terça-feira, 26 de março de 2013

A DANÇA DA FRONTEIRA: TRATADOS E INVASÕES

Os portugueses demonstravam um especial interesse pelas terras do Continente e da foz do rio da Prata. Por isso, essas regiões foram alvo de intensas disputas entre eles e os espanhóis. As disputas entre os dois lados fizeram com que os limites do que é hoje o Rio Grande do Sul ficassem indefinidos por um longo tempo.
            Em 1494, o Tratado de Tordesilhas dividia o Novo Mundo entre Espanha e Portugal. De acordo com essa divisão, as terras onde hoje fica o Rio Grande do Sul eram espanholas, já que a linha imaginária do tratado, passava pela cidade de Laguna, hoje Santa Catarina. Porém, a partir de 1580, as coroas de Espanha e Portugal foram unificadas, pois não havia um herdeiro para o trono lusitano. Assim, o rei da Espanha tornou-se também rei de Portugal. Essa união ficou conhecida como União Ibéria. Com isso, os comerciantes portugueses passaram a fazer negócios na cidade de Buenos Aires, hoje capital da Argentina. Daí, eles controlavam o comércio da prata de Potosí, uma imensa mina que ficava na atual Bolívia.
            Quando a União Ibérica terminou em 1640, os comerciantes portugueses foram expulsos de Buenos Aires. Para não perder seus negócios, eles exigiam a criação de um entreposto comercial na região do rio da Prata. Dessa forma, em 1680, a Coroa portuguesa cria a Colônia do Sacramento em frente a cidade de Buenos Aires, na outra margem do rio, onde hoje é o Uruguai. Os portugueses sabiam que segundo o Tratado de Tordesilhas, a Colônia do Sacramento estaria em terras espanholas. Mas resolveram aplicar um principio chamado de “uti possidetis”, ou seja, quem ocupasse a terra primeiro teria a posse delas. Os espanhóis não concordaram com isso. Por diversas vezes eles cercaram e ocuparam a cidade para expulsar os portugueses.
            Em 1750, espanhóis e portugueses assinaram um novo tratado: o Tratado de Madri. Segundo este tratado os índios aldeados nas missões deveriam se retirar para a outra margem do rio Uruguai e a região passaria a pertencer a Portugal que, em troca daria a Colônia do Sacramento para os espanhóis. Porém os índios e os padres jesuítas não concordavam com o tratado e resistiram aos ataques espanhóis e portugueses, que juntos queriam expulsa-los para o cumprimento do acordo.
            Por causa das dificuldades para a expulsão dos missioneiros e de uma série de atritos entre portugueses e espanhóis pela demarcação das terras, o Tratado de Madri acabou sendo anulado em 1761, e Portugal recuperou a Colônia do Sacramento.
            Entre 1756 e 1763 acontece a Guerra dos Sete Anos, que na Europa colocou os aliados franco-espanhóis em campos contrários à Inglaterra e Portugal. Esse fato trouxe reflexos para as terras na América do Sul. O território brasileiro e em especial o Rio Grande do Sul, sofreu três invasões espanholas. Em abril de 1763, a primeira invasão ocorre quando o Forte de Santa Teresa ficou sob a posse do governador de Buenos Aires, Cevallos. Em 1773, decorrente da segunda onda de invasões, que foram repelidas por Rafael Pinto Bandeira, a sede do governo foi transferida de Viamão para Porto Alegre. Em 1777, na terceira invasão, foi tomada a ilha de Desterro (Santa Catarina). Em fevereiro desse ano morreu o rei português D. José I, assumindo em seu lugar, Dona Maria I. seguiu-se logo um acordo de paz entre Portugal e Espanha, que seria o último ajuste diplomático entre os dois países durante o período colonial. Era o Tratado de Santo Ildefonso. Por esse tratado o Rio Grande do Sul teve o seu território diminuído, pois ficou estabelecido que a região das Missões ficaria sob domínio espanhol, o mesmo ocorrendo com a Colônia do Sacramento. Em troca Santa Catarina seria devolvida a Portugal. Outro item do tratado previa a criação dos Campos Neutrais, a região compreendida entre a lagoa da Mangueira e a lagoa Mirim, que não seria ocupadas nem por portugueses nem por espanhóis. O que a Espanha pretendia com esse acordo era por fim ao contrabando, mas obviamente esse item do acordo não passou de letra morta.
            Antes do Tratado de Santo Ildefonso, em 1768, os jesuítas foram expulsos das Missões que foram entregues a administração de civis espanhóis. Algumas décadas depois, em 1801, as terras missioneiras dos Sete Povos foram definitivamente incorporadas pelos portugueses. Para isso, foi definitivo o apoio de lideranças indígenas que não concordavam com a administração civil dos espanhóis. Entretanto, mesmo após 1801 as disputas fronteiriças continuaram, os limites atuais do Rio Grande do Sul só seriam estabelecidos nas Guerras do Prata em 1852.(Adaptado de - fontes; História Ilustrada do RS e História do RS - Coleção História Regional).

segunda-feira, 25 de março de 2013

REVOLTANTE


Bah, olha, bem revoltante, principalmente para mim, que sou professora de Língua Portuguesa e revisora há quase treze anos, ler na Zero Hora de hoje depoimentos de alguns professores corretores das redações do ENEM. É mais uma prova da ridicularização do ensino, de que a Educação não vale nada no Brasil. Apenas palavras inexpressivas em campanhas e pronunciamentos. Qualidade não é simplesmente aprovar, promover os alunos. É fazê-los aprender, a superar os erros, e não premiá-los pelo fato de respirarem. Criou-se uma política de coitadinhos, de "não vamos nos incomodar", e isto me perturba profundamente. Os políticos e gestores querem ver índices, mas não nos dão meios para realmente melhorá-los, apenas querem que fiquemos cegos a aceitemos passar por cima de todos os princípios da Ética e promovê-los para o ano seguinte, gerando uma massa de trabalho barata, sem cultura, sem pensamento lógico, sem ética, sem noção. Como disse uma colega minha, parei há muito tempo de pensar que o Governo iria me ajudar a melhorar a qualidade das minhas aulas, e faço eu mesmo a minha qualidade. E é isso mesmo: eu mesma busco a qualidade, eu pesquiso, eu estudo, eu tento inovar. Mas a raiva que dá é que as pessoas acham que deveria ser assim mesmo, que eu deveria ser uma pseudo-escrava de um sistema falido, sem contas para pagar e sem autoestima para cuidar. É fogo!
Professora Francine Almeida.

