quarta-feira, 31 de julho de 2013

POVOS SAMBAQUIS

Algumas transformações na natureza provocaram, a mais ou menos 10 mil anos atrás, o deslocamento das populações que habitavam o continente americano. Uma dessas transformações foi a elevação dos níveis de temperatura e dos oceanos, que motivaram os homens a desse período a se deslocarem para as áreas litorâneas da América. Tal fato foi comprovado através de estudos em meios aglomerados de conchas e restos de peixes, que juntos, chegavam a trinta metros de altura. O nome desse tipo de formação calcária ficou conhecida como “Sambaqui”, um termo em tupi que significa “monte de conchas”.
 A tese que afirma a existência dos povos sambaquis é que a sucessão de comunidades litorâneas foi responsável pela acumulação de conchas, ossos de peixes e outros restos de alimentos, situadas próximas a vestígios de casas e ossadas humanas. Com o passar de milênios, esses depósito alcançaram grandes alturas que deram origem a um sambaqui.
 A formação dessas sociedades desencadeia também a transformação dos hábitos alimentares do homem pré-histórico das Américas. Com o passar do tempo, tudo que era comum como prática alimentar como a caça e a coleta, vão perdendo espaço aos pouco para uma dieta marcada principalmente pelo consumo de peixes, crustáceos e outros frutos do mar. Podemos citar também que, após examinar a estrutura interna e os terrenos próximos aos sambaquis, percebemos que suas comunidades desenvolveram o artesanato, a escultura e o trabalharam com a pedra polida.
 No Brasil, os sambaquis podem ser encontrados ao longo do litoral nordestino, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em outras partes do litoral gaúcho. Os maiores sambaquis brasileiros foram encontrados nas cidades de São Francisco do Sul, Jaguaruna, Laguna e Garuva, no estado de Santa Catarina, onde temos formações com 30 metros de altura e 400 metros de extensão. Já o mais antigo sambaqui brasileiro foi encontrado no Vale do Ribeira, em São Paulo, e tem aproximadamente nove mil anos de existência.
 Também por outras partes do continente americano, se noticia a existência dos sambaquis. Em diversas partes e áreas da cordilheira dos andes, no litoral dos Estados Unidos, no Peru, e no Chile, é onde encontramos outros vestígios dessa importante população pré-histórica. Mais do que reportar um dado do passado, a pesquisa sobre os sambaquis vem traçar o surgimento e os deslocamentos humanos nas Américas.
 O povo sambaqui tinha algumas características físicas marcantes, e uma delas está nas diferentes alturas dos esqueletos de homens, com uma média de 1,60m , e de mulheres com 1,50m , ambos vivendo de 30 a 35 anos de idade.
 O tórax e os membros superiores bem desenvolvidos nos levam a crer que os indivíduos eram bons nadadores e provavelmente remadores de canoas. Essa suposição é apoiada também pelo resto de peixes de especies como a garoupa e miragaia, tipicas de regiões mais profundas e com pedras que, para serem capturadas, exigiriam que o pescador se deslocasse da beira da praia.
 Uma outra característica é o desgaste da arcada dentaria em determinadas regiões da mesma, que nos dá a ideia de que consumiam alimentos duros e abrasivos.
 No Brasil o estudo do sambaqui é algo ainda recente e mesmo em toda América do sul são poucas as análises seriamente estudadas.
Pedro Augusto Rezende Rodrigues 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

AS INDEPENDÊNCIAS NA AMÉRICA ESPANHOLA

No final do século XVIII, as condições de vida das pessoas pobres na América espanhola eram precárias, e grande parte da população era obrigada a realizar trabalhos pesados nas lavouras e nas minas para se sustentar. Nesse contexto, surgiram várias manifestações populares de insatisfação contra o governo espanhol, nas quais o povo reivindicava melhores condições de vida. Essas manifestações, promovidas essencialmente por indígenas e mestiços, tinham um caráter mais social do que politico e, foram duramente reprimidas pelas tropas espanholas. M 1780, um movimento popular liderado pelo indígena José Gabriel Noguera, mais conhecido como Tupac Amaru II, repercutiu em diversas regiões do Vice-Reino do Peru. Ele se dizia descendente de Tupac Amaru I, o ultimo soberano inca a enfrentar os conquistadores espanhóis, ainda no século XVI. Por esse motivo, a figura desse soberano inca vinha inspirando movimentos indígenas de várias regiões da América contra a dominação espanhola. Liderados por Tupac Amaru II, os rebeldes atacaram os corregedores, saquearam as obrajes e ocuparam aldeias. No inicio esse levante popular teve a participação de alguns criollos que estavam insatisfeitos com o governo espanhol, principalmente por causa do aumento dos impostos. Porém, muitos deles assustados com a violência que se espalhava, decidiram apoiar a Coroa espanhola no combate ao levante, buscando com isso, preservar seus interesses. Após vários conflitos, o movimento se desintegrou e seus líderes, incluindo Tupac Amaru II, foram executados.
            À medida que o Estado espanhol se mostrava em franca decadência e que levantes das camadas populares tornavam-se mais frequentes e mais intensos, as elites coloniais passaram então a apoiar a independência de suas colônias como forma de proteger seus interesses políticos e econômicos. Apesar de lutarem pela liberdade politica e econômica das colônias, os membros das elites criollas procuraram manter a estrutura social vigente. A partir de 1810, iniciaram-se as insurreições pela independência das colônias espanholas. Um pouco antes, em 1804 acontecia a independência do Haiti. Essa colônia, localizada nas Antilhas, era uma colônia francesa desde 1697. Nela eram produzido açúcar e café, que eram vendidos na Europa. A produção agrícola do Haiti era baseada na mão-de-obra escrava africana. No final do século XVIII, sob a influencia das ideias iluministas, os escravos haitianos passaram a defender ideias de liberdade e a discutir a abolição da escravidão. A partir de 1791 eclodiram vários movimentos revoltosos formados por escravos e ex-escravos. Em 1804, em um grande levante, os revoltosos massacraram a elite branca, tomaram o poder e proclamaram a independência do Haiti, que se tornou a primeira colônia latino-americana a conquistar a emancipação política. As noticias sobre a violência e o sucesso das lutas de independência do Haiti preocuparam as elites escravistas coloniais espanholas e portuguesas, que temiam levantes semelhantes aos ocorridos no Haiti. Esse medo das elites escravistas com relação a um possível levante dos escravos ficou conhecido como “haitianismo”.
            Na América espanhola, o criollo San Martin, nascido na Argentina e criado na Europa, liderou os movimentos pela independência da Argentina, no Chile e no Peru. Ele planeja criar Estados independentes na América, cada qual governado conforme os interesses da população. Martin começou a liderar as lutas pela independência na Argentina em 1813, consolidando-a em 1816. No comando do Exercito dos Andes, cruzou as montanhas andinas e com a ajuda dos soldados chilenos, conquistou a independência do Chile em 1818. Depois disso, partiu com suas tropas para o Peru, tornando-o independente em 1824. Ao norte da América do Sul, o militar Simon Bolívar comandou as tropas que lutaram e conquistaram a independência da Grã-Colômbia (Colômbia, Equador, Venezuela e Panamá). Bolívar defendia a centralização do poder. Ele acreditava na necessidade de um poder forte e único formado por países independentes, mas solidários entre si, e que formassem uma confederação. Bolívar queria constituir uma grande nação latino-americana, incluindo os países da América espanhola. Conhecida hoje como “bolivarianismo ou pan-americanismo”, a politica de solidariedade de Bolívar tinha como objetivo principal  a união dos países americanos contra o colonialismo europeu, além da manutenção da paz continental e da igualdade entre os governos participantes. Segundo Bolívar era a única forma da América Latina fazer frente às grandes potencias da época. Em 1826, Bolívar organizou o Congresso do Panamá para apresentar seu projeto que naufragou devido aos interesses, principalmente, das elites locais.
            A partir de 1810, as lutas contra o domínio espanhol começam a eclodir no México. Lideradas inicialmente pelo padre Miguel Hidalgo, esses levantes tinham como principais objetivos a independência do Vice-Reino da Nova Espanha e a transferência da posse das propriedades rurais dos chapetones e dos criollos para a população nativa. Hidalgo chegou a reunir um exército de 30 mil homens, formado por indígenas e mestiços, com o qual invadiu importantes cidades. Em 1811, porém, as tropas espanholas massacraram os rebeldes e Hidalgo foi entregue a Tribunal da Santa Inquisição, sendo posteriormente executado. Porém, a luta pela independência continuou, agora sob a liderança de outro padre, José Maria Morelos. Em 1813, ele proclamou a independência do México, no entanto, a Espanha não reconheceu essa independência. O movimento pelo reconhecimento da emancipação continuou durante vários anos após as mortes de Hidalgo e Morelos. Mestiços e indígenas organizaram-se em grupos armados, que espalhados pelo México, combatiam as tropas reais. A elite criolla, preocupada em permanecer no poder e com receio da participação popular no governo, decidiu estabelecer uma aliança com os rebeldes. O militar criollo Agustín de Iturbide fez um acordo com os líderes rebeldes e proclamou a independência do México, em 1821, estabelecendo uma monarquia constitucional. Porém, em 1824, um grupo contrário a politica vigente tomou o poder e proclamou a República mexicana. Dessa forma, o México independente se organizou sob o comando da elite criolla, que manteve a população indígena submetida aos seus interesses. Uma semana após a independência do México em 1821, as Capitanias Gerais da Guatemala, que incluíram os atuais territórios de Chiapas, Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica e Honduras, também se declaram independentes e decidiram incorporar seus domínios ao recém formado Império Mexicano. Em 1823, esses territórios se separaram do México e formaram uma Federação de Estados Independentes da América Central. Em 1838, essa federação se desfez e, aos poucos, cada país se tornou autônomo, com exceção de Chiapas, que ainda hoje é território mexicano.
            A ilha de Cuba teve seu processo de independência tardio. Cuba já havia se tornado uma grande produtora de açúcar desde o final do século XVIII. Assim, como as demais colônias espanholas nas Antilhas, os colonizadores utilizaram a mão-de-obra escrava africana. Nessa época a elite cubana se preocupava com a grande quantidade de africanos na ilha e temiam o “haitianismo” e por isso, mantinham os escravos sob um rígido controle. Como desde o século XIX, as elites cubanas tinham liberdade de comercializarem com os Estados Unidos, estes não tinham interesses separatistas, o que retardou o processo de independência do país. A primeira guerra de independência só vai acontecer entre 1868 a 1878. Já a segunda, ocorre entre 1895 a 1898, quando o movimento ganha força a partir da liderança de José Marti que conseguiu derrubar o grupo da elite contrário à emancipação da ilha. Em 1898, quando a independência de Cuba era  iminente, os Estados Unidos invadiram a ilha e declararam guerra à Espanha. Após vários conflitos, os espanhóis reconheceram a independência de Cuba em 1901, quando o país passou a ser administrado por um governo provisório estadunidense. Somente em 1902 tomou posse Tomas Estrada Palma, primeiro presidente cubano, mas sob forte controle dos Estados Unidos.(Adaptado de Pellegrini, Marco. História. Coleção Novo Olhar 2, p.226-231).


