sexta-feira, 3 de maio de 2013

Fidel e a revolução: 45 anos depois

Em 1959, Castro chegou ao poder em Cuba. De lá para cá - do fim da Guerra Fria ao colapso do bloco soviético, da globalização ao 11 de setembro - tudo mudou. E a tudo el comandante tem resistido
Diz-se em Cuba que as grandes mudanças têm data certa para ocorrer: 1º de janeiro. Foi nesse dia, em 1899 que a bandeira da Espanha desceu dos mastros do país, e, após um longo movimento de independência, subiu aos céus caribenhos o símbolo dos novos donos da ilha: a bandeira listrada dos Estados Unidos. Os revolucionários cubanos já expulsavam praticamente os espanhóis quando 15 mil soldados americanos desembarcaram em Cuba e só saíram de lá três anos depois, quando incluíram na Constituição do novo país um artigo inusitado: a chamada Emenda Platt, que permitia que os americanos entrassem e saíssem como e quando quisessem da ilha – o que fizeram de forma direta e indireta durante 60 anos, até outro 1º de janeiro.
No Ano-Novo de 1959, Fidel Castro, comandante de um exército rebelde com pouco mais de 900 homens, liderou um levante popular em Havana, a capital do país. Depois de dois anos na selva, ele e seu grupo de maltrapilhos e barbudos – no qual estavam seu irmão Raúl, Che Guevara e Camilo Cienfuegos – derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista, que governava com o apoio do governo e empresas americanos. As relações entre as duas nações eram antigas e intensas e a presença de americanos era tão comum na ilha, que está a apenas 144 quilômetros da Flórida, que na década de 50 a expectativa era que Cuba se tornaria, a qualquer momento, o 52º estado americano. Além da cláusula na Constituição, os Estados Unidos guiavam a política cubana por meio das empresas que controlavam a produção de frutas e cana-de-açúcar – o principal produto da ilha – no interior do país. Em Havana, turistas americanos passavam os dias ensolarados entre a praia e os barcos de pesca e, as noites, em bordéis e cassinos.
Durante os anos da guerrilha em Sierra Maestra, o clima ficou tenso entre os velhos amigos. Em plena Guerra Fria, a preocupação dos Estados Unidos era impedir o avanço do socialismo e, por isso, os diplomatas americanos em Havana receberam a incumbência de investigar o movimento rebelde. “O parecer da embaixada poderia ter determinado uma intervenção militar. Mas, na época, as tendências comunistas de Castro não estavam claras e a invasão foi descartada”, diz o historiador americano Wayne Smith, autor de The Closest of Enemies (O Mais Próximo dos Inimigos, inédito no Brasil). Smith trabalhava na embaixada em Havana, na época.
Durante os primeiros meses do novo regime, a diplomacia americana preferiu acreditar que Fidel seria apenas mais um ditador latino-americano com o qual teria de negociar. No entanto, no fim de 1959 e em 1960, as medidas adotadas pelo governo de Castro indicaram que a ilha começava a assumir um perfil político semelhante ao soviético. “Ele iniciou uma extensa reforma agrária, nacionalizou fazendas, usinas de açúcar, indústrias e propriedades urbanas, medidas quase inacreditáveis, dentro da área de influência direta dos Estados Unidos”, diz a historiadora Claudia Furiati, autora de Fidel, uma Biografia Consentida.
A primeira retaliação americana foi a determinação, em 1960, de um bloqueio econômico à ilha – quem quisesse continuar comprando e vendendo para os Estados Unidos deveriam interromper qualquer relação comercial com Cuba. A ameaça está de pé até hoje. A segunda ação foi orquestrada pelo Serviço de Inteligência Americano, a CIA, em abril de 1961. No dia 15, aviões de guerra bombardearam os arredores de Havana. No dia seguinte, Fidel fez um de seus longos discursos em que, pela primeira vez, declarou a natureza socialista da revolução cubana (coisa que relutara em fazer), numa clara tentativa de atrair a simpatia (e a proteção) soviética. Naquela manhã, Cuba tornou-se o primeiro – e único – país socialista do continente. À noite, cerca de 1,4 mil homens, entre mercenários e voluntários recrutados entre os dissidentes cubanos que viviam em Miami, desembarcam em Playa Girón, na Baía dos Porcos. Depois de 72 horas de combates, os contra-revolucionários foram derrotados e o Exército cubano fez 1197 prisioneiros, entre eles diversos feridos, além de causar mais de 200 baixas aos invasores. Após oito meses, os presos foram trocados com os Estados Unidos por alimentos e remédios avaliados em 54 milhões de dólares.