sexta-feira, 22 de março de 2013

PEARL HARBOR

De acordo com alguns historiadores, o governo americano sabia com antecedência que o Japão atacaria sua base no Havaí. Mas nada fez porque era o pretexto que buscava para entrar na Segunda Guerra
O sol mal havia anunciado a manhã do domingo quando um radar, instalado dias antes, acusou a aproximação de um grupo de aviões ao paradisíaco arquipélago havaiano. O alerta de nada adiantou. Os oficiais responsáveis confundiram o ataque inimigo com a chegada previamente agendada de novas aeronaves. Em duas horas, os japoneses feriram e mataram 3581 pessoas e destruíram 18 navios e 249 aviões de Pearl Harbor, base naval e quartel-general que os americanos mantinham no Pacífico. No dia seguinte, os Estados Unidos entraram oficialmente na Segunda Guerra Mundial.
O ataque ocorreu em 7 de dezembro de 1941, data que os americanos lembrariam depois como o “Dia da Infâmia”. Passados mais de 60 anos, ainda não há um consenso a respeito de uma das mais maquiavélicas hipóteses levantadas sobre o ataque: a de que o governo americano sabia, com razoável antecedência, de tudo o que aconteceria naquela trágica manhã. Afinal, Pearl Harbor foi motivo ou pretexto para a entrada dos Estados Unidos na guerra?
O historiador americano John Toland é um dos estudiosos que defendem a tese de que o ataque a Pearl Harbor não foi nenhuma surpresa para os governantes dos Estados Unidos. O serviço secreto americano teria interceptado e decifrado mensagens dos japoneses dando conta da iminência do ataque à base naval no Havaí. Mas o então presidente Franklin Delano Roosevelt teria preferido “fechar os olhos” para a agressão nipônica, pois queria convencer os americanos – até então contrários à participação na guerra – sobre a necessidade de o país se juntar aos Aliados. Toland escreveu dois livros sobre o assunto, ainda inéditos no Brasil: Infamy (“Infâmia”) e The Rising Sun: The Decline and Fall of the Japanese Empire (“O Sol Nascente: o Declínio e a Queda do Império Japonês”, numa tradução livre). Este último narra a Guerra do Pacífico do ponto de vista japonês e rendeu ao autor o Prêmio Pulitzer de jornalismo.
Na opinião de Maria Aparecida de Aquino, professora de História Contemporânea na Universidade de São Paulo (USP), a tese de Toland é plausível. “Os Estados Unidos já ajudavam os Aliados com suprimentos desde o começo da guerra (1939)”, diz ela. “Era preciso justificar o envio de soldados americanos para um conflito até então eminentemente europeu.” Segundo a professora, antes do ataque a Pearl Harbor, a guerra parecia muito distante das necessidades imediatas do cidadão médio americano.
Mas a rivalidade com o Japão já somava anos. De todo o Oriente, o arquipélago japonês era o único totalmente independente do colonialismo euro-americano. E o Japão foi também o único país da Ásia a derrotar uma potência européia. Em 1904, na guerra russo-nipônica, conquistou duas grandes vitórias, uma naval (Tsushima) e outra terrestre (Port Arthur), tornando-se a mais poderosa força militar do Extremo Oriente.
Por tudo isso, os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha trataram de se aproximar da China nas primeiras décadas do século 20. A estratégia era contrabalançar o crescente vigor do Japão, que se expandira para a ilha de Taiwan, a península da Coréia e a Manchúria (região do nordeste da China). Tomando partido da China, os Estados Unidos adotaram uma severa política de embargos contra o Japão, com a supressão da venda de aço e petróleo, produtos estratégicos para as operações militares japonesas. O Japão deveria recuar em todas as frentes conquistadas nos anos anteriores para que o boicote fosse suspenso – uma condição ultrajante aos olhos do imperador japonês Hiroíto.
Motivos não bastam
No correr da primeira metade do século passado, a polaridade Japão–EUA firmou-se como uma disputa quase declarada pela hegemonia do continente asiático. Para o governo americano, entrar numa guerra contra o Japão parecia, portanto, muito oportuno. Mas a história é como os tribunais – motivos, por si sós, não fazem culpados. “Não há nenhum indício, nenhum documento, nenhum testemunho sequer que possa confirmar a tese de que o governo Roosevelt sabia previamente do ataque”, afirma o historiador e escritor Voltaire Schilling, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Segundo Schilling, a direita americana da época tinha ligações com o Eixo. “Ela lançou essa mentira para difamar Roosevelt, apontando-o como enganador do povo americano.” Nos Estados Unidos, há uma lei que torna os documentos do Estado disponíveis para análise pública depois de 20 anos. O presidente Richard Nixon, republicano eleito em 1969, tratou de revirar os arquivos da Segunda Guerra em busca de provas contra Roosevelt. Nada encontrou. “E jamais encontrarão algo, pela simples razão de que nenhum estadista, muito menos Roosevelt, ousaria perder grande parte da sua esquadra num momento em que uma crise se espalhava pelo mundo, apenas para motivar o povo à guerra”, diz Schilling
Com o ataque a Pearl Harbor, o almirante Isoroku Yamamoto pôs fora de combate toda a esquadra americana do Pacífico e fez com que, por um bom período, o grande oceano se tornasse um lago japonês. Até que os Estados Unidos se recuperassem, as forças nipônicas puderam montar um complexo sistema de defesa espalhado pelas ilhas do Pacífico.
Schilling aponta também que dezenas de pessoas trabalhavam para o presidente – oficiais do Pentágono e funcionários da Casa Branca, telefonistas, telegrafistas, secretárias etc. “Essas pessoas não ficariam de boca fechada, deixando o país ser friamente atacado sem fazer nada, apenas para agradar ao chefe.”
Mas a negligência americana no episódio foi notável. Mesmo Schilling se impressiona com o fato de que, em Pearl Harbor, todo o sistema de alerta tenha miseravelmente falhado. Houve trapalhadas com os radares, as primeiras informações sobre os vôos rasantes dos aviões japoneses não foram levadas a sério, não havia patrulhas aéreas... Como que para facilitar a destruição, os navios estavam ancorados muito próximos uns dos outros. Quando um era atingido, o fogo logo chegava ao vizinho, seguindo facilmente seu caminho incendiário. Não surpreende que tamanho amadorismo dê até hoje munição para os defensores de teorias conspiratórias.
Mas há de se desculpar em parte o descuido americano. Naqueles dias, os japoneses estavam ocupados com as ilhas Filipinas, bem longe do Havaí, perto da China. Era difícil imaginar que eles investiriam tanto numa força-tarefa tão distante de casa.
O ataque começou às 7h53, na hora local. No Japão, já eram 3h53 do dia seguinte, 8 de dezembro. Os aviões japoneses atacaram em duas vagas. Juntas, em duas horas, elas mandaram 353 aviões a Oahu, o arquipélago de Pearl Harbor. A primeira vaga foi liderada por 186 torpedeiros-bombardeiros, aproveitando a surpresa da chegada para atacar os navios no porto, enquanto bombardeiros-de-mergulho destruíam as bases aéreas. O segundo grupamento, com 168 aviões, atacou o campo Bellows e a ilha Ford, uma base militar no meio de Pearl Harbor. Entre os navios, o afundamento mais trágico foi o do Arizona, que submergiu com 1106 marinheiros. Em nenhuma outra época os Estados Unidos haviam perdido tanta gente em tão pouco tempo. Nos dias que se seguiram, a população americana foi rapidamente tomada pela revolta e pelo desejo de vingança. A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra tornou-se inevitável.
O ataque japonês parece hoje um tiro no pé. A vitória em Pearl Harbor foi efêmera. Basta lembrar o trágico desfecho que teria a Segunda Guerra: o lançamento de duas bombas atômicas pelos americanos, sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945. “Foi um recado para o mundo”, diz a historiadora Maria Aparecida. “Muito antes das bombas, já estava claro que os japoneses perderiam a guerra.”
No memorável discurso pós-ataque, em 9 de dezembro de 1941, quatro anos antes do lançamento das bombas atômicas sobre o Japão, o presidente americano Roosevelt havia declarado: “Nós, americanos, não somos destruidores – somos construtores”. Foi quando classificou o episódio do ataque japonês como o “Dia da Infâmia”. Numa guerra motivada pelo expansionismo, que envolveu nazi-facismo, ataques-surpresa, supostas omissões maquiavélicas e duas bombas atômicas, é difícil dizer qual foi a infâmia maior.
O presidente do orgulho americano
Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) foi único americano a exercer quatro mandatos presidenciais. Em seus discursos, ele se notabilizou por reforçar a auto-estima dos americanos. Em 9 de dezembro de 1941, dois dias depois do ataque japonês a Pearl Harbor, declarou: “Vamos vencer esta guerra e vamos conquistar a paz que se seguirá. E nas horas escuras deste dia – e através dos dias negros que talvez ainda venham – saberemos que a vasta maioria da humanidade está do nosso lado.”
A guerra do expansionismo
A Segunda Guerra Mundial opôs, de um lado, os países Aliados (principalmente Grã-Bretanha, Estados Unidos, França e União Soviética) e, de outro, as potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). As raízes do conflito remontam à década de 1930, com o surgimento de governos totalitários, militarizados e expansionistas na Europa.
Oficialmente, considera-se que a guerra teve início em 1º de setembro de 1939, quando o Exército alemão, sob as ordens de Adolf Hitler, invadiu a Polônia. Hitler pregava o expansionismo vinculado ao nazismo, movimento radical de afirmação de superioridade da raça ariana e perseguição a outras etnias, especialmente os judeus.
Na Itália, vigorava o fascismo de Benito Mussolini, que exercia o poder quase sem limites legais. A Itália e a Alemanha, desrespeitando os acordos internacionais, avançavam militarmente em direção ao Leste Europeu. Enquanto isso, a hegemonia do continente asiático era disputada pelo Japão e pelos Estados Unidos. O ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, em 1941, criou o motivo/pretexto necessário para a entrada da potência americana na Segunda Guerra.
Ao final de seis anos de combates, os Aliados derrotaram o Eixo. O derradeiro lance aconteceu em agosto 1945, quando os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre as cidades japonesas Hiroshima e Nagasaki. Em seis anos de guerra, morreram quase 60 milhões de pessoas – foi o conflito que mais causou mortes na história da humanidade.
 Uma das principais consequências da guerra foi que a Alemanha e o Japão – mas também a França e a Grã-Bretanha – perderam importância política global. Os Estados Unidos e a União Soviética emergiram então como as duas maiores potências do planeta.
 Leandro Quintanilha
 