segunda-feira, 22 de julho de 2013

A INDEPENDÊNCIA DAS TREZE COLÔNIAS

A segunda metade do século XVIII foi um período conturbado tanto na Europa quanto na América. Os colonos franceses do Canadá, da mesma forma que os ingleses estabelecidos nas Treze Colônias, procuravam ampliar seus negócios coloniais e áreas de influência na América. Na Europa, entre 1756 e 1763, ocorreu um conflito conhecido como Guerra dos Sete Anos, que envolveu vários países europeus e, onde os colonos ingleses enfrentaram os colonos franceses na América. Tanto a Inglaterra como os colonos ingleses saíram vitoriosos, afastando a presença francesa nas Índias Orientais e conquistando as terras dos colonos franceses na América do Norte, além da Flórida espanhola. Com isso, os colonos ingleses tinham condições de expandir as fronteiras de seus domínios americanos, ampliando a ocupação das terras indígenas.
            A Inglaterra saiu do conflito fortalecida e com a maior marinha mercante e de guerra do mundo. Porém, teve altos gastos para manter operações militares na Europa, Ásia e América. Para pagar essas despesas, os ingleses por meio de seu Parlamento, aumentaram sua interferência nas Treze Colônias, fortalecendo a sua política mercantilista. Essa prática se manifestou por meio de uma série de leis (Acts), que provocaram grande descontentamento entre os colonos americanos. A Lei do Açúcar de 1764, intervinha no comércio do melaço e do açúcar nas colônias, determinando que os colonos deveriam comprar esse produto somente das Antilhas inglesas; a lei também estabeleceu impostos para a maioria dos produtos importados pelas colônias inglesas. A Lei da Moeda, do mesmo ano, atingia a autonomia financeira das colônias, proibindo-as de emitirem papéis de crédito, utilizados pelos colonos como moeda. Em 1765, a Lei do Selo determinava que fossem selados e taxados todos os documentos oficiais, declarações, jornais e demais publicações feitas na colônia. Os selos seriam fornecidos apenas pelos agentes ingleses.
            Em 1773, o governo inglês aprovou outra lei. Esta beneficiava a Companhia das Índias Orientais. Conhecida como Lei do Chá, a nova lei estabelecia o monopólio do fornecimento de chá para a América inglesa pela companhia, abrindo um precedente para que a Inglaterra continuasse a estabelecer monopólios em outras atividades comerciais. Os colonos, no entanto, que já estavam descontentes, não aceitaram a imposição dessa nova lei. Muitos passaram a boicotar o chá, substituindo-o por outras bebidas, como o café. Os mais radicais formaram  um grupo de carca de 150 pessoas, que se disfarçaram de índios e invadiram o porto de Boston, saqueando os primeiros navios que chegaram carregados de chá, lançando a carga ao mar. Esse episódio ficou conhecido como a Festa do Chá de Boston. Os protestos dos colonos contra a ingerência da metrópole em seus negócios se ampliaram rapidamente. Manifestações de descontentamento ocorreram em várias localidades. Em um desses protestos que ficou conhecido como o massacre de Boston, em março de 1770, uma multidão de colonos se reunirem para protestar contras as leis e a presença de tropas inglesas, mas foram alvejados pelos soldados ingleses que faziam a guarda do quartel. Muitos colonos se feriram, e cinco deles morreram. Esse incidente reforçou os sentimentos de revolta e o desejo de maior autonomia entre os colonos.
            A Inglaterra não tardou em lançar represálias contra as agitações promovidas pelos colonos. Por meio das chamadas Leis de Coação, chamada pelos colonos de Leis Intoleráveis; os ingleses determinaram a interdição do porto de Boston até o ressarcimento dos prejuízos provocados pela ação dos colonos no porto, além de restringir as reuniões entre os colonos e intervirem na colônia de Massachusetts, submetendo-a diretamente a Coroa. Os colonos, por sua vez, reuniram-se clandestinamente em uma assembleia, formando o Primeiro Congresso Continental, organizado na Filadélfia, na Pensilvânia. Em março de 1774, com exceção da Geórgia, todas as colônias haviam mandado representantes. Os colonos que nesse momento ainda não cogitavam o rompimento com a metrópole, enviaram um documento ao rei da Inglaterra pedindo a abolição das leis, mas não foram atendidos. Durante a formação desse congresso, os colonos se dividiram em duas correntes políticas: de um lado os patriotas que eram favoráveis à independência. Esse grupo era composto por pequenos proprietários, intelectuais, trabalhadores assalariados e pela burguesia ascendente; do outro lado, estavam os legalistas, que mantinham fidelidade a Coroa inglesa formado principalmente por funcionários da burocracia e os latifundiários sulistas. Além desses dois grupos, havia uma parcela significativa da população que era totalmente indiferente às essas questões.
            As tensões entre colonos e as autoridades inglesas aumentavam rapidamente. A cada dia ficava mais claros para os colonos que os interesses mercantilistas dos ingleses eram contrários aos seus. Em 1775, novamente na Filadélfia ocorreu o Segundo Congresso Continental. Esse reuniu os principais líderes do movimento patriota: John Hancock, Samuel Adams, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, entre outros. Nesse momento, apenas parte dos colonos era a favor de se revoltar contra a metrópole. Após muitas discussões, os partidários da independência saíram vitoriosos e o Congresso deliberou pelo enfrentamento militar contra os ingleses caso necessário. Para comandar as forças rebeldes foi escolhido um rico aristocrata da Virginia, proprietário de terras e escravos, chamado George Washington. Enquanto isso, o rei da Inglaterra declarava que as colônias estavam em estado de rebelião. Em 1775 já haviam começado os primeiros combates entre os patriotas e as forças inglesas, que eram apoiadas pelos legalistas norte-americanos.

            Em meio aos primeiros combates com os ingleses, os congressistas norte-americanos aprovaram um importante documento: a Declaração de Independência das Treze Colônias. Este documento, redigido por Thomas Jefferson, determinava que as colônias se uniriam formando um único país, porém, cada uma manteria sua autonomia, votando suas próprias leis. Esse documento publicado em 4 de julho de 1776 é o marco da independência dessas colônias, que mais tarde iriam formar os Estados Unidos da América. A guerra de independência se estendeu por seis anos, que foram muito difíceis para os rebeldes, que tinham um exército mal armado e carente de recursos e se treinamento, ao contrário das forças inglesas. A situação dos colonos melhorou graças à ajuda dada pelos espanhóis e, principalmente, pelos franceses, tradicionais inimigos da Inglaterra. A ajuda francesa em dinheiro, soldados e armas foi decisiva para a vitória final dos colonos. Em 1783, a Inglaterra reconheceu oficialmente a independência das Treze Colônias, com a assinatura do Tratado de Paris. Além disso, por meio desse tratado, a Inglaterra devolvia para a Espanha e para França territórios que haviam sido conquistados durante a Guerra dos Sete Anos. (Adaptado de Pellegrini, Marco. História. Coleção Novo Olhar 2, p.162-169).