O episódio foi a gota d’água para convencer Fidel que para manter a ilha segura seria inevitável um acordo com os soviéticos. A aproximação incluiu contratos econômicos que romperam o bloqueio: em troca de açúcar, Cuba passou a receber petróleo russo. Em troca, a União Soviética penetrava no coração da América, jogando no lixo o tratado de Yalta de 1945, que havia definido as áreas de influência das grandes potências após a Segunda Guerra. Cercados na Europa, onde os americanos mantinham bases na Alemanha, Itália e Turquia, e na Ásia, (pelas bases americanas no Japão, na Coréia do Sul e no Irã), os soviéticos viram uma oportunidade de igualar as condições de tensão da Guerra Fria. No ponto alto desse combate velado, o primeiro ministro russo Nikita Krushov propôs a Fidel instalar ogivas nucleares em território cubano. De junho a agosto de 1962, a potência socialista enviou secretamente a Cuba, 44,5 mil soldados, combustível e equipamento necessário para a construção de uma base de lançamentos. Os mísseis totalizavam 42 ogivas instaladas em foguetes de médio alcance. As obras estavam prestes a ser concluídas quando em uma checagem de rotina, aviões de espionagem americanos descobriram o aparato cubano-soviético. O presidente John Kennedy mandou que navios de guerra cercassem Cuba e exigiu a retirada dos armamentos de lá. A chamada crise de outubro, ou Crise dos Mísseis, colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear. Fidel, animado pela promessa de proteção dada pelos soviéticos, parecia pronto para a briga e afirmou que a hegemonia do “tubarão ianque na América chegara ao fim”. Ao mesmo tempo, mobilizou suas tropas e preparou-se para resistir. “Fidel acreditou no acordo com Krushov e estava pronto para a guerra”, diz Newton Duarte Molon, historiador da Universidade de São Paulo. Porém, na véspera do conflito, Kennedy e Krushov firmaram um acordo de paz sem consultar o líder cubano. Os russos retiram os mísseis em troca da garantia que Kennedy não invadiria a ilha.
Os cubanos sentiram-se abandonados, mais isolados do que nunca. E as relações com os soviéticos esfriaram. Fidel apostou, então, no que chamou de internacionalização da revolução. Cuba passou a financiar guerrilhas na América Latina, na África e na Ásia e passou a fornecer treinamento militar para qualquer um que estivesse disposto a derrubar um governo que julgasse simpático aos americanos, como o Brasil, o México e a Argentina, para ficar em exemplos do continente. Durante quase 30 anos, tropas cubanas apoiaram movimentos guerrilheiros em países como Nicarágua, El Salvador, Honduras, Panamá, Bolívia, Cabo Verde, Guiné Bissau, Congo, Argélia, Namíbia, Angola, Iêmen e Vietnã.
Em 1966, Che Guevara, o maior embaixador dos ideais internacionalistas de Cuba, tornou-se um dos responsáveis em levar a revolução para países da América do Sul. “Em contrapartida, os Estados Unidos lançaram o Plano Mann, que apoiava governos e movimentos anti-socialistas”, afirma Newton. “O medo de uma nova Cuba fez com que os Estados Unidos apoiassem ditaduras na Argentina, no Brasil e no Chile.”
A bronca dos cubanos com os russos, porém, não resistiu à saída de Kruschov e a reaproximação ocorreu em 1972, quando Fidel e o líder soviético Leonid Brezhnev assinaram novos acordos de cooperação. Segundo Claudia Furiati, entre produtos e créditos, a União Soviética gastava, na década de 70, 1milhão de dólares diários para manter viva a vitrine do socialismo na América. Havia dinheiro para investir em educação (que, em Cuba, inclui os esportes) e saúde. A produção de livros ultrapassou 30 milhões de exemplares por ano. E ainda sobrou algum para promover a dança, as artes plásticas e a música.
A partir de 1980, com a eleição de Ronald Reagan, os Estados Unidos voltaram a pressionar Cuba por meio da opinião pública internacional, afirmando que ninguém podia sair da ilha e que todos os cidadãos cubanos eram prisioneiros. A reação de Fidel foi liberar a concessão de vistos e, em seguida, abrir o porto de Mariel, cancelando todas as restrições para a imigração. Criou-se uma ponte Mariel-Miami, por onde passaram 125 mil pessoas.
