quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

SANTOS DUMONT OU IRMÃOS WRIGHT: QUEM É O PAI?

Os americanos juram que foram os irmãos Wright e já convenceram quase todo o mundo disso. No Brasil, ainda reunimos esforços para mostrar que Santos Dumont é quem merece a fama. Afinal, quem inventou o avião?
As invenções que mudam o curso da história não costumam surgir da noite para o dia. São resultado do trabalho árduo de diversos inventores e cientistas, que preparam o terreno para uma descoberta revolucionária. Entretanto, o crédito costuma ir para apenas uma pessoa, que por inventividade, gênio ou até por sorte, acaba dando o passo decisivo. A ele ou ela estão garantidas todas as glórias. Às vezes, porém, é difícil determinar quem merece ter seu nome imortalizado. É o caso da disputa entre Alberto Santos Dumont e os irmãos Wilbur e Orville Wright. Santos Dumont é louvado como Pai da Aviação no Brasil. No resto do planeta, ele é um ilustre desconhecido: o título de desbravadores dos céus cabe aos Wright. Nos Estados Unidos, terra natal dos dois irmãos, festeja-se este ano o centenário do primeiro vôo da dupla, ocorrido em 1903. Aqui, a comemoração será em 2006, quando vão se completar 100 anos desde que Santos Dumont voou com seu 14 Bis.
Mas, afinal, qual das datas está correta? Quem foi o inventor do avião?
Para tentar responder essas perguntas, é preciso voltar à virada do século 19 para o 20. “Dois grandes desafios se apresentavam com relação à conquista do ar: a dirigibilidade dos balões (ou seja, a capacidade de controlá-los) e o vôo com aparelhos mais pesados do que o ar”, afirma o físico Henrique Lins de Barros, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, em São Paulo. A partir de 1890, as experiências se multiplicaram em ambas as frentes. Havia muita expectativa, o problema é que não existia uma definição para o vôo controlado, nem do balão nem do “aparelho mais pesado do que ar”.
Em 1898, foi criado o Aeroclube da França. Com o intuito de estimular a competição e ao mesmo tempo estabelecer marcos históricos definitivos, o Aeroclube criou prêmios que seguiam critérios básicos. Para a dirigibilidade dos balões, foi definido que a experiência seria pública, realizada diante de uma comissão oficial e com data marcada, para evitar que fatores como condições climáticas favorecessem algum concorrente. “Até então, a prática comum era levar um cientista de renome para observar a demonstração e escrever um parecer, mas os relatos eram subjetivos e carregados de emoção”, diz Henrique. Em outubro de 1901, o Prêmio Deutsch – oferecido pelo magnata do petróleo Henri Deutsch de la Meurthe, no valor de 50 mil francos – foi arrematado por Santos Dumont, após contornar a Torre Eiffel a bordo de um dirigível. Sua principal inovação foi acoplar um motor de combustão interna movido a gasolina (que depois ele usaria nos aviões) a um balão de hidrogênio.
Um a zero. No entanto, definir o que seria um vôo de avião seria um desafio bem maior. O assunto era polêmico, e muitas pessoas sequer acreditavam na possibilidade de algo mais pesado do que o ar levantar vôo. A descrença era comum até a célebres cientistas. Em 1895, o físico e matemático britânico Lord Kelvin declarara que “máquinas voadoras mais pesadas que o ar são impossíveis”. A ciência, porém, avança contrariando o impossível, e homens cheios de imaginação se lançaram ao sonho de voar. O francês Clément Ader montou um aeroplano em forma de morcego, que chegou a perder contato com o chão, sem ganhar, no entanto, altitude. Samuel Langley, dos EUA, conseguiu fazer um pequeno modelo não-tripulado voar. Entretanto, era Otto Lilienthal quem causava sensação na crítica especializada e de longe se tornara o preferido do público. Voando em planadores inspirados nos pássaros, o alemão mostrou que um vôo eficiente era possível.
Para o Aeroclube francês, no entanto, planar não era o mesmo que voar. Ainda se discutiam os critérios para determinar o prêmio do primeiro vôo de aparelho mais pesado do que o ar, quando, em 1903, chegou à Europa a notícia de que os Wright haviam realizado os primeiros vôos controlados em um avião. Porém, a única evidência era um telegrama escrito pelos próprios irmãos, contando terem voado contra ventos de cerca de 40 quilômetros por hora. Nos dois anos seguintes, os rumores eram de que eles haviam percorrido distâncias cada vez maiores, chegando a impressionantes 39 quilômetros. “Mas os irmãos não divulgavam uma foto sequer, e não permitiam que testemunhas neutras acompanhassem o experimento”, diz Marcos Danhoni Neves, físico da Universidade Estadual de Maringá. Os franceses ignoraram o feito, por falta de provas concretas e também devido ao vento forte, que ajuda o avião a decolar.
Estabeleceu-se que o vôo deveria ser feito com tempo calmo, e que o aparelho fosse capaz de alçar vôo sem ajuda de elementos externos (o vento ou uma catapulta, por exemplo). Como no caso dos balões, a façanha deveria ser acompanhada por uma comissão oficial. E foi assim que, no dia 23 de outubro de 1906, foi realizado o primeiro vôo homologado da história. Nos campos de Bagatelle, em Paris, na presença de juízes e de uma multidão de curiosos, Santos Dumont pilotou seu 14 Bis por exatos 60 metros, a uma altura entre 2 e 3 metros. “O homem conquistou o ar!”, gritavam as pessoas em terra firme. Pelo feito, o brasileiro recebeu prêmio de 3 mil francos oferecido por Ernest Archdeacon, um dos fundadores do Aeroclube. Menos de um mês depois, em 12 de novembro, ele voou ainda mais longe, 220 metros (a 6 metros de altura), batendo o próprio recorde.
Enquanto isso, os irmãos Wright mantinham segredo sobre sua invenção, apesar dos convites para que fossem demonstrá-la na Europa. “Um dos motivos pelos quais os americanos se recusavam a participar dos eventos franceses era que seu avião, para decolar, usava uma catapulta, com um peso de 700 quilos que descia de uma torre e impulsionava o aparelho para o vôo, algo totalmente fora do parâmetro dos europeus”, afirma Marcos. Outra razão para mistério era o medo de que sua idéia fosse roubada. Em 1904, a Feira Mundial de Saint Louis ofereceu prêmio para quem conseguisse voar, mas eles não compareceram. Em 1905 e 1906, tentaram vender o projeto da máquina voadora para o Ministério da Guerra dos EUA e depois para o governo francês, mas recusaram-se a fazer demonstrações e por isso o negócio não foi para a frente.
A conduta dos Wright era bem diferente da de Santos Dumont, que publicava seus projetos. E ao contrário dos americanos, que consideravam sua invenção relativamente acabada, o brasileiro estava sempre testando novas engenhocas. Antes do 14 Bis, ele se esforçara para aperfeiçoar o dirigível. Até 1905, construiu mais oito aparelhos do tipo, sem contar um helicóptero que não decolou e um aeroplano que foi abandonado no meio. Só então voltou-se para o desenvolvimento de uma máquina “mais pesada do que o ar”. O próprio Santos Dumont explicou mais tarde a razão da demora: “É que o inventor, como a natureza de Lineu, não faz saltos: progride de manso, evolui”. Ele sabia que a decolagem dependia de um motor potente, e enquanto não havia um, seguia explorando os balões.
Curiosamente, o primeiro projeto de Santos Dumont era parecido com um avião moderno, mas diferente dos aviões da época. Porém, devido às críticas, ele abandonou a idéia. A cautela estava ligada também a um evento que abalou os pioneiros da aviação: a morte de Otto Lilienthal, cujo avião se espatifou em 1896. “O episódio lançou uma onda de medo entre os inventores, que resolveram adotar a configuração chamada canard”, conta Henrique. Canard quer dizer “pato” em francês e refere-se à posição das asas na parte de trás e o bico na frente. Nessa configuração, o profundor – leme horizontal que ajuda a erguer o nariz da aeronave para que ela possa levantar vôo – fica na frente, enquanto nos aviões atuais é localizado na traseira. Os Wright foram os principais divulgadores do canard e influenciaram o próprio Santos Dumont, que adotou a configuração no 14 Bis.
Em 1908, os Wright finalmente levaram o Flyer para a Europa e apresentaram pela primeira vez as fotos do vôo de 1903. “A essa altura, todos estavam interessados nos recordes de distância, e os Wright, que de fato tinham desenvolvido melhor a parte de aerodinâmica e controle no ar, sabiam que, nesse ponto, poderiam se sair bem”, diz Henrique. Os americanos causaram sensação no Velho Mundo com vôos de mais de 100 quilômetros. Tornada pública, sua invenção ajudou a impulsionar o desenvolvimento da aviação, que atingiria um marco com a travessia do Canal da Mancha (entre França e Inglaterra) pelo francês Louis Blériot, em 1909.
Na comparação, do ponto de vista aerodinâmico, o avião brasileiro sai perdendo. Baseado no conceito das células de Hargrave (caixotes vazados como em pipas japonesas), o 14 Bis acabou ultrapassado. Porém, trouxe inovações importantes: o trem de pouso e os ailerons, que permitem a inclinação para os lados, conferindo maior estabilidade. E há quem defenda que a aeronave dos Wright sequer possa ser considerada um avião. “O que eles inventaram não passa de um planador motorizado. Muita gente se surpreende ao saber sobre a catapulta”, diz Marcos, que dá palestras sobre o tema.
A polêmica está cercada de ufanismo, e é provável que jamais possamos dizer com certeza quem foi o primeiro homem a voar. Porém, há um fato curioso. Quase 100 anos depois do feito de Santos Dumont, o 14 Bis voltou a ganhar os céus. Ou quase: trata-se de uma réplica, construída pelo coronel paulista Danilo Flôres Fuchs, que pilotou seu avião diversas vezes, inclusive uma em São Paulo, em 1989, e outra em Paris, em 1991. “Ele é bastante estável e é possível atingir distâncias maiores de 1 quilômetro”, diz Fuchs. Nos EUA, sonha-se fazer o mesmo com o Flyer. Existe até uma fundação, a Discovery of Flight Foundation, que se dedica a estudar a façanha dos Wright, construindo réplicas e tentando fazê-las voar. Até hoje, não conseguiram.
Para o alto e avante
O avião não foi inventado da noite para o dia. Foi preciso que homens de coragem (sobretudo para testarem suas engenhocas) e que acreditavam no sonho de voar dessem asas à imaginação
Dirigível Nº 6
19/10/1901 – Santos Dumont faz o primeiro vôo controlado com um dirigível, dando a volta na Torre Eiffel e retornando ao ponto inicial, percorrendo 11 quilômetros em pouco mais de meia hora
Flyer
17/12/1903 – Orville e Wilbur Wright fazem o primeiro vôo controlado de um avião propulsionado com motor, percorrendo 852 pés com o Flyer. Mas o avião precisava de uma catapulta para decolagem
14 Bis
23/10/1906 – o brasileiro decola com o 14 Bis no primeiro vôo homologado da história. Ele percorre 60 metros, a 3 metros de altura. Em 12/11, ele bate seu próprio recorde, voando 220 metros, a 6 de altura
Demoiselle
17/11/1907 – Dumont voa com o Demoiselle. Um dos modelos mais seguros da época, foi produzido por diversas fábricas e virou destaque da Primeira Exposição Aeronáutica, em Paris
Voisin
13/1/1908 – Com o Voisin, Henri Farman bate o terceiro recorde da história da aviação, fazendo um percurso de 1 quilômetro. Alguns meses mais tarde, bateu sua própria marca e chegou a 2 quilômetros
Flyer
31/12/1908 – Os Wright voam 124 quilômetros e estabelecem um recorde esmagador. Apesar do desempenho no ar, o modelo ainda usava a catapulta para conseguir sair do chão
Bleriot
25/7/1909 – Bleriot atravessa o Canal da Mancha em seu monoplano Nº XI, mostrando que era possível transpor as fronteiras naturais entre os países. É o início da era moderna da aviação
 Giba Stam