terça-feira, 19 de março de 2013

HISTÓRIA DO URUGUAI

Depois de ter seu território disputado por argentinos e brasileiros, o Uruguai consolidou-se como estado independente ao longo de períodos alternados de prosperidade e instabilidade social e política.
O Uruguai é o menor país na América do Sul depois do Suriname, com superfície de 176.215km2. Situado no sudeste do continente, limita-se de norte a leste com o Brasil, a sudeste com o oceano Atlântico, ao sul com o estuário do rio da Prata e a oeste com a Argentina. O termo Oriental deve-se à localização do país em relação ao rio Uruguai, ao qual deve seu nome e cujo curso forma integralmente a fronteira com a Argentina.
Antes da chegada dos europeus, uma pequena população indígena, estimada entre cinco mil e dez mil habitantes, ocupava o território do atual Uruguai. Os principais grupos eram os dos índios charruas e chanás, seminômades.
As primeiras explorações européias foram realizadas em 1516, pelo espanhol Juan Díaz de Solís. A ausência de riquezas minerais e de índios sedentários que pudessem ser escravizados gerou desinteresse pelo território. Em 1603 o governador do Paraguai, Hernando Arias de Saavedra enviou para o território uma centena de cabeças de bovinos e eqüinos que, livres nas pradarias, multiplicaram-se prodigiosamente em poucos anos. No final do século XVII já era comum que gauchos (mestiços de índios e espanhóis) de Buenos Aires cruzassem o estuário do Prata para caçar o gado livre, sem se fixarem na região. Mais tarde, comerciantes portenhos estabeleceram-se ao sul do rio da Prata.
Já se iniciara então o trabalho de evangelização dos índios charruas, que opunham feroz resistência à penetração européia. Os franciscanos fundaram a redução de Santo Domingo de Soriano e os jesuítas, embora expostos aos contínuos ataques dos bandeirantes paulistas, realizaram intensa catequese.
Desde a segunda metade do século XVII o expansionismo português no Brasil cobiçava a margem oriental do rio da Prata, como meio de facilitar o contrabando de metais preciosos do Peru. Em 1680 o governador do Rio de Janeiro, D. Manuel Lobo, fundou a Nova Colônia do Santíssimo Sacramento (atual cidade de Colonia), exatamente em frente a Buenos Aires. Para impedir a penetração portuguesa, o governador de Buenos Aires fundou a cidade fortificada de San Felipe de Montevideo em 1726 e atacou Sacramento, finalmente cedida à Espanha em 1777. No mesmo ano, a Banda Oriental foi anexada ao recém-criado vice-reino do Prata, com capital em Buenos Aires.
À exceção de Montevidéu e algumas pequenas localidades costeiras, o país continuava praticamente despovoado. Os charruas constituíam ainda grande perigo e, no final do século XVIII, fora das povoações só havia poucos gauchos no interior e os escravos de algumas plantações.
O processo de independência. Em 21 de setembro de 1808, após a ocupação da península ibérica pelos franceses, formou-se em Montevidéu uma junta que pediu a destituição de Santiago de Liniers, vice-rei de Buenos Aires, tido como favorável à França. Outra junta, formada mais tarde em Buenos Aires, logo mostrou tendência separatista. Montevidéu transformou-se então em bastião espanhol e para lá foi transferida a capital do vice-reino.
No interior da Banda Oriental, José Gervasio Artigas lutou contra os espanhóis, com o apoio de camponeses, líderes anti-monarquistas de Montevidéu e um exército de Buenos Aires. Após conquistar Montevidéu, sua intenção de formar uma confederação que rivalizasse com Buenos Aires impediu novas alianças e fez com que, em 1820, os portugueses invadissem a Banda Oriental e enviassem o líder uruguaio ao exílio. No ano seguinte, Portugal incorporou a Banda Oriental ao Brasil, sob o nome de Província Cisplatina.
Em 1824, exilados uruguaios em Buenos Aires retomaram o movimento pela independência. Chefiado por Juan Antonio Lavalleja, os "trinta e três orientais" cruzaram o rio no ano seguinte e deram início à rebelião antibrasileira. A batalha de Ituzaingó, em fevereiro de 1827, decidiu a situação em favor deles. Os britânicos, interessados na criação de um estado-tampão entre a Argentina e o Brasil, promoveram a mediação do conflito, do que resultou o Tratado do Rio de Janeiro, de 27 de agosto de 1828, pelo qual tanto o Brasil como a Argentina renunciavam às pretensões ao território uruguaio e reconheciam sua independência. Havia ainda poucos assentamentos permanentes. A criação de gado solto, embora seriamente reduzida por vinte anos de guerra e depredações, dominava o território.
Polarização entre blancos e colorados. Promulgada a constituição, em julho de 1830, os primeiros presidentes foram os generais José Fructuoso Rivera e Manuel Oribe, ambos lugar-tenentes de Artigas. Daí a alguns anos rebentou a guerra civil entre os seguidores de um e de outro. Seus partidos -- respectivamente o Colorado (Vermelho), baseado em Montevidéu, e o Blanco, que controlava o interior -- deram origem às duas grandes facções que, em pleno século XX, dominariam ainda a política uruguaia. Oribe foi alijado da presidência em 1838 e, apoiado pela Argentina, sitiou Montevidéu em 1843. Os colorados receberam o auxílio da França, Inglaterra e Brasil.
A guerra terminou em 1851, sem a vitória inequívoca de nenhuma das partes. A imigração dirigira-se à Argentina e a região parou de se desenvolver. O interior fora devastado, o governo arruinado e o desaparecimento do Uruguai enquanto país independente parecia iminente.
A intelectualidade uruguaia pretendeu eliminar os partidos que levaram o país a tal extremo mas, após a longa guerra civil, os cidadãos encontravam-se acirradamente polarizados em blancos e colorados. Em 1865, Venancio Flores sucedeu a Rivera e obteve o apoio da Argentina e do Brasil, em troca da participação do Uruguai na guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Em 1870, os militares tomaram o poder.
Modernização da sociedade. Brutalidade, dissensão interna e corrupção minaram o prestígio do regime militar e reconduziram os colorados ao poder em 1890. No entanto, a temporária pacificação do interior durante a ditadura permitira o desenvolvimento econômico. A imigração foi incentivada, mas as contínuas disputas entre colorados e blancos emperravam o desenvolvimento social.
Em 1903 foi eleito o líder colorado José Batlle y Ordóñez que, logo ao assumir o governo, enfrentou por oito meses uma sangrenta revolta dos blancos. A morte em combate do líder blanco Aparicio Saravia pôs fim ao conflito e, em 1905, os colorados ganharam as primeiras eleições não fraudadas para o legislativo em trinta anos.
Batlle tornou-se herói nacional e modernizou a sociedade uruguaia. Durante seus dois mandatos (1903-1907 e 1911-1915) foi decretado o fim da pena de morte, aprovado o divórcio e garantidos os direitos dos filhos ilegítimos. O estado interveio na economia e conseguiu reduzir a importância do capital estrangeiro e a dependência das exportações. Temeroso de que suas reformas sociais fossem revertidas por um próximo presidente, Batlle realizou uma reforma constitucional que extinguiu o presidencialismo em favor de um colegiado que exerceria o poder executivo. Em sua forma original, a proposta foi derrotada em 1916, mas transformou-se numa divisão do executivo entre o presidente e um Conselho Nacional de Administração, que vigorou a partir de 1919.
Batlle permaneceu como a maior figura política do Uruguai até sua morte, em 1929. A estagnação do crescimento econômico foi mascarada, no final da década, pelo alto valor das exportações. A tensa situação política, agravada pela morte de Batlle e pela depressão econômica da década de 1930, levou o presidente Gabriel Terra a abolir o Conselho Nacional e governar como ditador a partir de 1933.
Prosperidade econômica. A grande elevação do preço da carne no mercado externo durante a segunda guerra mundial -- da qual o Uruguai participou simbolicamente ao lado dos aliados -- trouxe a primeira onda significativa de prosperidade à economia do país. O padrão de vida do povo uruguaio tornou-se um dos mais elevados do continente e os partidos democráticos se fortaleceram. No final da década de 1940, novo superávit proveniente das exportações permitiu a compra das ferrovias inglesas implantadas no país, a formação de empresas estatais e o subsídio à agricultura.
A constituição de 1951 estabeleceu o sistema colegiado de governo. Nesse período, o Uruguai apresentava a maior renda per capita da América Latina e poderia gabar-se de um regime altamente democrático. Durante o governo do general Juan Domingo Perón na Argentina, acolheu grande número de exilados do país vizinho, embora as atividades anti-peronistas dos refugiados provocassem tensão nas  relações entre os dois países.
Estagnação e crise. O fim da guerra da Coréia fez baixar o preço da lã no mercado internacional e a economia uruguaia entrou num período de estagnação econômica. O elevado padrão de vida dos uruguaios tornou-se insustentável, mas os políticos tentaram atender as expectativas do eleitorado por meio de desvalorizações do peso e empréstimos. A inflação superou 60%, os serviços públicos faliram, indústrias foram fechadas e houve grande aumento da emigração.
As eleições de 1958 levaram ao poder, pela primeira vez em 13 anos, o Partido Blanco, que fracassou ao tentar conter a inflação. Um segundo período de governo dos blancos, entre 1963 e 1966, não conseguiu interromper a estagnação econômica e social. Nesse período foi fundado o Movimento de Libertação Nacional, organização esquerdista de guerrilha urbana que teve em Raúl Sendic seu principal líder. Seus membros autodenominaram-se tupamaros em memória de Tupac Amaru, descendente do último governante inca que, dois séculos antes, rebelara-se contra o domínio espanhol.
Em 1966, o país retomou o presidencialismo. Tornaram-se freqüentes as manifestações e protestos, e a violência com que o governo reprimiu estudantes e operários aumentou ainda mais a tensão. Atuando de início de forma idealista e romântica -- assaltavam bancos e estabelecimentos comerciais, distribuindo dinheiro e bens entre os pobres --, os tupamaros tornaram-se, a partir de 1968, francamente terroristas, responsáveis por seqüestros e assassinatos de líderes políticos, militares e policiais. Impotente para contê-los com a ajuda da polícia, o governo pediu a intervenção dos militares que, em 1973, tomaram o poder.
Regime militar. O governo de Juan María Bordaberry (1973-1976) agiu com ferocidade sem precedentes na história do país. Matou cerca de 300 tupamaros e aprisionou três mil outros, o que deu ao Uruguai a mais alta percentagem de habitantes presos por motivos políticos em todo o mundo. Torturas, assassinatos e desaparecimentos motivaram protestos de organizações em defesa dos direitos humanos.
O governo militar atraiu o capital estrangeiro, abriu estradas e realizou obras públicas e, em 1980, promoveu um plebiscito. Apesar da censura à imprensa e da severa restrição à oposição, as urnas rejeitaram o militarismo. Seguiu-se a esse fracasso a queda do peso e, relutantemente, os militares aceitaram a realização de eleições.
Redemocratização. Em março de 1985, tomou posse o presidente colorado Julio María Sanguinetti. No ano seguinte, apesar do descontentamento da população, o Parlamento aprovou uma lei que anistiava os militares acusados de violação dos direitos humanos durante o regime militar. A abertura política libertou também a maior parte dos tupamaros, entre os quais Sendic, que formaram um partido legalizado.
Em novembro de 1989 as eleições presidenciais deram a vitória ao candidato do Partido Blanco, Luis Alberto Lacalle. Sua política econômica, que incluiu privatizações, corte de gastos públicos e arrocho salarial foi, em 1992, rejeitada por mais de 70% do eleitorado. A instabilidade das alianças políticas levou o governo ao isolamento e dificultou a execução das propostas. Em 1994, o Partido Colorado, liderado por Sanguinetti, ganhou as eleições parlamentares e presidenciais por pequena margem.
Fonte: Enciclopédia Barsa.


