sexta-feira, 28 de junho de 2013

POLÍTICA DO PÃO E CIRCO

A política do Pão e circo (panem et circenses, no original em Latim) como ficou conhecida, era o modo com o qual os líderes romanos lidavam com a população em geral, para mantê-la fiel à ordem estabelecida e conquistar o seu apoio. Esta frase tem origem na Sátira X do humorista e poeta romano Juvenal (vivo por volta do ano 100 d.C.) e no seu contexto original, criticava a falta de informação do povo romano, que não tinha qualquer interesse em assuntos políticos, e só se preocupava com o alimento e o divertimento.
 Com a sua gradual expansão, o Império Romano tornou-se um estado rico, cosmopolita, e sua capital, Roma, tornou-se o centro de praticamente todos os acontecimentos sociais, políticos e culturais na época de seu auge. Isso fez naturalmente com que a cidade se expandisse, com gente vindo das mais diferentes regiões em busca de uma vida melhor. Como acontece até hoje em qualquer parte do mundo, pessoas humildes e de poucas condições financeiras iam se acotovelando nas periferias de Roma, em habitações com conforto mínimo, espaço reduzido, de pouco ou nenhum saneamento básico, e que eram exploradas em empregos de muito trabalho braçal e pouco retorno financeiro.
 Esses ingredientes, em qualquer sociedade são perfeitos para detonarem revoltas sociais de grandes dimensões. Para evitar isso, os imperadores optaram por uma solução paliativa, que envolvia a distribuição de cereais, e a promoção de vários eventos para entreter e distrair o povo dos problemas mais sérios na fundação da sociedade romana.
 Assim, nos tempos de crise, em especial no tempo do Império, as autoridades acalmavam o povo com a a construção de enormes arenas, nas quais realizavam-se sangrentos espetáculos envolvendo gladiadores, animais ferozes, corridas de bigas, quadrigas, acrobacias, bandas, espetáculos com palhaços, artistas de teatro e corridas de cavalo. Outro costume dos imperadores era a distribuição de cereais mensalmente no Pórtico de Minucius. Basicamente, estes "presentes" ao povo romano garantia que a plebe não morresse de fome e tampouco de aborrecimento. A vantagem de tal prática era que, ao mesmo tempo em que a população ficava contente e apaziguada, a popularidade do imperador entre os mais humildes ficava consolidada.
 Para os espetáculos eram reservados aproximadamente 182 dias no ano (para cada dia útil havia um ou dois dias de feriado). Os espetáculos que foram se desenvolvendo em cada uma dessas férias romanas, tinham sua origem na religião. Os romanos nunca deixavam de cumprir as solenidades, porém não mais as compreendiam e os festejos foram deixando de ter um caráter sagrado e passando a saciar somente os prazeres de quem os assistia.
Emerson Santiago 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

NOVA AMSTERDÃ

Nova Amsterdã  (Nieuw Amsterdam, em holandês) era o nome dado à capital da colônia da Nova Holanda, estabelecida na região do vale do rio Hudson de 1609 até 1664, e que é o núcleo original da atual cidade de Nova Iorque.
 Na verdade, este centro fundado pelos holandeses era, como em outras partes do globo dominadas por estes, mais um entreposto comercial do que um centro populacional efetivo. Em outras palavras, a razão da existência de Nova Amsterdã era estabelecer comércio com as populações locais, comprando e vendendo produtos a partir de uma feitoria, fortemente protegida por uma paliçada. Ao contrário do que se costuma imaginar, este centro era um empreendimento da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (WIC, na sigla original em holandês), e não uma colônia pertencente ao estado ou à coroa holandesa, como acontecia no caso de outros impérios coloniais europeus.
 Em curto espaço de tempo, os empresários holandeses estabelecidos em Nova Holanda ergueram uma série de feitorias, vilas e fortes aquém e além do rio Hudson, lançando as bases para cidades que ainda existem hoje nos EUA. Forte Orange, o mais setentrional dos postos avançados holandeses, hoje é conhecida como Albany. Wiltwyck é conhecida hoje como Kingston. Ao contrário de Nova Iorque e Albany, onde os traços da colonização holandesa podem ser difíceis de encontrar, a história da colonização holandesa é bastante evidente em Kingston.
 Como centro de comércio, a diversidade imperava na área. Cerca de 40 línguas eram faladas, inclusive o português, pois agentes comerciais de toda a Europa representavam os interesses de grandes capitalistas naquela colônia holandesa. Esperava-se que seus habitantes explorassem economicamente a região onde estavam instalados de modo a dar lucro aos seus investidores.
 Infelizmente, para aqueles dedicados à colonização e exploração da área, a colônia não rendia tanto quanto outros entrepostos, como ocorria por exemplo com a ilha de Java (atualmente parte da Indonésia, no sudeste asiático), onde os holandeses se estabeleceram quase ao mesmo tempo, mas de onde retiravam lucros astronômicos. O problema com Nova Amsterdã era que, além da cultura dos povos nativos, que não priorizava o comércio, nem a conquista de lucro, o clima não favorecia a maior parte dos gêneros de valor consumidos na Europa à época, e mesmo a caça não rendia produtos de destaque. Assim, a colônia dificilmente se mantinha como investimento rentável. Prova disso foi que, quando os britânicos resolveram ocupar a área, como parte de um projeto de colonização de povoamento (diferente do sistema holandês), a WIC logo aceitou receber em troca o atual Suriname, onde poderiam ser cultivados gêneros de maior lucro.
 Assim, Nova Amsterdã é rebatizada de Nova Iorque e passa a ter uma função diferente dentro do sistema britânico, mas conservando seu aspecto cosmopolita, marca da cidade até hoje.
Emerson Santiago.