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

OS PORTUGUESES OCUPAM O CONTINENTE DO RIO GRANDE

No início do século XVIII, as terras situadas entre as cidades de Laguna (Santa Catarina) e o rio da Prata eram chamadas pelos portugueses de Continente do Rio Grande. Era uma grande área que estava começando a ser explorada e que compreendiam os atuais Rio Grande do Sul e Uruguai. Essas terras foram ocupadas lentamente e, por muitas vezes, os portugueses tiveram de enfrentar os povos indígenas, os padres jesuítas e os espanhóis.
            Temos que aqui lembrar que, quando do ataque dos bandeirantes, os jesuítas tiveram de fugir para o outro lado do rio Uruguai, abandonando o gado que criavam. O gado abandonado formou a chamada Vacaria do Mar, uma imensa reserva de animais que se estendia pelo pampa, ao sul do território. Logo que descobriram esta reserva, os portugueses passaram a utilizar esses animais de várias maneiras. Os habitantes da Colônia do Sacramento caçava o gado selvagem para deles obter o couro, que era mandado para a Europa.
            Mas foi a exploração do ouro, descoberto na região das Minas Gerais no século XVIII, que passou a exigir um grande numero de animais, como mulas e cavalos – utilizado nos transportes; e bois – utilizados na alimentação. O gado selvagem da Vacaria do Mar passou então a ser preado pelos chamados tropeiros. Esses tropeiros vinham de São Paulo e Laguna para as terras do Rio Grande. Após juntar uma boa quantidade de gado, os tropeiros levam os animais até a cidade de Sorocaba, na Capitania de São Paulo, onde era vendido para os mineiros.
A enorme quantidade de gado capturado provocou a devastação desses rebanhos. Com isso, por volta de 1730, muitos tropeiros e também alguns militares começaram a se fixar nas terras gaúchas e formarem fazendas para a criação de animais, surgia, dessa forma, as estâncias. Boa parte dessas estâncias estava localizada nos campos de Viamão. Nessa região a Coroa portuguesa começou a distribuir sesmarias.
            Para proteger o território do Continente do Rio Grande, a Coroa portuguesa criou em 1737 o presídio e o povoado de Rio Grande no canal que dá acesso a laguna dos Patos. O presídio chamado de Jesus-Maria-José, serviu também de ponto de apoio para a Colônia do Sacramento, frequentemente atacada pelos espanhóis. Além disso, possibilitou o povoamento da região por causa da vinda de centenas de pessoas que se instalaram nas áreas ao redor dele.
            O interesse da Coroa portuguesa pelas terras do Continente do Rio Grande aumento bastante por volta da metade do século XVIII. Por isso, em 1750, ela assinou com os espanhóis o Tratado de Madri. Já vimos que segundo este tratado, as terras dos Sete Povos das Missões pertenceriam a Portugal que, em troca, daria a Espanha, a Colônia do Sacramento. Com a intensão de povoar a região das Missões e de criar povoados que ajudassem a defender dos territórios do Sul do Brasil, a Coroa portuguesa incentivou a vinda de moradores da ilha dos Açores, ilhas do Atlântico que pertenciam a Portugal.
            Os açorianos que vieram para o Brasil eram em sua maioria jovens, casados e com poucos filhos. Eles foram estimulados a emigrar por causa do excesso de habitantes nas ilhas, o que fazia com que não houvesse terras para todos. De 1748 a 1753, chegaram ao Rio Grande do Sul cerca de 2500 açorianos. Eles foram atraídos por algumas promessas do governo português, como a concessão de uma data – pequena propriedade ou faixa de terra concedida a colonos ou mineradores durante o período colonial -; de alguns animais, de farinha no primeiro ano e de instrumentos agrícolas. além disso, os homens seriam dispensados do serviço militar. Muito dessas promessas não foram cumpridas. As datas, por exemplo, só foram entregues quase trinta anos depois da chegada dos açorianos.
            O objetivo inicial da Coroa lusa era que os açorianos ocupassem a região dos Sete Povos das Missões. Entretanto, os jesuítas e os índios resistiram  aos ataques dos portugueses e espanhóis e o Tratado de Madri acabou não sendo cumprido. Como não puderam ir para a região missioneira, muitos açorianos se instalaram nos arredores de Rio Grande. Outros se dirigiram para os campos de Viamão ou para a beira do rio Jacuí, onde foram obrigados a viver por conta própria, sem o ajuda da Coroa. Na região dos campos de Viamão, os açorianos ajudaram a formar diversas localidades como Santo Antônio da patrulha e Osório, que são cidades de forte presença açoriana. Muitos açorianos, acabaram por se instalar as margens do Guaíba, onde havia um porto, dando origem a um povoado que ficou conhecido como Porto dos Casais.
            A importância do Rio Grande foi crescendo. Em 1760 para facilitar a administração sobre a região, a Coroa lusa criou a Capitania de São Pedro do Rio Grande, com capital em Rio Grande. A invasão do sul da capitania pelos espanhóis em 1763, obrigou os portugueses a transferir a capital para Viamão. Os açorianos que haviam se instalado aos arredores de rio Grande tiveram que se deslocar para o norte. Para impedir o avanço dos espanhóis, muitos açorianos foram instalados em localidades ao longo do rio Jacuí, como Triunfo, Taquari e Rio Pardo, junto a guarnições militares. Em 1773, a capital da capitania foi transferida de Viamão para Porto dos Casais, que a partir desse momento passou a ser chamada de Porto Alegre. Essa mudança aconteceu principalmente por causa da localização privilegiada da nova capital, à beira do Guaíba: o controle desse porto era fundamental para impedir o avanço dos espanhóis em direção ao norte.
            Somente em 1770, a Coroa portuguesa entregou as datas aos açorianos. Dos casais que conseguiram ser assentados, muitos se dedicaram ao cultivo do trigo, que era vendido para o Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, se tornando uma economia importante para o Rio Grande. Alguns açorianos enriqueceram e chegaram a ter africanos escravizados. O cultivo do trigo, entretanto, logo entrou em declínio por causa da ferrugem, uma doença típica da lavoura de trigo e, principalmente devido a concorrência do trigo que vinha dos Estados Unidos.(Adaptado por Fabrício Colombo - fontes; História Ilustrada do RS e História do RS - Coleção História Regional).