quinta-feira, 14 de março de 2013

PANDORA

De acordo com a mitologia grega, Pandora, criada pelos deuses para castigar o desafio de Prometeu, foi responsável pela vinda do mal sobre a Terra.
Personagem mitológico, Pandora foi criada por Zeus para castigar Prometeu, deus da estirpe dos titãs, que roubara o fogo dos céus e o entregara aos mortais. A versão mais conhecida da lenda de Pandora é a relatada no século VIII a.C. pelo poeta Hesíodo, na Teogonia. Zeus decidiu vingar-se e ordenou a Vulcano, deus do fogo, que plasmasse com terra uma mulher de extrema beleza, à qual os deuses do Olimpo concederam presentes e qualidades excepcionais. Atena ensinou-lhe as artes do sexo feminino e Afrodite os encantos da beleza. Hermes concedeu-lhe o dom da palavra insinuante e as Graças cobriram-na de jóias raras. Por isso foi chamada de Pandora, que em grego significa "portadora de todos os dons".
Zeus encarregou-a então de entregar a Prometeu, em grego "o previdente", uma caixa fechada, mas este resistiu aos encantos de Pandora e recusou-se a abrir o presente. Apesar das advertências de Prometeu, Epimeteu, seu irmão, ficou fascinado com a beleza de Pandora e tomou-a por esposa. Depois, pediu-lhe que abrisse a caixa, da qual escaparam todos os males e desventuras que desde então afligem os humanos. Arrependido, Epimeteu, cujo nome em grego significa "o que reflete tardiamente", tentou fechar a caixa, mas conseguiu apenas nela encerrar a esperança, que seria o consolo da humanidade. Zeus não perdoou Prometeu por ter escapado à armadilha e o acorrentou ao Cáucaso, para que um abutre eternamente lhe devorasse o fígado. A expressão "caixa de Pandora" passou a ser empregada como sinônimo de tudo que, sob aparência de encanto, é fonte de males e desgraças.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

