quarta-feira, 4 de setembro de 2013

ESTADOS UNIDOS: DA ORGANIZAÇÃO DO ESTADO A EXPANSÃO TERRITORIAL E AO IMPERIALISMO

Muitos intelectuais que tinham defendido a ruptura com a Inglaterra empenharam-se para constituir um Estado moderno e organizado após a independência das Treze Colônias. Um dos frutos dessa mobilização foi à  elaboração da Constituição. No ano de 1787, em um encontro reunido os líderes das antigas Treze Colônias foi elaborada a Constituição dos Estados Unidos da América e, nela ficou decidido que a forma de governo seria uma República Federativa, com o poder do Estado dividido em três poderes: Executivo, Judiciário e Legislativo. Foi eleito como primeiro presidente do país George Washington. Estava assim, constituído o primeiro Estado nacional fora da Europa. Nesse período, se definiram dois partidos: o Federalista, que tinha sua base entre os comerciantes da parte norte do país; e o Republicano, apoiado nos pequenos proprietários. Os federalistas defendiam uma autoridade central fortalecida, enquanto os republicanos apoiavam a ideia de um poder mais descentralizado, que garantisse a autonomia dos Estados federados. Com a derrota dos federalistas no projeto de estruturação da nova nação, surge em 1829, para se opor aos Republicanos o Partido Democrata, que encontrou como apoio os trabalhadores do norte e os latifundiários do oeste. Desde então, estes dois partidos se revezam no poder dos EUA.
            Ainda durante a primeira metade do século XIX, o governo dos EUA tratou de consolidar a independência do país, assim como expandir o seu território para oeste. A Doutrina do Destino Manifesto – crença de que o povo dos EUA seria escolhido por Deus para comandar o mundo – entendia como tarefa divina e necessária espalhar pelo mundo as concepções da sociedade estadunidense. Isso logo se traduziu na ideia de expansão territorial. Entendia-se que a primeira grande tarefa dos estadunidenses era avançar para o oeste, unindo Atlântico ao Pacífico; e para o sul. A primeira etapa da expansão territorial se deu para o sul, com a compra da Louisiana da França, em 1803. Depois foi a vez da Florida comprada da Espanha, em 1819. Quando a expansão se orientou para os territórios do oeste, o resultado foi trágico para os povos indígenas, considerados um obstáculo para o tipo de povoamento e a expansão agrícola que se pretendia implantar. No momento em que os colonos se dirigiram para as terras indígenas, erguendo casas, arando os campos, fundando fortes e cidades, com o apoio de tropas federais, os conflitos se tornaram inevitáveis. O governo promulgou leis implacáveis contra os indígenas, que obrigava diversos desses povos a migrar para as reservas a oeste do rio Mississipi. É claro que os indígenas reagiram a essa invasão, atacando caravanas de colonos, casas e fortes. O governo garantiu aos indígenas que os limites de suas novas terras seriam respeitados. Não foi o que ocorreu: os colonos também começaram a ocupar as reservas. Em razão disso, muitos povos indígenas se rebelaram, o que resultou em intensos conflitos, com inúmeras mortes, em ambos os lados, mas, sobretudo, entre os indígenas. A ocupação do oeste se intensificou ainda mais a partir da construção da malha ferroviária, iniciada na década de 1840, recortando terras de leste a oeste. Duas décadas depois o país já contava com mais de 50 mil km de trilhos. A ferrovia funcionou como desbravadora, ao viabilizar a exploração agrícola das terras até então inacessíveis.

            Em 1845, o Texas, república independente do México desde 1836, foi anexado aos EUA como o vigésimo oitavo estado. Os interesses se voltaram então, para a área compreendida entre as montanhas Rochosas e o Pacífico. O governo dos EUA tentou comprar do México a Alta Califórnia e o Novo México. A recusa dos mexicanos resultou numa guerra entre os dois países. Vitoriosos, em 1848, os EUA, incorporaram ao seu território cerca de 2,4 milhões de km² de áreas que eram antes de domínio mexicano: Califórnia, Novo México, Arizona, Utah, Nevada e Colorado. Ao norte, em 1867, os EUA compraram o Alasca da Rússia. Muitos no Congresso foram contra a compra do Alasca considerando-a uma “caixa de gelo” sem utilidade. Posteriormente, diversos recursos naturais foram encontrados no Alasca, estimulando o povoamento do território.
