quarta-feira, 7 de novembro de 2012

JAPÃO - O DIA EM QUE A ILHA SE ABRIU PARA O MUNDO

Um amontoado de ilhas feudais onde não se podia andar livremente nem ter um sobrenome começou a se transformar na grande nação japonesa em 8 de julho de 1853. Nesse dia, uma pequena frota de navios americanos, liderada pelo comodoro Mathew Perry, aportou na baía de Edo (atual Tóquio). As enormes embarcações circundaram a baía atraindo a atenção da população local. Não era para menos: nos 214 anos anteriores, poucos estrangeiros se atreveram a chegar perto das ilhas. Perry sabia disso e navegou devagar, esperando que uma multidão se juntasse na praia. Aí, para espanto geral, disparou uma carga de 22 tiros de seus potentes canhões. Os estampidos ensurdecedores e as pesadas bolas de aço caindo sobre as águas da baía atingiram o objetivo do comodoro. Quando desembarcaram, Perry e seus comandantes foram recebidos com uma mistura de medo, reverência e curiosidade.
E quando entregaram uma carta do presidente, Millard Fillmore, solicitando permissão para que os barcos americanos aportassem no Japão, não restavam dúvidas: era um ultimato. Ou o ilha abria seus portos ou seria bombardeada.
Encostados na parede, os japoneses fizeram muito mais que atender ao pedido americano. Acabaram despertando para uma escalada econômica, tecnológica e militar poucas vezes observada na história de uma nação. “Não parecia de forma alguma que em apenas meio século o Japão se tornaria uma potência mundial capaz de derrotar uma potência européia (a Rússia) numa guerra de maiores proporções, usando apenas uma das mãos, e que, em três quartos de século, estaria perto de rivalizar com a Marinha inglesa”, afirma o historiador britânico Eric Hobsbawm, no livro A Era do Capital.
A proporção das mudanças que aconteceram a partir desse dia foi extraordinária, ainda mais em se tratando de como era o Japão há 150 anos. Quando a frota americana chegou, o arquipélago era dividido em vários territórios autônomos governados por daimiôs, chefes de clãs que governavam seu próprio han (propriedade). O principal clã era o dos Tokugawa, que possuía cerca de um terço do território habitado pelos nihon jin (o povo local). Por isso, o líder da família era chamado de xogum, o maior entre os mais de 250 daimiôs. A quantidade de guerreiros samurais que servia o clã dos Tokugawa também inspirava respeito dentre os demais.
Além da economia ser essencialmente agrária, as relações entre os proprietários de terras e os camponeses eram uma versão local de feudalismo. Isso em pleno século 19. “Mas eles tinham relações de suserania e interdependência diferentes dos senhores feudais europeus”, afirma Madalena Natsuko Hashimoto, professora de literatura e cultura japonesas da Universidade de São Paulo. “Cada senhor fazia suas próprias leis.” Na maioria do país, os camponeses não tinham direito de circular ou de deixar seu local de nascimento. Eles não podiam ter sequer um sobrenome. Os samurais não podiam trabalhar nem tocar em dinheiro. Tinham apenas de defender seu daimiô e se dedicar à arte da guerra.
As ilhas estavam fechadas para o mundo desde o século 17, depois de quase um século de contato com os jesuítas portugueses e espanhóis. Assustados com o crescimento do cristianismo, os damiôs proibiram a presença de estrangeiros. “Para o xogunato, a Companhia de Jesus estava, por meio da religião, dominando politicamente o país”, afirma Madalena. Por isso, após uma série de assassinatos e perseguições, os religiosos foram banidos. Em 1639, o xogum Ieyasu Tokugawa decretou uma lei que proibia a entrada de estrangeiros em suas terras.
Não tardou para que a proibição fosse estendida para os outros hans, alinhados à política do poderoso xogum. Mas havia exceções. Navegadores holandeses e chineses podiam entrar no porto de Nagasaki. Para isso, precisavam de autorização prévia do bakufu, o governo xogunal. Por mais de dois séculos, as notícias sobre o que acontecia fora das ilhas chegavam somente através deles, já que os habitantes também haviam sido proibidos de deixar o país sob pena de morte. Esse total fechamento do território fez com que o Japão vivesse anos de estabilidade política, algo raro até então.