terça-feira, 25 de junho de 2013

O MURO DE BERLIM

As Primeiras Pedras
 Na manhã bem cedo do dia 13 de agosto de 1961, a população de Berlim, próxima à linha que separava a cidade em duas partes, foi despertada por barulhos estranhos, exagerados. Ao abrirem suas janelas, depararam-se com um inusitado movimento nas ruas a sua frente. Vários Vopos, os milicianos da RDA (República Democrática da Alemanha), a Alemanha comunista, com seus uniformes verde-ruço, acompanhados por patrulhas armadas, estendiam de um poste a outro um interminável arame farpado que alongou-se, nos meses seguintes, por 37 quilômetros adentro da zona residencial da cidade. Enquanto isso, atrás deles, trabalhadores desembarcavam dos caminhões descarregando tijolos, blocos de concreto e sacos de cimento. Ao tempo em que algum deles feriam o duro solo com picaretas e britadeiras, outros começavam a preparar a argamassa. Assim, do nada, começou a brotar um muro, o pavoroso Mauer, como o chamavam os alemães.
  Berlim divida em 4 setores  
 Berlim fora conquistada pelo Exército Vermelho em maio de 1945. De comum acordo, acertado pelo tratado de Yalta e confirmado pelo de Potsdam, entre 1944-45, não importando quem colocasse a bota ou a lagarta do tanque por primeiro na capital do III Reich, comprometia-se a dividi-la com os demais aliados. Desta maneira, apesar dos soviéticos tomarem antes a cidade, e também um expressivo território ao seu redor, tiveram que ceder o lado ocidental dela para os três outros membros da Grande Aliança, vitoriosa em 1945. Assim Berlim viu-se administrada, a partir de 8 de maio de 1945, em quatro setores: o russo, majoritário, o americano, o inglês e o francês. Com o azedar da relação entre os vencedores, em 1948 as quatro zonas reduziram-se a duas: a soviética e a ocidental. Em seguida, Stalin decidiu-se por um bloqueio total contra a cidade em represália ao Plano Marshall, que visava promover o reerguimento econômico da Europa destroçada pela guerra. Todas as estradas de rodagem e de ferro que ligavam Berlim com a Alemanha Ocidental foram então fechadas pelos soviéticos, na tentativa de fazer com que os aliados ocidentais desistissem da sua parte na cidade. Ou saíam ou os berlinenses morreriam de fome e frio.
 A resposta norte-americana foi lançar mão de uma ponte aérea, a Berlin Airlift, que durou onze meses, de 25 de junho a 12 de maio de 1949, transportando milhares de toneladas de alimentos para manter os berlineses alimentados e aquecidos. O general Tunner aproveitou a ocasião, através da Operation Vittles, Operação Alimentos, para dar um verdadeiro show aéreo de eficiência: as toneladas diárias desembarcadas nos três aeroportos de Berlim saltaram de 5,4 toneladas ao dia para 7,8, sendo que em 16 de abril de 1949 ele fez com que, durante 24 horas ininterruptas, 1.398 vôos descarregassem 13 mil toneladas de carvão de uma vez só. Nos dois primeiros meses de operação, 100 mil toneladas haviam sido despejadas. Em vista disso, a ação soviética mostrou-se totalmente inoperante, obrigando Stalin a desistir por completo em 12 de maio de 1949. O toque de ironia quase surrealista daquela situação é que os mesmos aviões e as mesmas tripulações que três anos antes haviam bombardeado Berlim, agora mobilizavam-se para salvar seus habitantes de uma grande desgraça.
 Tudo feio, tudo cinza, uma grande prisão  
 Com a primeira linha de pedra se estendendo pela cidade, Krushev, então o chefe de Estado da URSS, mandava às favas a imagem do socialismo no restante do mundo. O paredão viera para ficar. Era uma monstruosidade arquitetônica que denunciava a estética kitsch, cinzenta, burra e tosca, do comunismo soviético, ao tempo em que expunha a absoluta insensibilidade das suas autoridades maiores. Quando ele ficou pronto, seu cinturão externo, envolvendo completamente a cidade, media 155 quilômetros, enquanto que o interno atingiu a 43 quilômetros: 37 deles na área residencial. Medindo em média 3,6 m, instalaram nele 302 torres de observação e 20 bunkers, de onde os soldados atiravam em quem se arriscasse a trespassá-lo. Ao longo de quase trinta anos, os Vopos mataram 192 pessoas e feriam outras 200 que tentaram fugir através dele, além de deterem outras 3.200 suspeitas de querer evadirem-se.
 Em retrospecto, o muro, além de ser um desastre ideológico, a encarnação do fracasso do socialismo real, resultou de um previsível processo de isolamento, seguido de enclausuramento dos alemães orientais, que já se arrastava desde 1952: ano em que a Zonengrenze, a fronteira entre as duas Alemanhas (a Federal, pró-ocidental, com sede em Bonn, e a comunista, pró-soviética, com sede em Berlim), foi definitivamente fechada. Dali em diante, os soviéticos só permitiram o trânsito de um lado para o outro por alguns locais selecionados da cidade de Berlim. Em seguida ao esmagamento do levante dos trabalhadores de Berlim oriental contra a ocupação russa, ocorrida em 17 de junho de 1953, foi exigida dos ocidentais um passe especial para poderem circular do lado oriental. Em 1957, o cerceamento dos westi, dos alemães orientais, ampliou-se com a adoção de severas punições, que chegavam a condenações de até três anos de cadeia para quem tentasse deixar a lado comunista sem permissão.
 Essa sucessão de restrições, que culminaram no erguimento do medonho paredão antifuga, é que alimentaram a impressão de que os alemães orientais, além de terem a desdita de terem sido governados, desde 1933 até 1953, por duas das mais atrozes tiranias do século - a de Hitler e a de Stalin -, experiência sem igual no século, continuavam a ser os únicos punidos pela derrota de 1945. Porém, Walter Ulbrich, o líder comunista da RDA, afiançou a construção dizendo-a necessária para proteger o seu estado proletário de uma possível "agressão fascista", mesmo sabendo que os fossos antiveículos, que se estenderam por 105,5 quilômetros ao redor da cidade, estavam dispostos a evitar a evasão do lado Leste e não o contrário. 
 O Objetivo do Muro
O objetivo era deter o constante fluxo de gente para o lado ocidental, migração que fizera com que, entre 1949 e 1961, bem mais de 2,6 milhões de alemães orientais escapassem para a República Federal. De certa forma, isto se explica não só pela diferença dos regimes, como também pelo fato de ter havido uma extraordinária recuperação econômica do lado ocidental: o Wirtschaftwunde, o milagre econômico dos anos 50/60. Afinal era naquela parte do país que os grandes complexos industrias do Ruhr, com suas minas, suas forjas, seu aço, e seus trabalhadores especializados, estavam. Desde que as potências ocidentais, devido a crescente guerra fria, decidiram em 1948 não mais punir a Alemanha, cessando a desmontagem e o translado das suas fábricas, removidas então a título de indenização de guerra, o lado ocidental galopou em direção à prosperidade.
 Chegam os turcos
Esta diferença também se via em Berlim. A classe operária da cidade historicamente habitava os bairros da zona Leste, enquanto que a indústria, especialmente as que foram instaladas nos anos cinqüenta, ficaram no Oeste. Quando o muro interrompeu o fluxo da mão-de-obra, os empresários ocidentais começaram a estimular a chegada dos trabalhadores turcos, que hoje, ocupando maioritariamente o bairro de Kreuzberg, somam mais de 200 mil.
 Uma Alemanha só de Pastores
 A outra parte, a oriental, não só estava ocupada pela URSS, que sangrara horrivelmente na luta contra o nazismo, como se viu espoliada das poucas instalações fabris que lá restaram depois da guerra. Apesar do repúdio geral à tese da pastorização da Alemanha, defendida certa vez por Hans Morgenthau, o conselheiro de F. D. Roosevelt - que pregava como a melhor política do após-guerra converter os alemães a mansos criadores de ovelhas e plantadores de repolhos -, foi do lado soviético onde isso foi de fato quase levado a efeito nos anos que se seguiram o pós-guerra. Pelo menos até 1961.
 A Política de Krushev
 O erguimento do longo muro, traçado cubista da guerra fria, que grosseiramente separou a zona soviética da zona aliada ocidental, também fazia parte de um conjunto de provocações assumidas por Nikita Krushev no seu enfrentamento com o jovem presidente John Kennedy - uma espécie de teste de nervos para medir o pulso da liderança norte-americana recém-empossada -, jogo que culminou, no ano seguinte, em outubro de 1962, na desastrada e perigosíssima crise dos mísseis em Cuba, que quase levou o mundo à Terceira Guerra Mundial.
 Quanto à sensação de viver-se assim encarcerado, por anos a fio, numa enorme cidade, tornada o maior campo de presos do mundo, nada melhor do que os versos de Uwe Kolbe, do seu Hineinberon de 1980, quando então ele ainda era um jovem poeta que, empinando-se do alto do muro, procurava olhar para bem distante, vendo no horizonte, ao longe, as terras exuberantes em meio à planícies com belas árvores vermelhas enquanto cabia a ele e os seus espremerem-se num reduzido torrão verde, com árvores negras em meio a paisagem de arame farpado, onde o vento era cruel, duro, só tendo os pássaros como amigos.
Voltaire Shilling.

OS PRIMEIROS POVOS DA AMÉRICA

Na opinião de muitos historiadores, o surgimento dos seres-humanos deu-se na África. Somente após muitos anos eles se deslocaram para outras regiões do planeta, até chegarem ao continente americano. Existem diversas opiniões sobre a maneira como estes povos chegaram na América, a mais aceita é de que teriam vindo do Norte da Ásia pelo Estreito de Bering, trecho que faz a separação entre Rússia e Estados Unidos (Alaska). Naquela época, o mar encontrava-se mais baixo devido à glaciação, isso fez com que uma passagem de gelo natural fosse formada entre os continentes americano e asiático e por ela os povos antigos passaram a chegaram à América.
 Por outro lado, existe a hipótese de que os primeiros povos da América teriam chegado no continente ao atravessar o oceano Pacífico. Eles teriam vindo da Ásia e da Oceania. Calcula-se que os primeiros homens a migrarem para a América teriam feito a travessia há cerca de 20 a 70 mil anos e que utilizaram diversos caminhos. Os homens que chegaram ao Brasil formaram agrupamentos de caçadores, coletores, tinham domínio do fogo e construíam instrumentos de pedra. Provavelmente estariam localizados no Piauí, mas não existem muitas fontes seguras quanto a isso.
 Peter Wilhelm Lund, naturalista dinamarquês, encontrou fósseis de 30 crianças e adultos da pré-história em Lagoa Santa, Minas Gerais. Segundo cálculos, estes fósseis teriam 12 mil anos. Até o ano de 1970 haviam sido encontrados aproximadamente 250 fósseis de seres humanos, o mais famoso foi um crânio batizado como “crânio de Luzia”, com data de aproximadamente 11 mil anos atrás. Estes descobrimentos em Lagoa Santa foram de suma importância para a compreensão do aparecimento do homem na América e rendem estudos até hoje.
 Pesquisando a morfologia do crânio de Luzia, Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências da USP, descobriu traços parecidos com os dos atuais aborígenes australianos e dos negros africanos. Com o apoio de outros pesquisador, o argentino Héctor Pucciarelli (Museo de Ciencias Naturales de la Universidad de La Plata), Neves elaborou uma teoria de que os povos que chegaram à América seriam de grupos distintos. Os primeiros chegaram há 14 mil anos e tinham a aparência de Luzia. Já os segundos teriam sido os mongolóides (11 mil anos atrás) e deles descenderam todas as tribos de índios da América.
 Apesar de todas as teorias, o mais provável é que as Américas tenham sido povoadas por homens de diferentes origens. Com o passar dos anos, eles formaram um mosaico com uma infinidade de povos e línguas.
Felipe Araújo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