A anexação dessas áreas foi decisiva para a deterioração das relações entre o Norte industrial e o Sul escravista. Os representantes dos interesses nortista no Congresso defendiam a proibição da escravidão nos novos territórios. Vislumbraram o oeste como um grande celeiro e um grande mercado para a indústria do Norte. Já os representantes dos estados do Sul, pretendiam ampliar as plantações escravistas de algodão. As discordâncias se estendiam ainda à política tarifária: os estados do norte defendiam tarifas protecionistas em defesa de sua indústria nascente; os estados sulistas, exportadores de algodão e importadores de manufaturados, preferiam o livre cambio, com tarifas baixas sobre os produtos importados. Os impasses se agravaram na década de 1850, e culminaram em uma guerra civil, a Guerra de Secessão.
            Muito mais que uma disputa econômica, o conflito entre o Norte e o Sul assumiu um caráter fortemente ideológico. O impasse provocou polemicas radicais entre as duas partes. De um lado, um Norte mais industrializado, voltado para o mercado interno, como mão-de-obra livre e assalariada, pequenos proprietários rurais e uma classe média cada vez mais atuante. De outro, um Sul também rico, porém, comandado por senhores escravistas, que vendiam algodão para as fábricas inglesas. Em meado do século XIX o sul tinha maior força politica no governo federal. Assim, em 1854, os sulistas conseguiram aprovar uma lei, que facultava a população dos novos territórios o direito de escolher se a escravidão seria ou não mantida. A Constituição de 1787, federalista, permitia que cada estado estabelecesse legislação própria e impedia que as leis do governo federal prejudicassem os interesses regionais. Assim, os estados sulistas mantiveram a escravidão, enquanto os do norte aboliram.
            No conflito de interesses entre os estados escravistas e abolicionistas, entrou em cena a atuação politica de Abraham Lincoln. Em relação à escravidão seu discurso era ambíguo: condenava-a do ponto de vista moral, mas defendia o direito dos estados escravistas a conservarem; afinal, a Constituição garantia a soberania das unidades federadas. Em 1860, Lincoln foi eleito presidente, derrotando o candidato sulista Jefferson Davis. O processo eleitoral tornou a guerra iminente. Antes mesmo da posse, diversos estados sulistas se retiraram da União, fundando a Confederação dos Estados da América. Lincoln, presidente eleito recusou-se a reconhecer a Confederação e, tentou em vão de convencer os sulistas de que não iria abolir a escravidão. Mas já era tarde. A ruptura politica entre o Sul e o Norte estava consumada. Em abril de 1861, os sulistas atacaram e tomaram o Forte Sumter, dando inicio à guerra. O exército confederado, embora menor e menos equipado, colheu sucessivas vitórias entre 1861 e 1862. O objetivo militar dos confederados era evitar a invasão do exército inimigo e manter um impasse que levasse as negociações, buscando forçar Lincoln a reconhecer o novo Estado confederado. Ainda em 1861, o Congresso aprovou a Lei de Confisco que determinava a expropriação de qualquer propriedade usada em favor dos confederados. No ano seguinte, aprovou-se uma lei que considerava livre qualquer escravo capturado ou fugido para o território da União. Lincoln ainda propôs a emancipação dos escravos de forma lenta e gradual. Tudo isso contrariava fortemente os interesses dos estados sulistas. A guerra transformou-se então, em um conflito contra a escravidão. Para firmar alianças com os estados do oeste e incentivar os colonos, aprovou-se em 1862 uma lei que facilitava o acesso à propriedade da terra, no oeste, para todo chefe de família maior de 21 anos que não tivesse lutado contra o governo dos EUA. Foi um grande estimulo aos pioneiros, à pequena propriedade e á vida de imigrantes e ao trabalho livre. Em 1863, por meio da Proclamação da Emancipação, Lincoln aboliu a escravidão nos EUA. Esta proclamação também aprovou o recrutamento de negros livres nos exércitos da União.
