segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O PRIMEIRO REINADO NO BRASIL

Após a independência, o grande desafio da monarquia brasileira era consolidar a unidade política e territorial. No entanto, essa não foi uma tarefa fácil. As grandes dimensões territoriais dificultavam o controle das regiões mais distantes da capital. Além disso, as forças imperiais tiveram de enfrentar vários movimentos separatistas que ameaçavam a unidade nacional e, ainda, as guerras contra os países vizinhos. Ao longo do processo de consolidação do Estado brasileiro, permaneceu a contradição entre a modernização do país e as velhas estruturas politicas e econômicas baseada na manutenção do sistema agroexportador e escravista. Além disso, o país que estava nascendo recebera como herança do período colonial uma sociedade dispersa em um imenso território sem laços de identidade que a unisse. No entanto, os interesses na manutenção da ordem econômica e social escravocrata possibilitou a aproximação entre a elite dirigente, estabelecida no Rio de Janeiro, e os diversos interesses dos grupos regionais.

 A Convocação da Assembleia Constituinte e a Primeira Constituição do Brasil
Brasil Império
O período imperial no Brasil que durou de 1822 a 1889 é dividido nos seguintes períodos:
1822-1831 – Primeiro Reinado – período marcado pelo crescente descontentamento das elites brasileiras com o governo de D. Pedro I;
1831-1840 – Período Regencial – período em que o Brasil é governado por regentes, marcado por várias revoltas separatistas e pelo revezamento de liberais e conservadores no poder;
1840-1889 – Segundo Reinado – período onde o Brasil é governado por D. Pedro II;  neste tempo o Estado nacional brasileiro é consolidado e se desenvolvem as campanhas abolicionistas e republicanas.
            Para elaborar a primeira Constituição do Brasil, D. Pedro I convocou uma Assembleia Constituinte, formada por senadores e deputados. A Assembleia deu início em seus trabalhos em maio de 1823, mas de as primeiras reuniões o clima era tenso. Essa situação era provocada pelas divergências ideológicas dos deputados: de um lado estavam os deputados com tendências conservadoras, que geralmente apoiavam as propostas do imperador, do outro, os que tinham orientação mais liberal. Devido às posições contrárias dos dois grupos, a Constituinte foi palco de violentos debates sob a futura organização do Estado brasileiro. Descontente com os caminhos mais liberais que a Assembleia estava tomando, D. Pedro I dissolveu-a em novembro de 1823 e criou um conselho encarregado de elaborar, sob sua supervisão, um novo projeto de Constituição.
           
            Outorgada em 25 de março de 1824, a primeira Constituição brasileira estabelecia princípios bem iluministas e liberais. O Estado estava dividido em três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Porém, além desses três poderes a Constituição de 1824 estabelecia um quarto poder: o poder Moderador. Esse poder era exercido exclusivamente pelo imperador e assegurava-lhe o direito de interferir nos demais poderes, como por exemplo, convocar e dissolver a Câmara dos Deputados, nomear os ministros e conselheiros, escolher os governadores das províncias e nomear os juízes. Na prática, o poder Moderador anulou toda e qualquer característica liberal da nossa primeira Constituição. O Brasil se tornava uma monarquia aparentemente liberal, mas de fato, era absolutista. Além disso, a Constituição ignorou a escravidão. Mas no que diz respeito aos direitos políticos, a Constituição brasileira, para os padrões da época era até mesmo muito liberal. Podiam votar todos os homens de 25 anos ou mais que tivessem uma renda mínima de 100 mil réis por ano. A maioria da população trabalhadora ganhavam mais de 100 mil réis por ano. O critério na renda não excluía a população pobre do direito de voto. Alei brasileira permitia ainda que os analfabetos votassem desde que atingissem a renda mínima necessária. Talvez nenhum país liberal europeu da época tivesse uma legislação eleitoral tão liberal. Porém, a eleição era indireta, feita em dois turnos. No primeiro os votantes escolhiam os eleitores, na proporção de um leitor para cada 100 domicílios. Os eleitores, que devia ter renda de 200 mil réis anuais, elegiam os deputados e senadores. Cabe lembrar que as mulheres não votavam e os escravos não eram considerados cidadãos. Apesar de uma legislação eleitoral liberal, na prática todo processo esbarrava no poder Moderador do imperador.

A População Brasileira
Em 1822, o Brasil tinha uma população de aproximadamente 4 milhões de habitantes, dos quais cerca de 30% eram escravos, além de um número estimado de 800 mil indígenas. Apesar da manutenção do regime escravista, a oferta de emprego na sociedade brasileira se tornou mais diversificada após a independência. Com a instalação de órgãos no governo imperial, foram criadas oportunidades de trabalho no serviço público civil e militar. A autonomia política também possibilitou o desenvolvimento das atividades comerciais, o que exigiu a contratação de pessoas para os setores de prestação de serviços, agentes para fazer a intermediação com as companhias de comércio estrangeiras, entre outras funções, impulsionando o crescimento das camadas médias urbanas. A maior parte da população brasileira, no entanto, era formada por pessoas livres e pobres, como ex-escravos, pequenos proprietários, pequenos comerciantes e artesãos.

Revolta em Pernambuco
            Desde a proclamação da independência, proprietários rurais, jornalistas, intelectuais, religiosos e grande parte da população de Pernambuco demonstravam-se insatisfeitos com o governo de D. Pedro I. Além disso, eles não concordavam com a nomeação de Francisco Paes Barreto como governador da província de Pernambuco. A revolta e o descontentamento cresceram consideravelmente após a dissolução da Assembleia Constituinte e atingiram seu auge com a imposição da Constituição de 1824. A situação piorou depois da prisão do jornalista Cipriano Barata  em Recife, por fazer críticas ao governo imperial e defender ideias republicanos no periódico Sentinela da Liberdade. Os pernambucanos acreditavam que D. Pedro I tentaria, em breve, reunificar Brasil e Portugal.
           
Frei Caneca
O religioso Joaquim do Amor Divino Rabelo, conhecido como Frei Caneca, teve uma participação importante na Confederação do Equador. Ele fundou um jornal chamado Tupis Pernambuco, no qual publicou diversos artigos que criticavam as decisões politicas do imperador. A  participação ativa de Frei Caneca no movimento levou a sua condenação à morte após a derrota da Confederação. Mas como ele era muito admirado, os carrascos recusaram-se a enforca-lo. Por isso Frei Caneca foi executado por fuzilamento em janeiro de 1825.
Diante disso, os pernambucanos se organizaram e propuseram a sua população a diminuição de repasse dos impostos para o governo central, o aumento do poder dos chefes regionais e a ampliação da autonomia nas províncias. Com amplo apoio popular e o auxilio da imprensa local, essas propostas logo se espalharam pela região. Então, no inicio de 1824, lideres pernambucanos apoiados pelos lideres das províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Ceará, proclamaram uma república no Nordeste brasileiro, que recebeu o nome de Confederação do Equador. A repressão exercida pelo Exército do governo imperial, enviado à região para conter a revolta e por fim a Confederação do Equador foi intensa. Muitos integrantes do movimento foram presos e executados.