quarta-feira, 13 de março de 2013

GÊNGIS KHAN: A FÚRIA MONGOL

Numa tribo nômade de uma das regiões mais remotas do mundo, nasceu aquele que lideraria um dos mais eficientes exércitos já reunido. Impiedoso e violento, ele conquistou o maior império que um só homem já dominou. Seu nome é Temudjin, ou Gêngis Khan.
O ano é 1215. Zhongdu, capital do Império Jin, cai na segunda tentativa de invasão pelos mongóis. Um ano antes, um pesado tributo foi pago e os bárbaros das estepes se foram. Desta vez, porém, nem os muros de pedra com 12 metros de altura, nem a chuva de setas despejada pelos mais de mil arqueiros postados no alto das torres foi capaz de deter o cerco. Quem não fugiu se arrependeu. A cidade foi saqueada e destruída. Seus habitantes foram mortos ou escravizados. Zhongdu, mais tarde rebatizada como Pequim, foi mais uma vítima da máquina de guerra comandada por Gêngis Khan.
Em seus 72 anos de vida, o líder mongol amealhou o maior império em extensão que um único homem já conquistou, da costa do Oceano Pacífico ao Mar Cáspio. Seus descendentes chegaram à Europa e ao Golfo Pérsico. “É a carreira militar mais fulminante da história. É como se um chefe de uma tribo indígena brasileira conquistasse hoje a América do Sul”, afirma Mario Bruno Sproviero, professor de Língua, Literatura e Cultura Chinesas da Universidade de São Paulo. A comparação faz todo sentido. Além de dispersos geograficamente, os mongóis não possuíam leis escritas, na verdade não tinham sequer escrita. Não conheciam a agricultura e seus modos eram pouco civilizados mesmo para os padrões da época.
Não tomavam banho, comiam carne crua e viviam infestados de piolhos e outros parasitas. Na guerra, eram impiedosos: pilhavam seus vizinhos, matavam os homens com crueldade ímpar, raptavam as mulheres e escravizavam seus filhos. Mas nem só o terror construiu o império de Gêngis Khan. Ele foi um líder carismático, com profundo senso de justiça. Atos de bravura conquistavam seu coração e os guerreiros mais valentes, mesmo entre os inimigos, eram recompensados com posições de comando em suas tropas. Por outro lado, os traidores eram castigados com a morte. O líder era grato até o último fio de sua barba aos amigos e respeitava a religião alheia, incorporando cristãos, budistas e muçulmanos em seus quadros. Valorizava o conhecimento a seu modo: entre os prisioneiros, aqueles que tinham profissões ou alguma habilidade eram enviados para Caracorum, fortaleza militar que servia de capital para os mongóis. Como escravos, que fique claro, mas vivos.
Temudjin, seu nome verdadeiro, nasceu por volta de 1165, à beira do Rio Onon, no noroeste da Mongólia, uma vastidão de terras planas e clima árido, ocupada pelos turcos até o século 12. Ali viviam diversas tribos nômades, organizadas em clãs. Entre as mais importantes estavam os tártaros, os caraítas, os merquitas, os naimanos, os quirquizes, os oirates e, é claro, os mongóis. Aos 8 anos de idade, após a morte se seu pai, Yesugai, envenenado pelos tártaros, Temudjin e sua família foram abandonados com poucas posses e alguns cavalos. Eles viviam da caça de pequenos animais, dos peixes do Rio Onon, da coleta de frutos e do leite das éguas. Aos 15 anos, Temudjin já almejava assumir a liderança da família, então composta pela mãe, três irmãos, a segunda esposa de seu pai e dois meio-irmãos. Um deles, Bekter, também era candidato ao posto de chefe do grupo. Temudjin sabia que nas estepes, a única forma de se livrar da concorrência era eliminá-la. Durante uma pescaria, ele matou o meio-irmão com uma flechada.
O jovem Temudjin não parou mais de eliminar quem tivesse a coragem, ou o azar, de cruzar seu caminho. Os laços familiares entre tribos e clãs tornavam constantes as rivalidades: mulheres, butins ou cavalos, eles só precisavam de um motivo, às vezes nem isso, para acender velhas vinganças.
Aos 18 anos, Temudjin entrou numa dessas refregas com os merquitas (leia quadro na página 39). Ele tinha poucas posses e nenhuma força fora de seu clã, e para enfrentar seus inimigos pediu ajuda a Toghrul, líder dos poderosos caraítas, e ao amigo Jamuka, influente chefe militar de um clã aliado. Juntos, eles reuniram cerca de 40 mil homens e, sob a liderança de Temudjin, derrotaram os merquitas. Naquela imensidão inóspita, porém, as alianças eram como os períodos do dia, não como as estações do ano. E aquele que era seu irmão pela manhã podia tornar-se seu pior inimigo ao cair da noite. Temudjin e Jamuka eram amigos desde crianças e chegaram a dividir a mesma ger (uma espécie de cabana leve, típica dos povos nômades) para enfrentar os invernos mais rudes. Agora adultos, ambos almejavam a mesma coisa: tornar-se o líder das estepes. Com a vitória sobre os merquitas, Temudjin havia conquistado a admiração de seus comandados e, portanto, mais poder que o amigo.
E, entre os mongóis, sempre que havia uma crise: havia uma guerra. Jamuka reuniu 30 mil homens de 13 tribos diferentes e atacou Temudjin, em 1187. Quem morreu atingido por flechas envenenadas ou golpes de lança foi considerado um sujeito de sorte. Os naimanos a comando de Jamuka ferveram os líderes das tropas de Temudjin em caldeirões. Os mongóis, que eram xamanistas, acreditavam que ao cozinhar seus inimigos, seus espíritos nunca iriam assombrá-los. Jamuka amarrou as cabeças de dois soldados mortos em seu cavalo e desfilou pelo campo de batalha. Uma mensagem de horror ao líder rival, que conseguira escapar.
A derrota obrigou Temudjin a quase dez anos de exílio, tempo que passou na China. Para voltar, ele só tinha uma alternativa: promover outra guerra. Com a ajuda do velho aliado, Toghrul, ele liquidou os tártaros, dando início a uma época de terror que lhe daria fortuna e fama entre as outras tribos. Temudjin tornou-se cada vez mais temido e poderoso. Em mais uma uma reviravolta, ele virou-se contra Toghrul e assumiu o controle dos caraítas.
Faltava agora acertar as contas com Jamuka. Catorze anos depois, eles voltaram a se encontrar e, dessa vez, o exército de Temudjin derrotou a força mais poderosa com que havia cruzado até então. Quando Jamuka percebeu que a batalha estava perdida, escapou acompanhado apenas por alguns de seus homens. Durante a fuga, sua escolta mudou de lado: Jamuka foi atacado e preso. Como Temudjin estava ficando muito poderoso e Jamuka cada vez mais isolado, seus homens decidiram se juntar ao vencedor, imaginando que ao entregar seu líder, ganhariam a gratidão do inimigo. Mas, para Temudjin, a traição era um ato imperdoável, mesmo quando isso o beneficiava. Ele prendeu todos e ordenou que fossem decapitados. Jamuka foi poupado para que visse a morte de seus traidores. Depois disso, também foi executado.
O soberano infinito
Após a morte de Jamuka, Temudjin era o líder de fato dos mongóis. Faltava tornar-se líder de direito. Em 1206, o ano do Tigre, um Kuriltai (uma espécie de assembléia), foi convocado entre os mandatários das dezenas de tribos que viviam nas estepes. À beira do Rio Onon, eles se reuniram e declararam que Temudjin passaria a ser chamado Chingis Khan (Gêngis é a versão persa do nome, que ficou famosa por terem sido eles os primeiros a relatarem sua história), que significa “soberano do oceano”. Não se sabe exatamente qual o significado do título, considerando que os mongóis não tinham lá muita intimidade com a água salgada. A explicação mais provável é a de que sendo o oceano a maior coisa que eles conheciam, chamar seu líder assim era compará-lo a algo sem fim, eterno. O soberano infinito.
O líder militar deixou momentaneamente a espada de lado para compilar uma série de leis chamada Yasak que, entre outras coisas, instituíam o serviço militar obrigatório a partir dos 15 anos e a condenação à morte em casos de furto e adultério. Pela primeira vez na história dos mongóis, um líder estava acima de todos os chefes tribais e de suas tradições e leis orais.
No ano seguinte, Gêngis Khan retomou suas campanhas militares, desta vez, levando suas ambições a lugares mais distantes. Sua motivação era conquistar terras para pastagens, saquear e fazer escravos. Era a única forma que conheciam de adquirir riquezas. Não comercializavam, não tinham muito o que vender a não ser cavalos. Seus cavalos, aliás, eram o ponto forte de seu exército, que além da excelente técnica para combate sobre montaria não possuía nenhuma outra característica peculiar. Não era especialmente bem armado nem utilizava estratégias inovadoras. No entanto, seus homens eram muito organizados e disciplinados. Generais e soldados comiam a mesma comida, usavam as mesmas roupas e armas. Isso fazia com que as lideranças fossem respeitadas. O avanço rápido e arrasador se deve, acima de tudo, ao terror que Gêngis Khan impunha em seus adversários. A matança provocada por suas tropas não se limitava ao campo de batalha. Os mongóis não negociavam rendição ou tratados de paz.
Quando entravam em combate, não poupavam nobres ou governantes e assassinavam populações inteiras, como aconteceu com os tártaros. Depois, destruíam tudo que não podiam carregar. A fama de implacável fez com que muitas cidades que estavam em seu caminho preferissem se render, pagar tributos e entregar mulheres e escravos, a correr o risco acabar sendo massacradas.
Em 1207, quando Gêngis Khan iniciou a longa campanha na China, seu nome já era conhecido. Foram sete anos até que chegasse às muralhas de Zhongdu. Com quase 1 milhão de habitantes, a capital dos Jin – que dominavam o norte da China, dividida após a queda da dinastia Tang – era cercada por imensos muros e centenas de postos protegidos por arqueiros. Ligações subterrâneas de abastecimento permitiram que a cidade resistisse até o ano seguinte. Em 1215, no entanto, Khan conseguiu romper o cerco e invadiu a cidade. Lá, sua tropa destruiu aquilo cuja utilidade não conhecia, ou seja, quase tudo. As mulheres foram levadas.
Os homens com habilidades especiais, como os artesãos, foram escravizados, e os demais sumariamente assassinados. Um massacre.
As incursões na China não aplacaram o apetite Gêngis Khan por novas conquistas. Pelo contrário. Em 1217, após sufocar uma rebelião dos caraquitais, ele entrou em choque com império muçulmano de Khwarazm – uma das possessões turcas na região que havia composto a Pérsia e que se estendia do Mar de Aral ao norte do Golfo Pérsico, na Ásia Central. Na época, esse era o maior poderio militar do continente asiático. No início, as relações entre Gêngis Khan e sultão Maomé II foram boas. Mas não seriam assim por muito tempo. Maomé acusou os mongóis de saquearem caravanas turcas que voltavam da China e, em represália, matou os embaixadores mongóis. Foi a gota d’água. Liderado pelo próprio Khan, um enorme exército de 200 mil homens invadiu o território Khawarazm. As cidades que resistiam acabaram como Bocara (no atual Uzbequistão), dizimada por uma série de incêndios. Os mongóis tomaram grande parte da região que corresponde hoje ao Irã e Turcomenistão.
Em Samarcanda, um dos mais prósperos centros urbanos da época, e onde morava o sultão, as baixas foram menores. A população teve de pagar um pesado tributo, mas 30 mil membros do exército derrotado foram mortos. Gêngis Khan destacou dois de seus melhores generais para capturarem o sultão, mas ele nunca seria pego, pois morreu doente em um esconderijo. Na perseguição, porém, os mongóis invadiram várias cidades do Reino da Rússia.
Laços de sangue
Gêngis Khan morreu no nordeste da China, em 1227, de causas desconhecidas. As especulações vão desde malária a ferimentos provocados por uma queda do cavalo. Sabe-se apenas que seu último desejo foi atendido. Seus restos mortais foram levados para a região onde nasceu e ali foram sepultados.
Mas nem a morte colocou fim às conquistas militares que Gêngis Khan iniciou. Tolui, o filho mais novo, obedeceu a tradição de seu povo e assumiu a regência. Dois anos depois, um Kuriltai foi convocado para que o escolhido por Gêngis, Ogodai (seu terceiro filho), ascendesse ao trono dos então poderosos mongóis.
A conquista da Rússia se concretizaria apenas na campanha iniciada em 1236. O novo Khan enviou o sobrinho Batu, neto de Gêngis Khan, para a Rússia, que na época era dividida em pequenos principados. Batu conquistou Moscou e Kiev, em 1240, e partiu para a Hungria e a Polônia. No ano seguinte, sem reforços e esgotado, o exército mongol voltou com a notícia da morte de Ogodai. Batu se estabeleceu no sul da Rússia e fundou a Horda de Ouro. O reinado ganhou este nome porque a sede do governo às margens do Rio Volga era uma enorme tenda recoberta com fios de ouro. Horda em mongol é tenda. Para os ocidentais, a palavra ganharia um novo significado, mais apropriada para designar o comportamento dos descendentes de Gêngis Khan: bando de malfeitores.
Na China, os combates prosseguiram ininterruptamente desde a tomada de Zhongdu. A região só seria definitivamente controlada, juntamente com a Península Coreana, em 1234, sob a liderança de Ogodai. O enorme império, no entanto, não sobreviveria ao seu tamanho e às divisões entre os descendentes de seu fundador. Tolui obteve a China. Batu, filho de Jochi, o primogênito de Gêngis, que morreu um ano antes do pai, ficou com a Rússia. Chagatai, o segundo da escadinha, ficou com cidades importantes como Samarcanda e Bocara. Mas não se pode datar exatamente o fim do império fundado por Khan, pois, se a oeste, suas terras seriam parcialmente conquistadas pelo líder turco Tamerlão, no século 14, a leste, o neto de Khan, Kublai, fundou a dinastia Yuan, que governou a China até a metade do século 14 e cuja influência sobreviveu aos anos.
Se a morte de Gêngis Khan não chegou a ser um alívio para seus opositores, também não o foi para os aliados. A última de suas histórias sobre a terra tornou-se uma lenda. Conta-se que para esconder o local do sepultamento (segundo a tradição mongol, quando um túmulo é violado, o espírito do morto deixa de proteger sua família), todos os coveiros e até aqueles que cruzaram o cortejo foram assassinados. Os soldados que executaram a tarefa permaneceram ao lado da tumba até que a vegetação cresceram à sua volta, ocultando a sua localização. Na volta para casa, os próprios guardas também foram mortos. O episódio é narrado no livro The Secret History of the Mongols (A História Secreta dos Mongóis, sem tradução em português), uma compilação de histórias sobre a vida de Gêngis Khan, escrito por autor desconhecido logo após a morte do líder.
Tamanho segredo se manteve preservado por oito séculos. Em 2001, um grupo de arqueólogos americanos anunciou a descoberta de um complexo de 20 túmulos de pedra a 321 quilômetros de Ulan Bator, capital da República Popular da Mongólia. Como eles estão próximos da região onde Gêngis Khan teria nascido e onde seu pai foi enterrado, há grandes chances de que ele realmente tenha sido enterrado no local. Mas a exploração do sítio arqueológico e a confirmação de que se trata do túmulo do órfão pobre que tornou-se o imperador de meio mundo, ainda depende da autorização do governo da Mongólia.
Mulheres e cavalos
Em toda a história de Gêngis Khan as mulheres raramente são citadas. Nas estepes, até um cavalo valia mais que uma companheira. Ele era mais do que o melhor amigo do homem, era um indispensável instrumento em batalhas, tanto para o combate, como para a fuga. O quadrúpede também era necessário no pastoreio, segunda atividade econômica dos mongóis, precedido, é claro, pela pilhagem. Homens e cavalos nunca se separavam. Já as mulheres eram deixadas para trás nos acampamentos, enquanto os homens passavam longos períodos de batalha ou caça. Por isso, perder a mulher para uma outra tribo era comum. Arrumar uma também não era lá muito difícil, naqueles dias. Os casamentos eram acertados entre os pais quando os noivos ainda eram crianças, no entanto, a forma mais simples de conquistar a companhia feminina era usar a força. Fosse nas guerras, quando os homens podiam incorporar novas esposas, ou simplesmente seqüestrando as jovens de outras tribos, uma prática corriqueira entre as tribos nômades.
O pai de Temudjin, Yesugai, roubara sua mãe da tribo dos merquitas. Vinte anos depois, o recém-casado Temudjin seria alvo da vingança. Sua noiva, Borte, foi levada pelos merquitas e para resgatá-la (fato não muito comum), ele se aliou a outras tribos para o serviço. A batalha abriu caminho para a liderança de Temudjin sobre os povos da região. Ele obteve sua esposa de volta, grávida. O fruto dessa gravidez, Jochi, foi o primogênito da família, mas sobre ele sempre ficaria a dúvida de ser ou não filho de Temudjin, motivo pelo qual ele foi excluído da linha de sucessão. Em 1225, Jochi morreria envenenado, provavelmente a mando do próprio pai. Gêngis teve ao todo seis mulheres mongóis e outras tantas estrangeiras, um número que pode não chegar à centena, mas certamente ultrapassa a metade disso.
 Uma pesquisa realizada por geneticistas da Universidade de Oxford, na Inglaterra, afirma que 16 milhões de homens, cerca de 0,5% da população masculina do mundo, possuem cromossomos Y característicos dos mandatários mongóis. Esses cromossomos carregam uma assinatura genética que descende de um único cromossomo fundador. Suspeita-se que ele seja de Gêngis Khan.
 Isabelle Somma
 