            O resultado da guerra permaneceu incerto até 1863, com sucessivos triunfos do exército do Sul. O êxito animou os confederados que, em julho daquele ano, ousaram invadir o território da União, na Pensilvânia. Foi uma das batalhas mais sangrentas da guerra, que resultou na derrota completa dos confederados. A partir daí, o Sul limitou-se a defender seu território, cada vez com menos recursos. As forças da União conquistaram uma a uma, as cidades sulistas e o território confederando, principalmente durante o ano de 1864. Lincoln proibiu o comércio com os confederados e bloqueou os seus portos, o que levou ao total desabastecimento da população sulista, incluindo suas tropas. Famintos e mal armados, muitos soldados desertaram. O final da guerra foi melancólico para o Sul, em abril de 1865 os confederados se renderam. O conflito foi desastroso para o sul dos EUA: colapso econômico, desestruturação social e baixas populacionais. Morreram mais soldados estadunidenses na Guerra de Secessão do que em todo os demais conflitos em que os EUA se envolveram até hoje. O Norte venceu a guerra apesar de ter tido um número maior de mortos. O esforço da guerra da União para dobrar o Sul escravista foi imenso e o custo altíssimo.
            Apesar de tudo, a imagem do país após a guerra civil era positiva. Os estados do Norte eram vistos como hegemônicos, abolicionistas, industrializados, democráticos, vencedores de um sistema escravista ultrapassado e violento. O presidente Lincoln é até hoje celebrado como um dos maiores residentes do país (senão o maior), considerado o defensor da liberdade. É considerado um mártir, pois morreu assassinado por um extremista sulista em abril de 1865, poucos dias depois do fim da guerra. A lei que aboliu definitivamente a escravidão nos EUA foi promulgada ainda em 1865 (13º emenda da Constituição). Os direitos constitucionais foram estendidos aos ex-escravos pela 15º emenda de 1870, concedendo o direito de voto a todos os cidadãos estadunidenses, independente de cor ou condição prévia de servidão. A ascensão de milhões de negros a condição de cidadãos provocou outro tipo de guerra: a guerra racial. Ex-confederados criaram, no Sul, a Ku Klux Klan, organização racista de brancos que recusava a compartilhar direitos constitucionais com os negros, em plano de igualdade. Foi uma reação à chamada “Reconstrução Racial” impôs aos derrotados. A KKK matou muitos negros, espancou e mutilou muitos outros, sempre com um discurso preconceituoso e discriminatório. Agiam na clandestinidade, mas com a tolerância das autoridades, uniformizados com um manto e uma máscara brancos. Suas vitimas eram, muitas vezes, enforcados ou mortas na fogueira, pregadas numa cruz. Considerada ilegal, mais tarde, perdeu a sua força, mas seria revigorada após o final da I Guerra Mundial, quando se espalhou por todo o país.
                  Depois de conquistado um vasto território que ia do Atlântico ao Pacífico e consolidada a paz após o fim da Guerra de Secessão e acreditando que as fronteiras do país não haviam sido completadas, e tendo fé no “Destino Manifesto”, o governo e as grandes empresas estadunidenses começaram a olhar para outras regiões, entendo que elas poderiam vir a se constituir em colônias. Afinal existia um consenso de que a “raça” anglo-saxã deveria dominar o mundo. A primeira demonstração do imperialismo estadunidense foi à guerra contra a Espanha, em 1898. Essa guerra tem relação com a tentativa dos cubanos de realizarem sua independência. Afinal, Cuba e Porto Rico eram as últimas regiões da América que ainda continuavam subordinadas a metrópole espanhola. A luta dos cubanos atraiu a simpatia da população do EUA, mas muito mais dos homens de negócios e dos políticos que tinham outros interesses, e foram eles que incentivaram as campanhas da imprensa contra a Espanha e a favor da independência cubana. A ilha de Cuba produzia principalmente açúcar, e os empresários estadunidenses já estavam investindo milhões de dólares nessa atividade. Uma série de desentendimentos levou a declaração de guerra entre os EUA e a Espanha. Rapidamente o poderio dos EUA fez com que a Espanha, derrotada, entregasse-lhes não apenas Cuba, mas Porto Rico e as Filipinas. Em Cuba, proclamada “independente”, uma emenda a Constituição de 1901 autorizava o governo estadunidense a invadir a ilha para manter a “lei e a ordem” e a estabelecer uma base militar em território cubano. Essa emenda ficou conhecida como a Emenda Platt. Ainda no século XIX, os EUA iriam interferir na América Central. Mas é no século XX que o imperialismo estadunidense vai se proliferar, primeiramente na América Latina como um todo e, depois vai se espalhar pelo mundo.(Adaptado de VAINFAS, Ronaldo. História 2, p.236-245; e, PELLEGRINI, Marco. História 2, Coleção Novo Olhar, p.169-170; e, FARIA, Ricardo Moura. Estudos de História 2, p.204-205).

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