quarta-feira, 24 de julho de 2013

AS INDEPENDÊNCIAS NA AMÉRICA ESPANHOLA

No final do século XVIII, as condições de vida das pessoas pobres na América espanhola eram precárias, e grande parte da população era obrigada a realizar trabalhos pesados nas lavouras e nas minas para se sustentar. Nesse contexto, surgiram várias manifestações populares de insatisfação contra o governo espanhol, nas quais o povo reivindicava melhores condições de vida. Essas manifestações, promovidas essencialmente por indígenas e mestiços, tinham um caráter mais social do que politico e, foram duramente reprimidas pelas tropas espanholas. M 1780, um movimento popular liderado pelo indígena José Gabriel Noguera, mais conhecido como Tupac Amaru II, repercutiu em diversas regiões do Vice-Reino do Peru. Ele se dizia descendente de Tupac Amaru I, o ultimo soberano inca a enfrentar os conquistadores espanhóis, ainda no século XVI. Por esse motivo, a figura desse soberano inca vinha inspirando movimentos indígenas de várias regiões da América contra a dominação espanhola. Liderados por Tupac Amaru II, os rebeldes atacaram os corregedores, saquearam as obrajes e ocuparam aldeias. No inicio esse levante popular teve a participação de alguns criollos que estavam insatisfeitos com o governo espanhol, principalmente por causa do aumento dos impostos. Porém, muitos deles assustados com a violência que se espalhava, decidiram apoiar a Coroa espanhola no combate ao levante, buscando com isso, preservar seus interesses. Após vários conflitos, o movimento se desintegrou e seus líderes, incluindo Tupac Amaru II, foram executados.
            À medida que o Estado espanhol se mostrava em franca decadência e que levantes das camadas populares tornavam-se mais frequentes e mais intensos, as elites coloniais passaram então a apoiar a independência de suas colônias como forma de proteger seus interesses políticos e econômicos. Apesar de lutarem pela liberdade politica e econômica das colônias, os membros das elites criollas procuraram manter a estrutura social vigente. A partir de 1810, iniciaram-se as insurreições pela independência das colônias espanholas. Um pouco antes, em 1804 acontecia a independência do Haiti. Essa colônia, localizada nas Antilhas, era uma colônia francesa desde 1697. Nela eram produzido açúcar e café, que eram vendidos na Europa. A produção agrícola do Haiti era baseada na mão-de-obra escrava africana. No final do século XVIII, sob a influencia das ideias iluministas, os escravos haitianos passaram a defender ideias de liberdade e a discutir a abolição da escravidão. A partir de 1791 eclodiram vários movimentos revoltosos formados por escravos e ex-escravos. Em 1804, em um grande levante, os revoltosos massacraram a elite branca, tomaram o poder e proclamaram a independência do Haiti, que se tornou a primeira colônia latino-americana a conquistar a emancipação política. As noticias sobre a violência e o sucesso das lutas de independência do Haiti preocuparam as elites escravistas coloniais espanholas e portuguesas, que temiam levantes semelhantes aos ocorridos no Haiti. Esse medo das elites escravistas com relação a um possível levante dos escravos ficou conhecido como “haitianismo”.
            Na América espanhola, o criollo San Martin, nascido na Argentina e criado na Europa, liderou os movimentos pela independência da Argentina, no Chile e no Peru. Ele planeja criar Estados independentes na América, cada qual governado conforme os interesses da população. Martin começou a liderar as lutas pela independência na Argentina em 1813, consolidando-a em 1816. No comando do Exercito dos Andes, cruzou as montanhas andinas e com a ajuda dos soldados chilenos, conquistou a independência do Chile em 1818. Depois disso, partiu com suas tropas para o Peru, tornando-o independente em 1824. Ao norte da América do Sul, o militar Simon Bolívar comandou as tropas que lutaram e conquistaram a independência da Grã-Colômbia (Colômbia, Equador, Venezuela e Panamá). Bolívar defendia a centralização do poder. Ele acreditava na necessidade de um poder forte e único formado por países independentes, mas solidários entre si, e que formassem uma confederação. Bolívar queria constituir uma grande nação latino-americana, incluindo os países da América espanhola. Conhecida hoje como “bolivarianismo ou pan-americanismo”, a politica de solidariedade de Bolívar tinha como objetivo principal  a união dos países americanos contra o colonialismo europeu, além da manutenção da paz continental e da igualdade entre os governos participantes. Segundo Bolívar era a única forma da América Latina fazer frente às grandes potencias da época. Em 1826, Bolívar organizou o Congresso do Panamá para apresentar seu projeto que naufragou devido aos interesses, principalmente, das elites locais.
