terça-feira, 4 de dezembro de 2012

DR. JIVAGO

Doutor Zhivago é o título original da trama que aparece na 27ª posição da lista dos melhores filmes de todos os tempos, publicada pelo British Film Institute (B.F.I.). O filme tem exatas 3 horas e 20 minutos de duração, que despertam dos mais diversos sentimentos; paixão, piedade, raiva e monotonia.
Os primeiros instantes do filme são marcados por imagens, pelo olhar de um General, do fim de expediente em uma indústria no Regime Socialista da URSS. O agrupamento de pessoas saindo do trabalho, analogamente a formigas, sublinha a ideologia da força produtiva pouco criativa, com a perda da individualidade e a demonstração clara de que o regime bárbaro descrito posteriormente havia resistido e ainda mantinha-se no poder.
O General era irmão de Zhivago e procurava sua sobrinha desaparecida, que não chegara nem ao menos a conhecer o pai. Na tentativa de fazer sua suposta sobrinha lembrar-se de seu irmão, ou mesmo registrar as peculiaridades da personalidade de Zhivago, se inicia a narrativa da história do mesmo.
O pequeno Zhivago assiste à morte de sua mãe, e é amparado por seus padrinhos, de excelente condição financeira, que em total gesto de caridade o tomam os cuidados. Destaque para as cenas intrigantes e belas da visão de uma criança sobre a morte, ou da ausência de visão, e sentimento.
Zhivago é educado e amado de forma que em alguns anos se torna médico e poeta. A Rússia está conturbada politicamente, a tranquilidade da classe média está ameaçada por um novo partido que se forma e organiza. Apesar das repressões, passeatas pacíficas pela melhoria de vida eclodem. Em uma de suas passeatas, Zhivago assiste de perto o Partido Bolchevique sofrer um ataque físico: homens, mulheres e crianças mortos e feridos, Zhivago tenta ajudá-los, mas é proibido.
A demonstração de frieza dos que estavam no poder se vê evidente nesse momento, porém é evidente também a maneira superficial com que se passeia pela condição dessa parcela menos abastada, em contrapartida, ressalta-se o luxo e a riqueza da classe média, de forma proposital, uma vez que o intuito do filme não é defender o totalitarismo dos Czares, mas sim ressaltar que o socialismo aparece como uma alternativa bem pior.
A narrativa de uma classe média boa só é interrompida pelo personagem de Victor Komarovsky , que corrompe a personagem de Lara, filha de costureira e amante de Victor. Lara é uma jovem, estudiosa, inteligente e bondosa, mas conhece o desejo e o prazer através do homem de sua mãe, o que a faz sentir-se mulher e bela, em um primeiro momento, e culpada e sem escrúpulos em outrora. O juízo que Lara faz de si, acaba por torná-la um pouco do que temia, abandona os estudos e mesmo sem amor, casa-se com um comunista, temendo não somente o seu julgamento, bem como o da sociedade. Lara conhecia a maldade, conhecia seus sentimentos impuros, diferentemente de Zhivago.
Um relato histórico toma conta da trama, a crise política interna é interrompida pela I Guerra Mundial, que aparece como fator crucial para que o regime consiga se implantar, uma vez que os integrantes do partido Bolchevique lutaram na guerra; uniram-se, organizaram-se, e ao término da mesma, estavam fortalecidos, de maneira a conseguirem enfrentar os Czares e todo o sistema vigente.
Zhivago, agora casado com Tonya, a filha de seus padrinhos, que assim como ele teve uma vida regrada, vai à guerra onde conhece Lara, que se alista como enfermeira em busca de encontrar seu marido, um comunista guerrilheiro. Lara encanta Zhivago, segundo ele, com sua bondade, mas o que parece encantá-lo é o autoconhecimento de Lara, tal como sua frieza, serenidade, maturidade, e, sobretudo, coragem de ser.
