segunda-feira, 4 de março de 2013

O ILUMINISMO E AS TRANSFORMAÇÕES DO PENSAMENTO OCIDENTAL

O Iluminismo foi um movimento intelectual que ocorreu na Europa durante o século XVIII. Os intelectuais que participaram desse movimento acreditavam que sua época precisava ser iluminada pela luz da razão, ou seja, a natureza e a sociedade deveriam ser compreendidas por meio da racionalidade. As ideias iluministas tiveram grande repercussão e influenciaram movimentos sociais por todo o mundo, como também contribuíram para a consolidação dos valores da burguesia, classe social ascendente ao poder econômico e politico do século XVIII.
A Revolução Cientifica do Século XVII – A Base do Pensamento Iluminista
Francis Bacon
Empirismo
Método que determina a necessidade da experiência para comprovar uma teoria.
Rene Descartes
Método cartesiano
A verdade é constantemente recriada pela dúvida; criador dos princípios do racionalismo lógico e matemático.
Isaac Newton
Mecanicismo (mecânica newtoniana)
Sistema de pensamento que visualiza a natureza como um grande aparelho mecânico que pode ser compreendido a partir de estudos menores.
                Durante o século XVII uma nova forma de pensar havia começado a se difundir, delineando uma visão de mundo que dava grande valor a ciência e a razão. Criticando a mentalidade da época dominada pelo obscurantismo religioso, alguns pensadores iniciaram uma verdadeira revolução, fundamentado as bases teóricas do Iluminismo.
                A Revolução Cientifica do século XVII estabeleceu os parâmetros do método cientifico moderno, por meio do qual os cientistas puderam aplicar os princípios universais da ciência, as chamadas “leis da ciência”. O método cientifico moderno consiste na dúvida, que levará o cientista a postular uma ideia; a partir dessa ideia se desenvolve uma hipótese, por meio do raciocínio; a hipótese então deve ser testada por meio de experimentos, isto é pela reprodução prática do fenômeno que se quer demonstrar; se os resultados dos experimentos não entrarem em conflito com a hipótese, esta pode ser convertida em uma teoria, que é a comprovação cientifica do fenômeno testado.
  A Revolução Cientifica do século XVII, ao fundamentar o método cientifico moderno, estabeleceu um meio racional para analisar e compreender os fenômenos naturais. Essa nova visão de mundo estimulou o espirito crítico, favorecendo o surgimento das ideias iluministas.  Os pensadores do iluminismo passaram a aprimorar esses métodos e aplica-los em suas análises a respeito da sociedade em que viviam. Ao criticarem as instituições vigentes em sua época, organizadas sob os princípios do Antigo Regime, os iluministas contribuíram para a desestruturação gradual desse regime e a consolidação dos valores de uma sociedade.
Os Iluministas e suas Ideias
                Entre os séculos XVI e XVIII, o Absolutismo foi a forma de governo dominante na maioria dos Estados modernos da Europa, que se caracterizava pela centralização de poderes na figura do rei. As práticas absolutistas foram duramente criticadas pelos pensadores iluministas, que contestavam o autoritarismo e a ideia da origem divina do poder do rei, além de condenarem os privilégios da nobreza e do clero.
                Para os iluministas a maior preocupação não era com a forma de governo (monarquia ou república), mas com a maneira de controlar o poder excessivo dos governantes. Grande parte desses pensadores apoiava um governo  constitucional, ou seja, um governo que respeitasse uma Constituição, pois acreditavam que essa seria a melhor forma de evitar abusos de poder.
              Muito das ideias iluministas foram influenciados pelas teorias de John Locke, filosofo inglês que viveu entre os anos de 1632 e 1704. Na sua obra “Ensaio sobre o governo civil” (1690), Locke defendia que o homem tem direitos naturais, entre eles o direito à vida, à liberdade e à propriedade. Com isso, a função do governante seria a de garantir esses direitos à população. O poder de governar deveria depender do consentimento da maioria. Por isso, ele foi totalmente contrário ao Absolutismo. Locke era a favor de um governo constitucional, em que a autoridade do Estado estivesse submetida às leis. Caso um governante não assegurasse os direitos naturais, seria legitimo o povo rebelar-se e tirá-lo do poder.
                Outro grande crítico do Absolutismo foi Montesquieu. Segundo ele, este tipo de regime politico era corrupto e violento, comprometia a sociedade e trazia estagnação, temor e pobreza para a população. Para libertar a sociedade do despotismo e criar um bom governo seria necessário separar o poder em três campos de atuação: executivo, legislativo e judiciário. Os três poderes não poderiam ser exercidos por uma única pessoa, pois, dessa maneira, a liberdade politica estava ameaçada. Para evitar o abuso do poder, Montesquieu defendia uma forma de governo mais equilibrada, na qual um poder seria fiscal do outro; estava criada a teoria dos três poderes.
