quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

LUTERANISMO


Embora apresentem ligeiras diferenças entre si, as igrejas luteranas mantêm-se na essência fiéis às diretrizes fixadas pelo agostiniano Martinho Lutero. As igrejas luteranas provêm do movimento de que resultou a igreja reformada pela atividade e doutrina de Lutero. Embora este pretendesse denominá-la Igreja Evangélica, ela foi logo chamada luterana, por analogia a outras confissões oriundas da Reforma e igualmente evangélicas -- calvinismo, anabatismo, anglicanismo. Apesar disso, e da tendência contemporânea à unificação, não existe uma instituição eclesiástica luterana universalmente reconhecida. Por isso se fala mais apropriadamente em igrejas luteranas.
Princípios fundamentais. A doutrina de Lutero articulou-se em torno de dois elementos fundamentais: a "justificação pela fé" e a autoridade única das escrituras. A primeira foi produto da intuição teológico-religiosa que veio ao encontro das angústias de Lutero sobre sua salvação, ao refletir sobre uma passagem da epístola de São Paulo aos romanos: "O justo viverá da fé" (Rm 1:17).
Nessa intuição teve origem o preceito fundamental do luteranismo sobre a justificação do homem pela fé -- sola fide, somente a fé -- e da ineficácia das obras humanas como instrumento da salvação. Resultados lógicos de tal preceito foram o desenvolvimento da doutrina sobre a corrupção da natureza humana devido ao pecado original e a convicção de que apenas a graça de Deus, manifesta nesse dom da fé, poderia conduzir o homem à salvação. Rejeitava-se, assim, o espírito renascentista que preparara a atmosfera ideológica da Reforma. A controvérsia entre Erasmo, que defendia a liberdade do homem (De libero arbitrio), e Lutero, que a negava (De servo arbitrio), é o exemplo mais significativo.
O segundo elemento fundamental da Reforma luterana foi determinado pela decadência da Igreja Católica no final da Idade Média, com o desprestígio do papado, a administração nepotista, o abuso de contribuições em troca de benefícios e cargos eclesiásticos, o relaxamento dos costumes e a má-formação do clero. A reação adversa que tudo isso suscitava no povo e nos príncipes alemães desaguou no protesto de Lutero. A venda de indulgências foi a centelha que incendiou a contenda entre o agostiniano alemão e o poder de Roma.
Em consonância com sua intuição fundamental, que encontrara novas perspectivas a partir da meditação pessoal sobre um texto da Bíblia, e ante o espetáculo de uma hierarquia eclesiástica decadente, Lutero concebeu seu segundo princípio básico: sola Scriptura (apenas a Sagrada Escritura). Ou seja, a eficácia da graça de Deus -- sola gratia -- realiza-se por meio de sua palavra, acolhida na fé e interpretada com o auxílio do Espírito Santo, sem a mediação da igreja.
Desenvolvimento doutrinário. Os dois princípios fundamentais do luteranismo continham uma grande carga subjetiva, já que se baseavam na experiência pessoal da fé e do Espírito Santo, mas também serviram de base para um profundo movimento social. Essa dupla condição exigiu que a nova confissão se concentrasse num corpo teológico, numa organização e em atuações práticas, cuja determinação ocorreu de acordo com as circunstâncias históricas dos primeiros momentos do processo.
Nas disputas teológicas com a igreja de Roma, Lutero atacou principalmente a autoridade do papa e as práticas eclesiásticas que instrumentalizavam sua dominação religiosa. Admitiu, no entanto, as tradições dos primeiros concílios ecumênicos, com sua doutrina sobre a trindade e sobre Jesus Cristo. Na estrutura da igreja, admitiu o sacramento do batismo e a presença real de Cristo na eucaristia (entendida de forma diversa da explicação católica romana e de outras igrejas protestantes). Admitiu também a instituição do episcopado, embora com um sentido bastante diferente do católico, já que, de um lado, convidou os príncipes alemães a exercerem as funções episcopais e, de outro, defendeu o sacerdócio de todos os fiéis. Assim, havia uma distinção entre a "igreja visível", submetida ao estado, e a "igreja invisível" dos que estavam unidos pela fé.