Em 1984, a economia cubana dava mostras de que não funcionava mesmo com o apoio soviético. Cuba devia a mais de 100 bancos internacionais, na maioria empréstimos de curto prazo. O governo Reagan interveio para impedir a renegociação das dívidas, deixando a ilha sem crédito. Para completar a asfixia, em março de 1985, Mikhail Gorbachov chegou ao poder na União Soviética. Suas políticas de perestroika (abertura) e a glasnost (transparência) previam a convivência pacífica com os Estados Unidos e a redução do apoio ao socialismo internacional. A queda do muro de Berlim em 1989 anunciou o colapso do bloco socialista. Em pouco tempo, Cuba perdeu 75% das importações e mais de 95% do mercado externo para seus produtos. A vida na ilha tornou-se extremamente difícil.
Sem saída, em 1993, Fidel decretou o chamado Período Especial, ou “revolução dolarizada”. Cuba abriu-se ao turismo e o uso da moeda americana foi permitido, quando não incentivado. Permitiu-se que os dissidentes cubanos da Flórida enviassem dinheiro a parentes em Cuba, o que passou a ser uma das principais molas da economia local. Aqueles que não tinham formação universitária foram autorizados a criar pequenos comércios e a cobrar em dólar. A pirâmide social enlouqueceu e mestres e doutores, que só podiam receber em peso (a moeda cubana), ganhavam menos que camelôs a prostitutas. “Fidel errou ao não preparar o país para uma independência financeira. Em vez de apoiar revoluções na África, deveria ter criado um parque industrial que gerasse empregos para a mão-de-obra especializada do país”, diz Dina Lida, responsável pelas relações internacionais do Partido Popular Socialista (PPS). Entre 1995 e 1997, quando todos esperavam a falência do Estado cubano, contratos com empresas de 40 países (incluindo a brasileira Petrobras) resultaram no ingresso de mais de 1,5 bilhão de dólares no país.
Além da difícil situação econômica interna, a pressão internacional não refresca a vida dos cubanos. Quando as torres do World Trade Center caíram em 11 de setembro de 2001, o presidente americano, George W. Bush, se esforçou para incluir Cuba na lista de países que apoiavam o terrorismo. A resposta de Fidel, condenando os atentados e oferecendo ajuda aos Estados Unidos, arrefeceu a estratégia americana. No ano seguinte, o governo Bush voltou ao ataque, acusando Cuba de ser produtora e distribuidora de armas químicas e biológicas. Em abril passado, o país foi condenado em uma votação nas Nações Unidas, numa denúncia apresentada por Honduras, por não respeitar os direitos humanos. “Em maio, o Congresso americano começou a discutir uma proposta do Executivo, que sugere os caminhos para uma transição – pacífica ou não – nas relações com Cuba. Ele decidirá o papel que o governo adotará ainda este ano”, diz William Leo Grande, professor de política internacional da Universidade Americana, na Virgínia, Estados Unidos. Para Wayne Smith, no entanto, quem espera alguma mudança drástica irá frustrar-se. “A manutenção do bloqueio e da pressão sobre Cuba podem ser políticas ultrapassadas, mas o Congresso está disposto a mantê-las até o fim.”
Mas que fim será esse? Depois de 45 anos de revolução e passados 15 do fim do bloco socialista, Fidel permanece à frente de Cuba, invicto após tentativas de assassinato (leia quadro na pág. 29), crises econômicas, da pobreza de seu povo e das acusações de despotismo. Para os que o apóiam, ele é o último defensor de ideais libertários e sociais. Para Claudia Furiati, a persistência da revolução cubana em 2004 “é um sinal de que é possível buscar um projeto próprio de desenvolvimento, com todas as suas dificuldades, seus equívocos e acertos”. Para os críticos, ele é um líder antiquado, isolado no poder, que se sustenta graças a um passado quase mítico, que alguns insistem em acreditar. “Resistir aos americanos tem sido a única bandeira de Cuba, pois Fidel não construiu um modelo novo de sociedade, que se possa seguir ou admirar”, diz Rafael de Falco, empresário brasileiro e ex-ativista político que morou exilado em Cuba de 1973 a 1979. Fidel já afirmou, repetidas vezes, que será absolvido pela história. Mas o julgamento já começou.
