terça-feira, 2 de julho de 2013

MODERNIZAÇÕES, NOVAS TECNOLOGIAS, NOVOS PENSAMENTOS E MODO DE VIDA DO SÉCULO XIX

As Ciências e a Medicina
            O século XIX caracterizou-se  por uma verdadeira revolução no conhecimento humano. Na Biologia, a visão racional suplantou a interpretação religiosa e passou a explicar os mais diversos fenômenos, apesar da resistência da maioria das populações e das religiões. O grande expoente das Ciências Naturais do século XIX foi o inglês Charles Darwin, celebrizado por sua teoria “a origem das espécies”, ao usar a ideia de seleção natural. Sua obra, publicada em 1859, causou enorme alvoroço em várias partes do mundo. Segundo Darwin, a evolução dos seres vivos se dá a partir da sobrevivência dos mais fortes e capazes de se adaptar ao meio natural. Para completar suas teorias, escreveu em 1871, a Origem do Homem, defendendo a ideia de que haveria um ancestral comum que teria dado origem a macacos e seres humanos. Ele foi criticado e ridicularizado no meio religioso e inclusive por cientistas de formação cristã que defendia a versão bíblica da criação da humanidade. Essa versão bíblica ganhou áreas de ciência, passando a chamar-se teoria criacionista.
            As teorias evolucionistas de Darwin repercutiram em todas as áreas do conhecimento. Nas Ciências Sociais, criou-se o darwinismo social, que inspirou inúmeros pensadores a analisar as sociedades a partir do modelo da evolução das espécies. Por esse pensamento, as sociedades foram classificadas como mais ou menos evoluídas. Muitos cientistas apoiados na teoria evolucionista hierarquizaram os povos segundo maior ou menor grau de evolução em termos genéticos e deduziram haver povos mais evoluídos do que outros. Em síntese, o evolucionismo darwinista trouxe enorme contribuição no campo das ciências naturais, mas resultou também em teorias cientificas muito perigosas para a humanidade, sobretudo, quando aplicadas no campo social e etnológico. Muitas pesquisas ligadas a eugenia, dedicavam-se aos estudos genéticos das raças com o objetivo de preservar a suposta pureza das mais evoluídas e justificar o seu domínio sobre aquelas consideradas “inferiores”. Assim, combatia-se a miscigenação entre os povos, considerando-a um passo para a degeneração das raças “superiores”.  Dessa forma propagou-se durante o século XIX a discriminação e o racismo, que serviam de pretexto  para os atos hostis contra os povos considerados inferiores, justificando muito da violência praticada pela expansão imperialista europeia sobre a Ásia e a África.
            No começo do século XIX, a maioria dos médicos acreditava que as doenças eram provocadas por miasmas (partículas invisíveis originárias da putrefação de animais e vegetais), que contaminavam as pessoas pelo ar. As infecções eram entendidas como resultado da ação desses miasmas, explicação utilizada também para as grandes epidemias. Porém, devido ao avanço cientifico do período, em especial com as descobertas do químico e biólogo Louis Pasteur, a ciência médica mudou completamente.  Os estudos da microbiologia e da bacteriologia acabaram em definitivo com a teoria dos miasmas e definiram uma nova forma de entender a origem das doenças. Pasteur defendia que a maioria delas tinha origem em microrganismo, o que hoje se comprova que ele estava certo. O maior avanço para o combate da ação de micróbios e bactérias se deu com o desenvolvimento de técnicas antissépticas, ou seja, cuidar da higiene pessoal e de equipamentos de uso comuns, inclusive os aparelhos médicos que passaram a ser esterilizados.

            A partir do conceito de higiene, os governos passaram a se preocupar com  o que hoje nós chamamos de saneamento básico. Dessa forma, começaram a ser construídos sistemas de esgoto para jogar em córregos e rios os dejetos domésticos, que antes eram simplesmente jogados nas ruas. Também se passou a preocupar-se com o tratamento de água sendo criado em várias cidades redes de abastecimento. Não há dúvida de que essas ações diminuíram os surtos epidêmicos e o número de mortes. Porém, o grande avanço da medicina do século XIX, sem dúvida foi o surgimento das vacinas, em particular contra a varíola, uma das doenças mais devastadoras da história da humanidade. No final do século XIX vários cientistas desenvolveram vacinas contra outras doenças. Em vários países os governos tomaram iniciativas de incentivo para vacinar a população, que diminuiu consideravelmente o número de doenças e mortes. Essas e outras experiências de vacinação somente seriam aprimoradas durante o século XX, mas foi à pesquisa cientifica do século XIX que abriu caminho para o avanço da medicina moderna.