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

HISTÓRIA DO PERU

Um dos mais áridos desertos do mundo, os cumes nevados da cordilheira dos Andes e as úmidas selvas da Amazônia se reúnem no território do Peru, país que foi berço de notáveis civilizações pré-colombianas, núcleo central do império inca e jóia colonial da coroa espanhola.
O Peru situa-se na parte ocidental da América do Sul. Com uma superfície de 1.285.216km2, limita-se ao norte com o Equador e a Colômbia, a oeste e sudoeste com o oceano Pacífico, a leste com o Brasil, a sudeste com a Bolívia e ao sul com o Chile. Os Andes atravessam seu território de norte a sul e o estruturam, física e climaticamente, em faixas paralelas à costa do Pacífico.
Desenvolveram-se no território peruano várias civilizações pré-colombianas, das quais as mais antigas alcançaram seu esplendor no final do segundo milênio antes da era cristã. A mais conhecida de todas, porém, a inca, foi de criação mais recente e, em alguns aspectos, alcançou o grau de desenvolvimento cultural que haviam atingido outros povos anteriores, como os de Chavín, Paracas, Mochica, Tihuanaco, Nazca etc.
As mais antigas notícias que se têm sobre os incas não vão além do fim do século XII da era cristã. Durante muitos anos o povo inca só estendeu seus domínios a uma área de poucos quilômetros de raio em torno de sua capital, Cuzco. Na segunda metade do século XV, um grande soberano, Pachacutec Inca Yupanqui, e seu filho, Tupac Inca Yupanqui, ampliaram extraordinariamente seus domínios, até formar o maior império conhecido na América do Sul pré-colombiana.
Primeiro se apoderaram dos territórios aimarás em torno do lago Titicaca. Mais tarde, caíram em seu poder os diversos povos do norte e do oeste, entre os quais o poderoso reino chimú. As fronteiras do império, quando da chegada dos conquistadores espanhóis, incluíam os territórios das futuras repúblicas do Peru, do Equador e da Bolívia, além do  norte do que viriam a ser a Argentina e o Chile.
Depois do descobrimento do Pacífico, expedições espanholas, a partir do Panamá, exploraram as costas sul-americanas daquele oceano e tiveram conhecimento da existência de um grande império na região. Francisco Pizarro obteve do imperador Carlos V (I da Espanha) autorização para proceder à conquista e dominação daquelas terras. No início de 1531, Pizarro, à frente de 180 homens, desembarcou na costa peruana, de onde avançou ao encontro do imperador inca, que se encontrava em Cajamarca.
Atahualpa acabava de conquistar o trono em luta civil contra seu irmão Huáscar. Rodeado por um exército de trinta mil homens, não podia imaginar a superioridade bélica do pequeno contingente de invasores, equipados com armas de fogo. Depois de fazer executar o soberano, em novembro de 1533 Pizarro entrou sem resistência em Cuzco.
A colônia. Logo se organizou a divisão de terras e riquezas entre os conquistadores. Francisco Pizarro, diante dos inconvenientes que representavam a distância e a grande altitude de Cuzco, fundou em 1535 a cidade de Lima, perto da costa, para facilitar a comunicação marítima com o Panamá e com a metrópole. Um dos lugares-tenentes de Pizarro, Diego de Almagro, partiu para a conquista do Chile mas, decepcionado pela falta de riquezas naquele país, voltou ao Peru, onde tentou apoderar-se de Cuzco. Foi vencido e executado em 1538, mas três anos depois alguns de seus homens conseguiram matar Pizarro. O  poder efetivo, no entanto, foi mantido pelo irmão do conquistador, Gonzalo, até 1548.
Carlos V instaurou o vice-reino do Peru em 1543. O vice-rei Blasco Núñez Vela, enviado pela coroa em 1544, enfrentou a rebelião dos conquistadores, que na prática se haviam convertido em senhores feudais do território, e perdeu a vida em sua tentativa de impor o poder real. No entanto, um novo enviado plenipotenciário do soberano, Pedro de la Gasca, derrotou Gonzalo Pizarro, que foi executado.
O vice-rei Andrés Hurtado de Mendoza, que governou de 1555 a 1561, impôs-se definitivamente aos conquistadores rebeldes. Seu trabalho foi consolidado de 1569 a 1581 por Francisco de Toledo, sob cuja administração o vice-reino adquiriu organização interna e ocupou-se das fontes de riqueza que o transformaram no principal provedor de metais preciosos da Europa. A Inquisição estabeleceu-se em Lima e foi fundada a Universidade de São Marcos.
A fabulosa jazida de prata de Potosí, no Alto Peru (posterior Bolívia), foi localizada em meados do século XVI, e a descoberta foi seguida por muitas outras. A extração de minerais e seu embarque para a Europa foram as mais importantes atividades econômicas da colônia. Transformada em capital do vice-reino, Lima durante dois séculos estendeu sua influência sobre a maior parte da América do Sul, do rio da Prata às costas do Caribe.
A criação do vice-reino de Nova Granada, em 1739, privou Lima de sua autoridade sobre os territórios que mais tarde constituiriam o Panamá, a Colômbia e o Equador. Em 1776 ocorreu a separação do vice-reino do rio da Prata, que englobou a rica zona mineira do Alto Peru. A liberação do comércio na época de Carlos III foi outro duro golpe para a capital. Uma grande revolta indígena comandada por Tupac Amaru (José Gabriel Condorcanqui) paralisou, de 1780 a 1783, a vida econômica do país. As idéias européias também se foram infiltrando pouco a pouco na fechada sociedade limenha do fim do século XVIII, e a capital do vice-reino começou a contar com instituições culturais modernas e publicações periódicas.
Independência. Depois da invasão francesa da metrópole, em 1808, o Peru manteve-se fiel à monarquia espanhola. A revolução de 1810 em Buenos Aires levou à ocupação das ricas regiões minerais do Alto Peru por parte de forças espanholas procedentes de Lima. As expedições enviadas por Buenos Aires fracassaram repetidamente em sua tentativa de desalojar os monarquistas. O general José de San Martín decidiu então atacar o Chile, que foi libertado em 1818, e ali preparou uma frota que desembarcou em Pisco, ao sul de Lima, em setembro de 1820. Em julho do ano seguinte tomou Lima, enquanto as tropas monarquistas se fortaleciam no interior.
As forças de San Martín eram insuficientes até mesmo para manter a posse da capital e, em julho de 1822, o general argentino viu-se obrigado a pedir ajuda a Simón Bolívar, que acabava de libertar definitivamente o vice-reino de Nova Granada. Após o encontro dos dois generais em Guayaquil, San Martín regressou à Argentina e Bolívar, chamado pelo Congresso peruano, atacou o país. Em dezembro de 1822 proclamou-se a República do Peru e, após as batalhas de Junín e Ayacucho em 1824, as tropas espanholas foram obrigadas a capitular.
Lutas pelo poder. Ao surgirem lutas internas na Venezuela, Bolívar, que fora nomeado presidente vitalício do Peru, abandonou o país. Sua partida, porém, foi aproveitada pelo Congresso peruano para derrubar-lhe a presidência.
A transição entre o Peru colonial e a república independente foi difícil. À falta de experiência no autogoverno acrescentou-se a persistência das estruturas quase feudais da sociedade peruana. Durante muitos anos, apesar de ter sido aprovada em 1828 uma constituição liberal, o governo esteve em mãos dos caudilhos militares conhecidos como "marechais de Ayacucho", que competiam continuamente pelo poder. Um deles, Andrés Santa Cruz, deu um golpe de estado na Bolívia e, aproveitando a guerra civil no Peru, aliou-se com um dos bandos em luta e invadiu o sul do país. Em 1837 foi declarado, em Tacna, protetor da confederação peruano-boliviana, com três repúblicas: Bolívia, Sul do Peru, com capital em Arequipa, e Norte do Peru, com capital em Lima.
A união do Peru com a Bolívia foi mal acolhida pelo Chile e pela Argentina, que temiam o surgimento de uma nova potência regional. Com o apoio de dissidentes peruanos, em 1838 as forças chilenas  apoderaram-se de Lima e, no ano seguinte, depois da batalha de Yungay, Santa Cruz viu-se forçado a renunciar ao poder. A efêmera união rompeu-se.
De novo independente, o Peru passou por um período de desordens civis entre liberais e conservadores, que só terminou com a presidência do general Ramón Castilla. Este ocupou a presidência durante dois períodos: de 1845 a 1851 e de 1855 a 1862. No primeiro pacificou o país e impôs a ordem mediante o reforço do Exército. O segundo período, que começou com uma cruenta guerra civil, coincidiu com um momento de auge econômico, graças à exploração dos depósitos de guano da costa do Pacífico, de cuja concessão a companhias estrangeiras provinha a maior parte da renda do estado. Decretou-se a libertação dos escravos negros e milhares de chineses foram atraídos para substituí-los nas plantações da costa. Construíram-se, ao mesmo tempo, as primeiras ferrovias e linhas telegráficas.
Em 1864 ocorreu uma última tentativa da Espanha para restabelecer sua influência no Pacífico. Com um pretexto fútil, uma esquadra espanhola ocupou durante vários meses as ilhas de Chincha, principal fonte da riqueza do guano. Peru, Equador, Bolívia e Chile uniram-se contra a antiga metrópole. Depois de uma troca de disparos com a fortaleza de Callao, os navios espanhóis se retiraram, e em 1869 a Espanha reconheceu pela primeira vez a independência do Peru.
Guerra do Pacífico. Ao se revelar a grande importância econômica do deserto de Atacama, rico em jazidas de salitre, irrompeu a rivalidade entre Bolívia e Chile por sua posse. O Peru estava ligado à Bolívia por um tratado secreto, e entrou automaticamente na guerra contra o Chile quando este país ocupou a cidade então boliviana de Antofagasta. Em 21 de maio de 1879, na batalha de Iquique, o Peru perdeu seus mais importantes navios de guerra, o que deixou sua costa indefesa ante a frota chilena.
O presidente peruano Mariano Prado, que se havia mostrado contrário a intervir na guerra, abandonou o país. Nicolás de Piérola tomou o poder, como chefe supremo da república. As tropas chilenas apoderaram-se de Lima em 17 de janeiro de 1881, enquanto o governo peruano se retirava para o interior do país. Finalmente, o Tratado de Ancón, de outubro de 1883, pôs termo à guerra do Pacífico e deixou em mãos chilenas tanto a província peruana de Tarapacá como a administração, por dez anos, das de Tacna e Arica.
Caudilhismo civil. Ao longo de 12 anos, sucederam-se governos presididos por militares, durante os quais o Peru começou a resolver seus problemas econômicos. Em 1895, ante a tentativa do general Andrés Avelino Cáceres de assegurar a reeleição por métodos fraudulentos, irrompeu uma revolução popular que levou Nicolás de Piérola à presidência, no início de um período de 24 anos de governos civis. A economia peruana conheceu uma nova expansão, graças à diversificação das exportações. Às tradicionais, de guano e nitratos, somaram-se as de algodão, café, açúcar e petróleo. Em 1902 fundou-se a companhia Cerro de Pasco, de capital americano, que empreendeu a exploração do cobre peruano.
Durante o primeiro mandato de Augusto Leguía, de 1908 a 1912, chegou-se a um acordo de limites com o Brasil. Nas eleições de 1919, Leguía saiu vitorioso pela segunda vez. Não se conformou, porém, com o poder constitucionalmente adquirido e, durante 11 anos, exerceu-o com força personalista. Leguía impulsionou a construção de rodovias e ferrovias e favoreceu a agricultura. Ao longo de sua gestão, as maiores cidades do país ganharam aspecto moderno e Lima experimentou grande crescimento.  Leguía deu os primeiros passos de uma tímida legislação social para proteger tanto os direitos da classe trabalhadora das cidades como as formas tradicionais de propriedade coletiva das terras dos índios, nas montanhas. Constituíram contrapartidas do desenvolvimento econômico do país a penetração americana em sua economia, sobretudo na extração de petróleo, e o enorme crescimento da dívida externa.
Em 1929, um compromisso deu por solucionada a longa disputa com o Chile pelas províncias do sul. Tacna voltou à posse peruana, enquanto Arica permaneceu com o Chile. A crise econômica mundial precipitou a queda de Leguía, já então abandonado há muitos anos por seus antigos simpatizantes. Uma junta militar depôs o ditador.
Luta entre militares e apristas. Nas eleições de 1931, enfrentaram-se Luis Miguel Sánchez Cerro, tenente-coronel que encabeçara a sublevação, e Víctor Raúl Haya de la Torre, intelectual de esquerda que, durante exílio no México, fundara a Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA), partido pan-americano de oposição ao capitalismo e à hegemonia americana na América Latina. Triunfou o militar, que governou o país até ser assassinado, em 1933. Data de então a rivalidade entre os militares e os apristas.
Sánchez Cerro foi sucedido pelo general Óscar Benavides, que governou de 1933 a 1939. Proscreveu a APRA, restaurou a confiança na economia nacional e fez um acordo sobre fronteiras com a Colômbia. Na eleição presidencial de 1939, os apristas, impedidos de apresentar um candidato próprio, apoiaram Manuel Prado, que saiu vitorioso. Durante a segunda guerra mundial, Prado apoiou a causa aliada e declarou guerra à Alemanha.
Em 1941 o Exército peruano ocupou a província equatoriana de El Oro e, pelo protocolo do Rio de Janeiro, em 1942 o Peru obteve a posse de importantes territórios amazônicos reclamados pelo Equador. De volta à legalidade, a APRA, nas eleições de 1945, alcançou a maioria na Câmara de Deputados, o que deixou isolado o presidente liberal José Bustamante.
Um novo golpe de estado deu o poder, em 1948, ao general Manuel Odría, que empreendeu violenta perseguição aos apristas. Odría governou com firmeza até 1956, quando se enfrentaram nas eleições Fernando Belaunde Terry e Manuel Prado. Apoiado por Odría, Prado foi eleito e governou até 1962. Nas eleições desse ano, nenhum dos candidatos à presidência reuniu o total requerido de votos (um terço da votação). Uma junta militar tomou o poder e convocou eleições para o ano seguinte. Saiu vitorioso Fernando Belaunde Terry, cujo governo empreendeu a reforma agrária, ampliou a educação pública e deu impulso às obras públicas.
Reformismo militar. Em 3 de outubro de 1966, Belaunde foi deposto por um golpe de estado. Formou-se uma nova junta militar, presidida por Juan Velasco Alvarado, cuja ação política teve acentuado caráter nacionalista e populista. A International Petroleum Company, empresa americana que monopolizava a extração, refino e distribuição de petróleo, foi nacionalizada, e outras grandes empresas de capital estrangeiro seguiram o mesmo caminho.
O regime militar estreitou suas relações com a União Soviética e a China, da mesma forma que, no empenho de se afastar dos Estados Unidos, comprou armamento moderno na França e nos países do leste europeu. A política interna teve como pilares fundamentais a "peruanização" da indústria e as reformas educacional e agrária, que se empreenderam com rapidez e profundidade. O regime militar tanto estabeleceu o ensino rural nas línguas quíchua e aimará como proporcionou apoio legal aos novos núcleos populacionais formados em torno das grandes cidades pela imigração em massa dos índios.
Em 31 de maio de 1970, um terremoto matou mais de cinqüenta mil pessoas no norte do país e em 1972 uma mudança das correntes marítimas arruinou a indústria pesqueira, que chegara a ser a primeira do mundo. A crise econômica mundial fez cair o preço das principais exportações peruanas, assim como o enorme custo das reformas sociais e do programa de obras públicas colocou em perigo a estabilidade econômica do país. O investimento privado, afugentado pela política dos militares, paralisou-se, enquanto a crise da economia se alastrava. Em agosto de 1975 uma nova junta, liderada por Francisco Morales Bermúdez, derrubou Alvarado.
Morales Bermúdez cancelou muitas medidas de seu antecessor. Liberalizou de novo o investimento estrangeiro e reprivatizou numerosas empresas estatizadas. Em 12 de julho de 1979 aprovou-se uma nova constituição e em maio de 1980 Belaunde mais uma vez foi eleito presidente. Seu mandato pautou-se pela volta ao liberalismo econômico, que não conseguiu tirar o país de sua estagnação, e pelo surgimento de grupos armados, sobretudo o chamado Sendero Luminoso, de linha maoísta, que obrigou o governo a impor a lei marcial em várias províncias da cordilheira. A inflação, enquanto isso, dera origem à reforma monetária.
A APRA no poder. Nas eleições presidenciais de 1985, o candidato aprista, Alan García Pérez, saiu-se vencedor. O novo presidente tentou dirigir uma política populista de maior vigor na luta contra a guerrilha e em 1986 as forças armadas reprimiram violentamente uma rebelião, em diversas prisões, de integrantes do Sendero Luminoso: a operação terminou com centenas de mortos. García declarou uma limitação unilateral dos pagamentos da dívida externa e utilizou os recursos assim obtidos para empreender um ambicioso programa de gastos públicos. Depois de uma breve ascensão, a economia de novo se desequilibrou, o que em 1987 levou a decretar-se a estatização dos bancos privados. No ano seguinte, ocorreram no país cinco greves gerais e em 1989 a inflação superava o patamar de três mil por cento em 12 meses.
Fujimori. As eleições presidenciais de 1990 tiveram como vencedor Alberto Fujimori, do Movimento Mudança Independente, que derrotou no segundo turno o escritor Mario Vargas Llosa. Ante a escalada do terrorismo em todo o país, Fujimori promulgou em novembro do ano seguinte a Lei de Mobilização Nacional, que concedeu aos militares amplos poderes para o combate à guerrilha.
Em abril de 1992, Fujimori anunciou o fechamento do Congresso, a suspensão dos direitos constitucionais e a instituição de um "governo de emergência nacional". A maioria da população, porém, recebeu tais medidas com relativa indiferença, como comprovou a reeleição de Fujimori para a presidência em abril de 1995, derrotando dessa vez a Javier Pérez de Cuéllar, antigo secretário-geral das Nações Unidas. Em janeiro haviam novamente irrompido choques armados com forças do Equador, em torno do controle de um setor do território cedido por esse país em 1942.
Fonte: Enciclopédia Barsa.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

