terça-feira, 19 de março de 2013

HISTÓRIA DO URUGUAI

Depois de ter seu território disputado por argentinos e brasileiros, o Uruguai consolidou-se como estado independente ao longo de períodos alternados de prosperidade e instabilidade social e política.
O Uruguai é o menor país na América do Sul depois do Suriname, com superfície de 176.215km2. Situado no sudeste do continente, limita-se de norte a leste com o Brasil, a sudeste com o oceano Atlântico, ao sul com o estuário do rio da Prata e a oeste com a Argentina. O termo Oriental deve-se à localização do país em relação ao rio Uruguai, ao qual deve seu nome e cujo curso forma integralmente a fronteira com a Argentina.
Antes da chegada dos europeus, uma pequena população indígena, estimada entre cinco mil e dez mil habitantes, ocupava o território do atual Uruguai. Os principais grupos eram os dos índios charruas e chanás, seminômades.
As primeiras explorações européias foram realizadas em 1516, pelo espanhol Juan Díaz de Solís. A ausência de riquezas minerais e de índios sedentários que pudessem ser escravizados gerou desinteresse pelo território. Em 1603 o governador do Paraguai, Hernando Arias de Saavedra enviou para o território uma centena de cabeças de bovinos e eqüinos que, livres nas pradarias, multiplicaram-se prodigiosamente em poucos anos. No final do século XVII já era comum que gauchos (mestiços de índios e espanhóis) de Buenos Aires cruzassem o estuário do Prata para caçar o gado livre, sem se fixarem na região. Mais tarde, comerciantes portenhos estabeleceram-se ao sul do rio da Prata.
Já se iniciara então o trabalho de evangelização dos índios charruas, que opunham feroz resistência à penetração européia. Os franciscanos fundaram a redução de Santo Domingo de Soriano e os jesuítas, embora expostos aos contínuos ataques dos bandeirantes paulistas, realizaram intensa catequese.
Desde a segunda metade do século XVII o expansionismo português no Brasil cobiçava a margem oriental do rio da Prata, como meio de facilitar o contrabando de metais preciosos do Peru. Em 1680 o governador do Rio de Janeiro, D. Manuel Lobo, fundou a Nova Colônia do Santíssimo Sacramento (atual cidade de Colonia), exatamente em frente a Buenos Aires. Para impedir a penetração portuguesa, o governador de Buenos Aires fundou a cidade fortificada de San Felipe de Montevideo em 1726 e atacou Sacramento, finalmente cedida à Espanha em 1777. No mesmo ano, a Banda Oriental foi anexada ao recém-criado vice-reino do Prata, com capital em Buenos Aires.
À exceção de Montevidéu e algumas pequenas localidades costeiras, o país continuava praticamente despovoado. Os charruas constituíam ainda grande perigo e, no final do século XVIII, fora das povoações só havia poucos gauchos no interior e os escravos de algumas plantações.
O processo de independência. Em 21 de setembro de 1808, após a ocupação da península ibérica pelos franceses, formou-se em Montevidéu uma junta que pediu a destituição de Santiago de Liniers, vice-rei de Buenos Aires, tido como favorável à França. Outra junta, formada mais tarde em Buenos Aires, logo mostrou tendência separatista. Montevidéu transformou-se então em bastião espanhol e para lá foi transferida a capital do vice-reino.
No interior da Banda Oriental, José Gervasio Artigas lutou contra os espanhóis, com o apoio de camponeses, líderes anti-monarquistas de Montevidéu e um exército de Buenos Aires. Após conquistar Montevidéu, sua intenção de formar uma confederação que rivalizasse com Buenos Aires impediu novas alianças e fez com que, em 1820, os portugueses invadissem a Banda Oriental e enviassem o líder uruguaio ao exílio. No ano seguinte, Portugal incorporou a Banda Oriental ao Brasil, sob o nome de Província Cisplatina.
