sexta-feira, 7 de junho de 2013

A LUTA DOS OPERÁRIOS E AS DOUTRINAS SOCIAIS

Os Operários e a suas Lutas 
            Entre os historiadores o debate é intenso: com o advento da indústria e do capitalismo, as condições de vida da classe trabalhadora teriam melhorado ou piorado? A discussão mostra, sobretudo, as dificuldades para avaliar o assunto. Sem dúvida, a industrialização trouxe, ao longo do tempo, benefícios para toda a sociedade. Mas também acabou gerando sofrimento para os trabalhadores, até mesmo pela ausência de leis que colocassem limites à cobiça dos capitalistas.
            As condições de trabalho nas fábricas inglesas da primeira metade do século XIX inspiraram muitos livros. Vários escritores mostram-se hesitantes em celebrar o progresso técnico ou lamentar a miséria por ele causada. O certo é que a descrição das fábricas foi sempre negativa: baixos salários, exploração do trabalho infantil e da mulher, umidade ou frio excessivo, jornadas de até 16 horas diárias, ar poluído, sujeira, humilhações sofridas pelos trabalhadores, acidentes com máquinas que provocavam mutilações e mortes. Os operários eram constantemente vigiados e obedeciam a horários rigorosos; uma verdadeira disciplina militar que não excluía a violência física dos capatazes. Eram regras exclusivamente impostas pelos interesses dos patrões. Além disso, o fantasma do desemprego estava sempre presente, obrigando o trabalhador a suportar esse regime. Fora das fábricas as condições não eram melhores: muitos se entregavam ao alcoolismo, as habitações eram precárias, nos bairros populares não havia saneamento, as epidemias se espalhavam e os salários não eram suficientes para alimentar a família.
            Inconformados com as injustiças a que estavam submetidos, muitos operários manifestaram seu descontentamento por meio de greves e motins. No inicio do século XIX aconteceu o Movimento Ludista, que era formado por grupos de operários que invadiam as fábricas e quebravam todo o maquinário como forma de protesto. Os ludistas consideram que as máquinas eram as grandes responsáveis pelo desemprego. A reação do governo foi violenta, com prisões, deportações e enforcamentos. Em 1817, o governo proibiu reuniões públicas e distribuição de panfletos que incitassem revoltas ou manifestações. Dessa forma, as primeiras manifestações operárias eram tratadas como caso de polícia.
 Os operários também se organizavam em passeatas e greves, para exigir o pagamento de melhores salários e condições de trabalho, como a diminuição da jornada de trabalho. Muitas vezes por não ter dinheiro para a alimentação os operários provocavam morins para saquear mercearias e armazéns. Para melhor se organizar, os operários começaram a formar associações de ajuda mútua, conhecidas como Trade Unions. Essas associações tinham como objetivo principal organizar as reivindicações dos operários que, em troca pagava uma pequena mensalidade. Essas associações foram se fortalecendo lentamente e deram origem aos sindicatos de trabalhadores.

OS GRUPOS SOCIAIS
Os operários eram homens, mulheres e crianças que abandonaram suas atividades tradicionais como o artesanato e o campesinato para trabalhar nas indústrias. O salário que recebiam era insuficiente para sustentar a família e, a grande maioria não conseguia pagar o aluguel de uma casa, sendo obrigados a morar em albergues e cortiços. Os que conseguiam pagar aluguel moravam em residências precárias perto das fábricas, onde a poluição e a falta de saneamento básico tornavam o ambiente propicio para a proliferação de doenças. Nos momentos em que não estava trabalhando, nem cuidando de seus afazeres, o que era raro, os operários procuravam alguma forma de lazer. Costumavam frequentar pubs (bares) e as feiras ao ar livre. O futebol também era bastante praticado pelos operários.
Os burgueses, proprietários das indústrias, cada vez mais ricos e ociosos, moravam em mansões suntuosas, nos bairros distantes das fábricas e divertiam-se praticando caça, passeando e frequentando luxuosos teatros. Além disso, aproveitavam o tempo livre para estudar manuais de etiqueta e também livros sobre conhecimentos modernos. Com isso, a burguesia criou um novo padrão de cultura e de comportamento, caracterizado pelo apreço a administração racional do tempo e do dinheiro.
A Revolução Industrial aumentou o contraste social entre a rica burguesia e a massa pobre de operários, mas possibilitou o surgimento de uma classe social intermediária, posteriormente chamada de “pequena burguesia”. Essa nova classe, denominada de classe média era formada principalmente por profissionais autônomos prestadores de serviços como advogados, médicos, jornalistas, engenheiros e professores, além de pequenos proprietários como comerciantes. Esse grupo social dava grande importância e valor a moral burguesa, exaltando o sucesso financeiro e cultivando um modo de vida austero e sem excessos. Muitos membros da classe média mantinham contatos com os operários, o que estimulava a denunciar as péssimas condições de vida da população pobre, enquanto condenavam as atitudes que consideravam imorais, como o roubo e a mendicância.

