segunda-feira, 26 de novembro de 2012

AFRICÂNDERES: PARA ENTENDER O APARTHEID

No século 17, descendentes de holandeses, franceses e alemães chegaram à África para construir uma sociedade perfeita. Acreditando terem sido escolhidos por Deus, os africânderes, como ficaram conhecidos, lutaram contra o maior império do planeta, isolaram-se do mundo e criaram uma política segregacionista que resistiu até os anos 90.
Esta é uma história de opressão. De um povo que foi oprimido, mas que também perseguiu outros em nome de sua supremacia. Mobilizados por uma incrível obsessão de preservar sua cultura, língua e religião, os africânderes lutaram contra a tirania. Eles se insurgiram contra o domínio britânico na primeira guerra anticolonialista do século 20. Mas foram capazes de criar o apartheid, o regime de segregação racial que se tornou um dos episódios mais vergonhosos da história recente da humanidade.
Os africânderes (não confundir com “africâner”, que é o idioma falado por eles) são descendentes dos holandeses que chegaram ao ponto extremo sul da África, o cabo da Boa Esperança, a partir de 1652, a serviço da Companhia da Índias Orientais. A maioria dos migrantes eram fazendeiros – boerenº em holandês. Criavam gado e produziam alimentos para abastecer os navios da companhia que rumavam para o Oriente. “Eles se organizaram em comunidades patriarcais muito fechadas, formadas por famílias numerosas. Dentro de cada propriedade, o fazendeiro tinha completa autonomia, inclusive para utilizar trabalho servil e escravo”, diz Carlos Serrano, do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (USP). O isolamento deu origem a um novo idioma, o africâner. “Hoje, uma mistura de 70% da língua holandesa e o resto de francês, português, alemão e inglês.”
Além de cultura e língua próprias, os bôeres, como também ficaram conhecidos, criaram um tipo de calvinismo muito particular, que originou a Igreja Reformada Holandesa. E foi nessa religião que os recém-chegados apoiaram seus argumentos para justificar a ocupação e expulsar seus antigos habitantes, os negros. Para Carlos Serrano, os africânderes partiram do princípio de que eram os eleitos de Deus, o que legitimava sua supremacia e seu direito sobre os outros indivíduos. Eles não estavam sozinhos nessa interpretação da Bíblia. No século 17, os puritanos que ocuparam a América do Norte, por exemplo, acreditavam basicamente na mesma coisa e não pensavam duas vezes em sacar tais argumentos para atirar contra os “peles-vermelhas”.
A chegada dos britânicos, em 1806, fez com que os bôeres passassem da condição de colonialistas à de colonizados, perdendo o poder e os privilégios que desfrutavam. Insatisfeitos com as leis britânicas, que davam direitos aos negros e mestiços, eles se organizaram em caravanas e partiram rumo ao norte. No êxodo, que ficou conhecido como a “grande jornada” e durou de 1835 a 1843, 12 mil fazendeiros ultrapassaram os limites da colônia, demarcados pelo rio Orange. “Os líderes da viagem diziam que os britânicos os colocavam injustamente no mesmo nível que a população negra. Mas nem todos seguiam motivações tão abstratas e grande parte simplesmente procurava pastos mais frescos, onde estaria livre da interferência do governo, dos impostos e da Justiça britânica”, diz Diana Wylie, do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Boston, Estados Unidos.
Alguns dos imigrantes chegaram até onde hoje é Angola. Outros fundaram duas repúblicas independentes, a do Transvaal e o Estado Livre de Orange. “A Constituição do Estado do Transvaal, de 1858, marca a institucionalização de segregação racial. Nela, está descrita a missão de preservar as diferenças ‘naturais’ entre as raças”, diz Leila Leite Hernandez, professora de história da África na USP. Para ela, essa é a raiz do apartheid.
A independência durou pouco. Com a descoberta de jazidas de ouro no Transvaal, os britânicos invadiram o país em 1899. As tropas de sua majestade contavam com 500 mil homens, sendo que 10 mil deles eram africanos. Do outro lado, os africânderes tinham apenas 87 mil combatentes. Além da inferioridade numérica, eles sofreram com o isolamento e a falta de reforços. “Os britânicos confinaram os civis em campos de prisioneiros, impedindo que as milícias recebessem comida, provisões ou qualquer ajuda da população”, afirma Timothy Burke, pesquisador da Universidade de Swarthmore, Estados Unidos. A falta de condições de saúde, higiene e alimentos nesses campos matou cerca de 25 mil pessoas.