terça-feira, 16 de julho de 2013

HISTÓRIA DO MÉXICO

Três componentes principais configuram a fisionomia do México, o mais populoso país de língua espanhola, uma terra de contrastes e de vigorosa personalidade: o estilo de vida e o poder econômico de seu vizinho do norte, os Estados Unidos; a a colonização hispânica, que lhe legou a língua e a religião; e o enraizamento de muitos elementos de sua cultura em antigas civilizações pré-colombianas, como a asteca e a maia.
Com uma área de 1.958.201km2, o México situa-se na parte meridional da América do Norte. A Cidade do México, capital do país, é uma das maiores cidades do mundo. O território mexicano limita-se ao norte com os Estados Unidos, numa longa linha de 3.326km, constituída por trechos retilíneos em sua metade ocidental e pelo curso do rio Grande do Norte (ou Bravo) na oriental, de Ciudad Juárez até a foz; ao sul e a oeste, com o oceano Pacífico; a leste com o golfo do México e o mar do Caribe; e a sudeste com Belize e Guatemala. A forma triangular afunila-se até o istmo de Tehuantepec, e o território se estende ainda, no extremo sudeste do país, na península de Yucatán, que separa o golfo do México do mar do Caribe. A noroeste do território mexicano, entra pelo oceano Pacífico a estreita e longa península da Baixa Califórnia, separada do continente por um braço de mar, o golfo da Califórnia.
México pré-colombiano. As regiões central e meridional do atual território mexicano são densamente povoadas desde longa data, graças ao cultivo, iniciado vários milênios antes da era cristã, do milho, da abóbora e do feijão. Surgiram assim várias culturas, entre elas a olmeca, a maia e as que se sucederam no planalto.
À cultura olmeca pertenciam as primeiras sociedades complexas que, até o ano 1000 a.C., edificaram centros religiosos na planície costeira de Veracruz e Tabasco. O povo maia ergueu, na península de Yucatán e em terras da posterior Guatemala, numerosas cidades independentes, que ocasionalmente formaram confederações. Essa cultura se destacou sobretudo pelo extraordinário desenvolvimento artístico e científico, que atingiu a plenitude entre os séculos IV e X da era cristã.
O planalto central mexicano conheceu diversas civilizações, entre as quais se destacou, por seu caráter unificador, a de Teotihuacan, metrópole comercial, política e religiosa cuja influência cultural se estendeu além do planalto, até a América Central e o norte do México. Teotihuacan foi destruída antes do ano 700, provavelmente por povos toltecas, vindos do norte, que invadiram o planalto e estabeleceram a capital em Tula.
Os séculos VIII e IX foram um período de confusão, no qual as grandes civilizações clássicas centro- americanas tombaram, vítimas de invasores ou de seus próprios conflitos sociais internos. As culturas pós-clássicas tiveram um caráter muito mais bélico do que suas precedentes: edificaram grandes muralhas e fortificações defensivas e cultuaram sobretudo divindades da guerra que exigiam sacrifícios sangrentos.
Ao começar o século XII, os náuatles, povos vindos do norte, se impuseram aos toltecas e estenderam seu poder sobre o planalto, ao mesmo tempo em que assimilavam rapidamente a cultura dos vencidos. Uma tribo náuatle, a asteca, que se fixara desde 1325 em Tenochtitlan, no vale do México, começou uma forte expansão demográfica, econômica e militar.
Pouco antes de completar dois séculos de sua fundação, Tenochtitlan era o centro de uma vasta confederação de povos que se estendia por todo o México central, das margens do golfo até a costa do Pacífico, e cuja influência chegava até às regiões maias da América Central. De mexica, palavra náuatle que designa os astecas que fundaram Tenochtitlan, deriva México, o segundo nome dado à cidade e, mais tarde, à nação inteira de que seria a capital.
Conquista. A costa de Yucatán foi explorada em 1517 por Francisco Fernández de Córdoba e, no ano seguinte, por Juan de Grijalva. Animado pelas notícias, o governador de Cuba, Diego de Velázquez, enviou nova expedição, comandada por Hernán Cortés. A expedição de Cortés chegou a Yucatán e combateu os índios de Tabasco. Antes disso, em abril de 1519, desembarcou na costa do golfo do México e fundou a Villa Rica de Vera Cruz, posteriormente Veracruz. Após vencer os tlaxcaltecas, tradicionais inimigos dos astecas, Cortés os transformou em aliados e avançou até Tenochtitlan. O imperador asteca, Montezuma II, acreditou ver em Cortés e seus homens uma encarnação do antigo herói místico Quetzalcóatl, razão pela qual recebeu o espanhol em sua corte.
Enquanto isso, um poderoso contingente de espanhóis comandados por Pánfilo de Narváez havia desembarcado com o propósito de submeter Cortés, que derrotou seus perseguidores em Zempoala e incorporou os soldados rendidos a seu pequeno exército. Ao regressar à capital asteca, encontrou-a num estado de rebelião. O próprio Montezuma foi morto por seus súditos descontentes.
Na noite de 30 de junho de 1520, conhecida como "a noite triste", os espanhóis tentaram retirar-se de Tenochtitlan, mas foram descobertos e sofreram numerosas baixas. Mesmo assim, conseguiram recuperar-se fora da cidade e algum tempo mais tarde a superioridade técnica lhes permitiu derrotar em Otumba um inimigo muito maior em número. Cortés e seus homens cercaram então Tenochtitlan, que resistiu tenazmente durante vários meses. A cidade caiu em agosto de 1521, e o último imperador asteca, Cuauhtémoc, foi aprisionado. Os principais monumentos e edifícios religiosos foram arrasados e sobre as ruínas se edificou a cidade colonial.
Em poucos anos, os espanhóis se apoderaram não só das terras do que havia sido o império asteca, mas ultrapassaram seu limites pelo sul, onde somente os maias de Yucatán resistiram a sua dominação, e pelo norte, onde o descobrimento de imensas minas de prata em Guanajuato, Zacatecas e San Luis Potosí, em meados do século, acelerou a exploração. No fim do século XVI, o império espanhol estendia seus domínios até o Novo México.
Vice-reino. Era preciso dotar de uma estrutura jurídica o governo dos imensos territórios conquistados. O imperador Carlos V (I da Espanha) nomeou Cortés governador e capitão-geral da Nova Espanha, mas intrigas e rancores entre os conquistadores o levaram à renúncia. O território ficou então submetido às decisões de uma junta de cinco membros. Em 1527 foi nomeado o primeiro bispo do México, frei Juan de Zumárraga, e oito anos mais tarde Antonio de Mendoza tomou posse como primeiro vice-rei da Nova Espanha. As autoridades civis e eclesiásticas prosseguiram na tarefa de assimilação cultural empreendida desde o momento da conquista, o que significou a destruição sistemática da civilização e da religião indígenas e sua substituição pelas da Espanha. A importância da nova colônia foi tal que em 1536 começou a funcionar em sua capital o primeiro prelo do continente americano, e em 1547 a cidade foi elevada a arquidiocese. Quatro anos mais tarde já contava com uma universidade.
Numerosos vice-reis se sucederam, num período caracterizado por turbulência e freqüentes lutas internas entre os próprios conquistadores. As Leis das Índias, emanadas da metrópole, eram freqüentemente descumpridas e a população indígena havia sido reduzida a um estado de servidão semelhante ao feudalismo europeu de séculos passados. Os vice-reis, quando não aderiam à corrupção geral, colidiam com os interesses dos conquistadores e de seus descendentes, enriquecidos com o trabalho dos índios no campo e nas minas de metais preciosos. Logo começou o processo de mestiçagem racial e cultural.
Pouco a pouco instaurou-se uma rígida estrutura administrativa, à semelhança da metrópole espanhola. Foram criadas três audiências no vice-reinado: México, Guadalajara e Guatemala. Em 1572, instalou-se um tribunal da Inquisição. O comércio exterior foi regulamentado com rigor. Veracruz ficou com o monopólio do comércio com a Espanha e Acapulco com o das ilhas Filipinas.
Ao longo do século XVIII, a Nova Espanha conheceu uma época de esplendor. Nos primeiros anos do século veio à luz o primeiro periódico, a Gaceta de México. Em 1767 foram expulsos os jesuítas, fato que, como no resto da América espanhola, repercutiu negativamente na situação de extensas áreas indígenas. Surgiram em muitos povoamentos novos palácios e catedrais e, no fim do século, foram restaurados os caminhos abandonados desde os tempos do império asteca. O comércio interno ganhou impulso, desenvolveram-se as indústrias e foram liberadas as trocas comerciais com a Espanha.
Ao começar o século XIX, a Nova Espanha contava com mais de seis milhões de habitantes. Destes, cerca de um décimo, considerados "espanhóis" (tanto europeus como criollos, nascidos na América), tinham em suas mãos quase toda a riqueza do país.
Independência. Como no resto da América espanhola, os ventos revolucionários europeus e a independência dos Estados Unidos se fizeram sentir, nos últimos anos do século XVIII, sobre a ideologia da burguesia criolla mexicana. Algumas tímidas tentativas de conspiração pró-independência foram rapidamente sufocadas pelas autoridades do vice-reino. No entanto, a ocupação da Espanha pelas tropas napoleônicas, em 1808, criou um vazio de poder, que foi aproveitado pela burguesia da capital mexicana, apoiada num vice-rei de tendências liberais, José de Iturrigaray, para formar uma junta de governo. As classes mais conservadoras, muito poderosas, dissolveram a junta em setembro do mesmo ano, e o vice-rei foi preso e enviado para a Espanha. Em nome de Fernando VII exerceram o poder sucessivamente o marechal de campo Pedro de Garibay e o arcebispo Francisco Javier de Lizana y Beaumont, até que o novo vice-rei, Francisco Javier Venegas, tomou posse em setembro de 1810.
Nas intendências de Valladolid e Guanajuato organizou-se um grupo conspirador que preparava a revolução pró-independência e planejava ao mesmo tempo uma reforma social profunda. Em setembro de 1810, vários dos conjurados foram detidos, mas outros conseguiram escapar. Um destes últimos, o pároco da vila de Dolores, Miguel Hidalgo y Costilla, precipitou o movimento com o chamado "grito de Dolores". Hidalgo conseguiu reunir um exército de camponeses sem-terra e apoderou-se da rica cidade mineira de Guanajuato. As chacinas então ocorridas alijaram a simpatia dos setores liberais criollos, mas o exército de Hidalgo, que já somava oitenta mil homens, venceu as bem armadas tropas realistas. Mais tarde, o general espanhol Félix María Calleja, à frente de dez mil homens, derrotou e perseguiu Hidalgo, que estabeleceu um efêmero governo em Guadalajara, o qual decretou a abolição da escravatura e a devolução de terras aos indígenas. Em julho de 1811, Hidalgo e vários de seus colaboradores foram presos e executados.
A sublevação foi mantida viva durante vários anos por outro sacerdote, o mestiço José María Morelos, que se revelou excelente estrategista. Liderou a luta no sul do território, do qual chegou a dominar boa parte. Convocou em Chilpancingo um congresso que, em novembro de 1813, declarou a independência e promulgou uma constituição. Morelos, pressionado por tropas realistas, tentou retirar-se para o norte do país, mas em novembro de 1815 foi preso em Texmalaca. Sua execução, um mês depois, marcou o começo de um período de relativa estabilidade no vice-reino, no qual somente algumas guerrilhas isoladas perturbaram o domínio espanhol.
O triunfo do golpe de Rafael del Riego na Espanha, nos primeiros dias de 1820, teve como conseqüência paradoxal o ingresso nas fileiras pró-independência das classes altas mais conservadoras, que, com o novo regime espanhol, viam perigar seus privilégios. No sul do país, a guerrilha atuava sob o comando de um novo caudilho, Vicente Guerrero. Contra ela foi enviado um exército liderado por Agustín de Iturbide. Entretanto, os chefes chegaram a um acordo, o plano de Iguala, pelo qual se celebrou a declaração de independência sob um teórico domínio da coroa espanhola e sobre a base do respeito aos privilégios da Igreja Católica. Esse projeto de independência para um México conservador e absolutista reuniu em torno de si as principais forças políticas do país, e o vice-rei espanhol, Juan Ruiz de Apodaca, teve que renunciar. Pelos tratados de Córdoba, Iturbide estipulou com o novo vice-rei liberal, Juan O'Donojú, a retirada sem luta das tropas espanholas e a formação de um governo provisório. O México alcançou por fim a independência, em 28 de setembro de 1821.
A momentânea convergência de interesses entre os principais setores da sociedade mexicana -- oligarquia de latifundiários, burguesia liberal e campesinato sem terras -- durou pouco tempo. Num primeiro momento, pareceu triunfar o projeto absolutista da oligarquia. Após conseguir que grande parte da América Central se incorporasse voluntariamente ao novo estado independente, Iturbide deu um golpe de estado em 18 de maio de 1822, silenciou os elementos liberais do Congresso e se fez proclamar imperador com o nome de Agustín I. A reação de Guerrero, que se lançou de novo à guerrilha, e a sublevação do general Antonio López de Santa Anna em Jalapa, Veracruz, forçaram a abdicação do imperador em março do ano seguinte. Desterrado, Iturbide tentou recuperar o poder um ano mais tarde, mas foi capturado e executado. O Congresso, dominado pelos liberais, aprovou uma constituição republicana e federal. Em 4 de outubro de 1824, prestava juramento o primeiro presidente dos Estados Unidos Mexicanos, o general Guadalupe Victoria.