No final da década de 1830 surgiu um novo movimento, mais organizado e centrado em reivindicações políticas. A iniciativa partiu da Associação dos Trabalhadores de Londres, com a divulgação da Carta do Povo, redigida por William Lovett e enviada ao Parlamento em 1838. Por isso, esse movimento ficou conhecido como cartismo.
            Os cartistas queriam a aprovação de uma reforma parlamentar que garantisse uma representação política para os operários; o sufrágio universal masculino,  voto secreto, pagamento de salários aos parlamentares para que os operários pudessem se candidatar e uma reforma nos distritos eleitorais. O objetivo era claro: democratizar o Parlamento, permitindo maior acesso ao poder legislativo.
            As petições cartistas foram apoiadas por milhares de operários. Em julho de 1838, a carta já tinha quase 1,3 milhão de assinaturas. Mas apesar da mobilização popular, não foi aceita pelo Parlamento, o que desencadeou novas manifestações, reprimidas pela policia. Lovett foi preso com mais 450 integrantes do movimento. Em 1840, com a libertação gradual dos cartistas, o movimento ganhou novo fôlego. O movimento cartistas enviou, então, um novo projeto ao Parlamento, incluindo reivindicações por melhores salários, redução da jornada de trabalho e uma legislação trabalhista. Dessa vez a carta chegou a 3,3 milhões de assinaturas, mas foi novamente rejeitada pelo Parlamento gerando nova onda de manifestações e repressão.
         Apesar dessas derrotas, o saldo do movimento cartista em defesa da classe trabalhadora não pode ser considerado negativo, pois os representantes da burguesia no Partido Liberal perceberam a necessidade de conceder certos direitos aos trabalhadores para o bem do próprio capitalismo e da sociedade. Assim, o Parlamento aprovou a jornada de trabalho de 10 horas, em 1842; proibiu o trabalho de crianças e mulheres na limpeza das máquinas em funcionamento em 1844; no mesmo ano reduziu pela meta a jornada de trabalho para crianças menores de 13 anos. Os sindicatos, no entanto só seriam reconhecidos na década de 1870. Mas o movimento foi fundamental e marca as primeiras conquistas dos trabalhadores.

O Socialismo

         Ao longo do século XIX surgiram várias doutrinas socialistas, a maioria herdeira do pensamento jacobino que marcou a fase radical da Revolução Francesa. Essas doutrinas ganharam corpo e se difundiram em meio à formação e expansão das sociedades industriais e da classe operária.
            Para os primeiros socialistas, as desigualdades provocadas pela intensa concentração de riqueza no mundo industrial eram inaceitáveis. Para solucionar esses problemas formularam projetos revolucionários e reformistas. As primeiras ideias desses socialistas foram denominadas de socialismo utópico. Essa denominação tem haver com o fato de tais pensadores acreditarem na total transformação da sociedade de forma pacífica.

Robert Owen
Propunha um sistema econômico baseado na formação de cooperativas de trabalho, que incluíam escolas e moradia para os trabalhadores.
Saint-Simon
Criticava a exploração do trabalhador e a concentração da riqueza nas mãos da burguesia; propunha uma nova ordem social baseada na administração coletiva da economia e da política.
Charles Fourier
Crítico feroz da sociedade industrial propôs uma sociedade baseada nos falanstérios – comunidades de habitações mistas, onde o amor seria livre, a educação adequada a cada criança e o trabalho realizado conforme a vocação de cada um. Defendia uma sociedade onde a fraternidade e igualdade prevalecesse sobre as ambições individuais e materiais.

