sexta-feira, 24 de maio de 2013

NOSTRADAMUS: O HOMEM QUE ENCHERGAVA O FUTURO

Faz 500 anos que ele nasceu. Suas predições - certas ou erradas - foram ouvidas por nobres e rainhas e ainda são lidas e interpretadas. Saiba como e por que ele se tornou...
No sótão da casa de Michel de Nostradamus passaram-se mais de 2 mil anos de história da humanidade. Era lá que todas as noites, sentado numa cadeira de bronze, ele consultava os astros. Ao seu redor tinha espelhos, varinhas e uma tigela cheia de água que lhe servia de oráculo. Sempre sozinho, com um bastão nas mãos, ele via uma espécie de chama surgir das águas e de repente o futuro aparecia como presente diante dos olhos. Nostradamus então desandava a escrever aquilo que estava enxergando. Foi assim que redigiu mais de mil profecias que sugeriam a morte de reis, a destruição de cidades, o nascimento de tiranos e o fim da vida em 3797. Nenhum outro vidente conseguiu tanta fama, foi tão respeitado em vida e estudado após a morte. Mas também ninguém gerou tanta polêmica sobre a veracidade de seu legado.
Nostradamus conseguiu tudo isso com apenas 15 anos de trabalho. Uma carreira meteórica. Apesar de flertar com a astrologia desde o final da adolescência, ele passou a maior parte da vida como médico, formado pela Universidade de Montpellier, no sul da França. Conseguiu o diploma mesmo contrariando seus mestres com os tratamentos que receitava. Em vez de sangrias, ele interpretava a posição dos astros e recomendava água limpa, ar puro e comprimidos à base de flores. Ao final do curso, passou a vagar pela França oferecendo seus serviços. Onde quer que estourasse uma epidemia, lá ia o doutor com seus métodos de cura baseados em conceitos inovadores como higiene e isolamento dos doentes.
Ser um bom médico trazia dinheiro, mas também dor de cabeça. Estamos no início do século 16, numa França ainda sensível aos poderes da Inquisição. Naquela época, salvar vidas era sinal de conhecimento médico, mas poderia ser visto como indício de pacto com o demônio. Para piorar, Nostradamus era descendente de judeus convertidos ao catolicismo.
Peregrinando em busca de trabalho, passou por Toulouse, Bordeaux, Avignon, Provence. Em Agen, casou-se por volta de 1534 e teve dois filhos. Mas a mulher e as crianças morreram vítimas da peste bubônica. Irada com a incapacidade do genro de tratar a própria esposa, a família da moça processou Nostradamus e exigiu que ele devolvesse o dote.
Entre as provas contra o réu, estava o depoimento de um artesão para quem o médico teria dito que uma escultura da Virgem tinha a “moldagem dos demônios”. O bafafá foi tão grande que ele foi chamado ao tribunal da Inquisição. Já sentindo o calor da fogueira, Nostradamus deu no pé. Sem clientes após o escândalo, retomou a vida de errante. Só parou em 1547, quando se casou com uma rica viúva e se estabeleceu na pequena Salon-en-Provence.
A certidão matrimonial ainda pode ser encontrada no cartório da cidade. A casa onde viveram continua intacta, na Place de la Poissonnerie.
De médico a profeta
Muito antes de Paulo Coelho se tornar o autor favorito dos franceses, Nostradamus e seus textos místicos já causavam alvoroço no país. Três anos depois, o médico publicou seu primeiro Almanac. Além de falar sobre o clima e a agricultura, o livro trazia 12 poemas de quatro linhas. Cada um continha uma profecia para um mês do ano. Foi um sucesso.
Estava começada a carreira de popstar de Nostradamus. Nos anos seguintes, ele continuou publicando o Almanac e trocou definitivamente as consultas médicas pelas astrológicas. Surgiram lendas sobre um certo doutor curandeiro que enxergava o futuro. Uma delas dizia que certa vez, na Itália, ele se ajoelhou aos pés de um andarilho e chamou-o de “Sua Santidade”. Quarenta anos mais tarde, o andarilho teria se tornado o papa Sisto V. Como se vê, a partir dessa época a pesquisa histórica começa a ser prejudicada pelo mito em torno do personagem. Os relatos se tornam fantásticos e de difícil comprovação. Para alguns intérpretes, no entanto, existe preconceito dos historiadores em relação a uma figura mística. “Copérnico e Nostradamus viveram na mesma época e a quantidade de material sobre eles é parecida. Para provar algo sobre Copérnico, a maioria dos especialistas aceita uma ou duas fontes históricas.
