 400 e 1300 d.C. A civilização marajoara dominava a agricultura e possuía aldeias que chegaram a abrigar 5 ou 6 mil habitantes. Os marajoaras eram excelentes engenheiros e construíram aterros artificiais que se elevavam até 12 metros acima do solo. “Esses aterros exigiam a mobilização de um grande contingente de mão de obra e uma liderança constituída e respeitada”, afirma Eduardo Neves, da USP. Tal requinte também se refletia na criação de sua cerâmica. De caráter cerimonial, seus desenhos correspondem ao mundo simbólico e religioso dos marajoaras. Eles desapareceram misteriosamente por volta de 1300.
Mas a superpotência da época era a civilização tapajônica, que ocupava a região da atual cidade de Santarém, PA. Mesmo depois do contato com os europeus, eles ainda eram uma das maiores e mais poderosas nações indígenas da Amazônia. Objetos de sua cerâmica foram localizadas em lugares muito distantes, o que indica que havia contato intenso entre os tapajós e tribos vizinhas, incluindo comércio. “Havia um poder central exercido por chefe tapajó, reunindo várias tribos vizinhas”, diz Eduardo. Algumas aldeias eram tão populosas que seus caciques podiam mobilizar até 60 mil homens para o combate.
A Amazônia também foi o ponto de partida para a migração de um povo tecnologicamente avançado e conquistador, que levou ao declínio os brasileiros coletores e caçadores, e que se espalhou de forma inédita pelo país: os tupi. Partindo de onde hoje ficam os estados de Rondônia e do Amazonas, eles deixaram a região em duas levas principais: os tupi-guarani desceram o Rio Paraná e chegaram à região sul; os tupinambá seguiram pelo Rio Amazonas até sua foz e, dali, rumo ao sul pela costa.
Eles viviam em grandes aldeias, cujas populações chegavam a ter milhares de pessoas. “Se organizavam em chefaturas, isto é, uma reunião de tribos, onde algumas aldeias seriam mais importantes e teriam influência sobre outras”, afirma o professor Paulo Jobim, do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia. As aldeias funcionavam como cidades, com famílias inteiras, com tios, primos, pais, avós e filhos vivendo numa mesma casa. “A hierarquia das tribos era baseada no parentesco”, diz Paulo. Os espaços comuns das aldeias, normalmente na área central, eram dedicados às práticas religiosas e sociais.
Eles conheciam a agricultura, principalmente a de hortaliças, de mandioca e de milho e produziam cerâmicas práticas, principalmente para cozinhar.
A guerra, além de demarcar territórios, era tida como uma oportunidade para o desenvolvimento de lideranças, que se baseavam sobretudo na coragem, na oratória e nos laços familiares.
A expectativa de vida era curta, não ultrapassando os 40 anos de idade em média. Por isso mesmo, os mais idosos eram muito respeitados, ocupando papel de destaque na sociedade. A divisão do trabalho também era feita por sexos: os homens caçavam, as mulheres coletavam, cuidavam das crianças e do preparo do solo para a agricultura. Além disso, eram as responsáveis pela produção da arte em cerâmica.
“Os guarani eram um povo conquistador e exclusivista”, diz o historiador Pedro Schmit, da Universidade Unisinos, no Rio Grande do Sul. “Seus parentes tornavam-se aliados, mas outros povos eram considerados inimigos e expulsos, dizimados ou incorporados, às vezes, literalmente, já que eram antropófagos.” Eram seus descendentes que estavam na praia, naquela manhã de 22 de abril de 1500.
Índio é o seu passado
As tradições, mitos e lendas indígenas têm uma outra explicação para o aparecimento do homem e o povoamento das terras brasileiras. Escritor, ativista e estudioso dos mitos indígenas, o índio Kaká Werá Jecupê diz que, segundo uma história dos povos de tradição tupi, dois irmãos sobreviveram a uma grande chuva: Nhanderikey e Nhanderivuçu. Eles receberam de Tupã, o deus dos deuses tupi, o dom de criar pela fala. Assim, construíram a terra, as águas, as coisas do ar e da floresta. Um dia, eles se desentenderam, e Nhanderikey foi enviado por Tupã para o outro lado de uma montanha, afastando-se de seu irmão. Na separação, cada um constituiu a sua própria tribo.
 “Tupã, então, disse que um dia Nhanderikey voltaria e os dois povos não se reconheceriam como irmãos e que só depois de muito tempo eles se reconciliariam”, diz Werá. Essa seria a explicação indígena para a chegada do homem branco. O índio se refere à sua origem sempre com o termo “aqui”. Você pergunta a ele de onde ele vem e ele vai dizer que sempre esteve lá. Que ele vem de “aqui”.