Em 1824, exilados uruguaios em Buenos Aires retomaram o movimento pela independência. Chefiado por Juan Antonio Lavalleja, os "trinta e três orientais" cruzaram o rio no ano seguinte e deram início à rebelião antibrasileira. A batalha de Ituzaingó, em fevereiro de 1827, decidiu a situação em favor deles. Os britânicos, interessados na criação de um estado-tampão entre a Argentina e o Brasil, promoveram a mediação do conflito, do que resultou o Tratado do Rio de Janeiro, de 27 de agosto de 1828, pelo qual tanto o Brasil como a Argentina renunciavam às pretensões ao território uruguaio e reconheciam sua independência. Havia ainda poucos assentamentos permanentes. A criação de gado solto, embora seriamente reduzida por vinte anos de guerra e depredações, dominava o território.
Polarização entre blancos e colorados. Promulgada a constituição, em julho de 1830, os primeiros presidentes foram os generais José Fructuoso Rivera e Manuel Oribe, ambos lugar-tenentes de Artigas. Daí a alguns anos rebentou a guerra civil entre os seguidores de um e de outro. Seus partidos -- respectivamente o Colorado (Vermelho), baseado em Montevidéu, e o Blanco, que controlava o interior -- deram origem às duas grandes facções que, em pleno século XX, dominariam ainda a política uruguaia. Oribe foi alijado da presidência em 1838 e, apoiado pela Argentina, sitiou Montevidéu em 1843. Os colorados receberam o auxílio da França, Inglaterra e Brasil.
A guerra terminou em 1851, sem a vitória inequívoca de nenhuma das partes. A imigração dirigira-se à Argentina e a região parou de se desenvolver. O interior fora devastado, o governo arruinado e o desaparecimento do Uruguai enquanto país independente parecia iminente.
A intelectualidade uruguaia pretendeu eliminar os partidos que levaram o país a tal extremo mas, após a longa guerra civil, os cidadãos encontravam-se acirradamente polarizados em blancos e colorados. Em 1865, Venancio Flores sucedeu a Rivera e obteve o apoio da Argentina e do Brasil, em troca da participação do Uruguai na guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Em 1870, os militares tomaram o poder.
Modernização da sociedade. Brutalidade, dissensão interna e corrupção minaram o prestígio do regime militar e reconduziram os colorados ao poder em 1890. No entanto, a temporária pacificação do interior durante a ditadura permitira o desenvolvimento econômico. A imigração foi incentivada, mas as contínuas disputas entre colorados e blancos emperravam o desenvolvimento social.
Em 1903 foi eleito o líder colorado José Batlle y Ordóñez que, logo ao assumir o governo, enfrentou por oito meses uma sangrenta revolta dos blancos. A morte em combate do líder blanco Aparicio Saravia pôs fim ao conflito e, em 1905, os colorados ganharam as primeiras eleições não fraudadas para o legislativo em trinta anos.
Batlle tornou-se herói nacional e modernizou a sociedade uruguaia. Durante seus dois mandatos (1903-1907 e 1911-1915) foi decretado o fim da pena de morte, aprovado o divórcio e garantidos os direitos dos filhos ilegítimos. O estado interveio na economia e conseguiu reduzir a importância do capital estrangeiro e a dependência das exportações. Temeroso de que suas reformas sociais fossem revertidas por um próximo presidente, Batlle realizou uma reforma constitucional que extinguiu o presidencialismo em favor de um colegiado que exerceria o poder executivo. Em sua forma original, a proposta foi derrotada em 1916, mas transformou-se numa divisão do executivo entre o presidente e um Conselho Nacional de Administração, que vigorou a partir de 1919.
Batlle permaneceu como a maior figura política do Uruguai até sua morte, em 1929. A estagnação do crescimento econômico foi mascarada, no final da década, pelo alto valor das exportações. A tensa situação política, agravada pela morte de Batlle e pela depressão econômica da década de 1930, levou o presidente Gabriel Terra a abolir o Conselho Nacional e governar como ditador a partir de 1933.