HISTÓRIA DA GUIANA

O passado colonial da Guiana reflete-se tanto em sua população, composta sobretudo por descendentes de escravos negros e trabalhadores de origem indo-asiática, como em sua economia, dominada pelas plantações de cana-de-açúcar.
A Guiana, antiga Guiana Inglesa, está situada no nordeste da América do Sul. Limita-se ao norte com o oceano Atlântico, a oeste com a Venezuela, a sudoeste e sul com o Brasil, e a leste com o Suriname. Seu território, com uma superfície de 215.083km2, é praticamente desabitado, exceto numa estreita faixa litorânea. A Venezuela mantém uma reivindicação territorial sobre a região oeste do rio Essequibo, ou seja, sobre dois terços do território guianense.
O território da Guiana, povoado desde o século XIII por índios caribes e aruaques, foi explorado pelos espanhóis desde 1499. Entre os séculos XVI e XVIII, espanhóis, franceses, portugueses, holandeses e ingleses disputaram o controle do território. A partir de 1581, ano em que se estabeleceram em Demerara, os holandeses levaram vantagem, e a eles também se deve, em 1596, a fundação de Stabrook, a futura Georgetown.
A grande figura deste período foi o holandês Laurens Storm vans' Gravesande, que permitiu a livre imigração para todas as nacionalidades e manteve Essequibo à margem da revolta dos escravos de 1763. Em 1814, em conseqüência dos tratados de paz que puseram fim às guerras napoleônicas, o Reino Unido adquiriu, pela compra, as colônias holandesas de Demerara, Berbice e Essequibo, que se integraram em 1831 para formar a Guiana Inglesa. A abolição da escravatura em 1834 provocou a imigração de trabalhadores da Índia, China e África para a agricultura. Em 1860 teve início a colonização dos campos de Rupununi e, em 1879, o ouro foi descoberto: os dois acontecimentos aumentaram a imigração.
Em 1928 foi concedida à colônia uma autonomia limitada. A partir de 1953, quando se promulgou uma nova constituição que aumentava os direitos dos guianenses, a história do país foi tumultuada. O primeiro governo formado pelo Partido Progressista Popular (PPP), liderado por Cheddi Jagan, pareceu excessivamente pró-comunista ao governo britânico, que suspendeu a constituição recém-aprovada. Entre 1961 e 1964, ocorreram sérios distúrbios e uma greve geral que obrigou o exército inglês a intervir.

No dia 26 de maio de 1966, a Guiana conseguiu a independência e tornou-se membro da Comunidade Britânica de Nações. Forbes Burnham foi eleito primeiro-ministro e, em 1980, em conseqüência de uma nova constituição definida como socialista, chegou à presidência da república. Burnham morreu em 1985 e foi sucedido por Desmond Hoyte. Em 1992, elegeu-se Cheddi Jagan, líder do Partido Progressista Popular.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

A DESCOBERTA DA AUSTRÁLIA

A Descoberta da Austrália se deu em 1770 através do europeu James Cook.
 A Oceania  foi o último continente ocupado pelos europeus. Assim como acontece com o Brasil, é preciso tratar o termo “descobrimento” com cautela, pois nem Brasil nem Austrália eram terras completamente inabitadas antes da chegada dos europeus. O território que hoje conhecemos como Austrália foi ocupado desde cerca de 40 mil anos atrás pelos chamados aborígenes. A Oceania, assim como a América, contava já há muito tempo com a existência de suas civilizações locais, logo, não era uma terra virgem para o descobrimento.
 Por outro lado, há relatos e provas de passagem de vários povos pela Oceania e, especialmente, a Austrália. Entretanto considera-se como povo descobridor do local aquele que declarou a posse sobre as novas terras e promoveu a sua colonização. A mesma coisa aconteceu com o Brasil, há relatos de outros povos passando pelas terras brasileiras antes de Pedro Álvares Cabral, mas foi este que declarou a soberania sobre as terras do que hoje é o Brasil para o Império Português. Fazendo então o Brasil entrar para história como terra colonizada por Portugal.
 A Descoberta da Austrália aconteceu em meio à procura de mito comum na época. Acreditava-se que havia um continente ao Sul no qual estava a fonte do rio Nilo. Esta teoria foi postulada pelo geógrafo Ptolomeu que chamava o suposto continente de Terra Australis, o qual despertou grande obsessão e aguçou a imaginação dos navegadores. Todos acreditavam que as terras do sul eram ricas de ouro e especiarias.
 Vários foram os navegadores que se dedicaram a encontrar as terras do sul. Mas quem visitou mesmo à Austrália foram os portugueses, em 1522, e os holandeses, três anos depois. As visitas ocorreram ainda no século XVI, os caçadores das terras ao sul levaram três séculos ainda para voltar à Austrália. Foi então que em 21 de agosto de 1770, como representante da Grã-Bretanha, o capitão James Cook explorava o continente da Oceania e chegou ao território conhecido hoje como Austrália.
 A Descoberta da Austrália revelou que as novas terras não representavam o tão sonhado continente do Sul. James Cook chamou o local de Nova Gales do Sul e declarou a soberania inglesa sobre as terras. Mas sem encontrarem o que tanto buscavam, os ingleses deixaram de lado o território australiano. Após muito tempo apenas que os ingleses intensificaram suas atividades na Austrália. Em 1851, o ouro foi descoberto em grande quantidade por todo o território e atraiu gananciosos e curiosos. Em 1868, foram enviados cerca de 170 mil ingleses para as terras australianas. Entre eles estavam ladrões, trapaceiros e convictos que iriam cumprir suas penas.
Antonio Gasparetto Junior 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

POSÊINDON

As tempestades que, segundo Homero, Posêidon provocou para evitar que Odisseu, que o ofendera, retornasse à pátria, são um exemplo característico do temperamento irado que a mitologia grega atribuía a esse deus.
Posêidon (ou Posídon), deus grego dos mares, era filho de Cronos, deus do tempo, e Réia, deusa da fertilidade. Eram seus irmãos Zeus, o principal deus do panteão grego, e Hades, deus dos infernos. Quando os três irmãos depuseram o pai e partilharam entre si o mundo, coube a Posêidon o reino das águas. Seu palácio situava-se no fundo do mar Egeu e sua arma era o tridente, com que provocava maremotos, tremores de terra e fazia brotar água do solo. Pai de Pégaso, o cavalo alado gerado por Medusa, esteve sempre associado aos eqüinos e por isso se admite que tenha chegado à Grécia como deus dos antigos helenos, que também levaram à região os primeiros cavalos. O temperamento impetuoso de Posêidon, cuja esposa era Anfitrite, conduziu-o a numerosos amores. Como pai de Pélias e Nereu, gerados pela princesa Tiro, era o ancestral divino das casas reais de Tessália e Messênia. Seus outros filhos eram, na maioria, seres gigantescos e de natureza selvagem, como Órion, Anteu e o ciclope Polifemo.