Primeiro Reinado e Crise
Portugueses x Brasileiros
Hoje quando se pergunta sobre a nacionalidade, qualquer pessoa nascida no Brasil, responde: sou brasileiro. A construção do significado de ser brasileiro, entretanto, não foi fácil, tão pouco rápida. Brasileiro, no período colonial, indicava aquele que tinha negócios com os produtos do Brasil. Por conta disso na época da independência, quando os ânimos ficaram mais inflamados, as denominações português e brasileiro passaram a significar uma opção política e não um local de nascimento. O nome que indicava o nascimento no Brasil era brasilense. Brasileiro é aquele que adotava a causa do Brasil contra as pretensões de Portugal. Depois da independência, o termo se firmou cada vez mais como emblema de identidade do novo Estado, mas ainda não tinha relação com o local do nascimento. Na Assembleia Constituinte de 1823, portugueses eram os partidários de D. Pedro I e que defendia a centralizam do poder nas mãos do imperador, em oposição, os brasileiros, defendiam a descentralização.
            O conflito que surgiu entre o imperador e os políticos do partido brasileiro com a imposição da Constituição de 1824 gerou descontentamento em boa parte da população brasileira. Esse foi um dos fatores que contribuíram para o desgaste do governo de D. Pedro I. Havia também o receio de uma possível reunificação entre Brasil e Portugal, devido ao relacionamento próximo que o imperador mantinha com os políticos e comerciantes portugueses. Além disso, a centralização do poder politico nas mãos do imperador provocava a insatisfação das elites das províncias, que desejavam ter maior controle sobre suas regiões. Outro motivo de insatisfação dos brasileiros estava ligado à questão econômica. Para que o Brasil fosse reconhecido como nação independente, em 1825, o governo brasileiro teve de pagar uma elevada quantia em dinheiro a Portugal criando uma dívida externa com a Inglaterra, o que agravou a crise econômica brasileira. Esses fatores colocaram o governo de D. Pedro I em crise.
            Em 1824, a província da Cisplatina (que havia sido incorporada por D. João VI) iniciou um movimento com o objetivo de se separar do Brasil, pretendiam adotar um regime republicano e tentar se anexar as Províncias Unidas do Reino do Prata (Argentina). A antiga disputa entre portugueses e espanhóis ganhou nova versão no confronto Brasil e Argentina, dando inicio à Guerra da Cisplatina em 1825.a localização da Cisplatina era estratégica para o contato com as províncias brasileira do interior. Caso a província fosse anexada à Argentina, ambas as margens do rio da Prata seriam controladas, situação indesejável para o Brasil. D. Pedro I deu grande importância ao fato, iniciando uma reação que exauriu os cofres públicos. Imaginava que derrotando os revoltosos, sufocarias as aspirações republicanas na Cisplatina e mostraria a superioridade do regime monárquico. Não teve êxito. Em 1828, com mediação britânica, a Cisplatina não ficou com nenhum dos dois lados: transformou-se num Estado independente com o nome de República Oriental do Uruguai.
            O desgaste de D. Pedro I com a derrota na Guerra da Cisplatina se ampliou ainda mais com os acontecimentos em Portugal. Com a morte de D. João VI em 1826, o imperador brasileiro, herdeiro legítimo do trono do português, teve de optar por uma das duas coroas. Escolheu a do Brasil, abdicando ao trono português em favor de sua filha mais velha, nascida no Rio de Janeiro, D, Maria da Glória, ainda criança, mas prometida como esposa ao irmão do imperador, D. Miguel. Dois anos depois D. Miguel deu um golpe de Estado e assumiu o poder, com a conivência da mãe, D. Carlota Joaquina. Cada vez mais preocupado com os problemas políticos de Portugal e em defender os interesses da filha, D. Pedro I desagradava os diversos setores da sociedade brasileira que o acusavam de se preocupar mais com Portugal do que com o Brasil.
            A situação de D. Pedro I começou a ficar insustentável a partir de 1830 quando mudou todo o ministério. O imperador foi acusado de escolher ministros ligados diretamente a sua posição politica, desconsiderando os interesses de boa parte dos brasileiros. Outro motivo de grande impacto negativo para o imperador foi o assassinato do jornalista liberal Libero Badaró. A oposição em peso acusou o imperador pelo crime. Em 15 de março de 1831, no Rio de Janeiro, os conflitos entre brasileiros e portugueses culminaram na chamada Noite das Garrafadas, em que os brasileiros atacaram com garrafas e pedras, os portugueses que organizavam um grande baile para recepcionar o imperador, que volta de uma viagem a Minas Gerais. Desgastado, D. Pedro I não resistiu, em 7 de abril, optou por abdicar do trono brasileiro em favor de seu filho D. Pedro de Alcântara, então com 5 anos, nomeando José Bonifácio como seu tutor. Dado a menoridade do herdeiro, o governo do Império foi exercido por uma Regência.

            Retornando a Portugal, D. Pedro I assumiu o comando dos liberais que, a partir da cidade do Porto, contestavam o absolutismo de D. Miguel. Derrotou o irmão e restabeleceu a Constituição liberal e assumiu o trono português como D. Pedro IV. Pouco depois da vitória, em 1834, doente, passou a coroa para sua filha D. Maria da Glória (D. Maria II), e faleceu dias depois no palácio de Queluz. Ao por fim ao golpe de seu irmão e recuperar o trono para sua filha, entrou para a história portuguesa como um liberal que livrou o país do absolutismo, embora fosse considerado no Brasil um absolutista.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A REPÚBLICA SE URBANIZA

Os Operários
                No início do século XX, as oportunidades de emprego cresceram nas cidades brasileiras. Isso ocorreu devido ao aumento do número de indústrias, que precisavam contratar cada vez mais operários. Além disso, com as reformas urbanas e a modernização de muitas cidades, muitos trabalhadores foram contratados para trabalhar em obras públicas e na construção civil. Como o Brasil não tinha mão-de-obra disponível, essas novas oportunidades levaram a um grande número de imigrantes a se estabelecer nas cidades. Nas indústrias os imigrantes eram a grande maioria entre os operários. Devido à inexistência de legislação trabalhista, eles trabalhavam de 10 a 14 horas por dia, geralmente em locais insalubres. Grande parte do operariado era formado por mulheres e crianças, que ganhavam um salário inferior ao dos homens. Além da indústria, muitos imigrantes passaram também a trabalhar no comércio como vendedores ambulantes. Com o tempo alguns conseguiram juntar capital suficiente para se tornar proprietários de pequenos e médios estabelecimentos. Os imigrantes também tinham uma função que atendia expectativas da elite brasileira que defendia o “embranquecimento da população”. Seguindo doutrinas racistas estadunidenses e europeias, essas pessoas acreditavam que por meio da mortalidade natural dos negros e a chegada de um grande contingente de imigrantes brancos, a composição étnica da população brasileira predominaria a pela mais clara. Segundo alguns historiadores foi nesse momento que emergiu e se consolidou na sociedade brasileira, o preconceito contra o negro e seus descendentes, os quais passaram a ser vistos pelos poderes públicos, pela elite e por boa parte das camadas médias urbanas como cidadãos de segundo categoria.
                Abandonados a própria sorte pelos poderes públicos, os operários reagiram às duras condições em que viviam. Como a maioria dos operários era composta por imigrantes que eram politizados, estes trouxeram para o Brasil as principais correntes ideológicas do movimento operário europeu: socialismo, anarquismo e o anarcossindicalismo. Nas duas primeiras décadas do século XX, a liderança do movimento operário em São Paulo e em outras capitais esteve nas mãos dos anarcosindicalistas. Em 1922, sob a influencia dos acontecimentos da Revolução Russa de 1917, militantes saindo principalmente do anarquismo fundaram o PCB (Partido Comunista Brasileiro). A partir desse momento, os comunistas entraram na disputa pela liderança do movimento operário. Muitas reinvindicações dos trabalhadores eram divulgadas por diversos jornais operários surgidos em todo o país. Por meio da imprensa divulgavam seus princípios ideológicos e estimulavam os operários a lutar por direitos e por melhores condições de vida. Boa parte destes periódicos, no entanto, tinha vida curta, devido à repressão policial que impedia a circulação desses veículos ou a falta de dinheiro para custear novas edições.
                Sob a influencia dos anarcosindicalistas, diversas greves irromperam nos primeiros anos da República. Em 1906, por exemplo, uma greve geral em Porto Alegre, mobilizou durante 21 dias cerca de 5 mil trabalhadores que reivindicavam jornada de 8 horas de trabalho. Outra paralisação bastante significativa foi a de 1907, quando trabalhadores de várias categorias suspenderam o trabalho por alguns dias em São Paulo. O período de maior concentração de movimentos grevistas ocorreu entre 1917 a 1920. Esses anos foram marcados por intensa agitação nos meios operários e por greves generalizadas. A principal delas foi a Greve de 1917 em São Paulo que chegou  reunir 70 mil trabalhadores. Essas mobilizações de trabalhadores por melhores salários, redução da jornada de trabalho e pelo reconhecimento de seus direitos, o governo respondia com repressão policial. Em 1907 foi aprovada uma lei que autorizava a expulsão de estrangeiros considerados “perigosos” para a ordem social. Com base nessa lei diversos lideres anarquistas e socialistas de origem europeia foram obrigados a deixar o Brasil. Durante a década de 1920, a formação de trabalhadores menos politizados oriundos do campo e dependentes de uma relação clientelista, o movimento operário no Brasil diminuiu.

A Urbanização Excludente
                No início do século XX, as cidades brasileiras, de modo geral, eram pequenas e acanhadas. Não contavam com sistemas eficientes de esgoto e de abastecimento de água, as ruas não tinham calçamento ou iluminação elétrica, os transportes coletivos públicos eram quase inexistentes. Até mesmo o Rio de Janeiro, capital e maior cidade brasileira da época, enfrentava esse tipo de problema. Suas ruas eram estreitas e malcheirosas e a população, principalmente a que vivia nos cortiços no centro, eram frequentemente atingida por doenças como febre amarela, varíola, cólera e peste bubônica. Em 1902, Rodrigues Alves assumiu a presidência do Brasil e um de seus principais objetivos foi implementar um programa de reformas urbanas e sanitárias no Rio de Janeiro. Essas reformas visavam tornar a cidade mais limpa e moderna, de modo a transmitir ao mundo a impressão de a capital federal do Brasil era uma cidade civilizada. Para realizar as reformas propostas, o presidente deu amplos poderes ao prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro  Francisco Pereira Passos. Para realizar esse esforço “civilizatório”, foram proibidas a presença de vacas e porcos pelas ruas da cidade e o hábito muito frequente de cuspir no assoalho dos bondes. Entre as elites, acompanhar o progresso da cidade significava também alinhar-se aos hábitos culturais emanados da Europa, principalmente da França: falar, vestir, comer, morar e pensar como um europeu. A euforia da Bela Época adaptava-se assim, à complexa realidade brasileira. Centenas de pequenas casas e cortiços foram derrubados. Foi o chamado “Bota-abaixo”, promovido pelo prefeito do Rio de Janeiro. Durante as reformas, muitos moradores pobres, principalmente aqueles que viviam em cortiços e pequenos comerciantes foram expulsos do centro da cidade, sem receber indenização ou ter um novo local para morar. As obras foram conduzidas de modo autoritário e com repressão policial, gerando grande insatisfação popular. Os pobres desalojados de suas moradias mudaram-se para os morros, construindo moradias improvisadas com o material de demolição obtido no centro da cidade. Essas moradias improvisadas, localizadas nos morros do Rio de Janeiro, deram origem às favelas, que desde então cresceram continuamente.
                Dando continuidade ao  projeto de sanitarização do Rio de Janeiro, o presidente Rodrigues Alves delegou a realização dessas reformas ao médico sanitarista Oswaldo Cruz, que tinha como objetivo sanear a cidade. Inicialmente, ele dedicou-se ao combate de doenças com a febre amarela e a peste bubônica, eliminando mosquitos e ratos.             Em seguida, o sanitarista comandou o processo de erradicação da varíola. Para combater a varíola, a única solução era vacinar a população. Porém, muitas pessoas duvidavam da eficácia da vacina e recusam-se a toma-la. Por isso, o governo aprovou em novembro de 1904 a Lei da Vacina Obrigatória, e passou a usar a força policial nos casos de resistência à vacinação. A medida provocou revolta entre a população, principalmente porque o governo anunciou que a vacina poderia ser aplicada à força em quem se recusasse a toma-la. Políticos da oposição argumentavam que a decisão desrespeitava a liberdade individual. Falava-se em violação do lar e de ofensa à honra, uma vez que as mulheres seriam obrigadas a “desvendar seus corpos” para que desconhecidos lhes aplicassem a vacina. No dia 9 de novembro, Oswaldo Cruz propôs uma regulamentação da lei, determinando que o comprovante da vacinação fosse exigido em vários momentos, como por exemplo, para matricular os filhos na escola, obter emprego, registar-se em hotéis e para casar. A notícia chegou à imprensa no dia seguinte em boa parte da população saiu às ruas para protestar. Ergueram-se barricadas e tiveram inicio sangrentos conflitos com a polícia. As manifestações continuaram no dia seguinte, com depredações, saques, tiroteios, invasões a repartições públicas. Em reposta o governo decretou estado de sítio. Para acalmar os ânimos dos revoltosos, no dia 16 de novembro foi revogada a obrigatoriedade da vacinação. A Revolta da Vacina como ficou conhecido o movimento deixou um saldo de 23 mortos e cerca de 900 pessoas detidas; metade delas acabou deportadas para o Acre. Além do Rio de Janeiro outras cidades passaram pelo embelezamento que provocou a expulsão dos pobres das regiões centrais, obrigando-os a se instalarem em moradias precárias na periferia. Dessa forma, as elites brasileiras modernizavam as cidades, sem alterar, porém, as antigas desigualdades sociais. Em relação à Revolta da Vacina é bom salientar que ela não foi simplesmente uma revolta contra a vacina, ela está inserida no contexto da expulsão da população pobre do centro da cidade, como também, as medidas autoritárias do governo.