terça-feira, 12 de março de 2013

PLATÃO

Platão foi um dos principais filósofos gregos da Antiguidade. Ele nasceu em Atenas, por volta de 427/28, foi seguidor de Sócrates e mestre de Aristóteles.
Este filósofo se encontrava no limiar de uma época, entre os valores antigos e um novo mundo que emergia, o que lhe propiciou uma riqueza de idéias sem igual. Ele tinha o poder de abordar os temas mais diversos, mais com a força da paixão e da criatividade artística do que com a lucidez da razão. Sua obra é um dos maiores legados da Humanidade, abrangendo debates sobre ética, política, metafísica e teoria do conhecimento.
Ao contrário de Sócrates, que vinha de uma origem humilde, Platão era integrante de uma família rica, de antiga e nobre linhagem. Ele conheceu seu ilustre mestre aos vinte anos. Sócrates era bem mais velho, pelo menos quarenta anos separavam ambos, mas eles puderam desfrutar de oito anos de aprendizado conjunto. Platão teve acesso também, por meio de seu professor, aos ideais pré-socráticos. Com a morte de seu preceptor, o filósofo isolou-se, com outros adeptos das ideias socráticas, em Mégara, ao lado de Euclides.
Depois de viajar pela Magna Grécia e pela Sicília, Platão regressou a Atenas e fundou a Academia, que em breve se tornou conhecida e freqüentada por um grande número de jovens que vinha à procura de uma educação melhor. Até intelectuais consagrados acorriam a esta instituição para debater suas idéias. Depois de várias tentativas de difundir seus conceitos políticos em Siracusa, na Sicília, Platão se instala definitivamente em sua terra natal, na liderança da Academia, até sua morte, em 347 a.C.
Dos filósofos da Antiguidade, Platão é o primeiro de quem se conhece a obra integral. Mas muitos de seus diálogos não são autênticos, embora supostamente assinados por ele. Seu estilo literário é o diálogo, uma espécie de ponte entre a oralidade fragmentária de Sócrates e a estética didática de Aristóteles. Nos escritos de Platão mesclam-se elementos mito-poéticos com fatores essencialmente racionais. Este filósofo não se guia pelo rigor científico, nem por uma metodologia formal.
Em Platão a filosofia ganha contornos e objetivos morais, apresentando assim soluções para os dilemas existenciais. Esta práxis, porém, assume no intelecto a forma especulativa, ou seja, para se atingir a meta principal do pensamento filosófico, é preciso obter o aprendizado científico. O âmbito da filosofia, para Platão, se amplia, se estende a tudo que existe. Segundo o filósofo, o homem vivencia duas espécies de realidade – a inteligível e a sensível. A primeira se refere à vida concreta, duradoura, não submetida a mudanças. A outra está ligada ao universo das percepções, de tudo que toca os sentidos, um real que sofre mutações e que reproduz neste plano efêmero as realidades permanentes da esfera inteligível. Este conceito é concebido como Teoria das Idéias ou Teoria das Formas.
Segundo Platão, o espírito humano se encontra temporariamente aprisionado no corpo material, no que ele considera a ‘caverna’ onde o ser se isola da verdadeira realidade, vivendo nas sombras, à espera de um dia entrar em contato concreto com a luz externa. Assim, a matéria é adversária da alma, os sentidos se contrapõem à mente, a paixão se opõe à razão. Para ele, tudo nasce, se desenvolve e morre. O Homem deve, porém, transcender este estado, tornar-se livre do corpo e então ser capaz de admirar a esfera inteligível, seu objetivo maior. O ser é irresistivelmente atraído de volta para este universo original através do que Platão chama de amor nostálgico, o famoso eros platônico.
Platão desenvolveu conceitos os mais diversos, transitando da metafísica para a política, destas para a teoria do conhecimento, abrangendo as principais esferas dos interesses humanos. Sua obra é estudada hoje em profundidade, apresentado uma atualidade inimaginável, quando se tem em vista que ela foi produzida há milênios, antes da vinda de Cristo. Seu pensamento influencia ainda em nossos dias teorias políticas, psicológicas – como a junguiana -, filosóficas, espirituais, sociológicas, entre outros segmentos do conhecimento humano.
Ana Lucia Santana


segunda-feira, 11 de março de 2013

ILHA DAS FLORES

A miséria é o tópico central do premiadíssimo trabalho do diretor Jorge Furtado. A utilização de um título que contradiz a trama desenvolvida ao longo dos 13 minutos de duração do curta-metragem foi uma das ótimas idéias apresentadas nesse trabalho. Mas não é a única.
A exposição didática das idéias, de forma encadeada, amarrada as informações, na medida em que elas aparecem na narração sólida e segura do ator Paulo José, constituem o eixo em torno do qual acabam gravitando os espectadores.
O ritmo alucinado utilizado para que fiquemos sabendo sobre os tomates do Sr. Suzuki, o perfume de dona Anete, o surgimento do dinheiro e as peculiaridades dos seres humanos (o polegar opositor e o tele-encéfalo altamente desenvolvido), nos dá pouco tempo para refletir sobre toda a informação e exige que acabemos assistindo ao vídeo duas ou até mesmo, três vezes.
Outra característica marcante do curta-metragem Ilha das Flores é a profusão de imagens. É como se tudo fosse uma verdadeira colagem feita pelo diretor e pelos editores do filme. As imagens se sucedem na medida da necessidade de explicação de um conceito apresentado no texto. Chega a ser um tanto quanto enlouquecedor e, nesse aspecto, reside um dos fatores que torna o filme imperdível, todos (inclusive e, especialmente, os alunos) prestam atenção o tempo todo.
O fato de ser um curta-metragem é outro aspecto particularmente interessante para os educadores. Pode ser encaixado facilmente no tempo de uma aula e não permite que os alunos possam sequer esboçar um bocejo.
O mais importante, porém é que "Ilha das Flores" coloca em pauta a discussão acerca da pobreza, da fome e da exclusão social. Levando-se em conta que foi produzido em 1989, dá para perceber que as coisas não mudaram muito entre o Brasil daquela época e o de hoje...
A História
O Sr. Suzuki, japonês, plantador de tomates, atuando na região de Porto Alegre, despacha seus produtos através de uma Kombi para os supermercados da região metropolitana da capital gaúcha.
Dona Anete, brasileira, vendedora de perfumes, percorre a cidade em busca de pessoas interessadas em adquirir suas mercadorias. Das vendas auferidas e, retirando-se os custos para a aquisição do produto, surge o lucro. Com o lucro, Dona Anete vai a um supermercado de Porto Alegre e compra tomates e carne de porco.
A carne de porco e os tomates são os ingredientes principais na refeição que está sendo preparada por Dona Anete para sua família. Entre os tomates comprados por Dona Anete havia um considerado impróprio para o consumo humano (de acordo com o parecer da personagem). Esse produto deteriorado foi atirado no lixo.
Como acontece todos os dias em várias grandes cidades do Brasil e do mundo, o lixo foi recolhido e enviado para depósitos, localizados a margem das metrópoles. O que é identificado como lixo orgânico é separado e utilizado como alimento para os porcos de um dos criadores estabelecidos num dos lixões de Porto Alegre, ironicamente chamado de "Ilha das Flores".
O problema é que, depois da coleta seletiva, que indicou o que poderia ser aproveitado pelos suínos, outros seres humanos (que como os anteriores também são dotados de tele-encéfalo superior e polegar opositor) passam a disputar as sobras do lixão de Ilha das Flores...
 