Embora tenha perdido uma disputa com Atena pela soberania da Ática, foi também cultuado ali. Em sua honra celebravam-se os Jogos Ístmicos, constituídos de competições atléticas e torneios de música e poesia, realizados a cada dois anos no istmo de Corinto. Os artistas plásticos acentuaram a ligação de Posêidon com o mar e representaram-no como um homem forte, de barbas brancas, com um tridente na mão e acompanhado de golfinhos e outros animais marinhos. A mitologia romana identificou-o com o deus Netuno.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A CONQUISTA MUÇULMANA DA PENÍNSULA IBÉRICA

A Conquista Muçulmana da Península Ibérica selou o último reinado de um visigodo na Hispânia. Após a ocupação da península, os muçulmanos permaneceram na região por muitos séculos e foram influentes com sua cultura.
 No início do período que denominamos de Idade Média, a Península Ibérica era dominada por reinos visigodos. Estes representavam um dos povos que o Império Romano considerava como bárbaro. Nesse momento, ainda não haviam Estados Nacionais, ou seja, Portugal, Espanha e França ainda não existiam como países na península. Havia, na verdade, uma variedade de reinos independentes.
 Boa parte da Península Ibérica era ocupada pelos visigodos, que elegiam seus reis. No século VIII, o processo de sucessão do reinado visigótico gerou conflitos. Nessa ocasião, um grupo de descontentes com a sucessão do reino pediu ajuda militar a um governador muçulmano chamado Tárique. A partir de 711 iniciaram-se movimentações populacionais e militares lideradas por líder muçulmano. Estes vieram no norte da África e cruzaram o Mar Mediterrâneo, alcançando, por fim, a Península Ibérica.
 A Conquista Muçulmana da Península Ibérica ocorreu com a vitória sobre o rei visigodo Rodrigo, a qual determinou o fim do Reino Visigótico de Toledo. Os muçulmanos se estabeleceram então na península e, progressivamente, foram ampliando suas conquistas territoriais. Em consequência do domínio territorial e militar, veio também a influência cultural.
 A região da Península Ibérica se consolidou como uma região muito adepta ao cristianismo. A invasão dos mouros  fez misturar povos com culturas distintas, gerando uma sociedade muito heterogênea. Árabes, berberes, muçulmanos, moçárabes, cristão arabizados e judeus passaram a conviver na região. Dentre todos eles, os moçárabes eram maioria na população da Península Ibérica, desfrutavam de liberdade de culto e leis próprias. Entretanto deviam o pagamento de imposto pessoal de captação e imposto predial sobre o rendimento das terras. Os moçárabes eram os indivíduos que já habitavam a região e mantiveram a sua religião com a invasão dos mouros, mas adotaram as formas de relacionamento externo usadas pelos muçulmanos.
 Desde a invasão da Península Ibérica, os cristão da região tentaram expulsar os muçulmanos e restituir o domínio no local. Mas o processo de reconquista durou todo o período da Idade Média. O processo todo se dividiu em três fases. Na primeira os muçulmanos se estabeleceram na península e eram submetidos ao Califado de Damasco. Na segunda fase, o emirado islâmico tornou-se independente. E na terceira fase, os cristãos intensificaram o processo de reconquista, desestruturaram o emirado e novos reinos cristãos surgiram. Neste momento, surgiu na Península Ibérica o Estado de Portugal e os reinos de Castela, Leão, Navarra e Aragão, os quais viriam a se tornar o Estado da Espanha.
 Após oitocentos anos de tentativa de reconquista, o processo só foi se completar no início da chamada Idade Moderna quando os reis católicos, Fernando e Isabel, expulsaram definitivamente os muçulmanos e o Estado da Espanha foi unificado, em 1492.
Antonio Gasparetto Junior 

PATETA

Pateta (seu nome original era Dippy Dawg e é chamado em inglês de Goofy) é um cão da raça Bloodhound, e uma personagem de animação dos Estúdios Walt Disney, criado em 1932. Ele é um cão antropomórfico de físico magro, esguio, alto, e desengonçado, conhecido pelo público por seu jeito atrapalhado, engraçado, e bondoso e por seu chapéu singular. Seu nome seria um apelido, pois nos curtas dos anos 50 e 60 era chamado "George Geef" ou "G.G Geef". Fontes atuais como o desenho A Turma do Pateta dão seu nome como Goofy Goof.
 Pateta possui um filho, Max, e o alter-egos super-heróicos Superpateta (paródia do Superman) e Jaime Scond (paródia de James Bond).
O personagem foi criado em 1932, com o nome de Dippy Dawg, como co-representante na curta "Mickey´s Revue" dirigido por Wilfred Jackson, no papel de um integrante da platéia irritante por sua atitude imprópria e sua risada escandalosa. Porém, o que parecia ser apenas uma personagem mediana num papel insignficante acabou por levá-lo às graças de Walt Disney justamente por sua risada característica, desenvolvida junto a Pinto Colvig (roteirista e palhaço), com quem trabalharia até 1965. A partir de então, Pateta começa a participar de um número cada vez maior de trabalhos e, rapidamente, torna-se um dos melhores amigos de Mickey Mouse.
Já na década de 40, Pateta inicia seus trabalhos no estilo "Como fazer....", ensinando desde "Como Dormir" até "Como Esquiar", nesses trabalhos Pateta atrapalhadamente, mas sempre determinado, nos ensina, ou pelo menos tenta, a realizar as mais diversas tarefas. Com pouca fala e sempre com a ajuda de um narrador que interage com o personagem a quase todo momento, pode-se dizer que o ensino quase nunca corre normalmente. Nesses desenhos todas as personagens têm a fisionomia de Pateta. De 1940 a 1950 já haviam 48 desenhos do Pateta, além de aparecer em outros diversos junto a Mickey Mouse e Pato Donald. Além do Pateta Olímpico, a série "Como fazer..." inspirou várias séries de quadrinhos especiais do Pateta, como a produzida no exterior e conhecida no Brasil por "Pateta faz História", na qual ele sempre representa um personagem histórico: Cristóvão Colombo, Leonardo da Vinci, etc;
 Assim como Mickey e a Minnie e Pato Donald e Margarida, Pateta não tem nenhum par romântico.
Com grande popularidade, Pateta tem sido presença constante nos quadrinhos Disney no Brasil. Devido a popularidade dos seus desenhos em que ensina a praticar esportes e que sempre são exibidos na TV, ele foi escolhido pelos artistas brasileiros como o protagonista da primeira história Disney especial publicada pela Editora Abril (de mais de 30 páginas e na qual aparecem todos os personagens Disney de destaque, exceto os clássicos históricos) sobre as Olimpíadas. A história foi chamada de Pateta Olímpico (publicada em 1972, por ocasião das Olimpiadas de Munique). O Pateta Olímpico era o Pateta de sempre, que se entusiasma pela Olimpiada e resolve se inscrever como maratonista, numa competição de Patopolis patrocinada pelo jornal do Tio Patinhas. Ao vencer a prova, se classifica para a mesma competição nas Olimpíadas oficiais. Curiosamente, nos anos 90 seria lançado o Sports Goofe que lembra o Pateta Olímpico, mas produzido no exterior e como sendo um novo personagem, primo do Pateta.
 O Pateta chegou a ser agraciado com uma revista própria da Editora Abril nos anos 90. Foi um dos personagens em O Grande Livro Disney e astro principal do Manual dos Jogos Olímpicos.
Fonte:Wikipédia.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

CRIME CONTRA A HUMANIDADE

Durante as guerras entre países, conflitos entre milícias e grupos revoltosos e períodos ditatoriais, sempre surgem denúncias de crimes contra a humanidade cometidos pelas autoridades, militares, opositores e civis. O crime contra a humanidade consta no Direito Internacional e se refere a atos de desrespeito, perseguição, agressão e assassinato contra indivíduo ou grupo de indivíduos, abrangendo, por exemplo, casos de genocídio.
 Os casos de crime contra a humanidade são julgados por tribunais internacionais, que visam reparar os danos, reescrever os registros oficiais considerando os fatos verdadeiros, julgar e penalizar os culpados. Dentre os crimes contra a humanidade mais cruéis podemos citar:
•O Holocausto ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial (1939- 1945), que vitimou cerca de 6 milhões judeus, crime causado pela Alemanha Nazista;
•Holodomor, se refere a uma genocídio ucraniano praticado nos anos 1932 e 1933, matando 3 milhões de ucranianos. As mortes foram causadas pela extinta União Soviética;
•Crueldade na Bósnia, fato ocorrido entre 1992 e 1995, matando 200.000 bósnios, e 2 milhões de refugiados. As mortes foram de responsabilidade de milícias locais e exército sérvio.

