quinta-feira, 22 de agosto de 2013

UM MILAGRE DE DOIS BRASIS

Modelo militar duplica economia, mas acirra desigualdade

 De 1968 a 1973, o Brasil cresceu à taxa média próxima de 12% ao ano. Sua economia praticamente dobrou de tamanho. Um feito, com reflexos na vida de todas as classes, embora com intensidades bem diferentes. Os trabalhadores tinham emprego, a classe média comprou casa própria, carro e TV em cores. Os empresários lucraram como nunca, e as multinacionais ampliaram suas operações e ganhos. Era o milagre brasileiro, o período de maior expansão que o país viveu no século 20 e que deixou os brasileiros – sobretudo os patrocinadores da ditadura – eufóricos. Hoje, olhado em perspectiva, o milagre parece menos sobrenatural. Teve como efeito colateral uma dívida que ainda estrangula o país e piorou a distribuição de renda, que já era muito desigual.
 Em alguma medida, esse boom econômico significou a retomada do desenvolvimento acelerado anterior. Do final da Segunda Guerra Mundial ao início dos anos 60, a renda per capita aumentara sempre mais de 2% anuais, com exceção de 1953 e 1956, informa Gláucio Ary Dillon Soares, no livro 21 Anos de Regime Militar. Entre 1957 e 1961, o Brasil cresceu 8,3% anuais, em média. Nos anos seguintes, a economia estagnou e a inflação disparou, o que ajuda a entender o contexto em que ocorreu o golpe.

Dois caminhos possíveis
 Há linhas de interpretação da história que acreditam que, em 1964, o Brasil tinha dois grandes caminhos possíveis: fazer as reformas de base, para crescer tornando a distribuição de renda mais equilibrada, ou optar pela concentração econômica, com ênfase no papel das empresas estrangeiras e no controle dos salários. “Venceu o segundo”, avalia o professor Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
 Nos primeiros anos de ditadura, a prioridade foi o combate à inflação. O aumento de preços acumulado em 1964 foi de 91% e caiu para 34% em 1965. A partir de 1966, quando o controle do governo sobre juros e empréstimos foi mais duro, houve um biênio com inflação em torno de 25%. Nos anos seguintes, o ritmo de aumento de preços se estabilizaria na casa dos 20%.
 Os governos militares apostaram pesado em infra-estrutura. Foi o tempo do “brás”. Eletrobrás, Siderbras e Petrobras e outras empresas do Estado usavam grandes somas para superar gargalos em setores estratégicos. Obras gigantescas também marcaram o período, como a usina de Itaipu e a ponte Rio–Niterói.
 O Brasil mudou muito durante os anos do milagre. Ficou mais urbano, mais escolarizado, mais moderno. A expansão econômica foi usada pelo regime para se justificar. A expressão “ordem e progresso”, escrita na bandeira, caiu como uma luva na propaganda da ditadura. Dava a entender que o autoritarismo seria necessário para manter o país na rota do crescimento.
 Ocorre que, na década de 60, os mais pobres ficaram proporcionalmente mais pobres. A participação na renda nacional da metade menos abastada da população caiu de 18% para 15%. A renda do 1% mais rico subiu de 12% para 15%. Nos anos 70, a distribuição ficou pior: a metade mais pobre detinha 14% da renda em 1980, contra 17% do grupo que reunia o 1% mais rico. Delfim Netto, todo-poderoso da economia nos anos militares, dizia que era preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo.
 Esse momento nunca chegou. Ainda na ditadura, o milagre virou coisa do passado. A expansão acelerada durou seis anos; a ditadura, 21. A tentativa de manobrar a economia de olho na política levou os técnicos do regime a fazer o que hoje tem cara de grande trapalhada. A primeira delas ocorreu após o choque do petróleo, no final de 1973, quando o preço do produto disparou no mercado mundial. O Brasil importava 80% do combustível que consumia e sentiu o golpe. O governo Geisel optou por financiar esse gasto com empréstimos externos. Só em 1974, a dívida brasileira quase dobrou, indo de 6,2 bilhões de dólares para 11,9 bilhões de dólares, segundo o historiador Thomas Skidmore.
 A expansão foi mantida à custa do endividamento. Mas a economia já tinha dado sinais de fragilidade, e o apoio ao regime declinava. “Embora não tenha sido o fator mais importante, a questão econômica teve sua influência no desempenho expressivo da oposição nas eleições de 1974”, avalia a historiadora Maria Celina D’Araújo. No final dos anos 70, a fonte de recursos externos começa a secar. Torna-se difícil obter novos empréstimos e refinanciar a dívida. A inflação se acelera, ultrapassando 40% em 1978. Para completar, o petróleo sofre novo choque em 1979.
 Em 1980, a inflação chega a 77%, corroendo rapidamente os salários. Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), para comprar a cesta básica um trabalhador tinha de trabalhar 88 horas e meia em 1965; em 1980, seriam necessárias quase 174 horas. As greves ganham corpo.
 A forma de reagir aos choques do petróleo tinha ampliado a vulnerabilidade do Brasil a adversidades externas. Em 1981, a economia brasileira encolheu 1,6%. No ano seguinte, cresceu magro 0,9%. Em 1983, nova recessão fez o PIB baixar 3,2%. Na primeira metade dos anos 80, o dinheiro sumiu do mercado de empréstimos internacionais e as taxas de juros dispararam. A dívida brasileira já superava 100 bilhões de dólares, parecia impagável, e a solução foi recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Em troca de financiamento, o Fundo passou a exigir que os governantes seguissem as políticas que recomendava. O santo mercado financeiro começava a cobrar o preço do milagre.
  Rogerio Schlegel



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