A Rebelião dos Marinheiros
                Outro problema enfrentado na capital federal está relaciona a Marinha brasileira. NO inicio do século XX. A Marinha do Brasil possuía alguns dos navios mais modernos do mundo. Apesar disso, os marinheiros permaneciam submetidos às leis herdadas do período escravista. Uma dessas leis permitia chibatadas como punição aos marinheiros, o que gerava grande descontentamento entre eles, cuja maioria era descendentes de africanos. Essas insatisfações crescentes motivou um grupo de marinheiros a articular um movimento que ficou conhecido como Revolta da Chibata. Em 22 de novembro de 1910, o marinheiro João Cândido liderou mais de 2 mil colegas, que assumiram o controle de quatro navios ancorados no Rio de Janeiro. Por rádio, ele comunicou as autoridades às exigências dos marinheiros: fim dos castigos corporais, aumento dos salários e melhorias nas condições de trabalho. Para pressionar o governo, João Cândido comandou as tripulações dos navios em manobras  no litoral, chegando a disparar tiros de canhão. Diante a ameaça contra a capital, o governo federal decidiu atender as reinvindicações dos marinheiros que se entregaram em 26 de novembro de 1910. Os castigos corporais foram abolidos, mas dias depois, a Marinha prendeu alguns marinheiros, incluindo João Candido. Ele foi expulso da corporação e permaneceu preso até 1912. Cândido que ficou conhecido como o “Almirante Negro”, sofreu muitas perseguições das autoridades, o que não o impediu de participar ativamente de outros movimentos políticos até o fim da sua vida, em 1969.

O Movimento Modernista
                A vida cultural brasileira, como, aliás, de grande parte do mundo ocidental, nas primeiras décadas do século XX, era fortemente influenciada pelos europeus, em particular, pelos franceses. No modo de se vestir, na culinária, na pintura, no teatro e em outras manifestações, o padrão francês era visto pelas elites como modelo a ser seguido. Com o fim da I Guerra Mundial em 1918, esse panorama começou a mudar. A guerra resultou no declínio econômico e politico dos países europeus envolvidos no conflito, nas Américas, passou-se, então, a duvidar da superioridade cultural europeia. Nos anos 1920, em diversas cidades do Brasil, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, surgiram jornais, revistas e manifestos publicados por artistas e intelectuais discutindo o que era ser brasileiro e preocupando-se com a modernização do país. Recusavam-se a copiar padrões europeus, propondo uma nova maneira de pensar e definir o país, com a valorização da memória nacional e a pesquisa das raízes culturais dos brasileiros. Era o movimento modernista, que se manifestou com grande impacto em São Paulo. Entre 13 a 17 de fevereiro de 1922, ocorreu na cidade de São Paulo a Semana de Arte Moderna. No Teatro Municipal de São Paulo, artistas e intelectuais fizeram apresentações de suas obras, exposições de pintura e escultura, concertos musicais e realizaram palestras e debates.
                Ser moderno era pesquisar as raízes da cultura brasileira, ou seja, a produção artística tinha de se inspirar na cultura popular: lendas, músicas, contos, entre outras manifestações. A proposta dos modernistas de 1922 era criar uma arte nacional: um país que simplesmente reproduzia um padrão europeu não interessava a eles. Após a Semana de Arte Moderna, os artistas se dividiram em várias vertentes. Uma delas, representando a ala mais conservadora, organizou-se no movimento verde-amarelo. Outro grupo, liderado por Mário de Andrade, o passado e as tradições não deviam ser idealizados, como faziam os verdes-amarelistas: deviam servir a compreensão do presente. Nesse mesmo grupo, Oswald de Andrade liderou o movimento antropofágico. Trata-se da seguinte ideia: no passado, os indígenas comiam as pessoas pensando que, assim, iriam absorver suas qualidades. Para Oswald de Andrade, o Abaporu, personagem criado por Tarsila do Amaral, selecionava o que comia. Desse modo, não se tratava de recusar a cultura europeia, mas de recebê-la de maneira critica. Era necessário selecionar o que poderia contribuir para a construção da nacionalidade e adequá-la ao contexto brasileiro.(Adaptado de PELLEGRINI, Marco. História 3 – Novo Olhar, p.33-42; GISLANE E REINALDO, História em movimento 3, p.135-148; VAINFAS, Ronaldo. História 3, p.42-43; FARIA, Ricardo de Moura. História 3, p.329-331.).


terça-feira, 24 de setembro de 2013

MICHEANGELO E SUA OBRA RENASCENTISTA

Imagem: Capela Sistina, obra-prima de Micheangelo.

Michelangelo é o símbolo da mudança no Renascimento, pela qual o antigo artesão da Idade Média se torna artista, com controle total sobre a obra
Você certamente já viu algumas imagens que fazem parte do teto da Capela Sistina. O dedo de Deus apontado para o dedo de Adão é uma das figuras mais reproduzidas, homenageadas e parodiadas da humanidade (lembra do poster do filme E.T.?). As cenas do Pecado Original e a Expulsão do Paraíso, o Dilúvio Universal e tantas outras, saíram da parede para os livros, como ilustração do Velho Testamento. Ver esses afrescos é um privilégio que, infelizmente, acontece sempre em meio a uma turba de turistas, com o pescoço esticado - e a ameaça de um torcicolo. Para quem não pode ir até a Itália, a mostra Esplendores do Vaticano, que vai até dezembro no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, apresenta uma reprodução da Capela Sistina.
Este ano, o mundo comemora os 500 anos da inauguração dos afrescos, em 1º de novembro de 1512, Dia de Todos os Santos, pelo papa Júlio 2º, após 4 anos de trabalho. "Nenhuma outra obra se compara a essa em excelência, nem hoje nem nunca", comentou o biógrafo Giorgio Vasari, contemporâneo de Michelangelo (1475-1564). "O teto é um farol para a nossa arte, de benefício inestimável para todos os pintores. Ele restabelece a luz num mundo que durante séculos esteve mergulhado em trevas."

 Vasari foi o primeiro a chamar sua época de Renascença. E o que renascia eram a arte e o pensamento da Antiguidade. Quando Michelangelo terminou a pintura do teto da capela, já fazia pelo menos um século que esse resgate havia se iniciado na Itália, ou melhor, nas cidades-estado do norte e centro da península.
Os precursores da Renascença foram poetas e prosadores como Petrarca (1304-1374) e Boccaccio (1313-1375), pintores como Giotto (1266-1336) e Masaccio (1401-1428). Entre os contemporâneos, Leonardo da Vinci (1452-1519) e Rafael (1483-1520). A chave para entender esse movimento está nas profundas transformações econômicas conduzidas naqueles séculos por uma nova classe social urbana em ascensão - a burguesia mercantil. A Itália tinha a imensa vantagem de estar situada no coração da maior área de comércio do mundo, a bacia mediterrânea. Cidades costeiras como Gênova e Veneza tiveram a oportunidade de enriquecer de maneira fantástica devido ao comércio com o Oriente.
Graças a esse contato e à valorização de suas atividades, seus mercadores e banqueiros adquiriram uma nova visão do mundo, baseada na valorização da realidade material, em contraste com a religiosidade profunda da Idade Média. As artes reproduziam essa mudança de pensamento. Nas pinturas típicas do século 13, por exemplo, as figuras humanas eram planas e irreais. O tamanho de uma figura não refletia a perspectiva, mas sua importância no quadro. Dois séculos depois, os artistas faziam desenhos ultrarrealistas, criando a ilusão de profundidade num quadro plano. Tão realistas que, para aprender a configuração correta de músculos e veias, era comum que artistas dissecassem cadáveres, aprendendo anatomia. A riqueza permitiu que a burguesia em ascensão investisse pesadamente nas artes. Como resultado, já no século 14, surgia uma nova e numerosa classe de assalariados, que trabalhavam juntos nas primeiras oficinas, ou separados, cada qual em sua casa, recebendo dos patrões matérias-primas e ferramentas e entregando-lhes o produto acabado mediante pagamento. Era uma mudança e tanto na vida europeia, com a lenta decadência das fechadas e hierarquizadas corporações de artesãos, as guildas, que monopolizavam a produção na Idade Média.