Rastros dos brasileiros
48 mil anos
Segundo, Niède Guidon, alguém já trabalhava à luz de uma fogueira, nessa época, no Piauí. Outra arqueóloga, Águeda Vialou, diz que o homem estava no Mato Grosso, há 23 mil anos
11,5 mil anos
É a idade de Luzia. Uma brasileira que habitava a região metropolitana de Belo Horizonte, MG. Ela tinha traços negróides e era muito diferente dos índios brasileiros
7 mil anos
Cerâmicas com essa idade encontradas na amazônia estão entre as mais antigas do continente americano
6 mil anos
Os primeiros sambaquis na costa brasileira têm mais ou menos essa idade. O arqueólogo Paulo Blasis, no entanto, acredita que podiam haver outros ainda mais antigos, que teriam sido encobertos pelo avanço do mar
2 mil anos
 Índios agricultores de origem tupi deixam a Amazônia para conquistar o Brasil. Eles se sobrepõem aos caçadores e coletores. Eram seus descendentes que estavam na praia, quando Cabral chegou.
  Rui Dantas
 
 .
 


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

HISTÓRIA DO PARAGUAI


A ação colonizadora das missões jesuíticas, que permitiu a sobrevivência de grande proporção de índios guaranis, e o longo isolamento político do Paraguai depois da independência, conferiram ao país um caráter étnico peculiar, que o diferencia nitidamente de outras nações latino-americanas. O Paraguai é um país interior, isto é, sem acesso direto ao mar. De forma irregular, alongada na direção noroeste-sudeste, ocupa uma superfície de 406.752km2. Limita-se ao norte e a noroeste com a Bolívia; a leste e nordeste com o Brasil; e ao sul, sudeste e oeste com a Argentina.
Séculos antes que os primeiros exploradores europeus chegassem ao território que depois seria chamado Paraguai, a região situada entre os rios Paraguai e Paraná estava ocupada por tribos guaranis seminômades, que habitavam aldeias fortificadas. Os homens se dedicavam à caça e à pesca, e as mulheres cultivavam principalmente milho e mandioca. O Gran Chaco, por sua vez, era percorrido por grupos nômades, como os guaicurus, que com freqüência atacavam os guaranis.
Os primeiros europeus que penetraram no país foram os homens da expedição portuguesa de Aleixo Garcia, que se deslocaram por terra desde a costa brasileira, em 1524. Dois anos mais tarde, os navios de Sebastião Caboto subiram os rios Paraná e Paraguai. Em agosto de 1537, o espanhol Juan Salazar de Espinosa construiu, numa colina próxima ao rio Paraguai, o forte de Nossa Senhora Santa Maria da Assunção, que em poucos anos se converteu em centro de irradiação dos conquistadores.
Nas imediações do local, os espanhóis encontraram uma população guarani amistosa, com a qual teve início um rápido processo de mestiçagem. Sob os governos de Domingo Martínez de Irala e seus sucessores, partiram de Assunção numerosas expedições, que fundaram as cidades de Santa Fe, Corrientes, Villarrica e Santa Cruz de la Sierra. A segunda fundação de Buenos Aires, em 1580, foi levada a cabo por dez espanhóis e cinqüenta mestiços paraguaios.
Missões jesuíticas. No início do século XVII, encomendou-se aos jesuítas a tarefa de evangelizar e submeter à coroa espanhola os guaranis da área compreendida a sudeste de Assunção. Durante um século e meio os jesuítas dedicaram-se a esse trabalho e organizaram 32 missões, povoados que abrigaram mais de cem mil índios. As missões jesuíticas chegaram a constituir um estado praticamente independente, com uma próspera produção agrícola e artesanal, forças armadas e autonomia frente aos governadores de Assunção.
Dois perigos, no entanto, espreitavam as missões. Pelo oeste, comerciantes espanhóis e mestiços de Assunção viam seus interesses econômicos prejudicados pela concorrência daquelas comunidades e desejavam apoderar-se tanto de seus territórios como da mão-de-obra guarani. Pelo leste, os caçadores de escravos penetraram no território para capturar índios e destiná-los a plantações na zona costeira. De 1721 a 1735 travou-se uma guerra entre os proprietários de terras de Assunção e os jesuítas. Estes foram finalmente favorecidos, quando oito mil guaranis ajudaram as tropas de Buenos Aires a tomar Assunção, cujo conselho municipal tinha aderido à revolta contra o governador, que defendia os jesuítas.