O isolamento foi mantido apesar do assédio das potências européias. Russos, britânicos e franceses tentaram durante o século 18 estabelecer contatos comerciais e diplomáticos, sem sucesso. No início do século 19, os americanos também tentaram furar o bloqueio. Uma dessas investidas ocorreu sete anos antes da chegada do comodoro Perry. O barco Manhattan se aproximou da baía de Edo para desembarcar 22 náufragos japoneses que haviam sido recolhidos no mar. A tripulação não obteve autorização para desembarcar, mas recebeu provisões para seguir viagem em agradecimento ao ato de bondade. Em 1853, os americanos não seriam tão amáveis.
A visita do comodoro Perry e seus enormes navios negros instalou o medo não só entre a população, atemorizada com a salva de tiros em Edo, mas também nos Tokugawa. Eles perceberam que não teriam condições de se defender. Não havia no Japão navios que se comparassem aos da Marinha americana. Durante anos, como parte da política de isolamento, os líderes japoneses proibiram a construção de grandes embarcações, a fim de que ninguém se aventurasse a ir mais longe do que a costa do país. Além disso, as notícias vindas do exterior davam conta da disposição dos ocidentais em combater e destruir quem se opusesse a seus interesses. A Inglaterra vencera os poderosos chineses, na primeira Guerra do Ópio (1839-42). E travavam, naquele momento, um novo conflito, a segunda Guerra do Ópio (1856-60).
A gravidade da situação fez com que o governo xogunal saísse de sua rotina de auto-suficiência e pedisse conselhos aos principais daimiôs e até à família imperial. O imperador, que ficava instalado na distante Kyoto, era venerado pela população, mas não gozava de nenhum poder político, apenas simbólico. Das cerca de 50 respostas recebidas, apenas duas defendiam a abertura do país para o comércio exterior.
Enquanto o xogum padecia doente, o chefe do Conselho de Anciãos, Masahiro Abe, tomou a frente das negociações. Pressionado pelos dois lados, finalmente firmou um acordo em 31 de março de 1854. Abe cedeu muito mais do que queriam os japoneses e bem menos do que queriam os americanos. O tratado permitia que os navios dos Estados Unidos atracassem nos portos de Hakodate e Shimoda e que fosse instalado um consulado americano no país.
Ainda sob efeito do susto, o governo japonês iniciou a construção de barcos e fortificações e a compra de armamentos. Forças de segurança começaram a ser treinadas por instrutores holandeses, para aprender técnicas ocidentais de defesa e combate marítimo. Mas os esforços não foram suficientes para intimidar os Estados Unidos. Em 1958, Towsend Harris, o cônsul americano que havia se instalado em Shimoda, pressionou o bakufu e obteve a abertura aos navios americanos em mais quatro portos: Yokohama, Niigata, Nagasaki e Hyogo. Os americanos também ganharam a permissão para fixar residência nas cidades de Edo e Osaka.
As novas concessões aos gaijins (como são chamados os estrangeiros no Japão) não foram aprovadas pelos daimiôs e muito menos pela família imperial. A partir daí, o país mergulhou numa série de conflitos entre os clãs descontentes com o velho governo. Nesse novo cenário, ficou reforçada a figura do imperador – fato que colocava os japoneses em sintonia com as políticas ocidentais da época – em oposição aos defensores da velha oligarquia, que apoiavam o enfraquecido xogum. Assassinatos e tramas políticas insuflaram ainda mais os ânimos. E, em 1867, os estrangeiros foram alvo da fúria dos opositores mais radicais. Um funcionário do consulado americano, um cidadão holandês e um comerciante britânico foram assassinados.
Em 1868, cinco dos clãs descontentes se uniram e cercaram o palácio do xogum, que renunciou. O golpe restaurou o império e extinguiu o velho sistema de governo. Depois de séculos, o Japão se unia em torno de um poder político único, representado pela figura do imperador. O jovem Mutsuhito assumiu o trono com 14 anos ao lado de um ministério, composto por integrantes das famílias golpistas. Naquele momento, um novo capítulo se abria na história do Japão: a Restauração Meiji, o marco da entrada do país na modernidade.