Mas, no começo, a mudança era limitada. O artista ainda não tinha completa autonomia e a melhor arte produzida no Renascimento era realizada sob encomenda dos mecenas, pertencentes às famílias ricas que exigiam sua execução conforme especificações e determinavam como deveria ser usada. Muitos eram mal pagos e, como qualquer outro provedor de serviços, deviam obedecer às instruções e entregar a mercadoria encomendada. Essa situação só veio a mudar no século 16, quando profissionais, como o próprio Michelangelo e Rafael, passaram a fazer parte de um grupo de elite, com liberdade para recusar encomendas e estipular as condições de trabalho.

 Durante boa parte de sua vida, porém, Michelangelo enfrentou as mesmas vissicitudes dos outros artistas. Disso surgiram as famosas desavenças com o papa Júlio 2º, retratadas no filme Agonia e Êxtase (1965), que trata do projeto de pintura da Capela Sistina e leva o espectador ao mundo das cidades italianas do Renascimento. O enredo, baseado no livro do mesmo nome de Irving Stone, recorre a uma vasta pesquisa, usando as cartas de Michelangelo e a biografia do artista, escrita por Vasari em 1550 e ampliada em 1568, para ilustrar o embate entre dois temperamentos difíceis. De um lado, um artista atormentado, que se acreditava dotado de inspiração divina, e de outro um papa guerreiro e irascível. A biografia e as cartas mostram também o relacionamento difícil de Michelangelo com o pai, Ludovico, um magistrado apagado e de pouco tino para negócios, que tentou dissuadir o filho da ideia de tornar-se escultor, aos 13 anos.
Nascido em Caprese, na zona rural, em 6 de março de 1475, Michelangelo teve a sorte de ter se mudado com a família para Florença, a mais rica das cidades-estado italianas, dominada desde 1469 por Lorenzo de Medici, o Magnífico. Em 1489, Lorenzo descobriu o jovem aprendiz, cujo talento como escultor já começava a aparecer, e o convenceu a morar no palácio, onde havia fundado uma oficina para artistas. Pouco mais que um garoto, Michelangelo teve então a oportunidade de conviver com os filhos do poderoso Medici, estudando com os melhores professores particulares da Itália.
Foi no período de aprendizado no palácio que o artista realizou as duas primeiras obras que sobreviveram até os nossos dias. São os baixos-relevos Madona da Escada e Batalha dos Centauros. Nelas já se pode encontrar pistas do que Michelangelo posteriormente faria na Capela Sistina. Primeiro a preocupação com cada detalhe do corpo: veias, músculos, ossos, que sobressaem na variedade de posições.

As formas traduzem sensações como medo, preocupação, desespero e sofrimento, refletidas também nas imagens de santos e pecadores. "Michelangelo sai da imitação seletiva dos modelos antigos e cria uma nova interpretação da vida", diz Luciano Migliaccio, professor de História da Arte na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Essa ideia é muito repisada por Vasari e, segundo Migliaccio, instruída pelo próprio biografado. "Michelangelo queria construir a imagem de um gênio, sabia que disso dependia o seu status como artista", explica. "Ele quer deixar registrado que, mais do que seguir as regras antigas, possui uma marca própria, individual, uma espécie de liberdade que estaria na raiz da superação dos artistas anteriores."

Apesar disso, nesses primeiros tempos, o escultor não conseguia sobreviver de sua arte. Após a morte de Lorenzo, passou necessidade sem o protetor e com o caos que se seguiu em Florença. E para se manter ocupado e ganhar algum dinheiro, participou de um embuste. Fez uma estátua simulando uma antiguidade romana envelhecida artificialmente e enviou para Roma, onde, de mão em mão, acabou na posse de um cardeal. Grande colecionador, o religioso não engoliu a alegada antiguidade da obra, mas pagou o preço pedido em troca do nome do autor. Assim, Michelangelo foi convocado a Roma pela primeira vez.

Ali começou a trabalhar em um tema 100% cristão - a Pietà, que está na Basílica de São Pedro, no Vaticano, atrás de sólidos vidros que a protegem de atentados como o que quase a destruiu em 1972. A obra ainda hoje é considerada pelos especialistas a escultura em mármore mais refinada desde a queda de Roma, mil anos antes. Mostra uma Maria jovem demais para ser a mãe de um filho morto, aos 33 anos, como um sinal da beleza eterna da Virgem. Foi a consagração do autor.
Michelangelo voltou então para Florença, convocado para realizar a obra que simbolizaria a cidade. O tema escolhido foi o personagem bíblico Davi, retratado no exato momento em que decide combater Golias, em uma estátua com mais de 4 m de altura. Exposta ao ar livre para que todos pudessem admirá-la, hoje encontra-se na Galleria dell¿Accademia, enquanto a praça em frente exibe uma réplica do mesmo tamanho.
A fama recém-conquistada chegou aos ouvidos do novo papa, Júlio 2º, apelidado de Terrível. Michelangelo foi convocado em 1508 para se estabelecer em Roma. O pontífice tinha a intenção de recuperar para a cidade a glória da antiga capital do Império Romano e isso incluía ser enterrado em um mausoléu que ofuscasse o de todos os papas anteriores. Para isso, queria a participação do maior escultor do mundo, e Michelangelo começou a trabalhar dali a alguns meses. Duas esculturas do túmulo, Moisés e Os Escravos, só foram concluídas em 1513, após a morte do papa. Conta Vasari que, depois de terminar Moisés, Michelangelo teria batido no joelho da escultura e exclamado: Parla! ("Fala!").
No meio do trabalho do mausoléu, veio a contraordem: o papa decidiu que ele deveria pintar o teto da sua capela privada e sede do conclave, onde até hoje o Colégio de Cardeais reúne-se para eleger o papa. Durante toda a sua vida, Michelangelo definiu-se como um escultor, considerando a pintura uma arte menor. Mas não havia como dizer não ao papa. Assim, de 1508 a 1512, entregou-se à pintura. Durante toda a obra, Michelangelo dispensou a ajuda de assistentes, trabalhando de pé, com a cabeça virada para cima. Comia enquanto pintava. À noite desenhava os cartões com as figuras que seriam transferidas para o teto na manhã seguinte. Colocou tapumes que escondiam todo o trabalho, que nem mesmo o papa poderia acompanhar.
Em sua biografia, Vasari relata que, quando Júlio 2º, impaciente, o interrogava para saber quando a obra ficaria pronta, respondia: "Quando eu acabar!" Numa das vezes, o papa furioso bateu-lhe com o cajado nas costas e ameaçou jogá-lo dos andaimes. Em várias ocasiões, atrasou o pagamento. Mas valeu a pena. Na abóbada de cerca de 1 000 m2, a 20 m de altura, há aproximadamente 300 figuras, representando 7 episódios do Gênesis, além de profetas, sibilas, que teriam anunciado a vinda de Cristo, e cenas da história do povo de Israel.
No total, Julio 2º pagou 3 mil ducados pelo trabalho. Feitas as contas, segundo o livro A Arte Secreta de Michelangelo, dos pesquisadores Gilson Barreto e Marcelo de Oliveira, em valores atuais corresponderia a cerca de 620 mil dólares. Significava que Michelangelo, a partir dali, era um homem rico. Mesmo assim, continuou a trabalhar até morrer, aos 89 anos, deixando obras fantásticas que marcaram para sempre a história da arte, entre elas O Juízo Final, encomenda do papa Clemente 7º, na parede frontal da Capela Sistina. Para ele, o mais importante era ser reconhecido pelo seu gênio artístico autônomo, ideia que viria a se firmar nos séculos posteriores.

Texto Martha San Juan França (Revista Aventuras na História, dezembro de 2012).

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A CAMPANHA FRUSTRADA DE NAPOLEÃO

Há 200 anos, Napoleão foi protagonista de um dos maiores desastres da história militar. Viu seu exército ser dizimado na Rússia e perdeu a fama de invencível. A campanha foi o primeiro passo rumo ao fracasso da França napoleônica

Era um belo dia de sol quando os soldados da França cruzaram o rio Neman, na atual fronteira da Polônia com a Lituânia, aos gritos de "Vive l'Empereur!", na confiança de serem o maior e mais temido exército que o mundo havia visto. Estavam ali para dar uma surra, não para guerrear - o inimigo só tinha um terço de suas forças e estava dividido. E, o mais importante, não tinha Napoleão como líder. Eram 690 mil soldados de várias nacionalidades, dos quais só 300 mil eram franceses. Os demais eram poloneses, austríacos, italianos, prussianos e até 2 mil portugueses, recrutados entre simpatizantes do imperador. Como era comum na época, seguia com eles um cortejo de comerciantes, prostitutas, médicos e até esposas e filhos dos militares. Nem soldados, nem civis, nem Napoleão poderiam imaginar àquela hora, mas apenas um em cada sete deles voltaria vivo daquela campanha.