O poder alcançado pelos jesuítas despertou, contudo, temores na própria corte espanhola, que em 1750 decidiu, em acordo com a coroa portuguesa, dividir entre os dois países o território das missões. Os jesuítas repeliram tal propósito, mas em 1757 os exércitos português e espanhol combinados acabaram com sua resistência. Dez anos depois, a Companhia de Jesus foi afastada dos domínios da coroa espanhola e as missões foram transferidas para  franciscanos e delegados da corte espanhola, que logo acabaram com seu antigo esplendor. Os guaranis caíram nas mãos dos senhores de terra ou se isolaram.
Independência. Em 1776 a coroa espanhola criou o vice-reino da Prata, com capital em Buenos Aires. Assunção passou a depender dessa cidade, o que significou um progresso econômico, já que as comunicações com a nova capital eram mais fáceis do que com Lima, a antiga. Com o tempo, no entanto, enfraqueceu-se a autonomia que a distância de Lima permitira à província desfrutar. Quando, em 1810, Buenos Aires declarou a independência, Assunção recusou-se a acompanhá-la. As milícias paraguaias impediram a passagem das forças do general Manuel Belgrano. Em maio do ano seguinte, contudo, o governador espanhol de Assunção foi deposto pelos capitães Fulgencio Yegros e Pedro Juan Caballero.
Entre os integrantes da junta de governo formada em Assunção logo se destacou o advogado José Gaspar Rodríguez de Francia, por sua cultura e habilidade. Em 12 de outubro de 1813 foi declarada a independência do Paraguai. A junta de Assunção recusou todo entendimento com Buenos Aires, que fazia pressões para incluir o Paraguai em seus domínios. Yegros e o Dr. Francia foram designados cônsules durante um ano e, ao final do período, uma nova junta nomeou Francia ditador supremo da república, por cinco anos. Declarado em 1816 ditador perpétuo, Francia ocupou o cargo até sua morte, em 1840.
O prolongado governo de Francia praticamente fechou o país quase completamente à influência estrangeira. Restringiu-se o comércio exterior, limitou-se a entrada de estrangeiros e o Paraguai conheceu um período de relativa paz. Uma tentativa fracassada de destituir Francia teve como resultado a eliminação de quase toda a aristocracia paraguaia e o confisco da maior parte das grandes propriedades.
Com a morte de Francia, formou-se um segundo consulado, composto, como o primeiro, de um civil e um militar. O civil, Carlos Antonio López, foi nomeado presidente em 1844, ano em que se promulgou a primeira constituição do país, que consagrava um regime presidencialista. O Paraguai abriu-se então para o exterior e para o intercâmbio comercial. Em 1852, Buenos Aires reconheceu-lhe a independência. Ante ameaças expansionistas de seus poderosos vizinhos, Carlos Antonio López declarou a militarização da sociedade. Foram abertas estradas de ferro, linhas telegráficas, uma frota fluvial de guerra, poderosos fortes e uma rede de hospitais militares.
Tríplice Aliança. López morreu em 1862 e foi substituído por seu filho, Francisco Solano López, que, desejoso de reforçar o papel do Paraguai na política platina, procurou fazer frente ao Brasil. Em novembro de 1864, ordenou a captura de um navio de guerra brasileiro e organizou poderoso exército para combater no Uruguai as forças brasileiras que o haviam invadido. Como a Argentina negasse permissão de trânsito por seu território, o Paraguai declarou-lhe guerra. Em resposta, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram o Tratado da Tríplice Aliança, pelo qual uniram as forças contra o Paraguai.
Antes do final de 1865, as tropas expedicionárias paraguaias e sua força naval haviam sido destruídas. Começou então uma longa fase de guerra defensiva dentro do Paraguai e, durante quatro anos, os exércitos invasores foram contidos na posição fortificada de Humaitá, mas à custa de enormes baixas. Uma epidemia de cólera acabou de devastar o país. Em 1869, os restos do Exército paraguaio retiraram-se para o norte, perdendo a capital e as principais cidades. Em 1º de março de 1870, a cavalaria brasileira atacou as forças paraguaias em Cerro Corá, onde morreu o próprio López. Uma ocupação brasileira de seis anos foi o último ato de guerra da Tríplice Aliança, ou guerra do Paraguai, uma das mais cruentas já travadas nas Américas.
Liberais e colorados. As tropas brasileiras de ocupação abandonaram o país em 1876. Os mútuos receios existentes entre a Argentina e o Brasil tiveram como resultado serem as amputações territoriais sofridas pelo Paraguai bem menores que as desejadas pelos vencedores da guerra. Lentamente, o país foi-se reconstruindo, ao mesmo tempo que se formavam dois grandes partidos políticos, o Liberal e o Colorado. Mudanças de governo e golpes de estado foram freqüentes. Os colorados, que se consideravam  herdeiros do patriotismo de Solano López, governaram de 1887 a 1904, quando uma revolta deu o poder aos liberais. Estes o conservaram por três décadas.