                Um dos mais populares iluministas foi o suíço Jean Jacques Rousseau (1712-1778). Autor de várias obras tem em “Do Contrato Social”, uma de suas mais importantes, onde defendia a ideia de que para os cidadãos garantissem sua liberdade em uma sociedade civil, deveriam colocar em segundo plano seus direitos individuais em relação à comunidade, em que os bens são coletivos e os interesses são comuns. Assim, os cidadãos teriam melhores condições de manter sua liberdade e combater a corrupção. Rousseau acreditava que todo poder emanava do povo e somente seria legítimo se fosse exercido em seu nome. Rousseau é considerado o “pai” da democracia moderna.
                Além do regime absolutista outro alvo dos iluministas era a Igreja. Esses pensadores criticavam a superstição, o fanatismo e a intolerância religiosa, pois acreditavam que esses eram os principais obstáculos à construção de um mundo melhor e mais racional. Outra critica feita pelos iluministas dizia respeito à liberdade de pensamento e de opinião. Por muito tempo, os dogmas religiosos foram os únicos princípios autorizados pela Igreja, e as ideias que os contestavam eram duramente reprimidas. Os iluministas pregavam a liberdade de pensamento e tinham como objetivo formar uma sociedade esclarecida, sendo necessário para isso romper com o poder do clero, com os dogmas e com o fanatismo religioso. Nesse sentido, Voltaire foi um dos maiores críticos dos dogmas religiosos. Para ele, a religião era culpada pelos males da sociedade. Acreditava que a razão deveria substituir a superstição. Além disso, condenava a intolerância que motivava as guerras e, consequentemente causava mortes e destruição. Apesar dessas criticas, Voltaire e os demais iluministas acreditavam em uma força divina, razão pela qual eram denominados deístas. No entanto, para os deístas, a divindade era um ser onisciente, que mesmo se manifestando em todos os elementos da natureza, não interferia na vida humana.
A Burguesia e o Iluminismo
                A burguesia europeia do século XVIII, influenciada pelo Iluminismo, intensificou suas criticas aos governantes absolutistas. As práticas econômicas promovidas pela maioria dos Estados europeus, fundamentadas no mercantilismo, criavam entraves para o enriquecimento dos burgueses. Além disso, a organização sociopolítica do Antigo Regime dificultava a participação da burguesia nas relações de poder, que eram dominadas pela nobreza. Buscando o apoio das camadas populares, os burgueses promoveram a ideia de que o principal objetivo das lutas populares era a conquista do direito a liberdade individual. Para a manutenção da liberdade e do individualismo, defendiam a livre concorrência econômica e o consentimento politico. Com isso, a burguesia estabelecia os fundamentos do liberalismo, um novo modo de pensar que se difundiu pela Europa a partir do século XVIII.
                No aspecto político, os burgueses criticavam a coerção estatal e a arbitrariedade dos governantes. Para garantir a liberdade e a justiça, os burgueses defendiam o livre consentimento politico, afirmando que a população deveria escolher seus governantes pelo voto e fiscalizar a atuação do governo. A ideia de livre consentimento politico foi concebida por John Locke. Ele era um defensor radical da propriedade privada, instituição fundamental para facilitar o enriquecimento da burguesia. De acordo com Locke, os indivíduos que, por meio do trabalho, alteram a natureza, passam a deter o direito de posse sobre os bens que criam. Com isso, a função das propriedades particulares dos capitalistas burgueses foi defendida como produtora de bens para serem comercializados. Além disso, o valor do trabalho humano passou a ser enaltecido.
No aspecto econômico, os burgueses criticavam o caráter intervencionista dos Estados mercantilistas, que buscavam manter a balança comercial favorável por meio do controle rígido sobre a produção e o comércio de mercadorias. Em vez da intervenção estatal, a burguesia propunha a livre concorrência, argumentando que as pessoas deveriam ser livres para comprar e vender os produtos que quisessem. De acordo com esse ideal, o mercado livre não dependeria do Estado para garantir a eficiência de seu funcionamento. Por isso, o protecionismo mercantilista deveria ser substituído pela não intervenção do Estado na economia.
                Os principais fundamentos teóricos do chamado liberalismo econômico foram desenvolvidos pelo filosofo escocês Adam Smith (1723-1790). Em sua obra “Uma investigação da natureza e das causas das riquezas das nações”, ele defende o ideal de liberdade econômica, afirmando que o mercado livre se autorregularia pela lei de oferta e procura, que seria um mecanismo eficiente para o controle dos preços dos produtos. Smith intensificou as criticas ao principio mercantilista do metalismo, afirmando que a verdadeira riqueza de uma nação não está na quantidade de metais preciosos que ela possui armazenados em seus cofres, mas sim na quantidade de bens manufaturados que os capitalistas dessa nação produzem e exportam, trocando-os por dinheiro que possa ser reinvestido na produção. Com esta ideia de que o trabalho é a principal fonte de riqueza, Smith conquistou o apoio da burguesia. Ele também criticou o sistema tributário dos governos absolutistas, propondo a elaboração de um sistema mais racional, que cobrasse os impostos de acordo com as posses de cada cidadão.


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