ODIN

Divindade máxima do panteão escandinavo pré-cristão, Odin era o deus da guerra e a encarnação do conhecimento mágico e da inspiração poética, atribuições que lhe conferem singular complexidade.
No contexto geral da mitologia germânica, destaca-se Odin, também sob os nomes de Wotan, Wodan e Woden, como a figura de maior relevo, embora não se saiba ao certo se foi venerado em todas as tribos. O historiador romano Tácito o identificou com o romano Mercúrio e, assim, a quarta-feira (mercredi em francês, mercoledi em italiano e miércoles em espanhol), dia de Mercúrio, tornou-se dia de Wotan; daí Wednesday em inglês, com o mesmo significado.
Na literatura, Odin aparecia como protetor dos heróis, e reunia na mansão celeste do Valhalla os grandes guerreiros mortos. Mas era também um mago, conhecedor das runas (caracteres da escrita escandinava) mágicas, que adquirira sua sabedoria em troca de um olho. Tornou-se também o deus da poesia, após ter roubado o "hidromel dos poetas".
A aparência de Odin era a de um homem alto, velho, de barba longa e um só olho. Em geral era representado com um manto e um chapéu de abas largas.  Seus animais simbólicos eram o lobo e o corvo. Montado em Sleipnir, seu cavalo mágico de oito patas, podia galopar no ar e sobre o mar. A lança que Odin normalmente carregava era tanto um símbolo de autoridade como uma arma.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

ODISSÉIA

A Odisséia é uma das obras mais clássicas e antigas da literatura ocidental. Este épico, provavelmente produzido por Homero, talvez um aedo, artista que na época cantava poemas nos quais se narravam atos heróicos e grandiosos, acompanhado por um instrumento musical, foi possivelmente criado no final do século VIII a.C., em algum recanto da Jônia, onde atualmente está localizada a Turquia, naquela época povoada pelos gregos.
Sua estrutura encontra-se repartida em 24 cantos, contendo um total de doze mil versos hexâmetros. Este clássico está inscrito no cânone ocidental – a síntese literária ocidental das melhores obras de todos os tempos, e continua atual em nossos dias. Ela foi criada e legada oralmente de geração em geração, vertida posteriormente para a modalidade escrita. Este poema continua sendo estudado e pesquisado, traduzido para os mais variados idiomas.
Seu enredo não cronológico e a forma decisiva como tanto mulheres quanto escravos marcam o rumo dos acontecimentos, na mesma medida que as atitudes dos heróis, transformam este épico em um texto incomum. A expressão ‘odisséia’ passou a conceituar, em quase todas as línguas do Ocidente, uma espécie de viagem heróica, geralmente pelas veredas interiores, constituindo uma verdadeira trajetória de autoconhecimento.
Ao mesmo tempo em que A Ilíada retrata as guerras e atos heróicos, A Odisséia, sequência desta, descreve jornadas e experiências extraordinárias. Seu protagonista é Odisseu ou Ulisses, que após o final da Guerra de Tróia tenta voltar para sua casa, em Ítaca, mas não consegue, pois é submetido a duras provas em sua viagem de retorno, a qual tem a duração de dez anos.
Diversos participantes da Guerra, desencadeada pelo sequestro de Helena, esposa de Menelau, já haviam retornado para seus lares, na Grécia, mas Odisseu é retido por uma tormenta no mar, que o desvia irremediavelmente de seu rumo. Enquanto isso, sua esposa Penélope é cortejada por vários pretendentes. Era tradição na época que a viúva deveria escolher outro marido; como se acreditava que Odisseu estava morto, a disputa teve início.
Penélope, astuta, engana seus candidatos, propondo-lhes que escolherá um deles assim que terminar de tecer uma mortalha, a qual ela borda durante o dia, desfazendo o bordado à noite. Com o passar do tempo, eles vão arruinando os bens de Odisseu. Atena, a deusa da sabedoria, oculta no corpo de um forasteiro, incentiva o filho do casal, Telêmaco, a procurar seu pai. Depois de vencer várias dificuldades, ele parte nesta busca pessoal, enquanto Odisseu vive as mais fantásticas aventuras, passando inclusive pelo país dos mortos.
Depois de muitas jornadas, Odisseu retorna para Ítaca, com a ajuda de alguns deuses, não se revelando prontamente. Para derrotar seus adversários, ele se disfarça de mendigo, seguindo os conselhos de Atena. Portando seu antigo arco, elimina seus inimigos, com o auxílio do filho, e é finalmente reconhecido pela esposa e pelo pai.
Ana Lucia Santana
 