Guerra do Chaco. As fronteiras entre Paraguai e Bolívia não estavam claramente delimitadas na imensa região do Chaco e, nas últimas décadas do século XIX, os bolivianos, privados de uma saída para o mar desde a guerra com o Chile, fizeram pressão para adiantá-las até o rio Paraguai, almejando uma ligação indireta com o Atlântico. Na segunda década do século XX foram encontrados indícios de petróleo no subsolo da região, e o governo boliviano, instado pelas grandes companhias petrolíferas, decidiu invadir o Chaco.
A guerra teve início em junho de 1932. Habilmente conduzido pelo general José Félix Estigarribia, o Exército paraguaio, embora menos armado, conseguiu conter e repelir os ataques bolivianos. Formados, em sua imensa maioria, por índios alheios aos móveis econômicos do conflito, os dois exércitos se enfrentaram durante vários anos. A guerra só terminou quando os Estados Unidos, que tinham interesse na exploração petrolífera, uniram-se aos esforços mediadores da Argentina, Brasil, Uruguai, Peru e Chile. Em junho de 1935 estabeleceu-se o cessar-fogo e três anos mais tarde foi assinado o tratado de paz. O Paraguai ficou de posse de três quartas partes do Chaco. A defesa daquela região pantanosa custara ao país mais de cem mil vidas.
Em 1936, oficiais conduzidos ao poder pela revolução empreenderam uma reforma agrária e adotaram uma série de medidas de estatização da economia. Três anos depois, as eleições foram vencidas pelo general Estigarribia, herói da guerra do Chaco e que não era filiado a nenhum dos partidos tradicionais. Morto em acidente aéreo em setembro de 1940, foi substituído pelo general colorado Higinio Morínigo, cujo governo, conservador, motivou uma revolta dos liberais em 1947. Morínigo foi destituído a seguir, por seu próprio partido. Depois de um período de instabilidade, o general Alfredo Stroessner, com o apoio do Exército e dos colorados, foi nomeado presidente em 1954, posto que conservou em sucessivas eleições.
Crescentemente vinculado ao Brasil, o Paraguai,  na segunda metade do século XX, iniciou um período de crescimento econômico baseado na afluência de capitais, com a realização de grandes obras públicas. Stroessner foi destituído em fevereiro de 1989 por um movimento militar encabeçado pelo general Andrés Rodríguez, e asilou-se no Brasil. Rodríguez foi eleito presidente. Em maio de 1993, Juan Carlos Wasmosy, do Partido Colorado, foi eleito presidente.´
Fonte: Enciclopédia Barsa.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

MINOTAURO



Tema de freqüente de inspiração para escritores, o Minotauro tem sido considerado um símbolo da fatalidade que determina o curso da vida humana. Segundo a mitologia grega, Posêidon, deus do mar, enviou a Minos, rei de Creta, um touro branco que deveria ser sacrificado em sua honra. Deslumbrado com a beleza do animal, o monarca guardou-o para si. Em represália, Posêidon despertou na rainha Pasífae uma doentia paixão pelo animal. Da união, nasceu o Minotauro, ser monstruoso com corpo de homem e cabeça de touro. Logo após seu nascimento, o Minotauro foi levado ao labirinto, construído pelo arquiteto e inventor Dédalo e de onde ninguém conseguia sair. Anos mais tarde, Minos declarou guerra a Atenas, para vingar o assassinato de seu irmão Androgeu. Vitorioso, exigiu que os vencidos enviassem, a cada nove anos, sete rapazes e sete virgens para serem devorados pelo Minotauro. Quando os atenienses se preparavam para pagar pela terceira vez o tributo, Teseu se ofereceu como voluntário. Penetrou no labirinto, matou o Minotauro e, guiado por um fio que lhe fora dado por Ariadne, filha de Minos, escapou de Creta em sua companhia e na de seus companheiros atenienses.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A COMÉDIA HUMANA

A Comédia Humana, que engloba oitenta e oito livros, apresenta em sua totalidade uma vasta galeria de personagens, pelo menos 3500 figuras literárias desfilam em suas páginas, inclusive um certo número de animais; nesta obra monumental todos são geniais, até mesmo os porteiros.
Compõem esta ampla compilação ficcional romances, novelas e contos, gêneros que aqui enfocam especialmente a elevação do status social da burguesia, fato encenado no contexto histórico da Restauração. Os fatos estão distribuídos em dezessete volumes – na versão brasileira, publicada pela Editora Globo – e em aproximadamente dez mil e seiscentas páginas.