Uma vez terminada a guerra e implantado o regime comunista, Zhivago volta para sua casa, que agora era dividida com desconhecidos. Tudo era limitado: o espaço, a comida e a lenha. Passava-se fome e frio. Zhivago se vê obrigado em um dado momento a roubar lenha, momento em que seu irmão o surpreende, e confessa a Zhivago, que ele é perseguido por sua poesia pessoal, intimista e pouco anárquica. Resolve-se, dessa forma, que à toda família estariam em maior segurança se migrassem para a sua casa no campo. Eis um pretexto razoável para que se faça um passeio pela pobreza e calamidade de toda a Rússia, em que cidades inteiras foram dizimadas. Na viagem de trem de carga, são detalhadas peculiaridades do comportamento das pessoas durante a Revolução, a exemplo, a maneira degradante com que se dava a higienização do ambiente em que fezes e pessoas coabitavam. Nota-se nitidamente, a atenção dada à história oprimida, um aspecto demasiadamente vanguardista da obra.
Chegando-se ao destino, a propriedade da família havia sido interditada, e a única alternativa que lhes restava seria habitar uma casa vizinha abandonada. Nesse cenário, com simplicidade, ergueram a paz e felicidade.
Zhivago ia até a cidade vizinha comprar mantimentos, e em uma de suas idas encontra Lara, eles se envolvem, e se estabelece um dilema: Zhivago ama Tonya, mas ama mais ainda a si quando está com Lara.
Atormentado por sua traição; a traição de tudo que lhe havia sido ensinado; a traição de tudo que conhecia, olhando sua família, Zhivago decide por Tonya, vai até a cidade se despedir de Lara, quando é surpreendido por frotas socialistas que o capturam para utilizar seus serviços de médico.
Zhivago foge e chega muito fragilizado até a casa de Lara, que cuida dele e o informa que Tonya e toda sua família teriam ido para a Europa. Em constante ameaça de ser capturado pelo regime, Lara e Zhivago vivem reclusos.
A demonstração da fragilidade ideológica dos que engrenam o sistema vigente e suas respectivas fraquezas, e como se inclinam ao dinheiro e ao conforto é ressaltada pelo personagem de Victor Komarovsky, que aparece agora como diretor de relações do novo regime, mesmo em outrora sendo firmemente contra o partido e suas convicções.
Victor ressurge na trama para salvar Lara, levá-la embora em segurança. Porém, Lara se nega a ir com Victor, então Zhivago para resguardá-la afirma ir com eles, deixando-os ir na frente. Lara então vai embora com Victor. Zhivago fica sozinho, em seguida é preso, mas seu irmão consegue soltá-lo e consegui-lhe um emprego. A caminho do primeiro dia de trabalho, Zhivago morre do coração na rua, sozinho, correndo atrás de uma mulher parecida com Lara.
Lara estava grávida de Zhivago, tivera uma filha, que fora propositalmente perdida na rua por Victor, filha essa procurada pelo general na indústria, inicialmente mostrada no filme. O general oferece aparo a sua suposta sobrinha, que nega, mas agradece e vai embora com seu namorado e com sua balalaica, mesmo instrumento tocado pela mãe de Zhivago, que o carregava sempre consigo. Exprime-se de maneira sutil, no entanto, que as verdadeiras e sinceras manifestações de amor são atemporais, Zhivago viverá sempre em suas poesias e seus descendentes. Dessa forma, o fim do filme abraça o início, uma característica marcante dos filmes da época.
Doutor Jivago tem uma fotografia confortável, uma trilha eternizada, mas não tão confortável. Uma trilha recorrente e que não aparece em segundo plano, possivelmente uma característica da época, acaba por tornar algumas cenas mais chatas do que deveriam ser, faz com que o drama supersature e vire um melodrama.
Deve-se ressaltar que Doutor Jivago, mesmo que de maneira não deliberada é muito mais do que um registro histórico da Revolução de Russa de 1917 e suas faces, é uma obra americana que está impregnada de uma ideológica anti-socialista, que acaba por se tornar como arma argumentativa segundo uma ótica tendenciosa e elitista, em meio a Guerra Fria, contra a ideologia e o funcionamento da URSS.


2 comentários:

  1. Me interesso muito por essa historia mas nunca acho o filme pra comprar. Quero mesmo ver por causa da minha xará, Lara!

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  2. Ouvi uma vez q era historia real e q as cartas de Lara foram leiloadas eh vdd?

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