Em 10 de maio de 2013, Efraín Ríos Montt, ex-ditador da Guatemala, foi condenado ao 86 anos, por acusações de genocídios e crimes contra a humanidade. Em seu governo foram praticados torturas, incêndios e assassinatos contra insurgentes no início dos anos 1980. Montt também tentou extinguir o grupo étnico ixil, matando cerca de 1.700 indígenas. A pena concedida a Montt foi de 80 anos de prisão.
 Em junho de 2013, o exército de Bashar al-Assad e milicianos defensores do regime do presidente sírio foram acusados de praticarem crimes contra a humanidade, os fatos foram descritos em inquérito levantado pela ONU (Organização das Nações Unidas) que também acusa grupos de revoltosos que lutam contra o governo de Bashar al-Assad.
 O governo sírio é acusado por manter ataques militares contra alvos civis e de acobertar violência sexual. Os milicianos opositores são acusados de praticarem execuções extra-judiciais e torturas mesmo com menor frequência.
 Em abril de 2013, Uhuru Kenyatta, político queniano, assumiu a presidência do Quênia, apesar de ser acusado pelo TPI (Tribunal Penal Internacional) por crimes contra humanidade praticados durante as eleições de seu antecessor. Mesmo acusado, assumiu a presidência com grande apoio popular. O Quênia é o primeiro país do mundo a eleger um candidato acusado pelo TPI. Uhuru Kenyatta é filho de Jomo Kenyatta, primeiro presidente da história do Quênia.
Fernando Rebouças.

JOGOS OLÍMPICOS DE LONDRES, 1908

Experiência e vulcão italiano levam Jogos à tradicional Londres, com apoio da família real
A Grã-Bretanha decidiu organizar os Jogos Olímpicos de 1908 apoiada na família real e na experiência que possuía pelos já 30 anos do torneio de tênis de Wimbledon, um dos mais tradicionais da história.
A organização era de fazer inveja até para competições disputadas no século 21. Para cada modalidade da Olimpíada londrina, chegaram a ser impressos e distribuídos manuais com regras em inglês, francês e alemão.
Tudo isso feito às pressas, já que, até 1906, a Itália ficaria com a sede. Naquele ano, a região de Nápoles foi castigada com a erupção do vulcão Vesúvio, e o governo italiano precisou utilizar os fundos reservados para os Jogos na reconstrução da cidade. Os ingleses deixaram Londres pronta para receber a Olimpíada em apenas dois anos.
Em dez meses, foi construído o estádio Sheperd's Bush (conhecido também como White City), com capacidade para 70 mil espectadores. Entre as instalações do complexo havia um velódromo de 660 metros, uma pista atlética de um terço de milha (536 metros) e uma piscina com comprimento de 100 metros.
Início das tradições olímpicas
Uma cidade aristocrática como Londres viu surgir diversas tradições que se mantêm até os dias de hoje no movimento olímpico. Uma delas imposta pela própria realeza. A maratona foi realizada em 42,195 km apenas para que o percurso permitisse que os netos do rei Eduardo 7° assistissem à prova.
Outra tradição do espírito olímpico foi pronunciada no estádio, durante a abertura dos Jogos, pelo Barão de Coubertin, que imortalizou a frase que tinha ouvido de um pastor protestante da Pensilvânia: "O importante não é ganhar, mas competir".
Pela grande duração, os Jogos de 1908 foram disputados em duas fases: Jogos de Verão (atletismo, natação, ciclismo e remo) e Jogos de Outono (patinação no gelo, boxe, futebol e rúgbi). Pela primeira vez uma Olimpíada teve o desfile das delegações na cerimônia de abertura, com as bandeiras dos países. Desde então, a delegação da Grécia sempre abre a cerimônia, seguida pelo país-sede e depois pelas demais, por ordem alfabética dos países, em inglês.
O início das competições ocorreu sob uma forte chuva. O mau tempo, aliás, durou quase toda a competição. Os anfitriões britânicos, com 144 medalhas conquistadas no total, venceram uma Olimpíada pela primeira e única vez na história.

O sucesso dos britânicos, no entanto, segundo os concorrentes, esteve atrelado à parcialidade dos árbitros, todos ingleses. Após o encerramento dos Jogos, a mudança foi imediata: o COI decidiu retirar o controle da arbitragem das mãos dos futuros organizadores, designando em seu lugar as federações internacionais de cada esporte.
Uol Olimpiadas.

terça-feira, 11 de junho de 2013

LUTERO

O mundo em reforma

 Quando os princípios essenciais de uma crença se encontram abalados pela própria fraqueza de seus principais representantes fica muito difícil sustentar essa doutrina. Durante a “longa noite” medieval (expressão questionada por muitos especialistas nesse período da história européia) a Igreja Católica utilizou-se de vários expedientes para manter-se poderosa e respeitada, mesmo que a duras penas, apesar dos desvios em relação à fé original que professava.
 Isso significou, na prática, a adoção de uma série de procedimentos que contrariavam frontalmente os mais elementares ditames cristãos, como os posicionamentos de Jesus em relação à misericórdia e sua defesa ardorosa da vida e da possibilidade de redenção dos pecados. Os tribunais do Santo Ofício da Inquisição executaram uma quantidade grandiosa de vítimas, muitas delas inocentes, simplesmente para garantir a obediência “virtuosa” a interesses escusos (pessoais ou materiais) de bispos e padres, paróquias e dioceses.
 A venda de indulgências (o perdão dos pecados), a simonia (o comércio de falsas relíquias religiosas), a falta de vocação e virtude dos clérigos (que se juntavam as ordens católicas para desfrutar de maior poder, influência e acesso a benefícios materiais), o controle do conhecimento por parte dos religiosos ou ainda o monopólio da Bíblia se tornaram cada vez mais incômodos para os fiéis, que a partir do ressurgimento das cidades e do comércio assistiram o surgimento dos primeiros movimentos de contestação ao domínio da Igreja.
 Martinho Lutero, diferentemente de seus antecessores no questionamento dos privilégios e desvios do clero católico (como John Huss ou John Wycliff, condenados pela Inquisição), teve a seu favor todo um contexto histórico favorável a mudanças. O advento das monarquias e estados centralizados rivalizava na disputa pelo poder terreno com o papado e os bispados. O crescimento da influência da burguesia era tolhido pela não aceitação da cobrança de juros em empréstimos ou vendas (lucros exorbitantes contrariavam os preceitos da Igreja no que se referia aos negócios alheios, nunca aos acertos feitos pelos próprios religiosos).
 Se não bastassem todas essas mudanças, o povo estava exaurido pelas altas cargas tributárias feudais a que era submetido e via a Igreja como sua inimiga pela cobrança do dízimo e de algumas outras taxas. Além do que o discurso católico não era condizente com a prática, enquanto os camponeses passavam fome e necessidades várias, muitos clérigos viviam de forma abastada e demonstravam desdém pela penúria popular.

Filho do seu tempo, educado dentro da própria Igreja, de espírito crítico arraigado e altivo, Lutero decidiu confrontar o Papa e o catolicismo em favor de mudanças que viessem a preservar o cristianismo. Provocou uma autêntica revolução nos hábitos e costumes. A partir de suas 95 teses originais surgiram outras linhagens reformistas e o mundo cristão nunca mais foi o mesmo...

O Filme
 Martinho Lutero (Joseph Fiennes, de “Shakespeare Apaixonado”) é um jovem padre iniciando sua carreira religiosa e que se confronta, logo no início de sua vida espiritual, com a contrariedade do pai quanto a sua decisão de entrar para o clero. Não só a oposição paterna o deixava angustiado quanto aos rumos de seu trabalho na Igreja, mas também em virtude de suas andanças e viagens a serviço da religião que o colocaram em contato com uma realidade de vícios e desvios entre os clérigos.
 Em viagem a Roma, percebe que os padres pouco se importam com a miséria dos camponeses e que o luxo e enriquecimento da Igreja passou a prevalecer como objetivo de muitos de seus companheiros de batina. A luxúria e a lucratividade podiam ser percebidas pelas ruas da cidade que era sede do catolicismo. Dizia-se que o próprio Papa era mais afeito a uma vida faustosa do que aos sacrifícios espirituais que se esperavam dele...
 De volta a Alemanha, completa seus estudos em teologia e direito. De posse desses novos conhecimentos começa a lecionar e se torna um crítico feroz de práticas como a venda de indulgências, a falta de vocação para o sacerdócio ou a simonia. Escreve suas 95 teses e as torna públicas para que todos tomem conhecimento dos erros da Igreja Católica.
 Começavam as perseguições que iriam condená-lo a excomunhão e a perseguição pelos seguidores do papado. Com a inquisição em seu encalço foi preservado pelos interesses das novas forças em ascensão no contexto europeu moderno. Sua história promoveu o surgimento de novas religiões cristãs, cindiu o império católico apostólico romano e definiu as bases do mundo que viria a partir de então. Vale a pena conferir.
Webcine.