Os contemporâneos de Balzac não o consideravam um escritor talentoso, e o próprio autor via a si mesmo mais como um narrador dos costumes de uma era, pois sua principal meta era expressar as várias modificações que atingiam, no século XIX, o organismo social francês, desde o período passageiro do Antigo Regime até o fortalecimento da burguesia moderna.
Assim, Balzac discorria sobre temas que nunca antes haviam sido abordados na esfera da literatura, tais como os meios de transporte interurbanos franceses; o mecanismo de consolidação da tipografia; a profissão de jornalista, recém-nascida; o dia-a-dia das instituições cartoriais; a produção das perfumarias; atas de concordatas, entre outros assuntos rotineiros. Ele tinha a habilidade de tocar nestes pontos triviais sem cair na mesmice.
Da mesma forma ele representou em sua obra o apaixonante embate das classes sociais, inserindo o termo ‘comunismo’ pioneiramente em uma criação literária; discutiu igualmente elementos da doutrina espírita, enredos políticos, práticas místicas e temáticas polêmicas, como o lesbianismo.
Balzac construiu a Comédia Humana durante vinte anos, criando sem cessar. Ele morreu cedo, quando tinha apenas cinquenta anos, isolado, após devotar sua existência apenas à literatura. Ele cultivou, ao longo de sua vida, o mito do indivíduo resistente e majestoso, embora se nutrisse somente de cafés, nos quais era completamente viciado, uma vez que seu trabalho se estendia noite afora.
O autor era obsessivo na forma como escrevia novamente os mesmos trechos, retificando-os compulsivamente. Sua matéria-prima era o corpo social, ao qual ele atribuía uma aura mítica, pois a sociedade, para ele, doava ao ser humano seu substrato mais íntimo. O mundo criado por Balzac se fundamenta no conceito de uma instituição social integral, na qual é encenada a ‘comédia humana’.
Neste meio convivem os membros destinados à salvação a partir do momento em que optam pela dependência mútua, encaixando-se nas engrenagens sociais, e os marginalizados por escolha própria, que desde o início são rejeitados pelos demais. Trava-se aqui o confronto entre os que não conseguem se adaptar às mudanças e os que facilmente acompanham as transformações históricas.
Ana Lucia Santana

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O VERDADEIRO REI ARTUR

As histórias de nobreza e cavalaria fizeram dele um mito na Idade Média. Um personagem da ficção, não da história. No entanto, alguns especialistas acreditam que ele teria de fato existido e que, por trás dos contos de magos e bruxas, talvez tenha havido um homem real. Quem era ele?
Não há quem não tenha ouvido falar, pelo menos uma vez, do rei Artur e de sua corte de jovens e bravos vassalos. Ostentando portentosas armaduras, combatendo pela honra de suas amadas e habitando grandes castelos, eles evocam os ideais da cavalaria, típicos da Idade Média. Da literatura às óperas, das artes plásticas ao cinema de Hollywood, poucos personagens mereceram tanta atenção e tornaram-se tão conhecidos. Mas, afinal, o rei Artur existiu?
Para responder a esta pergunta e encontrar o verdadeiro Artur teremos que voltar mais longe no tempo. Não adianta procurá-lo nos séculos 10 e 1, onde ele foi eternizado como um nobre cristão senhor de feudos. Esse Artur nunca existiu. A história do possível Artur começa na Bretanha (que corresponde hoje ao norte da França e ao Reino Unido). Ali viviam os celtas, um povo com origem no centro sul da Europa, que se espalhou pelo continente durante a Idade do Ferro, aproximadamente em 600 a.C. Guerreiros tribais violentos, eles não reconheciam nenhum poder fora de seu próprio clã. Com a ocupação romana, no século 1, no entanto, parte das tribos celtas foram sendo integradas ao império, entre eles estavam os bretões. Por cinco séculos, a Bretanha esteve sob o domínio romano que, além de trazer desenvolvimento para a região, protegia-a de invasões.
Com o declínio do império, Roma passou a retirar suas legiões e, no início do século 5, os bretões tornaram-se alvo do ataque de pictos e escotos, tribos também de origem celta que habitavam o norte da ilha, onde hoje é a Escócia e a Irlanda. Mas vinha pelo mar as maiores ameaças à paz na Bretanha: anglos, jutos e saxões, povos de origem germânica.
O Guerreiro Bretão
Desde o abandono das legiões romanas, os bretões vinham sofrendo derrotas e o avanço anglo-saxão parecia irreversível. Se haveria um herói na história desse povo, era uma boa hora para ele aparecer. Isso teria acontecido em 517, na batalha do Monte Badon, na qual os bretões conseguiram uma vitória decisiva contra os invasores.