República: Santa Anna. Os primeiros tempos da nova república foram difíceis. Com a abdicação de Iturbide, os territórios da antiga audiência da Guatemala se separaram do México, com exceção de Chiapas. As lojas maçônicas lutavam entre si pelo poder e em poucos anos sucederam-se vários golpes de estado. Por outro lado, o país não conseguia reanimar a economia e se endividava com o Reino Unido. Em 1825 foi abolida a escravidão. As tensões internas provocaram a expulsão de residentes espanhóis em 1827. Dois anos mais tarde foi rechaçada a invasão de um corpo expedicionário espanhol, que tentou desembarcar em Tampico para reconquistar a antiga colônia. A situação social era instável, e os sucessivos governos não puseram fim à submissão semifeudal das massas campesinas.
Guerrero se ergueu em armas contra o governo, mas após alguns êxitos iniciais, foi derrotado e fuzilado em fevereiro de 1831. O general Santa Anna se revoltou pouco depois e, no ano seguinte, eleito presidente da república, fez reformar a constituição segundo um modelo centralista. Santa Anna dominou a cena política mexicana durante mais de duas décadas. Foi um período de anarquia militar, revoltas e problemas econômicos e sociais. Em 1836, o território do Texas, no qual se havia fixado grande número de colonos procedentes dos Estados Unidos, proclamou sua independência. Santa Anna correu à frente de seu exército para sufocar a rebelião, mas foi derrotado pelo general Samuel Houston em San Jacinto e obrigado a reconhecer a independência do território.
Nove anos mais tarde reiniciou-se a guerra, dessa vez com intervenção direta dos Estados Unidos. Um corpo expedicionário procedente de Nova Orleans ocupou a cidade de Veracruz, de onde avançou até tomar a capital mexicana. Em 2 de fevereiro de 1848, firmou-se o Tratado de Guadalupe Hidalgo, pelo qual o México teve que ceder aos Estados Unidos o Texas, a Alta Califórnia e o Novo México.
Novamente no poder, Santa Anna não foi capaz de controlar a situação de desordem em que se achava o país. Para equilibrar as finanças públicas, não encontrou melhor solução do que a venda de novos territórios aos Estados Unidos por dez milhões de dólares. Isto provocou uma forte reação nacionalista que obrigou o caudilho a abandonar definitivamente o país em 1855.
Benito Juárez e Maximiliano. Após a fuga de Santa Anna, tomou o poder um governo liberal presidido por Juan Álvarez e apoiado por amplos setores populares. Logo destacou-se entre os liberais Benito Juárez, um índio zapoteca que, como governador de Oaxaca, seu estado natal, se distinguira pela honestidade e eficiência. Juárez impôs uma legislação de caráter progressista, que irritou a igreja e os setores mais conservadores e fez recrudescer a oposição ao governo liberal. Este reagiu com a promulgação, em fevereiro de 1857, de uma constituição laica e progressista. Apesar disto, o presidente Ignacio Comonfort, incapaz de enfrentar a excomunhão decretada pelos bispos, renunciou e o partido clerical proclamou presidente o conservador Félix Zuloaga. Um grupo de representantes liberais se reuniu em Querétaro, reafirmou a constituição de 1857 e proclamou Juárez presidente. O país se viu de novo numa revolução civil, a guerra da reforma, que durou três anos.
Em 11 de janeiro de 1861, Juárez entrou triunfante na capital. Os bens da igreja foram desapropriados e as hierarquias eclesiásticas desterradas. Juárez decretou também a suspensão do pagamento da dívida externa durante dois anos, o que foi tomado como pretexto por algumas potências européias para promover uma intervenção militar. Em janeiro de 1862, chegou a Veracruz uma expedição conjunta de britânicos, franceses e espanhóis. O general Juan Prim, chefe das tropas espanholas, negociou com as autoridades mexicanas e logo retirou suas tropas. O contingente britânico também deixou o México, mas as tropas francesas enviadas por Napoleão III não aceitaram negociações e, após uma derrota inicial, foram reforçadas e se apoderaram da capital em 11 de junho de 1863.
Um plebiscito convenientemente convocado pelas tropas de ocupação e seus colaboradores, muito numerosos entre as classes altas, transformou o México em império e ofereceu a coroa ao candidato de Napoleão, o arquiduque austríaco Maximiliano de Habsburgo. Maximiliano I instalou sua corte na Cidade do México em junho de 1864, mas seu relativo liberalismo e respeito pela legislação progressista de Juárez provocaram o distanciamento da igreja e das classes conservadoras, embora nem por isso lograsse ampliar sua base entre os liberais e o povo. Juárez, enquanto isto, se fortaleceu no norte do país; só a presença do corpo expedicionário francês garantia o poder imperial. Quando Napoleão III, em 1867, decidiu retirar suas tropas, Maximiliano ficou a mercê do caudilho liberal. Após ser derrotado em Querétaro, o imperador foi feito prisioneiro e fuzilado nesta mesma cidade. Em 15 de julho de 1867, Benito Juárez fazia sua entrada triunfal na capital mexicana. Seu governo, interrompido por sua morte em julho de 1872, caracterizou-se por uma profunda reforma administrativa, da educação e da justiça; Juárez fincou os alicerces do México como uma nação moderna, laica e progressista.
O "porfiriato". Com a morte de Juárez, de novo começou a discórdia civil. Sebastián Lerdo de Tejada continuou a obra de seu antecessor, mas foi derrotado por uma revolta. O general Porfirio Díaz, que se destacara na luta contra Maximiliano, fez-se proclamar presidente da república em maio de 1877. Seu domínio sobre o México se prolongou durante mais de seis qüinqüênios, embora em 1880 e 1884 Manuel González tenha sido nomeado presidente da república.
Foram anos de progresso material, durante os quais teve início a industrialização do país e consolidou-se o mercado interno, graças à construção de estradas e ferrovias. Esses meios de transporte tornaram acessíveis as terras tropicais do sul, onde se estenderam os cultivos de café e sisal, e as grandes extensões semidesérticas do norte, onde se desenvolveram as fazendas de gado e os campos irrigados. Porfirio Díaz conseguiu dar consistência à imagem do México no exterior, cumpriu escrupulosamente as obrigações internacionais e começou a ser considerado um interlocutor válido pelas grandes potências do momento. No entanto, internamente o porfirismo se apoiou na corrupção generalizada. As grandes massas sem terras não viram melhorar sua situação, enquanto um incipiente proletariado urbano começava a agitar-se nas principais cidades. Sob uma aparente normalidade constitucional, o poder férreo de Díaz conseguiu manter o país livre das discórdias civis durante um longo período, pela primeira vez na história do México independente.
Revolução. As diferenças econômicas entre uma classe alta cada vez mais rica e um povo faminto e analfabeto tornaram-se cada vez maiores até que uma nova reeleição de Porfirio Díaz, tida como fraudulenta, fez alastrar-se pelo país uma forte onda de descontentamento. A revolução explodiu em novembro de 1910. Porfirio Díaz se viu obrigado a seguir para o exílio em maio de 1911, e morreu pouco depois em Paris. Assumiu a presidência da república seu principal oponente, Francisco Madero. Com o assassinato deste, em fevereiro de 1913, subiu ao poder Victoriano Huerta, que ignorou a constituição enquanto o país se afundava na guerra civil; os Estados Unidos, que apoiavam a oposição constitucional contra o golpista Huerta, apoderaram-se temporariamente de Veracruz. Vários caudilhos populares -- Emiliano Zapata, Venustiano Carranza, Álvaro Obregón, Francisco Villa -- pressionaram Huerta, que teve que abandonar o poder em 1914. Uma convenção realizada em Aguascalientes não conseguiu resolver a rivalidade entre os caudilhos revoltosos. Carranza tomou o poder e com o apoio de Obregón derrotou Villa e Zapata; em 1917, promoveu também a redação de uma constituição avançada, mas a situação política estava ainda muito distante da normalidade.
Consolidação política. Após o assassinato de Zapata e a derrota de Carranza pelo general Obregón, um acordo político entre os caudilhos revolucionários sobreviventes proporcionou ao país, por fim, a ansiada paz. Adolfo de la Huerta foi indicado presidente interino e pôs em marcha uma profunda reforma agrária. A Huerta seguiu-se o primeiro presidente plenamente constitucional, Obregón, que impulsionou a divisão de terras e a reorganização do sistema educativo.
Durante o governo do general Plutarco Elías Calles (1924-1928) ocorreu a primeira institucionalização do regime revolucionário. Em 1925, criou-se o Banco do México. Entre 1927 e 1930, entretanto, a aplicação de leis anticlericais levou a uma sangrenta rebelião camponesa, concentrada principalmente no oeste do país.
Embora os princípios revolucionários fossem contrários à reeleição, Obregón se reelegeu em janeiro de 1928, mas foi assassinado pouco antes de tomar posse, o que levou ao poder Emilio Portes Gil. Diante do perigo de um novo período de discórdias, Calles conseguiu reunir os diferentes grupos revolucionários e criou, em 1929, o Partido Nacional Revolucionário, chamado desde 1938 Partido da Revolução Mexicana e, desde 1946, Partido Revolucionário Institucional (PRI). Graças ao apoio desse partido, os líderes puderam suceder-se uns aos outros de forma pacífica e sem provocar grandes traumas na vida civil. Pascual Ortiz Rubio assumiu, em 1930, a presidência da república, e foi substituído três anos mais tarde, devido a suas disputas com Calles, por Abelardo Rodríguez. O general Calles, último sobrevivente das grandes figuras da revolução, exerceu forte influência sobre o processo político até 1935, ano em que foi afastado da vida pública pelo presidente Lázaro Cárdenas, a quem havia ajudado a eleger.
A revolução institucionalizada. Entre 1934 e 1940, o país foi governado por Lázaro Cárdenas, que acentuou o caráter reformista do governo com a nacionalização das ferrovias e da indústria petroleira. Fortaleceu o poder dos sindicatos de trabalhadores e ajudou o governo republicano da Espanha na guerra civil que assolou aquele país de 1936 a 1939. A melhoria nas relações entre a igreja e o estado favoreceu a paz social, e a proximidade dos Estados Unidos contribuiu para a estabilização política. O longo período revolucionário e reformista chegava ao fim. Em 1940, o México já era um país moderno e independente, socialmente progressista e com bases sólidas para empreender um firme desenvolvimento econômico.
O presidente Manuel Ávila Camacho (1940-1946) procurou mais a fixação do sistema do que sua renovação. Melhorou as relações com a igreja e alinhou o México com as potências aliadas na segunda guerra mundial. A principal contribuição do México aos aliados foram as matérias-primas para a indústria bélica americana. As dificuldades de abastecimento externo obrigaram a acelerar o processo de substituição de importações por artigos de produção nacional, o que favoreceu o desenvolvimento da indústria leve.
Miguel Alemán (1946-1952) concentrou seus esforços no estímulo a novas fontes de riqueza. Durante seu governo praticamente ficou paralisada a reforma agrária, embora tenha prosseguido com vigor a industrialização do país. Sucederam-lhe Adolfo Ruiz Cortines (1952-1958) e Adolfo López Mateos (1958-1964). O primeiro buscou uma estabilização das finanças públicas, desequilibradas no regime anterior, e outorgou o voto feminino (1955); o segundo promoveu maior crescimento e nacionalizou a indústria elétrica.
Gustavo Díaz Ordaz (1964-1970) conseguiu em seu governo um rápido crescimento econômico num quadro de inflação reduzida. Mas a partir de julho de 1968 teve de enfrentar um movimento estudantil de protesto de força crescente, que culminou em 2 de outubro -- pouco antes do início dos Jogos Olímpicos no país -- com uma matança de estudantes na praça das Três Culturas, em Tlatelolco. Luís Echeverría (1970-1976) tentou converter o México em vanguarda política dos países do Terceiro Mundo e adotou uma retórica cada vez mais radical. Aumentou desmesuradamente os gastos públicos, o que se traduziu numa crescente inflação e num forte aumento da dívida externa. Isso provocou uma drástica desvalorização do peso, em agosto de 1976, após 22 anos de estabilidade cambial.
José López Portillo (1976-1982) manteve uma política de austeridade durante os primeiros anos de governo, com o que reduziu o déficit e a inflação. Aproveitou os altos preços internacionais do petróleo para promover fortemente a indústria petrolífera e aumentar mais uma vez a despesa pública. Além disso, quadruplicou a dívida externa do país. Diante da escalada inflacionária, o peso se desvalorizou novamente em 1982, em meio a uma aguda fuga de capitais. O governo se viu obrigado a renegociar os pagamentos da dívida externa e estatizou os bancos, sem com isso conseguir pôr fim à crise.
Miguel de la Madrid Hurtado (1982-1988) reduziu o gasto público numa tentativa de diminuir a inflação, mas o elevado serviço da dívida externa, as conseqüências de um devastador terremoto em 1985 e a abrupta queda do preço do petróleo dificultaram o êxito de sua tentativa. Ainda que o crescimento econômico tenha praticamente cessado, as finanças nacionais foram consideravelmente saneadas.