A Rússia não é para principiantes e isso não era segredo para Napoleão e seus soldados. Pouco mais de um século antes, em 1709, o rei Carlos 12, da Suécia, havia perdido seu exército na Rússia de frio e fome. Por isso, o exército francês invadiu a Rússia no auge do verão, em 24 de junho de 1812. E o verão foi seu primeiro inimigo. As temperaturas frequentemente superam os 30 ºC, enquanto as noites duram apenas 3 horas - foi "aproveitando" esse sol todo que Napoleão fez seus soldados marcharem 112 km nos dois primeiros dias da campanha. A essa velocidade, as carroças de suprimento ficaram para trás. Desidratada pela caminhada e sem alimentos e água, a tropa viu-se forçada a beber dos riachos pantanosos da região, pegando diarreia. As primeiras vítimas tombaram ao lado das fontes de água - e os soldados que vinham atrás também ficaram doentes.
A pressa era justificada pela estratégia. "Napoleão não foi à Rússia para conquistar", diz o historiador César Machado Domingues, editor da Revista Brasileira de História Militar. Ele queria simplesmente aniquilar o exército russo e conseguir uma aliança forçada com o czar Alexandre 1º. O primeiro alvo era a cidade de Vilna, atual capital da Lituânia, onde estava o comando das tropas russas, inclusive o czar. Napoleão entrou na cidade em 28 de junho, mas o comando russo havia se mudado. Não só isso. Também haviam esvaziado armazéns e paióis de pólvora e queimado plantações nos arredores.
Os franceses esperavam fazer o mesmo que em suas guerras anteriores: tomar alimentos das cidades e fazendas pelo caminho. O que sobrava da destruição russa só era aproveitado pelos soldados da frente da coluna - quem vinha atrás passava fome. Um comércio clandestino e gangues de ladrões passaram a agir. Os cavalos, que morriam às centenas, se tornaram o prato principal.
A campanha prosseguiu assim - os russos regredindo e queimando tudo, os franceses sangrando lentamente de doenças, fome, sede, ataques de guerrilha e deserção massiva. "No caminho para Moscou, ainda no verão, os franceses perdiam em média 6 mil soldados por dia", escreveu o médico e historiador Achilles Rose (1839-1916) em seu livro A Campanha de Napoleão na Rússia, Anno 1812.
Após mais uma conquista estéril na cidade de Smolensk, em 18 de agosto, Napoleão decidiu rumar para Moscou. Mas isso os russos não aceitariam e, enfim, Napoleão teve sua batalha. A mais sangrenta de todas as guerras napoleônicas, a Batalha de Borodino, em 7 de setembro - dos 250 mil participantes, 80 mil morreram. Os russos recuaram mais uma vez, mas não foram aniquilados. Em 14 de setembro, Moscou pertencia a Napoleão. "Napoleão deve ter imaginado que havia vencido", diz César Domingues. Ele sentou-se no trono do Kremlin e esperou a rendição do czar. No mesmo dia, começou um incêndio, que os russos jamais admitiram ter causado, que destruiu 75% da cidade em 4 dias.
O tempo ia esfriando, o Exército russo, se recompondo, e o czar não ofereceu paz. Em 18 de outubro, quando os franceses iniciaram a retirada, a temperatura estava por volta de 0 ºC. O plano era voltar pelo sul, mas os russos cortaram o caminho e os militares se viram forçados a voltar por onde vieram, começando pelo campo de Borodino, crivado de homens e cavalos em decomposição da batalha de um mês e meio antes.
Se algo havia sobrado da destruição causada pelos russos, já havia sido consumido pelos franceses na ida. Diante de um frio que chegaria a -40 ºC, ninguém tinha roupas de frio, exceto as roubadas de Moscou - inclusive chapéus, sapatos, mantos e echarpes femininas. Os cavalos não tinham ferraduras adaptadas ao gelo, como as dos russos - escorregavam e quebravam as patas ou simplesmente não conseguiam puxar as cargas.

A tropa se converteu em um bando de desesperados. Cavalos passaram a ser atacados e a carne era comida crua. Em seu livro de memórias, o sargento Adrien Bourgogne relata que um carro-ambulância teve seus cavalos devorados à noite pela tropa. De manhã, os feridos foram largados no caminho. Os soldados também tiravam nacos de carne de animais ainda vivos - amortecidos pelo frio, eles não reagiam. Bourgogne conta que um bando de soldados havia se fechado em um celeiro para evitar o frio. Eles se acumularam na porta para evitar que mais gente entupisse o lugar. Durante a noite, o celeiro pegou fogo. Quando o incêndio acabou, alguns soldados tomaram coragem de avançar para os corpos dos colegas, providencialmente "assados". O soldado alemão Jakob Walters (1788-1864) escreveu que viu um soldado que se aliviava de diarreia à beira da estrada ter suas calças roubadas - a vítima morreu de frio horas depois.
Os franceses fugiam em desespero, mas os russos não haviam se esquecido deles. Em 26 de novembro, as tropas napoleônicas tiveram de atravessar o rio Berezina (na atual Bielorrússia). Os russos descobriram sua posição e atacaram no dia 29, com 60 mil homens, contra 40 mil soldados divididos entre as duas margens. Os franceses conseguiram escapar com seu imperador, destruindo as pontes improvisadas que haviam feito - mas ainda havia muitos deles do outro lado. Entre 25 mil e 45 mil civis e militares morreram ali - 10 mil deles empurrados pelos cossacos para dentro do rio congelado.
Em 14 de dezembro, o esfarrapado exército de Napoleão chegou à Polônia. Sua tropa principal tinha 22 mil soldados, dos 690 mil que entraram na Rússia. O total de sobreviventes é cerca de 100 mil, contando as outras colunas do exército. Pessoas, armas e cavalos podiam ser substituídos, mas o dano irrecuperável foi à reputação de invencível de Napoleão, que acabou deposto e exilado na ilha de Elba (Itália) em 1814.
Não foi apenas Napoleão que não aprendeu com seus antecessores. Em 22 de junho de 1941, Hitler invadiu a União Soviética, também esperando uma campanha fulminante que acabasse antes do inverno. Os nazistas estavam às portas de Moscou em dezembro, mas então veio o inverno, matando 150 mil alemães em poucos dias. Em homenagem aos serviços prestados, os russos deram uma promoção a seu inverno. Lá ele é conhecido como General Moroz - o temido General Inverno.

Bárbaros pelo czar
Os cossacos não costumam entrar na conta do efetivo do Exército russo, mas como adicionais (costuma-se afirmar algo como "100 mil soldados e 20 mil cossacos"). Na verdade, eles nem são exatamente russos. Cossacos são sociedades independentes, democráticas e militaristas, originalmente de povos eslavos, que depois passaram a aceitar aventureiros de qualquer país - particularmente quem falasse línguas, soubesse fazer contas ou simplesmente fosse alfabetizado, talentos raros entre os nascidos entre eles. Os cossacos não eram súditos, mas aliados do czar - e se voltaram contra os russos em algumas ocasiões, como a Revolta de Pugachev, de 1774. Suas tropas tinham sua própria hierarquia e generais. Mas elas eram um tanto indisciplinadas, por isso os russos preferiam usá-los como forma de bagunçar e aterrorizar as linhas inimigas, e não como força de choque ou cavalaria regular. Os cossacos foram integrados à sociedade soviética à força por Josef Stalin, na década de 30, mas os descendentes ainda se orgulham do passado independente e aventureiro.
Texto Fabio Marton | Ilustrações Diego Sanches (Revista Aventuras na História - novembro de 20132). 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

BRASIL: A REPÚBLICA VELHA

A Primeira República, também chamada de República Velha, é comumente dividida em República da Espada, que vai de 1889 a 1894, período em que o Brasil foi governado pelos militares, os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto; e República Oligárquica, de 1891 a 1930, em que prevaleceram os interesses dos grandes cafeicultores. Durante o primeiro período, os militares compunham a única força capaz de manter a ordem interna para a consolidação do regime republicano. No segundo período, iniciado com o governo de Prudente de Morais, o poder passou para as mãos dos civis, mais especificamente para os grupos oligarcas de São Paulo e Minas Gerais. Ao contrário dos militares que buscavam uma política centralizadora, os governos oligárquicos eram adeptos do federalismo, que dava maior autonomia para os governos estaduais.
                A proclamação da República foi conduzida por setores do Exército com o apoio dos republicanos paulistas, que em sua maioria eram cafeicultores. Desse modo, sob a liderança do marechal Deodoro da Fonseca, a monarquia foi derrubada em 15 de novembro de 1889, por meio de um golpe de Estado que não teve participação popular. Ao tomar o poder, os militares expulsaram do país o imperador D. Pedro II e organizaram um governo provisório. Em seguida convocaram uma Assembleia Constituinte, formada por representantes dos grupos sociais que participaram do golpe, a fim de elaborar uma nova Constituição, concluída no inicio de 1891. Entre as diretrizes da nova Constituição, destacavam-se a ruptura entre Igreja e Estado (não haveria mais religião oficial, o país tornava-se um Estado laico) e a criação do casamento civil, assim como dos demais registros civis. Além disso, as províncias passaram a ser chamadas de estados e, o país de Estados Unidos do Brasil. A administração da república foi dividida em três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. O regime republicano escolhido foi o presidencialismo e o mandato do presidente fixado em 4 anos sem direito a reeleição. As eleições passaram a ser diretas, porém, o voto era aberto. Podiam votar os maiores de 21 anos que não fossem analfabetos, mendigos, soldados ou membros de ordens religiosas; as mulheres não tinham direito ao voto.