De fato, a arqueologia comprova que na época que sucede a batalha, as invasões na Bretanha diminuíram e as tribos puderam desfrutar de uma certa paz que duraria algumas décadas. “Se Artur existiu, ele provavelmente combateu em Monte Badon. A lenda arturiana se remete ao mito da resistência e ao desejo de unificação. E a batalha em Badon é o único momento histórico comprovado em que isso de fato ocorreu”, diz Adriana Zierer, historiadora da Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro. Essa é a primeira coincidência entre mito e história.
Mas o certo é que o Artur de Monte Badon seria completamente diferente daquele que conhecemos pelos livros e filmes. “Os guerreiros da época eram extremamente violentos. Suas armas eram as espadas de ferro – uma curta e leve, outra pesadíssima e com quase um metro de lâmina – , machados rombudos e escudos. Os combates eram travados no chão, em meio a um corre-corre danado. As lutas eram corporais e rápidas: a estratégia era acertar uma forte pancada na cabeça ou nas costas do inimigo e derrubá-lo. Aí, a vítima não tinha mais chance: com uma espada mais curta e leve, ela era cortada preferencialmente na garganta, e deixada para sangrar e morrer” conta Ricardo Costa, historiador da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Os celtas usavam cavalos para tração, mas raramente para montaria. Nas batalhas, isso simplesmente não ocorria.
Os combates eram comuns na Bretanha decadente do século 5. O padrão de vida proporcionado pelo Império Romano, com construções de pedra e até aquecimento central, foi decaindo. A vida era extramamente rústica e as estradas que ligavam as cidades foram estragando, isolando as tribos. Os bretões não tinham unidade social ou religiosa: os clãs pouco se visitavam, não celebravam datas sagradas e mal comerciavam entre si, com exceção de trocas envolvendo cereais, roupas e calçados de couro. Viviam desconfiados de seus vizinhos, em clima de instabilidade política. As alianças entre os clãs eram raras as disputas por território, ou qualquer outra diferença, geralmente se resolviam no braço. A maioria das pessoas eram camponeses vivendo uma vida muito simples, em casas de pau-a-pique. As moradias tinham um buraco no teto para sair a fumaça e o fogo era usado tanto para cozinhar carnes e cereais quanto para esquentar o ambiente.
A faca era praticamente o único utensílio – garfos e colheres eram raros – e um chifre oco era usado como copo para beber. A elite que escapava dessa pobreza era composta por alguns bretões romanizados, que desfrutavam de um conforto um pouco maior, vivendo em habitações fortificadas de pedra e de madeira, que chegavam até a importar produtos finos como o vinho. Era nesse grupo de privilegiados que se formavam os guerreiros, e Artur teria vivido entre eles, onde aprendeu a usar a espada e a lança.
Essas são as poucas provas que a arqueologia conseguiu para reconstituir o mundo arturiano. A maioria dos artefatos do período, como objetos de madeira e tecidos, se decompuseram nos pântanos da região e a única coisa que sobrou mesmo foram os buracos da fundação das casas. No século passado houve um grande esforço para descobrir alguma coisa que comprovasse o mito de Artur. Em 1930, o arqueólogo Raleigh Radford, em missão oficial patrocinada pelo Ministério Britânico, escavou o Castelo de Tintegel, em Northern Cornwall, a 200 quilômetros de Londres. Acreditava-se que aquele seria o local onde Artur nascera. As pesquisas confirmaram que o local havia sido uma fortificação no século 6. Foram encontrados potes e vasos de cerâmica importada, indicando que se tratava de um raro entreposto comercial.
“Depois de 20 anos de trabalhos, a arqueologia não conseguiu provar que Artur foi concebido ali, mas mostrou que foram usados fatos reais na narrativa sobre ele”, afirma Geoffrey Ashe, historiador da Universidade de Cambridge, Inglaterra, e autor do livro A Descoberta de Rei Artur.
Um Rei Latino
Para Ashe, um dos maiores e mais assíduos pesquisadores sobre o tema, existiu um Artur histórico e o nome dele é Riothamus, versão latina do título bretão “Rigothamus”, que quer dizer rei supremo. A melhor evidência de que Riothamus realmente existiu é uma carta do prefeito de Roma em torno de 470. “Esse era apenas um título, mas alguns relatos de época se referiam a ele como Artur, que poderia ser seu nome de batismo”, diz Ashe. Riothamus cumpre alguns requisitos para ser aceito como Artur: ele participou de campanhas militares na região que hoje corresponde ao País de Gales, fato também atribuído ao Artur das lendas, e lutou na guerra contra os invasores da Bretanha.