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

LUTERANISMO


Embora apresentem ligeiras diferenças entre si, as igrejas luteranas mantêm-se na essência fiéis às diretrizes fixadas pelo agostiniano Martinho Lutero. As igrejas luteranas provêm do movimento de que resultou a igreja reformada pela atividade e doutrina de Lutero. Embora este pretendesse denominá-la Igreja Evangélica, ela foi logo chamada luterana, por analogia a outras confissões oriundas da Reforma e igualmente evangélicas -- calvinismo, anabatismo, anglicanismo. Apesar disso, e da tendência contemporânea à unificação, não existe uma instituição eclesiástica luterana universalmente reconhecida. Por isso se fala mais apropriadamente em igrejas luteranas.
Princípios fundamentais. A doutrina de Lutero articulou-se em torno de dois elementos fundamentais: a "justificação pela fé" e a autoridade única das escrituras. A primeira foi produto da intuição teológico-religiosa que veio ao encontro das angústias de Lutero sobre sua salvação, ao refletir sobre uma passagem da epístola de São Paulo aos romanos: "O justo viverá da fé" (Rm 1:17).
Nessa intuição teve origem o preceito fundamental do luteranismo sobre a justificação do homem pela fé -- sola fide, somente a fé -- e da ineficácia das obras humanas como instrumento da salvação. Resultados lógicos de tal preceito foram o desenvolvimento da doutrina sobre a corrupção da natureza humana devido ao pecado original e a convicção de que apenas a graça de Deus, manifesta nesse dom da fé, poderia conduzir o homem à salvação. Rejeitava-se, assim, o espírito renascentista que preparara a atmosfera ideológica da Reforma. A controvérsia entre Erasmo, que defendia a liberdade do homem (De libero arbitrio), e Lutero, que a negava (De servo arbitrio), é o exemplo mais significativo.
O segundo elemento fundamental da Reforma luterana foi determinado pela decadência da Igreja Católica no final da Idade Média, com o desprestígio do papado, a administração nepotista, o abuso de contribuições em troca de benefícios e cargos eclesiásticos, o relaxamento dos costumes e a má-formação do clero. A reação adversa que tudo isso suscitava no povo e nos príncipes alemães desaguou no protesto de Lutero. A venda de indulgências foi a centelha que incendiou a contenda entre o agostiniano alemão e o poder de Roma.
Em consonância com sua intuição fundamental, que encontrara novas perspectivas a partir da meditação pessoal sobre um texto da Bíblia, e ante o espetáculo de uma hierarquia eclesiástica decadente, Lutero concebeu seu segundo princípio básico: sola Scriptura (apenas a Sagrada Escritura). Ou seja, a eficácia da graça de Deus -- sola gratia -- realiza-se por meio de sua palavra, acolhida na fé e interpretada com o auxílio do Espírito Santo, sem a mediação da igreja.
Desenvolvimento doutrinário. Os dois princípios fundamentais do luteranismo continham uma grande carga subjetiva, já que se baseavam na experiência pessoal da fé e do Espírito Santo, mas também serviram de base para um profundo movimento social. Essa dupla condição exigiu que a nova confissão se concentrasse num corpo teológico, numa organização e em atuações práticas, cuja determinação ocorreu de acordo com as circunstâncias históricas dos primeiros momentos do processo.
Nas disputas teológicas com a igreja de Roma, Lutero atacou principalmente a autoridade do papa e as práticas eclesiásticas que instrumentalizavam sua dominação religiosa. Admitiu, no entanto, as tradições dos primeiros concílios ecumênicos, com sua doutrina sobre a trindade e sobre Jesus Cristo. Na estrutura da igreja, admitiu o sacramento do batismo e a presença real de Cristo na eucaristia (entendida de forma diversa da explicação católica romana e de outras igrejas protestantes). Admitiu também a instituição do episcopado, embora com um sentido bastante diferente do católico, já que, de um lado, convidou os príncipes alemães a exercerem as funções episcopais e, de outro, defendeu o sacerdócio de todos os fiéis. Assim, havia uma distinção entre a "igreja visível", submetida ao estado, e a "igreja invisível" dos que estavam unidos pela fé.
Essa complexa evolução, ao mesmo tempo doutrinal e política, não foi nem linear nem homogênea. Lutero defendeu, por exemplo, o direito de rebelião dos príncipes contra o imperador Carlos V, mas condenou a rebeldia dos camponeses contra esses mesmos príncipes. As diferentes concepções em torno da organização da igreja e das questões teológicas, assim como o peso de determinantes geográficos e históricos, fizeram com que, do tronco inicial do luteranismo, se desprendessem paulatinamente ramos como o calvinismo, o anabatismo e o anglicanismo. Por outro lado, a própria concepção que tinha Lutero da instituição eclesiástica também deu margem à criação de diversas igrejas luteranas, geralmente de caráter nacional.
Os princípios doutrinais do luteranismo desenvolvidos ao longo das controvérsias foram expostos em obras de Philipp Melanchthon, como a Augsburger Konfession (1530; Confissão de Augsburg), sobre textos de Lutero; a Apologia, desse mesmo ano; o Kleiner Katechismus (1529; Pequeno catecismo) e o Grosser Katechismus (Grande catecismo), do mesmo ano; em obras do próprio Lutero, como os Schmalkaldensche Artikel (1537; Artigos de Esmalcalda); e a Formula concordiae (1577; Fórmula de concórdia), de Jakob Andreä e Martin Chemnitz.
Além dessa fixação doutrinária, os fiéis luteranos ganharam também, com o correr do tempo, um dos mais ricos acervos hinológicos da história das religiões. Fator indispensável à coesão das comunidades religiosas e à atração de seus ritos, o hino teve grande expansão nos estados alemães. O próprio Lutero foi eminente compositor de hinos, e em torno de um deles, Ein feste Burg (Castelo forte), Bach compôs sua cantata homônima, BWV 80. Na realidade, o gênio de Bach, sobretudo na música vocal, é indissociável da liturgia e dos princípios da igreja luterana de sua terra.
A paz de Augsburg (1555) determinou que cada região do Sacro Império Romano-Germânico conservasse sua religião, e com isso o luteranismo ficou estabelecido no centro e norte da Alemanha e nos países escandinavos. No século XVII, desenvolveu-se dentro do luteranismo alemão um movimento espiritual que foi chamado pietismo por sua difusão mediante os collegia pietatis do pastor Philipp Jakob Spener. Essa renovação religiosa, que reagia contra o dogmatismo e a retórica oficial, revalorizando o fervor e a moralidade, chegou a exercer grande influência sobre o pensamento alemão dos séculos XVIII e XIX. Foi decisiva, por exemplo, na formação ética de Immanuel Kant e suscitou um reavivamento bíblico e missionário.
A partir do fim da primeira guerra mundial, as igrejas luteranas realizaram uma série de convenções. Em 1947, foi fundada a Federação Luterana Mundial, membro do Conselho Ecumênico das Igrejas. Aproximadamente a metade dos luteranos do mundo se concentra no oeste da Alemanha. Também muito ativas são as igrejas escandinavas, bem como as do Canadá e Estados Unidos, que dispõem de missões no mundo inteiro.
No século XX, as diversas igrejas luteranas, em linhas gerais, só diferem na organização. Mantêm o episcopado -- em certos casos, exercido muito moderadamente -- , com caráter temporal e com determinados conselhos ou sínodos que lhe limitam a autoridade. Muitas igrejas luteranas não participam da Federação Luterana Mundial. Todas, porém, se pautam pelos pontos centrais da doutrina tradicional. Nesse sentido, entre as instituições denominadas protestantes, constituem certamente um dos conjuntos de maior homogeneidade, tanto do ponto de vista doutrinário, como administrativo.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

OS VIKINGS DESCOBRIRAM A AMÉRICA?