DITADURA: CARA E COROA

A ditadura terminou há 20 anos e parece ser uma página virada da história brasileira. Parece, mas não é. O regime militar botou o país de pernas para o ar, tanto no bom quanto no mau sentido, e provocou mudanças de fôlego que ainda hoje fazem toda diferença no nosso dia-a-dia. Parou no congestionamento? Lembre que foram os militares que consolidaram o modelo de transporte baseado no carro, iniciado por Juscelino Kubitschek. Ligou a televisão e ficou orgulhoso da qualidade técnica da produção brasileira? Atente para o impulso que os governos autoritários deram para o setor. Fica indignado cada vez que o presidente Lula assina uma Medida Provisória? Não esqueça que as MPs são o velho decreto-lei militar repaginado.
 É difícil apontar uma área da vida brasileira que não tenha sofrido influência dos governos militares. Afinal, foram 21 anos de poder exercido com mão pesada. Em alguns setores, no entanto, as pegadas do período estão mais claras. Dívida externa, política de terras, distribuição de renda, indústria automobilística e produção de energia são bons exemplos disso.
 Todo balanço da ditadura acaba sendo negativo – afinal, foram anos de repressão e violência, em que a vontade dos governados contou menos que a dos governantes. Mas o tempo já permite separar o joio do trigo, admitindo ações positivas em algumas frentes.
 É uma tarefa delicada. No campo minado das paixões que o período desperta, defensores e críticos até hoje trocam farpas. Mas se os governos militares lançaram os fundamentos da pós-graduação brasileira, de outro lado estimularam a criação indiscriminada de cursos privados. Se geraram condições para o crescimento, deixaram de distribuir renda. Conheça a seguir a cara e a coroa da moeda da ditadura em alguns setores decisivos.

Dívida e crescimento
 Durante o regime militar, a economia brasileira se agigantou, tirando o país do medíocre 50º lugar para colocá-lo entre as dez nações mais ricas do mundo. O milagre econômico (1968-1973) parecia uma conquista para ninguém botar defeito: a produção industrial crescia com rapidez e o número de empregos ia às alturas. Depois veio a desaceleração (1974-1980), em que o PIB ainda cresceu a 7,1% ao ano, uma taxa de soltar rojões hoje em dia. No entanto, por trás das boas notícias se escondia uma dívida externa crescente, que estouraria na década de 1980, tornando-se impagável.
 Pela lógica dos governos militares, a dívida era um mal necessário. “Para crescer como cresceu, o Brasil precisava de financiamento interno de longo prazo e boa capacidade para importar máquinas e bens de capital. Não contando nem com um nem com outro, foi obrigado a se endividar em dólar”, diz Wilson Cano, professor de economia da Universidade de Campinas.
 A conta negativa do Brasil virou um rombo em poucos anos. Em 1970, a dívida externa era de 5,3 bilhões de dólares; em 1980, já tinha se tornado um pesadelo de 53,8 bilhões. Ninguém mais cogitava pagar a dívida, mas apenas seus juros. Qual teria sido, então, a hora de conter o crescimento para evitar isso? “Até aproximadamente 1978, havia fartura de capital no exterior, ‘quase de graça’, e os governos se lambuzaram”, explica Cano. “A questão não é qual teria sido a hora de parar e, sim, como priorizar investimentos, não ter pressa nem megalomania.”
 O problema é que a busca de legitimidade pelos governos militares teve papel determinante nas decisões econômicas. “Se o crescimento parasse, a crise política seria muito forte. Que segmentos permaneceriam solidários com a ditadura?”, provoca Cano. A Nova República herdou essa bomba e não soube desarmá-la. Pelo contrário, complicou tudo: em 1990, o Brasil já devia 96 bilhões de dólares e, em 2000, 206 bilhões. O aperto financeiro que o governo vive hoje, com sua necessidade de economizar para gerar superávits capazes de honrar a dívida, é bisneto do milagre econômico.

País rico povo pobre
 Em matéria de distribuição de renda, foi grande o estrago feito pelos militares e seus tecnocratas. Em 1985, os 20% mais ricos da população ficavam com quase 70% da riqueza do país, enquanto, antes de 1964, recebiam quase 55%. Na prática, a má “divisão do bolo” acabou tendo influência direta no bolso do trabalhador com pior remuneração. Antes da ditadura, quem recebia o salário mínimo precisava trabalhar pouco mais de 98 horas para comprar sua cesta básica. Em 1983, eram necessárias mais de 172 horas.
 Jarbas Passarinho, ex-ministro de Costa e Silva, reconhece a corrosão do piso salarial brasileiro durante o regime militar, mas ainda enfatiza a importância do crescimento econômico. “Temos hoje a pior distribuição de renda do mundo, e, de fato, o salário mínimo poderia ser maior”, observa. “Mas, se temos problemas, é preciso levar em conta outras considerações. O Paraguai tem salário mínimo maior do que o nosso. É mais rico por isso?”

Obras faraônicas
 Para quadruplicar o PIB brasileiro, os governos militares tiveram de investir pesado em construção civil e produção energética. A palavra de ordem era: integrar o país e torná-lo autônomo em abastecimento de energia. Na prática, os militares optaram por empregar milhões de dólares em projetos faraônicos, a exemplo da usina hidrelétrica de Itaipu, o programa nuclear de Angra dos Reis, a ponte Rio–Niterói e a rodovia Transamazônica.
 Em alguns pontos, a estratégia deu certo. Apenas na década de 1970, o Brasil aumentou sua produção de energia elétrica em 212%. Em outros, o resultado foi lamentável: os investimentos nucleares resultaram em duas usinas que até hoje têm pouca serventia, e a Transamazônica parece um lamaçal ligando o nada a lugar nenhum.

Carros e empregos
 É verdade que a paixão pelas quatro rodas explodiu no Brasil com Juscelino Kubitschek (1955-1960), mas a ditadura foi fundamental para que a indústria automobilística se consagrasse no país como o mais importante setor industrial. A produção de carros e caminhões, que em 1964 não ultrapassava a casa das 200 mil unidades, chegou em 1980 à invejável marca de 1 milhão e 165 mil veículos produzidos.
 O Brasil se gabava de ter o oitavo parque industrial do ramo no mundo. Em relação à oferta de emprego, as vantagens foram sensíveis: em 1983, quase 10 milhões de pessoas estavam engajadas nas atividades direta e indiretamente relacionadas à indústria dos automóveis – como produção de parafusos, usinagem de peças e fabricação de estofamentos. Em três décadas, o Brasil passou de importador a exportador de automóveis.

Álcool no tanque
 Em 1973, como resposta ao primeiro choque do petróleo, os militares criaram o Programa Nacional do Álcool (Proálcool). Quando conflitos no Oriente Médio fizeram o preço do produto disparar, o país importava 80% do combustível que consumia. Em pouco tempo, o Brasil começaria a produzir carros movidos a energia vegetal. “É uma tecnologia genuinamente brasileira”, diz Marcos Fava Neves, professor de economia da Universidade de São Paulo. “Mesmo com a existência anterior de motores a álcool para outras finalidades, o Brasil foi o pioneiro na produção de automóveis a álcool em larga escala no mundo.”

Dez anos depois do início do programa, os carros a álcool representavam 90% do mercado e poupavam ao país o consumo de 120 mil barris de petróleo por dia. Seu desempenho aos poucos alcançou o dos motores a gasolina. Hoje, os efeitos do Proálcool se fazem sentir. Segundo Neves, o país produz aproximadamente 320 milhões de toneladas de cana anuais, sendo que há dez anos não passava de 240 milhões. “Pensando no papel dos militares e no agronegócio, o Proálcool foi a melhor coisa que fizeram”, acredita.

Terra para poucos

Bom para o produtor, ruim para o trabalhador rural. A política de terras da ditadura teve impacto negativo no que se refere ao assentamento de camponeses. Ao tomarem o poder, os militares fizeram de tudo para jogar água fria nos debates sobre a reforma agrária, em alta com as promessas do presidente João Goulart. Ao longo dos anos 70, a política do governo foi tentar distribuir o excedente de mão-de-obra rural ao longo das rodovias Transamazônica, Cuiabá–Santarém e Cuiabá–Porto Velho, criando novas fronteiras agrícolas. Ou seja, levar gente do Sul, Sudeste e Nordeste para o Norte.
 “A idéia era evitar qualquer mudança radical nas áreas que já estavam ocupadas”, afirma Ariovaldo Oliveira, professor de Geografia da Universidade de São Paulo. Na década de 80, ficou claro o fracasso dessa política. As distâncias quase continentais entre as regiões de produção e o grande mercado consumidor próximo ao litoral implicaram custos elevados de transporte, que inviabilizaram os projetos.