A República Espada
                Quando assumiu o governo provisório logo após a Proclamação da República, Deodoro da Fonseca nomeou para ministro da Fazenda, o jurista Rui Barbosa. Para expandir o crédito, aumentar a quantidade de dinheiro em circulação e incentivar a abertura de novas indústrias, o ministro permitiu que bancos privados emitissem moeda. Seu objetivo era incentivar o desenvolvimento industrial no país. A medida contribuiu de fato, para a expansão do crédito, mas muitas pessoas abriram empresas fictícias para obter dinheiro dos bancos. A especulação cresceu significativamente e, passado o período de euforia, vieram as falências de bancos que não receberam os pagamentos dos empréstimos realizados. Tal política conhecida como “Encilhamento” lançou o país em uma profunda crise econômica e financeira. Ao mesmo tempo, existia um grave conflito político, de um lado o presidente militar e de outro, políticos liberais e a imprensa. Deodoro e os militares que o apoiavam alimentavam grandes desconfianças sobre os políticos. Ele pretendia aumentar as prerrogativas do poder Executivo e limitar a autonomia dos estados. Por sua vez, os liberais defendiam o federalismo. Em meados de 1891, deputados e senadores aprovaram medidas para restringir o poder do presidente. Inconformado com essas restrições, Deodoro da Fonseca fechou o Congresso em novembro de 1891 e decretou estado de sítio. As reações contra as medidas do presidente foram tão generalizadas que, poucas semanas depois, o presidente renunciou ao cargo.
                A posse do novo presidente foi muito questionada. Segundo a Constituição, o vice presidente só completaria o mandato se o presidente tivesse cumprido a metade do período governamental, ou seja, dois anos. Como Deodoro da Fonseca deixou o poder depois de oito meses, Floriano Peixoto deveria assumir a presidência e convocar novas eleições. Peixoto, entretanto, permaneceu no poder, alegando que a lei só valeria a partir do próximo mandato. As elites políticas do Partido Republicano Paulista, receosos com a instabilidade da República, apoiaram o novo presidente. Floriano percebeu, por sua vez que o apoio do PRP era fundamental. Ele também contou com importantes setores do Exército e da população do Rio de Janeiro, capital do país, ficando conhecido como o “Marechal de Ferro”. Liderados pelo almirante Saldanha da Gama, oficiais da Marinha de Guerra, de tradicionais vínculos com a elite imperial, tornaram-se a principal oposição ao governo de Peixoto. Em setembro de 1893, posicionaram os navios de guerra na baía da Guanabara, apontando os canhões para o Rio de Janeiro e Niterói e dispararam tiros contras as duas cidades; começava a Revolta da Armada. Em março do ano seguinte, sem o apoio da população, a situação tornou-se insustentável nos navios, pois faltavam munições, alimentos e água. Parte dos revoltosos pediu asilo político em Portugal, enquanto outra parte foi para o sul do país se integrar a uma guerra civil, que um ano antes eclodia no Rio Grande do Sul: a Revolução Federalista.
                No Rio Grande do Sul, a política regional foi alterada com a instalação da República. O Partido Republicano Rio-Grandense, fundado em 1882, liderado por Júlio de Castilhos e com orientação positivista, alcançou o poder. Com o apoio de Floriano Peixoto, os castilhistas passaram a governar de maneira autoritária, empregando violência e realizando eleições fraudulentas. A principal força de oposição a eles era o Partido Federalista, liderado por Gaspar Silveira Martins, cujas divergências com os republicanos giravam em torno da organização do poder. Enquanto os federalistas defendiam o parlamentarismo a  predominância da União Federativa sobre o poder estadual, os republicanos pregavam o sistema presidencialista e a autonomia dos estados. Diante da prática de violência e de fraudes eleitorais, federalistas e outras forças de oposição se uniram, dando origem a um confronto que resultou em sangrenta guerra civil entre 1893 e 1895, conhecida como Revolução Federalista. Os federalistas estavam exilados em uma região do Uruguai onde viviam colonos originários da Maragateria, na Espanha. Assim, para caracterizar os federalistas como estrangeiros, os republicanos passaram a chama-los de “maragatos”. Os republicanos pro sua vez eram chamados por seus adversários de “pica-paus”. Segundo algumas versões essa expressão tem origem no chapéu usado pelos soldados republicanos, que tinha ponta fina e comprida como um bico de pica-pau. A guerra civil gaúcha se estendeu para Santa Catarina e Paraná. Em junho de 1895, as lutas terminaram com a vitória dos republicanos partidários de Júlio de Castilhos, que haviam recebido apoio de Floriano Peixoto.
                Tanto a Revolta da Armada quanto a Revolução Federalistas foram sufocadas pelo governo central. Em 15 de novembro de 1894, ainda com a instabilidade, pois o conflito no sul duraria mais sete meses, a marechal Floriano Peixoto passou a faixa presidencial para Prudente de Morais, o primeiro presidente civil do Brasil, representante das elites cafeeiras paulista. Encerrava-se assim, o que muitos determinaram de República da Espada.

O Poder das Oligarquias
                A eleição do paulista Prudente de Morais marcou a ascensão da oligarquia ao poder, principalmente os grandes cafeicultores ao comando politico do país. Nessa época os presidentes procuravam fazer alianças com as elites regionais, implantado a chamada política dos governadores. Essa política se consolidaria no governo de Campos de Sales (1898-1902). Nesse sistema o governo federal apoiava as oligarquias dominantes nos estados, que em troca sustentavam politicamente o presidente da República no Congresso Nacional, controlando as eleições de deputados federais e senadores fieis aos governantes. Dessa forma, os candidatos da oposição dificilmente chegavam a ser eleitos. Ainda assim, caso isso acontecesse, a Comissão de Verificação de Poderes da Câmara Federal impugnava a eleição de um oposicionista alegando fraude. A politica dos governadores reforçou, sobretudo, os poderes das oligarquias paulista e mineira. Sendo os estados mais ricos e populosos, São Paulo e Minas Gerais elegiam grande bancada na Câmara dos Deputados. Vale lembrar que nessa época os partidos políticos eram estaduais. No momento de escolher o sucessor do presidente da República funcionava uma outra politica denominada de politica do café-com-leite, expressão simbólica da aliança entre o PRP e PRM. As oligarquias dos dois estados escolhiam um nome para a sucessão presidencial, ora filiado ao partido paulista, outra, ao partido mineiro. Embora fossem os estados mais fortes do Brasil, a aliança entre eles não era tão sólida. A cada sucessão presidencial esta aliança tinha que ser renovada, muitas vezes com conflitos e interesses divergentes. Assim, formaram-se no país oligarquias dominantes, por serem fortes em termos econômicos e políticos: São Paulo e Minas Gerais. Embora em situação inferior, destacavam-se também as oligarquias gaúcha, baiana e do Rio de Janeiro. Tanto que nas eleições de 1910 e 1919, foram eleitos respectivamente o marechal gaúcho Hermes da Fonseca e o paraibano Epitácio Pessoas, ambos fora da “politica do café com leite”. Essas situações, entretanto, foram especificas. Com isso, com o tempo, as oligarquias dos outros estados, principalmente a partir da década de 1920 passaram a questionar o próprio sistema político.
                Na base do poder da República Oligárquica estavam os coronéis. O termo coronéis está ligado à Guarda Nacional, que foi criada após a independência do Brasil para combater os setores do Exército que permaneceram fiéis a Portugal e reprimir as revoltas que surgiram em vários pontos do país. A guarda era formada por civis aptos a lutar e os postos de comandos eram atribuídos aos chefes locais mais poderosos, que recebiam o titulo de coronel. Mesmo com a extinção da Guarda Nacional após a proclamação da República, esses chefes locais mantiveram seu poder e continuaram sendo chamados de coronéis. Para que os governadores conseguissem garantir a eleição de deputados favoráveis ao governo federal a garantir a politica dos governadores, eles faziam alianças com grandes proprietários rurais, os coronéis. Esses se aproveitavam do poder que exerciam sobre a população pobre para garantir os votos que desejavam. Essa prática ficou conhecida como coronelismo e só foi possível devido à opressão que os proprietários de terra exerciam sobre os camponeses, dependentes de sua terra e proteção. Além da opressão, os coronéis também controlavam o voto dos trabalhadores por meio de pequenos favores, como por exemplo, doando roupas, conseguindo vagas de emprego, atendimento médico, etc. Essa prática é conhecida como clientelismo. Mas para o funcionamento do coronelismo era fundamental dos cabos eleitorais que faziam o contato e reuniam os eleitores. Como o voto não era secreto, os eleitores eram facilmente coagidos a votar nos candidatos apoiados pelos coronéis. Além disso, as fraudes eleitorais eram frequentes. O voto de cabresto tornou-se uma prática comum, principalmente no interior do Brasil e permitia o controle das eleições e a manutenção do poder pelas oligarquias. Controlando o resultado das eleições o coronel exercia grande influencia na politica estadual, chegando até mesmo a administrar a justiça e a controlar a polícia em suas áreas de influencia.