As forças africânderes jogaram a toalha em 1902. A derrota militar levou à anexação das antigas repúblicas às terras das colônias britânicas na região e à criação de um novo país, a União da África do Sul, em 1910. No entanto, os africânderes permaneceram donos de grande parte das reservas minerais e das terras cultivadas, mantendo intacta sua influência política. “Interessados nesse apoio, os britânicos aceitaram incluir na Constituição do novo país vários dos itens racistas dos africânderes, incluindo o que impunha a segregação territorial de negros, mestiços e indianos, colocados em ‘reservas’ que totalizavam 8% do território”, diz Burke.
Na década de 20, a política de opressão ganhou novas leis, que incluíam a proibição de relações sexuais entre indivíduos de raças distintas.
O que era ruim piorou ainda mais na década seguinte. Segundo Leila Hernandez, nos anos 30 muitos dos futuros líderes africânderes estudavam na Alemanha governada por Adolf Hitler e seu Partido Nacional-Socialista. “Foram eles que, em 1938, criaram o Partido Nacional Africânder, com o objetivo de ‘proteger a integridade e a superioridade da raça e da cultura africânder’”, diz Leila.
Os nacionalistas chegaram ao poder em 1949. Com eles, surgiu uma nova palavra para designar o sistema de separação das raças: apartheid, “segregação” em africâner. O arquiteto dessa nova política, Hendrik Verwoerd, desenvolveu a idéia de separar o uso de locais públicos, como cinemas, restaurantes, hotéis e ônibus, entre integrantes de raças diferentes. Onze milhões de negros e 2 milhões de mestiços e indianos tinham de transitar pelo país com passaportes. A população branca, por outro lado, desfrutava de trânsito livre, verbas 20 vezes superiores para a educação e salários 15 vezes mais altos que o restante da população.
Hermann Giliomee, professor de história da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, no livro The Afrikaners: Biography of a People (“Os Africânderes: Biografia de um Povo”, ainda inédito no Brasil), lançado em 2003, defende uma polêmica visão revisionista sobre o apartheid. Para ele, o medo da perda de sua identidade cultural foi a força motriz das políticas segregacionistas africânderes. Primeiro a ameaça representada pelos britânicos e, depois, a generalização da pobreza entre os brancos teriam ressuscitado o temor da perda da supremacia. “No centro da decisão de introduzir o apartheid após a eleição de 1948 (e depois de aboli-lo mais à frente) houve um cálculo das perspectivas de sobrevivência dos africânderes”, diz Giliomee.
Diana Wylie, no entanto, considera a tese puramente retórica. “Os políticos nacionalistas ganharam votos espalhando o medo da ‘obliteração cultural’, o que não quer dizer que todos os africânderes sucumbiram a esse medo. A idéia não leva em consideração que os líderes africânderes se beneficiaram pessoalmente disso”, afirma Diana.
O fato é que o governo da África do Sul comandado pelo partido africânder passou a adotar medidas cada vez mais duras contra a integração racial, o que só fez recrudescerem os protestos, assim como a repressão. Em 1960, a polícia atirou em centenas de manifestantes negros em Sharpeville, matando 67 deles. A violência policial durante outra manifestação, dessa vez em Soweto, matou um menino de 12 anos. Ele e outros jovens pediam que o inglês e não o africâner fosse a língua ensinada nas escolas.
A violência usada em manifestações pacíficas começou a chamar a atenção da comunidade internacional. Em 1973, a Assembléia Geral da ONU considerou o apartheid “crime contra a humanidade”. A resistência dos segregados e o embargo econômico decretado pelos Estados Unidos em 1986 finalmente dobrou os nacionalistas. A pressão fez com que o presidente Frederik de Klerk começasse a derrubar as leis de segregação racial no início dos anos 90. Cerca de 70% dos eleitores brancos votaram a favor da continuidade da nova política em um plebiscito. Depois de séculos, a opressão estava com seus dias contados na África da Sul.
 Isabelle Somma 

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