            A partir de 1810, as lutas contra o domínio espanhol começam a eclodir no México. Lideradas inicialmente pelo padre Miguel Hidalgo, esses levantes tinham como principais objetivos a independência do Vice-Reino da Nova Espanha e a transferência da posse das propriedades rurais dos chapetones e dos criollos para a população nativa. Hidalgo chegou a reunir um exército de 30 mil homens, formado por indígenas e mestiços, com o qual invadiu importantes cidades. Em 1811, porém, as tropas espanholas massacraram os rebeldes e Hidalgo foi entregue a Tribunal da Santa Inquisição, sendo posteriormente executado. Porém, a luta pela independência continuou, agora sob a liderança de outro padre, José Maria Morelos. Em 1813, ele proclamou a independência do México, no entanto, a Espanha não reconheceu essa independência. O movimento pelo reconhecimento da emancipação continuou durante vários anos após as mortes de Hidalgo e Morelos. Mestiços e indígenas organizaram-se em grupos armados, que espalhados pelo México, combatiam as tropas reais. A elite criolla, preocupada em permanecer no poder e com receio da participação popular no governo, decidiu estabelecer uma aliança com os rebeldes. O militar criollo Agustín de Iturbide fez um acordo com os líderes rebeldes e proclamou a independência do México, em 1821, estabelecendo uma monarquia constitucional. Porém, em 1824, um grupo contrário a politica vigente tomou o poder e proclamou a República mexicana. Dessa forma, o México independente se organizou sob o comando da elite criolla, que manteve a população indígena submetida aos seus interesses. Uma semana após a independência do México em 1821, as Capitanias Gerais da Guatemala, que incluíram os atuais territórios de Chiapas, Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica e Honduras, também se declaram independentes e decidiram incorporar seus domínios ao recém formado Império Mexicano. Em 1823, esses territórios se separaram do México e formaram uma Federação de Estados Independentes da América Central. Em 1838, essa federação se desfez e, aos poucos, cada país se tornou autônomo, com exceção de Chiapas, que ainda hoje é território mexicano.
            A ilha de Cuba teve seu processo de independência tardio. Cuba já havia se tornado uma grande produtora de açúcar desde o final do século XVIII. Assim, como as demais colônias espanholas nas Antilhas, os colonizadores utilizaram a mão-de-obra escrava africana. Nessa época a elite cubana se preocupava com a grande quantidade de africanos na ilha e temiam o “haitianismo” e por isso, mantinham os escravos sob um rígido controle. Como desde o século XIX, as elites cubanas tinham liberdade de comercializarem com os Estados Unidos, estes não tinham interesses separatistas, o que retardou o processo de independência do país. A primeira guerra de independência só vai acontecer entre 1868 a 1878. Já a segunda, ocorre entre 1895 a 1898, quando o movimento ganha força a partir da liderança de José Marti que conseguiu derrubar o grupo da elite contrário à emancipação da ilha. Em 1898, quando a independência de Cuba era  iminente, os Estados Unidos invadiram a ilha e declararam guerra à Espanha. Após vários conflitos, os espanhóis reconheceram a independência de Cuba em 1901, quando o país passou a ser administrado por um governo provisório estadunidense. Somente em 1902 tomou posse Tomas Estrada Palma, primeiro presidente cubano, mas sob forte controle dos Estados Unidos.(Adaptado de Pellegrini, Marco. História. Coleção Novo Olhar 2, p.226-231).


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