Prosperidade econômica. A grande elevação do preço da carne no mercado externo durante a segunda guerra mundial -- da qual o Uruguai participou simbolicamente ao lado dos aliados -- trouxe a primeira onda significativa de prosperidade à economia do país. O padrão de vida do povo uruguaio tornou-se um dos mais elevados do continente e os partidos democráticos se fortaleceram. No final da década de 1940, novo superávit proveniente das exportações permitiu a compra das ferrovias inglesas implantadas no país, a formação de empresas estatais e o subsídio à agricultura.
A constituição de 1951 estabeleceu o sistema colegiado de governo. Nesse período, o Uruguai apresentava a maior renda per capita da América Latina e poderia gabar-se de um regime altamente democrático. Durante o governo do general Juan Domingo Perón na Argentina, acolheu grande número de exilados do país vizinho, embora as atividades anti-peronistas dos refugiados provocassem tensão nas  relações entre os dois países.
Estagnação e crise. O fim da guerra da Coréia fez baixar o preço da lã no mercado internacional e a economia uruguaia entrou num período de estagnação econômica. O elevado padrão de vida dos uruguaios tornou-se insustentável, mas os políticos tentaram atender as expectativas do eleitorado por meio de desvalorizações do peso e empréstimos. A inflação superou 60%, os serviços públicos faliram, indústrias foram fechadas e houve grande aumento da emigração.
As eleições de 1958 levaram ao poder, pela primeira vez em 13 anos, o Partido Blanco, que fracassou ao tentar conter a inflação. Um segundo período de governo dos blancos, entre 1963 e 1966, não conseguiu interromper a estagnação econômica e social. Nesse período foi fundado o Movimento de Libertação Nacional, organização esquerdista de guerrilha urbana que teve em Raúl Sendic seu principal líder. Seus membros autodenominaram-se tupamaros em memória de Tupac Amaru, descendente do último governante inca que, dois séculos antes, rebelara-se contra o domínio espanhol.
Em 1966, o país retomou o presidencialismo. Tornaram-se freqüentes as manifestações e protestos, e a violência com que o governo reprimiu estudantes e operários aumentou ainda mais a tensão. Atuando de início de forma idealista e romântica -- assaltavam bancos e estabelecimentos comerciais, distribuindo dinheiro e bens entre os pobres --, os tupamaros tornaram-se, a partir de 1968, francamente terroristas, responsáveis por seqüestros e assassinatos de líderes políticos, militares e policiais. Impotente para contê-los com a ajuda da polícia, o governo pediu a intervenção dos militares que, em 1973, tomaram o poder.
Regime militar. O governo de Juan María Bordaberry (1973-1976) agiu com ferocidade sem precedentes na história do país. Matou cerca de 300 tupamaros e aprisionou três mil outros, o que deu ao Uruguai a mais alta percentagem de habitantes presos por motivos políticos em todo o mundo. Torturas, assassinatos e desaparecimentos motivaram protestos de organizações em defesa dos direitos humanos.
O governo militar atraiu o capital estrangeiro, abriu estradas e realizou obras públicas e, em 1980, promoveu um plebiscito. Apesar da censura à imprensa e da severa restrição à oposição, as urnas rejeitaram o militarismo. Seguiu-se a esse fracasso a queda do peso e, relutantemente, os militares aceitaram a realização de eleições.
Redemocratização. Em março de 1985, tomou posse o presidente colorado Julio María Sanguinetti. No ano seguinte, apesar do descontentamento da população, o Parlamento aprovou uma lei que anistiava os militares acusados de violação dos direitos humanos durante o regime militar. A abertura política libertou também a maior parte dos tupamaros, entre os quais Sendic, que formaram um partido legalizado.
Em novembro de 1989 as eleições presidenciais deram a vitória ao candidato do Partido Blanco, Luis Alberto Lacalle. Sua política econômica, que incluiu privatizações, corte de gastos públicos e arrocho salarial foi, em 1992, rejeitada por mais de 70% do eleitorado. A instabilidade das alianças políticas levou o governo ao isolamento e dificultou a execução das propostas. Em 1994, o Partido Colorado, liderado por Sanguinetti, ganhou as eleições parlamentares e presidenciais por pequena margem.
Fonte: Enciclopédia Barsa.


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