Enquanto isso, o governo procurou fortalecer as produções de grande capital e de exportação no Sul. “Como ministro, Delfim Netto quis apoiar a expansão da agricultura para exportação, como a da soja. Ele sabia que os camponeses mais frágeis, que ficariam sem trabalho, poderiam ser reconduzidos ao Norte pelo sistema de colonização”, diz Oliveira. Quando o programa se desmantelou, os sem-terra se articularam para lutar pela reforma agrária. “O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra nasce da contradição dessa política do governo: os militares liberaram um batalhão de mão-de-obra no Sul que, após ir à falência no Norte, retornou para a área de origem”, explica o professor.

Um Executivo espaçoso
 Durante o regime militar, foi o poder Executivo quem ditou as regras do jogo. Em 21 anos de ditadura, baixou 17 Atos Institucionais e mais de 2 mil decretos-leis. Eram leis que surgiam da vontade do presidente, trancavam os trabalhos do Congresso até serem votadas ou eram simplesmente aprovadas porque tinha vencido o prazo para que fossem discutidas. A força do Executivo esmagava os outros poderes essenciais ao funcionamento da democracia: o Judiciário e o Legislativo.
 Na redemocratização, os decretos-leis chegaram a ser tratados pela oposição como “entulhos” do autoritarismo. Mesmo assim, acabaram sendo reintroduzidos, com leves modificações, na Constituição de 1988 – agora com o nome de Medida Provisória.
 “Na época, havia a idéia burra de que a inflação galopante poderia ser abatida com decretos”, relata Sérgio Resende de Barros, professor de Direito Constitucional da USP. Com essa finalidade, a Medida Provisória surgiu às pressas no final da Constituinte de 1988. “O problema é que ela acabou sendo mal regulamentada, pois todos estavam obcecados com a garantia das diretas para presidente, que é apenas um dos aspectos da democracia.”
 Barros explica que devem existir leis de emergência, como o decreto-lei e a Medida Provisória, mas elas têm de realmente apresentar caráter de necessidade e urgência para a sociedade. O que ocorre é que os presidentes que vieram depois da ditadura usaram e abusaram das Medidas Provisórias. Nos últimos anos, a média de MPs foi superior a cinco por mês. E, com freqüência, elas tratam de assuntos secundários ou sem urgência, como reajustes salariais de servidores.
 O especialista defende limitações à capacidade de legislar do Executivo – que ganhou poder para propor emendas à Constituição – como um passo importante para a democratização efetiva do Brasil. “O poder é como os gases: se não é controlado, se expande indefinidamente”, afirma.

Canudos privatizados
 Na educação, principalmente no ensino superior, o regime militar se esforçou para tirar nota dez. Preocupados em fornecer especialistas para a industrialização, os governos inauguraram no Brasil o sistema de pós-graduação em 1969, não tardando para formarem o primeiro pelotão de acadêmicos. Em 1970 e 1971, 2683 alunos concluíam o mestrado e apenas 87 terminavam o doutoramento; dez anos depois, 20744 mestres e 1697 doutores saíam das universidades. “Se há alguma medida positiva resultante da política educacional implementada pela ditadura, essa foi certamente a implantação e consolidação da pós-graduação”, analisa Dermeval Saviani, professor Emérito da Unicamp. “Isso teve um impacto importante no desenvolvimento da pesquisa em nosso país.”
 Ao longo dos anos, no entanto, a ditadura significou o sucateamento das universidades públicas. Segundo Saviani, haveria três razões para isso. A primeira é a própria dívida externa, que reduziu drasticamente a capacidade de investimento do governo, afetando o financiamento das universidades públicas. Segundo, alterações constitucionais do regime desobrigaram a União de destinar anualmente o mínimo de 10% dos impostos para a educação, como previa a Constituição de 1946. Assim, os recursos federais foram caindo, até que, num dos anos do governo Geisel, o orçamento do MEC ficou reduzido a apenas 4,6% do orçamento federal.
 O terceiro motivo para o sucateamento decorreria da política educacional global, que estimulou a criação de instituições privadas. “Na prática, houve privatização do ensino superior”, avalia Demerval Saviani.
 Tamis Parron | 01/04/2005




sexta-feira, 7 de junho de 2013

A LUTA DOS OPERÁRIOS E AS DOUTRINAS SOCIAIS

Os Operários e a suas Lutas 
            Entre os historiadores o debate é intenso: com o advento da indústria e do capitalismo, as condições de vida da classe trabalhadora teriam melhorado ou piorado? A discussão mostra, sobretudo, as dificuldades para avaliar o assunto. Sem dúvida, a industrialização trouxe, ao longo do tempo, benefícios para toda a sociedade. Mas também acabou gerando sofrimento para os trabalhadores, até mesmo pela ausência de leis que colocassem limites à cobiça dos capitalistas.
            As condições de trabalho nas fábricas inglesas da primeira metade do século XIX inspiraram muitos livros. Vários escritores mostram-se hesitantes em celebrar o progresso técnico ou lamentar a miséria por ele causada. O certo é que a descrição das fábricas foi sempre negativa: baixos salários, exploração do trabalho infantil e da mulher, umidade ou frio excessivo, jornadas de até 16 horas diárias, ar poluído, sujeira, humilhações sofridas pelos trabalhadores, acidentes com máquinas que provocavam mutilações e mortes. Os operários eram constantemente vigiados e obedeciam a horários rigorosos; uma verdadeira disciplina militar que não excluía a violência física dos capatazes. Eram regras exclusivamente impostas pelos interesses dos patrões. Além disso, o fantasma do desemprego estava sempre presente, obrigando o trabalhador a suportar esse regime. Fora das fábricas as condições não eram melhores: muitos se entregavam ao alcoolismo, as habitações eram precárias, nos bairros populares não havia saneamento, as epidemias se espalhavam e os salários não eram suficientes para alimentar a família.
            Inconformados com as injustiças a que estavam submetidos, muitos operários manifestaram seu descontentamento por meio de greves e motins. No inicio do século XIX aconteceu o Movimento Ludista, que era formado por grupos de operários que invadiam as fábricas e quebravam todo o maquinário como forma de protesto. Os ludistas consideram que as máquinas eram as grandes responsáveis pelo desemprego. A reação do governo foi violenta, com prisões, deportações e enforcamentos. Em 1817, o governo proibiu reuniões públicas e distribuição de panfletos que incitassem revoltas ou manifestações. Dessa forma, as primeiras manifestações operárias eram tratadas como caso de polícia.
 Os operários também se organizavam em passeatas e greves, para exigir o pagamento de melhores salários e condições de trabalho, como a diminuição da jornada de trabalho. Muitas vezes por não ter dinheiro para a alimentação os operários provocavam morins para saquear mercearias e armazéns. Para melhor se organizar, os operários começaram a formar associações de ajuda mútua, conhecidas como Trade Unions. Essas associações tinham como objetivo principal organizar as reivindicações dos operários que, em troca pagava uma pequena mensalidade. Essas associações foram se fortalecendo lentamente e deram origem aos sindicatos de trabalhadores.