Dois anos em Sierra Maestra
Incansável e com ótima pontaria, Fidel foi um guerrilheiro e tanto
A primeira tentativa que Fidel fez de derrubar a ditadura de Batista teve um fim trágico. Dos 175 homens que o seguiram, em 26 de julho de 1953, ao ataque do Quartel de Moncada (sede do governo), poucos sobreviveram. Fidel foi preso e depois exilado no México. Lá, ele reorganizou seu grupo, recebeu adesões (incluindo a de Che Guevara) e treinou tiro e técnicas de guerrilha. Seu plano: voltar a Cuba. Na madrugada de 25 de novembro de 1956, Fidel cruzou o Golfo do México num barco chamado Granma, levando 85 homens, armas e munição. Para encobrir o desembarque, aliados de Fidel fazem manifestações em partes isoladas de Cuba. Próximo ao Cabo Cruz, no sudeste da ilha, o Granma encalhou. Ao descer, atolaram até os joelhos na lama e, quando chegaram em terra, foram recebidos pelas forças de Batista.
Entre 8 e 16 de dezembro, muitos membros da guerrilha acabaram presos e mortos. Com o Exército em seus calcanhares, Fidel fugiu para uma região montanhosa na floresta: a Sierra Maestra. Apenas 12 homens sobreviveram. E 17 de janeiro, ocorreu a primeira vitória dos rebeldes, em La Plata, onde capturaram armas e alimentos dos soldados do governo. A lei da guerrilha era mobilidade e proteção: golpear e embrenhar-se. Durante dois anos, essa foi a estratégia. Outra, era conseguir o apoio dos camponeses. Os guerrilheiros receberam dinheiro e armas de simpatizantes e, no começo de 1958, o grupo já era composto por mais de 200 combatentes. Em abril, Fidel estabeleceu o comando revolucionário em La Plata. Construiu casas e estabeleceu uma pequena república. São 280 rebeldes armados. O dia mais crítico dos combates foi 19 de junho, quando batalhões do Exército com mais de 600 homens cercaram La Plata, entre 28 e 30 de junho, Fidel venceu, apossou-se de armas, munição e um rádio – com o qual passou a transmitir seus discursos contra o governo e os imperialistas americanos. Em julho, as tropas de Batista atacaram em peso os rebeldes, entre os dias 11 e 21, na batalha de Jigue. Os rebeldes cercaram um dos batalhões de Batista e os deixaram sem alimentos. Quase são rechaçados pelos aviões bombardeiros, mas mantêm a posição e seguram o batalhão, que se entregou no dia 21. No fim de 1958, os rebeldes assaltaram um carregamento de armas pesadas, como metralhadoras, bazucas e granadas e tomaram Santa Clara, o coração da ilha, onde se cruzam as principais estradas de ferro e rodovias. Dali, não havia retorno. Com 900 homens atuando em quatro frentes, os rebeldes conquistam Havana.
Era 1º de janeiro de 1959.
"Meu colete é minha moral"
Fidel teria resistido a 638 tentativas de assassinato
A contra-inteligência cubana, o serviço secreto que se dedica, entre outras coisas, a proteger a vida de Fidel Castro, calculou em 638 as tentativas de assassinato ao seu líder, até 2002. Sem contar, é claro, as inúmeras situações de perigo que viveu durante a guerrilha. Os próprios responsáveis pela proteção do revolucionário afirmam que é a sorte quem salva Fidel. As ameaças contra sua vida começaram em 13 de janeiro de 1960, quando Allen Dulles, diretor da CIA, apresentou um plano de ação contra os líderes da revolução cubana ao Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Na primeira fase, os planos visavam desmoralizar Fidel – o que incluiu até um spray com um composto químico parecido com o LSD, para que o comandante “alterasse sua conduta em público”. A CIA atuava por conta própria nessa questão, e muitas vezes imaginava planos cheios de discrição, impossíveis de serem notados. Ao saber de todos os passos de Fidel, em 1962, a CIA enviou a Cuba pastilhas com veneno. De mão em mão, as cápsulas chegaram até um barman do Hotel Havana Livre, muito freqüentado por Fidel. Quase um ano se passou sem que coincidisse uma visita de Fidel com o turno do barman. Quando isso finalmente ocorreu, as pastilhas estavam grudadas no congelador do bar. Ao tentar desgrudá-las, o barman Santos de La Caridad as quebrou e o veneno escorreu pelo freezer. Menos curioso e muito mais trágica foi a tentativa em 1976.