Carlos Salinas de Gortari assumiu a presidência em 1988, depois das eleições mais disputadas na história do país. Deu início a um programa de desestatização e privatizou três siderúrgicas deficitárias. Em 1991, foi aprovada a emenda que derrubou a lei que bania o ensino religioso e proibia os sacerdotes de votar. Em setembro de 1992, Salinas reatou com o Vaticano e pôs fim a um afastamento de 125 anos. A 1º de janeiro de 1994, dia em que entrou em vigor o acordo do NAFTA (Área de Livre Comércio da América do Norte), grupamento econômico que reunia México, Estados Unidos e Canadá, um grupo guerrilheiro do estado de Chiapas iniciou um movimento armado reprimido com vigor pelo governo. Em 23 de março de 1994, o candidato à sucessão presidencial pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), Luis Donaldo Colosio Murrieta, foi assassinado em Tijuana, após um comício. Nas eleições de 21 de agosto, venceu seu correligionário Ernesto Zedilla, que tomou posse em 1º de dezembro. Logo depois, porém, uma forte desvalorização do peso precipitou uma fuga dos capitais estrangeiros e provocou uma grave crise no país. A economia mexicana se recuperou a partir de 1996 e o país chegou a apresentar um crescimento de 7% ao ano.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A VOLTA AO MUNDO DE FERNÃO DE MAGALHÃES

De 1271 até 1522, diversos conquistadores  travaram batalhas contra o mar, a natureza e sua própria imaginação para buscar especiarias e pedras preciosas em terras desconhecidas. Este período de expansionismo marítimo foi marcado, respectivamente, por: Marco Pólo (1271-1275), Bartolomeu Dias (1487-1488), Cristóvão Colombo (1492-1498), Cabot (1497-1498), Vasco da Gama (1497-1488), Pedro Álvares Cabral (1500) e Fernão de Magalhães (1519-1522), este fez a primeira viagem em volta do mundo. Entre todos os navegadores citados, Fernão percorreu o maior caminho.
 Nesta época, as descrições e mapas do mundo eram imprecisos. Supunha-se que a África estava ligada à Ásia e se acreditava na existência de outro continente abaixo do oceano Índico. Foram com estas informações que os conquistadores exploraram os mares. A cada nova expedição, os conhecimentos geográficos e equipamentos melhoravam. Foi criado o astrolábio, a bússola, quadrantes e portulanos – roteiros de descrições de viagens.
 Alfred Crosby, em seu livro Imperialismo Ecológico, fala sobre o avanço obtido pelos navegadores: “O problema não resolvido era o vento. Não que se ignorasse o modo de controlar a sua força: a vela quadrada, cristã, e a vela latina triangular; muçulmana, usadas cada vez mais em combinação à medida que o século avançava, teriam conduzido Fernão de Magalhães pelo Pacífico em 1421 quase tão bem quanto fizeram em 1521”. Porém, dois anos antes, em 1519, a expedição de Fernão de Magalhães e Francisco Anttônio Pigaffeta, que escreveu muitas descrições utilizadas por geógrafos e historiadores, rumou para a primeira viagem de circum-navegação.
 A viagem foi apoiada pela Espanha e, primeiramente, foi de encontro ao Atlântico Sul, passando pelo local que atualmente é conhecido como Estreito de Magalhães e prosseguindo pelo Oceano Pacífico. Considerada a primeira viagem em torno da Terra, a expedição de Fernão de Magalhães durou aproximadamente três anos e teve muitas baixas em seu percurso.
 De acordo com alguns historiadores, 237 homens estavam a bordo dos cinco navios que saíram da Espanha no início da viagem. Ao retornarem, apenas 18 homens foram encontrados nas embarcações. Apesar das mortes, o escritor e navegador Pigaffeta pode transmitir seus relatos, que acabaram por endossar a teoria de que a Terra era redonda.
Felipe Araújo.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A divindade suprema da mitologia egípcia era Rá, o deus do Sol e senhor da criação que, segundo a lenda, foi o primeiro rei do Egito e deixou a Terra por causa da mesquinhez da humanidade.
Rá era o deus oficial dos faraós egípcios, que se consideravam a um só tempo seus filhos e a própria reencarnação do deus. Inicialmente apenas uma entre as várias divindades solares do início do antigo império, por volta de 2400 a.C. já se convertera no deus dos faraós e representante da justiça. No médio império sua importância foi ofuscada pelo culto a Osíris. Os faraós tebanos da XVIII dinastia, que deram início ao novo império em 1570 a.C., impuseram a todo o Egito o culto a Amon-Rá, venerado como o "único criador da vida", resultado do sincretismo entre Rá e o deus local Amon.

A lenda conta que Rá cruzava o céu de dia em sua barca solar e, à noite, viajava em outra barca através do mundo subterrâneo. Antes do novo dia, devia derrotar a maléfica serpente Apepi. Símbolo da luz solar, doadora da vida, e do ciclo de morte e ressurreição, sua representação mais freqüente era a de um homem com cabeça de falcão, sobre a qual trazia o disco do Sol, emergindo do caos para diferenciar a si mesmo e criar os outros deuses.
Fonte: Enciclopédia Barsa.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

CAVALARIA MEDIEVAL

A cavalaria medieval  foi uma instituição feudal formada por cavaleiros nobres, sendo reconhecidos por todos os ideais de coragem e imponência associados a eles, principalmente pela literatura. Dentro da cavalaria haviam os cavaleiros de fato (os miles), homens que eram obrigados a se recrutarem (os lanças), os escudeiros, selecionados por ordens religiosas e os cavaleiros da espora dourada (homens ricos, porém sem títulos de nobreza).
 Tais cavaleiros eram regidos pelo Código da Cavalaria, que foi um sistema de moral, onde explicitava que os cavaleiros deveriam defender aqueles que não tinham capacidade de se proteger, como viúvas, crianças e idosos. Além disso, todos os cavaleiros deveriam ser homens aptos a lutarem em guerras, da Idade Média, quando fossem convocados. Não era necessário apenas serem fortes, mas também, os cavaleiros deveriam ser extremamente disciplinados, além de lhes ser permitido dizer apenas a verdade em todas as ocasiões. Além disso, eram jurados de proteger a honra de todos da Cavalaria e da Igreja, sempre obedecendo a hierarquia de comando, e jamais podendo recusar o desafio de um semelhante. Essencialmente, um cavaleiro da Cavalaria era um militar cristão.
 Especificamente, as regras do Código da Cavalaria podiam ser resumidas em alguns "mandamentos":
1.Acreditar nos ensinamentos da Igreja e observar todas as direções que a Igreja mostrar;
2.Defender a Igreja;
3.Respeitar e defender todos os indefesos.
4.Amar o seu país.
5.Não recuar diante de um inimigo: Um covarde, apenas, poderia desencorajar um exército inteiro.
6.Mesmo se os cavaleiros soubesse que a morte estava próxima, deveriam morrer lutando do que demonstrar fraqueza.
7.Não mostrar misericórdia para com os infiéis, e não hesitar em participar dos conflitos contra eles.
8.Desempenhar todas as tarefas acordo com as leis de Deus.
9.Nunca mentir ou desdizer uma só palavra. Sinceridade e honra foram duas das características mais importantes de cavaleiros de cavalaria.
10.Demonstrar generosidade com todos.
11.Sempre, e qualquer lugar, ser certo e bondoso.
 O termo da "Cavalaria" foi primeiro usado em 1292, trazido do francês antigo "chevalerie" (cavaleiro), um substantivo abstrato formado no século 11 com base no "chevalier" (cavaleiro). Entre os séculos XI e XV, muitos dos escritores medievais usaram a palavra "Cavalaria", com diversos significados que mudaram ao longo do tempo, mas, geralmente, associada à sua relação com indivíduos militares que cavalgavam cavalos de batalha que serviam à moral Cristã, dando origem ao gênero que se tornaria popular no século XII, do ideal de amor cortês do cavaleiro medieval. Por volta do século XV, o termo se desvinculou das suas origens militares, não menos importantes, por causa do estrondoso aumento dos números de infantaria durante o século XIV, confinando os cavaleiros aos torneios fechados.
 Independente dos tantos termos e definições sobre a cavalaria, o cavaleiro medieval sempre foi um perito na arte da guerra, treinados em combates com armaduras, cavalos, lanças, espadas e escudos pesados. Também eram incentivados a mostrar a coragem e a lealdade. A prática heráldica, e todas suas regras elaboradas na produção de brasões, também sempre estiveram relacionadas à cavalaria. Quando não estavam em batalha, geralmente, os cavaleiros residiam em castelos ou fortalezas, onde viviam nas cortes dos reis, duques e outros grandes senhores. Nos tempos de paz, as habilidades dos cavaleiros eram usadas durantes os torneios e as grandes caçadas.
 O Cristianismo teve uma grande influência sobre o conceito clássico do heroísmo e da virtude, hoje relacionados com as virtudes da Cavalaria. O movimento conhecido como "A Paz e a Trégua de Deus" é um forte exemplo disso, quando pôs diversos limites nos cavaleiros, obrigando-lhes a proteger e honrar os membros mais indefesos da sociedade, além de sempre se mostrarem dispostos a auxiliar a Igreja a manter a paz e a ordem. Simultaneamente, a Igreja tornou-se mais tolerante com a guerra em defesa da fé, defendendo a ideia da "guerra justa". Também foram criadas liturgias que serviam para abençoar os armamentos de guerra dos cavaleiros, como a espada e armadura.
Gabriella Porto 