Essa complexa evolução, ao mesmo tempo doutrinal e política, não foi nem linear nem homogênea. Lutero defendeu, por exemplo, o direito de rebelião dos príncipes contra o imperador Carlos V, mas condenou a rebeldia dos camponeses contra esses mesmos príncipes. As diferentes concepções em torno da organização da igreja e das questões teológicas, assim como o peso de determinantes geográficos e históricos, fizeram com que, do tronco inicial do luteranismo, se desprendessem paulatinamente ramos como o calvinismo, o anabatismo e o anglicanismo. Por outro lado, a própria concepção que tinha Lutero da instituição eclesiástica também deu margem à criação de diversas igrejas luteranas, geralmente de caráter nacional.
Os princípios doutrinais do luteranismo desenvolvidos ao longo das controvérsias foram expostos em obras de Philipp Melanchthon, como a Augsburger Konfession (1530; Confissão de Augsburg), sobre textos de Lutero; a Apologia, desse mesmo ano; o Kleiner Katechismus (1529; Pequeno catecismo) e o Grosser Katechismus (Grande catecismo), do mesmo ano; em obras do próprio Lutero, como os Schmalkaldensche Artikel (1537; Artigos de Esmalcalda); e a Formula concordiae (1577; Fórmula de concórdia), de Jakob Andreä e Martin Chemnitz.
Além dessa fixação doutrinária, os fiéis luteranos ganharam também, com o correr do tempo, um dos mais ricos acervos hinológicos da história das religiões. Fator indispensável à coesão das comunidades religiosas e à atração de seus ritos, o hino teve grande expansão nos estados alemães. O próprio Lutero foi eminente compositor de hinos, e em torno de um deles, Ein feste Burg (Castelo forte), Bach compôs sua cantata homônima, BWV 80. Na realidade, o gênio de Bach, sobretudo na música vocal, é indissociável da liturgia e dos princípios da igreja luterana de sua terra.
A paz de Augsburg (1555) determinou que cada região do Sacro Império Romano-Germânico conservasse sua religião, e com isso o luteranismo ficou estabelecido no centro e norte da Alemanha e nos países escandinavos. No século XVII, desenvolveu-se dentro do luteranismo alemão um movimento espiritual que foi chamado pietismo por sua difusão mediante os collegia pietatis do pastor Philipp Jakob Spener. Essa renovação religiosa, que reagia contra o dogmatismo e a retórica oficial, revalorizando o fervor e a moralidade, chegou a exercer grande influência sobre o pensamento alemão dos séculos XVIII e XIX. Foi decisiva, por exemplo, na formação ética de Immanuel Kant e suscitou um reavivamento bíblico e missionário.
A partir do fim da primeira guerra mundial, as igrejas luteranas realizaram uma série de convenções. Em 1947, foi fundada a Federação Luterana Mundial, membro do Conselho Ecumênico das Igrejas. Aproximadamente a metade dos luteranos do mundo se concentra no oeste da Alemanha. Também muito ativas são as igrejas escandinavas, bem como as do Canadá e Estados Unidos, que dispõem de missões no mundo inteiro.
No século XX, as diversas igrejas luteranas, em linhas gerais, só diferem na organização. Mantêm o episcopado -- em certos casos, exercido muito moderadamente -- , com caráter temporal e com determinados conselhos ou sínodos que lhe limitam a autoridade. Muitas igrejas luteranas não participam da Federação Luterana Mundial. Todas, porém, se pautam pelos pontos centrais da doutrina tradicional. Nesse sentido, entre as instituições denominadas protestantes, constituem certamente um dos conjuntos de maior homogeneidade, tanto do ponto de vista doutrinário, como administrativo.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

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