Os Novos Meios de Transporte

            O homem sempre fabricou e modificou instrumentos. Mas no século XIX a busca por objetos e técnicas revolucionárias tornou-se intensa. Este interesse estava ligado diretamente à economia industrial, à descoberta de novas fontes de energia e de instrumentos e máquinas mais eficientes para o transporte e a comunicação. Tudo transformava o mundo. O impacto da revolução tecnológica do século XIX só pode ser comparado com o da informática já no final do século XX. As novidades começaram ainda no século XVIII, com destaque para os novos meios de transporte. Porém, apenas no século XIX surgiram dois tipos de transportes que provocaram mudanças significativas: a ferrovia e o navio a vapor.
A Bicicleta
A bicicleta, veiculo tão simples e popular, teve de esperar mais de 100 anos para ter uma tecnologia eficiente. Apesar da origem bastante discutível, ainda no século XVIII apareceu um veiculo de duas rodas movido sem ajuda de animais, denominado de celerífero. Era um engenho rudimentar, todo feito de madeiras, com duas rodas e direção fixa, movimentado pelo impulso das pernas. Andava somente em linha reta e exigia grande esforço do usuário. Na segunda década do século XIX, o celerífero passou por um aprimoramento, com a adaptação de uma direção. Na década de 1860 foram acrescentados os pedais e freios, mas o veiculo se tornou eficiente somente no final do século, com a utilização de pneus de borracha. Incialmente muito cara, acessível apenas aos ricos, à bicicleta tornou-se moda no inicio do século XX.
O transporte ferroviário foi sem dúvida, a maior inovação tecnológica do século XIX. As estradas de ferro foram as grandes responsáveis por, de fato, encurtar as distâncias. Em 1804, funcionou no País de Gales a locomotiva New Castle, ciada pelo engenheiro britânico Richard Trevithick. Por ser um modelo pesado e vagaroso coube ao engenheiro inglês George Stephenson a solução técnica que permitiu a criação de uma locomotiva a vapor leve e potente para puxar vagões sobre trilhos. Em 1830, com a inauguração da estrada de ferro Liverpool-Manchester, iniciou-se realmente o período ferroviário inglês. Assim, foi aberta a era das ferrovias, símbolo máximo das mudanças do século XIX.
            O transporte marítimo pelos oceanos, por sua vez, permanecia dependente das variações climáticas, pois era realizado por barcos ou avios a vela, construídos de madeira. Desde o inicio do século XIX ingleses, franceses e estadunidenses faziam experimentos com o vapor para impulsionar as embarcações O estadunidense Robert Fulton foi o primeiro a realizar a experiência bem sucedida. Utilizando a máquina a vapor de James Watt em um barco, navegou pelo rio Hudson, em 1807, levando 32 horas para percorrer 240km. Em 1819 foi realizada a primeira travessia transatlântica entre EUA e Inglaterra. Mas como o vapor impulsionava um mecanismo de rodas muito lento, os navios à vela continuavam ainda mais rápido do que os movidos a vapor. Coube aos ingleses o aprimoramento da navegação oceânica a vapor. A partir de 1863, com a construção de navios com aço, as viagens tornaram-se bem mais rápidas. 