sexta-feira, 8 de março de 2013

LIBERDADE! AINDA QUE TARDIA


Nas Minas setecentistas, o republicanismo seguia os passos da América inglesa, buscando o autogoverno.
Durante praticamente todo o Setecentos, falou-se em motins, sedições e levantes na região das Minas. A partir de meados do século XVIII, porém, as revoltas perderam seu caráter espetacular e tornaram-se surdas, disseminadas e constantes. Um círculo de letrados muito provavelmente foi responsável por algumas novidades importantes nesse contexto. Uma delas, talvez a mais evidente, foi propiciar a emergência de uma rede de disseminação de idéias que se estendeu pelo interior e atingiu as três comarcas mais importantes da capitania – Vila Rica, Rio das Mortes e Serro do Frio. Entre os poetas reunidos pelo círculo letrado em torno de Cláudio Manuel da Costa, estavam Tomás Antônio Gonzaga, Domingos Vidal Barbosa, Álvares Maciel e o cônego Luís Vieira da Silva, e muitos outros que participavam dos cultos serões atravessados por muitas idéias, inclinações literárias, alguma maledicência e variadas rimas pastoris.
Gonzaga foi, provavelmente, o participante mais ativo na geração de um processo de formação e circulação de opinião sustentado pela prática do versejar. É certo que suas Cartas chilenas tinham como alvo específico o discurso político e as práticas administrativas de d. Luís da Cunha Meneses, governador da capitania e inimigo de Gonzaga, por lhe retirar os privilégios para cobrança de dívidas e execução de hipotecas e lhe excluir das até então lucrativas relações entre a magistratura mineira e o comércio ilegal do ouro e dos diamantes. Vistas por esse ângulo, as Cartas chilenas são, sobretudo, o resultado, em verso e rima, de um esforço razoavelmente bem-sucedido de desmoralização do governador e de seus favoritos na administração da capitania – além de funcionarem, é claro, como uma forma muito elaborada de panfleto político, de linguagem saborosa, rápida, cortante e sem precedentes nas Minas setecentistas.
Nas condições históricas e literárias em que Gonzaga compôs sua obra, reencontrar a virtude curiosamente pressupunha um retorno, algo a que se remonta, que se encontra como fundamento na origem de uma sociedade. Mas, com certeza, a sua não era uma opinião isolada: no século XVIII, a verdadeira ação revolucionária não poderia ser senão uma ação restauradora, como propunha Montesquieu.
Em boa medida, os letrados mineiros tratavam do problema político da corrupção e sobre as maneiras conhecidas de tornar essa sociedade capaz de se reencontrar, de bom grado ou à força, com o bom governo − uma ordem pública regida por leis que impeçam o descomedimento dos homens e das instituições. Mas, como intuía o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, nenhum daqueles homens parecia ansioso por coisas novas; tratava-se, antes, de restaurar uma antiga ordem que fora perturbada e violada pelo despotismo de monarcas absolutos, por abusos do governo colonial ou por ambas as situações. À maneira de todos os outros revolucionários do século XVIII, Tiradentes também não estava preparado para desencadear alguma coisa sem precedentes.
O que lhes importava era uma certa concepção de liberdade. Os homens que participaram ou circularam em torno do grupo de letrados de Vila Rica e de São João del Rey deixaram atestado seu gosto pela estabilidade e pareciam desejar a liberdade sobretudo para cuidar de seus próprios assuntos.
A rigor, vinha daí o valor que emprestavam à idéia de república, baseado principalmente na relação que essa idéia manteve com determinadas características particulares a um tipo muito específico de cidade – aquela que adquiriu a liberdade de administrar seus próprios assuntos. Na realidade, o ponto de partida para a sensibilidade republicana da maior parte desses homens estava no ideal de cidade caro ao republicanismo anglo-americano, significando independência mais autogoverno. De fato, os letrados mineiros haviam aprendido, com a experiência histórica da América inglesa, que o poder estava nos diversos Estados soberanos, livres e independentes, e que esse poder se concentrava nos legislativos e, em particular, nas câmaras baixas.
Por conta disso, quem quisesse se confrontar com o establishment redigindo subversivamente novas leis para a capitania, como de fato Gonzaga e Cláudio Manuel pretendiam fazer, não teria de indicar a necessidade de consolidação da vasta área colonial portuguesa sob um governo nacional. Tratava-se de sublinhar seu compromisso com a decisão de vincular todo o sistema político a um processo de discussão e negociação específico ao legislativo. No contexto histórico da capitania das Minas, ao final do século XVIII, essa decisão só poderia ser traduzida por um projeto de recuperação do papel legislativo das câmaras municipais.
Contudo, no mundo português, as Câmaras Municipais foram também o único instrumento de representação dos interesses locais e a única promessa de continuidade administrativa respaldada na autoridade conhecida pelas vilas coloniais. Na prática, essas Câmaras funcionavam como um instrumento decisivo de política da Coroa – em parte, porque simbolizavam estabilidade e continuidade administrativa e, em parte, também, porque atuavam como espaço de expressão de ressentimentos locais em relação ao fiscalismo da metrópole. Além disso, numa sociedade fluida e móvel como eram as Minas setecentistas, as Câmaras significavam o meio possível para homens novos, naturais do país, ocuparem cargos de governança da terra, ver reconhecida sua competência e politizada sua prestação de serviços ou sua aspiração de ascensão social. Não era pouca coisa.
Outro indício muito característico da sensibilidade republicana que então se formava foi a intuição de que a soberania era de fato legislativa e, portanto, não podia ser compartilhada. Dessa descoberta, porém, derivava outra: a concepção de que havia algo muito pertinente na defesa do direito do indivíduo de desfrutar os próprios bens com imunidade contra a ação arbitrária do príncipe ou de seus representantes.
Não importava, nesse caso, se a república se ocultava sob a forma monárquica, como gostava de imaginar o cônego Luís Vieira; ou se, como queria padre Toledo, o critério de uma república bem ordenada devia basear-se na capacidade de seus dirigentes recrutarem seus cidadãos para a defesa da pátria – ainda que para isso fosse necessário alforriar mulatos e negros nascidos na colônia. Os homens que participaram ou circularam em torno do grupo de letrados de Vila Rica e São José del Rey tinham,  no geral, uma conduta política orientada pela utilidade. Imaginavam a liberdade nos termos de Montesquieu, como “um bem que permite gozar todos os outros bens”, e se aproximaram da forma republicana a partir do reconhecimento abrangente de que os interesses têm valor agregativo. Nenhum desses homens pareceu disposto, em algum momento, a renunciar aos bens dessa vida em nome das antigas virtudes políticas ou militares ou da formação de uma consciência cívica.
Ao contrário. Talvez não por acaso, tantos entre eles estiveram tão profundamente envolvidos com o contrabando. O padre Rolim, por exemplo, ocupou boa parte de sua vida metido em fraudes contra a Coroa: falsificou moeda, subornou autoridades – inclusive as eclesiásticas –,  desviou diamantes da rota oficial de Lisboa para a trilha clandestina que terminava em Amsterdã. Mas padre Rolim foi também, ao que tudo indica, um homem vocacionado pelas luzes do cálculo e, como boa parte de seus parceiros, um personagem capaz de romper o cordão de isolamento da privacidade individualista. Na República que imaginava ajudar a criar, o comércio seria livre, os diamantes, de propriedade de quem soubesse garimpá-los, os dízimos ficariam com os vigários, o ouro alçaria “seu legítimo valor”.
É certo que a pretensão de uma forma republicana de governo para as Minas setecentistas fracassou – sobraram delitos de intenções, versos ambíguos, sermões atravessados, crimes de idéias, excesso de loquacidade; ou, se quisermos enxergar de outro modo, sobrou a devassa, os interrogatórios, o suicídio, as prisões, o exílio, o enforcamento de Tiradentes. Contudo, a partir de então, o vocábulo república deixou de significar apenas e pejorativamente a ilustração retórica da decadência, da anarquia e da desordem. Na origem desse republicanismo que deixou muito de seus traços na região das Minas, haveria ora em diante a possibilidade, sempre presente, de que os homens saibam e queiram manter suas mãos sobre a liberdade. Pensando bem, sobrou muita coisa.
Heloisa Maria Murgel Starling