            Dentre as propostas socialistas formuladas durante o século XIX aquela que teve a maior repercussão foi a de Karl Marx e Friedrich Engels, que influenciou profundamente muitos movimentos do século XX.

            O projeto marxista se baseava na concepção de que a história da humanidade era determinada pela base econômica de cada sociedade  (modo de produção) e pela dinâmica das relações entre as classes sociais. Desse modo, as transformações históricas ocorriam a partir do conflito entre os organizadores da produção, ou seja, a classe dominante, proprietária desses meios e a classe dominada, os trabalhadores. Por essa razão, segundo Marx: “o motor da história da humanidade residia na luta de classes”.
            Segundo Marx, o comunismo primitivo imperava um estado de igualdade originário, superado com o desenvolvimento das forças produtivas, da propriedade privada e das relações de classe, como o escravismo no mundo antigo e o feudalismo europeu medieval. O capitalismo foi por ele considerado como a forma mais desenvolvida da sociedade de classes, na medida em que o trabalhador, despossuído dos meios de produção, era levado a vender sua força de trabalho aos empresários. O trabalhador era juridicamente livre, mas economicamente constrangido a trabalhar em troca de um salário restrito às suas necessidades de subsistência. A exploração do trabalho passou a se dar sem o uso da força, mas através da própria economia, isto é na diferença entre o preço de determinada mercadoria e o valor monetário recebido pelo trabalhador para produzi-lo: a mais-valia. No pensamento de Marx se uma mercadoria custasse 10 reais e, para produzi-la, o trabalhador recebia 2 reais, a mais-valia seria de 8 reais, base do lucro capitalista.
         Assim, a superação do capitalismo dependeria antes de tudo, de uma tomada de consciência do proletariado sobre a exploração a que estava submetido, condição necessária para a expropriação dos meios de produção das mãos da burguesia. Era este o projeto de revolução socialista de Marx, cuja meta a ser alcançada era a igualdade total numa sociedade sem classes: a sociedade comunista. Devido ao seu embasamento e teorização a proposta marxista ficou conhecida como socialismo cientifico.
            Em 1848, em meio às revoluções liberais, Marx e Engels publicaram o Manifesto Comunista. O conteúdo do manifesto não deixava dúvida sobre o caráter internacionalista da proposta: “Trabalhadores do mundo! Uni-vos!” Era uma propaganda explicita pela união do proletariado contra a burguesia, uma forte oposição ao nacionalismo burguês. Implacável com a burguesia, o manifesto respeitava as organizações operárias existentes, incentivando a união proletária.

O Anarquismo

            O termo anarquismo vem do grego anarkhia e significa ausência de poder. O movimento anarquista ganhou força a partir da industrialização e da organização dos operários no século XIX. Era baseado em uma idealização do passado remoto, uma nostalgia dos tempos primitivos em que as comunidades não tinham governo e cada um contribuía para as necessidades do grupo. Os anarquistas consideravam o Estado uma invenção catastrófica, submetendo a maioria, a vontade de poucos. Acreditava na fraternidade natural do ser humano, atribuído ao Estado a degeneração da sociedade. O anarquismo repudiava qualquer revolução que levasse a formação de qualquer organismo de poder coercitivo sobre os indivíduos. Nisso se distanciavam das propostas marxistas, que defendia a criação de um Estado controlado pelo proletariado, antes de atingir o comunismo.
            Os principais expoentes do pensamento anarquista foram o francês Pierre-Joseph Proudhon e o russo Mikhail Bakunin. Proudhon foi o autor da célebre frase “A propriedade é um roubo”, base de seu projeto para uma sociedade igualitária de pequenos produtores associados no campo e na cidade. Para ele, a abolição dos bancos e do dinheiro criaria de imediato as condições para uma sociedade saudável. Bakunin, por sua vez não acreditava na liberdade individual; esta só seria possível em uma sociedade coletiva.



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