A Eletricidade Revoluciona o Mundo
            Ao longo da história, as sociedades humanas desenvolveram inúmeras técnicas de iluminação.  Mas somente durante o século XIX foi possível obter gás com a destilação do carvão, o que foi uma verdadeira revolução. Foram construídas inúmeras companhias e fábricas de gás, que era distribuído através de extensos tubos subterrâneos. Primeiro iluminaram-se as fábricas, depois as cidades. O problema era que cada bico de gás deveria ser acesso individualmente, não funcionava com fortes ventos e era perigoso.
            Desde a Antiguidade, eram conhecidas as propriedades do âmbar de atrair partículas após ser atritado. De seu nome grego elektron, deriva o termo eletricidade. A partir do século XVIII apareceram estudos sistemáticos sobre eletricidade. Em 1752, o estadista e inventor estadunidense Benjamin Franklin descobriu pela primeira vez um uso prático para a eletricidade: o para-raios. Depois disso, inúmeros inventos utilizavam a eletricidade, inclusive para a iluminação, como a lâmpada elétrica, embora nesse caso, fosse ainda pouco eficaz. Aprimorada no decorrer do século XIX, a lâmpada elétrica teve melhor desempenho nos experimentos de Thomas Edison, inventor da lâmpada incandescente de corrente continua em 1878.
            Em pouco tempo, a eletricidade era usada em vários setores da produção industrial, além de ser adaptada a novos usos, como na área de comunicação. Neste contexto, em 1838, Samuel Morse desenvolveu um sistema de códigos transmitidos por um fio condutor, conhecido como Código Morse. Surgiu assim, o telégrafo, capaz de colocar em contato várias partes do mundo interligadas por milhares de quilômetros de cabos, inclusive submarinos. As noticias que antes, demoram dias ou meses para serem estampadas nos jornais, chegavam em questão de horas com a difusão do telégrafo. O telefone foi outro invento revolucionário ligado  à eletricidade, cujo sucesso foi extraordinário. Embora haja controvérsias em relação ao seu inventor, a patente foi registrada em nome de Graham Bell, em 1876. Ainda no final do século XIX outro invento ligado à eletricidade iria facilitar ainda mais as comunicações: o telégrafo sem fio, percussor do rádio, atribuído ao italiano Guglielmo Marconi, em 1896. Ele conseguiu transmitir o som sem a necessidade de fios. Somente em 1920, aprimorado, o rádio conseguiu transmitir a voz humana.
            Essas inovações resultaram em mudanças radicais no cotidiano das pessoas. Estabeleceu-se uma vida noturna e surgiram novos espaços de convívio social graças à multiplicação de teatros, hotéis, cafés e espaços públicos com iluminação. As conversas do dia a dia, por sua vez, enriqueceram-se com a massa de informações de todo o mundo que eram trazidas pelos jornais, alimentados por noticias divulgadas rapidamente pelos telégrafos. O século XIX trouxe o sucesso da ciência, dos experimentos, das invenções, dos mecanismos revolucionários; tudo isso somado a vontade de ganhar dinheiro. No começo prevaleciam iniciativas individuais, com investimento de tempo e dinheiro para criar um engenho eficiente e então buscar financiamento para a sua produção. Porém, a partir das ultimas décadas do século XIX esse processo se inverteu: a ciência e a técnica foram incorporadas ao cotidiano dos empresários, das corporações e das universidades. Grandes industriais e o próprio Estado passaram a financiar pesquisas para descobrir novas tecnologias, criando institutos e centros de pesquisas. O objetivo era aumentar a produtividade industrial e fortalecer a economia de forma geral. O século XX, no qual os avanços tecnológicos foram ainda mais extraordinários, foi herdeiro direto do processo cientifico do século XIX e do capitalismo industrial.

A Informação  e a Leitura se Propagam
            No século XIX, o mercado editorial passou por uma expansão extraordinária como resultado do aumento da população alfabetizado, sobretudo, nas grandes cidades. A prática da leitura alcançou uma escala até então nunca vista, com destaque para os folhetos românticos publicados em capítulos nos grandes periódicos. Muitos livros de sucesso tiveram sua origem nas novelas românticas publicadas em jornais. O romantismo folhetinesco acompanhava a transformação da sociedade europeia que passava a enfatizar o individuo e suas conquistas pessoais. Nas páginas de centenas de romances publicados, um dos temas predileto era o casamento, em que se sobressaía a critica aos matrimônios feitos por arranjos familiares e com fins políticos ou econômicos, típicos das sociedades do Antigo Regime.
            Outro gênero que teve grande espaço editorial foi os manuais de bom comportamento, diversificando-se no século XIC e alcançando públicos variados. Um exemplo de sucesso foram às publicações direcionas as donas de casa, como a “Manual da senhora do lar”. Tratava-se de um manual que valorizava o espaço privado da casa, construindo um modelo de vida tipicamente burguês. Procurava ensinar as mulheres a maneira correta de cuidar do marido, dos filho, o modo de receber convidados; enfim, as regras para a administração da casa e dos criados. O papel atribuído às mulheres era o de boa mãe e esposa, que deveria manter a casa organizada e aconchegante para quando o marido voltasse do trabalho. Nesses manuais, a distinção entre o espaço público e privado era nítida, cabendo ao homem à rua e à mulher a casa.
            Apesar da disseminação da leitura, a aquisição de livros ainda era restrita, pois eles não eram baratos. Desde o século XVIII foram criados clubes de leitura e bibliotecas públicas, permitindo aos menos afortunados o acesso aos livros. As livrarias, por sua vez, tornaram-se um importante ligar de encontro de intelectuais, onde liam e discursavam ou discutiam os mais variados temas. Não foram poucas as conspirações ou revoltas criadas a partir do encontro desses intelectuais em livrarias ou bibliotecas. Quanto aos periódicos, jornais e folhetins, tornaram-se objeto de intenso consumo, já que podiam ser facilmente encontrados até mesmo em lugares distantes, graças à ampliação da rede ferroviária, que encurtava as distancias. Os transportes e as novas tecnologias acabaram revolucionando a imprensa e popularizando o acesso à informação.