Cinco séculos antes de Colombo, o explorador Leif Eriksson chegou ao Novo Mundo. Mas a aventura viking no continente americano durou pouco
Foi Leif Eriksson, e não Cristóvão Colombo, quem descobriu a América. O explorador viking chegou ao continente americano cerca de 500 anos antes do navegador genovês. Isso mesmo. Apesar de nos livros escolares geralmente a gente aprender que o Novo Mundo foi conquistado em 1492, na verdade sua descoberta ocorreu por volta do ano 1000. Essa teoria é conhecida há décadas, mas só nos últimos anos os estudiosos conseguiram descobrir mais detalhes sobre a aventura viking.
As sagas vikings sempre falaram de uma mítica Vinland, ou terra das vinhas, que teria sido descoberta na virada do século 10 para o 11. No entanto, até os anos 60 não havia qualquer prova de sua existência. A confirmação só ocorreu quando o explorador norueguês Helge Ingstad e sua mulher, a arqueóloga Anne Stine Ingstad, encontraram, com a ajuda de pescadores, vestígios de um assentamento nórdico em L’Anse aux Meadows, na costa da ilha de Terra Nova, no Canadá. Datações feitas por carbono 14 indicaram que os vestígios são mesmo do ano 1000, o que coincide com os relatos vikings sobre a viagem de Eriksson. A localização e as características dessas ruínas também estavam de acordo com o descrito pelos contemporâneos de Eriksson. Todas as evidências, juntas, fizeram com que o mito viking ganhasse consistência. Considerado o mais antigo assentamento europeu no Novo Mundo, o local foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, em 1978.
Mas, afinal, quem foram os vikings? Esses bárbaros de olhos azuis e cabelos loiros ou ruivos foram um povo de camponeses e pescadores que viveu no norte da Europa, nos territórios que hoje correspondem à Escandinávia – Dinamarca, Suécia e Noruega. Lá Eriksson é tratado como um verdadeiro herói, com direito a estátua em praça pública e lugar de honra nos livros de história. O nome viking significa homem de vik, ou “baía”, embora alguns especialistas afirmem que sua origem pode ser a palavra “pirata” de antigas línguas escandinavas. Os vikings praticavam a agricultura e dependiam da criação de gado, bodes, ovelhas e porcos para sobreviver. Eles se organizavam em clãs, espécie de tribos unidas por laços familiares e chefiadas por proprietários de terra, que também assumiam o papel de líderes militares. Os proprietários de terra formavam a classe mais alta da sociedade viking. A classe intermediária era composta por artesãos, pescadores e pequenos agricultores e, a mais baixa, por escravos capturados durante ataques a outras regiões.
Guerreiros bárbaros
Em seu tempo, esses piratas nórdicos foram um dos povos mais temidos da Europa e, a partir do final do século 8, espalharam o terror com os ataques que realizavam nas áreas costeiras da Irlanda, da Inglaterra, da França e da Rússia. Os mosteiros eram os alvos prediletos dos invasores vikings, já que eram desprotegidos e estavam repletos de tesouros eclesiásticos e vinho. Sendo pagãos, os vikings pilhavam sem dó. Muitas vezes, eles praticavam a extorsão em troca de proteção. Em alguns locais, no entanto, eles não foram apenas para pilhar, mas para ficar. Dublin, na Irlanda, tornou-se uma cidade viking, assim como York e outras inúmeras cidades no norte e no oeste da Inglaterra. Os invasores nórdicos também criaram o ducado da Normandia, na França, e uma dinastia que reinou em Kiev, na Ucrânia.
Mas os vikings não eram apenas guerreiros bárbaros. Eram também hábeis comerciantes e conseguiram estabelecer uma ampla rede de contatos que se estendia da região onde atualmente é o Iraque até o Canadá. Esses povos escandinavos foram democratas e tinham um parlamento que elaborava leis e julgava crimes. Sua cultura era tão sofisticada quanto a do resto da Europa. A literatura oral era riquíssima, com poemas épicos que não deixam nada a dever aos grandes poemas homéricos. O mais importante de tudo, no entanto, é que os vikings foram hábeis construtores de barcos, os melhores de seu tempo. Entre os séculos 9 e 11, eles foram a maior potência naval da Europa. Prova disso foi encontrada em 1997, quando nove navios foram desenterrados das areias de Roskilde, na Dinamarca. A descoberta ocorreu quando o Museu de Navios de Roskilde decidiu ampliar suas instalações. “Por pouco não erguemos o museu sobre navios enterrados”, disse o antropólogo Max Vinner. A maior embarcação viking conhecida até hoje foi encontrada no local. Trata-se de um navio de guerra longo e estreito, um drakkar (dragão), com 36 metros de comprimento e espaço para 100 homens. Na proa ficava a cabeça do dragão. Os vikings acreditavam que, além de assustar os inimigos, o animal também afastava maus espíritos.
A expansão do comércio viking é tida como uma conseqüência do desejo dos povos nórdicos de conseguir bens que eles não podiam obter em casa, como seda, vidro e metal de boa qualidade para fazer espadas. Mas o crescimento da população levou esse povo a navegar por outros mares não apenas para praticar o comércio, mas para morar. Não havia terra suficiente para produzir alimento para os cerca de 2 milhões de nórdicos que viviam na Escandinávia no início do século 9. Por isso eles migraram e estabeleceram colônias em outros lugares, como a gélida Islândia, próxima ao Círculo Polar Ártico.
Na Groenlândia
Um dos locais onde os vikings se estabeleceram foi a Groenlândia, ou Greenland (terra verde). E o fundador dessa colônia foi ninguém menos do que o pai de Eriksson: Eric, o Vermelho, que havia sido expulso da Noruega por assassinato. Da Noruega, o arruaceiro Eric fora mandado para a Islândia, mas lá voltou a se envolver em confusão após uma disputa com um vizinho em torno de gado. Novamente ele cometeu assassinato e acabou num exílio forçado de três anos na Groenlândia. O julgamento de Eric ocorreu numa assembléia-geral chamada Althing, na qual representantes de toda a população se reuniam anualmente para discutir assuntos da comunidade e disputas legais. A instituição existe até hoje na Islândia e, mais de mil anos depois, é atualmente considerada o mais antigo parlamento em vigor em todo o mundo.
Eric construiu uma fazenda na Groenlândia, além de uma pequena igreja para sua mulher, Thjodhild, que era cristã. Naquela época, os vikings, que eram pagãos, começavam a se converter ao cristianismo. As ruínas dessa igreja – uma construção de 2,4 metros de largura e 3,7 metros de comprimento – foram encontradas em 1961. No entanto, a descoberta mais espetacular na região ocorreu em 1990. Nesse ano foram encontrados enterrados na areia restos de madeira de uma enorme construção, com cerca de 30 cômodos, que provavelmente abrigavam de 15 a 20 pessoas, além de ovelhas, bodes, vacas e cavalos. O motivo para a convivência tão próxima entre seres humanos e animais é a baixíssima temperatura da região, que chega a atingir 50 graus Celsius negativos. No local foram encontrados mais de 3 mil artefatos, como brinquedos, pentes e um tear de lã. “Definitivamente, é uma das mais bem preservadas construções nórdicas que temos”, afirma o arqueólogo Joel Berglund, vice-diretor do Museu Nacional da Groenlândia.
Eric e sua mulher tiveram três filhos – Leif, Thorvald e Thorstein – e uma filha, Freydis. Um dia, Leif, o filho mais velho, após ouvir relatos de navegadores que avistaram terras desconhecidas no além-mar, decidiu navegar em direção ao oeste. Foi então que chegou à costa leste do Canadá, mais precisamente em L’Anse aux Meadows, na ilha de Terra Nova. Ele batizou o lugar de Vinland, ou terra das vinhas. Há, no entanto, uma controvérsia sobre o significado desse nome. Alguns estudiosos acreditam que não foram uvas que os vikings encontraram, mas amoras selvagens. Outros apontam que, na verdade, Vinland não significa terra das vinhas, mas terra de pasto. De qualquer forma, foi lá que Leif e seus companheiros aportaram e estabeleceram o primeiro assentamento europeu no Novo Mundo.
“Homens feios”
Os arqueólogos liderados pelo norueguês Helge Ingstad trabalharam durante oito anos nas ruínas de L’Anse aux Meadows. No total, eles encontraram três casas grandes, três oficinas e duas construções menores. Também foram desenterrados cerca de 800 artefatos, entre ferramentas, instrumentos de caça, um forno e quatro canoas. Uma espécie de roca e uma agulha feita de osso que estavam no local sugerem que as mulheres, assim como os homens, também viveram nessa colônia. Outros objetos, como um alfinete de bronze, um prego de navio feito de ferro e um carretel de pedra-sabão, ajudaram a provar que não se tratava de artefatos indígenas, já que estes desconheciam tais tecnologias. Antes da chegada do explorador norueguês, em 1960, os pescadores da região achavam que o local era um “acampamento indígena”.
A configuração das edificações, a pobreza dos artefatos e do lixo encontrados em relação aos de outras colônias vikings e a ausência de um cemitério e de um estábulo para os animais convenceram os especialistas de que o local não era um assentamento permanente. Os arqueólogos acreditam que ele servia de base para outras expedições ao longo da costa canadense e que foi escolhido por sua localização privilegiada, fácil de ser avistada pelo mar. Isso explicaria também o fato de ele ter sido construído num terreno pedregoso e perigoso, sendo que havia locais muito mais acessíveis a apenas alguns quilômetros dali. Hoje o vilarejo é um ponto turístico, onde é possível ter uma visão geral sobre o dia-a-dia dos primeiros exploradores europeus.
A ocupação viking da América do Norte, no entanto, durou menos de dez anos. Apesar de a terra ser boa para o pasto, rica em madeira e em animais para a caça, não sobrou nenhum viking para contar história no local. Alguns especialistas afirmam que provavelmente os exploradores sentiam saudades da terra natal e eram em número muito reduzido para manter ativa uma colônia numa área isolada. No livro The Viking Discovery of América, Ingstad levanta a hipótese de que o lugar era perigoso demais para os exploradores nórdicos. As sagas vikings falam sobre as batalhas sangrentas contra povos indígenas, que existiam em número superior ao dos exploradores nórdicos. Os nativos foram chamados pelos vikings de skraelings, ou “homens feios”. Eles tinham os mesmos tipos de armas que os vikings, como lanças e arco-e-flechas, diferentemente de Colombo, que, quase cinco séculos depois, chegou ao continente fartamente munido de armas de fogo. Para Ingstad, tudo foi uma questão de tempo. “Leif Eriksson descobriu a América cedo demais.”
O panteão viking
Os vikings adoravam um panteão de deuses. Os principais eram Odin, o mais poderoso; Thor, seu filho, deus do trovão; e Freya, deusa da fertilidade. Seus nomes estão presentes até nos dias de semana ingleses: Wednesday, Thursday e Friday – quarta, quinta e sexta-feira. Os vikings tiveram contato com o cristianismo a partir das invasões da Europa. Nas terras de maioria cristã, eles adotaram essa religião.
O mapa da discórdia
Um mapa-múndi que mostra que os vikings chegaram à América antes de Cristóvão Colombo é objeto de controvérsia. O chamado mapa de Vinland, escrito em um antigo idioma nórdico, mostra uma representação da Europa, da Ásia e da África e, do outro lado do Oceano Atlântico, um lugar chamado Vinland. Essa região corresponderia ao local explorado no começo do século 11 pelo viking Leif Eriksson. O mapa foi descoberto por pesquisadores da Universidade de Yale em 1965 e, desde então, surgiram provas tanto a favor como contra sua autenticidade. Uma evidência de que ele seria verdadeiro veio de Jacqueline Olin, do Smithsonian Centre for Materials Research and Education, em Maryland, nos Estados Unidos. Em 2002, um exame com radiocarbono feito por ela e seus colegas apontou que o documento seria de 1434, ou seja, mais de meio século antes da chegada de Colombo à América. Na mesma semana do anúncio, no entanto, os químicos Robin Clark e Katherine Brown, da University College de Londres, na Inglaterra, apresentaram uma prova de que o mapa seria falso. Segundo eles, a tinta usada no documento contém dióxido de titânio, uma substância que só foi descoberta no século 20. “Uma convincente fraude foi realizada. Alguém pegou um pergaminho muito antigo e desenhou o mapa de Vinland”, afirmou Katherine. Se a polêmica em torno da autenticidade do mapa está longe de terminar, o que ele mostra parece mais do que comprovado: os vikings chegaram ao Novo Mundo cinco séculos antes de Cristóvão Colombo.
 Lia Hama
 