OS GRUPOS SOCIAIS
Os operários eram homens, mulheres e crianças que abandonaram suas atividades tradicionais como o artesanato e o campesinato para trabalhar nas indústrias. O salário que recebiam era insuficiente para sustentar a família e, a grande maioria não conseguia pagar o aluguel de uma casa, sendo obrigados a morar em albergues e cortiços. Os que conseguiam pagar aluguel moravam em residências precárias perto das fábricas, onde a poluição e a falta de saneamento básico tornavam o ambiente propicio para a proliferação de doenças. Nos momentos em que não estava trabalhando, nem cuidando de seus afazeres, o que era raro, os operários procuravam alguma forma de lazer. Costumavam frequentar pubs (bares) e as feiras ao ar livre. O futebol também era bastante praticado pelos operários.
Os burgueses, proprietários das indústrias, cada vez mais ricos e ociosos, moravam em mansões suntuosas, nos bairros distantes das fábricas e divertiam-se praticando caça, passeando e frequentando luxuosos teatros. Além disso, aproveitavam o tempo livre para estudar manuais de etiqueta e também livros sobre conhecimentos modernos. Com isso, a burguesia criou um novo padrão de cultura e de comportamento, caracterizado pelo apreço a administração racional do tempo e do dinheiro.
A Revolução Industrial aumentou o contraste social entre a rica burguesia e a massa pobre de operários, mas possibilitou o surgimento de uma classe social intermediária, posteriormente chamada de “pequena burguesia”. Essa nova classe, denominada de classe média era formada principalmente por profissionais autônomos prestadores de serviços como advogados, médicos, jornalistas, engenheiros e professores, além de pequenos proprietários como comerciantes. Esse grupo social dava grande importância e valor a moral burguesa, exaltando o sucesso financeiro e cultivando um modo de vida austero e sem excessos. Muitos membros da classe média mantinham contatos com os operários, o que estimulava a denunciar as péssimas condições de vida da população pobre, enquanto condenavam as atitudes que consideravam imorais, como o roubo e a mendicância.

No final da década de 1830 surgiu um novo movimento, mais organizado e centrado em reivindicações políticas. A iniciativa partiu da Associação dos Trabalhadores de Londres, com a divulgação da Carta do Povo, redigida por William Lovett e enviada ao Parlamento em 1838. Por isso, esse movimento ficou conhecido como cartismo.
            Os cartistas queriam a aprovação de uma reforma parlamentar que garantisse uma representação política para os operários; o sufrágio universal masculino,  voto secreto, pagamento de salários aos parlamentares para que os operários pudessem se candidatar e uma reforma nos distritos eleitorais. O objetivo era claro: democratizar o Parlamento, permitindo maior acesso ao poder legislativo.
            As petições cartistas foram apoiadas por milhares de operários. Em julho de 1838, a carta já tinha quase 1,3 milhão de assinaturas. Mas apesar da mobilização popular, não foi aceita pelo Parlamento, o que desencadeou novas manifestações, reprimidas pela policia. Lovett foi preso com mais 450 integrantes do movimento. Em 1840, com a libertação gradual dos cartistas, o movimento ganhou novo fôlego. O movimento cartistas enviou, então, um novo projeto ao Parlamento, incluindo reivindicações por melhores salários, redução da jornada de trabalho e uma legislação trabalhista. Dessa vez a carta chegou a 3,3 milhões de assinaturas, mas foi novamente rejeitada pelo Parlamento gerando nova onda de manifestações e repressão.
         Apesar dessas derrotas, o saldo do movimento cartista em defesa da classe trabalhadora não pode ser considerado negativo, pois os representantes da burguesia no Partido Liberal perceberam a necessidade de conceder certos direitos aos trabalhadores para o bem do próprio capitalismo e da sociedade. Assim, o Parlamento aprovou a jornada de trabalho de 10 horas, em 1842; proibiu o trabalho de crianças e mulheres na limpeza das máquinas em funcionamento em 1844; no mesmo ano reduziu pela meta a jornada de trabalho para crianças menores de 13 anos. Os sindicatos, no entanto só seriam reconhecidos na década de 1870. Mas o movimento foi fundamental e marca as primeiras conquistas dos trabalhadores.

O Socialismo

         Ao longo do século XIX surgiram várias doutrinas socialistas, a maioria herdeira do pensamento jacobino que marcou a fase radical da Revolução Francesa. Essas doutrinas ganharam corpo e se difundiram em meio à formação e expansão das sociedades industriais e da classe operária.
            Para os primeiros socialistas, as desigualdades provocadas pela intensa concentração de riqueza no mundo industrial eram inaceitáveis. Para solucionar esses problemas formularam projetos revolucionários e reformistas. As primeiras ideias desses socialistas foram denominadas de socialismo utópico. Essa denominação tem haver com o fato de tais pensadores acreditarem na total transformação da sociedade de forma pacífica.

Robert Owen
Propunha um sistema econômico baseado na formação de cooperativas de trabalho, que incluíam escolas e moradia para os trabalhadores.
Saint-Simon
Criticava a exploração do trabalhador e a concentração da riqueza nas mãos da burguesia; propunha uma nova ordem social baseada na administração coletiva da economia e da política.
Charles Fourier
Crítico feroz da sociedade industrial propôs uma sociedade baseada nos falanstérios – comunidades de habitações mistas, onde o amor seria livre, a educação adequada a cada criança e o trabalho realizado conforme a vocação de cada um. Defendia uma sociedade onde a fraternidade e igualdade prevalecesse sobre as ambições individuais e materiais.

            Dentre as propostas socialistas formuladas durante o século XIX aquela que teve a maior repercussão foi a de Karl Marx e Friedrich Engels, que influenciou profundamente muitos movimentos do século XX.

            O projeto marxista se baseava na concepção de que a história da humanidade era determinada pela base econômica de cada sociedade  (modo de produção) e pela dinâmica das relações entre as classes sociais. Desse modo, as transformações históricas ocorriam a partir do conflito entre os organizadores da produção, ou seja, a classe dominante, proprietária desses meios e a classe dominada, os trabalhadores. Por essa razão, segundo Marx: “o motor da história da humanidade residia na luta de classes”.
            Segundo Marx, o comunismo primitivo imperava um estado de igualdade originário, superado com o desenvolvimento das forças produtivas, da propriedade privada e das relações de classe, como o escravismo no mundo antigo e o feudalismo europeu medieval. O capitalismo foi por ele considerado como a forma mais desenvolvida da sociedade de classes, na medida em que o trabalhador, despossuído dos meios de produção, era levado a vender sua força de trabalho aos empresários. O trabalhador era juridicamente livre, mas economicamente constrangido a trabalhar em troca de um salário restrito às suas necessidades de subsistência. A exploração do trabalho passou a se dar sem o uso da força, mas através da própria economia, isto é na diferença entre o preço de determinada mercadoria e o valor monetário recebido pelo trabalhador para produzi-lo: a mais-valia. No pensamento de Marx se uma mercadoria custasse 10 reais e, para produzi-la, o trabalhador recebia 2 reais, a mais-valia seria de 8 reais, base do lucro capitalista.
         Assim, a superação do capitalismo dependeria antes de tudo, de uma tomada de consciência do proletariado sobre a exploração a que estava submetido, condição necessária para a expropriação dos meios de produção das mãos da burguesia. Era este o projeto de revolução socialista de Marx, cuja meta a ser alcançada era a igualdade total numa sociedade sem classes: a sociedade comunista. Devido ao seu embasamento e teorização a proposta marxista ficou conhecida como socialismo cientifico.
            Em 1848, em meio às revoluções liberais, Marx e Engels publicaram o Manifesto Comunista. O conteúdo do manifesto não deixava dúvida sobre o caráter internacionalista da proposta: “Trabalhadores do mundo! Uni-vos!” Era uma propaganda explicita pela união do proletariado contra a burguesia, uma forte oposição ao nacionalismo burguês. Implacável com a burguesia, o manifesto respeitava as organizações operárias existentes, incentivando a união proletária.

O Anarquismo

            O termo anarquismo vem do grego anarkhia e significa ausência de poder. O movimento anarquista ganhou força a partir da industrialização e da organização dos operários no século XIX. Era baseado em uma idealização do passado remoto, uma nostalgia dos tempos primitivos em que as comunidades não tinham governo e cada um contribuía para as necessidades do grupo. Os anarquistas consideravam o Estado uma invenção catastrófica, submetendo a maioria, a vontade de poucos. Acreditava na fraternidade natural do ser humano, atribuído ao Estado a degeneração da sociedade. O anarquismo repudiava qualquer revolução que levasse a formação de qualquer organismo de poder coercitivo sobre os indivíduos. Nisso se distanciavam das propostas marxistas, que defendia a criação de um Estado controlado pelo proletariado, antes de atingir o comunismo.
            Os principais expoentes do pensamento anarquista foram o francês Pierre-Joseph Proudhon e o russo Mikhail Bakunin. Proudhon foi o autor da célebre frase “A propriedade é um roubo”, base de seu projeto para uma sociedade igualitária de pequenos produtores associados no campo e na cidade. Para ele, a abolição dos bancos e do dinheiro criaria de imediato as condições para uma sociedade saudável. Bakunin, por sua vez não acreditava na liberdade individual; esta só seria possível em uma sociedade coletiva.