As primeiras medidas do governo foram acabar com as velhas instituições. Em 1871, sob o lema fukoku-kyohei (desenvolver o Estado e ampliar as Forças Armadas), os daimiôs perderam o poder sobre suas terras. Em troca, receberam uma pensão do governo. Cada han foi transformado em uma província administrada por um governador indicado. As dívidas contraídas pelos antigos senhores feudais foram assumidas pelo império. Com o bolso cheio, pouca gente se opôs à reforma.
Também foi abolida a classe guerreira dos samurais. Em seu lugar, um exército único, sob o comando do imperador, começou a ser criado nos moldes franceses, incluindo alistamento militar obrigatório para quem completasse 21 anos. Os samurais dispensados também receberiam pagamentos do governo mas, nesse caso, nem isso impediu a revolta. Insatisfeitos com a perda de seu antigo status, 30 mil samurais fizeram uma rebelião em 1877. Eles foram derrotados depois de 6 meses de combates, por um exército de 40 mil homens do agora fortalecido imperador.
Rapidamente, o país passou a seguir modelos ocidentais para modernizar as instituições do país. O sistema bancário foi reformulado nos moldes do Federal Reserve, o Banco Central americano. O poder judiciário também ganhou toques importados da Europa. A nova Constituição, que foi promulgada em 1889, teve enorme influência do modelo alemão, uma monarquia autoritária. Já o sistema educacional tomou emprestadas idéias francesas, alemãs e anglo-americanas, que se misturaram às práticas xintoístas e confucionistas.
O governo japonês passou a convidar conselheiros e técnicos das mais diversas especialidades. Até 1890, pelo menos 3 mil estrangeiros trabalharam para o império. Eles ficavam sempre sob a supervisão de um membro do governo. Logo que ele e sua equipe adquiriam os conhecimentos necessários, os estrangeiros eram enviados de volta aos seus países. Durante esse período, muitos japoneses também foram incentivados a estudar no exterior.
O resultado do aprendizado se refletiu num grande investimento em setores estratégicos, principalmente nas indústrias de base, transportes e comunicações. Entre 1872 e 1890, foram construídos 2250 quilômetros de estradas de ferro no país. No início da década de 1880, todas as principais cidades estavam ligadas por telégrafos. Nesse período, o Japão exportava apenas matérias básicas, como arroz e fio de seda. Mas uma rápida revolução industrial estava a caminho. Em 1905, o país que era constituído por pequenos feudos cinco décadas antes tinha metade de sua exportação constituída por produtos manufaturados, principalmente tecidos.
A rápida revolução na economia exigia também um redirecionamento da política externa do país. Desenvolvimento no século 19 era sinônimo de imperialismo. Em 1894, os japoneses deixaram claro que sua receita para o crescimento também envolvia pretensões expansionistas. O país invadiu a península da Coréia, iniciando uma guerra contra os temidos chineses. A superioridade japonesa em terra e (quem diria?) no mar fez com que o conflito fosse decidido a seu favor. Derrotada, a China teve de fazer várias concessões, entre elas se desfazer da ilha de Formosa (atual Taiwan) e parte da Manchúria. A Coréia foi anexada pelo Japão em 1910 e a ocupação, que durou até a Segunda Guerra, ficou marcado como um dos mais cruéis episódios do século 20, que até hoje mantém acesos ressentimentos entre os dois países. A guerra foi só o começo do surto expansionista japonês.
O Japão ainda provaria que não só seus vizinhos asiáticos deveriam temê-lo. Um acordo patrocinado pela Rússia, mas costurado pela França e Alemanha, exigia que o país devolvesse o estratégico porto Arthur, na Manchúria, aos chineses, em troca de uma compensação financeira. Negócio fechado, o caminho estava aberto para os russos. Em 1900, eles instalaram exatamente naquele porto uma base naval. A afronta não passou despercebida pelo novo império. No mês de fevereiro de 1904, os japoneses lançaram um ataque surpresa à frota russa estacionada no local. Vários combates se seguiram e, no ano seguinte, a Rússia czarista, derrotada, teve que assinar um tratado de paz com o Japão. Pela primeira vez uma nação asiática derrotava uma potência européia. Apenas 50 anos após a chegada do comodoro Perry na baía de Tóquio.
Isabelle Somma
 

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