O Modo de Vida Burguês
            O século XVIII assistiu o aumento da popularidade do chamado processo civilizador, que consista em estabelecer regras de conduta para as mais variadas situações desde as intimidades fisiológicas até o comportamento à mesa. Nesse espirito, os manuais de bom-tom do século XIX fizeram enorme sucesso, difundido valores que vagarosamente foram incorporados por toda a população. O grande protagonista dessa mudança de costumes foi o burguês, ansioso por requintar seus hábitos, afirmar-se na sociedade, criar um tipo que combinasse a riqueza material com certo estilo aristocrático. Assim, no que diz respeito a costumes e modas, a França tornou-se um espelho para o mundo ocidental considerado a sociedade mais requintada da Europa.
            Os rituais e as regras de civilidade burguesa não se restringiam aos hábitos de alimentação ou de ordem corporal; havia muitos outros. Os homens deviam conhecer política e finanças; as mulheres, música e bordado. Para as jovens, havia escolas especializadas em ensinar como se comportar com requinte, como damas, isso  incluía saber andar, se sentar, como e com quem falar, como e onde mostrar em lugares públicos e mais uma série de atitudes consideradas adequadas a um comportamento feminino civilizado. Na verdade, esses modelos de comportamento eram restritos às classes mais enriquecidas da sociedade. A maioria da população, sobretudo, nas áreas rurais, mantinham os hábitos tradicionais, que variavam de região para região. Não foi por acaso, que ao longo do século XIX, as elites europeias passaram a considerar os pobres e os camponeses com gente suja e grosseira.
            O século XIX foi um período de grande transformação, também, em termos habitacionais, principalmente porque houve um expressivo inchamento das cidades por conta da industrialização. Os novos trabalhadores das fábricas tiveram dificuldade em encontrar moradia nos centros urbanos. A literatura da época enfatizava o ambiente precário e insalubre ocupado pelas camadas populares, apontando, por exemplo, a grande quantidade de pessoas vivendo num mesmo cômodo, o descuido na preparação dos alimentos, a sujeira das casas e das ruas, as roupas sujas e remendadas, o uso indiscriminado de bebidas alcóolicas. Segundo esses relatos, homens, mulheres, crianças e idosos viviam em péssimas condições habitacionais. Eles se tornaram uma das principais preocupações dos médicos higienistas, que viam no modo de vida das camadas populares um campo fértil para a difusão de doenças. Eram comuns as casas de “cômodo” e várias famílias podiam dividir uma mesma casa e, com frequência os porões eram também habitados. Ainda durante o século XIX, surgiram os primeiros projetos direcionadas a construção de casas e vilas operárias.  Essas vilas patronais construídas para operários traziam a marca do individualismo burguês, com cada família ocupando um espaço único.
            Nos estabelecimentos públicos, como os restaurantes, cada vez mais numerosos, foram criados gabinetes reservados para jantares mais íntimos. Nos teatros apareceram os camarotes, afastado das cadeiras. Nos trens e navios foram adotadas cabines privadas e dividiram-se as acomodações em primeira, segunda e terceira classes. Mas foi na residência que ficou mais evidente a importância do espaço privado. A concepção de moradia mudou completamente, com a maior divisão dos cômodos e a atenção à privacidade, antes inexistente até nas habitações dos nobres. As casas passaram a separar nitidamente os locais de receber os convidados e os espaços íntimos dos moradores. O culto à privacidade faz parte do mundo burguês. (Adaptado de História 2. Ronaldo Vaines, Sheila Castro Faria, Jorge Ferreira e Georgina dos Santos, p.328 a 362).

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