terça-feira, 6 de novembro de 2012

CRUZADA

No século XII, Balian de Ibelin (Orlando Bloon), um jovem ferreiro, vai para Jerusalém, onde se envolve na sangrenta guerra entre cristãos e muçulmanos.
Pouco depois de ser anunciada a sua estréia mundial, o novo épico de Ridley Scott, Cruzada, causou um furor editorial nas principais revistas de história, arte e cinema do país. O motivo não é apenas comercial. Em primeiro lugar, o realismo do roteiro impressiona pela fidelidade à época. Por outro lado, a grandiloqüência dos cenários, em clara referência a pintores como Delacroix, marcam a espetacular fotografia da produção. E, por fim, é inegável o talento do diretor em construir, finalmente, um filme “sandália e espada” - como o gênero é vulgarmente conhecido - superior ao que se tem visto nos últimos anos.
Outros pontos também favorecem esta superprodução, como a transparente analogia que pode ser feita com a política bélica dos Estados Unidos no Iraque, ou mesmo a certeza de que os conflitos em Jerusalém continuam, numa batalha de mil anos. Correndo por fora, não se pode esquecer da sempre corrente crítica ao Santo Império Romano, que, tal como Voltaire se referia, não era santo, não era um império e nem mesmo era romano.
Se essas razões já são suficientemente fortes para assistir ao filme, comparativamente aos outros épicos – mesmo o Gladiador, do mesmo diretor – Cruzada é mais preciso e elaborado. Alexandre, Tróia e O Rei Arthur frustraram crítica e público por serem pobres em conteúdo, embora com uma bela embalagem. Tecnicamente irrepreensíveis, os filmes tentaram em vão recriar as suntuosas produções da metade do século passado, que eternizaram Ben-Hur (1959), Spartacus (1960), Cleópatra (1963), entre tantos outros. O novo trabalho de Scott vem provar que o gênero ainda não foi esgotado, pelo contrário.
Além da hábil mão do diretor, a importância do fato histórico retratado é elementar para o sucesso desta obra. O roteiro é ambientado durante a Segunda e a Terceira Cruzada (1186), quase cem anos após o Papa Urbano II - usando alegações mentirosas - ter convencido os primeiros cavaleiros a libertar as terras santas do domínio muçulmano. Aqui, entenda-se mais uma luta contra o expansionismo islâmico e a busca por riquezas do que propriamente um direito sagrado ao solo.
O herói desta história, como todo bom épico, é vivido pelo ator inglês Orlando Bloom, que faz o papel do ferreiro francês Balian. Viúvo depois do suicídio de sua mulher, vê sua vida mudar quando descobre ser filho de um nobre cavaleiro, Godfrey de Ibelin(Liam Neeson). Este, o braço direito de rei cristão Baduíno IV (o irreconhecível Edward Norton), que governa com serenidade e tolerância a sempre agitada Jerusalém. Em busca de conforto e da expiação do pecado de sua mulher, Balian aceita o convite de ir à terra santa.
O que o herói encontra, no entanto, é uma cidade poliglota, multiétnica e em polvorosa com o risco de uma violenta invasão muçulmana liderada por Salah al-Din, ou Saladino – aqui, interpretado pelo excelente ator sírio Ghassan Massoud. Mais do que isso, encontra os caminhos de sua própria fé, um novo amor (a belíssima Eva Green, na pele da sedutora princesa Sybilla) e a integridade para ser justo e valente, como todo bom herói de épicos.
Se essa história pode impressionar o público leigo, impressionou ainda mais o escritor James Reston Jr., que viu no roteiro um plágio de seu livro pesquisa Warriors of God: Richard the Lionheart and Saladin in the Third Crusade [Guerreiros de Deus: Ricardo Coração de Leão e Saladin na Terceira Cruzada]. Verdadeiro ou não, o episódio vem adicionar ainda mais polêmica ao filme de Scott.
Antes de críticas sobre o processo de copyright, tem se castigado duramente a atuação do ator Orlando Bloom. A principal é a de que não tem carisma para sustentar um filme deste peso (se for comparado ao gladiador Russell Crowe, o rei Clive Owen e os escravos Charlton Heston e Kirk Douglas). Nada poderia estar mais longe da verdade.
Embora sua atuação seja sofrida e pouco lapidada, ele é ideal para o papel. Trata-se de um herói mais introspectivo, que não vê a batalha como a sua salvação ou glória. Trata-se de um herói que trabalha nos bastidores, tentando sair de lá o mais rápido possível e ajudando o maior número de pessoas. Afinal, ele não é um príncipe ou um grande guerreiro, é apenas um honesto ferreiro em busca de paz interior. Esta é a única mensagem do filme em que não parece haver correspondente atual para fazer uma analogia.
Rodrigo Zavala
 

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