Mas para falar de um astrólogo, apresentamos cinco, seis relatos e ainda existe resistência”, afirma o americano John Hogue, que prepara o lançamento de seu sétimo livro sobre Nostradamus.
Não são apenas os historiadores que torcem o nariz para o vidente. Ele também era desprezado por seus vizinhos em Salon, a maioria camponeses religiosos. Mas quem, vivendo na França em pleno século 16, precisava do apoio do povo se estava cercado de mimos pela nobreza? Nostradamus fazia horóscopos para ricos que vinham de Paris e atendia gente cada vez mais influente. Logo resolveu dar início a sua empreitada mais ousada: escrever o futuro da humanidade em um livro de dez volumes. Batizado de Centúrias, cada fascículo da obra traria 100 quadras, num total de mil profecias. Em 1555, uma editora de Lyon lançou as três primeiras centúrias e 53 quadras da centúria IV. Dois anos mais tarde foram concluídas a centúria IV, a V, a VI e parte da VII. Rapidamente as profecias chegaram às mãos da rainha Catarina de Médici, uma católica fervorosa que adorava se consultar com magos e astrólogos. Uma quadra em especial, a de número 35 na primeira centúria, chamou atenção da monarca.
O conteúdo era bastante semelhante ao que ela teria ouvido de um vidente italiano, Luc Gauric, e fazia referência à morte de seu marido, o rei Henrique II. “O jovem leão triunfará sobre o mais velho / No campo de combate na única batalha / Perfurará os olhos através da jaula dourada / Dois ferimentos em um, depois uma morte cruel.”
A quadra é um bom exemplo da sutileza das profecias. O texto é pouco claro e só pode ser compreendido a partir de metáforas. Como a maior parte do trabalho de Nostradamus, não há menção direta a nomes ou datas. Catarina mandou buscar o autor do texto em Salon e, no dia 15 de agosto de 1556, ouviu da boca dele a interpretação da quadra. Para nós restou apenas a explicação dos especialistas no assunto. E todos concordam que Nostradamus fazia referência a um combate de lanças, que ocorreria em 1559, entre o rei (o leão mais velho) e Gabriel de Lorges, conde de Montgomery (o leão jovem). Durante o enfrentamento, a lança do nobre atingiu o elmo do rei (a jaula dourada), entrou pelo olho direito de Henrique II e saiu pela orelha. Catarina ficou viúva. O episódio aumentou a pressão da Inquisição sobre Nostradamus, mas também seu acesso à corte francesa. Catarina chamou-o novamente, dessa vez para saber do futuro de seus filhos.
A influência chamou a atenção do embaixador espanhol, que escreveu uma carta ao rei Felipe II dizendo que “seria melhor punir (Nostradamus) que permitir a venda de profecias que conduzem a crenças vãs e supersticiosas”. Mas os franceses não estavam sozinhos. Na mesma época, na Inglaterra, John Dee virou estrela na corte da rainha Elizabeth I após prever que sua irmã e rival, a rainha Mary, teria um casamento infeliz e sem filhos. E o próprio Felipe II gostava tanto das visões de Teresa de Ávila que ela foi canonizada apenas 50 anos após sua morte.
Debilitado por crises de gota e artrite, Nostradamus se isolou em Salon, onde recebeu a própria Catarina e seu filho Carlos IX, então rei da França, em 1565. Morreu em 1566, aos 63 anos, vítima de problemas coronários. Deixou redigida uma quadra em que previa o próprio destino. “Parentes próximos o acharão, irmãos de sangue / Morto perto da cama e do assento”, dizia a profecia. Assim foi feito. Numa manhã, o vidente foi encontrado sem vida pela família exatamente no local que ele descrevera.
Mas a morte não diminuiu sua fama. Ao contrário, impulsionou as lendas em torno de seu nome. Na primeira edição das Centúrias, Nostradamus escreveu uma carta ao filho César em que explica boa parte do seu trabalho. Até hoje, ela é uma das principais referências para entender sua obra. É lá que ele cita o ano de 3797 como data limite para as profecias. O vidente explica que a linguagem complexa usada nas quadras é uma forma de esconder seu conteúdo e assim enganar a Inquisição. O texto também traz um erro: numa rara referência a datas, o francês escreveu que 177 anos, 3 meses e 11 dias a partir da publicação viriam “a peste, um longo período de guerras e fome e depois a humanidade diminuirá e os homens serão tão poucos que serão insuficientes para ocupar os campos.” Em 22 de junho de 1732, alvo da profecia, a Europa vivia uma fase de prosperidade e paz.