A Economia
                Do ponto de vista econômico, a situação não se alterou com a mudança do regime, uma vez que o café continuou a ser o grande produto da exportação brasileira e, mantendo a estrutura agroexportadora do país que beneficiava especialmente as oligarquias. A questão da mão-de-obra evidentemente apresentou uma alteração, já que em 1888 fora abolida à escravidão. É verdade também que a maior parte dos ex-escravos permaneceu no meio rural, agora não condição de proletários rurais, vivendo numa situação miserável.  Importante ressalta que os novos ministros da Fazenda dos governos republicanos, especialmente durante a República da Espada foi francamente favorável a novos interesses econômicos. Buscou-se uma politica favorável à industrialização, mas como já vimos à especulação financeira levou a crise do Encilhamento. A partir de 1894, quando a oligarquia toma o poder de fato, se objetivou fortalecer ainda mais o setor agrícola, o que de fato se deu.
                Na primeira década do século XX, ocorreu um grande desenvolvimento da extração da borracha, na região Norte, reflexo principalmente da grande produção de pneumáticos necessários à indústria automobilística em expansão. O Brasil nesse momento respondia por 90% de toda a produção mundial do látex. A abertura dos novos caminhos até o local onde estavam às seringueiras aconteceu muitas vezes em terras habitadas por povos indígenas, o que resultou em uma série de confrontos. Muitos povos indígenas foram dizimados ao tentar impedir a invasão de suas terras. É no contexto do chamado ciclo da borracha que acontece a anexação do Acre ao Brasil. A região pertencia à Bolívia, porém, muitos nordestinos brasileiros que sofriam com a seca se estabeleceram ali para explorar a borracha, gerando conflitos armados com as tropas bolivianas. Os brasileiros liderados pelo gaúcho Plácido de Castro chegaram a declarar a independência do Acre. Em 1903, a diplomacia brasileira conseguiu através do Tratado de Petrópolis, incorporar o Acre ao território brasileiro em troca de indenizações à Bolívia, ou seja, o Brasil comprava o Acre da Bolívia. Em relação à exploração da borracha, uma vez estabelecida a área de exploração entravam em cena os seringueiros, que extraiam o látex das árvores. Durante a época de extração, os seringueiros passavam vários meses embrenhados na mata, tendo contato apenas com os comerciantes que, em troca da borracha, lhes forneciam víveres e outras mercadorias para subsistência. O auge da extração da borracha na Amazônia entre 1895 a 1915, fez com que essa região passasse por um surto de riqueza que possibilitou o surgimento de uma elite formada, sobretudo por seringalistas, grandes comerciantes e banqueiros. Manaus e Belém tornaram-se cidades modernas nesse período, com a construção de largas avenidas, praças, edifícios e mercados. A euforia com tanta riqueza, entretanto, não durou muito. Atraídos pelas perspectivas de lucros ainda maiores, os ingleses transplantaram mudas de seringueiras para Ásia, especialmente Sri Lanka e Cingapura, onde a planta passou a ser cultivadas em grandes propriedades, enquanto no Brasil, ao contrário, ela permanecia crescendo espontaneamente no meio da floresta. Com esse processo, em pouco tempo os asiáticos passaram a liderar a produção mundial do látex. Em 1919, as vendas brasileiras no marcado externo não chegavam a 10% das exportações mundiais.
                Apesar do surto da borracha, o grande produto brasileiro do período sempre foi o café, que no inicio do século também começou a enfrentar dificuldades no mercado mundial. Os grandes problemas enfrentados pelo café brasileiro estão relacionados à superprodução, o que ocasionou fortes baixas nos preços do produto no mercado mundial. Objetivando regularizar a situação, os governadores e os cafeicultores reuniram-se na cidade de Taubaté, em 1906. Nesta reunião foi assinado o famoso Convênio de Taubaté, que entre outras coisas estipulava a garantia do preço mínimo por saca; a fim de manter o equilíbrio entre a oferta e a procura e consequentemente garantir a manutenção do preço, os excedentes seriam comprados pelo governo e estocados; a compra desses excedentes seria feita utilizando empréstimos externos; seria cobrado um novo imposto para pagar os juros dos empréstimos. Essas medidas procuravam valorizar o produto. Mas em síntese este convênio estipulava a “socialização” das perdas, isto é, quando os cafeicultores não conseguissem vender sua produção toda a população brasileira pagava os prejuízos; quando eles conseguiam vender, somente eles ficavam com os lucros. Durante a década de 1920 a situação ficou ainda mais complicada e ficou pior com a grande crise do capitalismo em 1929. Cerca de 22 milhões de sacas constituíam o estoque daquele ano e era impossível vende-las. O governo também não tinha como compra-las. Essa situação provocou uma grande crise, que muitos historiadores apontam com sendo responsável pelo fim do “ciclo” do café no Brasil.
                O setor industrial experimentou um considerável avanço a partir do período republicano. Desde o inicio da República, tentou-se desenvolver uma politica econômica e financeira voltada para a industrialização. As medidas que resultaram na crise do Encilhamento tinham esse propósito. Porém, a predominância do poder político dos setores agrícolas a partir de 1894 levou ao esquecimento e a falta de investimentos nas indústrias que em geral eram de pequeno e médio parte e produziam produtos de bens não duráveis como roupas e alimentos. Mas a eclosão da Primeira Guerra Mundial vai transformar-se benéfica para o setor industrial brasileiro. Devido às dificuldades encontradas para a importação dos produtos manufaturados, começaram a ser instaladas no país as chamadas “indústrias de substituição de importações”. Neste contexto o capital advindo da produção do café foi essencial para o processo de industrialização no Brasil. (Adaptado de PELLEGRINI, Marco. História 3 – Novo Olhar, p.33-42; GISLANE E REINALDO, História em movimento 3, p.135-148; VAINFAS, Ronaldo. História 3, p.42-43; FARIA, Ricardo de Moura. História 3, p.329-331.).