Mas se esse fosse o nosso homem, Artur teria nascido antes do que se imagina, durante o domínio romano. Ele teria sido educado, falaria latim, e poderia ter sido um rei de fato, não apenas um líder do período conturbado que se seguiu. Sabe muito pouco sobre Riothamus, mas um evento famoso ligado a ele foi o envio, a pedidos do imperador, de um exército de 120 mil homens para ajudar a defender Roma contra invasores visigodos. Tudo indica que Riothamus tinha uma aliança com Roma, um sinal claro de seu poder, mas certamente o evento não condiz com a imagem de um líder disposto a defender a Bretanha a qualquer preço. A tese de Ashe é instigante, mas está longe de ser consenso. Diante de tantas incertezas e da falta de material histórico confiável, o renomado historiador David Dumville, também da Universidade de Cambridge, exortou a hipótese do colega, e fez um apelo para que todos os historiadores abandonassem o assunto por completo.
O pedido funcionou e, nos últimos 20 anos, praticamente nenhum historiador da academia se aventurou a descobrir a identidade secreta do rei.
A Batalha de Badon foi o evento fundador do mito de que um líder bretão voltaria para unir todos os clãs contra os invasores. Se Artur esteve lá, jamais teremos certeza. No entanto, sabemos que depois dela, as lendas sobre esse guerreiro só aumentaram. Em um raro vestígio reconhecidamente histórico datado do século 6 – cerca de 100 anos depois de Monte Badon –, o livro De Excedio et Conquestu Britanniae (A Destruição Britânica e Sua Conquista, sem versão em português), escrito por um monge chamado Gildas, descreve a Bretanha como um país, subjugado pelos saxões. O religioso protesta contra os líderes locais, que faziam alianças com os estrangeiros para enfrentar escotos e pictos do norte, o que acabou abrindo espaço para a invasão. No fim, ele clama pela volta do guerreiro que havia vencido a Batalha de Badon. O único detalhe é que o nome desse líder não era Artur, mas Ambrósio Aurélio.
Artur mesmo, com esse nome, só apareceu no século 9, num relato conhecido como Historia Brittonum (História dos Bretões, sem versão em português) e atribuído a outro monge: Nennius. Ele conta 12 grandes vitórias de um líder corajoso e inteligentíssimo chamado Artur, que teria colecionado vitórias sobre os saxões, culminando com o triunfo em Monte Badon. Na década de 70, lingüistas e historiadores reviraram a obra de Nennius e não restou dúvida para ninguém de que ela é baseada no texto de Gildas. No entanto, a obra de Nennius apresenta novos componentes retirados de lendas celtas e galesas. Ele conta, por exemplo, que em uma batalha, Artur teria matado 940 inimigos com um só golpe. Essa era uma forma tradicional nas narrativas celtas: incluir feitos obviamente inverídicos fazia crescer a fama do guerreiro. A maior novidade acrescida por Nennius, o nome Artur, também tem uma referência na mitologia celta: uma coletânea de lendas sobre antigos heróis galeses chamada Mabinogion fala de um líder chamado Artur.
O Rei e sua corte
No século 12, seis séculos após o período em que teria vivido, Artur finalmente foi promovido de líder guerreiro a rei. A transformação aconteceu na obra Historia Regun Brittoniae (História dos Reis da Bretanha, sem tradução para o português), do clérigo Geoffrey Monmouth. Usando as fontes de que dispunha, como os escritos de Gildas, a tradição oral bretã e gaulesa e muita imaginação, Geoffrey fez o impossível: traçou a genealogia de todos os reis da Inglaterra desde 1100 a.C. Entre eles, Artur despontou como um dos mais importantes monarcas da Bretanha. Um rei deve ter uma rainha e Artur ganhou a companhia da Gueneviere e um castelo, localizado em Tintegel (aquele que foi localizado em escavações arqueológicas, na década de 70). Misturando fantasia e história, Monmouth vai criando, um a um, os ingredientes da lenda: Artur ora aparece lutando contra monstros e gigantes, ora é mortalmente ferido e retira-se para a ilha de Avalon, onde estaria situado outro mundo.
Também é mencionada a fonte mágica de seu poder, uma espada chamada Caliburn. O mago Merlin também fez sua estréia: foi ele quem profetizou o nascimento do rei.
O livro de Monmouth transformou o guerreiro bretão em príncipe da cristandade: corajoso, justo, respeitado e invencível. Seu objetivo, segundo Adriana Zierer, era legitimar o poder dos reis ingleses. A obra teve tanta influência que por 600 anos foi considerada a versão oficial da história britânica. Outra proeza foi ter transformado aquilo que os franceses consideravam um amontoado de histórias sem pé nem cabeça produzidos por bárbaros irracionais em algo que viria a ser uma das maiores fontes de inspirações para os artistas franceses. A História dos Reis Bretões deu origem a uma proliferação de romances conhecidos genericamente como “matéria da Bretanha”.