Ao saber de uma viagem de Fidel a Angola, um grupo chamado Condor mandou pelos ares um avião da Cubana, linha aérea de Cuba, em 6 de outubro. Morreram 73 pessoas, a maioria esportistas. A informação de que Fidel estaria no vôo era falsa. A explicação para tanta sorte foi o próprio Fidel quem deu, aos jornalistas americanos, em sua visita aos Estados Unidos em 1960. Indagado se mantinha algum esquema especial de segurança ou se andava com colete à prova de balas, Castro, sempre um grande frasista, disse: “Meu colete é minha moral”.
Hasta la vista, Fidel!
O que será de Cuba depois que ele deixar o poder?
A pergunta foi feita pela primeira vez por Simone de Beauvoir, em 1960, quando a escritora francesa visitou Cuba. Há 45 anos no poder, a vida de Castro confunde-se com os rumos de seu país. Muitos imaginaram que o fim dessa relação era certo, quando o bloco soviético se esfacelou e Cuba se tornou uma ilha à deriva no cenário internacional: sem matéria-prima, sem divisas, sem indústrias de ponta e sem crédito. Tanto Fidel como a economia cubana sobreviveram, graças aos dólares dos turistas e das remessas dos dissidentes cubanos nos Estados Unidos. Num sistema que nem de longe garante a estabilidade econômica da ilha.
Em Cuba, o regime político é parlamentarista. A explicação oficial para a longa permanência de Fidel no poder é a de que ele é reeleito presidente do Conselho de Estado, instância máxima do Parlamento de quatro em quatro anos. Outra justificativa, essa menos oficial, é que Cuba ainda vive uma revolução. Por isso, Fidel ainda anda de farda e quepe e não permite outro partido na ilha, sem ser o instituído pelo Estado – o Partido Comunista Cubano (PCC). Assim, ele simplesmente escolhe continuar no poder, para evitar o fim da revolução. Mas ninguém é obrigado a ser comunista para participar das assembléias, para votar ou para dar palpite na esquina. A continuar o atual modelo, a sucessão de Castro se dará dentro do partido. “Não acredite que mude muita coisa com a ausência de Fidel”, diz Alberto Granado, membro histórico do Partido Comunista Cubano, famoso por ter feito com Ernesto Guevara a mítica viagem de moto pela América do Sul, nos anos 50. Segundo ele, que mora em Cuba desde 1960 e atuou em diversos setores do governo, “o futuro de Cuba já começou e os jovens políticos já estão nos cargos principais que dirigem o país.”
“Cuba sem Fidel será uma nação sem seu grande líder, mas creio que o socialismo na ilha continua sem ele”, diz a historiadora Claudia Furiati. Para ela, é possível até apontar prováveis sucessores. “Duas pessoas podem assumir o poder: Carlos Lage, que hoje em dia é quase um primeiro-ministro, e o chanceler Felipe Pérez Roque.” Para Dámian Fernandez, professor do Centro de Estudos Cubanos da Universidade Internacional da Flórida, no entanto, a saída de Fidel pode ser o primeiro passo para uma política de distensão entre Estados Unidos e Cuba. “Se o socialismo vai continuar, essa será uma decisão dos cubanos, mas é claro que a saída de Fidel irá aumentar a pressão de seus opositores”, diz Fernandez. Nos Estados Unidos, sobretudo na Flórida, onde é mais influente a comunidade cubana, não há a menor dúvida. “Será o fim do socialismo em Cuba”, afirma Orlando Murado, diretor da Fundação Nacional Cubano-Americana, sediada em Miami. Para Fernandez, um cenário pós-Fidel, continuará dependendo muito mais da continuação do embargo americano a Cuba que do fim do socialismo. “Se o bloqueio acabar, novas empresas podem fixar-se em Cuba, o que reaqueceria a economia com oferta de empregos e serviços”, diz. Além disso, é claro que se a comunidade internacional passar a comprar um pouco de açúcar da ilha, como fazia no fim do século 18, a economia cubana não iria reclamar.
Alessandro Meiguins | 01/06/2004


Nenhum comentário:

Postar um comentário