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

AS NASCENTES REPÚBLICAS LATINO-AMERICANAS

Os movimentos de independência na América espanhola resultaram na fragmentação dos antigos vice-reinados e na formação de diversas repúblicas. Fracassaram todas as tentativas de união, ainda que parciais, a exemplo do pan-americanismo idealizado por Simon Bolívar. A tarefa com que se deparavam as elites dirigentes das jovens repúblicas não era fácil. Era preciso honrar o ideário liberal que motivara as emancipações e remover muitas das heranças coloniais. Mas elites dominantes eram ancoradas por várias das antigas estruturas, como o regime latifundiário e o trabalho compulsório imposto aos índios e mestiços. Dos movimentos de independência surgiram elites heterogêneas. Em certos casos, predominavam grupos conservadores, que pretendiam manter os antigos privilégios; em outros, políticos de orientação liberal, que propunham reformas. Em alguns casos, essas desavenças levaram a guerras civis. A vida política dos países latino-americanos durante o século XIX foi marcada pela instabilidade, pela submissão das massas e pelo predomínio das oligarquias rurais. Diante da ausência do poder político institucionalizado após os movimentos de independência, surgiram os caudilhos, chefes locais que à frente de exércitos regionais foram responsáveis por uma tradição militarista que se ligava aos interesses dos latifundiários e do capital estrangeiro. O caudilho era um chefe regional de origem militar, dotado de grande carisma e que tinha uma postura patriarcal e autoritária. Muitas vezes sem um programa politico definido, conseguia arregimentar milhares de adeptos, derrubava o governo estabelecido e nele se instalava.
            Dessa forma, no final da década de 1820, em todos os países independentes da América Latina, prevaleciam duas ideologias políticas: a dos conservadores e dos liberais. Entre eles, existia um objetivo em comum: manter as hierarquias sociais, o que significava conservar o poder politico da elite criolla, sobre os camponeses e trabalhadores indígenas, mestiços e negros; e o caudilhismo garantiu esta ideia. A diferença entre conservadores e liberais estava basicamente estava na estrutura estatal. Os conservadores defendia a ideia de uma Igreja e de um Exército forte, mantendo as isenções fiscais desfrutadas pelos eclesiásticos, além da obrigatoriedade do ensino religioso como meio fundamental para formar o cidadão. Acreditavam que uma Igreja enfraquecida traria desordem à sociedade. Já, os liberais, sob influencia iluminista e da Revolução Francesa, tinham por objetivo a laicização do Estado – separar o Estado da Igreja – e a defesa do ensino laico. Defendiam um sistema federativo descentralizado.
            Os novos países também se empenharam na elaboração de suas Constituições, importante etapa para a organização do Estado. Em todas as Constituições pode ser verificar os princípios do liberalismo, diante da preocupação com a liberdade, a igualdade e a separação dos poderes. As Constituições falam também de república e de federalismo, seguindo o modelo da Constituição dos EUA. Porém, o federalismo transportado para a realidade da América Latina irá se revelar ineficiente, diante da falta de tradição dos governos locais. Ao federalismo (descentralização politica; liberdade às partes) se opunha o unitarismo (centralização).
            No campo econômico, os novos países continuaram a praticar a mesma politica de quando eram colônias, ou seja, a de agroexportadores, o que favorecias as elites latifundiárias. As tentativas de industrialização durante o século XIX vão esbarrar diante da falta de tarifas protecionistas e do domínio exercido pelos latifundiários na área governamental. Além disso, os interesses dos comerciantes estavam associados ao da burguesia estrangeira. Importante salientar que, no final do século XIX, começa a ocorrer na América Latina à penetração do capital estadunidense nas áreas até então controlada pelos ingleses. Fato este que está diretamente relacionado ao imperialismo estadunidense.
            No México os conservadores dominaram a politica na primeira metade do século XIX, com o apoio do Exército. Seu líder, o general Antônio López de Santa Anna, dominou o país até 1855, quando foi derrubado. Seu governo se tornou impopular, principalmente depois da perda do Texas  e, na guerra que se seguiu, contra os EUA, onde cerca de metade do território mexicano foi tomado. Os liberais assumiram então, procurando fazer uma ampla reforma agrária, repartindo as terras da Igreja e das comunidades indígenas, o que provocou a Guerra Civil (1858-1861). Após a morte do liberal Benito Juarez, seu sucessor foi deposto por um golpe que levou Profírio Diaz ao poder. O porfiriato (1875-1910), como ficou conhecido seu governo foi um período de estabilização econômica e de abertura do México ao capital dos EUA que favorecia a oligarquia mexicana e detrimento da população; o que elevou os problemas sociais do país que acabariam por levar a Revolução Mexicana de 1910.
            Na América Central, a tentativa de criar a Confederação Centro-Americana fracassou, ocasionando o surgimento de seis países. Na Guatemala, Rafael Carrera assumiu o poder em 1839. Seu governo era ditatorial, mas contava com o apoio principalmente, do clero e dos grandes comerciantes. Em El Salvador, a produção de café, garantiu a predominância dos conservadores durante a primeira metade do século XIX , assim como na Costa Rica. Em Honduras, isso foi conseguido, graças às poucas minas de prata que ainda não haviam se esgotado. Já a Nicarágua, além de fornecer gado para os países vizinhos, esteve no centro das atenções porque pretendia construir em seu território um canal para ligar o oceano Atlântico ao Pacífico. Por causa disso, o país sofreu intervenções da Inglaterra e dos EUA. A partir da década de 1870, uma onda liberal sacudiu a América Central. Os liberais eram, naquele momento, mais pragmáticos e objetivavam desenvolver as economias voltadas para a exportação. Na região do Caribe, o Haiti viveu um grande período de crises, que se estenderam até o inicio do século XX. Os espanhóis haviam conseguido retomar o controle da parte oriental da ilha (São Domingos), enquanto os conflitos internos levavam a implantação de uma monarquia no norte e de uma república no sul, problema finalmente solucionado em1820 com a reunificação. Em seguida a parte oriental foi reconquistada, mas novamente perdida em 1843, quando se criou a República Dominicana, que, em 1861, optou por voltar a ser colônia da Espanha. Como os espanhóis não conseguiram defender o território, a independência foi novamente proclamada em 1865. Em Porto Rico ocorreram revoltas contra a Espanha em 1822,1826,1843 e 1848, mas todas dominadas. Em 1868, a independência foi proclamada, mas os espanhóis conseguiram sufocar o movimento. Em 1898, após a guerra entre EUA e Espanha, Porto Rico passou a ser propriedade estadunidense. Cuba só conseguiu sua independência em 1898 e, como já vimos passou para a influencia dos EUA.
            O Vice-Reino de Nova Granada deu origem a dois países: Colômbia e Equador. Simon Bolívar tentou unificar os dois com a Venezuela para formar um só país: a Grã Colômbia, sem sucesso. Na Colômbia, as primeiras décadas do século XIX foram marcadas pela existência de governos conservadores. Sem maiores problemas econômicos, teve uma existência relativamente estável, só perturbada a partir de 1848, quando sob influencia das revoluções europeias, os liberais conseguiram chegar ao poder iniciando uma ampla série de reformas. A escravidão foi abolida, adotaram a liberdade religiosa e, principalmente, implementaram o livre comércio. Essas medidas levaram aos conflitos com os conservadores para a radicalização, que progressivamente, fez a autoridade central concentrar mais poder. A lavoura cafeeira era a principal riqueza do país. O Equador separou-se da Grã-Colômbia em 1830 e a sua população presenciou a disputa entre conservadores e liberais até o fim do século. Os conservadores representavam os grandes proprietários do interior que utilizavam a mão-de-obra indígena e a dominavam completamente, enquanto os liberais tinham suas bases nos comerciantes e os proprietários da faixa litorânea. De 1861 a 1895 os conservadores permaneceram no poder.  Os liberais sob a chefia de Eloy Alfaro, conseguiram derrubá-los do poder. Prometendo resolver a questão da terra, Alfaro determinou a estatização das propriedades da Igreja, mas não as distribuiu entre os indígenas, o que fez com que o problema continuasse.
            O Vice-Reino do Peru após a independência deu origem ao Peru. Ali também o embate entre conservadores e liberais esteve presente desde os primeiros momentos da emancipação. Em 1836, Peru e Bolívia se uniram sob a liderança do conservador boliviano Andrés Santa Cruz. Nove anos depois essa união se desfazia, quando o marechal Ramón Castilla assumiu o poder no Peru, dotando-o de uma Constituição e abolindo a escravidão. Tendo no guano seu principal produto de exportação, a economia peruana se estabilizou. Contudo, apesar da riqueza proporcionado pela guano, os problemas sociais persistiram, principalmente os relacionados com a população indígena, que se revoltou várias vezes durante o século XIX, causando muita instabilidade política no país. Na década de 1870, o salitre tornou-se alvo de maior interesse econômico. Sua localização era o sul, na fronteira com o Chile a Bolívia. Interesses conflitantes levaram à Guerra do Pacífico. Peru e Bolívia lutaram contra o Chile, que passou a controlar as regiões de Arica, Antofagasta e Tarapacá. O Chile tornou-se o país da América do Sul que teve mais estabilidade pós-independência. Os liberais que logo assumiram o poder tentaram estabelecer o federalismo, mas não tiveram sucesso e os conservadores assumiram, estabelecendo a Constituição em 1833, com um governo de caráter autoritário e amparado por um exército profissional. Somente na segunda metade do século XIX a economia chilena experimentou uma modernização. Com as finanças saneadas, o governo de Manuel Montt incentivou a construção de ferrovias, criou o Banco Nacional e liberalizou a legislação. Essas atitudes provocaram conflitos com os conservadores. Em 1879, o Chile venceu a Guerra do Pacífico contra o Peru e a Bolívia, pela disputa das áreas de salitre ampliando o seu território.

            O Vice-Reino do Rio da Prata fragmentou-se em quatro países: Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. A Bolívia como se viu tentou se unir ao Peru, mas não teve sucesso. No final do século aliou-se ao Peru contra o Chile na Guerra do Pacífico, onde foi derrotada e perdeu importantes regiões, inclusive a sua saída para o mar. O Paraguai teve governos autoritários desde a sua independência. O primeiro caudilho a governar foi Jose Gaspar Rodriguez de Francia que ficou no poder até 1840. Foi ele que eliminou as oposições internas e praticamente fechou o país, tentando desenvolver-se autonomamente. As políticas expansionistas de seus sucessores, principalmente de Solano López, que modernizou seu exército levou o país a uma guerra contra Brasil, Argentina e Uruguai, a chamada Guerra do Paraguai. Esta guerra, ocorrida na década de 1860 liquidou com os recursos humanos e econômicos do país. O Uruguai foi ocupado por D. João VI quando estava no Brasil, tornando-se mais tarde Província Cisplatina, pertencente ao Império do Brasil. Em 1828, depois de vencida a Guerra da Cisplatina contra o império brasileiro a região tornou-se independente. Desde o inicio a vida política do Uruguai oscilou entre os partidos Blanco, bastante ligado ao caudilho argentino Juan Manuel Rosas, e de caráter conservador, e o Colorado de caráter liberal e bastante associado ao governo imperial brasileiro. Os embates entre os dois partidos provocaram conflitos diversos, inclusive com intervenções armadas das tropas brasileiras nas décadas de 1850 e 1860, a última das quais se desdobrou na Guerra d Paraguai. Ao final da guerra, os conflitos internos provocados pela apropriação das terras por especuladores levaram a instalação de uma ditadura militar. O general Lorenzo Latorre completou a demarcação das grandes propriedades, criou a educação elementar estatizada e incentivou a exportação de lá e peles. Na Argentina independente a grande dificuldade foi à unidade territorial. Isso porque quando ocorreu à independência, o território argentino se dividia em várias províncias e, praticamente todas elas se opunham a Buenos Aires, que liderava o processo de emancipação. Oposição se devia ao fato de que as ligações dos comerciantes de Buenos Aires com os ingleses arruinarem a produção artesanal do interior. Juan Manuel de Rosas assumiu o poder em 1829 e tentou barrar o predomínio econômico dos ingleses. A marinha inglesa cercou o porto, tentando derruba-lo, mas foi derrotada. Em 1833, os ingleses ocuparam as ilhas das Malvinas. Após a guerra contra o Brasil em 1852, Rosas foi derrotado e deposto. Os governos liberais se seguiram, notadamente o de Bartolomé Mitre (1862-1868), conseguiram finalmente a unidade do território e ampliaram o comércio com a Inglaterra. A exportação de carne e de cereais garantia prosperidade e pagava as importações de manufaturados europeus. Foi também Mitre que se aliou ao Brasil e ao Uruguai contra o Paraguai. Ao final da guerra, os investimentos ingleses garantiram a abertura de ferrovias e o melhoramento dos portos. Houve um grande fluxo de imigrantes europeus e o extermínio das populações indígenas da Patagônia e do Chaco. (Adaptado de FARIA, Ricardo Moura de. Estudos de História 2, p.206-213 e; FARIA, Ricardo de Moura. História 3, p.208-210).