Na França, essa moda daria um novo impulso ao reinado de Artur. Chrètien de Troyes escreveu cinco livros sobre o rei e sua corte, nos quais introduziu personagens como os cavaleiros Percival e Lancelot, a mesa redonda em volta da qual se reuniam, o Graal e o castelo de Camelot.
“A adoção de Artur pela literatura francesa lhe deu um certo refinamento de costumes, com a introdução de conceitos como a civilidade, o casamento e a fidelidade”, afirma Teresa de Queiroz, historiadora da Universidade de São Paulo (USP). Outra novidade foi que os cavaleiros tornam-se os personagens mais atuantes. O rei deixa de se envolver nas lutas e aventuras, sendo consultado apenas para julgar a situação ou dar a palavra final. “Isso reflete muito bem o jogo de poder na época, onde o monarca começava a se fortalecer e a nobreza, sentindo-se ameaçada, tentava se reafirmar”, afirma a historiadora da USP.
Para ela, a Inglaterra precisava de um mito fundador e de um herói, assim como a França tinha Carlos Magno. Se esse herói era real ou não, não era tão importante. Mas vida na corte não parece ter feito bem ao nosso herói e Artur, o guerreiro bretão, o nobre cavaleiro, torna-se o marido traído. Gueneviere mantém um romance com Lancelot. Mas a infidelidade da rainha é apenas um ponto menor (e menos importante) do tratamento que Artur recebeu da literatura francesa. Para viver na França, maior país cristão da época, o rei passaria a lidar com a idéia de pecado, valores morais e uma conduta casta. A história de Artur passa por um processo de cristianização. Seu escudo passa a ostentar a imagem da Virgem Maria e o graal, um objeto sagrado na mitologia celta, foi transformado no cálice usado por Jesus Cristo na última ceia e “Há, ainda, uma clara associação entre a espada, fonte da força de Artur com a cruz, origem do poder da monarquia”, afirma Teresa.
Só em 1470 foi publicado o romance que daria ao rei Artur seu acabamento final, que conhecemos hoje.
Le Morte d`Arthur (A Morte do Rei Artur, sem versão em português), de Thomas Malory, reuniu todos os elementos anteriores para produzir uma narrativa coerente, onde todas as versões se encaixavam para dar aos britânicos o seu herói. O que ficou, afinal, foi um homem valoroso, de inegáveis força e senso de justiça. É como Artur vive no imaginário de seu povo e acabou sendo assim no mundo todo.
Brumas do passado
410 - As legiões de guerreiros romanos abandonam a Bretanha
517 - Data aproximada da Batalha de Badon, na qual os bretões venceram os invasores
539 - Data da suposta morte de Artur, aos 96 anos, segundo a obra de Nennius
540 - Gildas escreve o único documento histórico do período arturiano, De Excedio et Conquestu Britanniae
800 - Artur é mencionado pela primeira vez em Historia Brittonum, pelo monge bretão Nennius
1138 - A obra de Geoffrey de Monmouth transformou o guerreiro em rei cristão
1155 - No livro Romance de Bruto, Robert Wace cria a Távola Redonda, símbolo de um governo justo e igualitário onse se sentavam os cavaleiros para discutir assuntos do reino
1470 -  Thomas Malory reúne todos os elementos criados pelo caminho e dá o formato final que conhecemos hoje.
O poder da espada
A espada era uma das armas favoritas dos celtas, que acreditavam que ela possuía poderes mágicos. Fiel, ela sempre esteve ao lado de Artur. Nos primeiros relatos, ela tinha o nome de Caladfwlch, palavra galesa derivada de Caladbolg, que quer dizer “duro corte”. No século 12, ela virou Caliburn e, enfim, na versão francesa, Excalibur. Mas, apesar das origens na mitologia, a lenda possui bases históricas. Ferido e à beira da morte, Artur pede ao cavaleiro Gilfrete que jogue sua espada no lago, para que ninguém mais a use. Esse, de fato, era um costume celta e diversas delas foram encontradas no fundo de lagos. A lenda de que Excalibur foi retirada de uma pedra também pode estar ancorada em fatos. Segundo o arqueólogo inglês, Francis Pryor, mil anos antes do tempo de Artur, as espadas ainda eram feitas de bronze. O metal derretido era posto em um molde de pedra e depois de duro era puxado do centro do molde.
O costume teria dado origem ao mito de que Artur seria rei ao tirar a espada da pedra. Uma outra teoria diz que a lenda surgiu quando Artur depois de matar inimigo saxão, tirou sua espada como demonstração de poder. O nome latim para pedra, a palavra “saxo”, é muito semelhante ao nome dado aos invasores germânicos, chamados de “saxon”.
Giba Stam
 
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