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

SÓCRATES E O DIREITO DE PENSAR

Sócrates  (469-399 a.C.), filho de um escultor e de uma parteira, herdou as artes do pai e da mãe, tornado-se um escultor de almas e parteiro de idéias. Seu processo de pensamento filosófico consistia em fazer com que seus interlocutores buscassem, através do raciocínio e da aceitação de sua ignorância diante do assunto, suas próprias verdades, sem considerar os costumes e dogmas impostos.
A esse processo deu o nome de Maiêutica (do grego – arte de trazer à luz), fazendo com que as pessoas com quem tinha contato, elaborassem suas próprias idéias e conceitos, trazendo-lhes, segundo Sócrates, a liberdade e a noção do que é realmente necessário à vida do homem, a sabedoria.
Diferentemente dos Sofistas, que utilizavam a retórica como arte de influenciar e, assim, tirar proveito para si, Sócrates usava seu conhecimento e reflexão para elevar a alma humana (a essência do ser) ao nível das coisas supremas. Para ele, o ideal de busca do homem deveria ser o bem, o justo, o amor e o belo e via na ética e na moral, as bases para se alcançar essa elevação.
A famosa frase “conhece-te a ti mesmo”, demonstra a clara opção de Sócrates pelo ser humano e suas peculiaridades. Para ele, as pessoas deveriam ter liberdade total de pensamentos e idéias, e a justiça deveria estar presente em todos os atos humanos.
Considerando a justiça e a moral como que direcionando os atos humanos, pode-se inferir que, caso aja assim, o homem não terá o livre arbítrio, pois suas decisões seriam comandadas por essas duas regras. Nessa concepção de comportamento, todo ato que fugisse à justiça ou à moral, seriam condenáveis.
A profunda concepção de liberdade e pensamento fazia com que Sócrates questionasse tudo, das leis humanas aos deuses, dos dogmas aos costumes e isso lhe trouxe a reputação de corruptor da juventude ateniense, pelo fato de fazer com que os jovens refletissem mais sobre a vida e os valores tidos como certos.
Tal comportamento era inaceitável para a aristocracia da época e Sócrates foi julgado e condenado pelo tribunal ateniense. Mesmo diante do tribunal e da certeza de sua condenação, Sócrates manteve a postura de quem não teme nada, consciente de sua própria consciência, de que nada fez que merecesse a condenação.
No relato de seu maior discípulo e biógrafo, Platão, Sócrates assim de defende:
“Ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um pouco mais sábio que ele exatamente por não supor que saiba o que não sei”.
Essa declaração demonstra claramente a ideia de Sócrates de que, todo homem deve estar ciente de sua ignorância, para se manter de mente aberta a novos conhecimentos. Se acreditarmos que sabemos tudo, não aceitaremos opiniões e ideias novas e, portanto, ficaremos estagnados em nosso pseudoconhecimento.
A força dos discursos de Sócrates e sua presença imponente são tão nítidas que as palavras ficaram marcadas em seus discípulos. Com ele aprenderam o valor da filosofia, da amizade, do caráter e da verdade e a valorizar a essência das coisas, deixando de lado as banalidades como poder, reputação e riqueza, desenvolvendo uma postura de reflexão e liberdade de pensamentos, que busca o bem e dá acesso a felicidade e a sabedoria.
Geraldo Magela Machado

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

LIBÉRIA: "UM SONHO AMERICANO"

No século 19, os Estados Unidos tentaram repatriar ex-escravos à África. Para isso, compraram um pedaço de terra e criaram um país artificial, que até hoje parece não conseguir acordar desse pesadelo
"Sei que aqui terei uma vida digna, pela primeira vez”, disse, emocionado, o refugiado liberiano Joseph Morgan, de 34 anos, ao comitê de recepção das Nações Unidas no Canadá, em outubro do ano passado. Um século e meio antes, os ancestrais de Morgan haviam pronunciado palavras muito parecidas, em uma situação muito diferente. Eles acabavam de desembarcar na Libéria, do outro lado Atlântico, na costa ocidental da África, um país fundado em 1824 para servir de lar aos negros americanos. Não podiam imaginar que no século 20 a realidade se encarregaria de destruir uma a uma suas aspirações. Os 315 mil refugiados liberianos que vivem hoje nos países vizinhos são a face mais cruel da derrocada do sonho americano na África. Vítimas de 14 anos de guerra civil, da pobreza e da falta de perspectiva, para muitos o caminho de volta à América – terra de onde saíram seus antepassados – representa agora a promessa de uma vida melhor.
Por trás do fracasso da Libéria, um país com renda per capita anual de meros 100 dólares e expectativa de vida de 42 anos, há uma longa história de guerras, conflitos étnicos e intolerância, fomentados por interesses econômicos e imperialistas, muitas vezes inconfessáveis.
Apesar de ter sido criada oficialmente em 1830, a Libéria começou a germinar muito antes, logo depois do fim da Guerra da Independência (1776-1783) nos Estados Unidos. Muitos negros americanos que lutavam contra a Inglaterra ganharam como prêmio a liberdade. Pela primeira vez, esses ex-escravos circulavam livremente pelas cidades, para espanto da comunidade racista da época.
Na Inglaterra, ocorria o mesmo. A lei antiescravagista de 1772 fez com que os poucos negros residentes no país tomassem as ruas, desagradando a maioria da população. No fim o século, os britânicos tiveram a idéia de mandar 411escravos libertos para Serra Leoa (país vizinho da futura Libéria), então uma colônia britânica. Quase todos morreram, devido às precárias condições de vida no lugar. Mas os ingleses não desistiram e, em 1800, mandaram mais uma vez centenas de ex-escravos para Serra Leoa. A iniciativa repetiu-se diversas vezes, até que uma comunidade se formasse na África.
O projeto britânico serviu de inspiração aos americanos. Tanto abolicionistas do norte como senhores de escravos do sul queriam enviar os negros para bem longe – os primeiros, movidos por um declarado sentido humanitário de proporcionar aos escravos uma vida livre de preconceito. Os segundos, por temer revoltas. Os fazendeiros do sul passaram a condicionar a alforria à volta para a África.
Em 1816, um ano após a proibição do tráfico de escravos nos Estados Unidos, foi fundada a ACS (sigla para American Society for Colonization, ou “sociedade americana para a colonização”). A entidade sem fins lucrativos contava com o apoio de órgãos governamentais, políticos, fazendeiros e trabalhadores e patrocinou, naquele mesmo ano, a primeira tentativa de mandar ex-escravos americanos para o continente africano. O local escolhido foi a Ilha Cherbro, em Serra Leoa.
Os Estados Unidos obtiveram permissão da Inglaterra para instalar os colonos na ilha. “Os britânicos, em plena Revolução Industrial, viam na iniciativa a possibilidade de criar um mercado consumidor abrangente que pudesse gerar demanda para a produção de bens em larga escala”, diz Priscilla Schillaro, historiadora da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos. “Além disso, pareceu uma boa idéia apoiar a existência de uma colônia pró-Estados Unidos na África, como forma de inibir o tráfico negreiro internacional, o inimigo número 1 dos britânicos naquele momento.”
Mas a primeira iniciativa de criar uma colônia americana no continente fracassou. A maioria dos 88 passageiros do navio Elizabeth morreu de febre amarela e malária em poucas semanas. Em 1821, a ACS enviou um representante, o diplomata Eli Ayres, para escolher um sítio mais apropriado para o assentamento. Ele (devidamente acompanhado por um pequeno exército de 70 homens) navegou cerca de 200 quilômetros pela costa da África nas proximidades de Serra Leoa, e escolheu uma área que foi chamada de Cabo Mesurado – local da atual capital do país. Só que a terra já tinha dono. Pertencia às tribos Dey e Bassa, habitantes do local há séculos. “Depois de negociações nem sempre amistosas, os chefes tribais cederam aos americanos uma faixa litorânea de 40 quilômetros de comprimento por 4 quilômetros de largura em troca de armas e garrafas de rum que hoje valeriam, juntas, 300 dólares”, afirma James Riley, professor do departamento de história da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos.
Em 1824, o governo americano fundou oficialmente a colônia da Libéria e passou a chamar sua capital de Monróvia, em homenagem ao presidente dos Estados Unidos, James Monroe. Segundo Priscilla Schillaro, os primeiros cidadãos liberianos foram os sobreviventes da trágica excursão para a Ilha Cherbro. Em seguida, começaram a chegar levas de americanos (até 1850, 4 571 pessoas desembarcaram em Monróvia). “No início, a administração foi entregue a representantes escolhidos pela própria ACS. Mas, com o crescimento populacional e o progressivo alargamento do território, começaram a surgir lideranças locais entre os ex-escravos”, diz ela. Na expectativa de aumentar as áreas cultiváveis, esses primeiros moradores passaram a adquirir mais terras e avançar suas fazendas além das fronteiras originais. Em menos de 40 anos, o país cresceu duas vezes de tamanho.
Não foi surpresa para ninguém quando surgiram as primeiras desavenças com as tribos locais, principalmente com os grebos e crus. Segundo Riley, as fronteiras traçadas pela ACS dividiram etnias aliadas e reuniram no mesmo território cerca de 15 etnias, algumas delas inimigas há séculos. “Os conflitos eram inevitáveis.”
Além disso, enquanto as áreas litorâneas colonizadas pelos negros americanos prosperavam com plantações de mandioca e café e a extração de borracha, o interior habitado pelas tribos africanas era totalmente negligenciado.
Nesse clima de instabilidade, a Libéria proclamou sua independência política, em 1847, mas permaneceu estreitamente atrelada à política e à economia dos Estados Unidos, que compareciam também com armas e navios de guerra. O que era fundamental, já que o país estava espremido entre dois poderosos impérios: a Inglaterra, em Serra Leoa, e a França, na Costa do Marfim.
Os interesses estrangeiros, somados ao isolamento da elite interna, passaram a gerar conflitos cada vez mais freqüentes. E cada vez mais irreversíveis, No fim do século 19, o auxílio americano começou a minguar e os liberianos tiveram de se virar sozinhos. E se deram mal. Em 1903, os britânicos forçaram a Libéria a entregar parte de seu território a Serra Leoa, e os franceses avançaram sobre a fronteira com a Costa Marfim. O país, envolvido em tantos conflitos, estava à beira da falência, quando o presidente Theodore Roosevelt providenciou, em 1905, uma ajuda de 1,7 milhão de dólares. Em 1920, chegaram mais 5 milhões de dólares.
Seis anos depois, a Libéria teve de começar a pagar a dívida. O governo liberiano cedeu uma enorme área de 1 milhão de acres (ou 22 mil estádios do Maracanã) para a indústria americana de pneus Firestone explorar borracha. Em 1943, ocorreu de novo: em troca da construção de um porto em Monróvia pelos americanos, o país permitiu que a empresa Republic Steel, com sede nos Estados Unidos, explorasse suas reservas de ferro, em uma época que a indústria siderúrgica estava em franca expansão no mundo todo.
Apesar de tudo, os lucros obtidos com o comércio de ferro e borracha operaram uma espécie de milagre econômico nos anos 40, o que durante alguns anos aumentou a renda da população, principalmente da classe média. Os novos-ricos passaram a comprar terras em áreas antes habitadas exclusivamente por nativos, o que colaborou para acirrar os conflitos.
“Os membros do governo invariavelmente eram membros da elite formada pelos descendentes de americanos, enquanto 95% da população formada por etnias locais sentia-se marginalzada”, diz Riley. Em 1943, foi eleito presidente o descencente de americanos William Tubman. Ele mudou a Constituição para ficar no poder por sete mandatos consecutivos. Também censurou a imprensa e passou a perseguir os opositores de seu governo. Tubman só deixou o poder em 1971, quando morreu.
Em seu lugar, assumiu o vice-presidente William Tolbert, que governou em constante clima de tensão. Em 1980, um grupo de jovens líderes guerrilheiros de várias etnias se uniu para tomar o poder, liderado pelo sargento Samuel Doe, então com 28 anos. De início, o novo governo foi aclamado em praça pública. Mas logo as esperanças de um futuro melhor evaporaram. O novo presidente começou a favorecer os membros da sua etnia, os krahns, em detrimento de todas as outras que conviviam no pequeno país, localizado em uma área do tamanho do estado de Pernambuco. Os grupos dan e mano, habitantes do norte da Libéria, passaram a ser duramente perseguidos. Em 1985, Doe declarou-se vencedor de uma eleição que havia perdido e instituiu uma ditadura.
Um novo golpe de Estado ocorreu na noite de Natal de 1989. As tribos que vinham sendo discriminadas por Doe ocuparam a linha de frente da revolta. No comando, estava Charles Taylor, que havia sido ministro de Doe, e fora afastado por corrupção. Doe foi capturado e morto. Teve início uma guerra civil entre grupos tribais que disputavam o poder, que durou sete anos. Os banhos de sangue só terminaram com a intervenção de tropas internacionais.
A paz, no entanto, durou muito pouco. Em 1996, dissidentes que estavam aquartelados na Guiné invadiram o país. A nova guerra civil finalmente terminou em outubro de 2003, com a eleição de um governo de conciliação nacional e, de novo, com a intervenção militar dos americanos. Em mais de uma década de lutas internas, os assassinatos brutais, as torturas e a destruição de Monróvia enterraram de vez os pilares de liberdade construídos pelos esperançosos ex-escravos americanos que dançaram ao ritmo das grandes potências dos séculos 19 e 20. Desde 1989, quando eclodiu o primeiro conflito, muitos liberianos, como Joseph Morgan, se viram obrigados a deixar sua pátria para salvar a pele, tornando-se refugiados políticos nos países vizinhos, na Europa, ou de volta aos Estados Unidos. Com a economia em frangalhos, a Libéria agora tenta refazer o sonho dos primeiros imigrantes, que tinham orgulho em pronunciar o nome do país, uma homenagem à liberdade.
Carla Aranha
 