terça-feira, 9 de julho de 2013

TIO PATINHAS

Patinhas McPato ou Patinhas Mac Patinhas, conhecido como Tio Patinhas (Scrooge McDuck), é uma personagem estadunidense de ficção criado pelo cartunista Carl Barks. Sua primeira aparição em quadrinhos  se deu em dezembro de 1947.
  Ao longo das décadas, Patinhas foi promovido de coadjuvante nas histórias do universo de Patópolis a protagonista de suas próprias aventuras, com direito a participação em vários especiais de televisão, filmes e videogames. A série de animação de 1987 DuckTales acompanha as aventuras de Patinhas, seus sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luisinho , pois Donald entra para a marinha no primeiro episodio do desenho animado.
 O nome original de Patinhas, Scrooge McDuck, se baseia no avarento Ebenezer Scrooge, personagem principal do Conto de Natal de Charles Dickens. Tal como muitos outros habitantes de Patópolis, Patinhas se tornou popular no mundo inteiro, mais ainda na Europa, e tem sido traduzido em inúmeros idiomas.
Tïo Patinhas, surgiu nos quadrinhos em dezembro de 1947 em "Natal nas Montanhas" ("Christmas on Bear Mountain"), história escrita e desenhada por Carl Barks. Patinhas era um velho barbudo, de óculos e razoavelmente rico, que andava curvado sobre sua bengala e vivia isolado numa "grande mansão". Na história, Patinhas convida seu sobrinho Pato Donald e sobrinhos-netos Huguinho, Zezinho e Luisinho para sua cabana nas montanhas, planejando armar um susto e divertir-se com a desgraça dos sobrinhos.
 A figura de um pato escocês já havia sido usada pela Disney em um desenho chamado O Espírito de 1943, propaganda americana de guerra e que, portanto, é considerado um desenho banido comercialmente. Naquela ocasião esse pato fora a parte da consciência do Pato Donald, ou seja, a parte poupadora, que estava em conflito com a parte gastadora, curiosamente parecida com o futuro personagem Gastão, que também seria recriado na mesma época que Patinhas.
 Na verdade, Barks criara Patinhas para uma aparição única, mas logo decidiu que poderia aproveitar o personagem em outras histórias. Barks seguiu retocando a aparência e a personalidade de Patinhas nos anos subsequentes.
Tio Patinhas está presente nos quadrinhos no Brasil desde 1950, quando foi atração da edição número 1 de O Pato Donald. A revista Almanaque Tio Patinhas (mais tarde simplesmente Tio Patinhas) foi lançada em 1963, mantendo-se como um título de sucesso da Editora Abril até hoje.
 Desde os anos 60 os artistas de quadrinhos brasileiros têm produzido incontáveis histórias de Tio Patinhas, o que reforçou seu posto de destaque entre as personagens Disney. A maioria das histórias brasileiras retrata o cotidiano do jornal de Patinhas A Patada, no qual Donald e Peninha são repórteres.
 O primeiro dos manuais Disney inteiramente produzido no Brasil foi o Manual do Tio Patinhas (1972). Em 1977 Patinhas ganhou destaque como personagem do fascículo número 1 do Grande Almanaque Disney, relançado como O Grande Livro Disney.
Fonte: Wikipédia.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

POSSIBILIDADES DE ALTERAÇÃO DO NOME CIVIL

A Lei 6.015 de 1973 (Registros Públicos), de forma especial, possui dispositivos reguladores das eventuais alterações de nome, o que confere a possibilidade de efetivar modificações que se amoldem a necessidade do individuo, desde que não tragam prejuízos sociais, quando implementada, principalmente quanto a perfeita identificação e responsabilização da pessoa na sociedade.
 Nesta abordagem que se trata da pessoa natural, cabe destacar alguns pontos mais relevantes, visto que, nas décadas de vigência da lei, a prática da jurisprudência brasileira trouxe novos rumos e reconfigurações, inclusive pelas modulações nas condutas sociais e na própria evolução do pensamento jurídico.
 É relevante perceber que ainda persiste a elementar confusão entre prenome, nome e patronímico ou nome de família. Em síntese, o prenome é a primeira palavra ou trecho do nome, o nome é o conjunto completo da identificação, e o patronímico é o fragmento do nome da família que pertence o registrando.
 A partir de 1988, o denominado pátrio poder se transmudou em poder familiar, decorrendo disto, a maior aceitação de agregar ou incluir no registro de nascimento tanto o nome da família paterna quanto da materna, ou mesmo de ambos. Neste particular também é possível a inclusão do nome de família dos adotantes, nos casos que assim concedida à maternidade e/ou paternidade.
 A forma mais simples de alteração pode ocorrer quando patente e indiscutível erro gráfico no registro originário, pelo permissivo legal de retificação rápida e direta, no próprio cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais (RCPN), onde se encontra o registro da certidão de nascimento do individuo, através de requerimento administrativo, perante o tabelião responsável.
 Quanto às situações de nomes considerados ridículos (Sugismundo, Antenado Jose de Abreu, Eloucobrando Gonçalves...) praticamente foram banidos do mundo jurídico para os novos registros efetuados. Entretanto, anteriormente, quando não havia a devida filtragem legal, muitos nomes foram registrados sem parcimônia. Para estes casos também é possível a devida retificação, desde que detectado o nome esdrúxulo, que provoque situações constrangedoras e/ou vexaminosas.
 Possível a pretensão de alguns em efetuar acréscimos por conta de apelidos ou alcunhas que possuam, na esfera do conhecimento público e notório, o que tem motivado a jurisprudência enquadrar tais pedidos no universo de possíveis alterações ou inclusões ao nome originário.
 Fato é que, temos exemplo de personalidades do mundo político, artístico e outros segmentos sociais que, em razão de apelidos e até pseudônimos que utilizam ao longo do tempo, ficam mais conhecidos pela alcunha do que pelo nome inscrito no RCPN.
 Quanto ao casamento e divórcio parece não existir dúvidas quanto a possibilidade de inclusão/exclusão recíproca de nomes entre o casal. Destaque para as uniões familiares através do instituto da união estável, que também por decisão do STJ, em determinados casos, possibilita ajustar os nomes dos conviventes ao interesse de ambos.
 Nessa mesma linha, a partir de decisão do STF no ano de 2011, os casais homoafetivos adquiriram a possibilidade de efetuarem união estável, nas mesmas condições, e mais recentemente, em alguns Estados da federação, podem adequar seus nomes no ato da lavratura da certidão de casamento civil, junto ao cartório realizador do ato jurídico.
 No que se refere aos menores de idade que porventura possuam nomes que criem embaraço ou constrangimento (principalmente no que tange ao prenome), é possível pedir a devida alteração ainda na condição de menor, solicitando a seus responsáveis que procurem o RCPN ou Judiciário para ingressar com o respectivo pedido de alteração/ retificação. Caso os responsáveis não se interessem pelo ingresso, o menor possui autonomia para dirigir-se ao Conselho Tutelar, ao Juiz ou Promotor da Vara de Infância e da Juventude, ou ainda, imediatamente quando completar a maioridade, requerer em nome próprio a devida retificação/alteração com os fundamentos e motivações justificadores do pedido.
 Para àqueles casos em que os indivíduos possuem indicação clínica e psicossocial para as cirurgias de transgenitalização, com acompanhamento médico, psicológico e judicial, existe a possibilidade de alteração do nome para o novo gênero, sem que conste nos registros a condição anterior, objetivando evitar constrangimentos. Neste ponto, desde 1989 existe precedente autorizativo do Judiciário do Estado do Rio de Janeiro, que analisou caso concreto de alteração de nome de gênero, independente de cirurgia modificativa, no que alguns especialistas denominam “nome social”.
 Outra hipótese relevante ocorre quando uma determinada pessoa se submete ao sistema de proteção de testemunhas, previsto na Lei 9.807/99, ocasião em que também se permite a mudança e alteração de nome, mantido o devido sigilo da mudança, pela óbvia justificativa de proteção.
 Em síntese, a Constituição, mãe de todas as leis e normativos, modula os entendimentos jurisprudenciais e norteia as adequações dos dispositivos legais que tratam do assunto, sempre com o esteio na vertente de privilegiar a dignidade da pessoa humana, naquilo de mais particular que possui: o seu nome de identificação perante a sociedade.
Vandeler Ferreira da Silva 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA

Nascido no meio dos anos 70, ouvi falar de Idi Amim pela primeira vez quando os Titãs cantaram a música "Nome aos bois", no disco Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987). Ele estava logo depois de Sérgio Dourado e era seguido por Plínio Correia de Oliveira e Plínio Salgado. Mas uma coisa eu sabia: ser citado ao lado de Garrastazu, Stalin, Hitler e Mussolini não era boa coisa.
 O último rei da Escócia (The last king of Scotland, 2006) conta um pouco da história de Idi Amin, o ditador que governou Uganda entre 1971 e 1979. Nascido no interior, ele serviu o exército inglês durante a época em que o país ainda era uma colônia britânica. Com a independência, em 1962, ele subiu rapidamente de patente, chegando a ser chefe do exército em 1966, sob comando do presidente Milton Obote, que ele mesmo destituiu do poder, no golpe militar de 1971, quando Obote ameaçava abrir investigação de desvio de verbas.
 O longa, porém, procura dar ao sanguinário ditador algumas feições humanas. O projeto é uma adaptação de um romance homônimo, escrito por Giles Foden. No livro, o autor cria a figura de um jovem escocês, Nicholas Carrigan (James McAvoy), que acaba se tornando o médico pessoal e confidente do governante ugandense. Nicholas, acuado pelo jeito como seu pai o tratava, resolve pegar seu recém-conseguido diploma de medicina e partir para o mundo em busca de aventuras, mulheres e experiência profissional. Acaba em Uganda, trabalhando em condições precárias no interior do país. Após um acidente com o presidente, ele é chamado para prestar primeiros-socorros e com seu jeito sincero e direto conquista Idi Amin, que já tinha admiração pelos escoceses e o convida para o cargo de confiança.
 A mudança para a capital parece ser o oposto do que Nicholas pretendia. Mas usando o seu carisma, Amin convence o jovem que ali, ao seu lado, ele poderia fazer ainda mais coisas por Uganda do que no meio do mato. Inebriado pelo poder, pela riqueza e pelas grandiosas festas oferecidas pelo presidente, o médico fica e vai descobrindo uma outra faceta do ditador, que não consegue ser contrariado e usa seu poder para se impor sobre os adversários.
 Diferente de outros filmes sobre a África que vêm sendo feitos recentemente, como Hotel Ruanda (2004), ou Diamantes de Sangue (2006), O último rei da Escócia pega leve quando o assunto é mostrar as barbaridades que aconteceram por lá. Estima-se que Amin tenha matado entre 300 mil e meio milhão de pessoas durante o seu regime, mas este seu lado mais feroz só aparece mesmo na parte final do filme, quando Nicholas começa a enxergar quem o general realmente era e a temer pela sua própria vida. Para se ter uma idéia, desmembramento de uma de suas esposas e até canibalismo são exemplos freqüentemente atribuídos ao ex-líder, morto em 2003, exilado na Arábia Saudita. Torturas e assassinatos daqueles que não comungavam da sua visão de governo também estão na lista.
 Esta figura instável, da qual não se sabe se virá um ataque ou um sorriso, deve render a Forest Whitaker seu primeiro Oscar de Melhor Ator. Merecido. Todo aquele discurso dos atores de que eles não interpretam vilões, mas sim pessoas com visões diferentes do mundo, se encaixa perfeitamente aqui. Whitaker consegue mostrar na tela que Amin achava que estava fazendo o melhor pelo seu país, pelo seu povo. Tanto é que até hoje o ex-ditador é lembrado com uma certa afeição por alguns ugandenses. Durante as filmagens, toda feita no país, um general disse ao ator "Sim, Amin matou meu pai, mas ele também fez coisas maravilhosas pelo país". O diretor Kevin MacDonald, documentarista premiado, estréia na ficção mostrando a redenção de Nicholas. Agora só falta o resto do Ocidente também mostrar seu arrependimento e começar a ajudar o continente africano, que não está muito melhor do que na época e Idi Amin.

Marcelo Forlani

terça-feira, 2 de julho de 2013

MODERNIZAÇÕES, NOVAS TECNOLOGIAS, NOVOS PENSAMENTOS E MODO DE VIDA DO SÉCULO XIX

As Ciências e a Medicina
            O século XIX caracterizou-se  por uma verdadeira revolução no conhecimento humano. Na Biologia, a visão racional suplantou a interpretação religiosa e passou a explicar os mais diversos fenômenos, apesar da resistência da maioria das populações e das religiões. O grande expoente das Ciências Naturais do século XIX foi o inglês Charles Darwin, celebrizado por sua teoria “a origem das espécies”, ao usar a ideia de seleção natural. Sua obra, publicada em 1859, causou enorme alvoroço em várias partes do mundo. Segundo Darwin, a evolução dos seres vivos se dá a partir da sobrevivência dos mais fortes e capazes de se adaptar ao meio natural. Para completar suas teorias, escreveu em 1871, a Origem do Homem, defendendo a ideia de que haveria um ancestral comum que teria dado origem a macacos e seres humanos. Ele foi criticado e ridicularizado no meio religioso e inclusive por cientistas de formação cristã que defendia a versão bíblica da criação da humanidade. Essa versão bíblica ganhou áreas de ciência, passando a chamar-se teoria criacionista.
            As teorias evolucionistas de Darwin repercutiram em todas as áreas do conhecimento. Nas Ciências Sociais, criou-se o darwinismo social, que inspirou inúmeros pensadores a analisar as sociedades a partir do modelo da evolução das espécies. Por esse pensamento, as sociedades foram classificadas como mais ou menos evoluídas. Muitos cientistas apoiados na teoria evolucionista hierarquizaram os povos segundo maior ou menor grau de evolução em termos genéticos e deduziram haver povos mais evoluídos do que outros. Em síntese, o evolucionismo darwinista trouxe enorme contribuição no campo das ciências naturais, mas resultou também em teorias cientificas muito perigosas para a humanidade, sobretudo, quando aplicadas no campo social e etnológico. Muitas pesquisas ligadas a eugenia, dedicavam-se aos estudos genéticos das raças com o objetivo de preservar a suposta pureza das mais evoluídas e justificar o seu domínio sobre aquelas consideradas “inferiores”. Assim, combatia-se a miscigenação entre os povos, considerando-a um passo para a degeneração das raças “superiores”.  Dessa forma propagou-se durante o século XIX a discriminação e o racismo, que serviam de pretexto  para os atos hostis contra os povos considerados inferiores, justificando muito da violência praticada pela expansão imperialista europeia sobre a Ásia e a África.
            No começo do século XIX, a maioria dos médicos acreditava que as doenças eram provocadas por miasmas (partículas invisíveis originárias da putrefação de animais e vegetais), que contaminavam as pessoas pelo ar. As infecções eram entendidas como resultado da ação desses miasmas, explicação utilizada também para as grandes epidemias. Porém, devido ao avanço cientifico do período, em especial com as descobertas do químico e biólogo Louis Pasteur, a ciência médica mudou completamente.  Os estudos da microbiologia e da bacteriologia acabaram em definitivo com a teoria dos miasmas e definiram uma nova forma de entender a origem das doenças. Pasteur defendia que a maioria delas tinha origem em microrganismo, o que hoje se comprova que ele estava certo. O maior avanço para o combate da ação de micróbios e bactérias se deu com o desenvolvimento de técnicas antissépticas, ou seja, cuidar da higiene pessoal e de equipamentos de uso comuns, inclusive os aparelhos médicos que passaram a ser esterilizados.

            A partir do conceito de higiene, os governos passaram a se preocupar com  o que hoje nós chamamos de saneamento básico. Dessa forma, começaram a ser construídos sistemas de esgoto para jogar em córregos e rios os dejetos domésticos, que antes eram simplesmente jogados nas ruas. Também se passou a preocupar-se com o tratamento de água sendo criado em várias cidades redes de abastecimento. Não há dúvida de que essas ações diminuíram os surtos epidêmicos e o número de mortes. Porém, o grande avanço da medicina do século XIX, sem dúvida foi o surgimento das vacinas, em particular contra a varíola, uma das doenças mais devastadoras da história da humanidade. No final do século XIX vários cientistas desenvolveram vacinas contra outras doenças. Em vários países os governos tomaram iniciativas de incentivo para vacinar a população, que diminuiu consideravelmente o número de doenças e mortes. Essas e outras experiências de vacinação somente seriam aprimoradas durante o século XX, mas foi à pesquisa cientifica do século XIX que abriu caminho para o avanço da medicina moderna.

Os Novos Meios de Transporte

            O homem sempre fabricou e modificou instrumentos. Mas no século XIX a busca por objetos e técnicas revolucionárias tornou-se intensa. Este interesse estava ligado diretamente à economia industrial, à descoberta de novas fontes de energia e de instrumentos e máquinas mais eficientes para o transporte e a comunicação. Tudo transformava o mundo. O impacto da revolução tecnológica do século XIX só pode ser comparado com o da informática já no final do século XX. As novidades começaram ainda no século XVIII, com destaque para os novos meios de transporte. Porém, apenas no século XIX surgiram dois tipos de transportes que provocaram mudanças significativas: a ferrovia e o navio a vapor.
A Bicicleta
A bicicleta, veiculo tão simples e popular, teve de esperar mais de 100 anos para ter uma tecnologia eficiente. Apesar da origem bastante discutível, ainda no século XVIII apareceu um veiculo de duas rodas movido sem ajuda de animais, denominado de celerífero. Era um engenho rudimentar, todo feito de madeiras, com duas rodas e direção fixa, movimentado pelo impulso das pernas. Andava somente em linha reta e exigia grande esforço do usuário. Na segunda década do século XIX, o celerífero passou por um aprimoramento, com a adaptação de uma direção. Na década de 1860 foram acrescentados os pedais e freios, mas o veiculo se tornou eficiente somente no final do século, com a utilização de pneus de borracha. Incialmente muito cara, acessível apenas aos ricos, à bicicleta tornou-se moda no inicio do século XX.
O transporte ferroviário foi sem dúvida, a maior inovação tecnológica do século XIX. As estradas de ferro foram as grandes responsáveis por, de fato, encurtar as distâncias. Em 1804, funcionou no País de Gales a locomotiva New Castle, ciada pelo engenheiro britânico Richard Trevithick. Por ser um modelo pesado e vagaroso coube ao engenheiro inglês George Stephenson a solução técnica que permitiu a criação de uma locomotiva a vapor leve e potente para puxar vagões sobre trilhos. Em 1830, com a inauguração da estrada de ferro Liverpool-Manchester, iniciou-se realmente o período ferroviário inglês. Assim, foi aberta a era das ferrovias, símbolo máximo das mudanças do século XIX.
            O transporte marítimo pelos oceanos, por sua vez, permanecia dependente das variações climáticas, pois era realizado por barcos ou avios a vela, construídos de madeira. Desde o inicio do século XIX ingleses, franceses e estadunidenses faziam experimentos com o vapor para impulsionar as embarcações O estadunidense Robert Fulton foi o primeiro a realizar a experiência bem sucedida. Utilizando a máquina a vapor de James Watt em um barco, navegou pelo rio Hudson, em 1807, levando 32 horas para percorrer 240km. Em 1819 foi realizada a primeira travessia transatlântica entre EUA e Inglaterra. Mas como o vapor impulsionava um mecanismo de rodas muito lento, os navios à vela continuavam ainda mais rápido do que os movidos a vapor. Coube aos ingleses o aprimoramento da navegação oceânica a vapor. A partir de 1863, com a construção de navios com aço, as viagens tornaram-se bem mais rápidas. 