quarta-feira, 6 de março de 2013

POR QUE ROMA DESMORONOU

Para o historiador inglês Peter Heather, a queda do Império Romano ocorreu não por causa da decadência política ou econômica, mas por pressões externas de povos bárbaros.
Era o fim. A fumaça e o fogo se espalharam pelo campo de batalha, e logo se misturou no ar um cheiro de suor, sangue e corpos queimados. Os cadáveres de 20 mil soldados romanos, dos 30 mil que haviam participado da luta, se espalhavam inertes pelo chão. O imperador Valenciano, que pessoalmente comandara o embate, também desapareceu naquele dia, 9 de agosto de 378, sem deixar vestígios. De acordo com relatos de sobreviventes, ele foi queimado vivo pelo inimigo. Os godos tinham vencido de maneira espetacular. O episódio, um divisor de água na história de Roma, ficou imortalizado como a Batalha de Adrianópolis (que aconteceu na região da atual Turquia). Nunca mais o mundo seria o mesmo. Cem anos depois, entraria em colapso a maior força política e militar de todos os tempos, o Império Romano do Ocidente – seu território se estendia da Itália ao norte da África e ao Oriente Médio.
Alguns anos antes da batalha, os godos já haviam penetrado na Turquia, saqueando cidades e provocando o caos. No ano de 378, pretendiam derrubar as portas de Adrianópolis, próxima a Constantinopla (atual Istambul), a capital do Império Romano do Oriente. Esse braço da administração imperial havia sido criado em 330 para facilitar o controle dos territórios na Europa Oriental, no norte da África, Turquia, Síria e Iraque.
Os romanos acreditaram que, como no passado, seria fácil derrotar os bárbaros. Então, como sempre, extrairiam um tratado de paz e teriam mais um reino-cliente, que compraria mercadorias fabricadas em Roma e cederiam guerreiros para lutar nas legiões quando fosse necessário. Mas eles não contavam que os godos não estariam sozinhos. Ao lado deles, para surpresa do imperador Valenciano, combatiam os temíveis hunos e os alanos.
Por trás da estrondosa vitória de 378 houve mais, entretanto, do que o fator surpresa. O desenvolvimento social, econômico e social das tribos bárbaras e sua convivência durante séculos com os costumes romanos explicariam, em grande parte, o sucesso na Batalha de Adrianópolis e nas campanhas seguintes. Em suma, causas externas, e não internas, seriam os principais responsáveis pelo desmoronamento da grande potência. Essa visão, sustentada pelo prestigiado historiador inglês Peter Heather, da Universidade de Oxford, contradiz as antigas versões sobre a queda do Império Romano. Sim, tudo aquilo que você aprendeu. Corrupção, colapso da economia e crise política? Esqueça, afirma Heather em seu livro The Fall of the Roman Empire – A New History of Rome and the Barbarian (“A Queda do Império Romano – Uma Nova História de Roma e dos Bárbaros”), publicado neste ano na Europa e nos Estados Unidos e ainda inédito no Brasil.
Para Heather, a economia romana estava bem, a corrupção era algo corriqueiro (e não era mais acentuada no final do império do que em seu início) e as trocas de imperadores, que realmente existiram nos séculos 4 e 5, não seriam motivos suficientes para explicar o colapso de Roma, fato que permanece como um dos maiores mistérios da Antiguidade. Afinal, perguntam-se até hoje os historiadores, como foi possível que rudimentares tribos bárbaras invadissem Roma? A resposta, para Heather, está em dois pilares: as migrações de grandes grupos bárbaros na Europa Oriental a partir do século 3 e a crescente sofisticação política, econômica e social de povos como os godos e vândalos.
A tese, como seria de se esperar, suscita polêmicas. Para Richard Saller, historiador da Universidade de Chicago e um dos maiores especialistas do mundo em Roma antiga, o raciocínio de Heather não é muito convincente. “A queda do Império Romano é uma questão muito grande e complicada para ter só uma explicação. Se a economia e o poderio militar de Roma estivessem crescendo, os ataques militares dos inimigos poderiam ter sido repelidos”, analisa. Heather, por sua vez, sustenta que os povos bárbaros mudaram, adotando uma organização política e uma nova inteligência que levaram a batalhas como a de Adrianópolis. “Além disso, não é possível afirmar que a economia de Roma estivesse mal. Foram tomadas, isso sim, medidas emergenciais para que mais legiões pudessem ser financiadas para vigiar as fronteiras no Oriente, então ameaçadas”, diz Heather.
Tudo havia começado, segundo o historiador inglês, com os bem-sucedidos ataques persas às forças romanas estacionadas no Oriente, no século 3. Pela primeira vez, os árabes representavam um obstáculo ao poderio do império. Segundo Heather, a origem do problema estava na própria dinâmica da hegemonia imperial. As repetidas vitórias das legiões na região causaram uma crise de poder nas lideranças do atual Irã, até que, no final do século 3, uma nova dinastia emergiu, os sassarianos. Eles marcharam sobre a Mesopotâmia (na região do atual Iraque) com muito mais eficiência do que seus antecessores, os arsacid. “O aparecimento de um super-rival foi um grande choque”, diz Heather em seu livro. E Roma precisava reagir.
Tempos de inflação
O grande desafio era mandar mais tropas para o Oriente, mas sem se descuidar das fronteiras da Europa, que desde o século 2 sofria ataques dos bárbaros. Mas era preciso criar recursos para financiar os reforços militares que protegeriam a região da Mesopotâmia. A solução foi desvalorizar a moeda, para ter mais dinheiro – aparecia aí, pela primeira vez de que se tem notícia, a inflação – e aumentar os impostos. Outra medida foi confiscar os recursos gerados pelas cidades – antes, os fundos podiam ser administrados pelos governadores locais. Os ajustes foram eficazes: em 298, os sassarianos finalmente foram derrotados.
E a economia não ficou em frangalhos depois disso? Para os adeptos da tese de que Roma caiu por causa de reveses econômicos e políticos, sim. Um dos defensores dessa interpretação é o historiador italiano Giovanni Cipriani, da Universidade de Lecce. “Criou-se a inflação, os camponeses ficaram mais pobres e antigos aliados de Roma, como os francos, não tinham mais tanto interesse em defender o império”, afirma Cipriani.
Segundo Heather, não foi bem assim. As províncias romanas, como as atuais França e Espanha, viviam na época um boom, com uma agricultura florescente e importações crescentes de artigos romanos, como cerâmicas, vidros, jóias. Por isso, a vida econômica do império não teria sofrido uma mudança tão grande a ponto de minar suas estruturas.
Para Heather, a grande questão é que, no século 4, a Europa vivia uma revolução sem precedentes. Grandes migrações ocorriam no continente, motivadas pelos avanços dos temidos hunos, uma tribo nômade originária da Mongólia que passou a procurar novas terras na Europa Central, expulsando os grupos de ali viviam. Ninguém sabe ao certo por que os hunos resolveram deixar sua terra natal. Uma hipótese é que eles tenham sido atraídos pela riqueza das vilas próximas às fronteiras do Império Romano, que se beneficiavam da necessidade de vender alimentos para as tropas romanas e fornecer serviços em geral.
Por onde passavam, os hunos espalhavam o terror. Eles faziam uma guerra-relâmpago, matando o maior número possível de pessoas em um curto espaço de tempo. Não contentes, saqueavam tudo o que viam pela frente. À primeira notícia de que os hunos estavam se aproximando, os povos em seu caminho fugiam apavorados. “Os alanos escaparam, empurrando os godos, que foram cair em cima dos romanos”, resumiu uma fonte da época, o bispo Ambrósio, de Milão.
Algumas vezes, as lideranças mais fortes desses grupos faziam alianças com os hunos, como na Batalha de Adrianópolis. De qualquer forma, o contato com os mongóis, se por um lado trazia medo, por outro ensinou às tribos européias novas táticas de guerra. E, para a felicidade delas, a necessidade de dobrar os resistentes persas tinha deixado as fronteiras da Europa menos guarnecidas. O Império Romano como um todo havia se voltado mais para o Oriente do que para o Ocidente. Os generais na Europa se viram sem liderança, e teve início uma anarquia militar que durou 50 anos, até meados do século 4. “Mas observa-se que, mais uma vez, tratava-se de problemas de ordem externa, e não interna”, diz Heather.
Bárbaros sofisticados
Para o azar dos romanos, nos últimos dois séculos os bárbaros haviam se sofisticado, e muito – para os historiadores, incluindo Heather, isso aconteceu em grande parte devido a uma convivência de séculos com Roma. Eles ainda eram analfabetos, mas já tinham lideranças fortes e certa coesão política – no passado, as tribos dificilmente se entediam entre si. No plano econômico, haviam descoberto novas técnicas agrícolas que aumentaram a produtividade, gerando riqueza. Além disso, as trocas comerciais com o Império Romano trouxeram ainda mais recursos. Uma elite se formava, pela primeira vez. E ela estava sedenta de autonomia política e independência total em relação às forças romanas.
“Os imperadores resistiram durante dois ou três séculos, mas depois não conseguiram mais segurar os bárbaros”, diz Heather. Nem todos especialistas concordam com essa teoria. Para Richard Saller, da Universidade de Chicago, se a economia do Império Romano estivesse em melhor estado – sem inflação e pesados impostos –, talvez houvesse uma possibilidade mais concreta de contra-atacar. “Mas, no século 5, já estava decretado o destino de Roma”, afirma.
Para atingir seu objetivo, as tribos partiram para a guerra, e para valer, freqüentemente fazendo alianças entre si – outro fato inédito. Os piores ataques foram comandados por líderes vândalos, alanos, suevos e godos, entre os anos de 405 e 408. Eles invadiram as fronteiras junto ao rio Danúbio e conquistaram a Espanha, a França e a Bélgica, então províncias romanas. Os hunos também não deram trégua, obrigando as legiões a combatê-los sistematicamente na região das atuais Áustria, Croácia, Hungria e Eslovênia. Nesse cenário, um grupo de godos conseguiu invadir Roma em agosto de 410, saqueando-a completamente por três dias. “O mundo romano estava abalado em suas fundações”, escreve Heather em sua obra.
Segundo o historiador, mesmo que quisessem as províncias não poderiam revidar. Novamente, acredita Heather, o problema era gerado muito mais fora do que dentro dos limites do Império Romano. Essa tese é controversa. Para outros estudiosos do tema, os povos dominados, por estarem descontentes com a política imperial, não resistiram tanto assim aos ataques. “Foi tudo muito rápido. E posso dizer que na França, por exemplo, já havia um desejo por autonomia, tanto é que alguns anos mais tarde se formaram os feudos e as monarquias locais”, diz o italiano Cipriani.
O Império Romano dava seu último suspiro no Ocidente. No Oriente, com sua capital na Turquia, sobreviveria até 1453, quando os turcos otomanos tomam Constantinopla. Emblematicamente, foi um líder meio huno, meio germânico, Odoacro, que em 4 de setembro de 476 colocou o Império Romano de joelhos. Ele obrigou o imperador Rômulo Augusto a renunciar, com consentimento da administração da outra ponta do império, em Constantinopla, e passou a ser o governador da Itália. Os romanos deixam de ser os donos do Ocidente. Foi o fim da maior civilização que já havia existido. “E, com certeza, não por decadência dos romanos”, afirma Heather. “Mas sim graças a uma enorme força exterior que era impossível combater.”
Quem eram os bárbaros
Os antigos romanos consideravam bárbaros todos os povos que viviam fora do limite do império. “Eles não sabiam ler, escrever e levavam uma vida simples”, diz Peter Heather. Havia vários desses grupos espalhados pela Europa, como os suevos, vândalos, ostrogodos, visigodos, francos, alanos e hunos. Estes últimos eram considerados os mais letais de todos os bárbaros. Seu maior chefe foi Átila. Após sua morte, em 453, os hunos foram dominados por outras tribos e desapareceram.
Como era a vida em Roma no século 5
Como uma grande metrópole de hoje, a Roma do século 5 era uma cidade pulsante, com 1 milhão de habitantes, repleta de palácios, templos e locais de diversão. Depois de um dia de trabalho, um romano típico ia dar uma espiada em uma das lutas no Coliseu. Até o final do Império Romano, no ano 476, o anfiteatro funcionou a todo vapor. Inaugurado por volta do ano 80 a.C., comportava até 55 mil espectadores. Calcula-se que 200 mil gladiadores tenham morrido ali. O Coliseu ficava no coração da cidade, ao lado do Fórum, onde se desenrolava a vida política, econômica e jurídica de Roma. O ritmo agitado do Fórum tinha como contrapartida as termas, onde a elite, formada por proprietários de terra e membros do governo, iam espairecer. A primeira delas, a de Caracala, foi construída no ano 217, e a de Diocleciano, em 298. Esses prédios grandiosos, muitas vezes com decoração primorosa, abrigavam não só o local para banhos, mas também bibliotecas, bares, barbeiros, ginásios para a prática de esportes e até galerias de arte. Depois de ler, conversar e se exercitar nas termas, o cidadão romano contava com o conforto de ter água corrente em casa – um luxo raro em outras partes do mundo. Mesmo no Brasil, no século 18, os moradores do Rio de Janeiro, então capital do país, tinham de percorrer longos caminhos para buscar água nos rios e fontes. Em Roma, já no ano 312 a.C., era inaugurado o primeiro aqueduto, o Aqua Appia, que levava água de fontes naturais de colinas próximas até a cidade. A vida religiosa também era importante em Roma, e os imperadores não hesitavam em mandar erguer templos. O mais famoso deles era o Panteão, com suas colunas de 43 metros de altura e o piso de mármore colorido. Inaugurado no ano 118 pelo imperador Adriano, o edifício sobreviveu aos ataques dos bárbaros e aos estragos do tempo. Os governantes também não pensaram duas vezes em fazer estradas pavimentadas por onde passavam as tropas. A primeira delas, aberta em 310 a.C., foi a Via Appia, onde até hoje estão as marcas das bigas romanas. Era por lá que as legiões entravam na cidade depois de uma batalha vitoriosa. Como a Via Appia, outros testemunhos da Roma antiga, como o Coliseu, as termas de Caracala, o Panteão e partes do Fórum, todos ainda de pé, ajudam a contar uma história que, quase 2 mil anos depois, ainda é fascinante.
Carla Aranha.