 


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

DR. JIVAGO

Doutor Zhivago é o título original da trama que aparece na 27ª posição da lista dos melhores filmes de todos os tempos, publicada pelo British Film Institute (B.F.I.). O filme tem exatas 3 horas e 20 minutos de duração, que despertam dos mais diversos sentimentos; paixão, piedade, raiva e monotonia.
Os primeiros instantes do filme são marcados por imagens, pelo olhar de um General, do fim de expediente em uma indústria no Regime Socialista da URSS. O agrupamento de pessoas saindo do trabalho, analogamente a formigas, sublinha a ideologia da força produtiva pouco criativa, com a perda da individualidade e a demonstração clara de que o regime bárbaro descrito posteriormente havia resistido e ainda mantinha-se no poder.
O General era irmão de Zhivago e procurava sua sobrinha desaparecida, que não chegara nem ao menos a conhecer o pai. Na tentativa de fazer sua suposta sobrinha lembrar-se de seu irmão, ou mesmo registrar as peculiaridades da personalidade de Zhivago, se inicia a narrativa da história do mesmo.
O pequeno Zhivago assiste à morte de sua mãe, e é amparado por seus padrinhos, de excelente condição financeira, que em total gesto de caridade o tomam os cuidados. Destaque para as cenas intrigantes e belas da visão de uma criança sobre a morte, ou da ausência de visão, e sentimento.
Zhivago é educado e amado de forma que em alguns anos se torna médico e poeta. A Rússia está conturbada politicamente, a tranquilidade da classe média está ameaçada por um novo partido que se forma e organiza. Apesar das repressões, passeatas pacíficas pela melhoria de vida eclodem. Em uma de suas passeatas, Zhivago assiste de perto o Partido Bolchevique sofrer um ataque físico: homens, mulheres e crianças mortos e feridos, Zhivago tenta ajudá-los, mas é proibido.
A demonstração de frieza dos que estavam no poder se vê evidente nesse momento, porém é evidente também a maneira superficial com que se passeia pela condição dessa parcela menos abastada, em contrapartida, ressalta-se o luxo e a riqueza da classe média, de forma proposital, uma vez que o intuito do filme não é defender o totalitarismo dos Czares, mas sim ressaltar que o socialismo aparece como uma alternativa bem pior.
A narrativa de uma classe média boa só é interrompida pelo personagem de Victor Komarovsky , que corrompe a personagem de Lara, filha de costureira e amante de Victor. Lara é uma jovem, estudiosa, inteligente e bondosa, mas conhece o desejo e o prazer através do homem de sua mãe, o que a faz sentir-se mulher e bela, em um primeiro momento, e culpada e sem escrúpulos em outrora. O juízo que Lara faz de si, acaba por torná-la um pouco do que temia, abandona os estudos e mesmo sem amor, casa-se com um comunista, temendo não somente o seu julgamento, bem como o da sociedade. Lara conhecia a maldade, conhecia seus sentimentos impuros, diferentemente de Zhivago.
Um relato histórico toma conta da trama, a crise política interna é interrompida pela I Guerra Mundial, que aparece como fator crucial para que o regime consiga se implantar, uma vez que os integrantes do partido Bolchevique lutaram na guerra; uniram-se, organizaram-se, e ao término da mesma, estavam fortalecidos, de maneira a conseguirem enfrentar os Czares e todo o sistema vigente.
Zhivago, agora casado com Tonya, a filha de seus padrinhos, que assim como ele teve uma vida regrada, vai à guerra onde conhece Lara, que se alista como enfermeira em busca de encontrar seu marido, um comunista guerrilheiro. Lara encanta Zhivago, segundo ele, com sua bondade, mas o que parece encantá-lo é o autoconhecimento de Lara, tal como sua frieza, serenidade, maturidade, e, sobretudo, coragem de ser.
Uma vez terminada a guerra e implantado o regime comunista, Zhivago volta para sua casa, que agora era dividida com desconhecidos. Tudo era limitado: o espaço, a comida e a lenha. Passava-se fome e frio. Zhivago se vê obrigado em um dado momento a roubar lenha, momento em que seu irmão o surpreende, e confessa a Zhivago, que ele é perseguido por sua poesia pessoal, intimista e pouco anárquica. Resolve-se, dessa forma, que à toda família estariam em maior segurança se migrassem para a sua casa no campo. Eis um pretexto razoável para que se faça um passeio pela pobreza e calamidade de toda a Rússia, em que cidades inteiras foram dizimadas. Na viagem de trem de carga, são detalhadas peculiaridades do comportamento das pessoas durante a Revolução, a exemplo, a maneira degradante com que se dava a higienização do ambiente em que fezes e pessoas coabitavam. Nota-se nitidamente, a atenção dada à história oprimida, um aspecto demasiadamente vanguardista da obra.
Chegando-se ao destino, a propriedade da família havia sido interditada, e a única alternativa que lhes restava seria habitar uma casa vizinha abandonada. Nesse cenário, com simplicidade, ergueram a paz e felicidade.
Zhivago ia até a cidade vizinha comprar mantimentos, e em uma de suas idas encontra Lara, eles se envolvem, e se estabelece um dilema: Zhivago ama Tonya, mas ama mais ainda a si quando está com Lara.
Atormentado por sua traição; a traição de tudo que lhe havia sido ensinado; a traição de tudo que conhecia, olhando sua família, Zhivago decide por Tonya, vai até a cidade se despedir de Lara, quando é surpreendido por frotas socialistas que o capturam para utilizar seus serviços de médico.
Zhivago foge e chega muito fragilizado até a casa de Lara, que cuida dele e o informa que Tonya e toda sua família teriam ido para a Europa. Em constante ameaça de ser capturado pelo regime, Lara e Zhivago vivem reclusos.
A demonstração da fragilidade ideológica dos que engrenam o sistema vigente e suas respectivas fraquezas, e como se inclinam ao dinheiro e ao conforto é ressaltada pelo personagem de Victor Komarovsky, que aparece agora como diretor de relações do novo regime, mesmo em outrora sendo firmemente contra o partido e suas convicções.
Victor ressurge na trama para salvar Lara, levá-la embora em segurança. Porém, Lara se nega a ir com Victor, então Zhivago para resguardá-la afirma ir com eles, deixando-os ir na frente. Lara então vai embora com Victor. Zhivago fica sozinho, em seguida é preso, mas seu irmão consegue soltá-lo e consegui-lhe um emprego. A caminho do primeiro dia de trabalho, Zhivago morre do coração na rua, sozinho, correndo atrás de uma mulher parecida com Lara.
Lara estava grávida de Zhivago, tivera uma filha, que fora propositalmente perdida na rua por Victor, filha essa procurada pelo general na indústria, inicialmente mostrada no filme. O general oferece aparo a sua suposta sobrinha, que nega, mas agradece e vai embora com seu namorado e com sua balalaica, mesmo instrumento tocado pela mãe de Zhivago, que o carregava sempre consigo. Exprime-se de maneira sutil, no entanto, que as verdadeiras e sinceras manifestações de amor são atemporais, Zhivago viverá sempre em suas poesias e seus descendentes. Dessa forma, o fim do filme abraça o início, uma característica marcante dos filmes da época.
Doutor Jivago tem uma fotografia confortável, uma trilha eternizada, mas não tão confortável. Uma trilha recorrente e que não aparece em segundo plano, possivelmente uma característica da época, acaba por tornar algumas cenas mais chatas do que deveriam ser, faz com que o drama supersature e vire um melodrama.
Deve-se ressaltar que Doutor Jivago, mesmo que de maneira não deliberada é muito mais do que um registro histórico da Revolução de Russa de 1917 e suas faces, é uma obra americana que está impregnada de uma ideológica anti-socialista, que acaba por se tornar como arma argumentativa segundo uma ótica tendenciosa e elitista, em meio a Guerra Fria, contra a ideologia e o funcionamento da URSS.