A previsão furada parece não ter arranhado a reputação do profeta. Mesmo porque, quando o ano de 1732 chegou, a idéia de que Nostradamus havia sido o mais importante vidente da história já estava consolidada. E, num fenômeno comum ainda hoje, a morte só ajudou a aumentar sua popularidade. A obra do astrólogo começou a ser reeditada, compilada e até completada a partir de 1568. O principal responsável por isso foi o francês Jean Aimé de Chavigny, que pode ter sido uma espécie de secretário de Nostradamus, apesar de a exata relação entre os dois nunca ter ficado clara. Com a ajuda de César de Nostradamus, Chavigny foi o primeiro intérprete das centúrias e é possível que boa parte do material disponível hoje tenha sido relatado por ele. Os livros da edição de 1555 não sobreviveram ao tempo.
O sumiço dos originais é um problemão. Não há dúvidas de que eles realmente foram escritos, mas a mania dos especialistas de inserir interpretações ao traduzir e analisar as quadras coloca em xeque a autenticidade dos textos. Teophilus de Garencières, por exemplo, autor da primeira versão para o inglês, em 1672, usou uma edição falsa em que duas quadras haviam sido inseridas com o objetivo de atacar o cardeal francês Jules Mazarin. Além de não perceber o erro, Garencières ainda escreveu que um período de guerra estava relacionado ao religioso.
Entender as profecias sem a ajuda dos intérpretes, porém, é impossível. Sozinho, é preciso ser quase tão vidente quanto Nostradamus para decifrar as Centúrias. John Hogue lista as dificuldades impostas pelo astrólogo: os anagramas, nomes antigos, tomar a parte para falar do todo, as metáforas e a ausência de ordem cronológica. Hitler, por exemplo, é Hister, ou o homem da cruz distorcida – uma possível menção à suástica. Outro problema é que intérpretes fazem análises distintas das mesmas profecias. James Randi, que ficou famoso por oferecer 1 milhão de dólares para quem provasse um evento paranormal, escreveu um livro para desmascarar Nostradamus.
Ele encontrou quatro análises diferentes para a quadra I.57 (“Por uma grande discórdia a tromba tremerá / Acordo rompido ergue a cabeça ao céu / A boca sangrando nadará em sangue / Ao solo a face de leite e mel”). As interpretações incluíam um terremoto, a morte de Luís XVI, o ataque a Pearl Harbour e a ascensão de Hitler. “Ele ficou famoso porque escrevia muito, mais que qualquer outro. E, como as quadras não têm sentido, podem ser aplicadas a qualquer evento”, afirma Randi.
Por “qualquer evento” entenda algo catastrófico. As mais famosas previsões estão sempre relacionadas a revoluções, mortes ou guerras. Falou-se até na hecatombe do planeta, que viria na época do eclipse de 1999 (“Será precedido por um eclipse do Sol / Mais escuro e tenebroso / Que já ocorreu desde a criação do mundo / Exceto o da morte e paixão de Cristo”). A análise foi revista pela maioria dos intérpretes quando a Terra continuou intacta. Mas basta pegar edições da década de 80 para perceber que na época autores consagrados como Jean-Charles de Fontbrune, que vendeu mais de 1 milhão de cópias do livro Nostradamus Historiador e Profeta, e o próprio Hogue afirmavam que o mundo sofreria um enorme desastre em 1999.
Talvez sabendo disso, algum engraçadinho resolveu aproveitar os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, para comprovar que as profecias de Nostradamus estavam corretas. Logo após os ataques, uma quadra grosseiramente falsa circulou pela internet alertando para o conflito. “Na Cidade de Deus acontecerá um grande trovão / Dois irmãos separados pelo Caos / A fortaleza seguirá, o grande líder sucumbe / A terceira grande guerra começará enquanto a grande cidade está queimando.” Graças à falsa profecia, em 16 de setembro os livros sobre o vidente ocupavam a primeira, a quarta, a quinta, a 11ª, a 12ª e a 25ª colocações na lista de mais vendidos da livraria virtual Amazon.com. De Catarina de Médici ao World Trade Center passaram-se quase cinco séculos. Mas a reputação de Nostradamus, o maior vidente da história, ficou intacta.
Sérgio Gwercman | 01/11/2003
 
 

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