A Eletricidade Revoluciona o Mundo
            Ao longo da história, as sociedades humanas desenvolveram inúmeras técnicas de iluminação.  Mas somente durante o século XIX foi possível obter gás com a destilação do carvão, o que foi uma verdadeira revolução. Foram construídas inúmeras companhias e fábricas de gás, que era distribuído através de extensos tubos subterrâneos. Primeiro iluminaram-se as fábricas, depois as cidades. O problema era que cada bico de gás deveria ser acesso individualmente, não funcionava com fortes ventos e era perigoso.
            Desde a Antiguidade, eram conhecidas as propriedades do âmbar de atrair partículas após ser atritado. De seu nome grego elektron, deriva o termo eletricidade. A partir do século XVIII apareceram estudos sistemáticos sobre eletricidade. Em 1752, o estadista e inventor estadunidense Benjamin Franklin descobriu pela primeira vez um uso prático para a eletricidade: o para-raios. Depois disso, inúmeros inventos utilizavam a eletricidade, inclusive para a iluminação, como a lâmpada elétrica, embora nesse caso, fosse ainda pouco eficaz. Aprimorada no decorrer do século XIX, a lâmpada elétrica teve melhor desempenho nos experimentos de Thomas Edison, inventor da lâmpada incandescente de corrente continua em 1878.
            Em pouco tempo, a eletricidade era usada em vários setores da produção industrial, além de ser adaptada a novos usos, como na área de comunicação. Neste contexto, em 1838, Samuel Morse desenvolveu um sistema de códigos transmitidos por um fio condutor, conhecido como Código Morse. Surgiu assim, o telégrafo, capaz de colocar em contato várias partes do mundo interligadas por milhares de quilômetros de cabos, inclusive submarinos. As noticias que antes, demoram dias ou meses para serem estampadas nos jornais, chegavam em questão de horas com a difusão do telégrafo. O telefone foi outro invento revolucionário ligado  à eletricidade, cujo sucesso foi extraordinário. Embora haja controvérsias em relação ao seu inventor, a patente foi registrada em nome de Graham Bell, em 1876. Ainda no final do século XIX outro invento ligado à eletricidade iria facilitar ainda mais as comunicações: o telégrafo sem fio, percussor do rádio, atribuído ao italiano Guglielmo Marconi, em 1896. Ele conseguiu transmitir o som sem a necessidade de fios. Somente em 1920, aprimorado, o rádio conseguiu transmitir a voz humana.
            Essas inovações resultaram em mudanças radicais no cotidiano das pessoas. Estabeleceu-se uma vida noturna e surgiram novos espaços de convívio social graças à multiplicação de teatros, hotéis, cafés e espaços públicos com iluminação. As conversas do dia a dia, por sua vez, enriqueceram-se com a massa de informações de todo o mundo que eram trazidas pelos jornais, alimentados por noticias divulgadas rapidamente pelos telégrafos. O século XIX trouxe o sucesso da ciência, dos experimentos, das invenções, dos mecanismos revolucionários; tudo isso somado a vontade de ganhar dinheiro. No começo prevaleciam iniciativas individuais, com investimento de tempo e dinheiro para criar um engenho eficiente e então buscar financiamento para a sua produção. Porém, a partir das ultimas décadas do século XIX esse processo se inverteu: a ciência e a técnica foram incorporadas ao cotidiano dos empresários, das corporações e das universidades. Grandes industriais e o próprio Estado passaram a financiar pesquisas para descobrir novas tecnologias, criando institutos e centros de pesquisas. O objetivo era aumentar a produtividade industrial e fortalecer a economia de forma geral. O século XX, no qual os avanços tecnológicos foram ainda mais extraordinários, foi herdeiro direto do processo cientifico do século XIX e do capitalismo industrial.

A Informação  e a Leitura se Propagam
            No século XIX, o mercado editorial passou por uma expansão extraordinária como resultado do aumento da população alfabetizado, sobretudo, nas grandes cidades. A prática da leitura alcançou uma escala até então nunca vista, com destaque para os folhetos românticos publicados em capítulos nos grandes periódicos. Muitos livros de sucesso tiveram sua origem nas novelas românticas publicadas em jornais. O romantismo folhetinesco acompanhava a transformação da sociedade europeia que passava a enfatizar o individuo e suas conquistas pessoais. Nas páginas de centenas de romances publicados, um dos temas predileto era o casamento, em que se sobressaía a critica aos matrimônios feitos por arranjos familiares e com fins políticos ou econômicos, típicos das sociedades do Antigo Regime.
            Outro gênero que teve grande espaço editorial foi os manuais de bom comportamento, diversificando-se no século XIC e alcançando públicos variados. Um exemplo de sucesso foram às publicações direcionas as donas de casa, como a “Manual da senhora do lar”. Tratava-se de um manual que valorizava o espaço privado da casa, construindo um modelo de vida tipicamente burguês. Procurava ensinar as mulheres a maneira correta de cuidar do marido, dos filho, o modo de receber convidados; enfim, as regras para a administração da casa e dos criados. O papel atribuído às mulheres era o de boa mãe e esposa, que deveria manter a casa organizada e aconchegante para quando o marido voltasse do trabalho. Nesses manuais, a distinção entre o espaço público e privado era nítida, cabendo ao homem à rua e à mulher a casa.
            Apesar da disseminação da leitura, a aquisição de livros ainda era restrita, pois eles não eram baratos. Desde o século XVIII foram criados clubes de leitura e bibliotecas públicas, permitindo aos menos afortunados o acesso aos livros. As livrarias, por sua vez, tornaram-se um importante ligar de encontro de intelectuais, onde liam e discursavam ou discutiam os mais variados temas. Não foram poucas as conspirações ou revoltas criadas a partir do encontro desses intelectuais em livrarias ou bibliotecas. Quanto aos periódicos, jornais e folhetins, tornaram-se objeto de intenso consumo, já que podiam ser facilmente encontrados até mesmo em lugares distantes, graças à ampliação da rede ferroviária, que encurtava as distancias. Os transportes e as novas tecnologias acabaram revolucionando a imprensa e popularizando o acesso à informação.

O Modo de Vida Burguês
            O século XVIII assistiu o aumento da popularidade do chamado processo civilizador, que consista em estabelecer regras de conduta para as mais variadas situações desde as intimidades fisiológicas até o comportamento à mesa. Nesse espirito, os manuais de bom-tom do século XIX fizeram enorme sucesso, difundido valores que vagarosamente foram incorporados por toda a população. O grande protagonista dessa mudança de costumes foi o burguês, ansioso por requintar seus hábitos, afirmar-se na sociedade, criar um tipo que combinasse a riqueza material com certo estilo aristocrático. Assim, no que diz respeito a costumes e modas, a França tornou-se um espelho para o mundo ocidental considerado a sociedade mais requintada da Europa.
            Os rituais e as regras de civilidade burguesa não se restringiam aos hábitos de alimentação ou de ordem corporal; havia muitos outros. Os homens deviam conhecer política e finanças; as mulheres, música e bordado. Para as jovens, havia escolas especializadas em ensinar como se comportar com requinte, como damas, isso  incluía saber andar, se sentar, como e com quem falar, como e onde mostrar em lugares públicos e mais uma série de atitudes consideradas adequadas a um comportamento feminino civilizado. Na verdade, esses modelos de comportamento eram restritos às classes mais enriquecidas da sociedade. A maioria da população, sobretudo, nas áreas rurais, mantinham os hábitos tradicionais, que variavam de região para região. Não foi por acaso, que ao longo do século XIX, as elites europeias passaram a considerar os pobres e os camponeses com gente suja e grosseira.
            O século XIX foi um período de grande transformação, também, em termos habitacionais, principalmente porque houve um expressivo inchamento das cidades por conta da industrialização. Os novos trabalhadores das fábricas tiveram dificuldade em encontrar moradia nos centros urbanos. A literatura da época enfatizava o ambiente precário e insalubre ocupado pelas camadas populares, apontando, por exemplo, a grande quantidade de pessoas vivendo num mesmo cômodo, o descuido na preparação dos alimentos, a sujeira das casas e das ruas, as roupas sujas e remendadas, o uso indiscriminado de bebidas alcóolicas. Segundo esses relatos, homens, mulheres, crianças e idosos viviam em péssimas condições habitacionais. Eles se tornaram uma das principais preocupações dos médicos higienistas, que viam no modo de vida das camadas populares um campo fértil para a difusão de doenças. Eram comuns as casas de “cômodo” e várias famílias podiam dividir uma mesma casa e, com frequência os porões eram também habitados. Ainda durante o século XIX, surgiram os primeiros projetos direcionadas a construção de casas e vilas operárias.  Essas vilas patronais construídas para operários traziam a marca do individualismo burguês, com cada família ocupando um espaço único.
            Nos estabelecimentos públicos, como os restaurantes, cada vez mais numerosos, foram criados gabinetes reservados para jantares mais íntimos. Nos teatros apareceram os camarotes, afastado das cadeiras. Nos trens e navios foram adotadas cabines privadas e dividiram-se as acomodações em primeira, segunda e terceira classes. Mas foi na residência que ficou mais evidente a importância do espaço privado. A concepção de moradia mudou completamente, com a maior divisão dos cômodos e a atenção à privacidade, antes inexistente até nas habitações dos nobres. As casas passaram a separar nitidamente os locais de receber os convidados e os espaços íntimos dos moradores. O culto à privacidade faz parte do mundo burguês. (Adaptado de História 2. Ronaldo Vaines, Sheila Castro Faria, Jorge Ferreira e Georgina dos Santos, p.328 a 362).