segunda-feira, 1 de julho de 2013

ESTUDANTES: É PAU, É PEDRA, É O FIM DO CAMINHO

Jovens partem para a violência nos protestos de 1968

 No meio do fuzuê ouve-se apenas um estampido seco. O tiro acerta o peito do estudante Edson Luís de Lima Souto, de 17 anos, que morre logo em seguida. O choque entre estudantes e policiais ocorria no restaurante Calabouço, um bandejão para jovens universitários no centro da Guanabara. Era a noite de 28 de março de 1968. Em protesto, os colegas de Edson impediram a polícia de levar o corpo, que foi carregado até a Assembléia Legislativa e colocado sobre uma mesa. Ali estava o primeiro cadáver que surgia na luta entre a repressão e os jovens. Chocou o país. Seu caixão foi acompanhado por 50 mil pessoas, da Cinelândia ao cemitério São João Batista. O estado se tornou palco para as maiores manifestações estudantis do Brasil. Protestos explodiram em todo o país. “Durante muito tempo, todo dia tinha uma passeata em algum lugar. Todo dia os estudantes estavam nas ruas gritando ‘abaixo a ditadura’”, diz o sociólogo Levi Bucalen Ferrari, presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), que viveu as agitações do período.
 Os jovens queriam derrubar o governo. Faziam greves, passeatas, ocupavam universidades e tomavam as ruas das capitais. Logo após a morte de Edson, os estudantes decidiram deixar de fugir e passaram a ir de encontro à polícia. No dia 1º de abril, aniversário do golpe, os estudantes ocuparam a Cinelândia e esperaram os costumeiros carros brucutus, sirenes, bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes “tamanho família”, prontos para reagir. O pau quebrou, deixando 56 feridos, dos quais 30 eram da polícia. A juventude, ninguém imaginava, também sabia brigar, incendiar e ser violenta. Diante da resistência feroz, o governo enviou 1200 soldados do 2º Batalhão de Infantaria Blindada e tomou conta do local.
 Os estudantes brasileiros já vinham se manifestando contra o regime desde os primeiros momentos após a “revolução”. A União Nacional dos Estudantes, a UNE, foi declarada ilegal pouco tempo após o golpe. Desde 1964, as invasões a recintos universitários eram freqüentes, quase rotineiras. “Politizado no sentido de esquerda, o movimento estudantil não podia deixar de ser um dos alvos preferenciais da repressão ditatorial”, relata Jacob Gorender, no livro Combate nas Trevas. A UNE foi reorganizada em 1966 em um congresso clandestino em Belo Horizonte. A Ação Popular (AP), cheia de estudantes, lançou o Movimento contra a Ditadura. Em 1967, as manifestações já eram freqüentes. E com uma lista de motivos enorme: o alto número de “excedentes” – estudantes aprovados nos vestibulares, mas sem vaga para matrícula; um acordo educacional com os Estados Unidos; as prisões e cassações de políticos, sindicalistas e oposicionistas em geral; a censura e outras formas de autoritarismo; e o espírito libertário que contaminara jovens de outros países, que na época tomaram Paris e se reuniram aos milhares em Washington para pedir o fim da Guerra do Vietnã.
 Havia muito de política no movimento estudantil. “Em todo o país, as esquerdas disputavam a liderança das entidades estudantis e faziam alianças para reorganizá-las. O movimento estudantil se tornava um porta-voz político dos que lutavam contra o regime”, diz Dina Lida Kinoshita, da Comissão Executiva Nacional do Partido Popular Socialista (PPS), na época militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e participante da UNE. O governo sabia disso e não gostava. “Os comunistas manipularam os jovens e os levaram para as manifestações de rua”, diz Jarbas Passarinho, ministro de Costa e Silva.
 A pressão sobre os estudantes vinha de todos os lados. Em 27 de outubro de 1967, aos gritos de “morram os comunistas”, alunos do Mackenzie invadiram a Faculdade de Filosofia da USP, que ficava na calçada da frente, na rua Maria Antônia, para impedir a realização das eleições da União Estadual dos Estudantes (UEE). Eram 300, com porretes, socos-ingleses e pedaços de pau. Do lado da UEE, apenas 16, que resistiram até a polícia chegar. Ironicamente, o segundo grupo é que foi para trás das grades do Departamento de Ordem Política e Social (Dops).
 Um segredo público
 O acordo MEC-Usaid, que tanto causava insatisfação, era acusado de representar a “americanização” do ensino. “Quando passamos a fazer testes com ‘x’, em vez de responder a perguntas, percebemos que o governo emburrecia o ensino”, diz a jornalista Rose Nogueira, que na época militava na Ação Libertadora Nacional (ALN) e hoje preside o Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo. Os jovens defendiam igualdade de oportunidades no acesso ao ensino público. “Nossa formação era excepcional. Por isso éramos tão engajados, tão críticos”, diz Nogueira. “Imagine que estudantes de 18 anos discutiam com facilidade psicologia, economia, política. A ditadura começou, de propósito, a quebrar o ensino.”
 Os grandes protestos estudantis se estenderam de março a outubro de 1968. As manifestações foram combatidas por agentes policiais e grupos paramilitares de direita. Com violência: nove pessoas foram mortas a bala no Rio, uma em Goiânia e outra em São Paulo.
 A escalada dos protestos estudantis durou até o 30º Congresso da UNE, em 13 de outubro. Era para ser uma reunião clandestina, mas os organizadores cometeram um erro básico – superestimaram a chance de manter um segredo que era conhecido por milhares de pessoas. O encontro foi descoberto, e mais de mil estudantes foram presos em um sítio de Ibiúna (SP). Toda a liderança “caiu”, como se dizia na época: José Dirceu, presidente da UEE; Luís Travassos, da UNE; Vladimir Palmeira, da União Metropolitana de Estudantes; Antonio Guilherme Ribeiro Ribas, da União Paulista de Estudantes Secundaristas. Foram levados diretamente ao Dops. Os demais foram para o presídio Tiradentes, conhecido palco de torturas.
 Esse desfecho representou o fim das manifestações e contribuiu para engrossar as organizações clandestinas. “Parte significativa das lideranças estudantis ainda livres se engajou em organizações políticas que realizaram ações armadas”, diz Marcelo Ridenti, autor de O Fantasma da Revolução Brasileira. O sociólogo fez um levantamento e constatou que 30,7% das pessoas que foram processadas por “ligação com as esquerdas armadas” eram estudantes. A luta continuava, agora com armas na mão.
  Alessandro Meiguins



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